 A Filosofia como Anlise Lgica da Linguagem

 Eduardo O C Chaves

 I. Filosofia Lingstica e Filosofia Analtica

 O que se chama hoje de Filosofia Lingstica ( que no deve ser

 confundido com Filosofia da Linguagem ou Filosofia da Lingstica ) 

 um dos dois principais ramos da Filosofia Analtica .
 O outro ramo

 principal  o Positivismo Lgico .

 Tanto o Positivismo Lgico como a Filosofia Lingstica tm

 antecendentes importantes .
 O primeiro foi antecedido pelo Atomismo

 Lgico de Bertrand Russell e pela filosofia do jovem Ludwig

 Wittgenstein , representada pelo Tractatus Logico-Philosophicus .
 A

 Filosofia Lingstica tem , como seu antecedente mais importante , G. E .

 Moore , com sua nfase na anlise do senso comum e da linguagem do dia

 a dia .
 s vezes se faz referncia a esse perodo dos antecedentes do

 Positivismo Lgico e da Filosofia Lingstica denominando-o de fase da

 " Anlise Clssica " .

 Isto posto ,  importante observar que a Filosofia Analtica , incluindo

 os antecendentes mencionados , e abrangendo tanto o Positivismo Lgico

 como a Filosofia Lingstica , no  o que se poderia chamar de uma

 " escola filosfica " .
 Ela  muito mais um " movimento " , cujos

 participantes exibem certas caractersticas que lhe do , por assim

 dizer , o ar de pertencerem  mesma famlia , mas que no defendem ,

 necessariamente , um conjunto de teses filosficas comuns a todos - - a

 no ser uma idia geral sobre o objeto da filosofia e uma forma de ver

 o seu mtodo .

 As duas principais " semelhanas familiares " que exibem os filsofos

 analticos seriam , portanto , as seguintes :

 A .
 O objeto da filosofia  a linguagem

 B .
 O mtodo da filosofia  a anlise lgica

 II .
 O Objeto da Filosofia

 Quase todos os filsofos analticos concordariam com a afirmao de

 que o objeto da filosofia  a linguagem , e no a realidade

 no-lingstica .

 Entretanto , uns - - os Positivistas Lgicos - - afirmariam que o objeto

 da filosofia no  a linguagem , tout court , mas a linguagem da

 cincia ; outros - - os Filsofos Lingsticos - - no incluiriam essa

 limitao , e afirmariam que a filosofia deve se preocupar com a

 linguagem de qualquer disciplina ou atividade intelectual , como , por

 exemplo , com a linguagem da religio , da poltica , da arte , e mesmo do

 sentido comum quotidiano .

 Todos eles , porm , possivelmente concordariam que filosofia ,

 discorrendo no sobre a realidade no-lingstica , mas sobre a

 linguagem , no pode se situar no mesmo nvel lgico do discurso que

 pretende analisar , mas deve dele se distanciar , situando-se em um

 discurso de nvel lgico superior .
 A filosofia , portanto , se

 caracteriza , para esses filsofos , como uma atividade lingstica de

 segunda ordem .
  isso que a distingue da cincia e ( para os filsofos

 lingsticos ) das outras disciplinas que ela estuda .

 As cincias naturais estudam a natureza , que  uma realidade

 no-lingstica .
 O discurso que as cincias naturais faz sobre a

 natureza  um discurso de primeira ordem , pois seu objeto  a

 natureza , no um outro discurso .
 A teologia tambm estuda - - ou pelo

 menos assim parece - - uma realidade no-lingstica ( digamos Deus , a

 relao do mundo e do homem com Deus , a realidade supra-sensvel ,

 etc. , em suma , aqueles fenmenos tidos como constituintes da

 religio ) .
 O discurso teolgico tambm seria um discurso de primeira

 ordem .

 A filosofia , no discorrendo sobre a natureza ou sobre Deus e o mundo

 supra-sensvel , mas , sim , sobre o discurso que a cincia e a teologia

 fazem acerca dessas realidades , coloca-se em um nvel de discurso

 logicamente superior .

 O problema surge quando a filosofia pretende discorrer sobre

 atividades que investigam uma realidade que j  , pelo menos em parte ,

 lingstica .
 O objeto das cincias humanas , no importa como seja

 definido em detalhe , inclui manifestaes lingsticas de vrios

 tipos .
 Seria o discurso das cincias humanas um discurso de segunda

 ordem , por ter como objeto realidades lingsticas ?
 Ou ento tomemos a

 prpria cincia da lingstica .
 Seu objeto indubitavelmente  a

 linguagem .
 Ser o discurso da lingstica um discurso de segunda

 ordem ?
 E se o for , a anlise filosfica do discurso da lingstica

 seria de terceira ordem ?

 III .
 O Mtodo da Filosofia

  aqui que a discusso do objeto da filosofia se  discusso de seu

 mtodo .
 Na forma em que os filsofos analticos vem a questo , a

 lingstica estuda a linguagem como se esta fosse um fato natural .
 O

 discurso que a lingstica faz sobre seu objeto no se caracteriza ,

 dessa tica , como um discurso de ordem lgica superior .
 A filosofia ,

 porm , estuda a linguagem no como se esta fosse um fato natural , que

  dado , mas do ponto de vista de sua estrutura lgica .

 Tomemos como exemplo um problema muito discutido por Bertrand Russell .

 A afirmao " O atual rei da Frana  careca " seria , do ponto de vista

 do lingista - - pelo menos do lingista no muito chegado a questes

 filosficas - - uma afirmao totalmente regular e trivial .
 A orao 

 correta , do ponto de vista sinttico , a grafia das palavras no contm

 problemas , e , portanto , esse enunciado no apresenta maior interesse .

 Para o filsofo , porm , esse  um enunciado altamente problemtico .

 Comecemos por perguntar se o enunciado , dada a melhor evidncia hoje

 disponvel ,  verdadeiro ou falso .
 Verdadeiro no pode ser , porque a

 Frana atualmente no tem rei .
 Se dissermos que o enunciado  falso ,

 porm , poderia percer que estamos afirmando ( ou pelo menos

 pressupondo ) que a Frana tem atualmente um rei , mas que ele no 

 careca ( i.e. , que ele tem cabelo ) .
 Ora , isso tambm no  verdade .

 Logo , o enunciado no parece ser nem verdadeiro nem falso .
 Mas segundo

 um princpio bsico da lgica , um enunciado ou  verdadeiro ou  falso

 - - tertium non datur .
 Como sair do impasse ?
 S atravs de uma anlise

 lgica ( e no meramente lingstica ) do enunciado .
 Uma anlise lgica

 do enunciado demonstraria que ele , apesar de parecer ser um enunciado

 simples ,  , na realidade , um enunciado composto , constitudo por dois

 enunciados distintos : o primeiro  um enunciado existencial , que

 afirma que a Frana atualmente tem um rei ; o segundo  um enunciado

 condicional , que afirma que se algum  atualmente rei da Frana , esse

 algum  careca .
 Feita essa anlise , verifica-se que o primeiro

 enunciado  falso e que o segundo  verdadeiro ( pelas regras do

 clculo proposicional ou sentencial , segundo as quais um enunciado

 condicional s  falso se seu antecedente for verdadeiro e o

 conseqente falso , o que no  o caso aqui ) .

 Isso posto , temos uma primeira aproximao do que seja a filosofia , do

 ponto de vista da Filosofia Analtica : a filosofia  a anlise lgica

 da linguagem , ou , se se preferir , do discurso .

 O Positivismo Lgico , por defender certas teses metafsicas ( como , por

 exemplo , de que s existe significao cognitiva - - isto  , verdade e

 conhecimento - - no discurso cientfico ) concluiu que a tarefa da

 filosofia se esgota na anlise lgica da linguagem da cincia , do

 discurso cientfico .

 A Filosofia Lingistica , pretendendo livrar-se das teses metafsicas

 do Positivismo Lgico , e , assim , tornar-se menos rgida e mais

 tolerante , admitiu que  tarefa legtima da filosofia fazer a anlise

 lgica de vrias outras linguagens , como por exemplo , da linguagem da

 religio , da poltica , da arte , da moralidade , etc. - - ou seja , da

 linguagem de qualquer outra disciplina ou atividade intelectual .

 Podemos at dizer que ela absorveu o Positivismo Lgico como um de

 seus casos particulares , despindo-o de suas pretenes exclusivistas e

 metafsicas e deixando-lhe a tarefa de analisar do discurso cientfico

 ( pelo menos no caso das cincias naturais ) .

 1 .
 A Ferramenta Lgica e Seus Pressupostos

 Embora o termo " lgica " possa ser usado em outros sentidos , quando o

 utilizamos , no contexto da Filosofia Analtica , ele se refere

 exclusivamente  relao de enunciados uns com os outros .
 No faz

 nenhum sentido , nesse contexto , falar em " lgica dos fatos " .
 A lgica

 se ocupa apenas de enunciados e suas relaes , no dos fatos .

 De igual maneira , quando se fala , nesse mesmo contexto , de

 contradio ,  a contradio entre enunciados que se refere , no

 fazendo sentido falar em contradio na realidade ou nos fatos .
 O

 pressuposto bsico aqui  que dois enunciados podem se contradizer ,

 mas no dois fatos .
 Se dois fatos acontecem , ou aconteceram , eles no

 envolvem uma contradio , nem sequer a nvel dos enunciados que

 eventualmente os descrevam .

  aqui que entra a noo de verdade .

 A verdade , em um sentido puramente lgico ,  a outra face da

 contradio .
 Um enunciado da forma " a e no-a " , ou " a  no-a " ,  uma

 contradio , e , portanto , necessariamente falso .
 Se eu afirmo , por

 exemplo , " A bola  de couro e a bola no  de couro " , ou " Um homem

 solteiro  um homem no-solteiro " , eu afirmo algo que 

 necessariamente falso .
 No  preciso fazer nenhuma investigao

 emprica da realidade para determinar que esses enunciados so falsos :

 sua prpria forma determina isso .
 Por outro lado , um enunciado da

 forma " a e a " , ou " a  a " ,  uma tautologia , e , portanto ,

 necessariamente verdadeiro .
 Se afirmo " A bola de couro  a bola de

 couro " , ou " Um homem solteiro  um homem solteiro " , eu afirmo algo que

  necessariamente verdadeiro .
 No  preciso fazer nenhuma investigao

 emprica da realidade para determinar que esses enunciados so

 verdadeiros : sua prpria forma determina isso .

 Em um sentido semntico , ou extra-lgico , porm , falamos em verdade

 quando h alguma forma de correspondncia entre um enunciado e o ( s )

 fato ( s ) que ele descreve .
 Aqui samos do nvel puramente lgico da

 relao de um enunciado com outro ( s ) para investigar a " relao " entre

 um enunciado e a realidade no-lingstica , entre um enunciado e os

 fatos .
 Nesse sentido extra-lgico , o enunciado " a bola  de couro " 

 verdadeiro se , e somente se , a bola for realmente de couro , isto  , se

 for um fato que a bola ( a que se refere o enunciado )  de couro .

 Normalmente  esse o sentido que temos em mente quando falamos em

 verdade .

 Note-se que em nenhum dos dois sentidos do termo " verdade " 

 admissvel falar em " verdade dos fatos " , a no ser em um sentido

 derivado e quase metafrico .
 Os fatos existem ou no existem , mas no

 so verdadeiros ou falsos .
 No faz sentido falar em fato verdadeiro - -

 a expresso , se usarmos " verdadeiro " em um sentido derivado , como

 sinnimo de " real " , seria um pleonasmo injustificado - - nem muito

 menos em fato falso - - a expresso , se usarmos " falso " em um sentido

 derivado , como sinnimo de " irreal " , seria paradoxal , contraditria

 mesmo .
 Verdadeiro ou falso  o enunciado que pretende descrever um

 estado de coisas .
 O enunciado  verdadeiro se o estado de coisas

 descrito existe , isto  , se o estado de coisas  um fato , e falso se o

 estado de coisas descrito no existe , isto  , se o estado de coisas

 no  um fato , mas  apenas , digamos , imaginado .

 O exemplo do penltimo pargrafo levanta uma outra questo que 

 preciso esclarecer .
 Em relao ao enunciado " a bola  de couro " ,

 dissemos que , se a bola a que ele se refere for , digamos , de borracha ,

 ou de pano , o enunciado  falso .
 Se , porm , a bola a que se refere o

 enunciado for realmente de couro , o enunciado  verdadeiro .
 Isso

 indica que o enunciado " a bola  de couro " pode ser falso em alguns

 contextos - - quando se referir a bolas de borracha ou de pano , por

 exemplo - - e verdadeiro em outros - - quando se referir a bolas

 realmente de couro .

 Desse fato alguns podem ser tentados a concluir que um enunciado pode

 ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo , ou que a verdade  relativa , ou

 alguma coisa do gnero .
 Essa concluso no se justifica .

 Quando usamos um enunciado como " A bola  de couro " o fazemos de forma

 elptica , omitindo uma srie de especificaes que so indispensveis

 para a determinao de sua verdade ou falsidade mas que so

 perfeitamente dispensveis no contexto , porque facilmente

 subentendidas pelos ouvintes ou leitores do enunciado .
 Assim , quando

 eu estou segurando uma bola nas mos , e no h outra bola na

 proximidade , e afirmo " A bola  de couro " , esse enunciado na verdade 

 uma elipse do enunciado " A bola [ que eu , Eduardo Chaves , estou , no

 momento , 10:44 h do dia 30/10/90 , segurando em minhas mos ]  de

 couro " .
 O enunciado , assim qualificado ,  verdadeiro ou falso , nunca

 as duas coisas , e  verdadeiro ou falso de forma absoluta e no

 relativa .
 Se a bola for realmente de couro , o enunciado ( adequadamente

 caracterizado )  verdadeiro , de forma absoluta , e o ser per secula

 seculorum .
 Se a bola no for de couro , ser falso - - tambm de forma

 absoluta e para sempre .

 A mesma questo pode ser ilustrada com outro enunciado : " Hoje est

 chovendo " .
 Algumas pessoas , com inclinaes sofsticas , poderiam ser

 tentadas a afirmar que esse enunciado  verdadeiro e falso , ou que sua

 verdade  relativa .
 Diriam que se " hoje " se refere a 14/10/90 , e o

 local  Gramado , RS , o enunciado  verdadeiro , mas que se hoje se

 refere a 30/10/90 , e o local  Campinas , SP , o enunciado  falso .
 A

 mesma coisa que se disse no pargrafo anterior deve ser dita aqui .

 " Hoje est chovendo "  uma forma elptica , de convenincia .
 O

 enunciado completo seria algo como " Hoje , 30/10/90 , no campus da

 UNICAMP em Campinas , ao meio dia , est chovendo " .
 Nesta forma , o

 enunciado  ou verdadeiro ou falso , nunca os dois .
 E sua verdade ou

 falsidade no  relativa a nenhum contexto : s depende de estar ou no

 chovendo no campus da UNICAMP em Campinas , ao meio dia de 30/10/90 .
 Na

 realidade , o enunciado  falso porque estou escrevendo isso ao meio

 dia de 30/10/90 no campus da UNICAMP e olhando pela janela constato

 que no est chovendo - - pelo contrrio h um lindo sol l fora .

 2 .
 Tipos de Enunciados

 A .
 Enunciados Singulares e Gerais

 At aqui limitei-me a usar enunciados relativamente simples e a falar

 de coisas singulares ( uma bola , um dia de chuva ) , no de classes de

 coisas .

 Se eu fizer a afirmao " existe uma bola de couro de tigre de

 Bengala " , que  uma afirmao singular , existencial , basta que se

 encontre uma bola de couro de tigre de Bengala em algum lugar do mundo

 para que a verdade de minha afirmao seja comprovada , ou para que

 minha afirmao seja verificada .
 Falsificar essa afirmao , porm , 

 muito difcil .
 Se procurarmos a tal bola pelo mundo inteiro e no a

 encontrarmos , no  to simples dizer que falsificamos a afirmao : eu

 posso sempre alegar que no procuramos direito , e que em algum lugar ,

 ainda no examinado , existe uma bola de couro de tigre de Bengala .

 Esse exemplo serve de advertncia para o seguinte : quando fazemos

 afirmaes singulares , especialmente existenciais ,  relativamente

 fcil comprovar a veracidade da afirmao e muito difcil comprovar

 sua falsidade .

 Se eu , porm , disser " todas as bolas so redondas " , estou fazendo uma

 afirmao no sobre uma coisa singular , mas sobre toda uma classe de

 coisas .
 Minha afirmao , neste caso , ser falsificada se encontrarmos

 uma bola que no seja redonda - - e basta uma para que seja comprovada

 a falsidade da afirmao. ( A afirmao " todas as bolas so redondas "

 pode ser considerada , por alguns , como verdade lgica , ou tautologia ,

 porque o Aurlio define " bola " como " qualquer corpo esfrico " e define

 " redondo " como algo " que tem a forma perfeita , ou quase perfeita , de

 uma esfera " .
 Estou usando o termo " bola " , porm , em um sentido que

 abrange as bolas de futebol americano ou de rugby , que no tm a forma

 perfeita de uma esfera ) .

 Concedendo que basta uma bola que no seja redonda para falsificar a

 afirmao de que todas as bolas so redondas , podemos agora perguntar

 quantas bolas teremos que examinar para poder concluir , com total

 justificao , que todas as bolas so redondas ?
 Todas , no  verdade ?

 Nada menos do que todas - - e todas  muito , porque " todas " inclui

 bolas de outros pases , bolas que j deixaram de existir , bolas que

 vo ainda ser fabricadas ou tipos de bola que vo ainda ser

 inventadas , etc ..

 Esse exemplo serve de advertncia para o seguinte : quando fazemos

 afirmaes gerais ,  relativamente fcil comprovar a falsidade da

 afirmao e muito difcil comprovar sua veracidade .

 As chamadas teorias e leis cientficas so constitudas de enunciados

 gerais .
 Por isso , embora seja , em princpio , relativamente fcil

 refut-las ,  muito complicado confirmar sua veracidade .

 B .
 Enunciados Empricos e No Empricos

 At aqui tambm tenho utilizado enunciados descritivos de estados de

 coisas facilmente observveis : ser um bola de couro ou no , estar ou

 no chovendo .

 Mas suponhamos que eu comece a fazer afirmaes sobre coisas e seres

 que supostamente no so observveis , como intenes , motivos ou

 razes de um comportamento , sensaes de angstia , a alma , Deus .
 No

 tocante a enunciados sobre essas coisas e seres ,  difcil imaginar

 como  que eles podem ser verificados ou falsificados .
 Como  que

 esses enunciados se situam em relao a enunciados acerca de prtons e

 nutrons - - que tambm so , admitidamente , de verificao e

 falsificao complicada ?
 A filosofia da psicologia e da religio ( ou ,

 melhor dizendo , da teologia ) deve esclarecer essas questes .

 C .
 Enunciados Descritivos e Prescritivos

 Mas at aqui tenho utilizado enunciados descritivos - - de estados de

 coisas observveis ou no .

 Suponhamos , porm , que eu diga : " Voc no deve castigar seu filho "

 ( enunciado singular , negativo ) , ou " Ningum deve julgar os outros "

 ( enunciado geral , negativo ) , ou " Todos devem ajudar os necessitados "

 ( enunciado geral , positivo ) .

 O que esses enunciados tm em comum  o fato de que no descrevem

 nenhum estado de coisas : eles prescrevem um determinado comportamento .

 Se nada descrevem , parece difcil determinar se esses enunciados

 " correspondem com a realidade " , e , portanto , se so verdadeiros .

 Mas se parece difcil determinar se enunciados prescritivos so

 verdadeiros ou falsos , ento a tica e a teoria poltica esto em

 posio complicada , visto que ( salvo melhor juizo ) esses enunciados

 parecem desempenhar um papel importante nelas .

 D .
 Enunciados que Envolvem Termos Valorativos

 H uma outra categoria de enunciados que se parecem , em um aspecto ,

 com enunciados descritivos , e , em outro , com enunciados prescritivos .

  a categoria de enunciados que envolvem termos valorativos : " bom " ,

 " mau " , " certo " , " errado " , " belo " , " feio " , " lindo " , " horrvel " , etc ..

 Os enunciados que contm esses termos parecem descritivos .
 Quando

 afirmo : " Esse quadro de Picasso  lindo " , parece que estou descrevendo

 uma caracterstica do quadro , sua grande beleza .
 No entanto ,  difcil

 especificar no que consiste a caracterstica beleza que eu encontro no

 quadro .
 Por isso , alguns tm sugerido que o enunciado no  descritivo

 de alguma caracterstica do quadro mas sim de um sentimento de

 aprovao em mim , em relao ao quadro .
 O que o enunciado descreve ,

 afirmam , no  uma caracterstica objetiva do quadro , mas um

 sentimento subjetivo em mim .
 Como , porm , " de gustibus et coloribus

 non est disputandum " , outros podem no ter esse sentimento diante do

 mesmo quadro .
 Outros filsofos tm sugerido que o enunciado no

 descreve nada , nem no quadro nem em mim , mas somente exprime minha

 aprovao do quadro , sendo equivalente a uma interjeio .
 Ainda outros

 tm afirmado que o enunciado , embora descritivo na forma , 

 prescritivo no contedo , sendo equivalente a algo como " Todos devem

 [ no sentido de " tm o dever de " ] admirar esse quadro " .
 E assim por

 diante .

 O que se disse em relao a enunciados estticos muitos tm tambm

 dito em relao a julgamentos morais .
 Tomemos como exemplo o

 enunciado : " Discriminar [ para no dizer " assassinar " ] pessoas com base

 em sua raa  moralmente errado " .
 Estou descrevendo alguma coisa ao

 afirmar isso ?
 Se estou , a descrio  de alguma caracterstica

 objetiva da ao de discriminar algum com base em sua raa ou de

 algum sentimento em mim ?
 Ou ser que no estou descrevendo nada , mas

 apenas exprimindo minha emoo negativa diante da ao de discriminar

 pessoas com base em sua raa , ou diante daqueles que assim

 discriminam ?
 Ou ser que estou prescrevendo alguma coisa ( por exemplo ,

 que ningum deve discriminar pessoas com base em sua raa ) ?

 Essas questes so essenciais para uma anlise correta do discurso

 moral e do discurso esttico .
  funo da filosofia esclarec-las ,

 segundo os filsofos analticos .

 IV. Tipos de Filosofia Lingstica

 1 .
 A Epistemologia  Una

 Existe uma corrente , dentro da Filosofia Lingstica , que defende a

 tese de que h algo em comum em todos os problemas a que se fez rpida

 aluso na seo anterior .
 Segundo essa corrente , todos os problemas

 mencionados , no mbito da filosofia da cincia , da filosofia da

 psicologia , da teologia , da arte , da moralidade , so , no fundo ,

 problemas que giram em torno da seguinte questo : at que ponto 

 justificvel falar em conhecimento e verdade na cincia , na

 psicologia , na teologia , na esttica , na moralidade ?
 Se 

 justificvel , esses termos mantm um mesmo sentido em todas essas

 disciplinas , ou ser que conhecimento cientfico  diferente de

 conhecimento moral , ser que a verdade cientfica  diferente da

 verdade religiosa ?
 Na Idade Mdia havia os que defendiam a teoria da

 Verdade Dupla .
 Segundo essa teoria , algo pode ser verdade na cincia e

 no ser verdade na teologia , e vice-versa .
 Faz isso sentido ?
  uma

 tese como essa defensvel ?

 Mais importante , aqui , do que tentar responder a essas perguntas 

 reconhecer que todas as questes levantadas so questes relacionadas

 ao conhecimento e  verdade : so questes que poderamos chamar de

 epistmicas .
  por isso que a corrente que mencionamos defende a tese

 de que os problemas de que a filosofia se ocupa so sempre

 epistmicos , e que os problemas epistemolgicos so fundamentalmente

 os mesmos , no importando o contexto disciplinar em que sejam

 levantados .
 Ser filsofo , segundo essa corrente ,  ser

 fundamentalmente , epistemlogo , especialista na lgica dos conceitos

 epistmicos .

 2 .
 As Epistemologias so Vrias

 Uma outra corrente nega , porm , que uma epistemologia comum subjaza a

 todas as disciplinas .
 Com base nas idias expostas por Wittgenstein em

 sua obra mais recente , essa corrente defende a tese de que cada

 disciplina ou atividade intelectual  , como se fosse , um " jogo de

 linguagem " .
 Cada jogo tem suas prprias regras - - mas no existe

 nenhuma regra comum a todos os jogos .
 Tudo o que pode existir so

 certas relaes de semelhana familiar entre um jogo e outro .
 Damas e

 xadrez , por exemplo , usam o mesmo tabuleiro , mas no possuem as mesmas

 regras .
  possvel afirmar , por isso , que so mais semelhantes entre

 si do que com o jogo de bridge , que usa cartas e no tabuleiro .

 No existe , portanto , segundo essa corrente , uma epistemologia .
 Se

 quizermos chamar de epistemologia o estudo das regras de um

 determinado jogo , podemos afirmar que h vrias epistemologias , que

 nada tm em comum umas com as outras .
 O filsofo no  ,

 fundamentalmente , epistemlogo : ele  , isto sim , especialista nas

 regras de um jogo especfico .

 Segundo essa corrente , no  legtimo nem , na verdade , possvel ,

 criticar um jogo a partir dos pressupostos e das regras do outro .
 Da

 mesma forma que no posso criticar o jogo de damas porque no segue as

 regras do xadrez , no posso criticar a religio por no seguir as

 regras da cincia .
 Cada jogo e cada disciplina tm suas regras

 prprias e s podem ser criticados de dentro , por assim dizer .

