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 Anabela Mota Ribeiro

 Carlos do Carmo :  Corao , garganta e cabea 

 Faz 40 anos de carreira .
 Encara sinceramente , e di-lo , deixar de cantar .
 E

 decidiu fazer com as Seleces uma colectnea dos seus 61 maiores sucessos .

 Carlos do Carmo em entrevista exclusiva .

 Seleces do Reader`s Digest - Fale-me desse tringulo , que diz ser

 fundamental : peito , garganta e cabea .

 Carlos do Carmo-Eu diria corao , garganta e cabea .
 Para cantar tenho

 que ter corao , seno seria um mero exerccio de exibio .
 A

 garganta , como sou crente , [ digo que ] foi a que Deus nos deu , no

 escolhemos propriamente a voz que temos .
 Depois , a cabea comanda a

 vida .
 Temos que perceber o que estamos a cantar , para quem estamos a

 cantar .
 Atravs da cabea h pblicos que nos arrepiam e outros no .
 A

 cabea funciona numa rea , o corao noutra e a garganta noutra .

 SRD - Tenho a impresso de que , durante muito tempo , afirmou-se contra

 o seu passado , andou  procura de si .
 Quando  que se reconciliou

 consigo e uniu os vrtices do tringulo ?

 CC - Tudo isso se resolveu na morte do meu pai , porque fui ,  fora ,

 obrigado a optar .
 Andava ali , menino protegido , de me e pai .
 Eu tinha

 22 anos e estava convencidssimo de que ia ser um engenheiro

 hidrulico de olhos azuis , director de uma unidade hoteleira no

 estrangeiro ...

 SRD - Foi educado para ser um prncipe .

 CC - Sim .
 E os meus pais trataram-me sempre como tal .
 Prncipe , mas

 muito ligado s questes populares .
 Vivi com muita honra no bairro da

 Bica .
 Se h uma frustrao que tenho , no so muitas ,  no ter podido

 viver l o resto da minha vida - mudei quando me casei .
 No havia

 condies , queramos ter filhos e a casa era muito pequena .
 A minha

 raiz de bairro est muito viva ainda .
 Vivo nesta casa , de que gosto

 muito , h 35 anos , mas sinto isto como um dormitrio , nunca consegui

 sentir isto como o bairro que amo .

 SRD - O sentimento de pertena  o que tem em relao  Bica .
 Em que 

 que isso se traduz ?

 CC - A Bica foi uma aldeia , onde aprendi valores , a fraternidade entre

 pessoas .
 Uma vida de porta aberta , sem chave na porta .
 Uma vida de

 comunicao entre as pessoas : faltam os legumes em casa e a vizinha

 empresta .
 Retomando a questo da resoluo dos problemas : a morte do

 meu pai foi uma coisa brutal .
 Tnhamos uma excelente relao .
 Era

 criana , nove , dez anos , e ele lia-me o jornal , ao meu lado .
 E

 discutia as coisas que lia comigo ; isso ajudou-me a construir um

 edifcio mental , a olhar para a sociedade , para os ricos , para os

 pobres , a ser sensvel s diferenas .

 SRD - Com a morte dele , sbita , arcou com todas as responsabilidades .

 CC - Foi .
 Demorei anos a solucionar o desgosto da morte do meu pai .

 No verti uma lgrima , no fui capaz de chorar .
 Foi um desgosto

 profundo , profundo .
 Depois fui-me reencontrando .
 O meu pai morreu e

 eu , 24 horas depois , era patro de 23 pessoas .
 A partir daqui h uma

 responsabilidade assumida , h uma me ao nosso lado .

 SRD - A sua me era a fadista Luclia do Carmo .

 CC - O gestor do trabalho era o meu pai e a minha me era a vedeta , a

 artista , a bilheteira .
 E pronto , est ali o mido .
 S que o mido

 tinha um curso tcnico de hotelaria , tirado na Sua .
 Se estava

 preparado para gerir um hotel , mais preparado estava para gerir um

 pequeno restaurante .
 Foi uma luta .
 Foi dizer :  No vou destruir o que

 os meus pais construram , vou tornar isto melhor do que recebi em

 mos  .

 SRD - O sentimento de gratido s o sentiu profundamente nesse momento

 ou j o tinha antes merc da expectativa que tinham em relao a si ?

 CC -  muito interessante que pergunte isso , porque um dos meus

 sonhos , que nunca se concretizou , era dar uma velhice maravilhosa aos

 meus pais .
 No pude fazer isso , magoou-me essa interrupo .
 Quando

 estou a falar desta gratido ,  preciso situarmo-nos no tempo .
 Os meus

 pais , depois de eu ter feito aqui a escola primria e o liceu ,

 mandaram-me para um colgio de milionrios na Sua .

 SRD - Eram ricos ?

 CC - No tinham dinheiro para isso , endividaram-se loucamente .
 Mas no

 se lamentavam : era uma meta , o filho era um grande investimento .
 Para

 alm do mais , magoou-me que o meu pai no conhecesse o artista ...
 Ele

 seria muito exigente comigo , de certeza absoluta .
 Foi fundamental na

 carreira da minha me .
 Toda a gente enaltecia a dico da minha me : o

 meu pai dava-lhe lies de dico em casa .

 SRD - E o Carlos ouvia-as e aprendia tambm ...

 CC - Claramente .
 Determinei-me com objectivos muito concretos : esta

 tem que ser a melhor casa de fados de Lisboa , e foi .
 Quando comecei a

 cantar disse : tenho que ter uma carreira sbria , foi , e  .
 Tenho que

 cuidar da me , e fi-lo .
 Se houve coisa que me magoou , foi , algum tempo

 depois do 25 de Abril , por razes polticas , caluniarem-me dizendo que

 tratava mal a minha me , que a tinha saneado , que a deixava na

 misria .
 Foi uma seta atirada ao meu corao .
 Quem o fez , f-lo com

 muita maldade .

 SRD - O devaneio do menino que est  procura de si acaba na

 contingncia de ter que se fazer  vida .
 O que  interessante  que ,

 por linhas tortas , se tenha encontrado com o melhor de si , com aquilo

 que fez de si um homem feliz .

 CC - Com um elemento chave que considero um factor de sorte na minha

 vida : ter encontrado a Maria Judite [ a mulher ] .

 SRD - Que idade tinha quando a conheceu ?

 CC - Tnhamos os dois 24 anos .
 Casmo-nos seis meses depois .
 Ficmos

 os dois praticamente sem famlia , a famlia da Maria Judite quase toda

 morreu , a minha famlia quase toda morreu ; reconstrumos , fizemos uma

 nova famlia com filhos .
 O modo como ela gere esta situao do marido

 ausente durante anos ...
 No lhe passa pela cabea o que trabalhei !

 Cheguei a t-la  minha espera no aeroporto com uma mala com roupa

 para o frio , porque vinha do Brasil e ia para o Canad .
 Dois

 beijinhos , as crianas , a correr , e l ia para outro avio .
 A vida

 toda , tambm ela se foi construindo , em simultneo : o empresrio , o

 marido , e o cantor .

 SRD - Como  que comea a cantar ?

 CC - Aos 23 anos comecei a cantar por brincadeira , e no me deixaram

 que fosse brincadeira .
 Gravei um primeiro fado com um amigo , o Mrio

 Simes , e aquilo passava na rdio de manh  noite .
 Nunca mais pude

 controlar a situao , tive mesmo que comear a aprender fados .

 SRD - No se sentiu inseguro ?
 Deve ser uma coisa terrvel para os

 filhos de pais famosos : deixar de ser o filho da Luclia do Carmo e

 passar a ser o Carlos do Carmo .

 CC - Nos primeiros anos , muita gente , com muita naturalidade e muita

 ternura , dizia-me assim :  O menino canta muito bem , mas sua me  que

 era  .
 No me sentia magoado , mas isto implicava ir buscar um caminho .

 Conseguimos , depois , naquela casa de fados , ter dois pblicos que se

 iam conhecer um ao outro .
 Eram os mais velhos que ficavam fascinados a

 ouvir o mido e eram os mais novos que se fascinavam a ouvir a mais

 velha .
 E no havia competio .

 SRD - A sua afirmao enquanto cantor , a escolha do repertrio , at o

 modo de cantar , foi feito para vincar essa diferena ?

 CC - No .
 A minha me pertence a uma gerao de fadistas , com algumas

 honrosas excepes , com uma exigncia de repertrio limitada .
 Eu

 perteno a uma gerao a quem os pais facultaram tudo .
 A minha

 inquietao esttica comeou cedo .
 No era por acaso que me apareciam

 na casa de fados o Z Cardoso Pires , o Zeca Afonso , o Adriano Correia

 de Oliveira ...
 A minha primeira abordagem ao Alexandre O'Neill foi uma

 coisa sensacional !
 O Ary dos Santos , quando chega ,  a cereja em cima

 do bolo .
 Tudo isto foi acontecendo com ligaes humanas , partindo dos

 poetas tradicionais .
 O autor das  Canoas do Tejo  e do  Por morrer uma

 andorinha  , o Frederico de Brito , era um homem muito antigo .

 SRD - Protagonizou essa mudana .
 H um pas que emerge e a sua msica

  expresso disso , d expresso a isso .

 CC - Todas estas pessoas de quem falei tinham muito respeito pelo que

 estava para trs .
 No gostavam esteticamente daquele fado , mas

 consideravam aqueles intrpretes grandes artistas .
 A isto tudo no era

 alheio o facto de ouvirmos outras msicas : Sinatra , Brell , Elis

 Regina , Ray Charles ...

 SRD - Quando  que se olhou ao espelho e disse :  Sou fadista , sou

 cantor antes de qualquer outra coisa  ?

 CC - Essa questo no se me ps assim .
 Considerei sempre as trs

 frentes fundamentais .
 Quando a minha me comeou a apresentar alguns

 sinais de fadiga ( mal eu sabia que ia culminar numa tragdia que 

 Alzheimer ) , combinei com ela que a minha misso estava cumprida : tinha

 honrado o trabalho dela , tinha honrado a memria do meu pai , quando

 ela quisesse parar , eu saa ao mesmo tempo , acabava o empresrio .

 Assim foi .
 Isto para lhe dizer uma coisa que , talvez por antecipao ,

 seja interessante desabafar consigo : estou preparado para deixar de

 cantar porque tenho um outro lado de que gosto muito , o da famlia .

 SRD - Acha que pode ser feliz sem cantar ?

 CC - Isto [ a famlia ]  para durar at ao fim .
 O palco no pode durar

 at ao fim .
 O palco tem uma coisa perigosa , a decadncia , e eu no a

 queria .
 Quero ver se Deus me d essa lucidez .
 Porque a partilha que

 temos tido , as pessoas e eu , tem sido sempre superior .
 Gosto muito que

 as pessoas gostem de mim , gosto muito de gostar das pessoas .
 Mas no

 sou muito talhado para dolo , sou mais talhado para afectos .
 Tenho

 cenas incrveis de afectividade .
 A primeira vez que sa  rua depois

 de ter vindo das operaes de Houston , uma senhora muito bem posta

 estancou na minha frente e disse-me assim :  No sonha o quanto rezei

 por si  .
 Aquilo era genuno , era do plano dos afectos .
 Eu jogo mais

 nisso .

 SRD - Em fazer parte da famlia .

 CC -  .
 A maioria dos dolos acaba mal , j reparou ?
 Nos stios mais

 variados aparece-me gente de 30 e poucos anos ; foram massacrados

 porque os pais ouviam-me de manh ,  tarde e  noite ; depois de os

 pais morrerem vm ouvir-me para se reconciliar e contam-me isto cheios

 de ternura .
 Ou ento os que me seguiram :  Habituei-me a ouvi-lo , desde

 pequenino , apesar de a minha msica ser outra  .
 E levam as crianas .
 

 muito interessante porque passa para a terceira gerao .

 SRD - O disco que gravou depois de ter sobrevivido  doena , foi

 diferente ?
  evidente que a vida de um homem muda quando passa por uma

 provao to grande .
 Mas , como  que isso se reflecte naquilo que ele

 faz , no modo como ele canta ?

 CC - Pois , sabe que no foi a primeira vez , foi a segunda .
 Eu j tinha

 tido h 16 anos uma queda de um palco em Bordus ...
 H um homem com

 uma sade de ferro que aguenta estas coisas todas , as malas que se

 trocam , a vida mais desregrada de horrios , bomio , cigarros , usques

 ( mas nunca fui bbedo !
 ) .
 Esse homem , aos 50 anos , cai de um palco e

 parte o lado esquerdo do trax , parte sete costelas , fura um pulmo ,

 fica sem bao .
 Fica um homem diminudo , s que no aceita .
 O mdico

 teve comigo uma conversa interessantssima :  Agora , nada  como antes ,

 ateno  .
 Entrou por aqui e saiu por ali .

 SRD - Como  que ignorou avisos to srios ?

 CC - Eu tinha uma ambio do ponto de vista econmico , que era dar um

 tecto a cada filho .
 Nunca quis ser milionrio , mas sabe o que  ?

 Continuei a trabalhar como se nada a fosse .
 Aos 60 , o aneurisma foi

 to violento ...
 Mas entretanto , as metas estavam atingidas .
 O mdico

 diz-me :  Nem pensar em fumar , nem pensar em lcool , vinho  refeio e

 ponto final .
 Muita gua e uma vida mais higinica  .
 Tem sido esse o

 meu projecto de vida e sinto-me como nunca me senti , at a cantar

 tenho mais fora .
 Depois disto , em que a morte foi muito clara , mais

 do que da outra vez , disse :  Bom ,  giro ficar mais uns tempos  .

 SRD - A equao era viver ou deixar-se morrer .

 CC -  natural que esse homem tenha sido tocado pela finitude , pela

 insignificncia , pela fragilidade .
 Esse homem reapareceu a cantar ,

 gravou um disco .
 Tenho a impresso de que as pessoas no o tero

 percebido muito bem .
 Levei anos a dar entrevistas onde a ltima

 pergunta era sempre a mesma :  Acha que o fado vai acabar ?
  .
 E eu

 respondia :  Enquanto houver quem toque e quem cante , o fado no

 morre. 

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