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 Questionrio de Msicas do Mundo ( perg .
 # 401 )

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 Questionrio de Msicas do Mundo ( perg .
 # 401 ) 

 abril 02 , 2005

 [ entrevista ] Ro Kyao : os arabescos do fado

 [ INLINE ]

 Ro Kyao no RiR @ Agencia Zero

 Depois de ter estreado , h quase um ano atrs , o seu mais recente

 lbum , " Porto Alto " , no Rock In Rio ( a 28 de Maio ) , RO KYAO regressa

 hoje  noite aos palcos lisboetas , acompanhado por Antnio Pinto

 ( guitarras ) , Renato Jnior ( Acordeo / Sintetizadores ) Ruca Rebordo

 ( Percusses ) e Andr Sousa Machado ( Bateria ) .

 A nova apresentao de " Porto Alto " , lbum inspirado numa outra

 trilogia bem lusitana ( no , no  a dos Fs ,  a gastronmica do Po ,

 Vinho e Azeite ) , prossegue a 22 deste ms no Porto ( Passos Manuel ) e a

 23 em Coimbra ( no TAGV ) .

 Para assinalar esta mini digresso , recupero uma entrevista efectuada

 em 2001 e publicada na Musicnet , na altura do lanamento do lbum

 anterior , " Fado Virado a Nascente " .

 Depois de ter gravado Juno , com mais de meia centena de msicos

 macaenses , Ro Kyao acaba de editar Fado Virado a Nascente .
 Neste

 disco , em que participam dois msicos marroquinos de tradio clssica

 ( Mohamed Elgazi e Barmaki Mohamed , violino e percusses ,

 respectivamente ) , Ro Kyao testa e comprova a teoria de que o

 verdadeiro fado encontra-se virado para Oriente .
 Uma expresso musical

 que bebe toda a sua influncia em nascentes Persa , Indiana e rabe .
 Em

 Fado Virado a Nascente paira a memria de Amlia Rodrigues , certamente

 a maior aventureira do fado .

 A sua carreira de msico tem-se caracterizado por um certo eclectismo

 em termos de estilos e reas geogrficas abordadas nos seus discos .
 Do

 jazz ao fado , da msica popular portuguesa ,  tradicional indiana ,

 chinesa e rabe .
 Qual  o denominador comum que faz a juno de tudo

 isto ?
 O sentimento ?

 O meu trabalho tem-se desenvolvido desde que comecei o estudo

 sistematizado da msica indiana e das suas influncias , de eu sentir

 alguma familiaridade muito grande com essa msica .
 Desenvolvo todos os

 dias isso .
 Ao mesmo tempo , comecei a ver as minhas ligaes com esse

 estudo .
 Questionava-me como  que uma pessoa como eu , nascida em

 Lisboa , sentia tanta familiaridade com aquela msica .
 Aquilo que canto

 e toco no  puro exotismo .
 O exotismo  uma coisa efmera .
 Acabei por

 entrar num raciocnio que ns os Portugueses , com aquela costela de

 misturarmo-nos com outros povos , temos relaes com estas msicas

 orientais .

 Essa facilidade de integrao visvel ao longo da nossa histria , faz

 com que deixemos alguma coisa da nossa cultura nesses pases e que

 tambm recebamos influncias .
 A nvel musical o que prevalece  a

 cultura mais antiga e enraizada que  a indiana .
 A msica tradicional

 indiana como a msica rabe fazem parte da histria do mundo ,

 influenciando por isso muitas outras culturas .
 A partir dessas fuses

 criaram-se outras msicas que apesar de ganharem uma raiz prpria , tm

 origem na ndia .
 O nosso fado ( visto da forma como ele surgiu ) e os

 grandes intrpretes ( Amlia , Argentina Santos , Manuel de Almeida )

 viram que essa msica tinha uma tradio oral .
 Eram essas melopeias

 populares e preges que vinham da rua e que modelaram o canto dos

 primeiros intrpretes do fado , do fado mais popular .
  precisamente

 isso que tento mostrar neste disco .
  alertar , sem querer ser

 professor de ningum , um certo aspecto que est esquecido no fado .

 Agora h uma grande tendncia para o fado cano , mas o fado profundo ,

 sem rede , tem a ver com este canto , com o lamento do Magrebe .

 Esta ideia vem ao encontro daquela histria em que o seu professor

 indiano , Pradeep Chaterjee , pensava que a Amlia era uma cantora

 Iraniana e , por outro lado , a Amlia considerar a egpcia Umm Kalthum

 a sua cantora preferida .

 Por acaso tem piada que ontem a minha mulher encontrou o rascunho de

 uma carta dirigida  Amlia a contar essa histria com cerca de 14

 anos , na altura em que vivia em Bombaim .
 Uma carta que eu nunca

 cheguei a envi-la .
 No era uma pessoa da rua que diz isso ,  um

 maestro , ele encontrou qualquer coisa iraniana na sua voz .
 Isso foi

 mais uma achega nesta ideia .
 Quis mandar uma carta  Amlia porque

 sabia que ela sempre teve uma ateno inacreditvel em relao 

 msica rabe e indiana .

 # 1 a origem do fado , as escolas de canto , a alma e o sentimento

 A propsito do Fado virado a nascente , gostaria de saber qual a sua

 opinio para estas duas hipteses : foi o Oriente que veio at ns

 atravs dos diferentes povos que habitaram o nosso territrio , ou foi

 o fado que foi para o Oriente , atravs dos descobrimentos ?

 Considero que o aspecto mais importante de todas estas influncias  a

 presena rabe no nosso pas , durante sculos .
 No  por acaso que os

 bairros mais fadistas de Lisboa so a Mouraria e Alfama .
  da que

 provm as melopeias e os preges .
 Ns virmo-nos de costas para os

 rabes por vrias razes que eu no percebo .
 A religio  que paga

 sempre , mas no tem nada a ver com isso .
 A religio promove a paz .

 Eles eram os invasores ...

 Por essa razo esquecemo-nos deste aspecto no fado e tambm porque

 cantar desta forma  mais difcil do que cantar fado-cano .
 H que

 ter dom .
  uma coisa muito profunda com um canto mais difcil , cada

 vez menos usado .
  para a que eu vou .
 No fundo ,  o fado virado a

 nascente .

 De qualquer forma h no disco duas escolas de canto .
 Por um lado o da

 Deolinda Bernardo da escola mais bairrista , da tradio oral e a

 Teresa Salgueiro mais inovadora .

 Obviamente a Deolinda  uma fadista popular e a Teresa  mais uma

 cantora de baladas .
 Basicamente , a cantora  a Deolinda , mas como tive

 uma certa colaborao do Pedro Ayres na conceptualizao do disco , vi

 que aquela balada que tinha feito para o presidente Manuel de Almeida

 ia muito bem com a cara da Teresa .
 Quando ela canta o Amor Meu utiliza

 um tipo de canto que  quase de trova , ligado ao fado de Coimbra .
 

 tambm virado a nascente .

 O nascente que eu digo no diz respeito ao facto de vermos a ligao

 com os rabes .
  mais onrica , subtil , de cantar a emoo com fora .

 Isso  que ns sentimos na msica oriental .
 A msica ocidental  pouco

 anmica .

 Uma pessoa sente acima de tudo a qualidade , se est afinado , se tem

 boa voz .
 Depois sente a parte anmica , se tem alma .
 O mais importante

 para mim ,  que o fado passe esta mensagem anmica .
 Se o fado complica

 a forma sem acompanhar a parte anmica , torna-se outra msica .
 A j

 no  virado a nascente .

 O que interessa para si no  a inovao esttica ,  a alma e o

 sentimento que se pode tirar do fado .

 Esse aspecto deve ser sempre o primeiro aspecto e depois a forma deve

 acompanhar a frescura da inteno emocional .
 Isso  que vem de

 nascente .
 Isso est muito claro na msica indiana com as ragas. Raga

 quer dizer emoo .
 A msica  toda baseada na expresso exacta e

 profunda de uma certa emoo .
 E a msica rabe tambm .
 O fado virado a

 nascente , antes de mais , apresenta este aspecto que o define como

 fado .

 Para si , a emoo e a espiritualidade esto definitivamente a

 nascente .

 Sim , mas no tem nada a ver com o ponto cardeal .
 A nossa religio

 crist a que ns associmos de Ocidental , nasceu no mdio oriente .
 No

 fundo , lembrando aos outros , lembro-me a mim disto .
 Como o fado  j

 uma msica muito simples e se ela no tiver uma carga emocional muito

 forte , desaparece .
 Penso que essa parte no se deve esquecer .

 # 2 a msica como ferramenta poltica , as ligaes mouriscas

 A msica pode ser utilizada como ferramenta poltica na unio dos

 povos .
 Existem , por exemplo , projectos como o de Yair Dalal ou de Amal

 Markus em que israelitas tocam com palestinianos .
 O Ro Kyao tambm j

 serviu de bandeira para promover a tolerncia cultural , nomeadamente

 na Indonsia .
 Como  que se sentiu a tocar para uma plateia cujo povo

 estava h bem pouco tempo de costas voltadas para Portugal ?

 No  o povo que  inimigo .
 Comea logo por a .
 O povo  uma

 maravilha ,  dcil .
 Ateno que a docilidade  uma fora .
 Esta

 docilidade que sentimos nestas pessoas simples na busca da vida , no 

 baseada na competio .
  a competio que nos tira a docilidade , esta

 procura incessante de certos valores .
 Os Indonsios aceitam e tm

 alegria na vida .
 Aceitam que no h vida sem sofrimento .
  isso que

 faz com que eles sejam hospitaleiros , tenham tolerncia .
 Para mim 

 duplamente gratificante poder tocar na Indonsia , porque ns j

 andmos  batatada com eles .

 Ser que eles sentiram essa ligao do fado com a msica muulmana ?

 Logicamente .
 Como eles esto muito longe , menos bairristas ficam .
 No

 se preocupam se o fado  da Mouraria ou do Bairro Alto .
 Notaram que h

 ligaes com o Magrebe , que h qualquer coisa de mediterrnico .

 Ao longo da sua carreira houve um interesse de ir  procura de

 diferentes culturas , mas sempre partindo de uma matriz nacional .
 

 excepo de uma experincia com msicos indianos , o Ro Kyao nunca

 tocou num projecto fora das suas coordenadas , por exemplo , num grupo

 carntico. Porqu ?

 Nunca houve .
 No fundo  a forma como as coisas sempre foram feitas .

 No me atreveria a tocar num grupo com msicos carnticos ( do Sul da

 ndia ) porque  muito bairrista , de muito difcil execuo para quem

 est de fora .
 Agora j compreendo melhor a forma da msica do norte da

 ndia .
  menos bairrista , porque foi produto de uma fuso ,

 automaticamente cria uma forma mais acessvel .

 Os msicos marroquinos no conheciam o fado mas aventuraram-se no seu

 projecto .

  que a forma do fado  bem mais simples .
 Basta ouvir a introduo ao

 Suite do Fado Menor e sente-se que ele [ o violinista Mohamed Elgazi ]

 interiorizou bem o fado .

 A sua forma de tocar flauta nessa composio tambm tem um toque

 rabe ...

  a que eu tenho , por me sentir um bocado virado a Nascente .
 Esta

 expresso est a vir muitas vezes .
 Mas quando eu lhes apresentei o

 Fado Menor , automaticamente eles perceberam .

 Houve imensa facilidade na adaptao .
 Ser porque o nosso passado nos

 mantm ainda ligados aos rabes ?

 Exactamente .
 A msica anda no tempo 100 anos num segundo .
 Pela

 expresso que dei ao fado , ele entendeu qual era o tipo de ambiente .

 H um modo rabe que est ligado ao modo fado menor .
 Automaticamente

 j estava dentro .
 S que a forma de fado menor que eles tm 

 diferente .
 J vem uma guitarra , com um baixo , j sofre outro tipo de

 influncia .

 # 4 as experimentaes do fado e o espectculo de dia 15

 Neste disco nunca pensou em experimentar o alade em substituio da

 guitarra portuguesa ?

 No , porque deixava de ser um disco de fado .
 Insisto que este disco

 tem a ver com fado , apesar de haver temas que no so especificamente

 fado , como a Evocao do Canto Cigano .
 Neste tema quis aproximar o

 canto cigano mais como uma saudao .

 J tem havido experincias de tentar aproximar o fado do flamenco .

 Qual  a sua opinio acerca desta experimentao ?

 Faz sentido .
 A Amlia j juntou fado com o flamenco .
 Inclusivamente , a

 Amlia cantava muito bem flamenco .
 Uma coisa que muito poucas pessoas

 sabem .
 H uma srie de anos atrs , a Amlia dava umas festas em sua

 casa onde vrios msicos de flamenco cantavam ao desafio com ela .
 A

 prpria Amlia disse que o flamenco tem origem rabe e que ns estamos

 ligados  musica da Andaluzia .
 No estou a dar novidade nenhuma .
 Ao

 mesmo tempo , com todo o respeito que tenho por ela , no era capaz de

 seguir uma ideia s por ela a ter dito .

 Ao dedicar este disco  Amlia , est a dedicar  cantora que primou

 pela diversidade e pelo quebrar das nossas fronteiras geogrficas

 durante o antigo regime .

 Sim , ela estava muito atenta a este aspecto .
 O canto que ela tinha a

 ver com isto , com o facto de ouvir a Umm Kalthum .
  a partir da que

 aparece aquele canto fora de srie , no s na Amlia como em outras

 cantoras , caso da Argentina Santos .

 Publicado por Lus Rei s abril 2 , 2005 01:26 PM

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 J coloquei as fotos do Ro

 Publicado por : Mrio s abril 3 , 2005 02:11 PM

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