

 Pgina Inicial [ LINK ] [ LINK ]

 [ INLINE ]

 Biografia Discografia Cinema Bibliografia Fotografias Notcias

 [ INLINE ]

 Notcias

 [ INLINE ] Lisboa  08 de Outubro de 1999

 ____________________________________________________________________

  Agora  que fao as pessoas chorar 

 [ INLINE ] No dia em que completava 75 anos , em 1 de Julho de 1995 , o

 EXPRESSO publicava uma longa entrevista com Amlia Rodrigues .
 Aos

 jornalistas Manuela Goucha Soares e Rui Rocha contou que no gostava

 de ser conhecida como fadista , descreveu os pavores que sentia no

 palco , revelou pormenores da sua vida pessoal , recordou uma tentativa

 de suicdio .
 Mas assumiu-se como a  artista  que mudou o fado .
 Eis

 excertos dessa conversa .

 EXPRESSO - Dona Amlia ...

 AMLIA RODRIGUES -

 No me chamem Dona Amlia , que ao fim de tantos anos j ganhei direito

 a ser s Amlia .

 EXP. - No livro de Pavo dos Santos , diz que s se descobriu h cerca

 de nove anos , numa altura em que esteve doente e as suas amigas lhe

 comearam a dar os seus discos .
 O que  que quer dizer com isso de se

 ter descoberto ?

 A.R. -

 Foi quando me comecei a ouvir cantar .
 Eu nunca me tinha ouvido cantar ,

 no tinha discos .
 Gravava , mas nunca mais os ouvia .
 Eu cantei toda a

 vida , no precisava de me ouvir .

 EXP. - Durante muito tempo os fadistas no gravaram .
 A Amlia foi a

 primeira a faz-lo sistematicamente .

 A.R .

 - Quando comecei a cantar chamavam s que cantavam na rdio as

  meninas da rdio  .
 E elas tinham um grande desprezo por ns porque

 ramos fadistas .
 O fado era , na altura , muito mal visto .
 Elas faziam

 troa ns e ns fazamos , de certa maneira , troa delas .

 EXP. - Mal visto porqu ?

 A.R .

 - Sei l , no foi por minha culpa .
 Eu era muito pobre e , s por cantar

 fado , os meus tios , tias e a minha av deixaram de falar  minha me e

 ao meu pai .

 EXP. - Tinham vergonha ?

 A.R. -

 S depois percebi que havia uma certa gente muito bem que gostava de

 fado .
 Foram os primeiros que me descobriram .

 EXP. - Quem foram ?

 A.R. -

 Foram umas pessoas da famlia Pinto Coelho .
  gente de quem gosto

 muito .
 Mas , como sou muito tmida , deixei de ir a essas casas .
 Ter que

 l estar custa-me .
 Eu no fao parte daquelas conversas , daquelas

 coisas .
 Falam de coisas que no compreendo .
 Mas gosto muito dessas

 pessoas que me trataram bem .
 Alguns pobres trataram-me muito pior do

 que essa gente .
 No sou daquelas que dizem tenho muito orgulho em ser

 do povo e batem com a mo no peito .
 Eu no tenho orgulho nenhum em ser

 do povo .
 Tambm j sei que toda a gente sabe que eu no sei nada de

 nada .
 Sou ignorante .

 EXP. - Mas ganhou muito dinheiro e passou a viver muito bem ?

 A.R. -

 No ganhei assim tanto .
 Agora  que se ganha muito dinheiro .

 EXP. - Voltando um pouco atrs .
 A Amlia disse que havia um conjunto

 de gente bem , apreciadora do fado ...

 A.R .

 - Quem trouxe toda a gama de pessoas para o fado fui eu , com os fados

 do Frederico Valrio .
 Se no tivesse encontrado o Valrio no teria

 feito o que fiz .
 E ele tambm no .
 Foi bom para um e para outro .

 EXP. - A Amlia frequentou a alta sociedade da poca .
 Convidavam-na

 para ir a muitas festas ?

 A.R .

 - Convidavam sempre , e depois davam-me um cinzeirinho de prata , umas

 coisinhas engraadas .
 Eu chegava a casa toda contente , tinha visto um

 senhor marqus .
 Os senhores marqueses , os senhores condes , e at os

 reis gostavam muito de me ouvir cantar .

 EXP. - Por que est sempre a dizer que  ignorante ?
 Pelo menos

 intuio no lhe falta ...

 A.R .

 - Eu nunca disse que era estpida .
 Ignorante sim , estpida no .

 EXP. -  por causa da m imagem do fado que a Amlia insiste sempre

 que no  uma fadista , mas uma artista ?

 A.R .

 - S de mim  que dizem  a fadista Amlia Rodrigues chegou  .
 Nunca

 disseram o  fadista Alfredo Marceneiro chegou  .
 E , dos fadistas , eu

 sou a menos fadista .

 EXP. - Mas est sempre a dizer que  tmida ...

 A.R .

 - Entro no palco completamente encolhida , depois de tomar um remdio

 para evitar a arritmia .
 Assim que canto o primeiro fado , fico um tanto

 Amlia-no-caias .
 A ao terceiro e ao quarto , com palmas , comeo a

 ficar mais  vontade .
 Graas a Deus sempre acabei os espectculos com

 as pessoas a quererem mais .

 EXP. - Sabemos que chora com muita facilidade .

 A.R. -

 Choro .
 Graas a Deus choro mais por coisas boas do que por coisas ms ,

 porque me acontecem mais coisas boas .

 EXP. - E quando comeou a cantar chorava ?

 A.R. -

 No , ainda no tinha maturidade para isso .
 Tinha a mania que era

 fadista .

 EXP. - O choro tem a ver com maturidade ?

 A.R. -

 Tem .
  s depois da maturidade que se pode cantar o fado .
 Eu tinha uma

 maneira de cantar completamente diferente , que era minha e que pode

 ter sido influenciada por ser filha de gente da Beira Baixa .
 A

 maturidade chegou depois do que vivi .
 Como sou hoje , e como era quando

 tinha 19 anos , no tem nenhuma semelhana .
 Nem interior nem exterior .

 E se calhar faz mais diferena o interior do que o exterior .
 Nem

 calculam a diferena .
 Agora  que fao chorar as pessoas .
 Choram os

 estrangeiros e tudo .

 EXP. -  por isso que no canta sempre com o mesmo sentimento ?

 A.R. -

 Quando canto um  Malho  ou uma marcha de Lisboa ,  com outra alegria .

 Aos 20 , podia cantar o  Povo Que Lavas no Rio  , quando fala nas

  tbuas do meu caixo  , sem me fazer impresso , porque o caixo estava

 muito longe .
 Agora j no est .
 O fado  uma coisa muito mais sria do

 que as pessoas pensam .

 EXP. - D sensao de que era mal amada , de que Portugal no tinha

 levado a sua projeco internacional a srio ...

 A.R. -

 Quando fui para o estrangeiro no havia portugueses nos pases da

 Europa .
 Havia nas Amricas .
 Mas comecei por fazer sucesso na Europa .

 Foi da que parti para o mundo .
 Agora , um portugus que v cantar a

 Paris , tem um milho e tal de portugueses  roda de Paris .
 Naquela

 altura s tinha pblico de franceses , e uma guitarra , uma viola , um

 vestido preto e mais nada .

 EXP. - A Amlia casou cedo da primeira vez , mas separou-se logo a

 seguir ..

 A.R. -

 Casei-me com um rapaz que tocava guitarra .
 Estive dois anos com ele ,

 depois fui-me embora .
 Ele foi malcriado com a minha irm , e a minha

 irm disse que se ia embora , e eu disse que tambm ia com ela .
 E ele

 disse ,  juro que se voc se vai embora , nunca mais ...
  .
 Como ele

 jurou aquilo e eu no queria dar o brao a torcer ...

 EXP. - Como  que se sentiu separada ?
 No era muito comum naquela

 poca ...

 A.R. -

 No era muito comum , pois no .
 Mas eu adiantei-me antes de me casar .
 E

 a minha me queria que eu casasse com um guarda-fiscal , desde sempre

 teve o sonho de me ver casada com uma pessoa com ordenado fixo .
 O

 guarda-fiscal at casava comigo , mesmo j experimentada por outro , no

 se importava , gostava muito de mim .
 S que eu no quis .
 No gostava

 dele .
 Outro , por outras razes , no me quis , e eu nessa altura quis

 matar-me .
 Tomei um remdio para os ratos , s que o tomei mal tomado ,

 pus p na mo , e foi um bocado com a gua , de maneira que no chegou

 para me matar .
 Fiquei  porta dele sentada , que era uma vingana .

 EXP. - Porque  que est sempre a dizer que nunca se teve em conta ?

 A.R. -

 Eu quase pedia desculpa de ter sucesso .
 Tenho pena de mim mesma .
 Tenho

 uma natureza meio fadista .
 Ainda outro dia disse que se aparecer uma

 pessoa que cante melhor do que eu , fico danada .
 No  bem danada , mas

 no gosto .
 E quem disser que gosta  mentirosa .

 EXP. - Afinal , sempre se d importncia .

 A.R. -

 Pois dou , eu nunca disse que cantava mal .
 Nunca faria mal a ningum

 que cantasse melhor do que eu .
 Agora gostar , no .
 Mas fui eu que

 recomendei a Teresa Salgueiro para o Japo , e a Dulce Pontes para o

 Japo e para a Frana .
 E tambm levei a Simone a Paris e ao Brasil .

 No fao nada contra quem canta bem .
 No vou recomendar a pior , porque

 primeiro est o meu pas .
 No sou desonesta , sou muito verdadeira .
 E

 por ser verdadeira  que digo isto : aprecio quem canta melhor do que

 eu , mas fico triste .

 EXP. - Ficou zangada com David Mouro-Ferreira e com Alan Oulman

 quando eles a puseram a cantar  O Abandono  ?

 A.R .

 - No ,  O Abandono  , para mim , nunca foi aquilo que era .
 Para mim era

 o homem que tinha fugido com outra , e ela tinha ficado sozinha a

 chorar l em casa .
 Teve muito sucesso , e depois  que apareceu aquela

 histria , e aquilo esteve proibido 15 dias .
 Eu nunca pensei que fosse

 poltico .

 EXP. - Sentiu-se usada ?

 A.R. -

 No , s depois do 25 de Abril  que soube .
 Soube como sei de tudo , com

 um bocadinho de intuio , de sensibilidade , de deduo .
 No foi na

 escola que eu aprendi aquilo que sei .
 Algumas coisas foi , como

 escrever sem erros .
 Fazer contas j me esqueci , das de dividir no me

 lembro , embora divida o dinheiro por todo o lado , em blusas e saias .
 E

 vocs tm muita culpa , porque tenho de ter um vestido novo de cada vez

 que vem c um ...

 EXP. -  vaidosa ?

 A.R. -

 No .
 Os simplezinhos so muito vaidosos .

 EXP. - Tem o mesmo cabeleireiro h muitos anos ?

 A.R. -

 Tenho .
 Foi o primeiro que me penteou .
  o Brito , do cabeleireiro Eva .

 EXP. - Isso  uma grande fidelidade ?

 A.R. -

  fidelidade e vergonha de ir a outros .
 Nunca fui ao cabeleireiro em

 Paris .
 Quando tinha espectculos l , era eu quem arranjava o cabelo .

 s vezes , nas  tournes  , passava por um chafariz e molhava a cabea .

 Com um bocado de algodo , enrolava o cabelo para dentro e secava no

 carro .

 EXP. - Com essa mania de ser muito envergonhada , como  que fazia as

 compras ?

 A.R. -

 S comprei uma vez um vestido numa casa de modas boa , em Paris , no

 Jacques Fatte .

 EXP. - Tinha uma modista ?

 A.R .

 - Eu comprava no ltimo Figurino , ali no Chiado .
 Depois passei para a

 Ana Maravilhas .
 Agora tenho c uma senhora que trabalhava na Ana

 Maravilhas .

 EXP. -  a Amlia quem escolhe os vestidos ?

 A.R. -

 As duas procuramos , dentro do meu modo de vestir , aquilo que pode

 aproveitar-se da moda .
 Que eu no posso andar  moda .
 Outro dia fui a

 uma passagem de modelos e era tudo meio despido .
 Fiz sempre questo de

 no me despir , nem no teatro .
 Uma vez fui para uma revista em que , no

 final de um dos actos , eu tinha de mostrar as pernas , e eu no queria .

 EXP. - Foi condecorada vrias vezes .
 Esses momentos foram importantes ?

 A.R. -

 Sabe o que  que eu respondi quando recebi a Ordem do Infante ?
 Que

 sempre gostei do Infante D. Henrique .
 No me ocorreu mais nada .
 Fiquei

 sem jeito .
 A primeira vez que fui condecorada foi em 1958 , pelo

 Marcello Caetano .
 Eu nem sabia muito bem quem ele era .
 Ele estava 

 espera que eu tivesse uma reaco e ficou ali , porque eu no tive

 reaco nenhuma .

 Cala-se a Voz

 Amlia Rodrigues morreu antes do travessia do sculo , mas a sua voz

 atravessar os sculos .

 Porque nessa voz se condensa um certo Portugal .
 O Portugal do fado , da

 sina , da fatalidade , do destino , da resignao , da saudade , da

 tristeza , do sentimento , do sofrimento , da tragdia .

 O Portugal de Amlia  o Portugal sofrido .
 Mas esse pas do sofrimento

 contra o qual alguns de ns se revoltaram , existe em maior ou menor

 grau em cada portugus .
 Da as provas de afecto que recebeu em vida e

 as homenagens de que foi objecto na morte .

 O EXPRESSO , que escolheu Amlia como uma das 25 figuras nacionais dos

 ltimos 25 anos e que teve a honra de contar com a sua presena na

 festa comemorativa do 25 aniversrio do jornal , lamenta sentidamente

 a sua morte .
 Com a consolao de ter tido a oportunidade de a

 homenagear em vida .

 A DIRECO

  1999 Expresso

 Mapa do Stio Ficha Tcnica | Direitos de Autor

 _________________________________________________________________

  1998-2005 Instituto Cames

