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 Pausa para a Filosofia

 CURSO DE FILOSOFIA

 Baseado no livro Convite  Filosofia , de Marilena Chau , publicado pela Editora

 tica

 Mdulo 30 - Unidade 4

 O conhecimento

 Captulo 5 : A linguagem ( 2/2 )

 A lingstica e a linguagem

 Durante o sculo XIX , o estudo da linguagem ou lingstica tinha como

 preocupao encontrar a origem da linguagem e das lnguas , considerando o

 estado presente ou atual de uma lngua como resultado ou efeito de causas

 situadas no passado .

 A linguagem era estudada sob duas perspectivas : a da filologia , que buscava a

 histria das palavras pelo estudo das razes , com o propsito de chegar a uma

 nica lngua original , me ou matriz de todas as outras ; e a da gramtica

 comparada , que estudava comparativamente as lnguas existentes com o propsito

 de encontrar famlias lingsticas e chegar  lngua-me original .

 Nesses estudos , retomava-se a discusso sobre o carter natural ou convencional

 da linguagem .
 Tambm era comum aos fillogos e gramticos a idia de que as

 lnguas se transformam no tempo e que as transformaes eram causadas por

 fatores extralingsticos ( migraes , guerras , invases , mudanas sociais e

 econmicas , etc. ) .

 Tais estudos , porm , viram-se diante de problemas que no conseguiam resolver .

 Um desses problemas foi o aparecimento do estudo das flexes ( tempos verbais ,

 maneira de indicar o plural e o singular , aumentativos e diminutivos ,

 declinaes ) , revelando que as lnguas mudavam por razes internas e no por

 fatores externos .

 Essa descoberta teve resultados curiosos .
 Um deles , aparecido na Alemanha ,

 tomava as flexes como prova de que cada povo tem uma lngua diferente porque

 esta exprimiria o carter ou o esprito do povo .
 Haveria lnguas doces e

 propcias aos sentimentos profundos ( como a alem ) ; lnguas rudes e mais

 voltadas para a prosa e a guerra ( como o latim ) , etc .
 Em suma , cada estudioso

 inventava o carter da lngua segundo as fantasias e ideologias de sua nao e

 dos nacionalismos da poca .

 A partir do sculo XX , uma nova concepo da linguagem foi elaborada pela

 lingstica e seus pontos principais so :

 * a linguagem  constituda pela distino entre lngua e fala ou palavra : a

 lngua  uma instituio social e um sistema , ou uma estrutura objetiva que

 existe com suas regras e princpios prprios , enquanto a fala ou palavra  o

 ato individual de uso da lngua , tendo existncia subjetiva por ser o modo como

 os sujeitos falantes se apropriam da lngua e a empregam .
 Assim , por exemplo ,

 temos a lngua portuguesa e a palavra ou fala de Cames , Machado de Assis ,

 Fernando Pessoa , Guimares Rosa , a sua e a minha ;

 * a lngua  uma totalidade dotada de sentido no qual o todo confere sentido

 s partes , isto  , as partes no existem isoladas nem somadas , mas apenas pela

 posio e funo que o todo da lngua lhes d e seu sentido vem dessa posio e

 dessa funo .
 Assim , por exemplo , os signos r e l s existem nas lnguas onde a

 diferena desses sons tem uma funo importante para diferenciar sentidos ,

 motivo pelo qual no operam significativamente em chins e em japons ( ou seja ,

 os chineses usam l indiferentemente para todas as palavras , sejam elas em l ou

 r ; os japoneses usam r indiferentemente para todas as palavras , sejam elas em l

 ou r ) .
 Os signos so os elementos da lngua ; so valores e no coisas ou

 entidades , isto  , so o que valem por sua posio e por sua diferena com

 relao aos demais signos ;

 * numa lngua , distinguem-se signo e significado , ou significante e

 significado : o signo  o elemento verbal material da lngua ( r , l , p , b , q , g ,

 por exemplo ) , enquanto o significado so os contedos ou sentidos imateriais

 ( afetivos , volitivos , perceptivos , imaginativos , evocativos , literrios ,

 cientficos , retricos , filosficos , polticos , religiosos , etc. ) veiculados

 pelos signos ; o significante  uma cadeia ou um grupo organizado de signos

 ( palavras , frases , oraes , proposies , enunciados ) que permitem a expresso

 dos significados e garantem a comunicao ;

 * a relao dos signos ou significantes com as coisas  convencional e

 arbitrria , mas , uma vez constituda a lngua como sistema de relaes entre

 signos / significantes e significados , a relao com as coisas indicadas ,

 nomeadas , expressadas ou comunicadas torna-se uma relao necessria para todos

 os falantes da lngua .
 Assim , por exemplo , a distino entre pa e ba , pata e

 bata  convencional , mas uma vez fixada pela lngua , torna-se necessria e

 inquestionvel ;

 * como as partes ( signos ou significantes ) de uma lngua recebem seu sentido

 e sua funo pelo lugar que o todo da lngua lhes confere , essas partes

 distinguem-se umas das outras apenas por suas diferenas , e a lngua  uma

 estrutura constituda por diferenas internas ou por oposies pertinentes

 entre os signos .
 Por exemplo , em portugus , existem os signos p e b , d e t

 porque suas diferenas so pertinentes para o sentido das palavras ( dizer pata

 e bata , dente e tente  dizer sentidos diferentes ) ; tambm existe a oposio

 pertinente entre o r e o l , mas tal oposio ou diferena no existe em japons

 e em chins e por isso , como vimos , tais signos no existem nessas lnguas .

 Por relao com sua prpria lngua , quando um japons fala o portugus , 

 levado a usar sempre o r ( que corresponde a um som ou signo diferencial

 existente em japons , isto  , faz sentido em japons ) e a substituir o l por r .

 Quando um chins fala o portugus ocorre exatamente o contrrio , prevalece o l

 porque este som e signo tem relao com o todo da lngua chinesa , e o r no .
 Em

 ingls , no existe o signo-som o e , assim , quando um ingls fala o portugus ,

 tende a usar an e am porque so signos-sons que fazem sentido em ingls .
 A

 lngua , portanto ,  feita dessas diferenas internas e por isso se diz que os

 signos so diacrticos e que a lngua  uma estrutura diacrtica ;

 * a lngua  um cdigo ( conjunto de regras que permitem produzir informao e

 comunicao ) e se realiza atravs de mensagens , isto  , pela fala / palavra dos

 sujeitos que veiculam informaes e se comunicam de modo especfico e

 particular ( a mensagem possui um emissor , aquele que emite ou envia a mensagem ,

 e um receptor , aquele que recebe e decodifica a mensagem , isto  , entende o que

 foi emitido ) ;

 * o sujeito falante possui duas capacidades : a competncia ( isto  , sabe usar

 a lngua ) e a performance ( isto  , tem seu jeito pessoal e individual de usar a

 lngua ) ; a competncia  a participao do sujeito em uma comunidade

 lingstica e a performance so os atos de linguagem que realiza ;

 * a lngua se realiza em duas dimenses : a sincronia , ou seja , o todo da

 lngua tomado na simultaneidade ou no seu estado atual ou presente ; e a

 diacronia , ou seja , a lngua vista sucessivamente , atravs de suas mudanas no

 tempo ou de sua histria ;

 * a lngua  inconsciente , isto  , ns a falamos sem ter conscincia de sua

 estrutura , de suas regras e seus princpios , de suas funes e diferenas

 internas ; vivemos nela e com ela e a empregamos sem necessidade de conhece-la

 cientificamente .

 Alguns exemplos podero ajudar-nos a compreender todos esses pontos .
 Uma lngua

  como um jogo de xadrez :  um todo no qual cada pea tem seu sentido , seu

 lugar e sua funo por diferena ou por oposio s demais peas .
 O jogo  uma

 conveno ou um cdigo com suas regras prprias , princpios e leis , e cada

 partida  a maneira como jogadores individuais usam e interpretam as regras ,

 leis e princpios gerais do jogo ( a diferena entre os jogadores e os sujeitos

 falantes  que estes falam a lngua respeitando o cdigo , mas sem conhece-lo

 conscientemente , enquanto os jogadores precisam conhecer o cdigo para poder

 jogar ) .

 O jogo existe antes e depois de cada partida .
 Cada partida rearranja o

 tabuleiro e chega a resultados diferentes , mas as regras do jogo so sempre as

 mesmas .
 Em cada partida , os jogadores podem jogar porque conhecem o cdigo e

 porque sabem interpretar os lances um do outro , respondendo a cada um deles .

 A lingstica veio mostrar algo muito interessante e que explica por que falar

 uma lngua estrangeira ou traduzir um texto estrangeiro no so coisas simples

 como julgavam os intelectualistas .

 Por exemplo , em ingls ,  possvel dizer The man I love .
 Quando traduzimos para

 o portugus temos : O homem que amo .
 Observamos que , em ingls , parece faltar

 uma palavra : o que .
 Notamos tambm que em ingls parece sobrar uma palavra : o

 I , o eu , que no usamos na frase em portugus .
 Para um ingls , evidentemente ,

 no falta e nem sobra nada .

 Este sentimento de falta ou sobra mostra que a diferena entre o ingls e o

 portugus no  de vocabulrio , mas de estrutura lingstica .
 No caso da

 traduo da palavra inglesa cheese e da palavra francesa fromage para o

 portugus , queijo , temos a impresso de que passamos sem problema de uma lngua

 para outra .
 Mas no  o caso .

 Quando um ingls usa cheese , ele est se referindo ou a algo leitoso e cremoso ,

 quase sem gosto , ou a algo mais duro e forte , que se pode comer sem outra

 coisa .
 O francs , por seu turno , ao dizer fromage estar pensando em queijos

 muito diferentes , dependendo da regio onde mora , da hora e do dia em que vai

 comer o queijo , sempre acompanhado de po e vinho .

 Para um ingls e para um francs , queijo jamais poderia ser imaginado junto com

 um doce , enquanto para ns , brasileiros , queijo ( de Minas , prato , requeijo

 baiano ) vai bem com goiabada ou com doce de leite , com o po com manteiga e o

 caf com leite .
 Assim dizer cheese no  dizer fromage nem queijo ; dizer

 fromage no  dizer cheese nem queijo ; dizer queijo no  dizer cheese nem

 fromage .

 Esse segundo exemplo explica o que os lingistas querem dizer quando afirmam

 que o momento da criao de um signo ( cheese , fromage , queijo )  arbitrrio ou

 convencional , mas , uma vez criado , passa a ter um sentido necessrio naquela

 lngua ( cheese  cheese e no  fromage nem queijo ) .

 Esse exemplo nos mostra tambm que uma lngua  algo social , histrico ,

 determinado por condies especficas de uma sociedade e de uma cultura .

 A experincia da linguagem

 Dizer que somos seres falantes significa dizer que temos e somos linguagem , que

 ela  uma criao humana ( uma instituio sociocultural ) , ao mesmo tempo em que

 nos cria como humanos ( seres sociais e culturais ) .
 A linguagem  nossa via de

 acesso ao mundo e ao pensamento , ela nos envolve e nos habita , assim como a

 envolvemos e a habitamos .
 Ter experincia da linguagem  ter uma experincia

 espantosa : emitimos e ouvimos sons , escrevemos e lemos letras , mas , sem que

 saibamos como , experimentamos sentidos , significados , significaes , emoes ,

 desejos , idias .

 Aps o caminho feito at aqui , podemos voltar  definio inicial que demos da

 linguagem e nela fazer alguns acrscimos .

 Em primeiro lugar , teremos que especificar melhor que tipo de signo  o signo

 lingstico .
 Por que uma palavra  diferente , por exemplo , da fumaa que indica

 fogo ?
 Ou , se se preferir , qual  a diferena entre a fumaa-signo-de-fogo , que

 vejo , e a palavra fumaa , que pronuncio ou escuto ?
 A fumaa  uma coisa que

 indica outra coisa ( fogo ) .
 A palavra fumaa , porm ,  um smbolo , isto  , algo

 que indica , representa , exprime alguma coisa que  de natureza diferente dela .

 O smbolo  um anlogo ( a bandeira simboliza a nao , por exemplo ) e no um

 efeito da coisa indicada , representada ou exprimida .
 O smbolo verbal ou

 palavra me reenvia a coisas que no so palavras : coisas materiais , idias ,

 pessoas , valores , seres inexistentes , etc .
 A linguagem  simblica e , pelas

 palavras , nos coloca em relao com o ausente .
 A linguagem  , pois , inseparvel

 da imaginao .

 Em segundo lugar , temos que especificar melhor as vrias funes que atribumos

  linguagem ( indicativa ou denotativa , comunicativa , expressiva , conotativa ) e

 para isso precisamos indagar com o que a linguagem se relaciona e nos

 relaciona .
 Evidentemente , diremos que a linguagem nos relaciona com o mundo e

 com os outros seres humanos .
 Mas como se d essa relao ?

 Essa pergunta , como vimos , era central para o Positivismo Lgico .
 Por seus

 erros e acertos , ele foi responsvel pelo surgimento de uma nova disciplina

 filosfica , a Filosofia da Linguagem , intimamente ligada s investigaes

 lgicas , transformando-se com elas e graas a elas .
 A grande preocupao da

 Filosofia da Linguagem resume-se numa pergunta : As palavras realmente dizem as

 coisas tais como so ?
 Descrevem e explicam verdadeiramente a realidade ?

 Tradicionalmente , dizia-se que a linguagem possua a forma de uma relao

 binria , isto  , entre dois termos :

 signo verbal < - > coisa indicada ( realidade )

 signo verbal < - > idia , conceito , valor ( pensamento )

 No entanto ,  possvel perceber que essa relao binria no nos explica por

 que uma palavra ou um signo verbal indica alguma coisa ou alguma idia , pois ,

 se ele fosse simplesmente denotativo ou indicativo e dual , no poderia haver o

 fenmeno da conotao , isto  , uma mesma palavra indicando coisas e idias

 diferentes .

 Tomemos um exemplo a que j nos referimos vrias vezes em outros captulos e

 que foi muito trabalhado pelo filsofo alemo Frege .
 Estrela da manh e estrela

 da tarde indicam Vnus .
 Mas falar na estrela dalva , na estrela da tarde , na

 estrela matutina e na estrela vespertina no  a mesma coisa , ainda que todas

 essas expresses se refiram a Vnus .
 Em cada uma dessas expresses , o sentido

 de Vnus muda e esse sentido  expresso pelas palavras que se referem ao mesmo

 planeta .
 Assim , as palavras indicam-denotam alguma coisa , mas tambm a conotam ,

 isto  , referem-se aos sentidos dessa coisa .

 Imaginemos ou recordemos a leitura de um romance .
 Comeamos a ler entendendo

 tudo o que o escritor escreveu porque referimos suas palavras a coisas que j

 conhecemos , a idias que j possumos e ao vocabulrio comum entre ele e ns .

 Pouco a pouco , porm , o livro vai ganhando espessura prpria , percebemos as

 coisas de outra maneira , mudamos idias que j tnhamos , vemos surgir pessoas

 ( personagens ) com vida prpria e histria prpria , sentimos que as palavras

 significam de um modo diferente daquele com o qual estamos habituados a usa-las

 todo dia .

 Uma realidade foi criada e penetramos em seu interior exclusivamente pelas mos

 do escritor .
 Como isso  possvel ?
 Como as palavras poderiam criar um mundo , se

 elas apenas fossem sinais para indicar coisas e idias j existentes ?
 Com o

 romance descobrimos que as palavras se referem a significaes , inventam

 significaes , criam significaes .

 Imaginemos ou recordemos um dilogo .
 Quantas vezes conversando com algum ,

 dizemos : Puxa !
 Eu nunca tinha pensado nisso !
 , ou ento : Voc sabe que , agora ,

 eu entendo melhor uma idia que tinha , mas que no entendia muito bem ?
 , ou

 ainda : Voc me fez compreender uma coisa que eu sabia e no sabia que sabia .

 Como essas frases so possveis ?
  que a linguagem tem a capacidade especial de

 nos fazer pensar enquanto falamos e ouvimos , nos faz compreender nossos

 prprios pensamentos tanto quanto os dos outros que falam conosco .
 Ela nos faz

 pensar e nos d o que pensar porque se refere a significados , tanto os j

 conhecidos por outros quanto os j conhecidos por ns , bem como os que no

 conhecamos por estarmos conversando .

 Esses exemplos nos levam a considerar a linguagem sob uma forma ternria :

 palavra ou signo significante < - > sentido ou significao ; significado < - >

 realidade ou mundo ( coisas , pessoas ) e instituies sociais , polticas ,

 culturais

 O mundo suscita sentidos e palavras , as significaes levam  criao de novas

 expresses lingsticas , a linguagem cria novos sentidos e interpreta o mundo

 de maneiras novas .
 H um vai-e-vem contnuo entre as palavras e as coisas ,

 entre elas e as significaes , de tal modo que a realidade , o pensamento e a

 linguagem so inseparveis , suscitam uns aos outros e interpretam-se uns aos

 outros .

 A linguagem :

 * refere-se ao mundo atravs das significaes e , por isso , podemos nos

 relacionar com a realidade atravs da palavra ;

 * relaciona-se com sentidos j existentes e cria sentidos novos e , por isso ,

 podemos nos relacionar com o pensamento atravs das palavras ;

 * exprime e descobre significados e , por isso , podemos nos comunicar e nos

 relacionar com os outros ;

 * tem o poder de suscitar significaes , de evocar recordaes , de imaginar o

 novo ou o inexistente e , por isso , a literatura  possvel .

 * A linguagem revela nosso corpo como expressivo e significativo , os corpos

 dos outros como expressivos e significativos , as coisas como expressivas e

 significativas , o mundo como dotado de sentido e o pensamento como trabalho de

 descoberta do sentido .
 As palavras tm sentido e criam sentido .

 Como escreve Merleau-Ponty :

 A palavra , longe de ser um simples signo dos objetos e das significaes ,

 habita as coisas e veicula significaes .
 Naquele que fala , a palavra no

 traduz um pensamento j feito , mas o realiza .
 E aquele que escuta recebe , pela

 palavra , o prprio pensamento .

 A linguagem no traduz imagens verbais de origem motora e sensorial , nem

 representa idias feitas por um pensamento silencioso , mas encarna as

 significaes .

 Linguagem simblica e linguagem conceitual

 A diferena entre linguagem simblica e linguagem conceitual  o que deve

 interessar-nos agora .
 Fundamentalmente , a linguagem simblica opera por

 analogias ( semelhanas entre palavras e sons , entre palavras e coisas ) e por

 metforas ( emprego de uma palavra ou de um conjunto de palavras para substituir

 outras e criar um sentido potico para a expresso ) .

 A linguagem simblica realiza-se principalmente como imaginao .
 A linguagem

 conceitual procura evitar a analogia e a metfora , esforando-se para dar s

 palavras um sentido direto e no figurado ou figurativo .
 Isso no quer dizer

 que a linguagem conceitual seja puramente denotativa .
 Pelo contrrio , nela a

 conotao  essencial , mas no possui uma natureza imaginativa ou imagtica .

 A linguagem simblica ( dos mitos , da religio , da poesia , do romance , do

 teatro ) e a linguagem conceitual ( das cincias , da filosofia ) diferem sob os

 seguintes aspectos :

 * a linguagem simblica  fortemente emotiva e afetiva , enquanto a linguagem

 conceitual procura falar das emoes e dos afetos sem se confundir com eles e

 sem se realizar por meio deles ;

 * a linguagem simblica oferece snteses imediatas ( imagens ) , enquanto a

 linguagem conceitual procede por desconstruo analtica e reconstruo

 sinttica dos objetos , fazendo com que acompanhemos cada passo da anlise e da

 sntese ;

 * a linguagem simblica nos oferece palavras polissmicas , isto  , carregadas

 de mltiplos sentidos simultneos e diferentes , tanto sentidos semelhantes e em

 harmonia , quanto sentidos opostos e contrrios ; a linguagem conceitual procura

 diminuir ao mximo a polissemia e a conotao , buscando fazer com que cada

 palavra tenha um sentido prprio e que seus diferentes sentidos dependam do

 contexto no qual  empregada ;

 * a linguagem simblica leva-nos para dentro dela , arrasta-nos para seu

 interior pela fora de seu sentido , de suas evocaes , de sua beleza , de seu

 apelo emotivo e afetivo ; a linguagem conceitual busca convencer-nos e

 persuadir-nos por meio de argumentos , raciocnios e provas .
 A linguagem

 simblica fascina e seduz ; a linguagem conceitual exige o trabalho lento do

 pensamento ;

 * a linguagem simblica nos d a conhecer o mundo criando um outro , anlogo

 ao nosso , porm mais belo ou mais terrvel do que o nosso , mais justo ou mais

 violento do que o nosso , mais antigo ou mais novo do que o nosso , mais visvel

 ou mais oculto do que o nosso ; a linguagem conceitual busca dizer o nosso

 mundo , decifrando seu sentido , ultrapassando suas aparncias e seus acidentes ;

 * a linguagem simblica , privilegiando a memria e a imaginao , nos diz como

 as coisas ou os homens poderiam ter sido ou podero ser , voltando-se para um

 possvel passado ou para um possvel futuro ; a linguagem conceitual busca dizer

 o nosso presente , fala do necessrio , determinando suas causas ou motivos e

 razes ; procura tambm as linhas de fora de suas transformaes e o campo dos

 possveis , como possibilidade objetiva e no apenas desejada ou sonhada .

 RESUMINDO

 A linguagem em sentido amplo ( isto  , englobando lngua , fala e palavra ) 

 constituda por quatro fatores fundamentais :

 1 .
 fatores fsicos ( anatmicos , neurolgicos , sensoriais ) , que determinam para

 ns a possibilidade de falar , escutar , escrever e ler ;

 2 .
 fatores socioculturais , que determinam a diferena entre as lnguas e entre

 as lnguas dos indivduos .
 Assim , o portugus e o ingls correspondem a

 sociedades e culturas diferentes , bem como a linguagem de Machado de Assis e de

 Guimares Rosa correspondem a momentos diferentes da cultura no Brasil ;

 3 .
 fatores psicolgicos ( emocionais , afetivos , perceptivos , imaginativos ,

 lembranas , inteligncia ) que criam em ns a necessidade e o desejo da

 informao e da comunicao , bem como criam nossa capacidade para a performance

 lingstica , seja ela cotidiana , artstica , cientfica ou filosfica ;

 4 .
 fatores lingsticos propriamente ditos , isto  , a estrutura e o

 funcionamento da linguagem que determinam nossa competncia e nossa performance

 enquanto seres capazes de criar e compreender significaes .

 Esses fatores nos dizem por que existe linguagem e como ela funciona , mas no

 nos dizem o que  a linguagem .
  a perspectiva fenomenolgica que nos orienta

 para sabermos no s o que  a linguagem , mas tambm qual  seu papel

 fundamental no conhecimento :

 * a linguagem no  mecanismo psicomotor ( os fatores 1 e 3 apresentam as

 condies biolgicas e psicolgicas para haver linguagem , mas no qual  a

 natureza da experincia da palavra ) ;

 * a linguagem no  simples relao binria entre signo e coisa , signo e

 idia , mas  uma relao ternria , na qual os signos so smbolos que veiculam

 significaes ;

 * a linguagem no traduz pensamentos , mas participa ativamente da formao e

 formulao das idias e dos valores ;

 * a linguagem  uma forma de nossa experincia total de seres que vivem no

 mundo e com outros ;  uma dimenso de nossa existncia ;

 * a linguagem , como a percepo e a imaginao , pode comprazer-se no j dado ,

 j dito e j pensado , no institudo e estabelecido , ficando escrava dos

 preconceitos e das ideologias , pois , como disse Plato , ela pode ser remdio ,

 veneno e mscara .
 Pode bloquear nosso conhecimento e pode produzir

 desconhecimento ( mentira , desinformao ) .
  , assim , nosso meio de acesso ao

 mundo , aos outros e  verdade , mas tambm o instrumento do engano , do falso e

 da mentira ;

 * a linguagem cria , interpreta e decifra significaes , podendo faze-lo

 miticamente ou logicamente , magicamente ou racionalmente , simbolicamente ou

 conceitualmente .

 *****

 Marilena Chau  professora de Filosofia na Universidade de So Paulo e uma das

 mais prestigiadas intelectuais brasileiras , com presena atuante no debate

 poltico nacional e na construo da democracia brasileira .
 So freqentes os

 seus artigos na imprensa , bem como sua participao em congressos , conferncias

 e cursos , no pas e no exterior .
  autora de Cultura e democracia : o discurso

 competente e outras falas , O que  ideologia ?
 , Apontamentos para uma crtica da

 razo integralista , Da realidade sem mistrios ao mistrio do mundo : Espinosa ,

 Voltaire e Merleau-Ponty , Represso sexual , essa nossa ( des ) conhecida ,

 Conformismo e resistncia : notas sobre cultura popular e Seminrios sobre o

 nacional e o popular na cultura .

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