 Anabela Duarte no tem s a mais arrepiante voz que alguma vez ouvi ,

 como  das poucas pessoas que conheo com a invulgar capacidade de nos

 fazer sonhar e voar sobre os sonhos que constri em delitos subtis e

 na raiva construtiva que sente dentro de si .

 A Puta da Subjectividade estendeu uma enorme passadeira de veludo

 vermelho aquela que s as divas pisam e conversou com Anabela Duarte ,

 numa entrevista com oito captulos , dos primeiros cantos aos ltimos

 projectos porque apesar da menor visibilidade , ningum a consegue

 parar passando pelos inevitveis Mler Ife Dada , contando-nos algumas

 histrias que permaneciam , at hoje , guardadas numa gaveta de recortes

 luxuosamente doces .
 Anabela Duarte acredita que vale a pena viver com

 imensos sonhos e no consegue deixar de nos fazer sonhar .
 Est-lhe no

 sangue .
 Anabela , sublime .
 Como sempre .

 1 .
 Os Primeiros Tempos

 2 .
 Mler Ife Dada

 3 .
 Abandono dos Mler Ife Dada

 4 .
 Projecto a Solo

 5 .
 Verente Pop vs. Canto Lrico

 6 .
 Spoken Word

 7 .
 Delito

 8 .
 Presente e Futuro

 1 .
 Os Primeiros Tempos

 A primeira referncia que tenho sua  a presena , no incio da dcada

 de oitenta , na banda WC , com Farinha Master e Manuel Machado .
 Esse foi

 o seu primeiro projecto musical ?
 Como e quando surgiu a vontade de

 fazer msica e cantar ?

 As minhas frias de adolescente eram passadas praticamente em

 Algueiro , em casa dos meus tios e da minha prima que eu adorava e foi

 a que travei conhecimento com o Manel , meu vizinho e amigo de

 infncia , se assim se pode chamar .
 Depois conheci o Farinha que , nessa

 altura , ainda no era conhecido por Master , mas , na realidade , j

 fazia de master .
 Os WC eram os WC Porno , porque o Farinha

 preocupava-se com estas coisas da pornografia s escondidas e como bom

 observador que era , provocava as evidncias .
 Chegmos a ir a Coimbra

 uma viagem verdadeiramente quixotesca para participar no primeiro

 concurso rock de que h nome , mas do qual infelizmente , j no me

 lembro .
 Ganharam os UHF , acho eu .
 Mas para ns era outro nmero .
 S o

 facto de l estarmos era surreal .
 Eu partia os pratos no restaurante ,

 entrava nos enormes congeladores , pois confundia as portas dos

 congeladores com a porta dos lavabos e o Farinha queria atirar-se ao

 rio .
 Tudo de doidos .
 ramos perfeitamente normais e triunfantes e a

 nossa performance fora do palco teria dado prmio , de certeza .
 E foi

 nestas andanas que comecei a participar em grupos de rock e a cantar .

 Cantava e cheguei a tocar sintetizador , ainda nos Ocaso .
 O Farinha

 ensinava-me todas as partes , mas era uma espcie de teste que me fazia

 e eu aprendia to rapidamente tinha tido algumas aulas de piano , mas

 sobretudo , tinha jeito que ele achou melhor no me ensinar mais

 nada ...

 Eu vinha do curso de dana do Conservatrio e a tive aulas de drama ,

 piano , msica , dana moderna e clssica e notao da dana .
 Enfim , uma

 srie de coisas ligadas s artes , por isso , a minha vocao dava os

 primeiros passos .
 Muitos anos depois voltei ao Conservatrio para

 continuar os meus estudos de msica e de canto , mas passado algum

 tempo , faltou-me a pacincia .
 O meio era muito fechado e muito

 concentrado numa determinada tcnica e cultura lrica .

 Posteriormente passou pelos Bye Bye Lolita Girl e Ocaso pico .
 Que

 recordaes tem dessas bandas e qual a sua importncia no lanamento

 da sua carreira ?

 Depois dos Ocaso  que passei pelos Bye Bye , a convite do Jorge

 Ferraz , criador da banda .
 A minha sada dos Ocaso foi verdadeiramente

 sensacional .
 Aconteceu em improviso , na Barraca antigo teatro ainda ao

 Largo do Rato .
 Podia ter feito parte do elenco , do guio duma pea .

 Tudo comeou com um problema qualquer com a electricidade .
 Estas

 coisas dizem muita coisa e , mais coisa menos coisa , comemos a

 discutir eu e o Farinha as cadeiras comearam a voar , os antigos

 candeeiros a petrleo da sombria portugalidade foram derrubados .
 Ia

 deitar fogo ao Teatro e o Farinha finca-me as unhas de guitarrista no

 delicado pescoo .
 Era a algazarra total .
 Bati com a porta e fui ver os

 barcos ( the ship of fools ) , ao Cais do Sodr , a partir ...
 e a me pega

 o Jorge Ferraz , no intermezzo .
 Hello lolita girl !
 Bye bye lolita girl !

 Nesta altura andava tudo a uma velocidade espantosa .
 Era como se tudo

 estivesse a ser feito ou precisasse de ser feito urgentemente .
 O

 Farinha era doido varrido .
 Excepcional .
 Eu no sabia o que era - boa

 pergunta andava  procura .
 Jean-Sol Partre , num existencialismo sem

 teoria .
 No havia ferramentas .
 S aco .

  com os Ocaso pico que faz as suas primeiras incurses na

 desconstruo e reinveno do fado , surgindo o primeiro fado

 electrnico .
 " Houve em tempos uma raiz que um fado apodreceu veio

 depois um fado que por ondas de rdios se perdeu " dizia a Anabela nos

 Ocaso pico .
 Essa incurso surgiu a ou era algo que j tinha vontade

 de fazer ?

 No , repare , eu nessa altura tinha vinte e muitos poucos anos .
 Isso

 era tudo obra do Farinha , do frenesi da sua capacidade criativa , que

 me levava atrs e me contagiava , porque tambm eu era e sou uma pessoa

 criativa .
 Em palco , ele apercebia-se das minhas capacidades de

 performer e de comunicao das ideias dele , que j eram minhas tambm ,

 por apropriao criativa , e isso causava alguns cimes artsticos ,

 embora a admirao fosse mtua .
 No era tambm de estranhar o facto de

 eu ser alfacinha e nascida na Madragoa bairro antigo de fados e

 fadistas da que eu tivesse capacidade de racionalizar e de

 interiorizar o fado sem grandes habilidades de pesquisa ou informao .

 A desconstruo do fado era sobretudo uma nova construo crtica

 sobre o fado e o que significava ser portugus .
 E tnhamos

 instrumentos novos os vintage de agora , electrnicos ,

 electro-acsticos. Congeminar algo de novo tornava-se obrigatrio .

 2 .
 Mler Ife Dada

 Como chegou aos Mler Ife Dada ?
 J conhecia o trabalho da banda com

 Pedro d'Orey como vocalista ?
 Qual era a ideia que tinha deles ?

 Bem , na realidade , achava-os um bocado imbecis ...
 Eu vinha do

 underground , dos sem abrigo do Bairro Alto e de todo o lado .
 Do vmito

 na msica e nos msicos e deparava-me com uns rapazolas de Cascais que

 penduravam peixinhos e limes fosforescentes nos concertos .
 E depois

 eram simpticos , ainda por cima ...
 O que me safou ou a eles , quem sabe

 foi alguns amigos meus feios , porcos e maus dizerem bem deles .
 Estava

 a deciso tomada , passei-me para a oposio , a convite do Nuno Rebelo

 que me tinha visto a cantar com os GNR na Aula Magna .

 O primeiro concerto dos Mler Ife Dada com a Anabela Duarte foi em

 Barcelona , num evento cultural .
 Ainda se lembra desse concerto ?

 O primeiro concerto , se bem me lembro , foi no Rock Rendez Vous , famosa

 sala de concertos da altura .
 Tnhamos uns cenrios fabulosos feitos

 pelo Mateus Lorena , que tambm fazia as capas dos discos .
 Eram

 excelentes .
 Ainda tenho fotos desse concerto .
 Ando  procura delas c

 em casa , pois no sei onde as meti .
 Fotos fabulosas do meu amigo

 Siegfried Fries .
 O de Barcelona acho que foi logo a seguir , e foram

 dois concertos .
 O primeiro foi mauzinho porque o pblico comeou a

 desaparecer .
 No gostaram do espanhol do Nuno Rebelo .
 Pior para eles .

 O segundo correu muito bem e no fim vinham bandas oferecer-nos discos

 deles , muito gentilmente , e saram crticas muito boas nos jornais ,

 falavam de fado negro o Sinto em Mim e o Alfama , pode ser ...
 e doutras

 coisas menos tenebrosas .

 A primeira edio discogrfica dos Mler Ife Dada com a Anabela Duarte

 foi o single Lamour va bien , merci , com o lado b Ele , ela ( e eu ) " , uma

 verso da cano de Madalena Iglsias .
 Ficou surpreendida com a

 reaco positiva por parte da crtica e satisfeita com o resultado

 final ?

 Esse single  uma prola .
 Uma mina de ouro , na melhor das hipteses ...

 Adorei cantar , adorei o estdio de oito pistas , adorei a capa .
 Adorava

 os msicos e diverti-me imenso a ver pelo vidro do estdio a cara de

 prazer e de gozo do Joo Peste , enquanto eu ia inventando o meu

 discurso em francs transcendental , falando na devida desproporo

 entre emoo e sexo e ces a ladrar e poltica liberal e de como o ch

 faz mal  garganta e outras coisas importantssimas !...
 Adorava ainda

 que fosse reeditado , mas ningum me liga nenhuma .

 Os Mler Ife Dada participaram tambm na colectnea Divergncias , da

 Ama Romanta .
 Qual a importncia de uma editora como a Ama Romanta para

 os Mler Ife Dada e para a Msica Moderna Portuguesa ?
 Facilitou as

 coisas para as bandas que procuravam uma oportunidade abrindo uma

 porta ?
 E acha que nos dias de hoje faz falta uma nova Ama Romanta ?

 Qual a viabilidade de uma editora como essa hoje ?
 Onde esto as

 pessoas que fizeram essa revoluo na msica feita em Portugal ?
 Onde

 esto os seus sucessores ?
 Este vazio que se faz sentir hoje

 preocupa-a ?

 A mim nada disso me preocupa .
 Eu nem sequer tenho editora .
 Porque raio

 haveria de preocupar-me com questes editoriais ?
 Agora se outros se

 quiserem preocupar por mim , tudo bem .
 Direi que fazem falta editoras e

 agncias ou produtores de espectculos , como tinham os Beatles , por

 exemplo .
 Algum que goste realmente dos projectos e invista o seu

 tempo , trabalho e dinheiro nesses projectos , sem os deturpar , sem os

 uniformizar .
 Porque , de contrrio , no vale a pena ,  pura perda de

 tempo .
 Nem ganha o produtor , nem o projecto , nem o pblico .
  uma

 estupidez .
 Como usufruir de coisas em que no se investe ?
 A isso

 chama-se m-f e abuso da confiana alheia .
 No mnimo .
 Eu no sou

 passadista .
 O primeiro fado electrnico , a primeira editora

 independente , etc ...
 Tudo isso est muito bem e tudo isso est muito

 mal .
 O primeiro j passou e ficou nos arquivos da memria .
 Est na

 altura de toda a gente criar a sua prpria editora , o seu prprio

 agente , mesmo que no seja ele prprio .
 A Ama Romanta s e este s j

  muita coisa nos pode servir de exemplo de independncia a seguir ,

 mas , actualmente , h muitas outras editoras estrangeiras que tambm

 nos podem servir o mesmo exemplo , de coragem e tenacidade contra a

 mo-nica do conformismo , e optar pela diversidade de propostas

 musicais e culturais que actualmente proliferam .

 Falou h pouco num concerto dos Mler Ife Dada no mtico Rock Rendez

 Vous .
 Acha que faz falta uma sala como essa nos dias de hoje ?

 Sim , sim , faz falta .
 Mas , sobretudo , fazem falta os indivduos que

 apostavam nessas coisas , por amor  camisola , que passavam a vida a

 descobrir bandas novas e a dar-lhes uma voz , um sinal de vida , para

 que realmente se criasse um movimento de renovao constante no

 circuito da Msica Moderna .
 Em Lisboa , existem muitos espaos , mas

 muito dispersos , o que dispersa tambm o pblico .
 E embora a

 diversidade de espaos e de pblicos seja necessria a uma atmosfera

 musical e cultural saudvel , tambm , no extremo negativo , pode criar

 faces , extremismos de opinio e gosto , por vezes , sufocantes .

 O primeiro lbum dos Mler Ife Dada foi Coisas que Fascinam , lanado em

 1987 ,  considerado , de forma unnime , como um dos melhores discos de

 sempre da msica portuguesa .

 Esperava o sucesso junto da crtica e do pblico ?

 Na realidade , j no me lembro o que  que esperava , mas sei que a

 gravao , os ensaios e todo o processo de trabalho com os Mler Ife

 eram um prazer imenso .

 Ainda hoje ouve o lbum ?
 O que ainda sente a ouvi-lo quinze anos

 depois ?

 Olhe , j nem tenho lbum nenhum , porque fui dando um , emprestando

 outro , e acabei por ficar sem nenhum .
 Tenho alguns mxis , um single do

 lamour , e j no empresto mais nada a ningum !...
 Eu no gosto de

 ouvir muitas vezes .
  raro ouvir , porque acho que est sempre qualquer

 coisa mal .
 Na voz , ento , acho que devia gravar tudo outra vez , salvo

 raras excepes , porque j canto de modo completamente diferente e

 melhor .
 Mas fiquei muito orgulhosa quando o reeditaram e soube que

 tinha praticamente esgotado .
 Dei  luz uma cadelinha linda e

 baptizei-a de Zuvi .

 Nesse lbum faz um dueto com Rui Reininho em " Si Djuz " , que

 retribuiu a sua participao em " Apartheid Hotel " , dos GNR .
 Como

 surgiu a hiptese dessa colaborao ?
 Gostou do resultado ?

 Foi uma brincadeira .
 Na altura andvamos fascinados uns pelos outros e

 trocvamos convites .
 ramos muito elegantes .

 Um dos temas emblemticos do lbum  " Alfama " .
 Acha que o fado  de

 Alfama ?
 Alfama  a sua Lisboa ?
 H uma enorme aura em volta da Lisboa

 dos anos oitenta e as suas noites emblemticas .
 Quais as suas memrias

 desses tempos e dessa Lisboa ?
 Quais os seus locais preferidos ?

 Adorava esse fado .
 O Nuno Rebelo dizia que quando falavam de mim nos

 jornais comparavam-me sempre aos maiores expoentes de cada gnero .

 Assim cantava o Alfama e falavam na Amlia Rodrigues .
 Cantava o Lamour

 va bien merci e l vinha a Edith Piaf .
 Fartava-se de rir .
 Mas , embora

 goste imenso de Alfama , era o Bairro Alto o meu bairro preferido , onde

 passei muitas noites e conheci muita gente , desde o incio das minhas

 aventuras rockeiras .

 As minhas primeiras recordaes da Anabela so exactamente dessa

 altura e de uma actuao na RTP , com " Zuvi Zeva Novi " , em que aparecia

 com um lindo e extravagante vestido branco .
 A importncia da imagem h

 quinze anos no era to grande como  hoje .
 Quais as razes dessa sua

 aposta na componente visual mais uma vez inovadora ?

 Era uma espcie de gabardina em branco transparente com umas bolas de

 pingue-pongue s cores dentro dos bolsos e , de vez em quando , tirava

 as bolas e fazia malabarismos .
 Era incrvel .
 Divertia-me imenso .
 No

 havia fronteiras , tudo era possvel ...
 Era a Rita Filipe que concebia

 esses objectos-fato , pinturas , tinha muita imaginao .
 Realmente no

 era usual um grupo portugus aparecer assim .
 At parecia um grupo

 estrangeiro , como me diziam s vezes .
 Acho que esse  sempre o elogio

 mximo que se pode fazer a um portugus .
 Temos esta mania da

 subservincia .
 No entanto , em Barcelona , em Itlia , em Frana ,

 deliraram com os nossos espectculos .

 O que a fascinava nessa altura ?
 O que a fascina hoje ?

  a msica que me fascina .
 O prprio acto de interpretar e de criar .

 E , de repente , ver que afinal sempre funciona e se renova sempre e

 sempre .
 As pessoas que s pela fora da vontade conseguem coisas

 incrveis .
 Lembra-me uma cena da Mamma Roma , ou duma entrevista 

 protagonista ( Ana Magnani ?
 ) , no me recordo bem , em que lhe

 perguntavam qual a qualidade ou a coisa que mais apreciava ou que

 tinha sido preciso na sua carreira , e ela respondeu s com uma

 palavra : coraggio !

 Em 1988 , lanou o seu primeiro lbum a solo Lisbunah , continuando a

 sua desconstruo e reinveno do fado .
 Neste trabalho mergulhou no

 fado tradicional , trabalhando com msicos essencialmente jazz .

 Agradou-lhe o resultado ?
 Est prevista a reedio em formato digital ?

 O meu lbum a solo partiu de uma ideia que algum me deu e a Polygram ,

 na altura , prontificou-se a edit-lo .
 A minha ideia era deixar de

 alterar e rockizar o fado , indo  procura das razes desse fado .
 Nem

 os fadistas tinham essa postura , nem os da Msica Moderna .
 Pareceu-me

 um bom terreno a desbravar .
 O resultado foi satisfatrio .
 Mas como no

 era para agradar a gregos e a troianos , agradou a fencios ...
 o que

 acho uma ptima ideia .
 No tendo sido um sucesso comercial , os discos

 desapareceram todos , no sei como ...
 Agora , a parte mais curiosa  que

 a Polygram realmente queria reedit-lo em 98 ou 99 , creio , e eu , na

 altura , achei que no era muito boa ideia , por vrias razes .
 Foram l

 pedir  editora para no reeditar o disco e , assim , ficou nos anais da

 histria discogrfica portuguesa a coisa mais fantstica que alguma

 vez podia acontecer : pedir , por favor , para no se editar um disco !

 Agora , gostaria de o ver reeditado .
 Talvez aparea a um dia .
  um

 documento valioso , fruto de uma pesquisa estimulante .

 No ano seguinte , Nuno Rebelo tambm lanou um lbum a solo .
 Foram

 estes os primeiros sinais de desintegrao da banda e de vontade de

 fazer coisas diferentes ?

 A banda j comeava a dar sinais de cansao , com sucessivas entradas e

 sadas de pessoas que pouco ou nada tinham a ver com o projecto

 inicial .
 A organizao tambm no era muita , apesar dos esforos e

 acho que nos comemos a provocar e a medir foras .
 Generalizou-se o

 mau ambiente .
 Enfim , guas passadas no movem monhos .

 O segundo lbum dos Mler Ife Dada - Esprito Invisvel - sai em 1989 e

 apesar do sucesso junto  crtica , no teve uma to boa reaco junto

 ao pblico .
 Como explica isso ?
 Qual  a sua opinio sobre este disco ?

 Era este o lbum que queria fazer na altura ?
 Muito se falou sobre os

 problemas ante e durante a gravao do disco .
 As divergncias e os

 problemas que surgiram afectaram o resultado final ?

 No acho nada disso .
 Acho que  um disco genial , talvez mais de autor

 do Nuno Rebelo porque nessa altura , realmente , as coisas j no

 estavam muito bem ...
 Mas eu tambm comecei a experimentar coisas

 diferentes com a voz e as letras .
 Tem momentos e canes muito boas .

 Era , no entanto , um disco difcil , em termos de msica pop , e o

 pblico , por vezes , gosta que lhe sirvam sempre o mesmo prato .
  mais

 barato e d milhes ...
 e a capacidade de arriscar traz o que

 pressupe : riscos .

 3 .
 Abandono dos Mler Ife Dada

 Quais os motivos que a levaram a abandonar os Mler Ife Dada ?
 Lembro-me

 de ter lido , na altura , declaraes suas em que dizia que sentia que

 no estavam a ser aproveitadas ao mximo as suas potencialidades

 vocais .
 Foi este o motivo principal ?

 Esse assunto j tem barbas , mas compreendo perfeitamente a sua

 curiosidade .
 Na altura diz-se o que nos vem  cabea , com mais ou

 menos razo , por ingenuidade , por desgosto .
 Um dia pode ser que conte

 toda a histria , construa uma ( auto ) biografia , tendo em conta que toda

 a biografia  uma patografia ( cito Shopenhauer via Eduardo Loureno ) .

 Chegou a ouvir Mler Ife Dada ps-Anabela Duarte ?
 O que achou ?

  engraado , porque foi a minha professora de canto a minha

 primeirssima professora de canto na altura , que lhes forneceu a nova

 vocalista .
 De resto , no achei nada .
 Os factos falavam por si .

 Alguma vez arrependeu-se de ter abandonado os Mler Ife Dada ?
 Doze anos

 passados , que espao ocupam em si os Mler Ife Dada ?
 Tem saudades

 desses tempos ?

 No , nunca tal coisa me passou pela cabea .
 Guardo boas recordaes .
 

 tudo .
 Gosto que se lembrem do que fiz , mas gostaria , sobretudo , que

 dessem valor ao que tenho feito desde a , e no tem sido pouco ...

 4 .
 Projecto a Solo

 Aps abandonar os Mler Ife Dada apostou na sua carreira a solo .
 Foi

 difcil soltar-se dos Mler Ife Dada ?
 No EP Subtilmente faz uma

 incurso pelo new-wave .
 Teve a ver com o que andava a ouvir nesse

 perodo ?

 Logo de seguida , comecei a preparar outro projecto com outros msicos

 e fizemos quatro espectculos no Instituto Franco-Portugus , que foram

 um sucesso , inclusive foram filmados pela RTP , e ganharam um prmio na

 Europlia 91 .
 Gravmos o mxi Subtilmente com o apoio do Instituto da

 Juventude .
 E , entretanto , comecei a dedicar-me seriamente ao canto

 lrico .
 Foi um perodo muito trabalhoso .
 O meu percurso / carreira , se

 quiser , pode-se dividir por perodos , como a pintura do Picasso .

 O EP  composto por trs canes muito belas .
 " Subtilmente "  a minha

 cano preferida da sua obra .
 Pode falar-me um pouco mais sobre essa

 cano ?
 Est prevista a reedio do EP ou um lanamento via internet ?

 Comecei a compr Subtilmente , ainda com o meu atari velhinho , um dos

 primeiros computadores com software musical que apareceram aqui no

 mercado , representados pela Valentim , se no estou em erro .
 Ainda o

 tenho , mas tornou-se obsoleto na prtica , claro .
 Agora , tenho material

 muito mais sofisticado , mas a simplicidade de meios , continua a ser

 ponto de honra .
 O resultado  que  mais complexo .

 Essa cano  um pouco melanclica , pois foi criada quando a minha

 av , muito querida , estava praticamente em coma e moribunda e eu , num

 quarto ao lado , ouvia-a respirar .
 Comeou com a respirao dela .

 Quanto  reedio do EP , no , nada disso est previsto , mas posso

 adiantar que essas msicas ainda esto disponveis em formato wma no

 estdio 54 online , e gratuitas !
 Quando o meu novo site estiver pronto ,

 talvez pense na questo do lanamento via internet .
 Mas , o mais

 provvel ,  fazer remisturas dos temas .
 Isso seria muito mais

 interessante !...

 Os msicos que a acompanham nessa fase parecem-me ter sido escolhidos

 a dedo .
 Souberam interiorizar as suas ideias e o papel de cada um .

 Como foi feita a sua escolha ?

 Os msicos eram realmente muito bons , mas para a chegar ainda levou o

 seu tempo , porque comecei a trabalhar com outros elementos e fui

 seleccionando os que me interessavam e se adaptavam ao resultado que

 pretendia .
 E todos estavam ansiosos por trabalhar e tocar , foi muito

 estimulante .

 Por essa altura colaborou com Jlio Pereira e com os Duplex Longa .

 Foram colaboraes interessantes para si ?

 A dos Duplex foi muito interessante , porque cheguei a participar em

 alguns concertos e foi fantstico .
 Lembro-me de ir a casa deles

 ensaiar , e era tudo muito caseiro , mas cheio de ideias e uma vontade

 enorme de fazer coisas .
 Tenho pena que o projecto no tenha avanado

 mais .

 5 .
 Vertente Pop vs. Canto Lrico

 Os concertos que deu no Instituto Franco-Portugus do a ideia de ter

 duas almas em guerra : a sua vertente pop a ser enfrentada pela sua

 vertente lrica .

 A vertente lrica acabou por vencer .
 Quais os motivos ?
 Foi a

 concretizao de um sonho antigo ?

 O trabalho na lrica foi exaustivo , tipo maratona , pois j comeava

 muito tarde , tinha de redobrar os esforos .
 Comecei com a Maria Joo

 Serro , depois a Joana Silva , depois a Liliana Bizineche ...
 a partida

 para Barcelona e Itlia , onde trabalhei com grandes cantores e

 pedagogos do canto , como a Magda Olivero , Rolando Panerai , Paolo

 Washington .
 Fiz cursos de tcnica e interpretao vocal e trabalhei

 com encenadores de pera .
 Foi uma coisa espantosa e uma informao

 valorosssima para todo o meu trabalho , no s na pera e no canto ,

 como nas vertentes mais contemporneas da msica por computador ou

 projectos interdisciplinares .

 Alguma vez se arrependeu da escolha que fez ?

 No me arrependo nunca de aprender mais e de subverter essa

 aprendizagem para aquilo que me interessa fazer .
 A minha curiosidade 

 doentia , mas nasceu comigo , no tenho outro remdio .

 Essa escolha custou-lhe , com o tempo , a perda de um espao relevante

 junto do grande pblico que tinha conquistado com os Mler Ife Dada .

 Foi um risco assumido ?
 Era algo que no a preocupava ?
 No fica triste

 pelo seu trabalho no ser muito conhecido pelas geraes mais novas ?

 Nem pensei nisso .
 A minha procura e a minha ansiedade artsticas

 sempre se sobrepuseram a questes de ordem prtica .
 A descoberta de um

 mundo novo parece-me mais importante do que a de um mundo adquirido .

 As geraes mais novas j sabem muita coisa e , mais cedo ou mais

 tarde , viro ao meu encontro , porque quer queiram , quer no , eu estou

 na rota delas .
 No podem escapar .
 Nem eu .

 Foi meio-soprano e participou em peras e recitais lricos .
 Acha que

 foi uma aposta ganha ?
 O que retira de mais importante dessa opo pelo

 canto lrico ?
 Interpretar Verdi e Schubert , por exemplo , foi o

 concretizar de um sonho antigo ?

 Meio no , sou soprano inteiro , e interpretei Verdi ,  verdade , o

 Requiem de Verdi , uma obra magnfica , e o Carmina Burana de Carl Orff ,

 para alm dos recitais que criei e elaborei com os meus pianistas

 favoritos .
 E o repertrio que abordei foi muito vasto , inclua no s

 os clssicos Verdi , Puccini , Bellini , Donizetti , Wagner , inclusive ,

 mas obras de autores mais contemporneos , como a Lulu , do Alban Berg ,

 peas de Berio , Mauricio Kagel , a Stripsody da Cathy Berberian , John

 Cage , Meredith Monk .
 Neste momento , tenho o Mquina Lrica , um recital

 fabuloso , que brevemente gostaria de apresentar em Lisboa .
 Estou a

 tentar montar esse espectculo .
 So canes de Kurt Weill e Boris

 Vian , dois compositores / autores que eu adoro interpretar .
 Para alm

 disso , dou aulas de canto e tenho excelentes alunos .
 Dedico-me muito a

 este trabalho .
 Gosto de ver resultados e de construir vozes ,

 sonoridades e , no fim , construir sempre qualquer coisa com eles .

 Escusado ser dizer que , mais uma vez , tenho aprendido imenso com

 eles .
 Qualquer dia crio uma academia como a Isadora Duncan , mas no

 uso longas echarpes , no v o diabo tec-las ...

 6 .
 Spoken Word

 Em 1998 , deu a voz a O Horizonte Basta , gravado em 1991 , declamando

 poemas de Hlder Moura Pereira e Paulo da Costa Domingos .
 Ficou

 satisfeita com esse trabalho ?
 Quais os motivos para uma demora to

 grande na sua edio ?

 Bem , eu tinha acabado de regressar de Itlia , embora continuasse a ir

 l com uma certa frequncia , e retomei os contactos com os amigos de

 c , e o Paulo da Costa Domingos , meu amigo de sempre , props-me a

 edio na Frenesi desse recital de poesia que , inclusive , tinha sido

 ele a organizar .
 Era uma espcie de comemorao do meu retorno , o

 retorno da filha prdiga ...
 Esse recital foi fabuloso , porque eu

 estava ali muito tmida no meio dos poetas todos e tinha de ter

 coragem para dizer aqueles poemas de modo completamente diferente do

 que eles faziam , se bem que , tanto o Hlder como o Paulo , me deixassem

 completamente  vontade para inventar o que me desse na gana .
 A coisa

 funcionou .
 At eu fiquei admirada ...
 o Alberto ficou cheio de cimes ,

 mas no fim , oferecia-me a cerveja dele ...
 e j vais com muita sorte ...

 dizia .

 J leu em recitais Al Berto , Keats , Borges , Pessoa , Lorca ...
 So

 alguns dos seus autores preferidos ?
 O que anda a ler neste momento ?

 Quais os livros que mais a marcaram at hoje ?

 Cummings , Gomes Leal , Herberto Hlder , Allan Poe , Antnio Jos Forte ,

 Alberto Pimenta , Verlaine , Hlder Moura Pereira , Paulo da Costa

 Domingos , Fernando Pessoa , Lusa Neto Jorge , etc ...
 Sou uma espcie de

 ave de rapina .
 Rapino a todos um bocadinho e introduzo-os em mim , numa

 espcie de ligao mecnica / corprea  la Cronenberg .

 Neste momento ando a ler um livro fascinante sobre o teatro do

 absurdo , o Jean Genet , Harold Pinter , Ionesco , e todos esses

 malucos ...
 Sinto-me melhor , fico mais bem disposta e cheia de ideias ,

 e encontro-me a traduzir um livro da Kathy Acker , para o qual ainda

 estou  procura de editora .
  um livro arriscado , e consome-me as

 leituras , por agora .
 Reli ultimamente o Lady Chatterlys Lover de D. H .

 Lawrence , e  incrvel como ainda consegue ser to moderno , no sentido

 de uma viso progressista sobre as relaes do corpo e o intelecto ,

 que se querem intimamente ligados e interdependentes .
 A emoo j 

 pensamento e vice-versa .
 De como  absolutamente fundamental uma

 sexualidade esclarecida e vivida em pleno , embora na generalidade

 ningum a pratique ...

 Li que est prevista ainda para este ano um novo trabalho seu nesta

 rea .
 Pode falar um pouco mais sobre esse projecto ?

 Esse projecto era o Objogo com poemas de Francis Ponge , Cummings ,

 Pasolini e Lus Buuel , mas , entretanto , surgiram alguns problemas e ,

 neste momento , estou a trabalhar noutros projectos muito

 interessantes , onde a poesia est e estar sempre presente .
 Posso

 adiantar que um deles se chama Anabela Duarte Digital Quartet e conta

 com a participao de Nuno Moita ( Grain of Sound ) , Diogo Valrio ( In

 Her Space ) e Andr Gonalves ( Ok Suitcase ) , tudo msicos oriundos da

 msica electrnica e das manipulaes digitais e design sonoro .
 A

 nossa estreia ser no Festival SoundScope a 2 de Novembro o festival

 comea a 31 de Outubro e termina a 2 de Novembro .
 O nosso trabalho

 bebe em fontes sonoras com base numa esttica do noise e da

 manipulao de sons e ficheiros em tempo real .
 A voz acompanha o

 processo , desconstruindo frases , sentidos , mimetizando trechos de

 msica e poesia , de entrevistas ...
 Tudo  utilizado .

 Numa entrevista disse que para si a palavra fontica  mais importante

 do que a palavra escrita ( por si ) .
 Continua a achar isso ?

 Acho que essa  como aquela polmica , felizmente j um pouco

 ultrapassada , de questionar se o rudo  msica .
 Agora quando falamos

 de fontica , estaremos no campo da palavra ou do som ?
 O som precedeu a

 palavra , que se constitui em sentido ou o sentido j l estava

 implcito , no som ?
 Um conjunto de sons pode determinar uma frase

 musical , quer sejam rudos , quer sejam notas musicais , assim como um

 conjunto de palavras pode determinar uma frase com sentido ou no , uma

 espcie de cadavre exquis ?
 Pode-se jogar com as palavras e com os sons

 e construir coisas maravilhosas .
 Le cadavre exquis boira le vin

 nouveau  um bom exemplo disso .
 Mas pressupe regras , no 

 completamente aleatrio .
 O que me interessa  , sobretudo , a capacidade

 expressiva e , simultaneamente , abstracta das palavras e do som , tal

 como na pintura ou na dana ou no vdeo .

 7 .
 Delito

  com Delito que regressa discograficamente ao contacto do grande

 pblico , recuperando as gravaes dos concertos , que levou a cabo em

 1991 , no Instituto Franco-Portugus .

 H um hiato de oito anos entre a gravao e a edio de Delito .
 Quais

 os principais motivos que contriburam para esse intervalo temporal ?

 Ficou satisfeita com o resultado final de um disco , a meu ver ,

 intemporal , j que no se nota esse desfasamento de oito anos ?
 Se

 fosse gravado em 1999 teria dado outro corpo s canes ?

 A ideia desse disco seguiu a do O Horizonte Basta , editado pela

 Frenesi .
 Se se podia fazer um cd bootleg cujo suporte original eram

 umas cassetes vulgares , mais depressa se faria com dat .
 Pedi ao Miguel

 Escada os dat das gravaes dos concertos no IFP e a partir da

 comecei a trabalhar nesse material , no meu pequeno estdio em casa .

 Era necessrio pr esse trabalho c fora , porque eu vou fazendo coisas

 e ningum sabe nem conhece o que vou produzindo , e isso no 

 simptico da minha parte .
 Fiquei muito contente com o trabalho final ,

 dentro das limitaes que tinha , obviamente .
 No gravaria o mesmo em

 1999 , mas , eventualmente , h sempre a hiptese de fazer remisturas .

 Remix ,  a palavra de ordem ps-moderna por excelncia e eu nisso ,

 estou completamente de acordo .

 Delito  a aceitao do seu passado pop , mas , ao mesmo tempo , o

 encerrar definitivo dessa fase ?

 Nem pensar nisso .
 Mix e Remix ,  o meu lema .

 Em Delito lana algumas pistas sobre o seu futuro alm canto lrico .

 Tem novas canes , por certo , porque no acredito que no tenha criado

 ao longo da ltima dcada .
 Pode-nos falar um pouco sobre as novas

 canes que tem feito ?

  claro que tenho produzido muitas coisas e tenho trabalhado ,

 entretanto , com vrios produtores e msicos .
 O Alexandre Camaro , o Z

 Nando Pimenta , os Cool Hipnoise , s que muitas delas ficaram pelo

 caminho , enquanto outras sero aproveitadas na devida altura , como  o

 caso do meu trabalho com o Alexandre Camaro aka Shrimp .
 Tenho ainda

 algumas faixas instrumentais praticamente prontas a editar .
 Msica de

 dana alternativa , se assim se pode chamar , e colaboro com o Jean

 Marie Mathoul , dos 48 Cameras , grupo belga de rock avant-garde , fs

 dos Einstrzende Neubauten e Charlemagne Palestine , entre outros , e o

 produtor / compositor / dj francs Imperial J , que acabou neste momento de

 editar mais um disco Scared Stiff .
 Estou tambm a trabalhar num

 projecto mais pop com alguns msicos portugueses e o Digital Quartet

 acima mencionado .
 E , em breve , haver edies de tudo isto .

 Apresenta tambm em Delito um fado futurista .
 Planeta Phado ser um

 ciber-fado ( uma espcie de ps-novo fado ) ?
 Onde fica o planeta phado ?

  preciso levar o fado mais longe .
 Cortar-lhe os espartilhos , deix-lo

 respirar .
 Tem havido algumas tentativas mais arrojadas , mas um

 ciber-fado seria algo de completamente novo .
 No Planeta Phado , tentei

 misturar o Blade Runner com o fado .
 A clonagem e os mecanismos da

 fico e das mltiplas direces , ou das direces em simultneo , o

 matrix , ciberpunk ,  algo que ainda no foi feito no fado .
 O planeta

 phado fica a .

 Em Viso Lynch h uma referncia bvia a David Lynch .
  um dos seus

 cineastas preferidos ?
 Pode-nos dizer alguns dos seus realizadores e

 filmes preferidos ?
 Quais os ltimos filmes que viu ?

 Sim , gosto bastante .
 Pela estranheza , pela emoo .
 Acho que  um

 pintor de terrveis estados de alma e vises a la Bosch , fragmentos ,

 mas tambm de coisas belssimas e poticas , ou de como a fealdade

 tambm pode ser belssima e potica .
 Vi o ltimo e gostei muito ,

 embora achasse talvez , um pouco longo e demasiado esttico , em certos

 momentos .
 Exige muito do espectador .
 Ou lhe damos essa disponibilidade

 ou recusamos , mas no ficamos indiferentes .
 O Cronenberg tambm  um

 dos meus preferidos , e mesmo o Carpenter ...
 O Nevoeiro e Eles Existem

 so filmes irresistveis .
 E mesmo aqueles mais de cowboiada 

 americana , mas em ambiente espacial , acho-lhes piada .
 E depois h os

 franceses , O Gosto dos Outros e O Fabuloso Destino de Amlie eram

 deliciosos , bem como quase todos os filmes com o Grard Depardieu .
 A

 Pianista , muito intenso e opressivo e uma actriz espectacular .
 E

 depois uma srie de filmes erticos ou pan-sexuais que s os franceses

 sabem fazer .
 Dos italianos gosto do Fellini , pela extravagncia e

 fantasia , do Nanni Moretti , e nunca mais acaba .
 Entre os portugueses ,

 gostei muito da [ Recordaes da ] Casa Amarela de Joo Csar Monteiro

 e de Trfico de Joo Botelho .
 Mas no conheo muito mais ...
 Tambm

 gosto muito de filmes documentais e das possibilidades que o vdeo

 oferece , hoje em dia , em projectos de instalao e pluridisciplinares .

 Qual o seu maior delito ?
 A opo pelo canto lrico ?
 A sua postura

 outsider ?
 Ou a perda de um espao mais relevante junto do pblico ?

 Sou culpada de tudo isso .
 No fundo , talvez , o facto de sermos pessoas

 criativas d-nos esta sensao de carregar com um grande sentimento de

 culpa , como se fosse a nossa cruz , em vez da suposta felicidade .

 Agora , h empresas que promovem a criatividade , h inclusive diplomas

 de criatividade , estudos exaustivos , bolsas ...
 mas os criativos andam

 por a , a cometer delitos , infraces ...
 Fico triste quando vejo gente

 to jovem , por vezes , e com tanto talento , a serem pura e simplesmente

 desperdiadas e , no campo musical ,  certamente trgico e herico ,

 simultaneamente , o que essas pessoas andam a fazer , sem usufrurem de

 subsdios , de apoios , de nada .

 8 .
 Presente e Futuro

 O que  que a Anabela tem andado a ouvir nos ltimos tempos ?
 Se lhe

 pedir uma lista de cinco discos e dez canes relevantes para si

 aceita o desafio ?

 Ando a ouvir muita coisa .
 Coisas incrveis e extremamente

 inspiradoras .

 Cinco discos ?
 Diria , o Vespertine da Bjrk .
 Os incrveis Matmos , A

 Chance To Cut Is A Chance To Cure .
 O ltimo lbum dos 48 Cameras , I

 Swear I Saw Garlic Growing Under My Fathers Steps .
 De Sidsel Endresen ,

 uma cantora / compositora / poetisa fabulosa Out Here In There , por

 exemplo .
 E , para terminar , a compilao da Mille Plateaux , Modulation

 & Transformation 4 .

 Mais ?
 Dez canes ?
 Uhmmm ....

 .
 At Les Carl Craig More Songs About Food And Revolutionary Art

 .
 Black Trombone Serge Gainsbourg Du Jazz Dans Le Ravin

 .
 Get Dis Money Slum Village Fantastic Vol. 2

 .
 Pole CD 1

 .
 Synkopoint Vladislav Delay Clicks & Cuts

 .
 Fuck me kitten William Burroughs & REM

 .
 Trying Times Sidsel Endressen & Bugge Wesseltoft Duplex Ride

 .
 Shisheido Fennesz Endless Summer

 .
 Its Oh So Quiet Bjrk Post

 .
 The Wonderful Widow Of Eighteen Springs Cathy Berberian & John Cage

 .
 Surabaya Johnny Kurt Weill Anabela Duarte

 Como v o actual estado da msica portuguesa ?
 Tem ouvido alguma coisa ?

 A Anabela parece-me atenta s novas tecnologias e no ser por acaso

 que tem uma pgina na web onde divulga o seu trabalho .
 Acha que a

 internet pode ser a fuga s editoras pouco abertas s coisas novas e

 diferentes ?
  a favor do formato mp3 ?
 Costuma fazer downloads de

 msicas ?

 H algumas coisas de que gosto , mas so poucas .
 Gosto sempre dos

 projectos mais alternativos , claro .
 A msica feita com intuitos

 comerciais , nunca me disse nada , porque ela prpria no tem nada para

 dizer .

 Continuo a achar que a internet  a melhor coisa que podia ter

 acontecido nos ltimos tempos .
 Sou uma cibernauta incorrigvel .

 Consegue-se uma capacidade de informao e comunicao a todos os

 nveis e musicalmente , estar a par de muitas coisas .
 O mp3 

 imprescindvel .

 Tenho algumas pginas na web mas , espero dentro em breve , ter mais e

 construir mesmo um site .
 A partir da  muito mais fcil as pessoas

 terem acesso ao nosso trabalho .
 As linguagens HTML , o Flash , o vdeo ,

 enfim , o multimedia , comeam a interessar-me vivamente , e os

 msicos / designers com quem trabalho h muito que trabalham nessas

 reas .

 Em 2000 , os Sloppy Joe lanaram uma cano - de nome " Rouge " - e

 alguns crticos comparam-na a Mler Ife Dada , sobretudo por uma

 pretensa aproximao da vocalista - Marta Ren - s vocalizaes pop da

 Anabela Duarte .
 Chegou a ouvir essa cano ?
 O que achou ?

 No conheo , nem fao ideia do que se trata .
 Mas no me repugna que

 busquem referncias nas minhas vocalizaes , pelo contrrio ...
 o

 trabalho est c fora , por isso s tem que ser aproveitado , da maneira

 que cada um entender melhor .

 Participou este ano num ensaio sobre o Livro do Desassossego de

 Fernando Pessoa , levado a cabo pelo Teatro Acarte .
 Como correu essa

 experincia ?
 Pretende repeti-la ?
 Tem novos projectos nessa rea ?

 Bem , para sermos mais exactos , seria uma pea em formato de

 work-in-progress , de sistema aberto , interactivo , em que para alm dos

 encenadores Alberto Lopes e Joo Garcia Miguel h uma componente de

 co-criao por parte dos actores .
 E em que os encenadores participam

 em tempo real , estando em palco e manipulando a forma e o sentido do

 todo e das partes .
 Foi uma experincia muito interessante .
 Gostaria de

 novos desafios ,  verdade , desde que isso no interfira com os meus

 projectos musicais , porque o trabalho  muito absorvente .
 O teatro

 nunca me fascinou por a alm , precisamente por ter visto coisas muito

 marcadas , muito ensaiadas e de estrutura mais rgida e clssica .
 Mas o

 que realizmos j era um misto de teatro-vdeo-msica improvisada ,

 quase uma pera , e eu , por vezes , estava praticamente a fazer a banda

 sonora , s com a voz e um processador de efeitos .
 O facto de ter

 participado com outros actores duma gerao mais nova do teatro , mas

 j com bastante experincia , foi uma ptima aprendizagem e tirou-me

 muitos preconceitos em relao  minha relao com o teatro .
 Como

 estvamos em regime de free-style podamos conceber pequenas

 performances com grande liberdade e isso era fascinante .
 Mas 

 perigoso , pois facilmente se pode cair na auto-repetio .
  preciso

 uma constante vigilncia e reaprendizagem , sobretudo , quando h muitos

 espectculos seguidos , como foi o caso .

 Este ano tambm , a nvel musical , apresentou alguns espectculos , com

 canes de Boris Vian e Kurt Weill , acompanhada ao piano por Vera

 Prokic e com ambincia sonora dos Major Elctrico .
  esse um dos

 caminhos a electrnica que pretende seguir nos prximos tempos ?

 Esse espectculo foi em Julho passado na abertura do Festival X , em

 Almada , e fui acompanhada ao piano por Jos Joo Santos .
 Os Major

 Elctrico abriram o meu espectculo e combinmos no fim uma pequena

 colaborao improvisada com voz e efeitos .
 Foi emocionante , mas soube

 a pouco e as condies ainda no eram as ideais .
 De qualquer modo ,

 haver sempre mais oportunidades , concerteza .
 A msica electrnica que

 se faz agora , pressupe substituir a msica electro-acstica e a

 msica concreta .
 No entanto , prefiro pensar que coexistem , porque a

 questo da substituio elimina  partida o outro .
  demasiado

 territorial .
 Do mesmo modo , as mquinas e os instrumentos no tm que

 necessariamente ser rivais .
 Na realidade , todos so instrumentos e

 todos so mquinas , artefactos que produzem som .
  s isso que

 interessa , que sejam ferramentas ao dispor da nossa imaginao .

 J houve quem caracterizasse a Anabela como " a gaja do pop , que vai

 para o fado e depois para o canto lrico ( com passagem pela spoken

 word ) " .
 O fado  o seu anel querido - a sua grande paixo ?
 Ainda lhe

 falta algum anel ?
 O que poderemos esperar nos prximos tempos ?

 No , no , nada de anis .
 Seriam demasiados compromissos .
 No pode

 haver anis na arte , porque ela pressupe sempre a descoberta .
 O fazer

 de novo .
  como numa relao amorosa .
 No h compromissos , no sentido

 clssico do termo , com todo o seu enxoval simblico , mas tem de haver

 verdade , compreenso , ternura , admirao inclusive .
 Seno esvai-se

 essa pulso , esse inebriamento das emoes , mas tem tambm de haver

 tenses , confrontos , que servem como catalisadores do medo e garantia

 da personalidade .
  um equilbrio difcil e , por vezes , somos

 extremamente corajosos , outras demasiado cobardes ...
 Quanto a essa

 conversa da gaja e dos prximos tempos , cito a Meredith Monk : As I

 have found with my own voice , one sings differently at different

 times .

 Anabela : o que sente em si ?

 Tudo o que sinto em mim , e ainda muita coisa dos outros , o que  muito

 desgastante ...
 Mas quem corre por gosto no cansa , l diz o ditado .
 Se

 bem que isso , tambm , j deu o que tinha a dar .
 Neste momento , acho

 que a raiva  mais importante do que a felicidade , porque nos obriga a

 construir muito mais coisas .
 E  benfica .
 Traz carinho e

 amor-prprio .
 E os portugueses , sobretudo , precisam muito disso .

 [ USEMAP ]

 [ INLINE ]

 Charalambides / Tom Carter + Christina Carter [ Pedro Gomes ]

 Sole [ Rodrigo Paulino ]

 Fursaxa [ Pedro Gomes ]

 Xiu Xiu / Jamie Stewart [ Andr Santos ]

 The Vicious 5 [ Pedro Gomes ]

 Vitor Joaquim [ Pedro Gomes ]

 [ USEMAP ]

