 [ Publicado na revista do Instituto de filosofia da Linguagem

 da Universidade Nova de Lisboa ]

 DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS

 EM " FILOSOFIA ANALTICA " ?

 ( Algumas Reflexes A Partir da Leitura de Para Compreender a Histria da

 Filosofia Analtica de Henrique Jales Ribeiro )

 Joo Fonseca

 ( Doutor em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa )

 Publicado na Revista do Instituto de filosofia da Linguagem

 Da UNL

 O presente texto pretende inventariar algumas reflexes suscitadas pela leitura

 do livro Para compreender a Histria da Filosofia Analtica da autoria de

 Henrique Jales Ribeiro .
 No se ambiciona , pois , levar a cabo uma exaustiva

 anlise dos vrios argumentos apresentados na obra ; apenas os tpicos

 considerados relevantes para a presente discusso sero tidos em conta .
 Assumo

 por completo eventuais erros ou abusos de interpretao que podem conduzir a

 uma desvirtuao dos contedos que o autor enseja transmitir .

 I - Contrariamente ao que o ttulo da obra de Jales Ribeiro poderia sugerir , no

 estamos perante uma histria da filosofia analtica mas antes diante de uma

 reflexo crtica acerca do modo como a tradio analtica se tem confrontado

 historicamente consigo prpria ao longo do seu desenvolvimento .
 Jales Ribeiro

 no se limita a inventariar as histrias da histria da filosofia analtica ,

 mas desenvolve uma tese acerca desse fenmeno que pode , muito sucintamente , ser

 resumida nos seguintes quatro pontos : 1 - os diagnsticos histricos acerca da

 filosofia analtica ( qual a sua gnese , quais os seus pais fundadores , etc. )

 sucumbe  contingncia dos diversos discursos das variadas escolas ou

 tendncias , desenvolvidas no seio da prpria filosofia analtica , sob o

 pretexto de uma auto-legitimao dessas mesma escolas ou tendncias ; 2 - o

 discurso histrico , e consequentemente normativo e auto-limitativo , das vrias

 tendncias da filosofia analtica  concebido mais por oposio estratgica

 relativamente a um determinado inimigo identificvel em cada caso do que pela

 positiva ; 3 - os vrios discursos histricos de auto-legitimao da filosofia

 analtica no so sustentveis se tomados conjuntamente pois conduzem a uma

 situao aportica ; 4 - a prpria oposio entre " filosofia analtica " e

 " filosofia continental " , que parecia legitimar a adopo de um discurso

 histrico relativamente  primeira , deve ser relativizada a essas diferentes

 nuances que a filosofia analtica adoptou ( ou adopta ) .

 Como se torna por de mais evidente , Jales Ribeiro esboa um cenrio negro para

 enquadrar as diversas abordagens meta-histricas e meta-filosficas

 relativamente  prpria filosofia analtica aventando mesmo a hiptese de se

 abandonar tal demanda intelectual .
 Se a isto juntarmos o facto trivial de que o

 enquadramento e identificao conceptual de um fenmeno apenas se materializa

 mediante um olhar retrospectivo sobre o mesmo , chegamos ento  concluso

 sugerida por Jales Ribeiro de que  na medida em que o conceito de " filosofia

 analtica " tem uma significao histrica mais ou menos normativa , devemos

 abandonar o prprio conceito de " filosofia analtica "  ( pp134-135 ) .
 Convir ,

 antes de mais , refrear os nimos exaltados da ortodoxia para que no se rasguem

 as vestes precocemente .
 A afirmao de Jales Ribeiro deve ser devidamente

 contextualizada na abordagem geral que o autor adoptou na sua obra .

 De que falamos quando falamos em " filosofia analtica " ?
 No fundo esta parece

 ser a questo que percorre transversalmente todo o livro de Jales Ribeiro .
  ,

 provavelmente , na dificuldade em dar resposta a esta questo que repousa a

 legitimidade para a afirmao desesperada citada supra .
 Na verdade , e como se

 frisou j , Jales Ribeiro apenas testemunha a dificuldade que o " movimento

 analtico " ou " tradio analtica " denota em delinear a sua prpria histria e ,

 consequentemente , as suas prprias fronteiras conceptuais .

 II - O pano de fundo sobre o qual discorre a anlise de Jales Ribeiro  o da

 ( auto ) definio de " filosofia analtica " por oposio  " filosofia

 continental " .
 Essa demarcao conceptual passa por dois registos distintos que

 assumem em comum o facto de remeterem ambos para uma dimenso histrica .
 Em

 primeiro lugar temos o prprio modo como a filosofia analtica se

 auto-posiciona face  histria da filosofia lato sensu .
 Em segundo lugar ,

 devemos ter em ateno o modo como a filosofia analtica concebe e produz a sua

 prpria histria .
 Como se torna patente ao longo do escrutnio de Jales

 Ribeiro , estes dois posicionamentos so tanto fundamentais como

 inter-dependentes no processo de auto-clarificao da filosofia analtica .

 O autor procede ao escalpelizar do discurso histrico e legitimizador da

 filosofia analtica ( aos dois nveis considerados ) demonstrando como ele se

 fragmenta na medida em que  reivindicado pelas diversas matizes que esta

 adoptou / adopta tanto em diferentes coordenadas temporais como geogrficas .

 Assim , e talvez um pouco inesperadamente , temos perante ns uma profuso de

 discursos e perspectivas no apenas diferentes entre si mas muitas vezes

 antagnicas .
 A imagem que fica da histria da filosofia analtica  a de um co

 que quando acossado acaba por morder a sua prpria cauda .
 O objectivo central

 da obra de Jales Ribeiro consiste em , por um lado colocar em evidncia essa

 multiplicidade discursiva e , por outro , tentar compreende-la .

 Jales Ribeiro distingue dois perodos no processo de auto-definio histrica

 da filosofia analtica : um velho e outro novo .
 O primeiro perodo no produz

 propriamente uma histria da filosofia analtica , coincidindo com o

 florescimento das vrias escolas ( o positivismo lgico , a Escola de Cambridge ,

 a Escola de Oxford ) .
 O interesse que estes vrios movimentos dispensaram a uma

 abordagem geneolgica correspondia mais a um desejo de auto-legitimao e

 auto-afirmao do que a um propsito de genuna inquirio histrica .
 Nestes

 casos , a descrio histrica confunde-se com a redaco de um manifesto ( por

 vezes explicitamente como  o caso do manifesto do crculo de Viena de 1929 )

 evocando de uma forma mais ou menos herica os nomes dos seus legtimos

 predecessores , etc ..  neste cenrio que as diferenas e at antagonismos entre

 as vrias perspectivas emergem de uma forma mais visvel ( seria fastidioso

 enumerar as diferentes referncias que os diversos movimentos adoptam e que

 Jales Ribeiro to bem traz  superfcie ) .
 No entanto , comum a todas essas

 abordagens permanece a veleidade de se auto-afirmarem como movimentos de

 ruptura face  histria da filosofia ; elas concordam , assim , no primeiro

 posicionamento auto-definidor , embora divirjam no segundo .
 Essa ruptura

 fundamenta-se numa postura marcadamente hostil relativamente ao carcter

 fundacionalista , metafsico e histrico da filosofia continental .
 A filosofia

 analtica ( tanto na verso da escola de Oxford como do positivismo lgico )

 rompe conscientemente com a prpria histria da filosofia ao negar pertinncia

 aos problemas clssicos que marcaram a agenda desta disciplina nos ltimos

 sculos .
 Este trao de unio  talvez o que se revela de maior importncia e

 aquele que estabelece o elo entre a velha e a nova concepo histrica da

 filosofia analtica .

 Com efeito ( e sempre seguindo as directrizes enunciadas por Jales Ribeiro ) as

 primeiras tentativas srias de elaborar uma histria da filosofia analtica

 apenas surgiram a partir dos anos setenta , altura em que se dispunha j de uma

 maior maturao terica e de um desenvolvimento histrico suficientemente

 marcante que a podia justificar .
 Neste segundo perodo surgem duas figuras

 decisivas para o enquadramento histrico da filosofia analtica : Michael

 Dummett e Richard Rorty .
 Dummett , em particular , procura erigir as bases

 estruturais de uma histria da filosofia analtica que a pudessem delimitar

 conceptual e formalmente da filosofia continental e marcar o seu lugar na

 histria da filosofia .
 Para Dummett , a filosofia analtica assume

 caractersticas muito prprias que a enquadram num espao muito especial no

 seio da histria da filosofia e que a distinguem da filosofia continental .

 Dummett assimila o caracter anti-fundacionalista , e em particular

 anti-cartesiano , que a escola de Oxford reivindicava ( no obstante o prprio

 Dummett no subscrever as teses da Escola de Oxford ) .
 Alis , Descartes parece

 assumir-se como o principal alvo de Dummett quando este enfatiza a

 especificidade da filosofia analtica ; enquanto o pensamento cartesiano se

 caracteriza pela fundao filosfica do conhecimento mediante a anlise

 introspectiva da conscincia , a filosofia analtica supera esta perspectiva ao

 proceder  " viragem lingustica " elegendo a linguagem como objecto de anlise

 par excellance ( num tipo de anlise lgica que remonta a Frege ) .
 Jales Ribeiro

 faz notar um aspecto importante na gnese da abordagem histrica de Dummett : a

 convergncia de princpios entre as duas diferentes tradies geogrficas que

 se reclamavam da prtica da filosofia analtica , ou seja : as tradies

 americana e britnica .
 Um dos traos de unio entre as duas perspectivas

 consistia precisamente na crtica  epistemologia e  filosofia fundacionalista

 de carz cartesiano , na mediada em que o lado americano comea a colocar em

 questo a herana do positivismo lgico sob a batuta iconoclasta de Quine .
 O

 outro lao de unio , que decorre do primeiro , consiste na adopo de uma

 " teoria do significado " ( o culminar da " viragem lingustica " ) como postura

 positiva e construtiva que marca o novo modo de se fazer filosofia .

 III - Gostaria agora de introduzir algumas reflexes acerca da dinmica

 histrica da filosofia analtica a partir de pressupostos que a anlise de

 Jales Ribeiro disponibiliza .
 Volto  questo central aqui em debate : de que

 falamos quando falamos em " filosofia analtica " ?
 Qual  a resposta para esta

 questo no contexto actual ?
 Ou seja , o que significa ser-se um filsofo

 analtico hoje ?
 Jales Ribeiro no enfrenta directamente esta questo mas deixa

 algumas pistas que convir ter em considerao .
 Um modo que julgo possvel na

 estratgia a adoptar para responder  questo agora colocada ser a de ter por

 referncia a recepo da filosofia analtica por parte dos filsofos do

 continente que dela agora se reclamam .
 Julgo ser ilustrativo colocar a questo

 nestes termos pois a averiguao do problema assim demarcado revela algumas

 facetas curiosas que Jales Ribeiro parece ter mitigado na sua obra .

 Como Jales Ribeiro enfatiza logo no seu prefcio :  poderia mesmo dizer-se que

 os temas prprios da filosofia analtica tm hoje muito mais impacto no

 " continente " do que fora dele , e uma tal filosofia se tornou , pois ,

 predominantemente " continental ".  .
 O modo como os filsofos exteriores 

 tradio anglo-saxnica acolheram em anos recentes a filosofia analtica pode

 fornecer boas indicaes acerca das fronteiras conceptuais e elementos

 doutrinais que a caracterizam na contemporaneidade ( como se sabe , no h

 discurso mais convincente e sincero relativamente a uma causa do que a de um

 recm convertido ) .
 O aspecto de ruptura que a filosofia analtica parecia

 apresentar ter surgido como particularmente apelativo para os filsofos que

 desenvolviam a sua actividade acadmica num contexto cultural europeu

 ( continental ) que tinha herdado do romantismo e do idealismo alemo uma ideia

 peculiar da filosofia que a identificava mais como uma prtica literria do que

 cientfica e que se cristalizou at na mentalidade popular no acadmica

 ( falamos de uma tradio que herdou do sculo dezanove a ciso entre as " duas

 culturas " ) .
 Mas  precisamente aqui que devemos enquadrar as razes da recepo

 da filosofia analtica por parte dos filsofos do continente num cenrio mais

 vasto e compreensivo .

 Lendo a obra de Jales Ribeiro , a ideia que prevalece relativamente ao que marca

 o confronto entre a filosofia analtica e a filosofia continental  o de que a

 primeira se apresenta como uma filosofia de ruptura , no apenas metodolgica

 mas , sobretudo , histrica , assumindo para si um caracter anistrico que

 colocava entre parntesis a tradio dos grandes problemas .
 As tpicas questes

 epistemolgicas e metafsicas que marcavam a filosofia continental seriam

 definitivamente assumidas como irrelevantes .
 No entanto , e como o prprio Jales

 Ribeiro assinala , este enquadramento clssico que assinala as diferenas entre

 as duas tradies filosficas  , no mnimo , anacrnico. Jales Ribeiro nota que :

 foi preciso esperar pelo final dos anos sessenta para que a nova

 filosofia da chamada " escola americana " reabilitasse geralmente ,

 do seu prprio ponto de vista , a importncia da problemtica

 epistemolgica e ontolgica , para que esse fosso [ entre a

 filosofia analtica e continental ] comeasse a diminuir. ( pag .

 142 )

 A esta constatao eu gostaria de acrescentar uma outra que , quanto a

 mim , se reveste de especial importncia no presente contexto .
 Sugiro

 que uma interessante inverso se operou nos modos como a tradio

 analtica e continental se posicionam relativamente  tradio e

 histria da filosofia .
 No perodo temporal a que Jales Ribeiro remete

 a ascenso da escola americana ( finais dos anos sessenta ) a filosofia

 analtica ter passado a representar a tradio filosfica enquanto

 que a filosofia continental ( com o advento do ps-estruturalismo e

 aquilo a que Luc Ferry e Alain Renaut classificaram como " o pensamento

 de 68 " ) assume uma postura de ruptura com essa mesma tradio .
 Autores

 influentes como Derrida , Deleuze , Foucault ou Lyotard , rompiam ( entre

 finais dos anos sessenta e princpios dos setenta ) com a filosofia

 tradicional , negando-se a si prprios , e de forma veemente , qualquer

 continuidade histrica a no ser com os casos atpicos de Nietzsche e

 Heidegger ( tambm eles desconstrutores do discurso filosfico

 tradicional ) .
 Foi contra este clima de niilismo histrico , conceptual

 e metodolgico intensamente vivido nas suas prprias tradies

 acadmicas que muitos filsofos do continente acolheram de bom grado a

 filosofia analtica .
 Para eles , a filosofia anglo-saxnica assumia

 mais a forma de uma Fnix renascida do que propriamente a criao ex

 nihilo de uma nova filosofia .
 Na verdade , no fora a contingncia

 histrica que justificou a sua adopo por parte dos filsofos do

 continente e a expresso " filosofia analtica " no passaria de uma

 mera redundncia .

 Mas de que falam os filsofos hoje ( particularmente os de origem

 continental ) quando falam em " filosofia analtica " ?
 Embora de um modo

 mais velado do que explcito , eles parecem adoptar o esprito e a

 letra da proposta histrica e conceptual desenvolvida por Michael

 Dummett .
 O horizonte de delimitao favorecido por Dummett parece

 conceder hoje ( e especialmente aos filsofos do continente ) o tal

 nicho auto-justificado e pr-estabelecido que conduz ao  horizonte

 reconfortante de trabalho filosfico  a que se refere Jales Ribeiro .

 Em particular , a abordagem de Dummett garante vrias comodidades

 intelectuais importantes : uma conciliao histrica entre a escola

 americana e inglesa , a eleio de Frege como fundador , o fornecimento

 de um objecto ( a linguagem ) e de um mtodo ( a anlise lgica ) .
  aqui

 que Richard Rorty emerge para , no presente contexto , justificar este

 entusiasmo dos filsofos ( especialmente os do continente ) pela

 filosofia analtica assim considerada .
  que , como nota Rorty , esta

 imagem da filosofia analtica fornece precisamente o garante da tal

 filiao histrica que a filosofia continental parecia ter abandonado

 e podia , assim , responder  nostalgia que os filsofos do continente

 sentiam :

 A filosofia " analtica "  mais uma variante da filosofia kantiana , uma

 variante marcada principalmente pela considerao da representao

 como mais lingustica do que mental , e da filosofia da linguagem

 em detrimento da " crtica transcendental " .
 ( Rorty , 1988 , 18 )

 A acentuao na linguagem como objecto de estudo e na anlise lgica

 como instrumento metodolgico parecem constituir-se como os postos

 fronteirios que guardam hoje o terreno da filosofia analtica na sua

 generalidade .
 Um curioso sintoma desta constatao  a capa do prprio

 livro de Jales Ribeiro que apresenta um " exerccio de lgica " ( uma

 rvore semntica ) ; uma discreta e subliminar remisso paratextual para

 o inconsciente colectivo da comunidade filosfica que urge em se

 qualificar como " analtica " .
 De resto ( como a citao de Rorty atesta )

 se Dummett elege Descartes ( e a filosofia moderna subsequente ) como

 alvo principal , tal fica a dever-se mais a uma diferente postura

 metodolgica ( a anlise da linguagem contra a anlise da conscincia )

 do que com uma verdadeira ruptura com os problemas que identificam a

 prpria filosofia enquanto disciplina .

 Mas a adeso a esta concepo dummetiana da filosofia analtica

 acarreta alguns custos .
 Lembremo-nos , antes de mais , que Dummett  ,

 ele prprio , um filsofo analtico que se embrenha num esforo de

 auto-clarificao e auto-justificao .
 A clssica questo deve agora

 ser colocada : pode a histria de um processo ou acontecimento ser

 escrita por um dos seus protagonistas ?
 Talvez , mas  uma trivialidade

 concluir que tal s  possvel mediante uma percepo tendenciosa ,

 redutora e dogmtica desse processo ou acontecimento ( o livro de Jales

 Ribeiro atesta precisamente este facto trivial ) .
 Tome-se o caso

 contrastante de Rorty para quem a filosofia analtica pereceu .
 Temos ,

 de novo , uma constatao que soa a trivialidade : a narrao histrica

 de um facto apenas faz sentido sob a forma de um epitfio redigido

 sobre o seu cadver .
 Uma histria que se elabora sobre os despojos de

 uma guerra tende a ser mais lcida e objectiva do que uma concebida no

 calor do conflito .
 Se considerarmos Dummett como um general que tenta

 inspirar confiana e auto-estima s suas tropas , temos razes para

 temer uma viso demasiado limitativa e plena de artifcios retricos

 conducentes a um dogmatismo estril .
 A partir das ilaes que a

 leitura do livro de Jales Ribeiro nos permite extrair , incorremos , de

 novo , no risco de reduzir " histria " a " manifesto " e de resvalar de

 novo para a situao autofgica atrs ilustrada com a metfora canina .

 Mas ter a filosofia analtica de assumir uma auto-concepo to

 restrita que a identifique com uma metodologia especfica que 

 erigida como estandarte ?
 Talvez no .
 Num admirvel artigo , Francois

 Recanati identifica e conceptualiza a filosofia analtica de um modo

 muito mais formal do que substantivo :

 A filosofia analtica s pode ser caracterizada se  que pode s-lo de

 todo por um certo esprito .
 De que esprito se trata ?
 Talvez ,

 muito simplesmente , do esprito cientfico !
 O esprito cientfico ,

 num sentido que falta definir , animava a filosofia at Kant , e os

 filsofos analticos afirmam frequentemente no o fazer passando

 sobre a reaco romntica dos " grandes " filsofos ps-kantianos

 que desvirtuaram o sentido do empreendimento filosfico ao

 precipitar o divrcio entre a cincia e a filosofia. ( Recanati ,

 1993 , 8 )

 Temos , de novo , explicitamente enunciado o desejo de se reencontrar a

 tradio filosfica perdida a partir do sculo dezanove .
 Mas ,

 contrariamente a Dummett , Recanati parece no reduzir esta filosofia

 reencontrada consigo prpria a um procedimento metodolgico particular

 que a auto-defina .
 Mas em que consiste o " esprito cientfico " a que

 Recanati alude e como se articula ele com uma certa forma de produzir

 filosofia ?
 Muito sucintamente , e segundo Recanati , o esprito

 cientfico manifesta-se na adopo de um discurso que tem em ateno a

 intersubjectividade em detrimento de outro fechado sobre a primeira

 pessoa .
 A via para essa intersubjectividade  a objectividade que o

 prprio discurso dever adoptar .
 A propsito de uma citao de

 Ajdukiewicz Recanati afirma o seguinte :

 Ajdukiewicz deduz da intersubjectividade caracterstica do trabalho

 cientfico duas obrigaes formais que se aplicam a priori a toda

 a filosofia de inspirao cientfica .
 Em primeiro lugar  preciso

 ser claro , quer dizer , literalmente compreensvel ; por outro lado

  preciso oferecer justificaes publicamente controlveis para as

 suas teses por exemplo , argumentos explcitos , cuja validade cada

 um possa comprovar por si mesmo .
 Mais do que algum elemento de

 doutrina ou algum mtodo particular , estas duas obrigaes formais

 parecem-me caractersticas da filosofia analtica. ( Recanati ,

 1993 , 10 )

 A partir desta observao , Recanati enuncia quatro caractersticas que

 assumem a marca identificadora da filosofia analtica :

 1 ) a clareza e sobriedade ; 2 ) o recurso a argumentos ; 3 ) a preciso , a

 mincia e o caracter explcito das teses e dos argumentos ; 4 ) a

 recusa de reduzir a filosofia  histria da filosofia ( ...
 ) todas

 estas caractersticas se prendem , de perto ou de longe , com o que

 chamei de " esprito cientfico " , definido pela

 intersubjectividade. ( Recanati , 1993 , 14 )

 Mesmo que a ideia de um discurso depuradamente objectivo seja um mito

 ( como o atestam , por exemplo , as discrepncias exegticas ,

 supostamente objectivas , acerca de um mesmo tema ou autor , tambm ele

 supostamente objectivo ) trata-se , no obstante , de uma quimera til e

 compensadora .
 Essa demanda por um estilo o mais objectivo possvel

 consiste , na leitura de Recanati , na marca indelvel que identifica a

 filosofia analtica .
 Desde que o estilo seja preservado , o contedo

 transmitido no pode nem deve caracterizar aquilo que a filosofia

 analtica  ou deve ser :

 A filosofia analtica , como disse , no se caracteriza nem por uma

 doutrina em particular , nem por um domnio de pesquisa , nem mesmo

 por um mtodo , mas apenas por um esprito ou por um estilo .

 ( Recanati , 1993 , 28 )

 Classifico esta postura face  filosofia analtica como liberal .
 Em

 contraste com a perspectiva dummetiana , no se reivindica um objecto

 ( a linguagem ) nem um mtodo ( a anlise lgica ) que circunscrevam os

 limites prprios do conceito " filosofia analtica " .
 Ao assumir uma

 atitude minimalista que faz remeter essa delimitao para um plano

 meramente formal , a postura liberal alarga dramaticamente os

 horizontes dessa delimitao conceptual .
 Em conformidade com este

 ponto de vista podemos consistentemente sugerir que Heidegger no era

 um filsofo analtico no tanto pelas teses que defendia mas pela

 linguagem crptica que utilizava .

 Parece que temos , assim , duas acepes diferentes em que o conceito de

 " filosofia analtica " pode ser reivindicado : um , a que designei como

 liberal e outro que , por oposio , classificarei como conservador ( a

 perspectiva a que tenho vindo a classificar como dummetiana ) .

 Colocam-se perante ns duas respostas possveis  questo " de que

 falamos quando falamos em " filosofia analtica " ?
 " .
 Se na prtica

 filosfica corrente nos pases anglo-saxnicos ( em particular nos

 Estados Unidos ) a tendncia se inclina mais para uma perspectiva

 liberal ( em que , alis , a expresso " filosofia analtica " tende a ser

 preterida pelo termo " filosofia " simpliciter ) , por outro lado , alguns

 filsofos ( especialmente no continente mas tambm nas ilhas

 britnicas ) reafirmam a prtica da filosofia analtica numa acepo

 mais conservadora e limitativa .

  curioso verificar que esta postura conservadora adopta uma

 perspectiva delimitativa e defensiva face a ameaas , no tanto

 externas ( como poderia ser a filosofia continental ) mas relativamente

 aquelas que se desenvolvem no seio da sua prpria tradio e que

 derivam das franjas da prtica filosfica mais liberal .
 Mais curioso

 ainda ,  constatar que  precisamente em nome da tradio filosfica

 ( mesmo que tal no seja enunciado explicitamente ) que tal delimitao

  reivindicada .
 Por exemplo num texto intitulado " Como  a filosofia

 analtica possvel ?
 " Simon Blackburn v precisamente no desenvolver do

 anti-fundacionalismo e naturalismo da escola americana ( Quine 

 particularmente visado ) o veneno letal que coloca seriamente em risco

 a integridade da j vetusta e respeitvel prtica da filosofia

 analtica ( ver Blackburn , 1998 ) .
 Esta atitude remete para o que j se

 tinha sublinhado anteriormente quanto  filiao cartesiana da actual

 filosofia analtica de pendor mais conservador .
 O tpico era ,

 recorde-se , o estabelecer de laos com a tradio filosfica .
 Este

 reenviar para a tradio no  inocente ; o que est aqui em causa no

  mais do que a prpria sobrevivncia da filosofia analtica qua

 filosofia face  voracidade naturalista que coloca em causa , no s os

 mtodos da filosofia analtica tradicional , mas a prpria filosofia

 enquanto disciplina autnoma .
 A filosofia analtica conservadora exibe

 aqui os seus limites de tolerncia , ao proibir o flirt cientfico de

 terrenos que supostamente lhe pertencem por direito prprio .
 

 precisamente neste movimento de conciliao com a tradio filosfica

 e com os seus problemas clssicos ( que segundo Jales Ribeiro

 justificam uma aproximao com a tradio continental ) que a filosofia

 analtica acaba por trair a sua prpria vocao histrica de ruptura

 e , em certa medida , de adopo do esprito cientfico que , pelo menos

 segundo Recanati , a caracteriza de modo fundamental .
 Justamente , o

 filsofo analtico liberal , embudo de esprito cientfico no se

 deixa atormentar com o potencial fim de certos problemas como sendo

 estritamente filosficos delegando-os , pelo menos em parte ,  cincia

 emprica .
  o prprio Recanati que , citando Russell , reala que

 historicamente algumas questes ancestrais e perenes do domnio da

 filosofia foram absorvidas pela prtica cientfica .
 De acordo com os

 escrpulos liberais , tal fenmeno , longe de constituir um crime de

 lesa majestade ,  um facto que devemos saudar em consonncia com a

 adopo do esprito cientfico .

 IV - De que falamos ento quando falamos em " filosofia analtica " ?
 Como

 sugeri no incio , esta  a questo de fundo que percorre toda a obra

 de Jales Ribeiro e com a qual me tentei confrontar nesta reflexo .

 Introduzi um elemento na discusso que Jales Ribeiro no contempla

 ( mas , como se constatar , para chegar s mesmas concluses ) .
 Esse

 elemento consistiu na averiguao da recepo da filosofia analtica

 por parte dos filsofos do continente .
 A concluso fundamental a que

 se chegou foi que estes estavam interessados numa certa reposio da

 tradio filosfica , mesmo que depurada pelo enfoque da filosofia

 analtica .
 Vimos como esse mbil pode ser atingido de duas formas

 diferentes : um reencontro meramente estilstico com a forma como se

 procedia ao inqurito filosfico at Kant ( a postura liberal ) , ou ,

 alternativamente , de um modo mais substantivo colocando o enfoque nos

 objectos e mtodos utilizados ( a postura conservadora ) .
 Cada uma

 destas posturas estabelece um enquadramento conceptual para a

 " filosofia analtica " podendo , assim , constituir-se como potenciais

 respostas para a questo colocada .

  a este nvel que a citao aparentemente iconoclasta de Jales

 Ribeiro acerca da pertinncia do prprio conceito de " filosofia

 analtica " faz todo o sentido .
 Tomemos ento a verso conservadora da

 filosofia analtica .
 Quando Jales Ribeiro sustenta que deveramos

 prescindir do prprio conceito de " filosofia analtica " uma vez que

 este assume uma significao histrica normativa , est a fazer eco da

 situao que atrs considermos que a adopo desta perspectiva

 acarretaria , ou seja , uma auto-limitao que acabaria por reduzir a

 " filosofia analtica " a mais uma escola com os inevitveis traos de

 dogmatismo associados a um tal equacionamento .
  precisamente contra

 esta inevitabilidade que Jales Ribeiro mobiliza os argumentos

 enunciados no seu livro e que culminam com a sugesto de abandonar o

 conceito de " filosofia analtica " .

 Por outro lado , a verso liberal da filosofia analtica  to vasta no

 seu alcance que no parece fazer muito sentido enfatizar positivamente

 o qualificativo " analtica " neste caso .
 Como atrs considermos , os

 resultados de um uso sistemtico e auto-justificativo da expresso

 " analtica " podem ser mais perniciosos do que benficos , funcionando

 como um espartilho conceptual de uma actividade intelectual que se

 deseja o mais emancipada possvel .
 Ser , concerteza , uma vantagem

 escapar ao acantonamento e arregimentao intelectual que uma

 auto-imposio conceptual acarreta .
 Se h moral a extrair da leitura

 do excelente trabalho de Jales Ribeiro ( no sendo seguramente a nica )

  a de que nos devemos prevenir contra as armadilhas a que um excesso

 de zelo filosfico nos pode levar a cair .
 Assim , torna-se difcil

 responder sinceramente  questo de saber do que falamos quando

 falamos em " filosofia analtica " .
 O melhor ser , porventura ,

 desencorajar a formulao da prpria pergunta .

 Obras citadas

 Blackburn , S. ( 1998 ) ; " Como  a Filosofia Analtica Possvel ?
 " , in

 Disputatio n  4 , pp 3-24 , traduo de Desidrio Murcho .

 Recanati , F. ( 1993 ) ; " Pela Filosofia Analtica " , in Crtica n  10 , pp

 5-38 , traduo de Fernando Martinho .

 Rorty , R. ( 1988 ) ; A Filosofia e o Espelho da Natureza , Publicaes Dom

 Quixote , traduo de Jorge Pires .

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