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 Uma voz do mundo

 por Antnio Victorino d'Almeida

 A importncia de um pas avalia-se pela sua capacidade de tirar

 partido e proveito dos seus valores , nomeadamente os culturais .

 S uma viso racista da humanidade permitiria admitir que houvesse

 povos mais ou menos inteligentes ou talentosos do que outros , pois

 antes se verifica que , em todo o lado , podem surgir figuras

 excepcionalmente dotadas para esta ou para aquela activi9dade ,

 verdadeiros gnios , do mesmo modo que a inpcia atvica e a

 vulgaridade tambm se encontram universalmente disseminadas .

 O que por outro lado se constata , isso sim ,  que existem estruturas

 scio-poltico-econmicas , a que se d habitualmente o nome de pases ,

 que no conseguem entender nem distinguir - e menos ainda defender ou

 promover - os valores que os respectivos povos vo gerando

 D-se-lhes muitas vezes o nome de pases atrasados , e talvez o sejam ,

 ainda que tambm se adaptasse bem a expresso " sociedades muito

 estpidas " para definir esse lamentvel fenmeno de impotncia

 colectiva .

 No sei se a molstia  recupervel , pois a histria da sociedade

 portuguesa j conta com largos e penosos sculos , praticamente desde

 que o pas existe , de sujeio  patolgica incapacidade de discernir

 quem  que vale e quem  que no interessa , de estabelecer a diferena

 entre a prospia de um simples habilidoso e a obra de um grande

 artista .

 Para facilitar , procura-se nivelar sempre pelo mais baixo e

 proclama-se que o pblico portugus s gosta verdadeiramente do que 

 novo , se for reles e arruaceiro , ou do que  antigo , se for decrpito

 e esclerosado .

 Trata-se obviamente de uma mentira cavilosa , pois o povo portugus , na

 sua qualidade de espectador e apreciador , tambm no  melhor nem pior

 do que os outros .

 A estrutura-me - a que Salazar to comovidamente chamava a Nao - 

 que efectivamente no presta .
 Nunca prestou .

 E assim faz-se entre ns boa msica , h notveis intrpretes ,

 brilhantes autores , mas as rdios e as organizaes empresariais ,

 estatais ou privadas - que so todos filhos da estrutura-me : a

 Nao ...
 - ignoram essas realidades , abafam-nas com mil ardis

 silenciadores , recorrem  calnia e  agresso , se necessrio , para

 que nada venha alterar a regra bsica da mediocridade :  a tradio .

 Logo , a nica autntica maneira de um portugus se realizar 

 considerar-se de alguma forma estrangeiro ,  distanciar-se da Nao , 

 agarrar-se com todas as suas foras a conceitos superiores de

 universalidade .

 Carlos do Carmo  uma voz do mundo - e por isso salvou-se .

 Carlos do Carmo  um artista do mundo - e por isso salvou-se .

 Carlos do Carmo  um cidado do mundo - e por isso salvou-se .

 E , com ele , salvou-se tambm uma parte importante da msica portuguesa

 - o fado - que passou a ser do mundo !

 In Carlos do Carmo , do Fado e do Mundo - Ed .
 Garrido Editores , 2003

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