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 Calexico

 WESTERN FADO

 [ INLINE ] Joey Burns , o simptico baixista e vocalista dos Calexico , falou 

 Mondo Bizarre , sobre o ltimo disco da banda , " Hot Rail " .
 Uma entrevista que

 serve de aperitivo para os concertos que os Calexico vo realizar em Maro , no

 Porto e em Lisboa .

 Os Calexico so um duo oriundo de Tucson , no Arizona , formado por Joey Burns e

 John Convertino , que para alm de fazerem parte dos Giant Sand , e de terem

 colaborado em discos de gente como Richard Buckner , Victoria Williams ou Lisa

 Germano , editaram at agora trs lbuns : " Spoke " de 1997 ; " Black Light " de 1998

 e " Hot Rail " do ano passado .
 Com os seus trs lbuns , os Calexico tornaram-se

 numa das mais refrescantes propostas vindas , ultimamente , dos Estados Unidos .

 O fascnio da msica dos Calexico reside na combinao de guitarras " western

 spaghetti " e sopros mariachi que se aliam a um sentido aprofundado de

 experimentalismo , onde se detecta partculas de rock , country , jazz ou

 ambientalismo , resultando numa sonoridade hbrida , misteriosa e apaixonante .

 Numa entrevista  revista inglesa " Uncut " , descrevem a vossa musica como

 " latin , spaghetti , western , californian desert noir " .
 Podemos enquadrar o vosso

 som naquilo a que se chama " americana " ?

 Sim .
 Ou ento , talvez , na mesma tradio de artistas eclticos como Tom Waits ,

 Captain Beefheart , Latin Payboys , etc , onde a arte de escrever canes 

 alargada de modo a englobar muitos estilos diferentes , e no apenas as razes

 como o country tradicional e a musica de cowboys que so normalmente associadas

 ao termo " americana " .

 H um certo " jazzy feel " nos vossos discos .
 H espao para jogarem com

 silncios , dinmicas e subtilezas prpias da improvisao .
 Ouvem muito jazz ?

 Sim , o John e eu gostamos muito de jazz , especialmente discos antigos dos anos

 50 e 60 , nomes como Thelonius Monk , Charles Mingus , Duke Ellington , Miles

 Davis , Lee Morgan , Ornette Coleman , Eric Dolphy , Art Blakey e por a fora .
 A

 abordagem do John  bateria  muito expressiva .
 Ele utiliza muito a

 improvisao no seu modo de tocar , ou seja , est sempre a mudar , como se

 estivesse a solar .
 Ns estimulamo-nos mutuamente quando tocamos juntos formando

 uma dupla dinmica e bem sincronizada .
 Como dois jogadores que fazem dribles

 entre si .
 Talvez devessemos jogar futebol .

 As composies so improvisadas em estdio ou  um processo previamente mais

 controlado ?

 Tanto improvisamos canes e peas musicais , como samos da nossa rota e depois

 de termos pesquisado a estrutura da cano gravada , enchemos o cenrio de

 " overdubs " .

 Nas peas instrumentais , a msica parece surgir de uma forma muito intuitiva ,

 onde o erro e o acaso tm um papel importante ...

 O flur  muito importante .
 Comeamos as gravaes s com guitarra e bateria .

 Se no soar bem ou no flur , tentamos outro mtodo ou , ento , arranjamos

 emprego como desconstrutivistas .
  divertido de ambas as maneiras .
 Os erros so

 importantes .
 Existem vislumbres da personagem subliminar , ou " auto-adormecida " ,

 a tentar contar a sua verso da estria .
 s vezes , adormeo vestido e espero

 acordar do mundo dos sonhos e ouvir mais de perto as palavras de sabedoria que

 a personagem " auto-adormecida " pode transmitir .
 Tanto pode ser como ganhar a

 lotaria ou esperar na lavandaria e sonhar acordado .
 As duas coisas levam muito

 tempo ...

 No receiam ser vistos , por algumas pessoas , como um pastiche irnico

 lounge / mariachi misturado com estilos mais srios como a folk ou a country ?

 Talvez seja essa barreira entre a seriedade e o humor que torna interessante

 uma leitura .
 Ou talvez no .
 H coisas com as quais gostamos de jogar .
 Outras

 vezes , estamos a ser directos .
 As pessoas podem entender as coisas como

 quiserem .
 Este assunto lida com interpretao e experincia .
 Penso que depende

 de que lado da barreira se est .
 Ou em que lado do Atlntico se vive .

 VINHETAS MUSICAIS

 Interessa-vos a msica pela msica sem ligar a rtulos ?

 Definitivamente .
 Os rtulos so instrumentos para se fazerem generalizaes .

 Penso que ajudam as pessoas que tm medo de saltar szinhas para o

 desconhecido .
 Eu gosto de experimentar e mudar a abordagem para com a msica .

 Como levo bastante tempo para editar um disco , por norma , a imprensa e o

 pblico esto sempre alguns passos atrs em relao aos artistas .

 " Black Light " tem uma atmosfera de filme " western " , como se as canes

 formassem o guio .
 " Hot Rail "  mais diversificado , disperso e fragmentado .

 Concorda ?

 Sim .
 Ns no nos queremos repetir de lbum para lbum .
 No entanto , h

 similaridades entre " Black Light " e " Hot Rail " .
 Ns no pensamos

 antecipadamente no que vamos fazer .
 Deixamos que , a cada momento , a msica flua

 naturalmente .

 O ambiente multicultural de Tucson tambm influencia o vosso som ?

 Por vezes sim .
 Outras vezes , as influncias musicais so apanhadas em locais

 distantes e no detectveis qualquer que seja o sistema de radar snico que

 utilizemos na altura , seja em estdio ou ao vivo .

 Liricamente , h um certo cariz dramtico , melanclico , por vezes trgico .
 As

 ideias surgem da literatura , do cinema ou simplesmente do que observam  vossa

 volta ?

 Eu gosto de ler Cormac McCarthy .
 A sua triologia de fronteira foi uma grande

 influncia na feitura de " Black Light " .
 A baixa de Tucson  extremamente bela e

 triste .
 Fornece imensa inspirao , e , claro , sempre que estou em casa - coisa

 que ultimamente no acontece muito - , pinto retratos snicos , dos quais me

 deixo de fora o mais possvel .
  por isso que prefiro ser o narrador a contar

 uma estria na primeira pessoa .
 Tal como uma vidente , os instrumentais dizem

 sempre a verdade , seja ela mecnica ou sobre a vida real , abrem-te os olhos e

 levantam-se at ao beco escuro da interpretao falsa ou verdadeira .

 NS E OS OUTROS

 Fizeram a banda sonora para um filme de Lisa Kruger .
 A vossa msica  bastante

 visual , lembrando a atmosfera dos filmes do Jim Jarmush .
 Acha o termo

 " cinemtico " adequado ao vosso trabalho ou , pelo contrrio , esse  o tipo de

 catalogao que por comodidade os crticos aplicam a discos onde abundam peas

 instrumentais ?

 Boa pergunta !
 No sei ...
 Cinemtico no  um mau princpio para descrever

 algumas das qualidades da nossa msica .
 Eu adoraria continuar a fazer msica

 para filmes .

 J colaboraram com inmeros artistas ( Giant Sand , Vic Chestnut , Lisa Germano ,

 Victoria Williams , etc ) .
 H um disco de que gosto particularmente no qual

 participaram , o primeiro lbum a solo de Bill Janovitz , dos Buffalo Tom .

 Gostaram de trabalhar com ele ?

 Foi fcil trabalhar com o Bill .
 Ele tinha muitas ideias planeadas , mas deixou

 espao para usarmos as nossas prpias ideias nas canes .
 Foi uma experincia

 agradvel que resultou num lbum bastante interessante .

 Recentemente , participaram num disco de tributo aos American Music Club .
 Vocs

 so admiradores do Mark Eitzel ?

 O Mark  um grande escritor de canes e um ptimo msico .
 Ele  uma espcie de

 " american fado all star " .
 Ns tivemos o privilgio de tocar com ele .
 Desse

 encontro resultou a inspirao para a nossa gravao de " Chanel N  5 " .
 Ele

 ouviu a verso e enviou-nos um e-mail a dizer que tinha gostado .
 Talvez no

 futuro possamos fazer qualquer coisa juntos .

 Neste momento esto a gravar com Evan Dando .
 Como ele  f de Gram Parson e

 Willie Nelson , vai ser um disco country ?

 H uns tempos , fizemos algumas canes mais intimistas e viradas para a folk .
 O

 Evan esteve uns tempos na Austrlia e gravou l um disco country .
 Gostei muito

 do material que gravamos juntos aqui em Tucson .

 QUE VIVA PORTUGAL

 Como correram , na Europa , os concertos de promoo a " Hot Rail " ?

 No ano passado , tocmos bastante na Europa .
 A ponto de , por vezes , sentir que

 vivia a .
 Tocmos para muita gente entusiasta , o que nos levou musical e

 emocionalmente a um outro nvel .
 As pessoas reagiram positivamente a " Hot Rail "

 e fizemos trs digresses europeias de promoo desse disco .
 Agora chegou a

 altura de tocarmos em Espanha e Portugal .

 Sei que j esteve em Portugal e que tocou com o Paulo Bragana .
 Alm de ser

 admirador de Amlia .
 Conhece alguma coisa da msica portuguesa para alm do

 fado ?

 Eu fui a Portugal por causa do fado .
 Amlia  conhecida por todo o lado como

 uma cantora fabulosa .
 H muitos anos que , constantemente , ouo a msica dela , o

 que acabou por influenciar alguma da nossa msica , como por exemplo " Gypsy's

 Curse " .
 A cano  influenciada pelo " Fado De Dois Tons " .
 Quando a toquei ao

 Paulo Bragana , ele trauteou-a .
 Eu queria ver de onde vinha , o que inspirava o

 gnero , a sua essncia .
 Lisboa  um stio incrvel .
 Tambm gostava de visitar

 Coimbra e o Porto .
 O David Byrne convidou-me a mim e ao John para fazer dois

 concertos com o Paulo Bragana , em Nova Iorque , e passamos um bom bocado a

 tocar juntos .
 O Paulo mostrou-me msica portuguesa , tradicional e

 contempornea .
 Acho que ele chegou a fazer uma verso de um tema punk , mas

 tocado de um modo totalmente diferente ...

 Vocs levam-se muito a srio ?

 Sempre !
 No , estou a brincar ...

 Nuno M. Castdo

 ( Mondo Bizarre # 6 )

