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 Escola de Frankfurt e Pragmatismo em Espelhos

 Paulo Ghiraldelli Jr .

 A Era da Experincia

 Tanto os frankfurtianos quanto os pragmatistas trouxeram de Friedrich Hegel

 ( 1770-1831 ) a vontade de eliminar os dualismos da filosofia anterior a ele .

 Incomodava-os muito o dualismo entre esprito e matria .
 A soluo hegeliana de

 tal problema se fez por meio da construo de um sistema metafsico onde tudo

 que h  da ordem do espiritual .
 Entre outros , um problema epistemolgico

 central aos modernos ficou resolvido : podemos conhecer o mundo atravs de nosso

 esprito ou pensamento , pois o mundo no  diferente de ns , ele prprio  da

 ordem do espiritual , da ordem do pensamento , independentemente de sua aparncia

 exterior .

 Essa foi uma boa sada ?

 Tanto para os frankfurtianos quanto para os pragmatistas , tal sada de Hegel

 no pareceu satisfatria .
 Eles no conseguiam ver o mundo , aps Karl Marx

 ( 1818-1883 ) ( para os primeiros ) e Charles Darwin ( 1809-82 ) ( para os segundos ) ,

 como algo exclusivamente da ordem do esprito .
 Frankfurtianos e pragmatistas

 preferiram ficar com Hegel somente no que se refere  unificao ontolgica - o

 mundo de fato no seria de dupla ordem .
 Mas resolveram tomar a unificao sob a

 gide do materialismo e do naturalismo - materialismo na terminologia dos

 frankfurtianos , naturalismo na dos pragmatistas .

 Os motivos para no aceitar Hegel na totalidade foram vrios .
 Para os

 pragmatistas , a questo era a de no negar as cincias naturais .
 O pensamento ,

 ou seja , o esprito , segue regras da lgica , e o mundo natural segue leis

 causais - assim ensinava e ensina a cincia .
 Os pragmatistas no viram como

 contrari-la .
 Para os frankfurtianos , a questo era at mais poltica que

 metafsica ou cientfica .
 Eles entendiam que um mundo unificado e totalizado

 metafisicamente poderia ser uma descrio propcia  legitimao de um mundo

 tambm unificado e totalizado politicamente - e eles vieram acreditar que tal

 coisa , com a experincia do nazismo e do comunismo , era o que de pior poderia

 ser feito .

 Como , ento , criar uma narrativa geral do mundo em que os dualismos poderiam

 desaparecer sem que , com isso , se tivesse como resultado uma massa homognea ,

 que no permitiria a diferena ?
 Os frankfurtianos e os pragmatistas se voltaram

 para o que seria a mediao entre as dualidades : a experincia .
 Corpo e mente ,

 matria e esprito , natureza e idia - todos esses elementos poderiam , mesmo

 diferentes , interagir em um mesmo mundo se fosse possvel a criao de um campo

 comum .
 No a criao de algo externo , mas a confeco de um elemento comum

 tecido pelos participantes .
 A experincia era o tal elemento comum .
 O

 pragmatismo de John Dewey ( 1859-1952 ) a tomou de modo positivo , e a integrou em

 uma cosmologia .
 Os frankfurtianos Max Horkheimer ( 1895-1973 ) e Theodor Adorno

 ( 1903-1969 ) a tomaram negativamente , no campo da filosofia social : o que se

 poderia falar dela era apenas a impossibilidade dela ocorrer em um mundo que

 havia sido racionalizado nos moldes do nosso mundo .

 Os pragmatistas tentaram explicar a experincia .
 Os frankfurtianos tentaram

 dizer como ela no mais ocorria .
 A noo de experincia , ainda que de modos

 diferentes , levou ambas as escolas de filosofia a notar de modo especial o

 campo prtico .
 Uma vez que a experincia  a interao entre elementos , e dado

 que a interao  uma ocorrncia , no foi difcil dizer que a filosofia deveria

 ver como aquilo que ocorre efetivamente ocorre , ou seja , como acontece a

 prtica .

 Aqui , faz-se necessrio remeter a uma outra comparao , entre marxismo e

 pragmatismo .

 O marxismo e o pragmatismo comungam uma tese : a filosofia terica tem de pagar

 um preo  importncia da filosofia prtica .
 As " Teses contra Feurbach " , de

 Marx , apontaram para uma possvel viso proto-pragmatista .
 Na segunda tese ,

 Marx escreveu que " a questo de se a verdade objetiva pode ser atribuda ao

 pensamento humano no  uma questo de teoria mas uma questo prtica ". [ 1 ] Mas

 no mesmo texto , havia uma outra posio , em favor da possibilidade de se

 alcanar uma objetividade do tipo da que se fazia notar no que eram as cincias

 naturais nascentes , e isso criava uma tenso entre objetivismo cientificista e

 pragmatismo .
 O marxismo , principalmente com Lnin , optou pela primeira forma ,

 mas revestida pela segunda. [ 2 ]

 O marxismo , ento , se desenvolveu perseguindo a idia de que o xito prtico

 era um avaliador , de modo que tal parmetro  que conferiria o poder de batizar

 os enunciados e as teorias com os adjetivos " verdadeiro " e " falso " -

 objetivamente .
 Assim , tanto uma filosofia da histria quanto uma teoria de

 estratgia poltica vieram a ficar consagradas , principalmente aps 1917 , com o

 xito da Revoluo Russa .
 A filosofia da histria teleolgica , que dizia que a

 revoluo comunista iria proporcionar a passagem de uma etapa da histria - a

 de domnio da burguesia - para uma outra etapa superior - a de domnio do

 proletariado e , ento , o fim de todo o domnio por causa da extino da diviso

 de classes - ganhou adeptos quase que como uma religio .
 E as estratgias de

 Lnin , de criao de um tipo de partido de vanguarda , inclusive militarizado ,

 se tornaram o modelo a ser seguido por quem dissesse que queria o comunismo .

 Juntas , filosofia da histria marxista e doutrina da estratgia poltica

 leninista , se tornaram " cincia " - possuam a objetividade que a cincia

 requer .
 Tal objetividade era dada pela prtica , que havia se tornado sinnima

 de xito histrico .

 Os frankfurtianos no tardaram em desconfiar que tal juno no iria chegar a

 um bom termo .
 Muito do que escreveram foi no sentido de atacar as idias de

 submisso da teoria  prtica .
 Condenaram o " pragmatismo " do marxismo-leninismo

 e , com isso , todo e qualquer pragmatismo .
 Talvez isso tenha conduzido

 Horkheimer e Adorno a uma avaliao grosseira da filosofia estadunidense - o

 pragmatismo americano .
 Horkheimer , especialmente nos escritos de meados dos

 anos quarenta , enveredou por ataques a John Dewey , estendendo-os a William

 James ( 1842-1910 ) e de certa forma a Charles Peirce ( 1849-1914 ). [ 3 ] Mas , seria

 o pragmatismo de James e Dewey realmente o criador de uma apologia da

 prtica-como-xito ?
 Seria o pragmatismo a face defeituosa do marxismo ?

 O modo como James argumentou sobre sua doutrina da verdade poderia , a meu ver ,

 conduzir a uma outra avaliao .
 James formulou sua doutrina um sem nmero de

 vezes , adotando vrias maneiras sintticas de dizer o que queria dizer .
 A

 formulao mais feliz , e meu ver , foi a seguinte : " ` o verdadeiro ' , para colocar

 de modo breve ,  apenas o expediente no modo do nosso pensamento , exatamente

 como ` o certo '  apenas o expediente no modo de nosso comportamento ". [ 4 ] Ou

 seja , quando o comportamento de algum merece aprovao , o expediente que

 usamos  " certo " , isto  , o que  conveniente dizer  " certo " ; quando algum

 pensa ( ou diz ) algo que merece concordncia , o expediente que usamos 

 " verdadeiro " , isto  , o que  conveniente dizer  " verdadeiro " .
 O termo

 " verdadeiro " fica equivalente ao termo " certo " , e serve para que nossa

 comunicao se efetive .

 Fica claro , aqui , que o termo " verdadeiro " , na acepo de James , pode ser usado

 independentemente da prtica-como-xito .
  um termo , inclusive , de aposta : se

 algum diz , diante de um mar revolto , " No vamos entrar no mar hoje , podemos

 nos afogar " ( teoria 1 ) , e vrias outras pessoas dizem o mesmo , no h razo de

 eu dizer " verdadeiro " para um nico discordante que fala : " Que nada !
 J entrei

 nesse mar dessa maneira e nada aconteceu , no vamos nos afogar coisa alguma "

 ( teoria 2 ) .
 Ficamos inclinados em dizer " verdadeiro " para a primeira frase e

 " falso " para a segunda .
 Mas em nenhum momento h de se ver se um mar assim

 mostrado afoga ou no as pessoas para , ento , dizer que a teoria 1 que afirma

 que o mar revolto mata  objetivamente verdadeira , e que a teoria 2  falsa -

 isso seria uma tolice em todos os sentidos .

 Essas questes eram delicadas - ainda so .
 O bero grego explica um pouco

 certos problemas entre marxismo e pragmatismo .
 Ambas as correntes filosficas

 reivindicaram termos gregos como centrais para suas doutrinas de verdade e

 objetividade : prxis e pragma .
 Se vamos ao leito grego , lembramos que tanto

 prxis ( praxiV ) quanto pragma ( pragma ) vm de prasso ( prassw ) , todavia , no

 desenvolvimento de tais termos , prxis tendeu a indicar a prtica , enquanto que

 pragma tendeu a indicar a ao , o feito .
 Essa peculiaridade semntica se

 adaptou bem s conotaes utilizadas pelo marxismo , para prxis , e pelo

 pragmatismo , para pragma .

 A prtica , no marxismo ,  teleolgica , segundo a idia de Marx de que o pior

 arquiteto  melhor que a melhor aranha , pois o arquiteto imagina e planeja

 antes o que vai executar , enquanto que a aranha apenas executa .
 O trabalho do

 arquiteto tem um telos .
 Essa idia do telos se aplica ao modo como Marx avaliou

 as revolues de seu tempo , e o como ele via a possibilidade de uma revoluo

 para alm de seu tempo .
 A revoluo burguesa teria ocorrido sem preparao .
 A

 revoluo socialista-comunista ocorreria com preparao , com objetivo prvio -

 ela estaria bem calada por uma filosofia da histria .

 No pragmatismo , o feito , as ao , tende a ser espontnea , e no  apenas do

 homem sobre a natureza e outros homens , mas  ao de todos os elementos do

 cosmos sobre todos os elementos do cosmos .
 A cosmologia relacionalista do

 pragmatismo no permite a idia de fixao de um telos a partir de uma

 filosofia da histria .

 Assim , experincia , no pragmatismo , nada mais  que a relao dos elementos do

 cosmos entre si .
 Quando tal experincia se d com o homem , ela ganha camadas de

 re-significao. Dewey chamava tal re-significao da experincia de " vida " e ,

 especialmente , " vida humana " , e quando preparada e cuidada , ele a denominava

 educao. [ 5 ]

 Para os pragmatistas , a idia de remeter as avaliaes sobre pensamentos ,

 sentenas e teorias como verdadeiras ou falsas para o campo prtico , ou seja ,

 para o campo onde o que fizesse diferena na prtica faria diferena na teoria ,

 decorreu da escolha que eles fizeram a respeito de quebrar as dualidades

 metafsicas por meio da experincia .
 Muitos marxistas se viram confusos diante

 disso , e no raro tentaram atabalhoadamente diferenciar o que seria prtica no

 marxismo e o seu correspondente no pragmatismo , como foi o caso de Antonio

 Gramsci ( 1891-1937 ) .
 Tambm , nessa trilha , quiseram desqualificar a noo de

 experincia dos pragmatistas afirmando que ela remetia  noo de experimento

 antes que experincia .
 Mas experience em John Dewey , como bom leitor de Hegel

 que ele foi , no era utilizada em uma s acepo , mas na acepo rica que , na

 lngua alem , aparece grafada como Erfahrung e Erlebnis , respectivamente

 experincia histrica , individual e coletiva , e vivncia ou experincia

 psquica .

 Todavia , ainda que consideremos essa riqueza do pragmatismo , ele no poderia

 escapar dos ataques de Horkheimer e Adorno uma vez que esses frankfurtianos

 consideravam como acrtico aqueles filsofos que no viessem a reconhecer o fim

 da possibilidade de toda e qualquer experincia .
 O trabalho filosfico de

 Adorno foi , em grande medida , uma considerao sobre experincias que teriam

 ocorrido no passado ( um passado tomado , no raro , de modo trans-histrico -

 alis , toda a fixao de perodos na filosofia frankfurtiana 

 trans-histrica ) , na entrada da modernidade liberal , e que haviam sido

 impedidas , impossibilitadas na " modernidade tardia " .

 A Era da Linguagem

 Ao compararmos o ataque de Horkheimer a Dewey com as relaes atuais entre o

 pragmatista Richard Rorty e o frankfurtiano Jrgen Habermas ( ou entre Habermas

 e outro pragmatista , to famoso quanto Rorty , Hilary Putnam ) , diramos que o

 perodo de farpas terminou .
 No ,  claro , sem uma demarcao de territrio .

 A primeira demarcao de territrio pode ser vista nas avaliaes de ambos , em

 relao s tradies opostas .

 Habermas se aproximou do pragmatismo , lendo e usando Peirce .
 Avaliou Dewey de

 modo relativamente positivo .
 Habermas manteve , ainda que de modo passageiro , a

 avaliao frankfurtiana de que Dewey confiou demais nos poderes da civilizao

 quanto  sua capacidade de manejar a natureza e , por isso mesmo , no

 desenvolveu uma crtica da ` razo instrumental '. [ 6 ] Todavia , no viu com maus

 olhos o fato de Dewey ser " imune a qualquer tipo de solenidade final trgica da

 situation humaine , [ 7 ] ou de sua revalorizao existencial " .
 " Ele " , continuou

 Habermas em uma formulao bem apropriada , " no tenta desempatar a disputa

 [ filosfica ] atravs de um jogo final entre o profundo contra o superficial , o

 extraordinrio contra o normal , o que basta contra o que  o costumeiro , a aura

 contra o trivial. " .
 O slogan de Habermas para qualificar essa postura do

 filsofo estadunidense  " Dewey no agita , ele incita " [ 8 ] No agita no sentido

 de que ele no desordena , e incita no sentido de que motiva , enerva .

 Rorty , a seu modo , reconheceu a contribuio de Adorno e Horkheimer a respeito

 da idia que muito da filosofia iluminista " continha as sementes de sua prpria

 destruio " e , inclusive , avalia que Dewey tambm teria concordado com tal

 insight frankfurtiano. [ 9 ] Todavia , programaticamente , Rorty se colocou no

 trabalho de retirar da maquinaria iluminista suas peas racionalistas , que ele

 tomou com a causadora dos principais problemas denunciados por Adorno e

 Horkheimer , de modo a preservar o liberalismo interno ao Iluminismo .

 Uma vez que a filosofia do Iluminismo  autofgica , como nos ensinaram Adorno e

 Horkheimer , ento ela deixaria sem fundamentos a sua poltica - o liberalismo .

 Isso nos levaria a todos a um desespero de no ter como argumentar por uma face

 das idias liberais que , na conta de Rorty , so favorveis  democracia .

 " Horkheimer e Adorno " , continuou ele , " deram um admirvel relato do modo que os

 fundamentos da sociedade , que eles viram como instrumentos lingsticos de

 dominao por meio de regras , so enfraquecidos pelo ceticismo do Iluminismo " .

 Rorty lembrou bem , citando o livro Dialectic of Enlightenment , que Horkheimer e

 Adorno colocaram que o esprito do Iluminismo dita que ` toda perspectiva

 terica sucumbe  crtica destrutiva de que ela  somente uma crena - at

 mesmo a noo toda de esprito , de verdade e , certamente , do prprio iluminismo

 se tornou mgica animista ' No meu jargo , escreveu Rorty , isso pode ser dito da

 seguinte forma : " toda perspectiva terica especfica vem a ser vista como um

 vocabulrio a mais , uma descrio a mais , um modo a mais de se falar " .
 Ento ,

 continuou ele , Horkheimer e Adorno

 pensaram que provavelmente a civilizao no poderia sobreviver a esse

 processo , e que nada havia para sugerir que pudesse ajudar exceto o que Ricoeur

 havia apropriadamente apelidado de ` hermutica da suspeita ' - a constante

 conscincia de que qualquer nova proposta era provavelmente uma desculpa a mais

 para a manuteno do status quo .
 Disseram que ` se a considerao do aspecto

 destrutivo do progresso  deixado aos seus inimigos , o pensamento , cegamente

 pragmatizado , perde sua qualidade de transcendncia e sua relao com a

 verdade ' .
 Mas no tiveram nenhuma sugesto para seus amigos .
 No tiveram

 nenhuma viso utpica da cultura que fosse capaz de incorporar e fazer uso de

 um entendimento do carter dissolvente da racionalidade , do carter

 auto-destrutivo do Iluminismo .
 No tentaram mostrar como se poderia cessar com

 a cegueira do " pensamento pragmatizado " , tornando-o capaz de enxergar

 nitidamente. [ 10 ]

 Talvez essa posio de Rorty tenha pesado na avaliao de Habermas que , quando

 do incio de mais de trs dcadas de polmica com Rorty , avaliou de forma

 negativa o livro A Filosofia e o espelho da natureza .
 Naquele momento , Habermas

 o considerandou um adversrio do que ele prprio queria que a filosofia fosse ,

 uma " guardadora de lugar " da razo .
 Mas aos poucos , Habermas passou a dizer que

 Rorty vinha traando os parmetros do que era uma sociedade democrtica , e que

 ele estaria caminhando para um campo prximo de seu colega pragmatista Hilary

 Putnam e , ento , para o seu prprio lado , para o que era o projeto da " teoria

 do agir comunicativo ". [ 11 ]

 A polmica frutfera no mbito da filosofia mais tcnica entre Rorty e Habermas

  , no entanto , menos sobre as aproximaes de um em relao ao outro , ou de

 como eles vieram mesmo a perspectivar , em poltica , a sociedade

 social-democrata como uma boa sociedade ( para , a partir dela , por melhorias

 graduais , ir se conseguindo algo melhor ) , e mais a disputa filosfica em

 relao ao tema da verdade .

 Tal debate  o que segue. [ 12 ]

 Os bons manuais de filosofia da lgica ou de filosofia da linguagem nos dizem

 que quando temos um enunciado p avaliado como verdadeiro estamos diante de uma

 situao diferente daquela em que o tal enunciado p  dito como bem

 justificado .
 Rorty sabe disso .
 Todavia , ele acrescenta algo mais : em certo

 limite no temos como separar , de modo rgido , a sentena " p  bem justificado "

 da sentena " p  verdadeiro " .
 Dizer que um enunciado qualquer  verdadeiro 

 algo que vale para um momento t , um lugar x e um pblico w .
 E ele continua :

 todo e qualquer enunciado , ao ser chamado por ns de " verdadeiro " , est sendo

 chamado , sim , de " bem justificado " , ou seja , " verdadeiro neste momento ( t ) ,

 para este pblico que est aqui ( o lugar x ) , segundo as informaes que este

 pblico possui ( o pblico w ) " .

 Habermas diz , contrariando Rorty : " verdadeiro "  diferente de " bem

 justificado " , e s entendemos o que  um enunciado qualificado como verdadeiro

 exatamente na medida em que o distinguimos claramente de um enunciado chamado

 de justificado .
 Para ele , quando dizemos que um enunciado p  " bem

 justificado " , j sabemos que p pode no vir a ser bem justificado em outro

 tempo , em outro lugar e para outro grupo .
 Mas quando dizemos que um enunciado p

  " verdadeiro " , estamos informando que p  " bem justificado " para todo e

 qualquer tempo , lugar e pblico .
 Resumindo ao mximo : Habermas entende que

 aquilo que os manuais de filosofia da lgica ou de filosofia da linguagem

 afirmam sobre a distino entre " verdadeiro " e " bem justificado " no  um caso ,

 mas  todo o caso .

 A pergunta contra Habermas , ento ,  a seguinte : como algum pode dizer que h

 enunciados que podem ser qualificados como " verdadeiros " independentemente de

 tempo , lugar e pblico ?
 E j alerto que no vale aqui a resposta : h enunciados

 analticos , as chamadas verdades lgicas , como por exemplo " Todo homem solteiro

  um homem no casado " .
 No vale , porque Habermas no est pensando nesse tipo

 de enunciado .
 Ao dizer que h enunciados verdadeiros que independem de lugar ,

 tempo e pblico , ele no est dizendo que tais enunciados so verdades lgicas

 ( como a do exemplo acima ) ; ele est dizendo que pode afirmar isso sem levar em

 considerao , em princpio , tais tipos de enunciados .
 Habermas no foge do

 argumento pragmtico de que a linguagem  dinmica , contingente e se faz no

 uso .
 Como , ento , ele pode nos garantir o que  , em suma , a validade universal

 de "  verdadeiro " para certos enunciados ?

 Para Habermas , enunciados verdadeiros com validade universal podem ser

 admitidos como possveis uma vez que , se assim no for , a prpria linguagem ,

 que constatamos empiricamente como algo existente , no poderia existir .
 Ou

 seja , o uso da linguagem nos mostra que antes de tudo , o que faz da linguagem

 uma linguagem , ou seja , sons que provocam comunicao ,  sua caracterstica de

 ser algo da ordem do intelecto .
 Nada h , na linguagem , anterior  sua funo

 intelectual , de comunicao cognitiva , ou seja , de criao do entendimento

 entre usurios da linguagem .
 Ele acredita que o que Rorty no percebe  que , na

 prpria linguagem h , internamente , um mecanismo que faz com que em um

 determinado nvel , ela provoque o entendimento e o consenso imediato .
 Quando

 dizemos " feche a porta " , temos uma ordem , mas ela s se exerce como ordem que

 pode subjugar algum se , antes disso , este algum escuta o enunciado enquanto

 uma frase que diz algo significativo , inteligvel , algo referente  porta , ao

 verbo fechar , e ao fato de saber o que  fechar e abrir portas .
 Portanto , para

 Habermas , a prpria linguagem emprica , em seu uso , permite ao filsofo que a

 observa dizer que ns , humanos , na medida em que falamos e nos comunicamos - e

 efetivamente , evidentemente , fazemos isso - , mostramos claramente que existe

 uma " concordncia alcanada por meio de argumentos em uma situao ideal de

 fala " , e que tal entendimento se d pelo fato de que a verdade  verdade para

 um e para outro , em um final de argumentos dspares trocados .
 Isso , que  uma

 caracterstica ( filosfica ) da linguagem  , ento , para Habermas , a garantia

 ( ideal ) de que , na nossa conversao cotidiana podemos , sempre , apostar em um

 horizonte de entendimento intelectual mtuo .

 Rorty responde que ele discorda dessa teoria de Habermas no pelo fato de que

 ela  errada .
 Rorty acredita que , ainda que ela possa ser correta , ela 

 intil .
 Ou seja , de que vale saber , a no ser para preencher um livro de

 filosofia ( que poderia ser preenchido de outra maneira ) , que h algo como a

 " concordncia alcanada por meio de argumentos em uma situao de fala ideal "

 se , na prtica cotidiana , sempre teremos uma situao no ideal de fala ?
 Em uma

 situao real , cotidiana , a linguagem  um conjunto de sons que , se ganham

 significado , assim o fazem imiscudos em uma rede de relaes que implicam

 poder , subjugao , ideologia , presso , hierarquias , propaganda , retrica ,

 lavagem cerebral , etc .

 A resposta de Habermas  : se no temos uma situao ideal de fala na vida

 cotidiana , se s a temos no campo da fundamentao ideal , no campo filosfico ,

 ento j temos tudo o que precisamos ter , pois  este campo que nos diz , como

 pessoas que querem garantias filosficas , que podemos e devemos construir uma

 situao ideal de fala aqui , no nosso mundo emprico , o mundo do cotidiano .

 Isso nos faz pensar , enfatiza Habermas , em criar um mundo onde no exista a

 violncia , no exista o poder interferindo o discurso , a ideologia e todas as

 diferenas que impedem os usurios da linguagem de se colocarem horizontalmente

 uns em relao aos outros .

 Para Rorty , no entanto , este  um passo perigoso .
 Se seguirmos Habermas , na

 opinio de Rorty , iremos terminar por construir uma utopia que precisa se

 realizar .
 Vamos acabar por criar , no papel , a sociedade ideal , perfeita , em

 detalhes , que queremos ver efetivada fora do papel , e sob a qual viveremos .

 Logo estaremos falando que tal sociedade utpica , ainda que seja a " sociedade

 democrtica " ,  a mais condizente com a " natureza humana " , a nica que pode

 trazer felicidade para todos , aquela que vai terminar com a explorao e o

 engodo , enfim , logo ela se transformar em um dogma .
 E todos sabemos , Rorty

 avalia , o quanto as utopias detalhadas nos tornam vtimas de ns mesmos - o

 nazismo e o comunismo , no sculo XX , j nos bastaram para mostrar isso .
 Foram

 utopias detalhas em livros que , ao serem realizadas por " anjos tortos " , aqueles

 anjos que atendem nossas preces de forma literal , se transformaram em prises

 infernais .
 Desde sempre , ainda quando s estava nos livros , elas j eram

 prises .

 Habermas responde da seguinte forma : Rorty , apesar de condenar tal prtica , j

 vem fazendo isso , ao defender o modelo ocidental de democracia .
 Segundo

 Habermas , o que ele prprio tem feito ,  o que de fato Rorty faz em aliana com

 ele - ainda que acriticamente .

 Mas Rorty diz que as coisas no so exatamente como Habermas diz que so .
 Rorty

 afirma que sua utopia  " vaga e contingente " : ela no tem detalhes delineados e

 ela no  uma aposta na democracia como o regime que vai ser garantido por si

 mesmo , por caractersticas que no lhe so contingentes , caractersticas que

 lhe seriam inerentes , imutveis , eternas - " naturais " .
 No h como ser

 democrata e dizer que " a democracia deve ser garantida como democracia a

 qualquer preo " .
 Pois a democracia  , por si mesma , por definio , o regime de

 criao de pessoas diferentes .
 Tais pessoas , em democracia , sero mais e mais

 diferentes .
 Sero pessoas to diferentes que podero , em determinado momento ,

 odiar a diferena e toda sociedade que a garante , como a sociedade democrtica ,

 cujo papel no  s fazer valer o que quer a maioria mas , sim , fazer valer o

 respeito ao que as minorias desejam .

 Para Rorty , portanto , o que ele prprio faz , ao defender a democracia , 

 diferente do que Habermas faz , uma vez que ele no fornece nenhuma

 epistemologia , nenhuma explicao a respeito do que  a linguagem e a verdade

 que , por sua vez , teriam a funo de serem os fundamentos que nos dariam

 garantias para sabermos que , fora da democracia , estaramos errados , ou

 estaramos contrariando nossa " natureza humana " , etc .
 Assim , para Rorty ,

 Habermas teria como lema " o conhecimento nos d esperana " , enquanto que ele

 prprio , Rorty , prefere o lema " antes esperana que conhecimento " .
 A esperana

 nos faz imaginar que poderemos ver , no futuro , como habitantes da Terra ,

 " verses melhores de ns mesmos " .

 Habermas trabalha com uma filosofia que visa fundamentar a prtica social e

 poltica de luta pela democracia .
 A " teoria do agir comunicativo " , a obra a

 qual Habermas dedicou quatro dcadas de sua vida ,  uma construo filosfica

 monumental , que visa mostrar que podemos trabalhar em favor do paraso na

 Terra , porque filosoficamente temos garantias de que ele  possvel .
 Afinal ,

 aqui na Terra , j temos uma parte do Paraso - a linguagem que utilizamos nos

 mostra que antes de tudo ela provoca condies para o entendimento .

 Rorty , por sua vez , trabalha com uma filosofia que  uma teoria ad hoc .
 Podemos

 usar do pragmatismo ( por exemplo , evocar o que  til para ganhar a adeso de

 pessoas ao nosso projeto de bem estar coletivo ) , mas no podemos dizer que ele

  a verdade .
 No podemos dizer que ele , ao ser utilizado em favor do

 pluralismo , est simplesmente mostrando que somos naturalmente plurais porque

 somos pragmticos e , por isso mesmo , se cada um de ns apelar para o interesse

 do outro , mostrando os benefcios da democracia , todos teremos de ser , por

 questes de racionalidade , democrticos .
 Adotar o pragmatismo  poder fornecer

 discursos de persuaso .
 Todavia , para que lado tais discursos especficos

 estaro voltados , isso depende de cada um de ns , livremente .
 Podemos fornecer

 argumentos pragmticos , em vrios sentidos - apelando para fatos , emoes e

 desejos - que podero convencer alguns de que a democracia  melhor para eles

 do que regimes de fora .
 Mas outros no ficaro convencidos disso .

 A filosofia de Habermas prima pelo conhecimento fundacional .
 A filosofia de

 Rorty prima pela esperana que , por si s , no fundamenta nada , apenas nos

 move .
 A filosofia de Habermas vem do velho continente , para construir novos

 continentes delineados .
 A filosofia de Rorty vem do novo continente , para

 sonharmos com maneiras infinitas de delineao .
 A filosofia de Habermas prima

 pelo intelecto , a de Rorty , pela imaginao .
 A de Habermas ,  Filosofia , a de

 Rorty , filosofia .

 _______________________

 [ 1 ] KARL , Marx .
 Thesis on Feuerbach .
 Marx / Engels Internet Archives :

 http : // www.marxists.org / archive / marx / works / 1845/theses/theses.htm , 28/04/2005 .

 [ 2 ] RORTY , Richard .
 Philosophy as science , metaphor , politics .
 In : Essays on

 Heidegger and others. Cambridge : Cambridge University Press , 1991 , p. 10 .

 [ 3 ] HORKHEIMER , Max .
 The Eclipse of Reason .
 New York : Continuum , 1974 .

 [ 4 ] JAMES , W. Pragmatist's conception of truth .
 In : Lynch , M. P. The nature of

 truth. Cambridge : The MIT Press , 2001 .

 [ 5 ] As duas melhores snteses da filosofia pragmatista ( Dewey ) e que enfatizam

 a cosmologia relacionalista foram produzidas por Ansio Teixeira e Richard

 Rorty .

 [ 6 ] Ver : HABERMAS , Jrgen .
 On John Dewey's the quest for certainty .
 In :

 ABOUFALA , M. ( ed. ) Habermas and pragmatism. New York : Routledge , 2002 , p. 232 .

 [ 7 ] Mantive como est no texto em ingls , inclusive com o itlico : situation

 humaine

 [ 8 ] O tradutor ingls preferiu para " Dewey regt nicht auf , er regt na " a

 expresso " Dewey doesn't inflame , he ignites " .
 Procurei expressar a idia em

 portugus com " Dewey no agita , ele incita " , ou que quer dizer , levando em

 conta o original , ele no causa um desenquadramento da luta dos opostos , mas

 ele a enerva , a motiva , a incita sem lhe dar uma paz. ( N. T. ) .
 Ver : HABERMAS ,

 J. Op. cit. , pp .232-33 .

 [ 9 ] O leitor pode ver , no caso : RORTY , Richard .
 Priority of democracy to

 philosophy. Objectivism , relativism , and truth. Cambridge : Cambridge University

 Press , 1991 , p. 180 .

 [ 10 ] RORTY , Richard .
 Contingency , irony , and solidarity. Cambridge : Cambridge

 University Press , 1980 , p. 57 .

 [ 11 ] Um tal trajeto pode ser perseguido em meu livro : GHIRALDELLI JR. , Paulo .

 Richard Rorty - a filosofia do Novo Mundo em busca de mundos novos .
 Petrpolis :

 Vozes , 1999 , principalmente entre as pginas 42-44 .

 [ 12 ] A polmica Habermas - Rorty , aqui ,  devida a uma consulta de vrios anos ,

 em muitos escritos .
 A maneira como ela aparece  retirada de um livro meu :

 GHIRALDELLI JR .
 Paulo .
 Caminhos da filosofia .
 Rio de Janeiro , DPA , 2005 , pp .

 77-83 .

  2005 PBF

