 A Primeira Certeza Cartesiana

 Georges Dicker

 A assuno mais bsica do Cogito  aquela que pode ser descrita pela

 teoria da substncia .
 Ela  uma resposta  questo filosfica ` o que 

 uma coisa ?
 ' A fim de entender a sua importncia , observe o seguinte

 argumento :

 Scrates  Scrates .

 Scrates  gordo .

 Scrates  sbio .

 Logo , um coisa ( Scrates )  muitas coisas .

 Esse  , obviamente , um argumento falso .
 Por qu ?
 Porque o sentido do

 `  ' na primeira premissa  diferente do `  ' das outras premissas .
 Como

 dizem os lgicos , o primeiro  um `  de identidade ' , enquanto os

 demais so um `  de predicao ' .
 O  de identidade  usado para

 afirmar que um item designado  uma e mesma entidade , como por

 exemplo , ` a estrela da manh  a estrela da tarde ' .
 O  de predicao

  usado para atribuir uma caracterstica ou propriedade a uma coisa ,

 como em ` Vnus  redonda ' .
 De um ponto de vista metafsico , a

 distino se d entre uma coisa e uma caracterstica ou propriedade .

 Scrates designa um coisa .
 Mas ` gordo ' ou ` sbio ' no designam coisas ;

 eles designam propriedades .
 O que o argumento falacioso faz  explorar

 esses dois sentidos , misturando-os num mesmo argumento .
 Para dirimir a

 falcia , basta que se introduza a distino em questo .

 Tendo feito a distino ontolgica entre propriedade e coisa , pode-se

 retornar  questo ` o que  uma coisa ?
 ' H duas respostas diferentes e

 opostas a tal questo .
 A teoria dos fragmentos , de um lado , sustenta

 que uma coisa  meramente uma coleo de propriedades coexistentes .

 Por exemplo , uma ma no  nada seno a somatria de sua

 esfericidade , vermelhidade , e assim por diante .
 De outro lado , temos a

 teoria da substncia , que sustenta que uma coisa  composta de vrias

 propriedades mais uma substncia subjacente a qual essas propriedades

 pertencem .
 A ma , segundo essa viso ,  composta no apenas das

 propriedades j mencionadas mas tambm de uma substncia subjacente na

 qual todas essas propriedades inerem .
 A teoria dos fragmentos foi

 defendida por filsofos empiristas , como Berkeley e Hume , ou mesmo

 Bertrand Russell .
 A teoria da substncia foi sustentada por

 Aristteles e muitos dos medievais .
 No perodo moderno , ela foi

 defendida por Descartes , Spinoza e Leibniz .
 Bom , por que Descartes no

 adotou a teoria dos fragmentos ?

 A resposta a essa pergunta pode ser colhida a partir da observncia do

 que  chamado de ` argumento da mudana ' .
 Esse argumento , j encontrado

 em Aristteles ,  adotado por Descartes no exemplo do pedao de cera .

 Suponha , diz Descartes , que eu aquea um pedao de cera que acaba de

 ser tirado da colmeia .
 Quando eu aqueo a cera , suas propriedades

 mudam : sua solidez  substituda por uma textura suave .
 Sua figura se

 altera , sua grandeza aumenta , e assim por diante .
 No entanto um e

 mesmo pedao de cera ainda existe apesar de todas essas mudanas .
 Por

 que isso  assim ?
 Por que no dizer que a cera deixou de existir e uma

 outra cera , ou outro objeto , comea a existir ?
 A resposta proposta

 pelo argumento da mudana  que , embora as propriedades da cera

 mudaram , a substncia subjacente no mudou .
 Uma e mesma substncia

 ainda existe , e continua a existir atravs do processo de mudana .

 Essa teoria tem sido descartada por vrios filsofos .
 A sua principal

 dificuldade  que substncia  algo imperceptvel .
 Imagine , por

 exemplo , que voc deseje ver a substncia de um bloco de madeira .
 Para

 tanto , voc lana mo de uma serra e comea a serrar camadas de

 madeira .
 O que voc v ento ?
 Bem , voc v um novo conjunto de

 propriedades , um novo tamanho , um novo formato , uma nova cor talvez .
 

 bvio que serrar uma outra camada no lhe dar nada seno mais

 propriedades .
 Voc no conseguir obter a substncia da madeira ao

 serr-la .
 No importa quantas camadas voc serre , a nica coisa que

 voc encontrar sero novas propriedades .
 Esse tipo de exemplo mostra

 que substncia no  algo que possa ser percebido .
 Substncia  , por

 definio , imperceptvel .
 Por essa razo filsofos empiristas como

 Hume tornaram-se bastante crticos com relao  teoria da substncia .

 Mas , para efeitos de entender melhor a estrutura do Cogito , vamos

 admitir que a teoria da substncia  vlida .
 Antes de ver como a

 teoria da substncia sustenta o Cogito cartesiano , precisamos entender

 dois pontos .
 Primeiro , na discusso do pedao de cera , Descartes no

 est de repente assumindo que os objetos fsicos existem .
 Somente na

 Meditao Sexta Descartes suplantar as dvidas que dizem respeito 

 existncia do mundo fsico .
 Assim , toda a discusso da cera na

 Meditao Segunda  hipottica .
 Descartes est considerando a seguinte

 questo : se coisas fsicas existissem , como elas seriam ?
 Em segundo

 lugar , embora o argumento da mudana e a teoria da substncia sejam

 melhor compreendidos a partir de exemplos de objetos fsicos tais como

 a cera , Descartes tem em mente aplicar o mesmo tipo de raciocnio a

 coisas puramente mentais ou espirituais que ele chamar de mente ou

 alma .
 Nesse ponto das Meditaes , Descartes ainda no estabeleceu o

 que depois ele tentar provar , qual seja , que a mente  uma substncia

 puramente mental ou imaterial .
 Assim , a fim de no interpretarmos mal

 Descartes ,  crucial perceber que , para ele , o argumento da mudana e

 a teoria da substncia se aplicam tanto a coisas materiais quanto a

 coisas imateriais .
 Realmente , seu uso da cera como um exemplo do

 argumento da mudana se explica pelo fato de que Descartes prefere

 recorrer a exemplos de fcil acesso .
 Mas ele tambm d exemplos de

 coisas imateriais .
 Em seu Resumo das Meditaes , ele diz :

 " a mente humana  uma substncia pura .
 Pois mesmo se todos os

 acidentes da mente mudarem , de modo a ter diferentes objetos , ela

 no se transforma numa outra mente " .

 Tendo dito isso , voltemos para a questo da estrutura do Cogito em

 relao  teoria da substncia .
 Com base nesta ltima , podemos dizer

 que :

 1 .
 uma coisa  composta de propriedades ou caractersticas mais uma

 substncia a qual elas pertencem .

  preciso mencionar que uma substncia se define como sendo uma

 entidade que poderia existir independentemente de todas as outras .
 Ao

 mesmo tempo , os acidentes no podem existir sem uma substncia .
 No

 pode haver um acidente flutuante , independente de uma substncia .

 Disso se segue que

 2 .
 Se h uma propriedade , ento tem deve haver uma substncia a qual

 essa propriedade pertence .

 Essa segunda premissa  encontrada na resposta s Quartas Objees :

 " Atributos precisam inerir algo se eles devem existir " .
 Do mesmo modo ,

 nos Princpios da Filosofia , Descartes diz :

 " o nada no possui quaisquer propriedades .
 Segue-se que , onde quer que

 encontremos atributos ou propriedades , haver necessariamente algo

 enquanto substncia sustentando essa propriedade " .

 O terceiro passo , ou a terceira premissa ,  a seguinte :

 3 .
 Um pensamento  uma propriedade .

 Para Descartes , o pensamento de uma pessoa a respeito de uma ma se

 relaciona a essa pessoa da mesma maneira que a cor da ma se

 relaciona com  ma .
 Qual o argumento para isso ?
 No  fcil dizer

 porque um pensamento no poderia ser uma substncia .
  claro que , se

 se assume a viso dualstica de Descartes , de acordo com a qual a

 mente  uma substncia mental que pode existir  parte de qualquer

 coisa fsica , ento  possvel argumentar que essa substncia tem

 algumas propriedade e que essas propriedades devem ser mentais e no

 fsicas .
 Ora , se se admite que os nicos itens mentais disponveis so

 os pensamentos ,  claro que os pensamentos nada mais so do que

 propriedades da mente substancial .
 Mas essa linha de argumento no

 pode ser vlida .
 At esse ponto Descartes est tentando provar a sua

 existncia , que ainda no foi estabelecida .
 E se ela no foi

 estabelecida , muito menos o seu dualismo o foi .

 Mas  possvel salvar Descartes aqui .
 Uma substncia  algo que pode

 adquirir ou perder propriedades e permanecer a mesma substncia .
 Mas

 ser que um pensamento poderia adquirir ou perder propriedades e

 permanecer o mesmo pensamento ?
 Parece que no .
 Por exemplo , eu penso

 num navio com uma chamin e ento penso num navio com duas chamins .

 Claramente , estou pensando diferentes pensamentos , e no um mesmo

 pensamento que mudou de propriedades .
 Se assim  , quer dizer , se

 assumimos o argumento da mudana e a teoria da substncia , ento

 pensamentos so propriedades .

 Se as premissas anteriores so verdadeiras , ento se segue que

 4 .
 se h um pensamento , ento h uma substncia a qual essa

 propriedade pertence .

 "  certo " , diz Descartes , " que um pensamento no pode existir sem uma

 coisa que est pensando ; e em geral nenhum ato ou acidente pode

 existir sem uma substncia ...
 " .

 Bom , a questo agora  descobrir se h uma propriedade .
 No momento em

 que se descobrir uma propriedade , ento ela no pode estar sozinha .

 Ora ,

 5 .
 h um pensamento .

 O gnio maligno pode me enganar com respeito a tudo , menos que eu

 estou pensando .
 Ele pode me enganar que existe o mundo , que existe

 este corpo que ora vejo interagindo com outros corpos no mundo , mas no

 momento em que penso estar pensando , eu estou pensando , quer dizer , h

 uma propriedade .
 Segue-se , pois , de 1 a 5 que

 6 .
 H uma substncia a qual esse pensamento pertence : ` eu ' .

 Essa concluso tem sido combatida de diferentes modos .
 Vejamos algumas

 delas .
 Vamos comear com uma questo que foi levantada por Gassendi ,

 nas Quintas Objees .

 " Eu no vejo porque voc precisa de todo esse aparato , quando em

 outros momentos voc estava certo de que existia .
 Voc poderia ter

 feito a mesma inferncia de qualquer uma de suas outras aes , uma

 vez que  sabido atravs da luz natural que o que quer que age

 existe " .
 ( ATVII 259 ) .

 A resposta de Descartes  a seguinte :

 " Eu no posso , por exemplo , inferir ` Eu estou andando , portanto

 existo ' , exceto na medida em que a conscincia do andar seja um

 pensamento .
 A inerncia  certa somente se aplicada a essa

 conscincia , e no ao movimento do corpo que s vezes - como no

 caso dos sonhos - no est ocorrendo de modo algum , apesar do ato

 que eu pareo a mim mesmo estar andando " .
 ( ATVII 352 ) .

 Descartes estabelece aqui pelo menos dois pontos : 1 ) ` Eu estou

 andando ' e outras afirmaes de minhas aes fsicas no so certas ;

 2 ) ` Eu estou pensando ' e afirmaes mais especficas de meus prprios

 pensamentos ( como por exemplo ` eu penso que estou andando ' ) so

 certas .
 Essa  a razo pela qual ` eu estou pensando ' , e no ` eu estou

 andando ' , pode ser usada como um premissa para o Cogito .
 Enquanto o

 primeiro ponto j fora estabelecido na Meditao Primeira , o segundo

 traz algo de novo .
 Ele nos leva para alm das dvidas da Meditao

 Primeira e introduz uma das doutrinas cartesianas mais influentes e

 importantes , a saber , a de que cada um de ns tem um conhecimento

 absolutamente certo e indubitvel de nossos pensamentos .
 A doutrina

 cartesiana no defende meramente a idia de que ` eu estou pensando ' 

 certo para cada um de ns ; ela  mais ampla que isso .
 A doutrina  que

 todas as crenas , afirmaes ou juzos sobre nossos prprios

 pensamentos goza de uma certeza especial que as fazem imunes s

 dvidas cticas da Meditao Primeira .
  assim que , no final da

 Meditao Segunda , ele usa o argumento ` eu julgo que o pedao de cera

 existe , portanto eu existo ' .
 E tambm no livro " A Procura da Verdade "

 ele diz ` duvido , logo existo ' .

 Se essa primeira objeo  facilmente descartada por Descartes , o

 mesmo no se pode dizer da segunda objeo .
 Segundo ela , a dificuldade

 bsica com respeito a essa afirmao  a seguinte .
 O que legitima

 Descartes a usar o pronome ` eu ' na premissa de sua prova ( isto  ` eu

 estou pensando ' , ou ` eu penso ' ) ?
 O uso de tal pronome pressupe

 exatamente aquilo que ele est supostamente provando , a saber , que ele

 existe .
 Assim , o argumento do Cogito parece ser circular , pois assume

 como premissa a prpria concluso que requer prova .

 Bertrand Russell tenta resolver esse problema .
 Ele sugere que o ` eu '

 de ` eu penso ' ou ` eu estou pensando ' deve ser considerado apenas como

 uma convenincia gramatical , e no como um termo que se refere a algo

 que existe como sendo distinto do pensar .
 Afinal de contas , no seria

 gramaticalmente correto para Descartes expressar a premissa do Cogito

 meramente como ` pensar ' ou ` pensando ' .
 O ` eu '  requerido a fim de que

 se estruture uma sentena gramaticalmente completa .
 O ` eu ' no precisa

 portanto se referir a algo existente .
 A sentena ` eu penso ' pode ento

 ser gramaticalmente comparada  sentena ` chove ' , por exemplo .
 Desse

 modo , sugere Russell , a premissa do Cogito , estritamente falando ,

 afirma apenas ` h um pensamento ' ou ` um pensamento est ocorrendo

 agora ' .
 Se essa premissa substituir a premissa ` eu estou pensando ' ,

 ento o argumento no  mais circular .
 Infelizmente , a sugesto de

 Russell no resolve o problema .
 No  valido argumentar que ` h um

 pensamento , portanto eu existo ' .
 Suponha que eu tenha cessado de

 existir mas outra pessoa estivesse pensando .
 Se assim fosse , a

 premissa seria verdadeira e a concluso falsa .
 Nem adiantaria

 adicionar a premissa ` se h um pensamento , ento eu existo ' , pois o

 mesmo contra-argumento mostra que isso  falso .

 Assim , o problema do Cogito  que , se ns conservamos a famosa

 formulao ` eu penso , logo eu existo ' , ento o argumento  circular ,

 enquanto que se adotamos a formulao de Russell , ` h um pensamento ,

 ento eu existo ' , ento o argumento torna-se invlido .
 Assim , o Cogito

 parece de qualquer modo como tendo sido estabelecido atravs de um

 argumento inconsistente .
 Alguns filsofos , motivados por esse

 problema , tentaram interpretar o Cogito de um modo pouco convencional .

 Por exemplo , Hintikka , em seu famoso artigo ` Cogito ergo sum :

 Inference or Performance ?
 ' , defendeu a idia de uma interpretao

 performatria , e no inferencial do Cogito .
 Brevemente , a idia de

 Hintikka  a seguinte .
 Suponha que voc tente duvidar da sua prpria

 existncia .
 Voc vai imediatamente descobrir que isso  impossvel ,

 porque na tentativa mesma de pensar que talvez voc no exista , sua

 existncia  pressuposta .
 Alm disso , a certeza de que voc existe no

  baseada em nenhum argumento , mas sim no ato ou ` performance ' de

 tentar duvidar de sua existncia , um ato que causa sua existncia ,

 quase como o fato de que dedilhar as cordas do violo causa a melodia .

 Essa interpretao , porm , padece de pelo menos dois defeitos .
 O

 primeiro  o seguinte .
 Ele torna a certeza de que eu existo dependente

 de um nico e especfico pensamento , a saber , a tentativa de duvidar

 da prpria existncia .
 Mas , como fica claro na Meditao Segunda ,

 Descartes defende a idia de que qualquer pensamento , independente de

 seu contedo , estabelece a existncia .
 O segundo consiste em verificar

 a estrutura do Cogito novamente .
 Quando se pergunta exatamente porque

 tentar duvidar da prpria existncia me causa a certeza de que existo ,

 a nica resposta clara parece ser a de que eu aceito o argumento ` se

 eu tento duvidar de minha existncia , ento eu existo ; eu estou

 tentando duvidar de minha existncia ; portanto eu existo ' .
 Isso parece

 ser plausvel .
 No entanto , esse raciocnio faz com que abandonemos a

 idia do Cogito ` performativo ' , pois o reduz a um argumento

 ` inferencial ' no final das contas .

 Ora , o fracasso de todas as tentativas de reabilitar a passagem de 5

 para 6 aponta para o prprio fracasso de Descartes em provar a prpria

 existncia .
 Nada no argumento acima reconstrudo o legitima a chamar a

 substncia cuja existncia  derivada no ltimo passo do argumento de

 ` eu ' .
 Quando muito o argumento prova a existncia de uma substncia

 pensante .
 Mas ele no prova que essa substncia  o ` eu ' .
 O pronome

 pessoal ` eu '  introduzido de um modo totalmente gratuito .
 Nesse

 momento cabe recordar a crtica de Antonny Kenny a Descartes :

 " mesmo se assumirmos o princpio ( expresso em 2 ) , parece haver alguma

 dvida se a concluso  de fato ` sum ' .
 Ser que Descartes no 

 precipitado em batizar a substncia na qual as dvidas da

 Meditao Primeira inere de ` ego ' ?
  claro que ele afirma no

 estar ainda comprometido com uma doutrina sobre a natureza desse

 ` ego ' ...
 Mas o que o ` eu ' denota deve pelo menos ser distinto do

 que o ` tu ' denota ; do contrrio o argumento pode muito bem ser

 ` cogitatur , ergo es ' ( h um pensamento ocorrendo , logo algo

 existe ...
 ) Ser que Descartes tem o direito de fazer uma assuno

 como esta sobre a substncia na qual esses pensamentos inerem ?
 "

 H um ltimo ponto que gostaria de colocar .
 Vamos admitir que no haja

 nenhum problema estrutural na passagem de ` eu estou pensando ' para ` eu

 existo ' .
 Vamos supor que tudo o que at agora foi dito possa ser de

 algum modo resolvido .
 Mesmo assim , creio que essa passagem no se

 justifica .
 O argumento que mostra isso , levemente inspirado em

 Anscombe ,  o seguinte .
 Suponha que voc esteja com dor e diga a si

 mesmo : ` eu estou com dor ' .
 Suponha que , logo depois disso , voc esteja

 triste e diga a si mesmo : ` eu estou triste ' .
 Finalmente , com base na

 dor sentida e na tristeza que lhe advm voc diga : ` eu estou com dor e

 estou triste ' .
 Para que se possa chegar a essa ltima afirmao , 

 necessrio detectar um premissa escondida , a saber , ` o eu da primeira

 e o eu da segunda so idnticos ' .
 Mas para isso  necessrio que se

 tenha um argumento para demonstrar a identidade desses dois eus .

 Bom , vamos voltar a Descartes .
 Ele diria que essas afirmaes nada

 mais so do que pensamentos .
 Na verdade , eu penso estar com dor ,

 depois eu penso estar triste , depois eu penso que estou com dor e

 triste .
 Ora , como Anscombe pergunta , ` como eu sei que eu no sou dez

 pessoas pensando em unssono ?
 ' Agora vejamos novamente a passagem do

 ` eu estou pensando ' para o ` eu existo ' .
 Estes so tambm dois

 pensamentos .
 Ora , para que o raciocnio ` eu estou pensando , logo eu

 existo ' seja vlido ,  necessrio observar o pressuposto por trs

 dele , quer dizer , o de que o primeiro eu  idntico ao segundo .
 Ora ,

 Descartes no fornece nenhum argumento para demonstrar a identidade

 desses dois eus .
 Logo , nada parece validar o raciocnio em questo .

  claro que Descartes tem uma resposta para essa objeo .
 Ele diria

 que ` eu estou pensando ' e ` eu existo ' no so dois pensamentos

 distintos .
  por isso que ele insiste no fato de que o Cogito no 

 uma inferncia , mas um intuio .
 Nele no se vai de determinadas

 premissas para uma concluso , como numa prova lgica .
 Antes , o Cogito

  concebido como nos remetendo  concluso sem passos intermedirios .

 Alm disso , Descartes  cuidadoso ao esclarecer que a intuio do

 Cogito no se d de um instante de tempo a outro .
 O ` eu existo ' 

 vlido " enquanto eu pensar ser alguma coisa " .
 Descartes ento diria

 que , na objeo acima , eu pressupus que ` eu estou pensando ' se deu em

 t1 e ` eu existo ' em t2 .
 Mas isso , segundo ele , no  correto .

 A trplica a essa rplica  a seguinte .
 Se o Cogito  uma intuio e

 no uma inferncia , e se ` eu estou pensando ' e ` eu existo ' ocorrem num

 mesmo instante de tempo , ento ns voltamos ao ponto de partida .
 Com

 que direito ele usa o primeiro ` eu ' , ou o eu de ` eu estou pensando ' ?
 E

 se adotamos a sada de Russell , ento o mximo que conseguimos , como

 Kenny nos mostra ,  uma concluso do tipo ` se h pensamento , h uma

 substncia que o sustenta ' .
 Mas essa concluso no  a mesma de 6 .
 O

 que nos legitima a ir de ` h uma substncia que o sustenta ' para ` eu

 existo ' ?

 ( traduo adaptada de Marco Antonio Frangiotti de

 Dicker , G. ( 1993 ) : Descartes : An Analytical and Historical

 Introduction ,

 Oxford : Oxford University Press , pgs. 13-35 )

