 NDICE

 Prlogo

 1 .
 Introduo

 1.1 .
 Uma cincia recente para uma temtica antiga

 1.2 .
 Semitica e semiologia : Dois nomes para duas tradies

 2 .
 A origem lgica da semitica contempornea

 2.1 .
 Quatro nomes : Bolzano , Frege , Husserl , Peirce

 2.2 .
 Bolzano e a importncia dos signos para a lgica

 2.3 .
 Frege e a distino entre significado e referncia

 2.4 .
 Husserl ou da aritmtica  fenomenologia 32

 2.5 .
 Peirce e o pragmatismo como lgica da abduo 43

 3 .
 Lingustica e semitica 55

 3.1 .
 A Lingustica de Saussure e a ideia de semiologia 55

 3.2 .
 A pansemiotizao de Barthes 70

 4 .
 Os campos da semitica : sintaxe , semntica e pragmtica 77

 4.1 .
 A semiose em Morris e o princpio da diviso da semitica 77

 4.2 .
 A sintaxe e a ideia de gramtica 79

 4.3 .
 A semntica 82

 4.4 .
 A pragmtica 84

 5 .
 Os actos de fala .
 A linguagem como aco 89

 6 .
 A pragmtica universal 93

 6.1 .
 A lgica dos enunciados 93

 6.2 .
 A dupla estrutura da fala 97

 6.3 .
 As consequncias dos actos de fala para a semntica 98

 6.4 .
 Modos de comunicao 99

 6.5 .
 O fundamento racional da fora ilocucional 103

 6.6 .
 Um modelo de comunicao lingustica 106

 7 .
 Notas 109

 8 .
 Bibliografia 125

 Prlogo

 Com a disciplina de Semitica pretende-se fornecer aos alunos de

 Comunicao Social as bases e os instrumentos tericos necessrios 

 aprendizagem cientfica e ao estudo das diferentes reas da

 comunicao , nomeadamente jornalismo , publicidade , relaes pblicas e

 audio-visual .
 A semitica  aqui entendida como um organon das

 cincias da comunicao , entendendo-se por sua vez por organon , na

 esteira de Aristteles e Kant , o conjunto dos princpios formais que

 presidem  obteno e sistematizao do conhecimento .
 Assim , a

 semitica  concebida como lgica da comunicao .
  justamente desta

 concepo que decorrem as trs tarefas que cabem  disciplina de

 Semitica e a situam no todo do Curso de Licenciatura : i ) dar dimenso

 cientfica aos estudos de comunicao e eo ipso emprestar-lhes

 dignidade universitria ; ii ) fornecer o contexto terico , nomeadamente

 a anlise conceptual e o rigor de raciocnio , aos estudos de

 comunicao ; iii ) permitir uma reflexo crtica sobre esses estudos ,

 isto  , abrir-lhes a dimenso epistemolgica .

 i ) Numa poca em que  grande a presso sobre a profissionalizao do

 ensino superior , em que os prprios alunos universitrios manifestam

 uma preferncia acentuada pela prtica ,  enorme o risco de reduzir um

 curso universitrio de comunicao social a um curso superior de

 formao profissional ou a um curso de simples aprendizagem de

 tcnicas especficas de fazer jornalismo , publicidade , etc .
 Este risco

 agrava-se ainda pelo facto de os estudos e os cursos universitrios na

 rea da comunicao serem muito recentes , sobretudo em Portugal .

 A caracterizao de cincia feita por Aristteles no Primeiro Livro da

 Metafsica assenta na distino entre a tcnica e o saber .
 A tcnica 

 o conhecimento do profissional , isto  , o saber fazer baseado na

 experincia .
  um conhecimento dos factos , do que acontece e como

 acontece , mas no um saber das razes e das causas do que acontece .

 Este  o verdadeiro saber ou o saber cientfico1 .
 Esta distino entre

 tcnica e saber aplica-se muito apropriadamente  situao dos estudos

 da comunicao em Portugal .
 At h pouco entendia-se , e ainda hoje h

 quem entenda , que a preparao para as actividades profissionais no

 mbito da comunicao eram coisa de tarimba .
 Contudo , tambm j

 Aristteles reconhecia que o saber fazer do homem experiente 

 efectivamente de maior sucesso no dia a dia que o saber cientfico .
 A

 razo disso  que o saber da experincia  o saber das coisas

 concretas e o saber cientfico o saber do universal2 .

 Posto isto , a questo  sobre a dimenso cientfica dos estudos

 universitrios de comunicao .
 Tal dimenso , porm ,  de cariz lgico .

 Trata-se de conhecer quais os princpios que constituem a comunicao ,

 a tornam possvel , e a regulam nas suas diferentes realizaes .
 Ora

 cabe justamente  semitica enquanto lgica da comunicao investigar

 de um ponto de vista formal os pressupostos e as estruturas presentes

 em todos os processos de comunicao .
 O seu objecto so , portanto , as

 formas puras da comunicao .
 Da que o estudo da semitica demarque

 muito claramente os estudos cientficos da comunicao relativamente 

 formao profissional na rea da comunicao , por mais superior que

 essa formao seja .

 ii ) Mas a tarefa principal da leccionao da semitica num curso de

 comunicao social  a de fornecer o enquadramento lgico-formal s

 disciplinas que versam as matrias da comunicao .
  que todo e

 qualquer processo comunicacional , ao ser enquadrado pelas estruturas

 da semiose em que algo se torna um signo para algum ,  enformado

 pelas regras da sintaxe , da semntica e da pragmtica .

 Toda a comunicao efectiva , seja verbal ou no ,  , enquanto mensagem ,

 sempre sintctica , na medida em que os seus elementos se relacionam

 entre si .
  alis na dimenso sintctica da comunicao que mais se

 evidencia o seu carcter lgico .
 Na verdade , toda a comunicao se

 pretende coerente , no contraditria , bem construda e correctamente

 inferida .

 Em segundo lugar , toda a comunicao  sempre comunicao de algo .
 A

 significao constitui justamente um dos elementos essenciais 

 comunicao .
 Por mais coerncia interna que demonstre uma mensagem , s

 na obedincia s regras da semntica ela ser uma mensagem com

 sentido , isto  , evitar o ser uma mensagem vazia .
 Compete  semitica

 traar as estruturas universais de significao que necessariamente

 regem o sentido da comunicao .

 Por fim , toda a comunicao  feita entre pessoas .
 A dimenso

 pragmtica da semitica analisa a comunicao a partir dos seus

 actores .
 Contudo , esta anlise pragmtica  ainda de natureza

 lgico-formal , ou seja , no  psicolgica , sociolgica ou cultural .
 O

 que a semitica investiga a este nvel so os quadros categoriais em

 que o processo comunicacional se desenrola .
 Embora o processo

 comunicacional seja emprico , no o so as estruturas em que assenta e

 que o tornam possvel .
 No  certamente por acaso que hoje os estudos

 de pragmtica ambicionam elaborar uma teoria da experincia3 .

 iii ) A terceira tarefa da semitica consiste em abrir a dimenso

 reflexivo-epistemolgica nos estudos de comunicao .
 Para haver o

 distanciamento imprescindvel  actividade cientfica h que

 considerar as condies de possibilidade da comunicao .
 S quem da

 realidade recua para a possibilidade , e assim  capaz de encarar a

 realidade como possibilidade , pode avaliar a especificidade da

 abordagem cientfica da comunicao , abordagem essa que no  a nica ,

 mas uma entre muitas .
  este distanciamento que permite qualquer

 crtica .
 As dvidas e a hesitao , a ponderao de hipteses e a

 assuno do que no  totalmente certo so tambm , entre outras ,

 atitudes que caracterizam a atitude cientfica4 .

 1 - INTRODUO

 1.1 .
 Uma cincia recente para uma temtica antiga .

 i ) A semitica  uma cincia do sculo XX , mais precisamente dos

 meados do sculo .
 Saussure afirma no incio do sculo que ainda no

 existe uma cincia cujo objectivo fosse o estudo da vida dos signos no

 seio da vida social .
 Mas reinvindica o direito  existncia de tal

 cincia , " que estudaria em que consistem os signos , que leis os

 regem " , e prope desde logo o nome de semiologia ( do grego semeion ,

 " sinal " ) para a designar5 .
 Em 1956 no ensaio " O Mito , Hoje " , includo

 em Mitologias , Roland Barthes constata que " a semiologia postulada por

 Saussure h uns quarenta anos ainda no est constituda"6 .

 Segundo Georges Mounin7 a concepo saussureana de semiologia - a de

 uma semiologia da comunicao , contraposta  semiologia da

 significao de Barthes - s na dcada de sessenta viria a ganhar

 corpo com a obra de Buyssens8 e Prieto9 .
 O prprio Buyssens escreve na

 introduo  sua obra que " a histria da semiologia no  longa .
 Antes

 de Saussure , encontram-se , sobretudo entre os lgicos , observaes

 gerais referentes aos signos ou aos smbolos. ( ...
 ) Desde Saussure at

  Segunda Guerra Mundial , s houve um ensaio de semiologia que

 ultrapassasse as banalidades encontrveis em qualquer obra a respeito

 da linguagem , a saber Le paralllisme logico-gamatical de Charles

 Serrus"10 .

 Tambm Charles Sanders Peirce ( 1839-1914 ) , para quem a semitica era ,

 enquanto doutrina formal dos signos , apenas um outro nome da cincia

 da lgica11 , e que a par de Saussure  considerado um dos pais da

 semitica contempornea12 , apresenta-se como pioneiro da nova

 cincia13 .
 Mas apesar dos esforos de Peirce na sistematizao da nova

 cincia , em 1938 Charles Morris declara que apesar de " os signos nunca

 terem sido estudados to intensamente , por tantas pessoas de tantos

 pontos de vista , ( ...
 ) ainda falta uma estrutura terica , simples nas

 suas linhas gerais , mas suficientemente compreensiva para abranger os

 resultados obtidos de diferentes pontos de vista e uni-los num todo

 consistente"14 .
 O seu intento  , da , esboar a nvel cincia , a

 teoria dos signos ou semitica , traar-lhe fragmentariamente os

 contornos , pois que uma apresentao cabal seria  altura impossvel

 em parte devido ao incipiente desenvolvimento da mesma .

 Pode-se ento dizer " que existe desde o princpio do sculo a proposta

 de uma teoria geral dos signos"15 e que essa proposta se vem

 realizando desde meados do sculo .
 Esta realizao tornou-se vsivel

 no s ao nvel das publicaes , mas tambm ao nvel das instituies

 necessrias  identificao de uma cincia .
 Como escreve Jrgen

 Trabant " s se pode considerar que uma disciplina cientfica tem

 existncia oficial quando se dota a si mesma de insgnias

 institucionais como uma associao ou um jornal ou quando existem j

 institutos cientficos com o nome dessa disciplina. " 16 Ora segundo

 este mesmo autor , a semitica dispe desde os finais dos anos sessenta

 dessas instituies : em 1969 foi criada a International Association

 for Semiotic Studies e iniciou-se a publicao do respectivo orgo

 cientfico Semiotica ( Haia ) .

 Enfim , para algum se dar conta de quo recente  a semitica basta

 abrir um qualquer dos manuais universitrios da disciplina de

 semitica .
 A aparece invariavelmente a semitica como criao

 cientfica do sculo XX .

 ii ) A temtica estudada pela semitica , porm , no  recente .
 O estudo

 dos signos  to antigo como o prprio pensamento filosfico .

 Efectivamente no  outra a tese a retirar dos estudos de Ernst

 Cassirer na sua Filosofia das Formas Simblicas , nomeadamente quando

 mostra que a questo da linguagem , e concomitantemente a dos signos , 

 to antiga como a questo do ser17. Testemunho dessa antiguidade 

 claramente o dilogo Crtilo de Plato18 .
 A questo sofista da

 exactido dos nomes ( orJothV twn onomatwn ) ,  retomada a propsito da

 relao entre nomes e coisas :  essa relao natural , ditada pela

 natureza do ser e da lngua , ou meramente convencional ?
 A posio de

 Crtilo , a de uma correspondncia entre as palavras e os entes , 

 ironicamente destruda por Scrates .
 Mas tambm a tese defendida pelo

 opositor de Crtilo , Hermgenes , a de que essa relao  fruto da

 arbitrariedade , no obtm o assentimento de Scrates .
 Pelo contrrio ,

 embora no haja uma relao similar directa entre a coisa e nome , h

 uma relao mediata mais profunda .
 No processo dialctico do

 conhecimento , a palavra constitui como que um veculo para se alcanar

 o contedo significativo das ideias puras19 .
 Esta concepo da funo

 dialctica da linguagem  desenvolvida por Plato na Stima Carta20 .

 A apontam-se quatro nveis de conhecimento do objecto : o nome , a

 definio , a imagem e a cincia .
 Plato d o exemplo do crculo .

 Sobe-se dialecticamente at ao conhecimento da sua essncia , primeiro

 mediante a nomeao ( onoma ) , segundo atravs da definio ( logoV ) ,

 isto  , explicando o significado pelo nome ao determin-lo como a

 figura que tem as extremidades a uma distncia perfeitamente igual do

 centro , terceiro pela imagem ( eidolon ) , seja pelo desenho que se traa

 na areia e que se apaga , seja pela forma que se molda num torno .

 Nenhuma destas formas de conhecimento alcana a verdadeira essncia do

 crculo , pois que se situam no mbito do devir e no do ser .
 Mas s

 mediante elas se chega ao quarto nvel do conhecimento ,  cincia

 ( epistemh ) 21 .
 O verdadeiro saber no  com efeito de natureza

 simblica , mas s simbolicamente se acede a esse saber .

 Por seu lado , Tzvetan Todorov , ao estudar a origem da semitica

 ocidental22 , vai ao ponto de chamar a Agostinho de Hipona o primeiro

 semitico .
 Todorov considera que as consideraes de Sto Agostinho

 sobre os signos so os primeiros estudos a obedecer aos dois critrios

 que , em seu ver , delimitam a semitica .
 Em primeiro lugar , os estudos

 de Sto Agostinho tm claramente propsitos cognitivos ; o objectivo de

 Sto Agostinho  nesse campo o conhecimento e no a beleza potica ou a

 pura especulao .
 Em segundo lugar , Sto Agostinho estuda os signos em

 geral e no apenas os signos lingusticos .
 Ora Sto Agostinho , como

 nota Todorov , no inventou a semitica , ele fundamentalmente

 preocupa-se em compilar as teorias j existentes , sobretudo as

 doutrinas dos esticos sobre os signos23 .

 Sto Agostinho fornece  vez duas definies de signo que , na opinio

 de Todorov24 , contemplam o plano semntico e o comunicacional .
 A

 primeira definio de signo assenta na sua funo designativa ou

 representativa : " Um signo  o que se mostra a si mesmo ao sentido , e

 que , para alm de si , mostra ainda alguma coisa ao esprito. " ( De

 Dialectica ) .
 Ao apresentar-se directamente aos sentidos , o signo

 oferece mais que a sua presena , ele apresenta ao esprito algo que

 est ausente aos sentidos .
 O que caracteriza pois o signo  a mediao

 representativa ou designativa que faz de um terceiro .

 A esta dimenso semntica do signo , junta Agostinho a dimenso

 comunicacional .
 " A palavra  o signo de uma coisa que pode ser

 compreendida pelo auditor quando  proferida pelo locutor " .
 A

 introduo da dimenso comunicacional na anlise sgnica constitui ,

 segundo Todorov , uma novidade da incurso agostiniana nos domnios

 semiticos .
 Essa dimenso no se encontra nem em Aristteles nem nos

 esticos .
 Mas  justamente a introduo da dimenso comunicacional que

 leva Agostinho a uma anlise sobre o signo diferente e mais complexa

 que a dos esticos .
 Os esticos dividiam o signo em trs elementos : o

 significado , o significante e o objecto25. Sto Agostinho apura agora

 quatro elementos constituintes do signo : a palavra ( verbum ) , o

 exprimvel ( dicibilis ) , a expresso ( dictio ) e a coisa ( res ) .

 Estabelecendo uma correspondncia com a terminologia estica

 verifica-se que em Agostinho parece existir dois termos , verbum e

 dictio , para designar o significante .

 A explicao avanada por Todorov26  que a anlise agostiniana faz a

 distino entre o sentido do processo de comunicao e o do processo

 de significao .
 Um  o sentido vivido , o sentido que o locutor

 transmite ao ouvinte ; esse  o sentido dizvel .
 A dictio , por seu

 lado , aponta para o mero sentido semntico ou referente27. Todorov

 sugere , portanto , que dictio no se encontra tanto ao nvel do

 significante como do significado .

 Obviamente no se trata de fazer aqui uma exposio detalhada da

 " semitica agostiniana " , para isso haveria que ir s fontes e no nos

 quedarmos pela exposio de Todorov ; o que importa aqui salientar  ,

 isso sim , a antiguidade da temtica semitica e , simultaneamente , a

 profundidade de alguns estudos antigos sobre essa matria .
 Outros

 exemplos de investigaes semiticas encontram-se tambm em pensadores

 medievais , renascentistas e modernos28 .
 Na filosofia portuguesa

 mereceriam ateno particular as Summulae Logicales de Pedro Hispano e

 as Institutiones Dialecticae de Pedro da Fonseca .

 iii ) Se a temtica semitica  to antiga como o pensamento filosfico

 e se ao longo dos sculos ela tem sido investigada por vezes com

 bastante profundidade , ento  com certeza pertinente a questo sobre

 a justeza da reivindicao , atrs referida , do estabelecimento

 contemporneo da semitica enquanto cincia .
 Constituem os estudos

 semiticos no sculo XX mais do que uma continuao dos estudos

 efectuados nos sculos passados ?
 Onde e em qu reside a novidade que

 legitima a fundao da semitica qua cincia no sculo XX ?

 So dois os factores que , a meu ver , demarcam os estudos semiticos

 contemporneos face aos antigos e , simultaneamente , instituem a

 semitica como cincia .
 O primeiro factor  a definio do lugar dos

 estudos semiticos no contexto dos estudos cientficos : a semitica 

 enquadrada epistemologicamente .
 Anteriormente as investigaes

 semiticas integravam-se em contextos to diversos como os da teoria

 do conhecimento , da lgica , da ontologia , da esttica ou da teologia .

 No tinham uma autonomia cientfica .
 Ora o que caracteriza , por

 exemplo , a fundao saussureana da semiologia  , antes de mais , o

 estabelecimento exacto da mesma no conjunto das cincias .
 A semiologia

  a cincia geral dos signos que se integraria na psicologia social e ,

 consequentemente , na psicologia geral ; na semiologia integrar-se-ia

 por sua vez a lingustica enquanto cincia especfica dos signos

 lingusticos .
 A semiologia fica assim delimitada a montante e a

 jusante na rvore das cincias .
 O facto de o enquadramento psicolgico

 da semiologia por Saussure no colher , nem to pouco nas suas prprias

 investigaes lingusticas , no constitui uma objeco  novidade que

 representa esse enquadramento epistemolgico .
 A mesma preocupao de

 fixar epistemologicamente a semitica encontra-se na escola americana .

 Ao encarar a semitica como cincia dos signos , Peirce concebe-a como

 a cincia geral que ,  maneira da mathesis universalis leibniziana ,

 engloba todas as outras cincias29 .
 A semitica  uma fisiologia das

 formas constitutivas de todo o pensamento que procura sobretudo

 elaborar enquanto gramtica especulativa uma teoria fenomenolgica dos

 signos30 .
 Tambm Morris , ao estabelecer em 1938 os fundamentos de uma

 teoria dos signos , tem como preocupao primeira demarcar o lugar da

 semitica no conjunto das cincias .
 Alis , o j referido trabalho de

 Morris constitui o segundo subsdio para a Enciclopdia da Cincia

 Unificada31 .
 Morris determina logo nas primeiras pginas o lugar da

 semitica : " A semitica tem uma dupla relao com as cincias : ela 

 simultaneamente uma cincia entre as cincias e um instrumento das

 cincias. ( ...
 )  uma cincia coordenada com as outras cincias ,

 estudando as coisas ou as propriedades das coisas na sua funo de

 servir de signos e  tambm o instrumento de todas as cincias , na

 medida em que cada cincia faz uso e exprime os seus resultados em

 termos de signos"32 .
 Na esteira de Peirce , Morris apresenta , assim , a

 semitica enquanto cincia geral dos signos como organon da

 meta-cincia ( a cincia da cincia ) " na medida em que cada cincia faz

 uso e exprime os seus resultados em termos de signos " .
 Morris serve-se

 da argumentao de Carnap exposta em " Empirismo Cientfico " , que

 constitura o 1 volume da Enciclopdia , para fundamentar a

 reivindicao da semitica a organon da cincia .
 Carnap argumentara

 ser possvel incluir sem excepo o estudo da cincia no estudo da

 linguagem da cincia dado o estudo dessa linguagem implicar no s o

 estudo da sua estrutura formal ( sintaxe ) , mas tambm a sua relao com

 os objectos designados ( semntica ) e com as pessoas que a fazem .

 Morris acrescenta ento que " um estudo da linguagem da cincia tem de

 usar signos referindo-se a signos e que cabe  semitica fornecer os

 signos relevantes e os princpios para levar a cabo esse estudo .
 A

 semitica fornece uma linguagem geral aplicvel a qualquer espcie de

 linguagem ou signo , e , assim ,  aplicvel  linguagem da cincia e aos

 signos especficos que so usados na cincia"33 .
  alis nesta senda

 da compreenso da semitica como verdadeira cincia primeira ( a prima

 philosophia cartesiana ) , que Morris remete muitas das problemticas

 filosfico-epistemolgicas para a semitica34. Morris vai mesmo ao

 ponto de reduzir a lgica , a matemtica e a lingustica  semitica .
 O

 lugar da semitica no conjunto das cincias  , assim , claramente o

 primeiro , no sentido aristotlico ou cartesiano de primeira cincia .

 O outro factor importante na instituio contempornea da semitica

 foi indubitavelmente a sua sistematizao .
 Hoje a semitica como

 qualquer cincia estabelecida subdivide-se em disciplinas .
 A diviso

 mais corrente  justamente a avanada por Morris : sintaxe , semntica e

 pragmtica .
 Se , por um lado , estas subdisciplinas tendem cada vez mais

 a autonomizar-se e mesmo a entrar pelos campos das disciplinas

 vizinhas , mostrando a fluidez das fronteiras cientficas , por outro ,

 nunca as relaes entre os diferentes campos semiticos foram

 cientficamente tratadas como acontece hoje .
 Os sculos passados

 forneceram excelentes anlises sintcticas e semnticas , mas s no

 sculo XX as relaes entre os campos sintctico e semntico foram

 cientificamente tematizadas .
 Quanto ao campo pragmtico , ainda que de

 certo modo tematizado na retrica clssica , s no nosso tempo viu

 reconhecida a sua crucial importncia para toda a semitica .

 A sistematizao da semitica enquanto acto cientfico  acompanhada

 obviamente por uma compendiao escolar da mesma .
 Os manuais de

 semitica , as obras de introduo , multiplicam-se .
 A semitica

 estabeleceu-se definitivamente como disciplina curricular de diversos

 cursos superiores .
 Esta  a imagem mais visvel da sistematizao da

 semitica e que , the last but not the least , a justifica como cincia

 do sculo XX , apesar da sua tradio milenar35 .

 2.2 .
 Semitica e semiologia : Dois nomes para duas tradies .

 No raros so os autores que identificam objectivamente semitica e

 semiologia36. Oriundos do mesmo timo grego semeion , os dois termos , o

 primeiro mais utilizado pelos anglo-saxnicos e o segundo pelos

 europeus , sobretudo pela escola francesa , designam a cincia dos

 signos .
 No entanto , autores h que vislumbram na diferena

 terminolgica diferenas objectivas .
 As diferenas entre semiologia e

 semitica tm sido tematizadas sobretudo no confronto entre os

 respectivos fundadores contemporneos : Saussure e Peirce .
 Prado

 Coelho37 faz uma sntese dessas diferenas .
 A primeira reside logo no

 ponto de partida .
 " Saussure parte do acto smico entendido como facto

 social que estabelece , atravs do circuito da fala , uma relao entre

 dois indivduos .
 Peirce , por seu lado , parte da ideia da semiosis

 concebida como uma lgica do funcionamento do signo cuja compreenso

 apenas exige a interveno de uma personagem : o intrprete"38 .

 Associada  diferena do ponto de partida est a diferena

 relativamente aos limites das respectivas cincias dos signos .
 Ao

 partir do facto social Saussure enquadra a semiologia dentro de uma

 psicologia social .
 " Isto significa , em primeiro lugar , que a semitica

 saussureana tem limites , e , depois , que existem objectos exteriores 

 semitica , isto  , no semiotizveis. ( ...
 ) A perspectiva de Peirce 

 outra : tudo  integrvel no espao ilimitado da semiosis ; donde , a

 semitica peirceana no tem limites. " 39 A terceira diferena , e talvez

 a mais importante , reside nas diferentes concepes de signo .

 " Saussure concebe o signo como uma entidade psquica com duas faces ,

 em que significante e significado se condicionam mutuamente .
 Em

 Peirce , o signo  fundamentalmente um processo de mediao , e abre ,

 portanto , para uma dimenso de infinitude. " 40

 Com efeito ,  a diferente concepo de signo que , segundo Jeanne

 Martinet41 , distingue a semitica americana da semiologia europeia .
 A

 semitica americana tende a ver no signo apenas uma identidade de face

 nica , ao passo que a semiologia estuda os sistemas de unidades de

 duas faces .
 Na esteira de Saussure , os semilogos europeus entendem

 por signo a entidade significante / significado , em que qualquer

 significante por mais complexo ou mediato que seja tem sempre como

 correlato ltimo um significado .
 Em contrapartida , os semiticos

 americanos concebem o signo apenas como significante que remete sempre

 para um outro significante numa cadeia sgnica interminvel .

 H inegavelmente diferenas entre a semiologia enquanto tradio da

 semitica europeia contempornea e a semitica enquanto tradio da

 semitica anglo-saxnica contempornea42. Umberto Eco fala mesmo de

 tericos da primeira gerao e tericos da segunda gerao43 .
 " Os

 tericos da primeira gerao partem de Saussure e defendem uma

 lingustica da frase e do cdigo .
 Os tericos da segunda gerao

 partem de Peirce e caracterizam-se pela capacidade de articularem um

 estudo da lngua como sistema estruturado que precede as actualizaes

 discursivas e um estudo dos discursos e dos textos como produtos de

 uma lngua j falada"44 .

 As diferenas objectivas entre semiologia e semitica assentam em duas

 tradies diferentes : a tradio lingustica e a tradio filosfica .

 Esta  a posio defendida por Jrgen Trabant45 .
 Enquanto os trabalhos

 ' semiolgicos ' que se inserem na tradio de Saussure consistem numa

 aplicao analgica dos processos e princpios da Lingustica a outros

 domnios da cultura , a semitica filosfica praticada pelos

 anglo-saxnicos , ao estudar o papel da linguagem no conhecimento - e ,

 em consequncia , ao abordar o problema de uma linguagem das cincias

 - , visa sobretudo elaborar uma teoria geral da linguagem enquanto

 parte integrante de uma teoria do conhecimento .
 Ao carcter emprico

 da investigao semiolgica , ope-se o formalismo analtico da teoria

 semitica .

 As tradies diferentes da semitica no pem todavia em causa a sua

 unidade .
 No existe uma semiologia a par de uma semitica .
 Com

 contributos importantes e decisivos , nomeadamente os provenientes da

 filosofia de Wittgenstein e da teoria dos actos de fala , a semitica

 filosfica influenciou determinantemente a lingustica e tem vindo a

 afirmar-se como o paradigma semitico .
  generalizao efectiva do

 termo semitica corresponde tambm a absoro da semiologia

 lingustica pela semitica filosfica .
 De qualquer modo ,  necessrio

 que a semitica contempornea tenha sempre presente a sua dupla

 origem : a lgico-filosfica e a lingustica .

 2 .
 A ORIGEM LGICA DA SEMITICA CONTEMPORNEA

 As fronteiras entre a semitica , a lgica , a filosofia analtica , a

 filosofia da linguagem , a filosofia dos signos ( Zeichenphilosophie )

 no so fceis de traar .
 Em todas estas disciplinas encontramos

 questes comuns e muitas vezes  mesmo difcil encontrar diferenas na

 maneira como as abordam .
 Questes de sintaxe e de semntica , por

 exemplo , so comuns a todas elas , e no existem critrios definidos

 para atribuir esta ou aquela anlise sintctica ou semntica a

 determinada disciplina .

 Contributos decisivos da filosofia do sculo XX , como sejam as

 filosofias de Wittgenstein , o positivismo lgico e a " ordinary

 language philosophy " , as investigaes lgicas de Tarski e Carnap ,

 tanto no mbito da sintaxe como da semntica , a teoria dos actos de

 fala de Austin e Searle , e outros , reflectem-se nas disciplinas

 citadas e nenhuma destas disciplinas pode reivindicar para si a

 exclusividade de tais contributos .

 Mais do que campos bem delimitados defrontamo-nos aqui com acentos ,

 perspectivas , estratgias , provenincias diferentes .
  talvez um mesmo

 campo atravessado por pistas que se cruzam , que seguem por vezes o

 mesmo percurso e depois se separam , que caminham em paralelo , mas

 influenciando-se umas s outras .

 Se quisermos encontrar uma identidade deste campo , e o mesmo  dizer ,

 apurar o factor comum a todas as disciplinas enunciadas , poderamos

 apontar a crena e a preocupao de clarificar o pensamento atravs

 dos meios em que esse pensamento se processa e se exprime .

 Restritamente , quer isto dizer que o pensamento s pode ser analisado

 em termos de linguagem .
 Trata-se antes de mais da superao das

 filosofias da conscincia ( Descartes , Kant , Husserl ) que buscavam na

 imanncia do vivido a verdade das ideias .
 A inteleco geral das

 diferentes correntes do pensamento contemporneo  que a objectividade

 cientfica tem de assentar na positividade da lngua .
 A lngua  o

 meio em que surge e se desenvolve todo o pensamento e fora do qual

 pura e simplesmente no h pensamento .
 Nisto reside o celebrado

 " linguistic turn " da filosofia recente .
 Mais precisamente ainda ,

 diremos que a estrutura do pensamento s  acessvel atravs da

 anlise da estrutura da frase e da lngua .

 Em termos mais latos , o pensamento  entendido como um processo

 simblico .
 No se trata apenas de tematizar as lnguas positivas em

 que o pensamento efectivamente se concretiza , mas tambm de analisar

 os elementos e os processos simblicos reais e possveis .

 Estudar uma disciplina que radica na crena apontada , exige a

 clarificao desse enraizamento e ao mesmo tempo que se considerem as

 disciplinas adjacentes tambm radicadas nesse campo .
 No caso da

 semitica , tal como se realiza em Charles Sanders Peirce , no h

 dvida que a melhor via para determinar o mbito , o objecto , a

 inteno e o mtodo ,  averiguar as suas relaes com a lgica .

 2.1 .
 Quatro nomes : Bolzano , Frege , Husserl e Peirce

 Peirce  um lgico .
 No obstante a diversidade dos seus escritos ,

 Peirce compreendia-se a si mesmo como um lgico e o cerne do seu labor

 intelectual est indubitavelmente nas suas investigaes lgicas .

 Apesar disso , na maior parte das apresentaes do seu pensamento ,

 toma-se Peirce como ponto de partida do pragmatismo americano e como

 um dos pais da semitica contempornea sem o relacionar com a tradio

 lgica em que se insere .
 Sabemos que efectivamente Peirce se

 considerava como pioneiro nos seus estudos e que a admitir precursores

 esses eram o Aristteles lgico , no o metafsico ou o fsico , e

 Leibniz46 .
 Mas quem olhar para a obra de Peirce de um ponto de vista

 histrico e no simplesmente imanente , verificar que ela tem pontos

 comuns com correntes filosficas europeias da poca , nomeadamente com

 as correntes iniciadas por Frege e Husserl .
 Alis , convm lembrar que

 Peirce dominava o alemo e se correspondia com cientistas alemes ,

 momeadamente com o lgico Gerhard Schrder .

 Gottlob Frege  geralmente considerado o pai da filosofia analtica e

 Edmund Husserl  o grande iniciador do movimento fenomenolgico .
 Um e

 outro desenvolveram a sua obra partindo de consideraes lgicas .
 A

 proximidade temtica entre eles e Peirce  inquestionvel .
 A

 introduo do nome de Bolzano justifica-se pelo seu importante papel

 na lgica do sculo XIX e pela influncia exercida sobre a semitica

 de Husserl .
 Contudo , a razo principal para citar os nomes de Bolzano ,

 Frege e Husserl , reside na tese comum a todos eles de que as ideias

 no so nada de psicolgico e de que , portanto , a anlise do

 pensamento s  possvel mediante uma anlise da linguagem47 .

 2.2 .
 Bolzano e a importncia dos signos para a lgica

 Por trs vezes aborda Bolzano na Wissenschaftslehre a temtica dos

 signos .
 A primeira vez  logo no primeiro volume e incide sobre a

 questo se as representaes so ou no signos dos objectos

 representados48 .
 A Bolzano esclarece que o termo signo tem dois

 significados e que nenhum deles permite afirmar que uma representao

 seja o signo do objecto representado .
 Por signo pode entender-se :

 i ) qualquer objecto de que nos servimos para atravs da sua

 representao despertar uma outra representao associada  primeira

 ou ento ;

 ii ) uma caracterstica ou qualidade que , ao darmo-nos conta dela , nos

 leva a inferir uma outra qualidade ou uma outra coisa .
 No primeiro

 caso signo significa um objecto , no segundo uma qualidade ou

 caracterstica de um objecto .

 Mas  no terceiro volume da Wissenschaftslehre que Bolzano analisa

 mais profundamente o conceito de signo e salienta o papel dos signos

 no pensamento lgico .
 A Bolzano trata dos signos uma vez a propsito

 da " assinalao das nossas representaes"49 e outra vez relativamente

  associao das nossas representaes feita propositadamente com

 signos e aos benefcios de uma tal associao50 e s caractersticas

 desses signos51 .

 Quanto  assinalao das representaes , Bolzano fundamenta na unidade

 do esprito a possibilidade de suscitar certas representaes , em si

 difceis de representar , mediante outras representaes mais fceis de

 ter que esto associadas s primeiras .
  neste contexto que Bolzano

 volta a definir signo como um " objecto de que nos servimos com o

 objectivo de mediante a sua representao despertarmos num ser

 pensante uma outra representao associada a ela"52 .
 O significado do

 signo  a representao assinalada ou o objecto dessa representao53 .

 Bolzano faz a distino entre significado e sentido do signo .
 O

 significado de um signo distingue-se do sentido , na medida em que o

 significado do signo  apenas aquela representao que ele se propunha

 despertar e normalmente desperta e nenhuma outra .
 O sentido do signo ,

 pelo contrrio ,  representao que visamos num caso particular .
  por

 esta razo que algum pode usar um signo num sentido oposto ao seu

 significado real .

 Bolzano apresenta aqui j uma classificao dos signos :

 i ) signos gerais se determinados objectos so utilizados por todos os

 homens para assinalar as mesmas representaes ;

 ii ) signos naturais se a sua assinalao de certas representaes

 reside na natureza do homem ;

 iii ) signos ocasionais se essa assinalao reside numa circunstncia

 particular ;

 iv ) signos arbitrrios se essa assinalao no tem outro fundamento

 alm da vontade do ser pensante ;

 v ) signos simples aqueles que no so compostos por outros com

 assinalaes prprias ;

 vi ) signos compostos quando se compem de signos com significados

 prprios ;

 vii ) signos unvocos e signos equvocos ;

 viii ) signos com significados prprios e signos com significados

 imprprios ;

 ix ) signos directos e signos indirectos .

 Quanto  concatenao das representaes mediante signos , Bolzano

 considera que tal se trata de um mtodo extremamente importante na

 obteno de ideias claras e na construo de um pensamento rigoroso54 .

 As vantagens desse mtodo so vrias .
 Primeiro , atravs da simples

 atribuio de um signo adequado a uma representao acontece

 frequentemente que sendo ela uma representao obscura se transforma

 numa representao clara .
 Segundo , nos casos em que por comodidade nos

 servimos dos signos em vez das representaes podemos sempre passar do

 signo para a representao assinalada e obtermos desse modo a desejada

 clareza .
 Terceiro , s atravs da associao das nossas representaes

 a signos  possvel conseguir um domnio completo sobre elas ,

 nomeadamente suscit-las sempre que quisermos .
  que  muito mais

 fcil ter uma representao do signo enquanto objecto sensvel do que

 a respectiva representao assinalada .
 Os signos permitem um acesso

 mais fcil e cmodo s representaes .
 Quarto , ao produzirmos os

 signos ( sons , figuras , etc. ) , ganhamos uma destreza tal nos processos

 fisiolgicos da sua produo que sempre que repetimos estes processos

 a representao do signo surge de novo .
 Quinto , sobretudo a fixao de

 representaes complexas  extremamente facilitada com a utilizao de

 signos simples .
 Caso no existisse o signo como factor de ligao ,

 facilmente nos escapariam este ou aquele componente da representao .

 Sexto , se os signos forem objectos duradoiros do mundo exterior , por

 exemplo figuras , caracteres , e os produzirmos realmente - no nos

 quedando pela sua representao , como quando escrevemos os nossos

 pensamentos , ento ficamos em condio de reproduzir estes pensamentos

 sempre que quisermos , sujeit-los a novo exame , e retirar deles novas

 inferncias .
  deste modo que asseguramos os juzos feitos ,

 possibilitamos a reflexo sobre eles e prosseguimos na descoberta de

 novas verdades .
 Tornando-se as cadeias de inferncia cada vez mais

 extensas e ficando as novas concluses cada vez mais distantes das

 premissas iniciais , seria impossvel ret-las na memria .
 S com a

 ajuda da fixao por escrito dessas cadeias podemos prolong-las mais

 e mais .
 Stimo , mediante a escrita podemos obter uma viso de conjunto

 das verdades j obtidas sobre determinado objecto e desse modo apurar

 novas verdades .
 Oitavo , mesmo uma associao arbitrria e contingente

 de signos pode originar novas representaes e assim levar-nos a novas

 verdades .
 Nono , ao fixarmos os nossos pensamentos atravs de signos

 compreensveis a outros , ficamos em condies de sujeitar os nossos

 juzos e as suas razes ao exame de outras pessoas .

 A estas vantagens , que se cingem  utilizao dos signos pela pessoa e

 para si prpria , e apenas em vista  descoberta de novas verdades ,

 haveria a juntar as inmeras vantagens decorrentes da comunicao das

 ideias entre as pessoas .

 As caractersticas que os signos devem possuir de modo a servirem de

 instrumento  reflexo prpria so segundo Bolzano as seguintes55 :

 i ) os signos tm de ser objectos sensveis ;

 ii ) fceis de representar em qualquer lado ;

 iii ) tem de haver uma relao estreita entre a representao do signo

 e a representao assinalada ;

 iv ) no provocarem a confuso com outras representaes prximas .

 Quanto s propriedades que os signos devem ter de modo a preservar os

 nossos pensamentos elas so56 :

 i ) os signos tm de ter uma durao suficiente ;

 ii ) serem facilmente reconhecidos em toda a parte ;

 iii ) nunca possuirem vrios significados fceis de confundir ;

 iv ) no serem semelhantes a outros signos que exprimem representaes

 diferentes .

 Os contributos de Bolzano para a semitica no residem , como se v ,

 numa tematizao prpria da problemtica semitica .
 Bolzano no

 desenvolve strictu sensu uma lgica dos signos .
 Para ele o estudo dos

 signos mais do que um captulo da doutrina da cincia , constitui uma

 propedutica dessa disciplina57 .
 Os mritos de Bolzano esto ,

 primeiro , no facto de salientar de um modo muito claro a importncia

 dos signos para a lgica e de , desse modo , associar intimamente o

 estudo da lgica ao estudo dos signos , e em segundo lugar , no rigor

 das anlises dos signos acima referidas .
 Esse rigor tornou-se modelar

 para os pensadores que neste campo se lhe seguiram .

 2.3 .
 Frege e a distino entre significado e referncia .

 O lugar de destaque que Gottlob Frege ocupa na histria da lgica 

 hoje incontestvel .
 A sua teoria dedutiva ou clculo  considerada a

 " maior realizao alguma vez alcanada na histria da lgica"58 .
 Alm

 disso , no s apresentou a ideia de que a matemtica se inclui na

 lgica , como mostrou em pormenor como  que a lgica se desenvolve na

 aritmtica .
 Mas a importncia de Frege no se limita  lgica , ela

 estende-se a toda a filosofia .
 A filosofia que hoje se apelida , no

 muito correctamente , de anglo-saxnica , a filosofia analtica e a

 filosofia da linguagem , considera Frege como um dos seus fundadores59 .

 Frege poderia ser , com efeito , um grande lgico , sem ser um grande

 filsofo .
 Porm , as consequncias que os seus trabalhos lgicos

 tiveram na filosofia em geral foram to vastas e profundas e o seu

 mtodo de anlise e de exposio foi de tal modo exemplar para as

 outras disciplinas filosficas que  considerado justamente um dos

 maiores filsofos contemporneos .

 De capital importncia para a lgica e para toda a filosofia do sculo

 XX  sem dvida o artigo de Frege de 1892 sobre o significado e a

 referncia .
 Gnther Patzig considera este artigo como uma das fontes

 principais da semntica moderna60 .
 Nele distingue Frege com extrema

 clareza as dimenses referencial e significativa dos signos61 .

 O ponto de partida de Frege est na questo sobre a igualdade .
  a

 igualdade uma relao de objectos ou uma relao de nomes ou signos de

 objectos ?
 Frege defende que a igualdade  uma relao de signos .

 Argumenta ele do seguinte modo : as proposies " a = a " e " a = b "

 possuem valores cognitivos diferentes ; enquanto a primeira  , em

 linguagem kantiana , um juzo analtico que nada de novo nos ensina , a

 segunda representa bastas vezes uma importante ampliao do

 conhecimento .
 A descoberta de que  o mesmo sol , e no um novo , que

 cada manh nasce constitui um dos conhecimentos de maior alcance na

 astronomia .
 Ora se a igualdade fosse uma relao entre objectos - isto

  , entre aquilo que " a " e " b " se referem - ento " a = a " e " a = b " no

 seriam proposies diferentes .
  que nesse caso , apenas se afirmaria a

 relao de igualdade de um objecto consigo mesmo .
 Mas isso no nos

 traria um novo conhecimento .
 Aqui h que introduzir um novo elemento .

 Para alm da referncia deve-se considerar o significado do nome ou do

 signo .
 O significado consiste na forma como o objecto  dado .
 A mais

 valia cognitiva da proposio " a = b " relativamente a " a = a " reside

 justamente em " a " e " b " se referirem de modo diferente ao mesmo

 objecto .
 Tm significados diferentes e uma mesma referncia .
 " A

 estrela da manh " no significa o mesmo que " a estrela da noite " , mas

 ambas as expresses referem o mesmo objecto .
 Por estrela da manh

 entende-se ( significa-se ) o ltimo astro a desaparecer do cu com a

 aurora , ao passo que por estrela da noite entende-se o primeiro astro

 a aparecer no firmamento ao entardecer .
 Num e noutro caso designa-se o

 planeta Vnus .

 O significado de um nome ou signo  apreendido por quem conhece a

 lngua ou o conjunto dos signos em que esse signo se enquadra .

 Normalmente um signo tem um significado e a esse significado

 corresponde uma referncia .
 O mesmo significado e a correspondente

 referncia tm em diferentes lnguas diferentes expresses .

 Nem sempre a um significado corresponde uma referncia .
 A expresso " o

 corpo mais afastado da Terra " tem certamente um significado , mas 

 questionvel se ela refere algum objecto .

 Frege sublinha enfaticamente que o significado no  uma representao

 subjectiva .
 O significado  objectivo .
 A representao que uma pessoa

 faz de um objecto  a representao dessa pessoa e  diferente das

 representaes que outras pessoas tm do mesmo objecto .
 A

 representao de uma rvore , por exemplo , varia de pessoa para pessoa ,

 e isso torna-se bem patente quando lhes pedimos para desenhar uma

 rvore .
 Cada uma far um desenho diferente .
 O significado de rvore ,

 em contrapartida ,  comum a todos aqueles que o apreendem .

 Mas a distino entre significado e referncia no se restringe aos

 nomes prprios , entendendo-se aqui por nomes prprios quaisquer

 designaes como sejam " Aristteles " , " o professor de Alexandre o

 Grande " , " 4 " , " 2 +2 " .
 Segundo Frege , tambm as proposies tm um

 significado e uma referncia .
 O significado de uma proposio  o

 pensamento ou a ideia que ela exprime .
 Admitindo que uma proposio

 tem uma referncia , a substituio de um seu elemento por um outro com

 a mesma referncia no alterar a referncia da proposio .
 No

 entanto , o sentido poder ser muito diferente .
 As proposies " a

 estrela da manh  um planeta iluminado pelo sol " e " a estrela da

 noite  um planeta iluminado pelo sol " exprimem ideias diferentes de

 tal modo que algum pode aceitar uma e negar a outra .
 Em termos de

 referncia nada , porm , se modificou .
 Se a ideia expressa pela

 proposio constitui o seu significado , ento qual  a sua referncia ?

 A questo  importante na medida em que em muitas frases com

 significado o sujeito no tem referncia .
 A frase " Ulisses aportou a

 taca enquanto estava a dormir "  certamente uma proposio com

 significado , embora no se possa garantir que Ulisses tenha uma

 referncia .
 Alis , tenha ou no tenha " Ulisses " uma referncia , o

 significado da proposio no se altera .
 A questo  ainda mais

 evidente na frase " Um crculo quadrado  uma impossibilidade

 geomtrica " .
 " Crculo quadrado " no designa manifestamente nada , mas a

 frase  cheia de significado .
 Tem aqui cabimento perguntar se uma

 proposio no ter apenas significado .
 Frege responde que se assim

 fosse , isto  , que se uma proposio tivesse apenas significado , ento

 no faria sentido investigar a referncia de um dos seus elementos ,

 pois que bastaria o significado desse elemento .
 Ora o que

 efectivamente se passa ,  que em regra preocupamo-nos com saber se um

 elemento da frase tem ou no referncia .
 Sendo assim , ento teremos de

 admitir que tambm as proposies tm referncia .
 Ademais o valor do

 pensamento expresso na proposio depende da referncia dos seus

 elementos .
 Esse valor  justamente o valor de verdade da proposio .

 Quando se trata de fico mitolgica ou literria o nosso interesse

 prende-se exclusivamente ao significado das proposies .
  irrelevante

 se os nomes prprios integrantes nas proposies tm ou no

 referncia .
 Porm , quando no se trata de fico , ento a questo

 referencial dos elementos da proposio  fundamental para aquilatar

 da verdade da proposio .
  justamente no respectivo valor de verdade

 que Frege v a referncia de uma proposio .
 Valor de verdade de uma

 proposio significa to somente o facto dessa proposio ser

 verdadeira ou falsa .
 No havendo outros valores de verdade que a

 verdade e a falsidade , conclui-se que toda e qualquer proposio tem

 como referncia ou o verdadeiro ou o falso .
 Todas as proposies

 verdadeiras tm a mesma referncia , o verdadeiro , e todas as falsas o

 falso .

 O que ficou dito aplica-se s proposies principais , que podem ser

 consideradas tambm como nomes prprios , como designaes da verdade

 ou da falsidade .
 Quanto s proposies acessrias o caso  diferente .

 Considerem-se as proposies integrantes comeadas por " que " .
 Nestes

 casos h que distinguir entre referncia directa e indirecta .
 Quando

 algum se quer referir ao significado das palavras e no aos objectos

 por estas designados , ento essa referncia  indirecta .
 Assim , quando

 uma pessoa cita em discurso directo as palavras de uma outra pessoa ,

 as prprias palavras referem-se s palavras do outro e s estas

 ltimas  que tm a referncia habitual .
 A referncia directa

 consiste , portanto , nos objectos designados , a indirecta no

 significado habitual das palavras ou dos signos .
 As frases integrantes

 tm uma referncia indirecta , isto  , a sua referncia coincide com o

 seu sentido habitual e no com o respectivo valor de verdade .
  assim

 que o diferente valor de verdade das proposies acessrias no

 modifica o valor de verdade da proposio principal no exemplos

 seguintes : " Coprnico julgava que as rbitas dos planetas eram

 circulares " e " Coprnico julgava que a iluso do movimento solar era

 provocada pelo movimento real da terra " .
 Ambas as proposies citadas

 so verdadeiras , embora no primeiro caso a referncia directa da

 proposio acessria seja falsa .
 S que no se trata aqui de avaliar

 se o juzo de Coprnico estava correcto ou errado , mas sim se

 efectivamente ele julgava isso .
 A questo no se prende , portanto com

 a referncia , mas com o sentido da frase .
 Por isso mesmo , a primeira

 proposio  to verdadeira como a segunda .

 A importncia das investigaes de Frege sobre o significado e a

 referncia para a semntica em particular e para a semitica em geral

 reside em pela primeira vez se associar a questo da verdade  questo

 do significado .
 As teorias clssicas da verdade como correspondncia

 partiam do significado como algo dado  partida .
 No questionavam o

 significado da proposio cuja verdade cabia investigar , ou melhor ,

 julgavam que era possvel inquirir o significado de uma proposio

 independentemente de saber o que  que a tornava verdadeira ou falsa .

 Ora o mrito de Frege consiste justamente em ter mostrado que 

 impossvel apreender o significado de uma frase sem reconhecer as

 condies da sua verdade .
 S em conjunto  possvel explicar as noes

 de verdade e significado , justamente enquanto elementos de uma mesma

 teoria62 .

 2.4 .
 Husserl ou da aritmtica  fenomenologia .

 i ) O pequeno tratado de Husserl sobre semitica , a lgica dos signos ,

 data de 1890 e insere-se no conjunto de estudos de Husserl sobre a

 fundamentao da aritmtica , em que sobressai a obra Filosofia da

 Aritmtica .
 Investigaes Lgicas e Psicolgicas63 de 1891 .
 Da que

 fosse publicado na obra completa de Husserl como um complemento 

 Filosofia da Aritmtica : Husserliana XII , pp. 340-373 .
 A citada

 Filosofia da Aritmtica de 1891 retoma e desenvolve a tese da

 habilitao acadmica " Sobre o conceito do nmero .
 Anlises

 psicolgicas"64 de 1887 .
 A inteno declarada de Husserl , neste

 perodo ,  a de , por um lado , levar a cabo " uma anlise dos conceitos

 fundamentais da aritmtica " e , por outro , proceder a " uma explicao

 lgica dos seus mtodos simblicos"65 .

 ii ) Husserl declara numa nota de rodap da Filosofia da Aritmtica

 dever ao seu mestre Franz Brentano a inteleco da suma importncia

 das representaes imprprias ou simblicas para a vida psquica66 .

 Tambm aqui como em outros aspectos a influncia de Brentano sobre

 Husserl  decisiva .
 No foi sem razo que Husserl lhe dedicou " com

 profundo agradecimento " a Filosofia da Aritmtica .
 Ser bom , por

 conseguinte , apresentar , ainda que em traos algo largos , alguns

 tpicos do labor filosfico de Brentano que mais tocam a questo das

 representaes simblicas .

 Brentano distinguiu-se na Histria da Filosofia sobretudo pela

 distino entre a psicologia gentica e a psicologia descritiva .

 Enquanto a psicologia gentica se ocupa da gnese dos fenmenos

 psquicos , averiguando as suas causas e estudando os seus efeitos , a

 psicologia descritiva procura dar-se conta antes de mais da natureza e

 estrutura desses mesmos fenmenos .
 A primeira visa explicar

 causalmente , a partir de hipteses , a vida psquica , mas essa

 explicao s  possvel aps uma exacta descrio , pela segunda , dos

 fenmenos a explicar .
 A psicologia descritiva tem como tarefa

 clarificar intuitivamente os conceitos utilizados na explicao

 psicolgica , da que assuma uma funo fundante relativamente 

 psicologia gentica .
 Brentano introduz na psicologia a mxima que

 Gustav Robert Kirchhoff e Ernst Mach aplicaram na mecnica , a saber ,

 eliminar todos os conceitos no obtidos descritivamente numa

 experincia directa .

 A distino de Brentano vai sobretudo contra a psicologia associativa ,

 a corrente psicolgica dominante no sculo XIX .
 Na esteira de Johann

 Friedrich Herbart , a psicologia associativa concebia a vida psquica

 como um mecanismo cego das representaes67 .
 O que se passava ao nvel

 do consciente era explicado por processos psquicos inconscientes .
 Ora

 o recurso sistemtico , feito pela psicologia associativa , ao

 inconsciente abria a porta  arbitrariedade total na medida em que se

 tratavam de processos inverificveis , de puras hipteses congeminadas

 sem o menor fundamento objectivo .
 Ou seja , como as explicaes

 psquicas eram remetidas para o inconsciente , no havia qualquer forma

 de apurar a sua objectividade. Brentano pe fim aos desmandos da

 psicologia associativa que , na nsia de aplicar o modelo mecanicista 

 alma tal como a fsica newtoniana o aplicava ao universo68 , no se

 coibia de compreender as representaes como peas de um mecanismo que

 se empurravam , condicionavam e obstruiam no mesmo espao psquico .

 O mtodo descritivo de Brentano possibilitava quebrar o monismo tpico

 da psicologia associativa .
 Consistia esse monismo em admitir

 unicamente contedos da conscincia .
 As sensaes , as representaes ,

 os sentimentos , no seriam mais que o seu contedo .
 Assim , por

 exemplo , na audio de um som , o som ouvido seria o nico dado da

 conscincia .
 Da audio propriamente dita , isto  , do acto psquico ,

 no haveria qualquer experincia .
 Os dados directos da conscincia

 reduzir-se-iam aos contedos psquicos .
 As actividades da conscincia ,

 o sentir , percepcionar , etc. , seriam to s produtos segundos da

 reflexo causal sobre os dados imediatos69. Brentano mostra que h uma

 conscincia indirecta das actividades psquicas .
 Na sua obra capital ,

 Psicologia do Ponto de Vista Emprico , de 1874 , considera impossvel

 uma observao directa dos fenmenos psquicos : " quem quisesse

 observar a ira que nele arde , depararia com ela j fria e o objecto da

 observao teria desaparecido"70 , mas defende que a percepo interna

 se exerce " em oblquo " .
 No  por uma deduo hipottica que chegamos

 s actividades psquicas , como afirmavam os herbartianos , mas sim pela

 experincia .
 Nas lies de Brentano de 1888 a 189071 , surge uma

 passagem sobre as representaes que fazem as vezes de outras

 ( stellvertretende Vorstellungen ) .
 Brentano chama a ateno para o

 facto de certas representaes assinalarem outras apesar de serem

 diferentes .
  assim que , ao vermos de cima o tampo de uma mesa

 redonda , dizemos que a mesa  redonda e de no mudarmos de juzo

 quando a vemos de lado .
 A relao entre as duas representaes , pela

 qual uma assinala a outra , designa-a Brentano de convertibilidade .
 O

 que cabe a uma representao cabe  outra e o que se associa a uma

 associa-se frequentemente  outra .
 Em suma , Brentano abre com o mtodo

 descritivo todo um novo campo  anlise psicolgica .
 H muito mais

 fenmenos psquicos para ver e descrever do que a psicologia

 associativa alguma vez julgou .

 Os discpulos de Brentano aplicaram , com xito assinalvel , o novo

 mtodo a campos muito diversos de invstigao. Refiram-se os trabalhos

 de Anton Marty na filosofia da linguagem , os de Carl Stump na

 psicologia emprica , os de Alexius Meinong na ontologia , os de

 Christian von Ehrenfels na morfologia , os de Kasimir Twardowski na

 lgica e os de Husserl na fenomenologia .

 iii ) Do mesmo ano do tratado de Husserl sobre semitica data o estudo

 pioneiro de Christian von Ehrenfels sobre a morfologia ( teoria da

 Gestalt ) 72 .
 Ora  possvel traar um certo paralelismo entre as

 qualidades morfolgicas de Enrenfels e as representaes simblicas de

 Husserl e , desse modo , situar melhor o tratado de Husserl sobre

 semitica na escola brentanista .
 Alis num estudo de 1893 " Intuio e

 Representao"73 , Husserl aborda a mesma problemtica do artigo de

 Ehrenfels : como  possvel perceber a unidade de um contedo complexo

 como  o caso da melodia , se o que  dado imediatamente  conscincia

 so intuies de diferentes sons .
 Tanto em Ehrenfels como em Husserl a

 questo  , no fundo , acerca das representaes indirectas .

 Com as qualidades morfolgicas , Ehrenfels tenta responder  pergunta

 sobre se a " melodia " consiste numa simples associao de elementos ou

 se em algo novo face a estes , que acompanha efectivamente essa

 associao , mas , no entanto , dela distinta .
 Dito de outra maneira , uma

 melodia composta de n sons , ouvida por um indivduo , representa algo

 mais que os mesmos sons n ouvidos singularmente por n individuos ?
 Ou

 ento , o todo  igual  soma das suas partes ou  mais que essa soma ?

 Ehrenfels nega o atomismo psquico que apenas admite a existncia de

 elementos .
 As qualidades morfolgicas so o elemento novo que se junta

 aos elementos singulares para que um todo seja possvel .
 Ehrenfels

 utiliza como argumento o facto da transposio meldica ou figural

 para demonstrar que o todo no pode reduzir-se  soma das suas partes .

 Uma melodia , cantada numa tonalidade , pode conter sons ( notas )

 completamente diferentes quando cantada numa outra tonalidade .
 No

 entanto , permanece a mesma melodia , e todos os ouvintes reconhecero a

 sua identidade .
 Os elementos alteraram-se , mas o todo meldico

 permaneceu o mesmo .
 A concluso irrefutvel  que a melodia  algo

 diferente da soma dos sons singulares em que se baseia74 .
 Mas

 Ehrenfels no limita o mbito das qualidades morfolgicas aos

 elementos discretos de um complexo , como  o caso dos sons da melodia ,

 ele estende-o tambm aos elementos contnuos , como  o caso dos pontos

 de uma linha ou de um plano ou ainda dos momentos de um perodo

 temporal .
 A apreenso de um todo no ocorre sem a apreenso das

 partes , mas no se reduz a ela .
 Daqui se extrai a seguinte definio :

 " Por qualidades morfolgicas entendem-se os contedos representativos

 positivos que esto ligados  existncia de complexos representativos

 na conscincia , que , por seu lado consistem em elementos

 separveis"75 .

 Partindo das investigaes de Ehrenfels sobre as qualidades

 morfolgicas , Meinong introduz a noo de contedos fundados76 .
 Estes

 so contedos psquicos que tm outros contedos , os contedos

 fundantes , por base .
 Os contedos fundados esto dependentes dos

 fundantes , ao passo que estes so independentes .
 Deste modo ,

 representaes fundadas e representaes independentes constituem uma

 disjuno completa , isto  , todas as representaes ou so fundadas ou

 fundantes .
 Todas as complexes e todas as relaes so representaes

 fundadas .
 Fundadas nomeadamente nos seus elementos ou relata , mas - e

  isto que importa acentuar !
 - representaes conscientes e distintas ,

 e no processos inconscientes como defendia a psicologia associativa .

 Assim , por exemplo , representar as relaes de diferena ou de

 analogia entre um x e um y , ou qualquer outra relao entre eles ,

 significa justamente representar algo para alm de x e y .
 Algo que no

 se infere , mas que se constata .

 So estas investigaes sobre contedos fundados que estaro na origem

 da ontologia meinonguiana , da clebre teoria dos objectos ou

 objectologia ( Gegenstandstheorie ) .
 A noo crucial de objectos de

 ordem superior , por exemplo , radica na de contedos fundados77 .

 iv ) Tambm Husserl se ocupa  altura das representaes que so

 mediadas por outras .
 As representaes simblicas ou imprprias , tal

 como as define logo no incio da segunda parte da Filosofia da

 Aritmtica , so representaes atravs de signos78 .
 Quer isto dizer

 que toda a representao cujo contedo no for directamente dado 

 conscincia  uma representao indirecta e como tal simblica79 .
 s

 representaes simblicas ou imprprias opem-se as prprias , a saber ,

 aquelas em que o contedo  dado imediatamente , como aquilo que ele  .

 Da fachada exterior de uma casa , por exemplo , temos uma representao

 prpria quando realmente a vemos .
 Mas j se trata de uma representao

 simblica se algum nos der a caracterstica indirecta da casa ao

 indic-la como a casa da esquina de tal e tal rua .
 Neste caso o

 contedo  dado claramente por uma caracterstica que o marca e o

 distingue de todos os outros contedos .

 Husserl afirma que na descrio de um objecto h sempre a tendncia

 para substituir a representao prpria , que por vezes tambm designa

 por representao real , pela representao simblica80 .
  que as

 caractersticas da representaco simblica permitem o reconhecimento

 posterior do objecto , podendo , desse modo , os juzos feitos na base

 das representaces simblicas ser aplicados ao prprio objecto .
 Por

 exemplo , afirmar que um edifcio est muito bem situado  um juzo que

 assenta na caracterizaco simblica do edifcio .

 Mas no s os objectos da intuio sensvel podem ser representados

 simbolicamente ; a simbolizao estende-se tambm a conceitos

 abstractos e gerais .
 Uma determinada cor , por exemplo o vermelho , pode

 ser impropriamente representada como a cor a que correspondem tantas e

 tantas milhes de vibraes do ter por segundo .
 Do mesmo modo , um

 tringulo , entendido propriamente como a figura geomtrica fechada ,

 delimitada por trs rectas , pode ser representada impropriamente por

 qualquer outra determinao que lhe seja exclusiva , por exemplo , como

 a figura cujos ngulos somados perfazem a soma de dois ngulos rectos .

 A aritmtica no opera com conceitos prprios de nmeros , isto  , as

 operaes aritmticas no se realizam com os nmeros realmente

 prprios ou sobre eles .
 Na primeira parte da Filosofia da Aritmtica

 Husserl mostra como  falsa a doutrina que reduz toda a aritmtica a

 operaes reais com os prprios nmeros , portanto  adio e  diviso

 enquanto nicas aces reais com e sobre os nmeros , doutrina que

 entende as operaes aritmticas superiores como simples

 especializaes : a multiplicao como uma adio especial e a

 potenciao como uma multiplicao especial .

 Tal doutrina ignora " o facto fundamental de que todas as

 representaes de nmeros que possumos para alm dos primeiros da

 srie numrica so simblicos e que s podem ser simblicos ; um facto

 que determina por completo o carcter , o sentido e a finalidade da

 aritmtica"81 .
 S um intelecto divino poderia ter uma representao

 prpria de todos os nmeros e bem assim das operaes que com eles se

 pudessem realizar .
 Deus no necessita da matemtica .
  o homem , ser

 finito , que precisa da aritmtica para representar qualquer conjunto

 que ultrapasse uma dzia de elementos .
 Por essa razo , Husserl

 contrape  expresso " o Deus matemtico " de Gau a de " o homem

 matemtico"82 .

 Porm , aqui coloca-se a questo com que Husserl encerra o captulo X

 da Filosofia da Aritmtica e com que inicia ipsis verbis o tratado

 " Sobre a Lgica dos Signos " : " Mas como  possvel falar de conceitos

 que propriamente no temos , e como  que no  absurdo que sobre esses

 conceitos se funde a mais segura de todas as cincias , a

 aritmtica ?
 " 83 .
 A resposta que Husserl comea por dar  sucinta : " Se

 bem que os conceitos no nos sejam dados de modo prprio , so-no de

 modo simblico"84 .
 Pelos vistos Husserl no ficou satisfeito com a

 brevidade desta resposta dada na Filosofia da Aritmtica .
 No seu jeito

 muito prprio de aclarar qualquer questo menos clara mediante

 anlises mais aprofundadas , Husserl retoma no estudo de 1890 sobre

 semitica a mesma questo em busca de uma resposta mais cabal .

 De notar , desde logo , na anlise com que Husserl procura responder 

 questo  a afirmao inicial de que se trata de uma reflexo do

 mbito da lgica .
 O objectivo  assim responder logicamente e no

 psicologicamente  questo .
 Para isso Husserl tenta esclarecer

 primeiro o conceito de signo .
 Efectivamente se representaes

 imprprias ou simblicas apenas significam representaes mediadas por

 signos , ento o primeiro passo a dar  clarificar o termo " signo " .

 v ) Apesar de Husserl declarar que a palavra signo , como aqui a define ,

 deve ser tomada no sentido mais amplo que  possvel conceber , isso

 no o isenta de determinar esse sentido .
 A extenso do significado do

 termo no deve equivaler a um significado impreciso .
 Assim , Husserl ao

 dizer que signo de uma coisa  tudo aquilo que a distingue , que 

 adequada a diferenci-la de outras , e pelo qual somos capazes de a

 reconhecer de novo , comea por salientar o carcter relacional de

 signo .
 " O conceito de signo  justamente um conceito de relao : ele

 aponta para um assinalado"85 .
 Ora  precisamente a partir da natureza

 relacional de signo que Husserl procede a uma distino dos signos que

 grosso modo segue a de Bolzano .
 Aqui importa chamar a ateno para as

 distines mais importantes , nomeadamente para as distines entre

 signos que assinalam , mas no caracterizam , e outros que caracterizam ,

 mas no assinalam , e para a distino entre signos formais e

 materiais .
 Husserl comea por dividir os signos em signos exteriores e

 signos conceptuais .
 Os primeiros nada tm a ver com o conceito

 especial do assinalado , com o seu contedo ou com as suas qualidades

 especficas .
 Neste caso , os signos limitam-se a assinalar o objecto ,

 sem darem qualquer informao acerca da natureza do assinalado .

 Exemplo desta classe de signos so os nomes prprios .
 Em

 contrapartida , os signos conceptuais caracterizam o assinalado , na

 medida em que dependem do conceito especial deste .
 Os signos

 conceptuais tanto podem ser caractersticas interiores como

 exteriores .
 As caractersticas interiores so determinaes que esto

 includas como contedos parciais na representao do contedo

 assinalado ; as exteriores so determinaes relativas que caracterizam

 o contedo como o fundamento de certas relaes nele baseadas .

 Uma distino crucial entre os signos feita por Husserl e com

 consequncias importantssimas na teoria do juzo  a distino entre

 signos formais e signos materiais .
 Esta distino vem clarificar a

 natureza relacional do juzo .
 Muitas vezes confundem-se no juzo duas

 distines completamente diferentes : a distino entre contedo do

 juzo e acto do juzo , por um lado , e entre fundamentos da relao e

 relao , por outro .
 Confundia-se a forma do acto judicativo com a

 forma da relao .
 Na velha explicao do juzo como uma relao ou

 conexo de representaes subjaz indubitavelmente esta confuso .
 A

 razo de ser principal desta confuso est no facto de a largussima

 maioria dos nossos juzos incidir sobre relaes , e da se identificar

 o ajuizar com o relacionar .
 Entretanto no se procedia com a

 necessria consequncia e atribuiam-se elementos da relao ora 

 forma ora ao contedo .
 No juzo " Deus  justo " atribuia-se " Deus " e

 " justo "  matria ; no juzo " Todos os homens so mortais " o " todos "

 ( como em geral os sinais de quantidade )  forma , na opinio de que a

 quantidade respeitava ao modo de ajuizar .

 Husserl , seguindo a doutrina de Brentano , considera que o juzo no 

 uma relao entre um sujeito e um predicado , isto  , a predicao de

 um sujeito , mas sim uma afirmao ou negao de um estado de coisas .

 Esta concepo de juzo permite demarcar muito claramente o mbito do

 contedo do juzo e nele distinguir a matria e a forma .
 A matria 

 representada por nomes , e a forma por expresses sincategoremticas ,

 sejam elas simples ou compostas .
 Os nomes servem , e essa  a sua

 especial funo , para designar os contedos absolutos , os fundamentos

 da relao .
 Em contrapartida , as expresses sincategoremticas tm a

 funo de exprimir a relao entre os elementos absolutos do

 pensamento .
 Do ponto de vista do juzo singular , pertence  forma , por

 exemplo na frase , tudo aquilo que exprime a relao judicada , e ao

 contedo tudo aquilo que  aqui fundamento da relao .
 Se um destes

 for composto , ento pertence  matria , relativamente a esta

 composio , o elemento da ligao , e  forma o modo da ligao .
 No

 raciocnio , as premissas e a concluso constituem a matria e a sua

 disposio , na medida em que for caracterstica da relao das frases ,

 a forma .
 S em segunda linha  que a forma das frases singulares e em

 terceira linha a forma das suas matrias pertence  forma do

 raciocnio , na medida em que processo e contedo da actividade

 inferencial so tambm condicionados por elas .

 vi ) Husserl concebe os signos como um instrumento imprescindvel ao

 pensamento e  cincia .
 So os signos que tornam possvel o

 desenvolvimento psquico .
 Eles so autnticas ferramentas necessrias

 s operaes superiores lgicas .
 " Sem a possibilidade de signos

 caractersticos exteriores e permanentes enquanto apoios da nossa

 memria , sem a possibilidade de representaes simblicas substitutas

 de representaes prprias , mais abstractas , e mais difceis de

 distinguir e de manejar , ou mesmo de representaes que nos so de

 todo interditas enquanto prprias , no haveria qualquer vida

 espiritual superior , para j no falar de cincia .
 Os smbolos so o

 maior meio de ajuda natural com que ultrapassamos os limites estreitos

 da nossa vida psquica , com que podemos tornar inofensivas , pelo menos

 at um certo grau , estas imperfeies essenciais do nosso intelecto .

 Por desvios peculiares , poupando actos superiores do pensamento ,

 capacitam o esprito humano a realizaes que directamente , com um

 trabalho gnosiolgico prprio , nunca poderia alcanar .
 Os smbolos

 servem a economia do trabalho intelectual tal como as ferramentas e as

 mquinas servem o trabalho mecnico .
 Com a simples mo , o melhor

 desenhador no traar to bem um crculo como um rapaz de escola com

 o compasso .
 O homem mais inexperiente e mais fraco produzir com uma

 mquina incomparavelmente mais que o mais experiente e mais forte sem

 ela .
 E o mesmo se passa no campo intelectual .
 Tirem-se ao maior gnio

 as ferramentas dos smbolos e ele tornar-se- menos capaz que a pessoa

 mais limitada .
 Hoje em dia uma criana que aprendeu a fazer contas

 est mais capacitada que na antiguidade os maiores matemticos .

 Problemas que para eles eram de difcil compreenso e de todo

 insolveis resolve-os hoje um principiante sem grande dificuldade e

 sem qualquer mrito especial .
 E assim como as ferramentas , em

 crescente complexificao at s mquinas mais maravilhosas ,

 constituem uma srie gradativa que reflecte o progresso da humanidade

 no trabalho mecnico , assim tambm acontece com os smbolos

 relativamente ao trabalho intelectual .
 Com a aplicao consciente dos

 smbolos o intelecto humano eleva-se a um novo nvel , a um nvel

 verdadeiramente humano .
 E o progresso do desenvolvimento intelectual

 corre paralelo a um progresso na cincia dos smbolos .
 O fantstico

 desenvolvimento das cincias da natureza e a tcnica nelas fundada

 constituem sobretudo a glria e o orgulho dos ltimos sculos .
 Mas no

 menor ttulo de glria parece merecer , com efeito , esse notvel

 sistema de smbolos , ainda no esclarecido , a que aquelas devem

 imenso , e sem o qual tanto teoria como prtica ficariam completamente

 desamparadas : o sistema da aritmtica geral , a mais admirvel das

 mquinas espirituais que j alguma vez apareceram"86 .

 2.5 .
 Peirce e o pragmatismo como lgica da abduo .

 a ) A mxima pragmatista e a clareza de ideias

 1 - No h dvida que pragmatismo se tornou um termo bastante equvoco .

 O prprio Peirce deu-se conta da equivocidade que o termo assumira

 desde que o criara , e em 1905 abandonou-o em troca do termo

 pragmaticismo , um termo " suficientemente feio para o livrar dos

 ladres de crianas " .
 Mas se nessa altura , o termo se havia tornado um

 equvoco , hoje quase que se pode falar de um abastardamento do seu

 significado .

  sobretudo no mbito da poltica que hoje se emprega o termo

 pragmtico ou pragmatista .
 Um poltico pragmtico  aquele que age de

 um modo prtico , movido pelas exigncias do momento , sem quaisquer

 preocupaes de ordem ideolgica .
 No h dvida que este significado

 comporta um elemento positivo .
 A um poltico pragmtico atribui-se

 capacidade de iniciativa e de aco .
 Ele interessa-se mais pela

 resoluo concreta dos problemas do que pela investigao das suas

 causas ou da anlise terica dos mesmos .
 A validade de uma teoria

 consiste , ento , apenas numa adequao  prtica .
 Pragmatismo

 significa positivamente , neste sentido , a percepo lcida dos

 problemas e a capacidade prtica de os resolver sem preocupaes de

 ordem torica .
 O significado negativo de pragmatismo est no

 imediatismo e na falta de referncias tericas .
 O poltico pragmtico

 opta por solues prticas que sero , na maioria das vezes , solues

 imediatistas , a curto prazo .
 No se preocupa com os custos que tais

 solues possam acarretar .
 Falta-lhe uma cuidadosa ponderao dos

 efeitos secundrios , mas inevitveis , do seu agir .
 Por outro lado ,

 pragmatismo neste sentido tambm significa por vezes a completa

 ausncia de principios de aco e , simultaneamente , a cegueira tica

 no agir .

 2 .
 Mas qual o significado originrio que C. S. Peirce atribuu ao

 termo " pragmatismo " ?
 Esse significado pode encontrar-se no artigo de

 Peirce " Como tornar as nossas ideias claras " de 187887 .
 O pragmatismo

 tal como transparece da mxima pragmatista formulada a por Peirce 

 sobretudo um mtodo lgico de clarificao das ideias .
 O significado

 originrio de pragmatismo  de natureza lgica .

 Peirce comea por pr em causa as noes cartesianas de clareza e

 distino .
 Segundo Peirce , na tradio lgica , iniciada por Descartes ,

 clareza significa a capacidade de reconhecer uma ideia em qualquer

 circunstncia que ela ocorra e nunca a confundir com nenhuma outra .

 Contra tal ideia de clareza levanta Peirce duas objeces .
 Em primeiro

 lugar , isso representaria uma capacidade sobre-humana .
 Com efeito ,

 quem poderia reconhecer uma ideia em todos os contextos e em todas as

 formas em que ela surgisse , no duvidando nunca da sua identidade ?

 Identificar uma ideia em circunstncias diversas no  tarefa fcil , e

 identific-la em todas as suas formas  com certeza tarefa que

 implicaria " uma fora e uma clareza to prodigiosas do intelecto como

 se encontram raramente neste mundo " .
 Em segundo lugar , esse

 reconhecimento no seria mais do que uma familiaridade com a ideia em

 causa .
 Neste caso , porm , teramos um sentimento subjectivo sem

 qualquer valor lgico .
 A clareza de uma ideia no pode resumir-se a

 uma impresso .
 Por seu lado , a noo de distino , introduzida para

 colmatar as deficincias desta concepo de clareza , exige que todos

 os elementos de uma ideia sejam claros .
 A distino de uma ideia

 significaria , portanto , a possibilidade de a definir em termos

 abstractos .
 A crtica capital de Peirce  noo cartesiana de clareza

 e distino  a de que no permitem decidir entre uma ideia que parece

 clara e uma outra que o  .
 H homens que parecendo estar esclarecidos

 e determinados defendem opinies contrrias sobre princpios

 fundamentais .
 Algum pode estar muito convencido da clareza de uma

 ideia que no o  .

 Como assegurarmo-nos ento objectivamente da clareza de uma ideia ?
 

 aqui que Peirce introduz a engenharia do pensamento moderno .
 Alis , as

 invectivas de Peirce contra a lgica tradicional so precisamente a de

 ter ignorado ao longo de mais um sculo a revoluo ocorrida no

 pensamento cientfico e , por conseguinte , no ter retirado da as

 devidas lies .

 Peirce apresenta o pensamento como um sistema de ideias cuja nica

 funo  a produo da crena .
 Que devemos entender aqui por sistema

 de ideias ?
 Antes de mais , h que distinguir entre dois tipos de

 elementos da conscincia : aqueles de que temos imediatamente

 conscincia e aqueles de que temos mediatamente conscincia .
 Uma

 melodia  um bom exemplo destes dois tipos de elementos .
 Os sons que a

 compem so ouvidos directamente .
 Cada som  uma nota e dele temos

 conscincia ( ouvimo-lo ) num determinado momento , separadamente dos

 sons que ouvimos antes e dos sons que ouviremos depois .
 Em

 contrapartida , a melodia  um elemento mediato  conscincia , mediado

 pelos sons que a compem .
 Tal como a melodia , tambm o pensamento 

 uma aco que tem comeo , meio e fim , e consiste na congruncia da

 sucesso de sensaes que passam pela mente .
 Nas palavras de Peirce ,

 " o pensamento  a linha de uma melodia atravs da sucesso das nossas

 sensaes " .
 Dizer , portanto , que o pensamento  um sistema de ideias

 significa dizer que o pensamento  uma sucesso ordenada de ideias .
 A

 ordem da sucesso ou a unidade do sistema reside na sua funo .
 A

 funo do pensamento  unicamente a de produzir a crena .
 A crena ,

 por seu lado ,  o apaziguamento da dvida .
 Mas , ao sossegar a

 irritao da dvida , a crena " implica a determinao na nossa

 natureza de uma regra de aco , ou , numa palavra , de um hbito " .
 Quer

 isto dizer que com a crena acaba a hesitao de como agirmos ou

 procedermos .
 Um exemplo poder esclarecer como  que a crena  uma

 regra de aco .
 Se encontro uma pessoa que no me  inteiramente

 desconhecida , mas que de momento no identifico , comeo a

 interrogar-me sobre quem ser , de onde a conheo .
 Essa pessoa

 cumprimenta-me e no consigo lembrar-me de quem se trata .
 No sei que

 hei-de dizer-lhe , e isso perturba-me .
 De repente , consigo identificar

 a pessoa .
 Da em diante todas as minhas aces , a maneira como me

 dirijo a essa pessoa e os assuntos que com ela poderei abordar so

 determinados por esse reconhecimento .
 Em termos peirceanos ,  uma

 crena que sossegou a minha dvida e que constitui agora a base da

 minhas aces futuras .

 " A essncia da crena  a criao de um hbito ; e diferentes crenas

 distinguem-se pelos diferentes modos de aco a que do origem " .
  com

 estas palavras que Peirce inicia o pargrafo 398 , um dos mais

 importantes do seu ensaio .
 Vejamos a primeira parte da afirmao de

 Peirce : " a essncia da crena  a criao de um hbito " .
 Se eu julgar

 que determinado objecto  um garfo , ento servir-me-ei dele para levar

  boca certos alimentos slidos .
 A crena de que esse objecto  um

 garfo condiciona as aces que farei com ele .
 O hbito no  mais do

 que o conjunto de todas essas aces , tanto reais como possveis .

 Porm , para um chins de uma aldeia remota do interior da China , que

 se serve normalmente de pauzinhos para levar  boca os alimentos

 slidos , e que encontra um " garfo " perdido por um viajante ocidental ,

 a sua crena cerca desse objecto pode ser completamente diferente .

 Pode julgar , por exemplo , que se trata de um anchinho para pequenos

 vasos de flores .
 Nesse caso , a sua crena consistir em servir-se dele

 para tratar a terra dos seus vasos .
 Vimos atrs que as crenas

 determinam a aco .
 Mas a mesma crena determina as mesmas aces .
 Se

 as crenas se alteram tambm as aces se alteram .
  por isso que o

 hbito constitui a identidade da crena .

 A segunda parte da afirmao de Peirce , isto  , de que " diferentes

 crenas se distinguem pelos diferentes modos de aco a que do

 origem " , decorre da primeira .
 Enquanto identidade da crena , o hbito

 de aco  o critrio para avaliar da diferena entre crenas .
 No

 teria pois qualquer sentido afirmar uma diferena de crenas cujos

 resultados de aco no s efectivamente , mas tambm possvelmente

 fossem os mesmos .
 O que decide ento da identidade ou da diversidade

 das crenas no so meras palavras , mas sim aces empiricamente

 verificveis , j que os referidos resultados de aco so resultados

 sensveis88 .

 Para ilustrar o seu mtodo de tornar as ideias claras , Peirce faz no

 pargrafo 401 uma incurso pelos domnios da f catlica relativamente

 ao mistrio da Eucaristia .
 Os catlicos acreditam que na celebrao

 eucarstica tem lugar a transubstanciao do po e do vinho no corpo e

 sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo .
 A sua f diz-lhes que , a partir

 do acto da consagrao pelo sacerdote , o po deixa de ser po , o vinho

 deixa de ser vinho , e passam a ser realmente o corpo e sangue de

 Cristo .
 Em contrapartida , " as igrejas protestantes defendem em geral

 que os elementos da eucaristia so carne e sangue apenas em sentido

 figurado " .

 Ora , pela teoria de Peirce , no tem sentido dizer que no  po ou

 vinho aquilo que tem as qualidades de po e vinho .
 O po e o vinho

 consagrados na eucaristia , e segundo a f catlica tornados realmente

 corpo e sangue de Cristo , mantm as propriedades que caracterizam o

 po e o vinho ; as mesmas propriedades fsicas , qumicas e nutritivas .

 Isso nenhum catlico enquanto pessoa de bom senso pode negar .
 E ,

 portanto , segundo Peirce , "  palavreado oco , falar de algo como tendo

 todas as caractersticas do vinho , mas que na realidade  sangue " .

 A doutrina catlica da transubstanciao funda-se na filosofia

 aristotlica , nomeadamente na distino entre substncia e acidentes .

 Na Eucaristia , tem lugar uma mudana de substncia do po e do vinho

 em corpo e sangue de Cristo , mas mantendo-se nessa mudana substancial

 os acidentes de po e vinho .
 A meu ver , a crtica de Peirce dirige-se

 no tanto ao mistrio eucarstico , mas sobretudo  explicao

 filosfica adoptada pelo magistrio catlico .
 A teoria aristotlica da

 substncia e dos acidentes  hoje cientificamente inaceitvel ,

 obrigando pois a uma reviso do conceito de " transubstanciao "

 aplicado ao mistrio eucarstico .
 Contudo , permanece a questo da

 " realidade " do corpo e sangue de Cristo nos elementos do po e do

 vinho .
 Empiricamente , o po e o vinho continuam a ser po e vinho ,

 justamente na medida em que mantm as propriedades de po e vinho .
 Aos

 olhos da f , porm , o po deixa de ser realmente po e o vinho deixa

 de ser realmente vinho , para se tornarem no corpo e sangue de Cristo .

 O hino eucarstico de S.Toms de Aquino " Pange lingua " diz isso mesmo :

 " Praestet fides supplementum sensuum defectui " .
  alis de acordo com

 a realidade dos olhos da f que o crente catlico determina as suas

 concepes e os seus actos relativamente  Eucaristia .

 Alis aqui pode aplicar-se o mtodo de Peirce .
 A crena na realidade

 eucarstica estabelece uma regra de aco nos catlicos .
 Quando vai 

 comunho , a inteno do catlico no  alimentar-se corporalmente ,

 embora efectivamente tambm o faa - se comungasse meio quilo de

 hstias consagradas , obviamente que ficaria saciado - , mas sim

 alimentar-se espiritualmente .
 Quando vai visitar o Santssimo

 Sacramento da Eucaristia , ento f-lo pela f na presena real de

 Cristo .
 O martrio de S. Tarcsio , morto por defender as espcies

 sagradas ,  o melhor exemplo dos comportamentos prticos que a crena

 determina .
 Se " a essncia da crena  a criao de um hbito " e se

 " diferentes crenas se distinguem pelos diferentes modos de aco a

 que do origem " , ento a realidade eucarstica dever espelhar-se nas

 aces e comportamentos dos catlicos .
 Ora  justamente isso que

 acontece .
 A crena na realidade eucarstica , o mesmo  dizer , na

 presena real de Cristo na eucaristia , consiste na crena nos efeitos

 prticos que os catlicos concebem que essa presena divina tem nas

 suas vidas .

 No pargrafo 402 , Peirce formula ento a mxima pragmatista :

 " considera quais os efeitos , que podem ter certos aspectos prticos ,

 que concebemos que o objecto da nossa concepo tem .
 A nossa concepo

 dos seus efeitos constitui o conjunto da nossa concepo do objecto " .

 Quer isto dizer , que a nossa ideia do objecto  to simplesmente a

 ideia dos efeitos sensveis que concebemos que o objecto tem ou pode

 ter .

 b ) O pragmatismo como lgica da abduo

 A mxima pragmatista  uma mxima lgica e no um sublime princpio de

 filosofia especulativa .
  isto que Peirce afirma logo na primeira89

 das sete conferncias sobre pragmatismo que em 1903 fez em Harvard a

 convite de William James e que , de certo modo , tornou essas

 conferncias ininteligveis para os ouvintes90 .
 Com estas conferncias

 Peirce tenta fundamentalmente dar uma resposta lgica - e no

 psicolgica !
 -  seguinte questo : " Qual  a prova de que os efeitos

 prticos de um conceito constituem a soma total do conceito ?
 " 91  que

 na primeira formulao da mxima pragmatista , o argumento , de que a

 crena consistia em estar deliberadamente preparado para adoptar a

 frmula crida como guia da aco , assentava num princpio psicolgico ,

 nomeadamente o de a concepo de verdade se desenvolver a partir de um

 impulso original para agir consistentemente ou ter uma inteno

 definida .
 Mas , alm de tal princpio no ser claro , ele tambm no

 respondia  objeco de que embora no existisse diferena prtica

 entre duas concepes , algum poderia reconhecer uma concepo como

 sua e no a outra .
 O critrio pragmtico no seria nesse caso

 suficiente para decidir sobre a identidade ou diferena de duas

 concepes .
 A prova lgica de que os efeitos prticos de um conceito

 constituem efectivamente a soma total do conceito obtm-a Peirce

 apresentando o pragmatismo como a lgica da abduo .
 Efectivamente o

 ciclo de conferncias em Harvard termina por apurar que a questo do

 pragmatismo mais no  que a questo da abduo92 .

 Nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu .
 Este princpio

 aristotlico  a primeira das trs proposies com que Peirce tenta

 " afiar " a mxima pragmatista93 .
 Por in intellectu deve entender-se

 toda a ideia ou representao de qualquer tipo de conhecimento , seja

 este virtual ou simblico .
 Por ter estado in sensu entende

 expressamente Peirce ter passado por um juzo perceptivo .
 Quer esta

 primeira proposio cotria dizer , portanto , o seguinte : nenhuma

 ideia , seja de que tipo for , se encontra na mente que no tenha

 passado primeiro por um juzo perceptivo .
 Os juzos preceptivos surgem

 assim como a verdadeira fonte do conhecimento .

 O problema que aqui se levanta , e que  o problema principal de

 qualquer teoria do conhecimento ou lgica ,  o seguinte : como 

 possvel obter de juzos particulares , como so os juzos perceptivos ,

 conceitos e juzos universais ?
 Dito de outra maneira : Se tudo vem da

 sensibilidade , e sendo a sensibilidade sempre uma apreenso do

 singular , como  que podemos chegar a conceitos universais ?

 Logo no inco da sexta conferncia " Trs tipos de raciocnio"94 ,

 Peirce define geral e singular .
 Seguindo Aristteles , Peirce define o

 geral como aquilo quod aptum natum est praedicari de pluribus .

 Trata-se de uma definio de cariz eminentemente lgico .
  geral o que

 se predica de vrios .
 O singular , por seu lado  definido como aquilo

 que reage .
 Reaco deve ser entendida aqui como resistncia 

 arbitrariedade representativa de quem formula o juzo .
 O singular  o

 existente que est completamente determinado e , portanto , no d azo a

 uma determinao ulterior por parte de quem o apreende .
  justamente o

 singular que traduz o carcter impositivo ou reactivo de todo o

 objecto da percepo .
 Dito de outro modo : o sujeito de um juzo

 perceptivo - de um juzo baseado numa percepo !
 -  sempre um

 existente e , sendo esse existente completamente determinado na sua

 existncia , ele impe-se como tal ao cognoscente95 .

 Mas embora os juzos perceptivos sejam juzos singulares , eles no

 deixam de envolver a generalidade - o seu predicado  geral !
 - , de tal

 forma que a partir deles se podem deduzir proposies universais .
 

 esta a segunda proposio cotria .
 A questo que muito pertinentemente

 se levanta aqui  como  que a generalidade entra nos juzos

 perceptivos .
 Se  com estes juzos que todo o conhecimento comea , de

 acordo com a primeira posio cotria , ento importa saber como  que

 a generalidade aparece neles .
 A resposta de Peirce  que a introduo

 da generalidade nos juzos perceptivos se faz abdutivamente .

 O que  a abduo ?
 Peirce apresenta-a como um dos trs tipos de

 raciocnio , sendo os outros dois a deduo e a induo96 .
 Enquanto a

 deduo prova que algo deve ser ( inferncia necessria ) e a induo

 prova que algo realmente  ( inferncia experimental ) , a abduo prova

 que algo pode ser ( inferncia hipottica ) .
 A deduo parte de certas

 hipteses ( premissas ) e retira delas de modo necessrio o que nelas se

 encontra implicitamente suposto , a saber , a concluso .
 Mas a deduo

 deixa em aberto a verdade das premissas97 .
 A induo , por seu lado ,

 consiste em verificar uma teoria mediante a experimentao .
 Ela no

 constitui certamente o mtodo de adquirir novos conhecimentos , como

 pretenderam os pensadores modernos .
 Por mais experimentos que se

 fizessem , eles nunca nos levariam a uma nova doutrina .
 O que a induo

 faz  apenas comprovar uma teoria avanada de antemo para explicar

 certos fenmenos .
 " A induo consiste em partir de uma teoria , dela

 deduzir predies de fenmenos e observar esses fenmenos a fim de ver

 quo de perto concordam com a teoria"98 .
 A abduo , por fim ,  o

 mtodo de formao de novas hipteses explicativas .
 Trata-se do nico

 tipo de raciocnio capaz de engendrar novos conhecimentos .
 As

 premissas da deduo e as teorias supostas pela induo so de

 natureza hipottico-explicativa , a sua criao deve-se  abduo .

 A forma de inferncia abdutiva  a seguinte : " Um facto surpreendente ,

 C ,  observado ; Mas se A fosse verdadeiro , C seria natural .
 Donde h

 razo para suspeitar que A  verdadeiro"99 .
 Mas como chegamos a A ?

 Como surge essa hiptese explicativa ?
 Peirce associa a abduo ao

 instinto .
 O homem tem uma faculdade especial de elaborar hipteses

 explicativas .
  uma espcie de introviso ( Insight ) da natureza100 .

 Sebeok utiliza aqui o velho topos da lumen naturale para classificar a

 capacidade abdutiva do homem101 .

 Exposto o tipo de raciocnio abdutivo , vejamos agora como  que a

 generalidade entra abdutivamente nos juzos perceptivos .

 A terceira proposio cotria apresenta os juzos perceptivos como

 casos extremos de inferncias abdutivas102 .
 " A terceira proposio

 cotria  que a inferncia abdutiva se transforma no juzo perceptivo

 sem que haja uma linha clara de demarcao entre eles : ou , por outras

 palavras , as nossas primeiras premissas , os juzos perceptivos , devem

 ser encarados como um caso extremo das inferncias abdutivas , das

 quais diferem por estar absolutamente alm de toda a crtica"103 .

 Peirce fundamenta a terceira proposio cotria no carcter

 interpretativo dos juzos perceptivos .
 Em muitos casos o objecto da

 percepo pode ser classificado de maneira diferente .
 O exemplo

 apontado por Peirce so as iluses pticas , nomeadamente a iluso da

 figura esboada de alguns degraus vistos em perspectiva - por vezes

 temos a impresso de olhar os degraus de cima , e de repente parece que

 vemos de baixo os degraus .
 Nestes casos , uma teoria da interpretao

 da figura d sempre a impresso de ser dada na percepo : " Da primeira

 vez em que nos  apresentada , ela parece estar sempre to

 completamente alm do controle da crtica racional quanto o est

 qualquer objecto da percepo ; mas , aps muitas repeties da

 experincia agora familiar , a iluso desgasta-se , tornando-se

 inicialmente menos definida e acabando , ao fim , por desaparecer por

 completo .
 Isto demonstra que estes fenmenos so verdadeiros elos

 conectivos entre abdues e percepes"104 .
 Estas variaes da

 percepo do objecto e consequentemente dos juzos perceptivos mostram

 que existe uma dependncia destes juzos relativamente  abduo .
 O

 objecto da percepo no  dado como um facto bruto , absolutamente

 inquestionvel , mas  sempre percepcionado  luz de determinada

 teoria .
 De certo modo , ele  sempre interpretado .
 Portanto , os juzos

 perceptivos so casos , ainda que extremos , de inferncias

 abdutivas105 .

 A linha de demarcao entre juzos perceptivos e inferncias abdutivas

 propriamente ditas reside na incapacidade de conceber a negao dos

 juzos perceptivos .
 Trata-se da prova da inconceptibilidade .
 Esta  o

 nico meio de distinguir entre uma abduo e um juzo perceptivo .

 Enquanto podemos conceber sem mais a negao de uma inferncia

 abdutiva e imaginar uma outra hiptese explicativa , " no podemos

 formar a menor concepo do que seria negar o juzo perceptivo"106 .

 A mxima pragmatista constitui o critrio de admissibilidade das

 hipteses explicativas .
  precisamente por isso que a questo do

 pragmatismo se identifica com a questo da abduo .
 " O pragmatismo

 prope uma certa mxima que , se slida , deve tornar desnecessria

 qualquer norma ulterior quanto  admissibilidade das hipteses se

 colocarem como hipteses , isto  , como explicaes dos fenmenos

 consideradas como sugestes auspiciosas ; e , mais ainda , isto  tudo o

 que a mxima do pragmatismo pretende realmente fazer , pelo menos na

 medida em que est restrita  lgica e em que no  compreendida como

 uma proposio em psicologia"107 .
 Quer isto dizer o seguinte : o

 universo das hipteses explicativas  infinito .
 Sendo a forma cannica

 da adbuo o raciocnio " Um facto surpreendente , C ,  observado ; Mas

 se A fosse verdadeiro , C seria natural .
 Donde h razo para suspeitar

 que A  verdadeiro " , ento todo e qualquer alvitre que de alguma

 forma pudesse explicar um fenmeno teria razo de ser108 .
  aqui que

 se impe estabelecer um limite e esse limite  a mxima pragmatista .
 A

 abduo feita , mais exactamente , a hiptese abduzida tem de criar o

 hbito de como lidar com o fenmeno explicado .
 Essa hiptese vai guiar

 a conduta prtica de quem a formulou .

 Entendida a mxima pragmatista como critrio da admissibilidade de

 hipteses , isto  , entendida como princpio lgico , ela formula-se da

 seguinte forma : " A mxima do pragmatismo  que uma concepo no pode

 ter efeito lgico algum , ou importncia a diferir do efeito de uma

 segunda concepo salvo na medida em que , tomada em conexo com outras

 concepes e intenes , poderia concebivelmente modificar a nossa

 conduta prtica de um modo diverso do da segunda concepo"109 .

 3 .
 Lingustica e semitica

 3.1 .
 A lingustica de Saussure e a ideia de semiologia

 A tradio da semitica europeia contempornea assenta na obra de

 Saussure110 , particularmente no Curso de Lingustica Geral111 .

 Um dos contributos essenciais de Saussure para a lingustica consiste

 na fixao da lngua como sistema semiolgico .
 A partir da j clebre

 esquematizao do sistema de comunicao entre um emissor e um

 receptor , Saussure separa os elementos psquicos dos elementos fsicos

 e fisiolgicos .
 Mas a lingustica s trata dos elementos psquicos na

 medida em que deixa de lado o acto individual da fala e se centra no

 facto social , isto  , no facto de que " todos os indivduos

 reproduziro - no exacta , mas aproximadamente - os mesmos signos

 unidos aos mesmos conceitos"112 .

 Saussure demarca a lngua tanto da linguagem , como da fala .
 Face 

 linguagem a lngua caracteriza-se por ser uma parte determinada ,

 essencial , da linguagem .
 Enquanto a linguagem  multiforme e

 heterclita , estendendo-se sobre vrios domnios , fsicos ,

 fisiolgicos e psquicos , individuais e sociais , sem uma unidade

 prpria , a lngua enquanto sistema de sinais para exprimir ideias 

 uma instituio social entre outras instituies sociais .
 A lngua 

 um todo em si e compete-lhe a ela servir de princpio de classificao

  linguagem .

 Relativamente  fala que  individual e acidental , a lngua

 distingue-se por ser social e essencial .
 " A lngua no  uma funo do

 sujeito falante ,  o produto que o indivduo regista passivamente ; ela

 nunca supe premeditao .
 Ela  um objecto bem definido no conjunto

 heterclito dos factos da linguagem .
 Podemos localiz-la no momento

 determinado do circuito em que uma imagem auditiva se vem associar a

 um conceito .
  a parte social da linguagem , exterior ao indivduo , e

 este , por si s , no pode cri-la nem modific-la ; ela s existe em

 virtude de um contrato firmado entre os membros da comunidade .
 Por

 outro lado , o indivduo tem necessidade de uma aprendizagem para lhe

 conhecer as regras ; a criana s pouco a pouco a assimila"113 .

 Relativamente  caracterizao saussureana da lngua escreve Roland

 Barthes a parfrase : " Como instituio social , ela no  um acto ,

 escapa a qualquer premeditao ;  a parte social da linguagem ; o

 indivduo , por si s , no pode nem cri-la nem modific-la ; 

 essencialmente um contracto colectivo , ao qual nos temos de submeter

 em bloco , se quisermos comunicar ; alm disso este produto social 

 autnomo ,  maneira de um jogo que tem as suas regras , pois s o

 podemos manejar depois de uma aprendizagem"114 .

 O apuramento que Saussure faz da lngua enquanto sistema de signos com

 singularidade e unidade prprias  extremamente importante , pois que

 esse sistema  exemplar de todos os outros sistemas semiolgicos .
 As

 caractersticas que lhe so essenciais enquanto sistema sgnico

 estendem-se eo ipso a todos os outros sistemas .

 a ) As caractersticas do signo

 i ) Uma entidade de duas faces .

 Contra a viso simplista e vulgar da lngua , que considera esta como

 nomenclatura , faz Saussure trs crticas : essa concepo da lingua

 " supe que as ideias so anteriores s palavras " , " no nos diz se o

 nome  de natureza vocal ou psquica " , " deixa supor que o lao que une

 um nome a uma coisa  uma operao simples"115 .
 A concepo de

 Saussure  radicalmente diferente : " O signo lingustico une no uma

 coisa e um nome , mas um conceito e uma imagem acstica .
 Esta ltima

 no  o som material , puramente fsico , mas a marca psquica desse

 som , a sua representao fornecida pelo testemunho dos sentidos , 

 sensorial e se , por vezes , lhe chamamos ' material '  neste sentido e

 por oposio ao outro termo da associao , o conceito , geralmente mais

 abstracto .

 ( ...
 ) O signo lingustico  , pois , uma entidade psquica de duas

 faces , que pode ser representado pela figura :

 Estes dois elementos esto intimamente unidos e postulam-se um ao

 outro .
 Quer procuremos o sentido da palavra latina arbor , quer

 investiguemos qual a palavra com que o latim designa o conceito

 " rvore " ,  evidente que s as aproximaes consagradas pela lngua

 nos aparecem conformes  realidade e , por isso , afastamos qualquer

 outra que se pudesse imaginar"116 .

 Em ordem a demarcar o signo enquanto totalidade desta entidade de duas

 faces e a impedir a sua identificao com a imagem acstica , Saussure

 procede a uma preciso terminolgica : " Propomos manter a palavra signo

 para designar o total e substituir conceito e imagem acstica

 respectivamente por significado e significante ; estes dois termos tm

 a vantagem de marcar a oposio que os separa entre si e que os

 distingue do total de que fazem parte"117 .

 ii ) A arbitrariedade do signo .

 A associao entre significante e significado  arbitrria .
 O vnculo

 que une as duas faces do signo  de natureza convencional , ele assenta

 num hbito colectivo .
 " Assim , a ideia de ' p ' no est ligada por

 nenhuma relao  cadeia de sons [ p ] + ' e ' que lhe serve de

 significante ; poderia ser to bem representada por qualquer outra :

 provam-no as diferenas entre as lnguas e a prpria existncia de

 lnguas diferentes .

 Podemos , portanto , dizer que os sinais puramente arbitrrios realizam

 melhor do que os outros o ideal do processo semiolgico ;  por isso

 que a lngua , o mais complexo e o mais difundido dos sistemas de

 expresso ,  tambm o mais caracterstico de todos ; neste sentido , a

 lingustica pode tornar-se o padro geral de toda a semiologia , ainda

 que a lngua seja apenas um sistema particular"118 .

  pela arbitrariedade que o signo se distingue do smbolo : " O smbolo

 nunca  completamente arbitrrio ; ele no  vazio ; h sempre um

 rudimento de ligao natural entre o significante e o significado"119 .

 Mas que quer dizer arbitrrio ?
 Quando dizemos que o signo  arbitrrio

 isso " no deve dar a ideia de que o significante depende da livre

 escolha do sujeito falante ; queremos dizer que ele  imotivado , isto 

 arbitrrio em relao ao significado , com o qual no tem , na

 realidade , qualquer ligao natural"120 .

  justamente devido  arbitrariedade do signo lingustico que Saussure

 considera a lngua como o mais caracterstico de todos os sistemas

 semiolgicos , podendo , por isso mesmo , a lingustica tornar-se o

 padro geral de toda a semiologia121 .

 iii ) A linearidade do significante .

 " O significante , porque  de natureza auditiva , desenvolve-se no tempo

 e ao tempo vai buscar as suas caractersticas : a ) representa uma

 extenso , e b ) essa extenso  mensurvel numa s dimenso ;  uma

 linha"122 .
 Esta linearidade caracteriza o signo lingustico na medida

 em que , enquanto acstico , o distingue dos signos visuais , passveis

 de ser apreendidos simultaneamente .
 " Por oposico aos significantes

 visuais ( sinais martimos , etc. ) , que podem oferecer complicaces

 simultneas em vrias dimenses , os significantes acsticos s dispem

 da linha do tempo ; os seus elementos apresentam-se uns aps outros ;

 formam uma cadeia .
 Esta caracterstica aparece mais ntida quando os

 representamos na escrita : a linha espacial dos sinais grficos

 substitui a sucesso no tempo"123 .

 A importncia desta caracterstica do signo reside no facto de sobre

 ela assentar a dimenso sintagmtica da lngua .

 iv ) Mutabilidade e imutabilidade do signo .

 Paradoxalmente o signo lingustico  simultaneamente mutvel e

 imutvel .
 Parece ser uma contradio , mas a contradio desaparece

 atendendo s diferentes perspectivas em que o signo  mutvel e

 imutvel .
 O signo  imutvel pela simples razo de que " relativamente

  comunidade lingustica que o emprega , o signo no  livre mas

 imposto .
 A massa social no  consultada , e o significante escolhido

 pela lngua no poderia ser substitudo por qualquer outro. ( ...
 ) No

 s um indivduo seria incapaz , se o quisesse , de modificar no quer que

 fosse a escolha que foi feita , mas a prpria comunidade no pode

 exercer a sua soberania sobre uma s palavra : ela est ligada  lngua

 tal como "124 .

 A lngua aparece pois como um corpo imutvel , independente no s do

 sujeito como da prpria comunidade lingustica .
 " Em qualquer poca , e

 por muito que recuemos , a lngua aparece como uma herana duma gerao

 precedente .
 O acto pelo qual , num dado momento , os nomes foram

 distribudos pelas coisas , e que estabeleceu o contrato entre os

 conceitos e as imagens acsticas - esse acto , podemos imagin-lo , mas

 nunca foi verificado .
 A ideia de que tudo se tivesse passado dessa

 forma -nos sugerida pela nossa conscincia muito viva da

 arbitrariedade do signo"125 .
 A lngua aparece pois como um bem

 adquirido e acabado que aceitamos em bloco e no como algo informe .

 Saussure apresenta quatro razes para a imutabilidade dos signos

 lingusticos .
 Antes de mais o carcter arbitrrio do signo .
  que

 " para que uma coisa seja posta em questo  preciso que assente numa

 norma racional .
 Podemos , por exemplo , discutir se o casamento

 monogmico  mais racional do que o poligmico e apresentar argumentos

 a favor de um ou do outro .
 Podamos tambm atacar um sistema de

 smbolos , porque o smbolo tem uma relao racional com a realidade

 significada ; mas na lngua , sistema de signos arbitrrios , no temos

 esta base e sem ela no h fundamento slido para discusso ; no h

 nenhum motivo que leve a preferir irm a soeur , ox a boi , etc"126 .

 Segundo , a enorme quantidade de signos necessrios para constituir

 qualquer lngua torna o sistema to pesado que  quase impossvel

 substitui-lo por outro .
 Terceiro , a complexidade do sistema .
 A lngua

  um sistema to complexo que mesmo a maior parte dos falantes

 desconhecem o mecanismo que lhe est subjacente .
 Por fim , h a

 resistncia da inrcia colectiva a todas as inovaes lingusticas .

 Saussure considera mesmo que de entre todas as instituies sociais a

 lngua  a mais resistente  mudana na medida em que  a mais

 utilizada pelo maior nmero de indivduos de uma comunidade .
 " A lngua

  , de todas as instituies sociais , a que oferece menor margem s

 iniciativas .
 Ela incorpora a vida da comunidade , e esta , naturalmente

 inerte , aparece antes de mais como um factor de conservao"127 .

 Numa outra perspectiva , porm , o signo lingustico aparece como

 mutvel .
 Como instituio social tambm a lngua est sujeita  aco

 do tempo .
 " O tempo que assegura a continuidade da lngua , tem um outro

 efeito ,  primeira vista contraditrio em relao ao primeiro : o de

 alterar mais ou menos rapidamente os signos lingusticos , e , num certo

 sentido , podemos falar ao mesmo tempo de imutabilidade e da

 mutabilidade do signo"128 .
 A mutao provocada pelo tempo sobre a

 lngua consiste fundamentalmente num desvio na relao entre

 significante e significado .

 b ) Unidade e identidade das entidades da lngua e valor do signo .

 A questo da unidade do signo lingustico  diferente da questo sobre

 a sua identidade .
 Se  unidade se ope a pluralidade ,  identidade

 ope-se a alteridade .
 A questo da unidade  atinente ao problema de

 demarcar os elementos bsicos da lngua .
 A questo da identidade

 interroga-se sobre a mesmidade do signo nas suas diferentes

 aplicaes .

 As entidades da lngua so concretas .
 " Os signos de que a lngua se

 compe no so abstraces , mas objectos reais"129 .
 Mas em que

 consiste a natureza concreta do signo ?
 Em primeiro lugar , na sua

 estrutura dupla de significante e significado .
 " A entidade lingustica

 s existe pela associao do significante e do significado ; quando s

 retemos um destes elementos , ela desaparece ; em vez de um objecto

 concreto , temos diante de ns uma pura abstraco ( ...
 ) Uma srie de

 sons  lingustica se  o suporte de uma ideia ; tomada em si mesma s

 pode ser matria para um estudo fisiolgico"130 .
 Isto  , os objectos

 da lngua , as entidades lingusticas , apesar de psquicos so algo bem

 concreto , definido , " palpvel " .
 A determinado significante corresponde

 um conceito e vice-versa .
 A concreo reside justamente na associao

 concreta entre este significante e aquele significado , e no entre

 possveis outros .
 Em segundo lugar , a concreo da lngua reside na

 sua delimitao , isto  ,  concreta porque tem contornos bem

 definidos .
 Ela  uma unidade .
 " A entidade lingustica s fica

 completamente determinada quando est delimitada , livre de tudo o que

 a rodeia na cadeia fnica .
 So estas entidades delimitadas , ou

 unidades , que se opem entre si no mecanismo da lngua"131 .
 Mas esta

 delimitao  feita justamente pela associao de significante e

 significado .
 Considerada em si mesma , a linha fnica  uma linha

 contnua em que o ouvido no distingue quaisquer unidades .
 Estas s

 surgem com a associao de determinadas pores de sonoridade dessas

 linhas a determinados conceitos .

 Para apurar as entidades concretas da lngua h que saber , portanto ,

 delimit-las no todo da lngua .
 Assim , chegamos  importantssima

 noo de corte ou segmentao .
 O mtodo de corte consiste em

 estabelecer duas cadeias paralelas , uma de significantes e outra de

 significados , e fazer corresponder a cada elo da primeira um elo da

 segunda .
 Este corte no  um dado da experincia , nem  um dado

 perceptvel ; o corte  comandado pela lngua .
 Uma pessoa por mais que

 oua um discurso em chins , se no souber chins , no consiguir

 distinguir , cortar ou delimitar , as respectivas unidades .

 A questo da identidade das entidades da lngua diz respeito 

 mesmidade do signo nas suas diferentes aplicaes .
 O que se questiona ,

 pois ,  a identidade " em virtude da qual declaramos que duas frases

 como ' no sei nada ' e ' nada nos falta ' contm o mesmo elemento"132 .
 

 que dois sons diferentes e at com significado algo diferente podem

 ser identificados sincronicamente .
 Saussure d exemplos , onde , apesar

 de variao aos dois nveis , fnico e semntico , a identidade se

 mantm , isto  , afirmamos que se trata da mesma unidade lingustica .

 " Quando , numa conferncia , ouvimos repetir vrias vezes a palavra

 Senhores !
 , temos a certeza de que se trata sempre da mesma expresso

 e , todavia , as variaes de elocuo e a entoao apresentam-na , nas

 diversas passagens , com diferenas fnicas muito apreciveis ...
 , alm

 disso , esta certeza da identidade persiste , se bem que no plano

 semntico no haja a identidade absoluta de um Senhores !
 a outro ,

 quando uma palavra pode exprimir ideias bastante diferentes sem que a

 sua identidade fique seriamente comprometida ( cf .
  adoptar uma moda  e

  adoptar uma criana  ,  a flor da cerejeira  e  a flor da

 sociedade  " 133 .
 Esta observao leva-nos a perguntar : se a identidade

 da unidade lingustica no reside na linha fnica , nem na linha

 semntica , ento onde reside ?
 No seu valor .
 Trata-se de uma identidade

 funcional .
 Deste tipo  a identidade de dois rpidos que partem s

 8.30 , com vinte e quatro horas de intervalo ou a de uma rua que foi

 completamente reconstruda .
 Em contrapartida a identidade material  a

 identidade de um casaco que permanece o mesmo , tanto nas diferentes

 combinaes de vesturio como quando  vestido por pessoas diferentes .

 A questo do valor s  inteligvel  luz dos dois elementos da

 lngua : sons e conceitos .
 Uns sem os outros no tm forma .
 Sem os

 sons , o pensamento  disforme , " amorfo " , " indistinto " .
  uma " nebulosa

 em que nada  necessariamente delimitado " .
 Trata-se de um " reino

 flutuante"134 .
 Por seu lado , " a substncia fnica no  mais fixa nem

 mais rgida ; no  um molde a que o pensamento se deva adaptar ; mas

 uma matria plstica que , por sua vez , se divide em partes distintas

 para fornecer os significantes de que o pensamento necessita"135 .

 Olhados abstractamente em si , pensamento e matria fnica , so

 amorfos , nebulosas , matrias plsticas , que se podem moldar

 posteriormente .
 S na sua unio ganham contornos definidos .
 A lngua

 pode-se , assim representar " como uma srie de subdivises contguas

 desenhadas ao mesmo tempo sobre o plano indefinido das ideias confusas

 e sobre o igualmente indeterminado plano dos sons"136 .

 Posto isto , no se pode considerar a lngua como um simples veculo do

 pensamento , algo exterior ao pensamento que nada tem a ver com ele .
 " O

 papel caracterstico da lngua nas suas relaes com o pensamento no

  criar um meio fnico material para a expresso das ideias mas servir

 de intermedirio entre o pensamento e o som , de tal forma que a sua

 unio conduz necessariamente a limitaes recprocas de unidades .
 O

 pensamento , catico por natureza ,  forado a organizar-se , por

 decomposio .
 No h nem materializao das ideias nem

 espiritualizao dos sons , mas trata-se de algo misterioso : o

 ' pensamento-som ' implica divises , e  a partir das duas massas

 amorfas que a lngua elabora as suas unidades"137 .

 A lngua no  exterior ao pensamento ordenado .
 O pensamento ordena-se

  medida em que se exprime linguisticamente .
  como se dois lquidos ,

 sem determinada forma , se solidificassem ao contacto um com o outro e ,

 assim , ganhassem formas bem determinadas .

 A lngua , diz ainda , Saussurre  o domnio das articulaes .
 Ns

 podemos dizer ,  o domnio das solidificaes mnimas .
 " Cada termo

 lingustico  um pequeno membro , um articulus em que uma ideia se fixa

 num som e em que um som se torna o signo de uma ideia"138 .

 S que esta associao determinadora de pensamento e sons  de ordem

 funcional , isto  , as entidades concretas , as unidades por ela

 criadas , so formas , no substncias : " A lingustica move-se num

 terreno limtrofe em que se combinam os elementos dos dois nveis ;

 esta combinao produz uma forma , no uma substncia"139 .

 Que se deve entender por isto , que as unidades criadas so formais ,

 no substanciais ?
  que a solidificao em causa , a determinao

 recproca de pensamento e sons , no pode ser encarada como

 independente das outras solidificaes .
 Estas so articuli :

 articulaes .
 A determinao de uma unidade tem a ver com as

 determinaes de todas as outras unidades da lngua .
 A lngua no pode

 ser vista como um aglomerado de elementos , mas tem de ser vista como

 um todo , como uma estrutura .

 " Alm disso , a ideia de valor , assim determinada , mostra-nos que  uma

 grande iluso considerar um termo apenas como a unio de um certo som

 com um certo conceito .
 Defini-lo assim seria isol-lo do sistema de

 que faz parte ; seria acreditar que podemos comear pelos termos e

 construir o sistema a partir da sua soma ; pelo contrrio ,  do todo

 solidrio que temos de partir para obtermos , por anlise , os elementos

 que ele encerra"140 .

  nisto que reside o estruturalismo de Saussurre : no  possvel

 entender nem compreender um signo sem entrar no jogo global da lngua ,

 isto  , sem saber o seu lugar e a sua funo no todo lingustico .

 c ) Relaes sintagmticas e paradigmticas

 As identidades lingusticas residem no seu valor , mas este , como se

 viu , estabelece-se num sistema de relaes e oposies .
 Ou seja , " a

 lngua  um sistema completamente assente na oposio das suas

 unidades concretas"141 .
 Quer isto dizer que no nos interessam os

 signos em si , substancialmente , mas sim formalmente , funcionalmente .
 O

 que interessa  lingustica so as relaes entre os signos e o que

 verdadeiramente constituem os signos enquanto signos .
 Quais so essas

 relaes ?
 Como  que funcionam ?
 So estas as perguntas .

 Na lngua Saussure distingue dois tipos de relaes , que tambm podem

 ser considerados como os dois eixos da lngua : as relaes

 sintagmticas e as relaes paradigmticas ou associativas .
 " As

 relaes e as diferenas entre termos lingusticos desenrolam-se em

 duas esferas distintas , cada uma das quais gera uma certa ordem de

 valores ; a oposio entre estas duas ordens ajuda a compreender a

 natureza de cada uma .
 Correspondem a duas formas da nossa actividade

 mental , igualmente indispensvel  vida da lngua"142 .

 Para compreender um destes tipos de relao  preciso compreender o

 outro ;  que tambm eles se definem por oposio , como tudo na lngua .

 Um  de tipo horizontal e outro de tipo vertical .
 Primeiro , temos o

 plano sintagmtico assente na linearidade do signo lingustico .
 Quando

 caracterizamos o signo lingustico vimos que , alm de arbitrrio e

 mutvel / imutvel , era tambm linear .
 Esta linearidade caracteriza o

 signo lingustico na medida em que , enquanto acstico , o distingue dos

 signos visuais , passveis de ser apreendidos simultaneamente .
 Os

 signos lingusticos sucedem-se uns aos outros numa mesma linha ,

 encontram-se numa cadeia , estabelecem relaes ao nvel dessa

 linearidade : " No discurso , as palavras contraem entre si , em virtude

 do seu encadeamento , relaes que assentam no carcter linear da

 lngua , que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao

 mesmo tempo .
 Eles dispem-se , uns aps outros , na cadeia fnica .
 Estas

 combinaes que tm como suporte a extenso podem ser chamados

 sintagmas"143 .
 Um sintagma  , portanto , uma combinao entre dois ou

 mais signos de uma mesma cadeia linear .
 " O sintagma compe-se sempre

 de duas ou mais unidades consecutivas ( por exemplo : re-ler , contra

 todos , a vida humana , Deus  bom , amanh samos , etc. ) .
 Num sintagma ,

 o valor de um termo surge da oposio entre ele e o que o precede , ou

 que se lhe segue , ou ambos"144 .

 O termo grego sintagma significa : " contingente de tropas , tropa ;

 composio , obra , doutrina ; constituio poltica ; contribuio ,

 taxa145 .
 Em portugus , significa esse termo : " Qualquer tratado cujo

 assunto  metodicamente dividido em classes , nmeros , etc. ; Mil .

 Subdiviso da falange grega , que tinha tambm o nome de xengia ,

 composta de dezasseis fileiras e outras tantas filas"146 .
 O termo

 designa pois organizao .
 A especificidade que Saussure lhe empresta 

 a de se desenvolver ao mesmo nvel linear .

 Antes de aprofundar mais a definio de sintagma , convm desde j ,

 diferenci-la da de paradigma : " Por outro lado , fora do discurso , as

 palavras que tm qualquer coisa em comum associam-se na memria , e

 assim se formam grupos , no seio dos quais se exercem relaes muito

 diversas .
 Por exemplo , a palavra ausente far surgir diante do

 esprito uma srie de outras palavras ( ausncia , ausentar , ou ento

 presente , clemente , ou ainda distante , afastado , etc. ) , de uma forma

 ou doutra , todos tm qualquer coisa de comum entre si"147 .
 Este tipo

 de relaes entre os signos  completamene diferente do sintagma .
 " O

 seu suporte no  a extenso ; a sua sede est no crebro , fazem parte

 do tesouro interior que a lngua representa para cada indivduo .

 Chamar-lhe-emos relaes associativas"148 .

 A diferena entre os dois tipos de relaes  que um  feito in

 praesentia , o sintagmtico , e o outro in absentia , o associativo ou

 paradigmtico : " A relao sintagmtica  in praesentia ; refere-se a

 dois ou mais termos igualmente presentes numa srie efectiva .
 Pelo

 contrrio , a relao associativa une termos in absentia numa srie

 mnemnica virtual"149 .

 Saussure d o exemplo clebre da coluna drica para ilustrar a

 diferena entre relaes sintagmticas e paradigmticas : " Segundo este

 duplo ponto de vista , uma unidade lingustica  comparvel a uma

 determinada parte de um edifcio , a uma coluna , por exemplo ; esta

 encontra-se , por um lado , numa certa relao com a arquitrave que

 suporta : este ajustamento de duas unidades igualmente presentes no

 espao lembra a relao sintagmtica ; por outro lado , se essa coluna 

 da ordem drica , ela evoca a comparao mental com as outras ordens

 ( jnica , corntia , etc. ) , que so elementos no presentes no espao : a

 relao associativa"150 .

 No artigo " Sintagma e paradigma " , no Dicionrio das Cincias da

 Linguagem , Oswald Ducrot formaliza a noo de sintagma e liga-a  de

 relao sintagmtica : " No h nenhum enunciado , numa lngua , que no

 se apresente como a associao de vrias unidades ( sucessivas ou

 simultneas ) , unidades que so susceptveis de aparecer tambm noutros

 enunciados .
 No sentido lato da palavra sintagma , o enunciado E contm

 o sintagma uv se , e somente se , u e v forem duas unidades , no

 obrigatoriamente mnimas , que apaream , uma e outra , em E .
 Diremos

 ainda que h uma relao sintagmtica entre u e v ( ou entre as classes

 de unidades X e Y ) se pudermos formular uma regra geral que determina

 as condies de aparecimento , nos enunciados da lngua , de sintagmas

 uv ( ou de sintagmas constitudos por um elemento de X e um elemento de

 Y ) .
 Da um segundo sentido , mais estrito , para a palavra " sintagma " ( 

 o sentido mais utilizado , e o que ser agora aqui utilizado ) : u e v

 formam um sintagma em E , no s se esto co-presentes em E , mas tambm

 se se conhece , ou se julga poder descobrir , uma relao sintagmtica

 que condiciona essa co-presena. Saussure , especialmente , insistiu na

 dependncia do sintagma com a relao sintagmtica .
 Para ele , apenas

 se pode descrever o verbo " desfazer " como um sintagma compreendendo os

 dois elementos " des " e " fazer " porque existe em portugus um " tipo

 sintagmtico " latente , manifestado tambm pelos verbos " des-colar " ,

 " des-vendar " , " des-baptizar " , etc .
 Seno , no haveria nenhuma razo

 para analisar " desfazer " em duas unidades"151 .

 Os sintagmas no dizem respeito apenas  combinao de unidades

 mnimas , mas tambm  de unidades complexas de qualquer dimenso e de

 qualquer espcie .
 Por outro lado , h que ter em conta dois tipos de

 relao sintagmtica : o das partes entre si , e o das partes com o

 todo : " No basta considerar a relao que une as diversas partes de um

 sintagma entre si ( por exemplo , contra e todos em contra todos , contra

 e mestre em contramestre ) ;  preciso tomar em conta a que liga o todo

 s suas partes ( por exemplo , contra todos ope-se por um lado a

 contra , por outro a todos ; contramestre relaciona-se com contra e com

 mestre ) " 152 .

 Um exemplo fora da lingustica podia ser tomado numa relao entre

 dois elementos , onde no s estes se relacionam entre si , mas tambm

 com o prprio todo da relao .
 A distncia entre Lisboa e Porto  uma

 relao com dois elementos , mas  possvel relacionar Lisboa ou o

 Porto com a prpria distncia .

 Atendendo aos sintagmas frsicos , Saussure interroga-se se o sintagma

  da ordem da lngua ou da fala .
 Sendo o sintagma uma combinao e

 pertencendo as combinaes das unidades lingusticas  fala , parece

 no ser esta questo do foro da lingustica ( que estuda apenas a

 lngua ) , mas da fala .
 " o sintagma pertencer  fala ?
 Julgamos que no .

 O que  prprio da fala  a liberdade das combinaes ; temos , por

 isso , que investigar se todos os sintagmas so igualmente livres"153 .

 Existem combinaes solidificadas pela lngua , que no so do mbito

 da fala .
 Um estrangeiro que aprende a lngua tem de as aprender na sua

 composio j determinada : " um grande nmero de expresses pertencem 

 lngua ; so locues estereotipadas que no podem ser alteradas ,

 embora possamos distinguir , pela reflexo , as suas partes

 significativas ( cf. pois  , v l !
 , etc .
 O mesmo se passa , embora em

 menor grau , com expresses como perder a cabea , dar a mo a algum ,

 pr-se no olho da rua , ou ainda estar mal de ...
 ,  custa de ...
 , por

 pouco no ...
 , etc. cujo emprego habitual depende das particularidades

 da sua significao ou da sua sintaxe .
 Tais expresses no podem ser

 improvisadas , so-nos fornecidas pela tradio"154 .

 Obviamente a fronteira entre os sintagmas estereotipados da lngua e

 as combinaes livres da lngua no  clara nem , por vezes , fcil de

 traar .

 Quanto s relaes associativas h a dizer desde logo que so

 mltiplos os seus tipos e de vasta extenso : " Os grupos formados por

 associao mental no se limitam a pr lado a lado os termos que

 apresentam qualquer coisa de comum ; a inteligncia capta tambm a

 natureza das relaes que os ligam em cada caso e cria tantas sries

 associativas quantas as diversas relaes .
 Assim , em ausente ,

 ausncia , ausentar , etc. , h um elemento comum a todos os termos , o

 radical ; mas a palavra ausente pode-se encontrar implicada numa srie

 com outro elemento , o sufixo ( cf. ausente , presente , clemente , etc. ) ;

 a associao pode assentar tambm na simples analogia dos significados

 ( ausente , distante , afastado , etc. ) ou , pelo contrrio , na semelhana

 das imagens acsticas ( tangente , justamente ) .
 Umas vezes h comunidade

 dupla de sentido e de forma , outras apenas de sentido ou de forma .

 Qualquer palavra pode sempre evocar tudo o que  susceptvel de lhe

 ser associado duma maneira ou doutra " 155 .

 As sries associativas podem ser de ordem fnica , sintctica ou

 semntica .
 Basta haver um elemento comum , por analogia ou oposio ,

 para que a associao tenha lugar .
 " Ao passo que um sintagma traz

 imediatamente  ideia uma ordem de sucesso e um nmero determinado de

 elementos , os termos de uma famlia associativa no se apresentam nem

 em nmero definido , nem numa ordem determinada"156 .

 Existem , portanto , duas caractersticas da srie associativa

 relativamente  sintagmtica : i ) ordem indeterminada ; ii ) nmero

 indefinido .
 No entanto , s a primeira , a ordem indeterminada , se

 verifica sempre .
 H sries associativas em que os elementos so

 definidos , i.e. , de nmero limitado , por exemplo , os casos de uma

 declinao em latim .

 3.2 .
 A pansemiotizao de Barthes

 1 ) A funo-signo e o alargamento semiolgico em Barthes

 Ao retomar em 1957157 a noo saussureana de semiologia , Barthes

 introduz novos conceitos de signo lingustico e de lngua e modifica

 eo ipso a prpria noo de semiologia .
 Saussure partiu do sistema de

 comunicao humana para definir a lngua : o signo lingustico  um

 signo ao qual subjaz a inteno de comunicar .
 Barthes , por seu lado ,

 encara o signo unicamente do ponto de vista da significao e alarga

 desse modo a noo de signo e de lngua a tudo o que significa .
 Assim ,

 enquanto a semiologia preconizada por Saussure  uma semiologia da

 comunicao , a de Barthes  uma semiologia da significao158 .

 A propsito do mito , diz Barthes que tudo pode lhe servir de suporte :

 " ...
 o discurso escrito , mas tambm a fotografia , o cinema , a

 reportagem , o desporto , os espectculos , a publicidade , tudo isso 

 susceptvel de servir de suporte  fala mtica .
 O mito no pode

 definir-se pelo seu objecto nem pela sua matria , dado que toda e

 qualquer matria pode arbitrariamente ser dotada de significao : a

 flecha que se entrega a fim de significar o desafio  tambm uma

 fala"159 .
 Assim , tudo o que o homem percepciona , faz ou diz , entra no

 quadro de uma linguagem .
 O mundo desde que chegue ao contacto com o

 homem torna-se objecto da semiologia .
 " Qualquer objecto do mundo pode

 passar de uma existncia fechada , muda , a um estado oral , aberto , 

 apropriao da sociedade , dado que nenhuma lei , natural ou no , probe

 de falar das coisas .
 Uma rvore  uma rvore .
 Sem dvida .
 Mas uma

 rvore dita por Minou Drouet no  j , de todo uma rvore :  uma

 rvore decorada , adaptada a um determinado consumo , investida de

 complacncias literrias , de imagens , numa palavra , de um uso social

 que se acrescenta  pura matria"160 .

 A noo de lngua decorrente desta vastssima noo de signo  tambm

 ela extremamente lata .
 Toda a unidade ou sntese significativa , verbal

 ou visual , ou de que tipo for , ser elemento de uma linguagem .
 Os

 prprios objectos podero tornar-se fala , se significam algo .
  pois

 em conformidade que Barthes define a semiologia como cincia da

 significao .
 " Postular uma significao  recorrer  semiologia .
 No

 quero com isto dizer que a semiologia d igualmente conta de todas

 essas investigaes ; elas tm um estatuto comum : so todas cincias

 dos valores ; no se contentam em deparar com um facto : definem-no e

 exploram-no como algo que vale por"161. Barthes apresenta a

 significao como uma valncia por , isto  , a significao  de cariz

 simblico : algo est em vez de , a valer por ele .
 O facto 

 ultrapassado , e -o pela sua significao .
 Mas como essas

 significaes so estudadas independentemente do seu contedo , a

 semiologia  definida como uma cincia das formas de significao .

 Por outro lado , a semiologia no explica porque  que tal ou tal facto

 tem tal ou tal significao .
 Ela no  de ordem explicativa .
 No vai

 s causas .
 Nem to pouco lhe interessam .
 O que ela quer  conhecer a

 estrutura , o modo de funcionamento .
 A sua tarefa  exclusivamente

 descritiva , de leitura ou decifrao .

 Em 1964 Barthes apura e desenvolve a ideia de semiologia enquanto

 cincia formal da significao162. Barthes comea por contrapor  tese

 de Saussure , de que a " lingustica era apenas uma parte da cincia

 geral dos signos " , a tese de que " a lingustica no  parte , mesmo

 privilegiada , da cincia geral dos signos ,  a semiologia que  uma

 parte da lingustica : mais precisamente a parte que tem a seu cargo as

 grandes unidades significantes do discurso"163 .
 A razo dada por

 Barthes para esta inverso deve-se  constatao de que " qualquer

 sistema semiolgico se cruza com a linguagem " .
 Barthes nega aos outros

 sistemas semiolgicos uma autonomia de significao , isto  , eles s

 significam na medida em que se cruzam com a linguagem .
 Mas esta no 

 a linguagem dos linguistas , ela  uma " linguagem segunda , cujas

 unidades no so j os monemas ou os fonemas , mas fragmentos mais

 extensos do discurso que remetem para objectos ou episdios que

 significam sob a linguagem , mas nunca sem ela"164 .
 Assim , a semiologia

 transformar-se- numa translingustica , " cuja matria tanto pode ser o

 mito , a narrativa , o artigo de imprensa , como os objectos da nossa

 civilizao , contando que sejam falados"165 .

 A novidade introduzida por Barthes relativamente ao conceito de signo

 reside em considerar tambm como signos os objectos cuja razo de ser

 no reside na significao .
  aqui que o signo semiolgico se desvia

 do signo lingustico .
 Enquanto a funo deste  significar , h

 sistemas semiolgicos que s cumulativamente significam .
 Barthes d

 como exemplos destes sistemas o vesturio e a alimentao .

 Prioritariamente o vesturio serve para nos protegermos e a

 alimentao para nos alimentarmos , mas , segundo Barthes , eles tambm

 significam e , por isso , so signos .
 A estes signos chama Barthes

 " funes-signos " .
 Num primeiro momento h uma fuso entre a funo

 ( utilitria ) do objecto e o seu sentido .
 Quem usa um impermevel usa-o

 para se proteger da chuva , mas esse uso significa que o tempo est de

 chuva .
 Esta semantizao do uso de objectos  inevitvel , segundo

 Barthes ;  que " a partir do momento em que existe sociedade , qualquer

 uso  convertido em signo desse uso"166 .
 Num segundo momento , porm , o

 objecto adquire um outro sentido para alm do seu sentido funcional .

 Esse outro sentido  um segundo sentido da ordem da conotao .
 Um

 casaco de peles alm de proteger do frio e de signicar essa proteco

 tambm tem um valor antropolgico e social de significao .

 A funo-signo serve a Barthes para desenvolver uma semntica do

 objecto .
 Todo o objecto enquanto objecto significa ; no h objectos

 insignificantes .
 A significao do objecto comea no exacto momento em

 que  produzido e consumido pela sociedade167 .

 No  atrevimento algum dizer que o alargamento semiolgico efectuado

 por Barthes reside fundamentalmente na introduo das funes-signos .

 Desse modo ele semiotiza toda a cultura e vida humanas .

 2 ) Os mltiplos nveis de significao .

 A conotao e a denotao .

 Um dos traos mais marcantes da semiologia de Barthes reside na

 focagem da estratificao de sentidos .
 Existem sentidos primeiros ,

 sentidos segundos assentes sobre os primeiros , sentidos terceiros

 assentes nos segundos , etc .
 O sentido aparece como um composto de

 camadas sucessivas de sentidos .

 No posfcio s Mitologias Barthes define o mito como um sistema

 semiolgico segundo construdo sobre uma srie semiolgica j

 existente antes dele .
 Esta srie constitui o significante do signo que

 o mito  .
 A lngua , enquanto sistema semiolgico primeiro ,  a matria

 prima ou a linguagem objecto do mito enquanto sistema semiolgico

 segundo .
 Barthes mostra mediante o exemplo do jovem negro vestido com

 um uniforme francs fazendo a saudao militar  tricolor como o

 sentido primeiro dessa imagem constitui o significante de um outro

 signo .
 O sentido primeiro  o de um jovem soldado de cr fazendo

 continncia  bandeira francesa .
 Mas o sentido segundo que assenta no

 primeiro sentido  bem diferente .
 Essa imagem significa " que a Frana

  um vasto Imprio , que todos os seus filhos , sem distino de cr ,

 servem fielmente sob a sua bandeira , e que no h melhor resposta aos

 detractores dum pretenso colonialismo do que o zelo deste negro em

 servir os seus pretensos opressores"168 .
 Aqui o que importa  saber

 como o sentido segundo se constri sobre o sentido primeiro , isto  ,

 descortinar como  que se d a estratificao dos sentidos de um mesmo

 objecto .
 No caso apontado , o sentido segundo tem como significante

 aquilo que constitui o sentido formado pelo sistema semiolgico

 prvio , a saber , " um soldado negro faz a saudao militar francesa " .

 Este sentido pode ser encarado de dois diferentes pontos de vista :

 como termo final da decifrao da imagem ou como termo inicial de uma

 mensagem .
 Terminologicamente , Barthes chama-lhe sentido enquanto termo

 final e forma enquanto termo inicial .
 O mito enquanto sistema

 semiolgico tridimensional ( significante , significado , signo ) vai

 buscar ao sentido do sistema lingustico a sua forma ( o significante ) .

 O ponto de encontro dos dois sistemas  por natureza ambguo .
 Se ,

 visto do primeiro sistema , esse ponto  cheio (  o sentido ) , visto do

 segundo ele aparece como vazio (  a forma ) .
 No exemplo citado , esse

 ponto  " um soldado negro faz a saudao militar francesa " .
 Se algum

 olha para a imagem do jovem negro vestido com um uniforme francs

 fazendo continncia  tricolor o primeiro sentido que obtm  que se

 trata de um soldado negro a fazer a saudao  bandeira francesa .

 Porm , visto do segundo sistema , esse ponto comum  vazio .
  aqui que

 surge a pergunta : " muito bem , trata-se de um soldado negro a fazer a

 saudao  bandeira francesa , mas que  que isso significa ?
 " E agora

 procura-se o sentido segundo da imagem .
 Esse sentido pode ser o da

 universalidade do imprio francs .

 O segundo sentido apoia-se sobre o primeiro , mas os dois no coexistem

 pacificamente .
 Focar um implica desfocar o outro169 .
 Contudo , a

 mudana de focagem  a todo o momento possvel .
 Muitas vezes , sem se

 dar conta , a percepo de um sentido resvala para a do outro .
  como

 se um torniquete entre um e outro se abrisse e se fechasse

 sucessivamente .
 Mas h uma diferena .
  possvel algum quedar-se pelo

 sentido primeiro e nunca chegar ao sentido segundo , mas o sentido

 segundo pressupe sempre o primeiro , nunca o dispensa

 completamente170 .

 Na focagem e desfocagem de sentidos correm-se sempre riscos .
 Se algum

 se ficar pelos sentidos primeiros poder ser acusado de curto de

 vistas e de ingnuo , mas se algum procurar em toda a parte sentidos

 segundos correr o risco de ver gigantes onde h apenas monhos de

 vento e de ficar cego para os sentidos originrios .

 Em Elementos de Semiologia Barthes sistematiza mediante a noo de

 semitica conotativa de Hjelmslev a teoria da estratificao dos

 sentidos .
 Os sistemas semiolgicos conotados so aqueles cujo plano de

 expresso ( significante )  constitudo ele prprio por um sistema de

 significao171 .
 Os sistemas primeiros so os denotados .
 Toda a

 conotao pressupe uma denotao que lhe serve de significante ou ,

 como Barthes lhe chama , conotador .
 " As unidades do sistema conotado

 no so forosamente do mesmo tamanho das do sistema denotado"172 .

 Como conotadores podem servir grandes fragmentos do discurso denotado .

 Assim , por exemplo , o tom de um texto pode remeter para um nico

 significado ao nvel da conotao .

 Segundo Barthes , h um ponto comum para o qual remetem todos os

 sistemas conotativos : a ideologia .
 Quer isto dizer que todos os

 significados das conotaes desembocam na ideologia ou , mais

 exactamente , " a ideologia  a forma dos significados de conotao"173 .

 Em contrapartida , a retrica  a forma dos conotadores .
 A semiologia

 enquanto cincia das formas de significao tem um papel

 desideologizante da cultura .
  que a ideologia encontra-se sempre num

 sentido segundo , mais ou menos escondida , e o semilogo o que faz 

 expr os sistemas semiolgicos pelos quais  produzida e em que

 existe .
 Por isso mesmo , todo o semilogo  de certo modo um mitlogo ,

 aquele que decrifa os mitos constituintes da civilizao .

 Barthes apresenta a semitica da conotao como a semitica do futuro

 e a razo que d para isso reside no facto de " a sociedade desenvolver

 constantemente , a partir do sistema primeiro que lhe  fornecido pela

 linguagem humana , sistemas segundos de sentido , e esta elaborao ,

 umas vezes exibida , outras disfarada , racionalizada ,  quase como uma

 verdadeira antropologia histrica"174 .
 Alis , grande parte do labor

 intelectual de Barthes consiste em decifrar as mltiplas estruturas de

 significao que como nervos vitais percorrem toda a tessitura da

 cultura humana .

 4 .
 Os campos da semitica :

 sintaxe , semntica e Pragmtica

 4.1 .
 A semiose em Morris e o princpio da diviso da semitica .

 Cabe a Charles Morris o mrito de ter estabelecido a diviso da

 semitica em sintaxe , semntica e pragmtica .
 Essa diviso decorre da

 anlise feita por Morris do processo semisico175 .

 A semiose  o processo em que algo funciona como um signo .
 A anlise

 deste processo apura quatro factores : o veculo sgnico - aquilo que

 actua como um signo , o designatum - aquilo a que o signo se refere , o

 interpretante - o efeito sobre algum em virtude do qual a coisa em

 questo  um signo para esse algum , o intrprete - o algum .

 Formalmente teremos : S  um signo de D para I na medida em que I se d

 conta de D em virtude da presena de S .
 Assim , a semiose  o processo

 em que algum se d conta de uma coisa mediante uma terceira .
 Trata-se

 de um dar-se-conta-de mediato .
 Os mediadores so os veculos sgnicos ,

 os dar-se-conta-de so os interpretantes , os agentes do processo so

 os intrpretes .

 Antes de mais convm salientar que esta anlise  puramente formal ,

 ela no tem minimamente em conta a natureza do veculo sgnico , do

 designatum ou do intrprete .
 Os factores da semiose so factores

 relacionais , de tal ordem que s subsistem enquanto se implicam uns

 aos outros .
 S existe veculo sgnico se houver um designatum e um

 interpretante correspondentes ; e o mesmo vale para estes dois ltimos

 factores : a existncia de um deles implica a existncia dos outros .

 Isto tem o seguinte corolrio , que  da maior importncia : a semitica

 no estuda quaisquer objectos especficos , mas todos os objectos desde

 que participem num processo de semiose .

 Estas consideraes so sobretudo pertinentes relativamente aos

 designata .
 Os designata no se confundem com os objectos do mundo

 real .
 Pode haver e h signos que se referem a um mesmo objecto , mas

 que tm designata diferentes .
 Isso ocorre quando h interpretantes

 diferentes , ou seja , quando aquilo de que  dado conta no objecto

 difere para vrios intrpretes .
 Os designata podem ser produtos da

 fantasia , objectos irreais ou at contraditrios .
 Os objectos reais

 quando referidos constituem apenas uma classe especfica de designata ,

 so os denotata .
 Todo o signo tem , portanto , um designatum , mas nem

 todo o signo tem um denotatum .

 A semiose  tridimensional ; ela contempla sempre um veculo sgnico ,

 um designatum e um intrprete ( o interpretante  dar-se-de-conta de um

 intrprete , pelo que por vezes se pode omitir ) .
 Ora desta relao

 tridica da semiose podemos extrair diferentes tipos de relaes

 didicas , nomeadamente as relaes dos signos aos objectos a que se

 aplicam e as relaes entre os signos e os seus intrpretes .
 As

 primeiras relaes cabem na dimenso semntica da semiose e as ltimas

 na dimenso pragmtica .
 A estas duas dimenses acrescenta-se

 necessariamente a dimenso sintctica da semiose que contempla as

 relaes dos signos entre si .

 Cada uma destas dimenses possui termos especiais para designar as

 respectivas relaes .
 Assim , por exemplo , " implica "  um termo

 sintctico , " designa " e " denota " termos semnticos e " expressa " um

 termo pragmtico .
  deste modo que a palavra ' mesa ' implica ( mas no

 designa ) a sua definio ' moblia com um tampo horizontal em que podem

 ser colocadas coisas ' , denota os objectos a que se aplica e expressa o

 pensamento do seu utilizador .
 As dimenses de um signo no tm todas o

 mesmo realce .
 H signos que se reduzem  funo de implicao e , por

 conseguinte , a sua dimenso semntica  nula - vejam-se os signos

 matemticos !
 - , h signos que se centram totalmente na denotao e ,

 portanto , no tm uma dimenso sintctica e h signos que no tm

 intrpretes efectivos , como  o caso das lnguas mortas , e , por

 conseguinte , no tm dimenso pragmtica .

 Em suma , a diviso da semitica em sintaxe , semntica e pragmtica ,

 decorre da anlise do processo semisico em que uma coisa se torna

 para algum signo de uma outra coisa .

 4.2 .
 A sintaxe e a ideia de gramtica

 Indiscutivelmente a sintaxe , enquanto estudo das relaes sintcticas

 dos signos entre si , constitui a parte mais desenvolvida da semitica .

 Esse desenvolvimento comeou o mais tardar com as ideias leibnizianas

 da ars characteristica , da cincia a que incumbiria formar os signos

 de modo a obter , atravs da mera considerao dos signos , todas as

 consequncias das ideias correspondentes , e da ars combinatoria , do

 clculo geral para determinar as combinaes possveis dos signos .

 Depois de Leibniz , muitos lgicos contriburam para o progresso da

 estrutura lgico-gramatical da linguagem .
 Alm dos j citados , h

 ainda a mencionar Boole , Peano , Russel e Whitehead .

 Os signos formam-se e agrupam-se segundo regras bem definidas .
 Num

 primeiro momento , h a considerar as regras de formao que determinam

 a construo de proposies ; num segundo momento , temos as regras de

 transformao que determinam as proposies a inferir de outras

 proposies .
 As primeiras regras indicam-nos se uma proposio  ou

 no bem formada , as segundas estipulam as inferncias entre

 proposies , isto  , determinam o clculo proposicional .

 i ) Sintaxe e lngua .

 Os elementos de uma lngua organizam-se , no se amontoam .
 Os signos

 lingusticos so-no enquanto , e s enquanto , se inserem em todos de

 significao ( sintagmas , sistemas ) .
 Fazer a anlise gramatical de uma

 proposio ou enunciado "  indicar as funes desempenhadas pelas

 palavras ou grupos de palavras nessa proposio"176 .
 Conhecemos essa

 anlise da escola primria : qual termo  o sujeito da proposio , qual

 o predicado , o complemento directo , etc .
 Isto significa que os

 elementos da frase possuem funes sintcticas diferentes .
 No basta

 chamar a ateno para o termo funes sintcticas , h que reparar

 tambm na palavra diferentes .
 As funes sintcticas dos diversos

 elementos da frase so diferentes .
 Segundo Ducrot177 , impem-se a este

 respeito as seguintes consideraes :

 1 .
 A sintaxe define certas relaes entre os elementos da frase e a

 totalidade da frase , relaes em que dois elementos distintos tm ,

 muitas vezes , uma relao diferente com a frase total ;

 2 .
 A relao particular que liga um constituinte  frase total pode

 ser descrita em termos finalistas como um papel : admite-se que a

 frase , tomada globalmente , tem uma finalidade , e que cada constituinte

 se distingue dos outros pelo papel que desempenha no cumprimento dessa

 finalidade ;

 3 .
 A funo de um elemento no  directamente determinada pela sua

 natureza : dois elementos de natureza diferente podem ter a mesma

 funo e inversamente constituintes da mesma natureza podem ter

 funes diferentes ;

 4 .
 As funes sintcticas so independentes da capacidade combinatria

 dos falantes , elas residem na prpria lngua .

 Das funes sintcticas de uma lngua destacam-se as de sujeito e

 predicado .
 A funo de sujeito  a de indicar o objecto sobre o qual

 se fala e que  determinado pelos predicados .
 A funo de predicado

 consiste em determinar esse objecto ou afirmar algo sobre ele .

 Esta estrutura sintctica  de tal modo fundamental que se podem

 compreender as lgicas de Aristteles e de Kant respectivamente como

 lgicas de sujeito e de predicado .
 Assim , a lgica aristotlica

 privilegia o sujeito enquanto substracto de todas as determinaes .
 

 que esta viso decorre da noo ontolgica de substncia que subjaz a

 todos os acidentes , acidentes estes que , gramaticalmente , no so mais

 que predicados .
 Por seu lado , a lgica kantiana coloca o acento tnico

 no predicado .
 O sujeito em si  apenas um indeterminado que ir ser

 construdo pela determinao operada pelos predicados .
 Se em

 Aristteles a ontologia precede a lgica , em Kant  a lgica que

 determina a ontologia possvel ou cognoscvel , ou seja , a ontologia da

 realidade fenomnica .

 ii ) sintaxe e cincia

 Foi enorme a importncia que o Crculo de Viena concedeu  sintaxe na

 reflexo epistemolgica .
 Sobretudo os estudos de Rudolf Carnap , em que

 se destacam A Construo Lgica do Mundo e A Sintaxe Lgica da

 Linguagem , focaram a dimenso sintctica da cincia178 .
 A cincia -

 melhor , toda e qualquer cincia particular -  composta por conceitos

 e proposies .
 Uns e outros sistematizam-se de forma axiomtica ,

 podendo ser inferidos de alguns poucos conceitos e proposies

 fundamentais .
 Quer isto dizer que a cincia se organiza

 sistematicamente e , portanto , possui , enquanto discurso , uma estrutura

 sintctica .
 Isto  tanto vlido para as cincias formais , lgica e

 matemtica , como para as cincias empricas .

 Quanto s cincias formais a inteleco que lhes est subjacente  que

 a verdade das suas asseres se baseia apenas na sua estrutura e no

 significado dos termos que as compem .
 Estas asseres so verdadeiras

 em todas as circunstncias e , portanto , a sua verdade  independente

 dos factos mundanos .
 Isto implica , por seu lado , que essas asseres

 nada digam sobre a realidade .

 Relativamente s cincias empricas a sistematizao incide sobre o

 apuramento dos elementos e relaes fundamentais a partir dos quais se

 inferem os restantes conceitos e se constri axiomaticamente o

 edifcio da cincia .
 Trata-se de um sistema de constituio dos

 conceitos empricos .
 Constituir um determinado conceito a partir de

 outros conceitos significa enunciar uma regra geral pela qual todas as

 proposies em que aparece esse conceito podem ser traduzidas em

 proposies em que apenas aparecem os conceitos de que esse conceito 

 derivado .

 Devido  ambiguidade e  impreciso da linguagem quotidiana , uma das

 tarefas da cincia consiste justamente , segundo Carnap , em construir

 linguagens formalisadas , unvocas e exactas .
 So linguagens

 artificiais que , cumprindo os requisitos cientficos de rigor , devem

 substituir as linguagens naturais .
 Para alm da eliminao de mal

 entendidos , ambiguidades e confuses , um dos objectivos mais

 importantes do emprego de linguagens formalisadas reside na clara

 separao entre linguagem e metalinguagem .
 Enquanto a linguagem contm

 apenas proposies-coisa , isto  , proposies cujos designata no

 incluem signos , a metalinguagem tem na prpria linguagem o seu

 objecto .
 Essa distino possibilita a destrina entre

 proposies-coisa e pseudo-proposies , isto  , proposies que

 parecendo ser proposies-coisa efectivamente o no so .

 4.3 .
 A semntica

 Normalmente entendida como a cincia do significado , a semntica ,

 vista da perspectiva da semiose , ocupa-se da relao dos signos

 ( veculos sgnicos ) aos seus designata .
  no mbito desta relao que

 habitualmente se discute a questo da verdade .

 A questo central da semntica reside no estabelecimento da regra

 semntica a qual determina sob que condies um signo  aplicvel a um

 objecto ou a uma situao .
 " Um signo denota o quer que se conforma s

 condies estabelecidas na regra semntica , enquanto a prpria regra

 estabelece as condies de designao e , desse modo , determina o

 designatum"179 .
 Quer isto dizer que a dimenso semntica de um signo

 s existe na medida em que h regras semnticas que determinam a sua

 aplicabilidade a certas situaes sob certas condies .

 A diferenciao e classificao dos signos em ndices , cones ,

 smbolos e outros , explica-se pelas diferentes espcies de regras

 semnticas .
 Assim , a regra semntica de um signo indexical como o

 apontar estipula que o signo designa a qualquer momento aquilo que 

 apontado .
 Neste caso , o signo no caracteriza o que denota .
 Em

 contrapartida , cones e smbolos caracterizam aquilo que designam .
 Se

 o signo caracterizar o objecto denotado por mostrar nele mesmo as

 propriedades que um objecto tem , como acontece com as fotografias , os

 mapas ou os diagramas qumicos , ento o signo  um cone ; se no for

 esse o caso , ento trata-se de um smbolo .

 A regra semntica tambm se estende s proposies .
 Aqui a regra que

 estipula as condies de aplicabilidade da proposio a um determinado

 estado de coisas envolve necessariamente a referncia s regras

 semnticas dos signos que a compem .

 Entendendo a semntica como a cincia do significado , cabe dizer que

 h diversos significados de significado180 .
  clebre a inventariao

 dos significados de significado feita por Ogden e Richards , onde se

 contam dezasseis significaes diferentes do termo181 .
 Hoje em dia

 distinguem-se usualmente duas grandes correntes na definio de

 significado : uma analtica e outra operacional .
 A primeira tenta

 apreender a essncia do significado , a segunda investiga sobretudo o

 modo como opera .
 Na primeira corrente incluem-se tanto a teoria

 referencial como a teoria ideacional do significado .
 A teoria

 referencial considera que o significado de um signo  a coisa pelo

 qual o signo est .
 Por seu lado , a teoria ideacional defende que o

 significado de um termo ou de um signo no  a coisa pela qual o signo

 est ou que o signo representa , mas sim a ideia que exprime .
 A

 concepo saussureana do signo  claramente ideacional , o significado

  o conceito .
 Na corrente operacional temos a teoria behaviorista e a

 teoria pragmtica .
 A primeira , que  a preconizada por Bloomfield ,

 encara o significado de uma forma lingustica como a situao em que o

 elocutor a emite e a resposta que provoca no ouvinte .
 Quer isto dizer

 que o significado de uma palavra  definido pela situao da

 enunciao da mesma , nomeadamente pelos estmulos que a provocam e

 pelas reaces que ela prpria provoca .
 A teoria pragmtica , por sua

 vez , considera que o verdadeiro significado de uma palavra no est

 tanto no que se diz acerca dela como no que se faz com ela .
 Dito de

 uma forma sucinta , o significado de uma palavra  o seu uso na lngua .

 Enquanto a teoria behaviorista explica o significado a partir do

 actividade humana entendida como comportamento , a teoria pragmtica

 entende essa actividade como aco .
 A explicao behaviorista  de

 ordem causal , ao passo que a explicao pragmtica  teleolgica .

 4.4 .
 A pragmtica

 A dimenso pragmtica do processo semisico foi realada pelo

 pragmatismo .
 Com efeito , foi esta corrente filosfica iniciada por

 Peirce que prestou especial ateno  relao entre os signos e os

 seus utilizadores .
 O pragmatismo compreendeu que para alm das

 dimenses sintctica e semntica na anlise do processo sgnico h uma

 dimenso contextual .
 Isto  , o signo no  independente da sua

 utilizao .
 A novidade da abordagem pragmatista da semiose est em no

 remeter a utilizao dos signos para uma esfera exclusivamente

 emprica , socio-psicolgica , mas encarar essa utilizao de um ponto

 de vista lgico-analtico .
 A dimenso pragmtica  tal como as

 dimenses sintctica e semntica da semiose uma dimenso lgica .

 De certo modo a pragmtica surge como um desenvolvimento imanente do

 processo semitico .
 Com isto quer-se dizer que tal como a anlise das

 formas sgnicas ( sintaxe ) leva necessariamente  considerao dos

 valores semnticos como critrio para definir as unidades sintcticas ,

 assim tambm a anlise do significado induz  considerao das

 condies e situaes da sua utilizao .
 Bobes Naves traa muito bem o

 desenvolvimento da anlise semitica conducente  pragmtica : " Ao

 estudar as formas e as relaes dos signos , ( ...
 ) somos levados

 necessariamente a ter em conta os valores semnticos como critrio

 para definir as unidades , mesmo no plano estritamente formal .
 E ao

 analisar o significado , e sobretudo o sentido , dessas unidades e dos

 processos smicos em geral , surgem problemas acerca dos diferentes

 modos de significar e sobre a forma em que os usos adoptam as relaes

 de tipo referencial , ou as de iconicidade , ou os valores simblicos ,

 etc. ; torna-se necessrio determinar os marcos lgicos , ideolgicos ou

 culturais em que se do os processos semisicos ; as situaes em que

 colhem sentido os diferentes signos ; os indcios textuais que orientam

 os sujeitos que intervm no processo de comunicao ( decticos ,

 apreciaes subjectivas , usos ticos e timos do signos codificados ,

 etc. ) etc. , de modo que qualquer estudo semntico ou sintctico conduz

 inexoravelmente  investigao pragmtica .
 Tanto as unidades

 sintcticas como o sentido do texto esto vinculados  situao de

 uso , s circunstncias em que se produz o processo de expresso , de

 comunicao , de interpretao dos signos objectivados num tempo , num

 espao e numa cultura .

 Por outro lado , a relao dos sujeitos que usam os signos num processo

 semisico em que partilham o enquadramento situacional e todas as

 circunstncias pragmticas , pode estabelecer-se num tom irnico ,

 sarcstico , metafrico , simblico , etc. , que condiciona o valor das

 referncias prprias dos signos .
 As relaes dos sujeitos com o

 prprio texto constitui uma clara fonte de sentido .
 Os signos ,

 incluindo os codificados , mas sempre circunstanciais , adquirem um

 valor semitico concreto em cada uso , um sentido ( ...
 ) para alm do

 que possam precisar nos limites convencionais do mesmo texto .

 O desenvolvimento interno da investigao semiolgica conduz , por

 conseguinte , de um modo progressivo , da sintaxe  semntica e desta 

 pragmtica enquanto considerao totalizadora de todos os aspectos do

 uso do signo nos processos semisicos"182 .

 Assim como as regras sintcticas determinam as relaes sgnicas entre

 veculos sgnicos e as regras semnticas correlacionam os veculos

 sgnicos com outros objectos , assim as regras pragmticas estabelecem

 as condies nos intrpretes em que algo se torna um signo .
 Isto  , o

 estabelecimento das condies em que os termos so utilizados , na

 medida em que no podem ser formuladas em termos de regras sintcticas

 e semnticas , constituem as regras pragmticas para os termos em

 questo183. Efectivamente , o emprego , por exemplo , da interjeio

 ' Oh !
 ' , da ordem ' Vem c ?
 , do termo valorativo ' Felizmente ' ,  regido

 por regras pragmticas .

 O estabelecimento da regra pragmtica permite traar a fronteira entre

 o uso e o abuso dos signos .
 Qualquer signo produzido e usado por um

 intrprete pode tambm servir para obter informaes sobre esse

 intrprete .
 Tanto a psicanlise , como o pragmatismo ou a sociologia do

 conhecimento interessam-se pelos signos devido ao valor de diagnose

 individual e social que a produo e a utilizao dos signos permite .

 O psicanalista interessa-se pelos sonhos devido  luz que estes lanam

 sobre a alma do sonhador .
 Ele no se preocupa com a questo semntica

 dos sonhos , a sua possvel verdade ou correspondncia com a realidade .

 Aqui o signo exprime - mas no denota !
 - o seu prprio interpretante .

 Graas ao carcter diagnstico da utilizao dos signos ,  possvel e

  " perfeitamente legtimo para certos fins utilizar signos

 simplesmente em ordem a produzir certos processos de interpretao ,

 independentemente de haver ou no objectos denotados pelos signos ou

 mesmo de as combinaes de signos serem ou no formalmente possveis

 relativamente s regras de formao e transformao da lngua em que

 os veculos sgnicos em questo so normalmente utilizados"184 .
 Os

 signos podem ser usados para condicionar comportamentos e aces tanto

 prprios como alheios .
 Ordens , peties , exortaes , etc. , constituem

 casos em que os signos so usados sobretudo numa funo pragmtica .

 " Para fins estticos e prticos o uso efectivo dos signos pode

 requerer vastas alteraes ao uso mais efectivo dos mesmos veculos

 sgnicos para fins cientficos. ( ...
 ) o uso do veculo sgnico varia

 com o fim a que se presta"185 .

 O abuso dos signos verifica-se quando so usados de modo a darem uma

 aparncia que efectivamente no tm .
 O abuso toma usualmente a forma

 de mascaramento dos verdadeiros objectivos visados com a utilizao

 dos signos .
 Um exemplo de abuso dos signos  o caso em que para obter

 certo objectivo se do aos signos usados as caractersticas de

 proposies com dimenso sintctica e semntica , de modo a parecerem

 ter sido demonstrados racionalmente ou verificados empiricamente ,

 quando efectivamente o no foram .

 Morris considera que se trata de um abuso da doutrina pragmatista

 identificar verdade com utilidade .
 " Uma justificao peculiarmente

 intelectualista de desonestidade no uso dos signos consiste em negar

 que a verdade tenha outro componente para alm do pragmtico , de jeito

 que qualquer signo que se preste aos interesses do utilizador 

 considerado verdadeiro"186. Trata-se de um abuso pois que a verdade 

 um termo semitico e no pode ser encarado na perspectiva de uma nica

 dimenso .
 " Aqueles que gostariam de acreditar que ' verdade '  um termo

 estritamente pragmtico remetem frequentemente para os pragmatistas em

 apoio da sua opinio , e naturalmente no reparam ( ou no percebem ) que

 o pragmatismo enquanto uma continuao do empirismo  uma

 generalizao do mtodo cientfico para fins filosficos e que no

 poderia afirmar que os factores no uso comum do termo ' verdade ' , para

 os quais se tem vindo a chamar a ateno , aniquilariam factores

 reconhecidos anteriormente"187 .

 5 .
 os actos de fala

 A linguagem como acO

 Com as palavras no se dizem apenas coisas , tambm se fazem coisas .

 Fazem-se promessas , afirmaes , avisos .
  nisso que reside a fora

 ilocucional da lngua , na terminologia de Austin .
 " I do things , in

 saying something. ( ...
 ) the locutionary act has a meaning - the

 illocutionary act has a certain force in saying something"188 .

 Que  a fora ilocucional , isto  , a capacidade de fazer coisas com a

 lngua ?
 Para se dar uma resposta , h que fazer a distino austiniana

 entre constatativos e performativos .
 Constatativos so todas aquelas

 afirmaes que verificam , apuram , constatam algo : " A mesa  verde " ,

 " sinto-me cansado " , " O Joo  mais alto que o Pedro " , " Deus est nos

 cus " .
 So afirmaes que podem ser verdadeiras ou falsas .
 Por sua

 vez , os performativos no descrevem , no relatam , no constatam nada ,

 no so verdadeiros nem falsos , eles fazem algo ou ento so parte de

 uma aco .
 O noivo que diz : " Eu , fulano tal , aceito-te , fulana tal ,

 como minha legtima esposa " na cerimnia do casamento , no narra coisa

 alguma , ele est pura e simplesmente a fazer uma coisa : a casar-se com

 a fulana tal .
 E no se casa , se no disser ( fizer ) isso .

 O acto de fala , o fazer falando , tem assim uma determinada fora : a

 fora ilocucional .
 Mas uma acto de fala , enquanto aco , pode resultar

 ou no resultar .
 Um acto de fala resulta quando entre o elocutor e o

 ouvinte se estabelece uma relao , justamente a visada pelo elocutor ,

 e o ouvinte entende e aceita o que o elocutor lhe diz .

 Para que os performativos tenham lugar h que satisfazer certas

 condies .
 Austin enumera justamente seis regras que tm de ser

 seguidas por quem pretenda realizar actos de fala .
 Em primeiro lugar ,

 tem de haver um procedimento convencional , geralmente aceite , com um

 certo efeito convencional , em que esse procedimento inclui o uso de

 certas palavras por determinadas pessoas em determinadas

 circunstncias .
 Segundo , as pessoas e as circunstncias especficas

 num dado caso tm de ser apropriadas para invocar o procedimento

 especfico invocado .
 Terceiro , todos os intervenientes tm de cumprir

 o procedimento correctamente. Quarto , tm de o cumprir completamente .

 Quinto , nos procedimentos para cujo cumprimento as pessoas tm de ter

 determinados pensamentos ou sentimentos , ento as pessoas envolvidas

 tm de ter efectivamente esses pensamentos ou sentimentos e agir de

 acordo com eles .
 Sexto , os intervenientes tm de agir tambm

 posteriormente de acordo com eles189 .
 Se uma das condies no for

 satisfeita , ento o acto de fala no se realiza .

 Austin chama ao insucesso dos actos de fala infelicidades .
 As

 infelicidades , porm , no so todas idnticas .
 Quando resultam do

 incumprimento s primeiras quatro condies ou regras , chamam-se

 falhas ( misfires ) , quando so infraces s duas ltimas regras so

 designadas por abusos .

 Exemplos de infraces a estas regras ajudam a compreend-las 190 .
 Uma

 infraco relativa  primeira regra ocorre quando , por exemplo , algum

 desafia para um duelo um habitante de um pas onde a instituio do

 duelo  totalmente desconhecida .
 Uma infraco  segunda regra ocorre

 quando uma pessoa d uma ordem a outra , sem contudo estar investido

 ( em geral ou numa determinada situao ) de autoridade para o fazer .

 Infraces  terceira e quarta regras ocorrem principalmente no

 direito , porque a se exigem determinados rituais ou formas rigorosas .

 Na vida do dia a dia estes casos so habitualmente ignorados , na

 medida do possvel .
 Porm , pode-se dizer que h uma infraco  regra

 trs quando , por exemplo , algum " desmarca a actividade desportiva

 marcada para amanh " sem indicar de que actividade desportiva se

 trata ; ou se algum " deixar em testamento a algum uma casa " ,

 possuindo , no entanto , oito casas , e no indicando de que casa se

 trata .
 Uma infraco  quarta regra ocorre quando fulano diz a

 cicrano : " aposto contigo que ...
 " , mas cicrano no aceita a aposta .

 Vista de uma perspectiva jurdica , uma aposta  um contrato entre dois

 lados .
 O que aqui existe  apenas a proposta para se fazer um

 contrato , mas que no teve seguimento .
 O que  comum a todos estes

 tipos de infraces  o facto de o acto de fala intendido no chegar a

 ter lugar .
 Se qualquer uma das quatro primeiras regras no for

 cumprida , o acto de fala pura e simplesmente no chega a ter lugar .

 As infraces das ltimas duas regras so de tipo bem diferente .
 O no

 cumprimento destas regras no implica s por si a no realizao do

 acto de fala .
 Um exemplo tpico de infraco a estas regras  uma

 promessa no cumprida .
 Se a pessoa A quando disse : " prometo-te que vou

 ter contigo ainda hoje " no tiver a inteno de ir l , ento existe

 uma infraco  quinta regra .
 Se A tinha de facto a inteno de

 cumprir a promessa , mas mais tarde ter reconsiderado em contrrio ,

 ento trata-se de uma infraco  ltima regra .
 Mas aqui importa

 salientar o seguinte : apesar das infraces a promessa foi feita .

 Mesmo que o promitente no tenha  partida a inteno de cumprir a

 promessa , ele faz na mesma a promessa , unicamente a promessa no foi

 leal ; se no cumprir o prometido , a promessa no deixa de ter sido

 feita , s que h um rompimento da promessa .

 6 .
 A Pragmtica UniversaL191

 6.1 .
 A lgica dos enunciados

 A lingustica de Saussure assenta na distino entre lngua e fala .

 Alis , essa distino  fundamental para toda a lingustica

 estruturalista .
 Com efeito , esta ao demarcar a lngua da fala , concebe

 a lngua como um sistema de regras para a produo de frases , de tal

 modo que todos as frases bem formadas podem considerar-se elementos da

 lngua .
 A lngua  um sistema , com regras definidas , que compete 

 lingustica apurar .
 A lngua  o elemento social e essencial da

 linguagem .
 A fala , por seu lado ,  o individual e acidental , onde 

 difcil , ou mesmo impossvel , apurar regras ou descortinar um sistema .

 Desse modo , o estudo da lngua ter uma unidade prpria no mbito

 lgico .
 A fala seria relegada para estudos empricos , sobretudo de

 cariz psicolgico .

 Habermas , todavia , considera tratar-se de um sofisma a ideia de que o

 sucesso da delimitao da anlise lingustica  lingua signifique a

 impossibilidade de uma anlise lgica da fala .
 A distino lngua / fala

 no deve relegar a dimenso pragmtica da lngua para as cincias

 empricas , por exemplo , para a psicolingustica ou para a

 sociolingustica .
 A tese de Habermas  de que no s a lngua , mas

 tambm a fala , portanto a utilizao de frases em enunciados , 

 passvel de uma anlise lgica .

 Enquanto a lingustica faz uma distino entre lngua e utilizao da

 lngua , procurando somente tematizar as unidades da lngua , isto  , as

 frases , a teoria dos actos de fala procura tematizar as unidades da

 fala , isto  , os enunciados .
 Encontramos aqui a distino entre frases

 e enunciados .
 Esta distino ficar clara atravs de alguns exemplos :

 o mesmo enunciado pode ser feito com frases diferentes : posso enunciar

 o facto de Joo estar gordo com diferentes frases : " O Joo est mesmo

 gordo " , " Que gordo est o Joo !
 " , " Est gordo o Joo !
 " ; por seu lado ,

 a mesma frase pode servir para diferentes enunciados .
 Com a frase " 

 uma bela menina " tanto podemos fazer numa enunciao descritiva , como

 laudatria , ou at irnica .
 A mesma frase pode ser usada com sentidos

 completamente diferentes , dependendo isso do contexto em que  dita ,

 ou seja , o uso que dela se faz .

 Ora o objectivo da anlise lingustica  a descrio explcita das

 regras que h que dominar para se poder produzir frases

 gramaticalmente correctas .
 A teoria dos actos de fala , por sua vez ,

 procura descrever o sistema fundamental de regras de uma competncia

 enunciativa , isto  , j no de construo de frases , mas sim da sua

 aplicao correcta em enunciados .
 No basta saber construir frases

 correctas  luz da gramtica , h que tambm saber enunci-las e isso 

 algo de diferente .
 O que est em causa , portanto , so as condies de

 enunciao .

 Que condies so essas ?
 Isto  , quais so as condies gerais de

 comunicao ?

 Vamos ver que no basta a gramaticalidade de uma frase como condio

 da sua enunciao .
 Se L for uma lngua natural e GL o sistema de

 regras gramaticais dessa lngua , ento qualquer cadeia de smbolos 

 considerada uma frase de L se tiver sido construda de acordo com as

 regras de GL .
 A gramaticalidade de uma frase significa , em termos

 pragmticos , que a frase quando enunciada  compreensvel a todos os

 ouvintes que dominam GL .
 Mas no basta uma frase ser compreensvel ,

 para ser um enunciado .
 Um enunciado tem tambm de ser verdadeiro , na

 medida em que diz algo acerca do mundo que percepcionamos , tem de ser

 sincero na medida em que traduz o pensamento de quem o enuncia , e tem

 de estar correcto na medida em que se situa num contexto de

 expectativas sociais e culturais .

 A frase para o linguista apenas tem de obedecer s condies de

 compreensibilidade , ou seja , de gramaticalidade .
 No entanto , uma vez

 pronunciada , tem de ser vista pragmaticamente sob outros aspectos .

 Alm da gramaticalidade , o falante tem ainda de ter em conta o

 seguinte :

 i ) escolher a expresso de modo a descrever uma experincia ou um

 facto ( satisfazendo determinadas condies de verdade ) , para que o

 ouvinte possa partilhar o seu saber ;

 ii ) exprimir as suas intenes de modo a que a expresso reflicta o

 seu pensamento e para que o ouvinte possa confiar nele ;

 iii ) levar a cabo o acto de fala de modo que satisfaa normas aceites

 e para que o ouvinte possa estar de acordo com esses valores .

 Estas trs funes pragmticas , isto  , de com a ajuda de uma frase

 descrever algo , exprimir uma inteno e estabelecer uma relao entre

 o elocutor e o ouvinte , esto na base de todas as funes que um

 enunciado pode tomar em contextos particulares .
 A satisfao dessas

 funes tem como bitola as condies universais de verdade ,

 sinceridade e correco .
 Todo o acto de fala pode , assim , ser

 analisado sob cada uma destas funes :

 i ) uma teoria da frase elementar investiga o contedo proposicional do

 enunciado na perspectiva de uma anlise lgico-semntica ;

 ii ) uma teoria da expresso intencional investiga o contedo

 intencional na perspectiva da relao entre subjectividade

 intersubjectividade lingustica ;

 iii ) a teoria dos actos de fala investiga a fora ilocucional na

 perspectiva de uma anlise interactiva do estabelecimento de relaes

 interpessoais .

 Podemos assim , distinguir teorias e respectivos mbitos :

 6.2 .
 A dupla estrutura da fala

 H muitos tipos de actos de fala : gritar " fogo !
 " , celebrar um

 contrato , fazer um juramento , baptizar , etc .
 Mas a forma padro de um

 acto de fala  aquela em que encontramos no enunciado duas partes : uma

 ilocucional e outra proposicional .
 Tomem-se alguns exemplos para

 clarificar esta distino :

 Peo-te que feches a porta / Peo-te que abras a porta

 Ordeno-te que feches a porta / Ordeno-te que abras a porta

 Pedir ou ordenar so a parte ilocucional - alis essas so expresses

 tipicamente ilocucionais ; o abrir a porta e o fechar a porta so a

 parte proposicional .

 H uma certa independncia entre estas duas partes : podem variar

 independentemente uma da outra .
 Tal independncia permite uma

 combinatria de tipos de aco e contedos .
 Tome-se outro exemplo :

 " Afirmo que Pedro fuma cachimbo " , " Peo-te Pedro para fumares

 cachimbo " , Pergunto-te , Pedro , se fumas cachimbo ?
 " , " Aconselho-te ,

 Pedro , a no fumares cachimbo " .
 Ora como a afirmao , a petio , a

 pergunta e o conselho , podiam ter outros contedos proposicionais , h

 no acto de fala dois nveis comunicativos em que elocutor e ouvinte

 tm de se entender simultaneamente , caso queiram comunicar as suas

 intenes .
 Por um lado , o nvel da subjectividade em que quem fala e

 quem ouve estabelecem relaes mediante actos ilocucionais , relaes

 que lhes permite entenderem-se ; por outro lado , o nvel das

 experincias e estados de coisas sobre os quais querem entender-se no

 nvel intersubjectivo .
 Todo o enunciado pode ser analisado sob estes

 dois aspectos : o aspecto relacional , intersubjectivo , e o aspecto de

 contedo , sobre o qual se faz a comunicao .

 Correspondentemente , distinguimos dois tipos de compreenso : uma

 compreenso ilocucional e outra predicativa .
 A primeira tem a ver com

 o nvel intersubjectivo do enunciado , a segunda com o nvel

 proposicional , o nvel das experincias .
 Ilocucionalmente

 compreendemos a tentativa de estabelecer uma relao interpessoal ,

 predicativamente compreendemos o contedo proposicional de um

 enunciado .

 Exemplos destes dois tipos de compreenso so fceis de encontrar :

 algum faz uma pergunta , mas no compreendemos o que  que pergunta .

 Isto  , entendemos que est a fazer uma pergunta , mas no deciframos o

 que est a perguntar .
 Um aluno apanhado distrado pela pergunta que o

 professor lhe faz oferece um caso comum de compreenso ilocucional em

 que no se compreende o contedo proposicional .
 Outras vezes  ao

 contrrio : algum nos fala sobre determinado assunto , por exemplo das

 suas dificuldades econmicas , e ao fim perguntamo-nos : est a dar-me

 uma notcia , ou a pedir-me dinheiro ?
 estes dois nveis de compreenso

 so , assim , no s distintos , como de certo modo independentes .

 6.3 .
 As consequncias dos actos de fala para a semntica .

 A distino entre actos locucionais ( constativos ) e actos ilocucionais

 ( performativos ) traz importantes consequncias  semntica ( teoria do

 significado ) .
 Austin reservou o conceito de " meaning " para as frases

 de contedo proposicional e empregava para os actos ilocucionais a

 expresso " fora " .
 Assim , temos :

 meaning - sense and reference - locutionary act

 force - attempt to reach an uptake - illocutionary act

  bom de ver que tambm as proposies ilocucionais tm um significado

 lexical .
 H um significado comum a " pedir " , seja em emprego

 proposicional " Ontem o Joo pediu ao Antnio para fechar a porta " ,

 seja em emprego ilocucional " Peo-te que feches a porta " .
 Mas no

 podemos reduzir a fora de um enunciado ao seu significado

 lingustico , como se a fora fosse apenas o significado lexical

 inserido em determinado contexto , isto  , como se a fora fosse o

 contedo significativo que ganharia o contedo lexical ao ser

 utilizado nas estruturas enunciativas ( de fala ) .
 Porm ,  possvel

 distinguir entre o significado de uma frase e o significado que a

 utilizao dessa frase tem num enunciado .
 Podemos falar , em sentido

 pragmtico , do significado de um enunciado , tal como em sentido

 lingustico do significado de uma frase .
 Assim , por exemplo , o que 

 um pedido em termos lingusticos pode ser uma ordem em sentido

 pragmtico .
 Se o chefe disser  secretria : " Poderia fazer-me um caf ,

 se fizer o favor ?
 " , o significado lingustico  diferente do

 significado pragmtico .
 Linguisticamente  um pedido , mas

 pragmaticamente trata-se de uma ordem .

 6.4 .
 Modos de comunicao .

 Austin julgava poder fazer uma clara diviso entre constatativos e

 performativos .
 Os primeiros diriam alguma coisa e seriam verdadeiros

 ou falsos ; os segundos fariam alguma coisa e teriam ou no sucesso .

 Porm , as investigaes subsequentes a Austin mostraram que tambm os

 constatativos tm uma parte ilocucional .
 Os actos locucionais de

 Austin foram substitudos :

 a ) por uma parte proposicional , que todo o enunciado explicitamente

 performativo tem ;

 b ) por uma classe especial de actos ilocucionais , que implicam a

 exigncia de verdade - os actos de fala constatativos .

 A incluso dos constatativos nos actos de fala revela que a verdade 

 apenas um de entre outros critrios de validade que o elocutor coloca

 ao ouvinte e que se prope satisfazer .
 Um acto de fala implica sempre

 certas condies , isto  , faz sempre exigncias de validade .
 As

 afirmaes ( os constatativos ) , tal como outros actos de fala ( avisos ,

 conselhos , ordens , promessas ) s resultam quando esto satisfeitas

 duas condies :

 a ) estar em ordem ( to be in order ) ;

 b ) estar certas ( to be right ) .

 Actos de fala podem estar em ordem relativamente a contextos

 delimitados ( a ) , mas s em relao a uma exigncia fundamental que o

 elocutor faz com o acto ilocucional  que podem ser vlidos ( estar

 certos , to be right ) ( b ) .

 Em que se distinguem as afirmaes dos outros actos de fala ?
 No na

 sua dupla estrutura performativa e proposicional , tambm no pelas

 condies de contexto geral , que variam de modo tpico em todos os

 actos de fala ; distinguem-se por implicarem antes de mais um critrio

 de validade : a pretenso de verdade .

 Outras classes de actos de fala tambm tm critrios de validade , mas

  por vezes difcil dizer quais os critrios especficos .
 A razo  a

 seguinte : a verdade , enquanto critrio de validade dos actos de fala

 constatativos ,  de certo modo pressuposta por actos de fala de

 qualquer tipo .
 A parte proposicional de qualquer performativo pode ser

 explicitada numa frase de contedo proposicional e , assim , tornar-se-

 clara a pretenso de verdade que coloca .
 Concluso : a verdade  um

 critrio universal de validade ; essa universalidade reflecte-se na

 dupla estrutura da fala .

 Quanto aos dois nveis em que a comunicao se desenrola , a saber , o

 nvel da intersubjectividade e o nvel das experincias e estados de

 coisas , pode-se na fala acentuar mais um que o outro ; dependendo dessa

 acentuao o uso interactivo ou o uso cognitivo da lngua .
 No uso

 interactivo da lngua tematizamos as relaes que elocutor e ouvinte

 assumem , seja enquanto aviso , promessa , exigncia , ao passo que apenas

 se menciona o contedo proposicional de enunciado ; no uso cognitivo

 tematizamos o contedo do enunciado enquanto proposio sobre algo que

 ocorre no mundo , ao passo que a relao interpessoal  apenas

 mencionada .
  assim que no uso cognitivo omitimos geralmente o " afirmo

 que ...
 " , " constato que ...
 " , " digo-te que ...
 " , etc .

 Pois que no uso cognitivo da linguagem tematiza-se o contedo , s se

 admitem nele actos de fala em que os contedos proposicionais podem

 tomar a forma de frases enunciativas .
 Com esses actos reivindica-se

 para a proposio afirmada a satisfao do critrio de verdade .
 Por

 sua vez , no uso interactivo , que acentua a relao interpessoal ,

 reportamo-nos de modos vrios  validade da base normativa do acto de

 fala .
 Quer isto dizer que tal como no uso cognitivo da linguagem temos

 como critrio de validade a verdade do que afirmamos , no uso

 interactivo temos tambm critrios de validade , s que doutro tipo .
 A

 fora ilocucional do acto de fala , que cria entre os participantes uma

 relao interpessoal ,  retirada da fora vinculativa de reconhecidas

 normas de aco ( ou de valorao ) ; na medida em que o acto de fala 

 uma aco , actualiza um esquema j estabelecido de relaes .
  sempre

 pressuposto um conjunto normativo de instituies , papis sociais ,

 formas de vida socio-culturais j habituais , isto  , convenes .

 Um acto de fala realiza-se sempre na base de um conjunto de

 instituies , normas , convenes .
 Por exemplo , uma ordem , uma aposta ,

 etc. , implicam um certo nmero de condies para que se possam

 realizar .
 Para apostar , por exemplo , pressupe-se que se aposta a

 alguma coisa acerca de algo sobre o qual os dois apostantes tm pontos

 de vista diferentes .
 Mas no s os actos de fala institucionais

 ( cumprimentar , apostar , baptizar , etc. ) pressupem uma determinada

 norma ( regras ) de aco .
 Tambm em promessas , proibies , e

 prescries , que no se encontram reguladas  partida por

 instituies , o elocutor coloca uma pretenso de validade que , caso

 queira que o acto de fala resulte , dever ser legitimada por normas

 existentes , e isso quer dizer : pelo menos , pelo reconhecimento fctico

 da pretenso , de que essas normas tm razo de ser .
 Ora tal como no

 uso cognitivo da linguagem a pretenso de verdade  posta , assim

 tambm este conjunto de normas  pressuposto como condio de validade

 no uso interactivo da linguagem .
 Ainda outro paralelismo : tal como no

 uso cognitivo apenas so admitidos actos de fala constatativos , assim

 tambm no uso interactivo apenas so aceites os actos de fala que

 caracterizam uma determinada relao que elocutor e ouvinte podem

 assumir relativamente a normas de aco ou de valorao .
 Habermas

 chama a estes actos de fala " regulativos " .
 Com a fora ilocucional dos

 actos de fala , o critrio de validade normativa - correco ou

 adequao - encontra-se alicerado to universalmente nas estruturas

 da fala como a pretenso de verdade .

 Contudo , s em actos de fala regulativos  que essa exigncia de um

 fundo normativo  invocada explicitamente .
 A pretenso de verdade do

 contedo proposicional desses actos fica apenas implcita .
 Nos actos

 constatativos  exactamente o inverso : a pretenso de verdade 

 explcita e a pretenso de normatividade  implcita .

 Daqui segue-se : no uso cognitivo da linguagem tematizamos mediante

 constatativos o contedo proposicional de um enunciado ; no uso

 interactivo da linguagem tematizamos mediante actos de fala

 regulativos o tipo de relao interpessoal estabelecida ; a diferente

 tematizao resulta da escolha de uma das pretenses colocadas pela

 fala , no uso cognitivo a reivindicao de verdade , no uso regulativo a

 reivindicao de um fundo normativo .

 Uma terceira reivindicao que a fala faz e que marca o uso expressivo

 da linguagem  a da veracidade .
 A veracidade  a reivindicao que o

 elocutor faz ao exprimir as suas intenes .
 A veracidade garante a

 transparncia de uma subjectividade que se expe linguisticamente .

 Paradigmas do uso expressivo da linguagem so frases como : " tenho

 saudades tuas " , " gostaria ...
 " , " tenho a dizer-te que ...
 " etc .

 Tambm a exigncia de veracidade  uma implicao universal da fala .

 Obtemos , assim , o seguinte esquema :

 6.5 .
 O fundamento racional da fora ilocucional

 Em que consiste a fora ilocucional de um enunciado ?
 Antes de mais ,

 sabemos quais os seus resultados : o estabelecimento de uma relao

 interpessoal .
 Com o acto ilocucional , o elocutor faz uma proposta que

 pode ser aceite ou rejeitada .
 Em que casos  essa proposta inaceitvel

 ( no por motivos contingentes ) ?
 Aqui interessa examinar os casos em

 que  o elocutor o culpado do insucesso dos seus actos , da

 inaceitabilidade das suas propostas .
 Portanto , quais so os critrios

 de aceitabilidade de qualquer proposta ilocucional ?

 Austin estudou as infelicities e misfires , quando h infraces s

 regras vigentes que regem as instituies ( casamento , aposta , etc. ) .

 Contudo , a fora especfica dos actos ilocucionais no se pode

 explicar atravs dos contextos delimitados dos actos de fala .
 A regra

 essencial , a condio essencial , para o sucesso de um acto ilocucional

 consiste em o elocutor assumir um determinado empenho de modo a que o

 ouvinte possa confiar nele .
 Este empenho significa : que na sequncia

 da proposta feita ao ouvinte , o elocutor se dispe a cumprir os

 compromissos da resultantes .

 Diferente do empenhamento  a sinceridade do empenhamento .

 O vnculo que o elocutor se dispe a assumir ao realizar um acto

 ilocucional , constitui uma garantia de que ele , na sequncia do seu

 enunciado , cumprir determinadas condies , por exemplo : considerar

 que uma questo foi resolvida , ao receber uma resposta satisfatria ,

 abandonar uma afirmao quando se descobre a sua no-verdade ; aceitar

 um conselho se se encontrar na mesma situao do ouvinte .
 Portanto ,

 pode-se dizer que a fora ilocucional de um acto de fala aceitvel

 consiste em poder levar o ouvinte a confiar nos deveres que o elocutor

 assume ao realiz-lo , isto  , nos deveres decorrentes do acto de fala .

 Elocutor e ouvinte colocam , com os seus actos ilocucionais , pretenses

 de validade e exigem o seu reconhecimento .

 Em ltima instncia o elocutor pode agir ilocucionalmente sobre o

 ouvinte e este , por sua vez , sobre o primeiro , justamente porque os

 deveres decorrentes dos actos de fala encontram-se vinculados a

 exigncias de validade verificveis cognitivamente , isto  , porque os

 laos recprocos tm uma base racional .

 O elocutor empenhado associa o sentido especfico , em que desejaria

 estabelecer uma relao interpessoal , normalmente com uma exigncia de

 validade , realada tematicamente , e escolhe ento um determinado modo

 de comunicao .
 Da que o contedo do empenhamento do elocutor seja

 determinado pelos dois factores seguintes :

 - pelo sentido especfico da relao interpessoal a estabelecer

 ( pedido , ordem , promessa , etc. ) ;

 - pela exigncia de validade universal , realada tematicamente .

 Em diferentes actos de fala , o contedo do empenhamento do elocutor 

 determinado por uma referncia especfica a uma exigncia universal de

 validade , realada tematicamente .

 Para os trs usos da linguagem : cognitivo , interactivo e expressivo ,

 temos trs tipos especficos de deveres decorrentes da referncia a

 uma exigncia universal de validade :

 - um dever de fundamentao no uso cognitivo .
 Os constatativos contm

 a proposta de , se necessrio , recorrer s fontes da experincia que

 esto na base da certeza do elocutor ;

 - um dever de justificao no uso interactivo .
 Os actos regulativos

 contm a proposta de recorrer ao contexto normativo que est na base

 da convico do elocutor ;

 - um dever de fiabilidade no uso expressivo , isto  , mostrar nas

 consequncias ao nvel do agir que o elocutor exprimiu exactamente a

 inteno que tinha efectivamente em mente .

 Resumindo :

 1 ) Um acto de fala resulta , isto  , estabelece uma relao

 interpessoal que o elocutor pretende :

 - se  compreensvel e aceitvel ;

 - se  aceite pelo ouvinte .

 2 ) a aceitabilidade de um acto de fala depende , entre o mais , da

 satisfao de duas condies pragmticas :

 - a existncia de um contexto delimitado tpico ao acto de fala

 ( preparatory rules ) ;

 - um reconhecvel empenhamento do elocutor ao assumir deveres tpicos

 aos actos de fala ( essential rule , sincerety rule ) .

 3 ) A fora ilocucional de um acto de fala consiste em poder levar um

 ouvinte a agir sob a premissa de que o empenhamento do elocutor 

 srio ; essa fora pode o elocutor :

 - obt-la , no caso dos actos de fala institucionalmente vinculados , 

 fora obrigatria de normas vigentes ;

 - no caso de actos de fala no institucionalmente vinculados , cri-la

 ao induzir ao reconhecimento de exigncias de validade .

 4 ) elocutor e ouvinte podem influenciar-se reciprocamente no

 reconhecimento de exigncias de validade , visto que o contedo do

 empenhamento do elocutor  determinado por uma referncia especfica a

 uma exigncia de validade , realada tematicamente , e em que o elocutor

 aceita :

 - com a pretenso de verdade , o dever de fundamentao ;

 - com a pretenso de correco ( adequao , justeza ) , o dever de

 justificao ;

 - com a pretenso de veracidade , o dever de fiabilidade .

 6.6 .
 Um modelo de comunicao lingustica

 A lngua  o meio pelo qual o elocutor e o ouvinte se demarcam do que

 os envolve .
 Antes de mais o sujeito demarca-se :

 a ) de um meio ambiente , que pode ser objectivado da perspectiva

 proposicional de um observado ;

 b ) de um meio ambiente de que se d conta na perspectiva de um

 participante ;

 c ) da sua prpria subjectividade ;

 d ) do prprio meio que  a linguagem .

 Estes campos de realidade dos quais o sujeito se demarca so : a

 natureza exterior , a sociedade , a natureza interior e a lngua .

 Natureza exterior  tudo o que pode ser afirmado explicitamente como

 contedo proposicional , isto  , como contedo de enunciados .

 " Objectividade " designa o modo como a realidade objectivada surge na

 fala .
 " Verdade "  a pretenso que fazemos valer para uma proposio

 respectiva .

 A realidade social das normas de aco e de valores aparece na fala ,

 atravs dos elementos ilocucionais dos actos de fala , como uma parte

 de realidade no objectivvel .

 A natureza interior dos sujeitos participantes manifesta-se na fala ,

 atravs das intenes do elocutor , como uma outra parte no

 objectivvel da realidade .
 " Normatividade " e " subjectividade " designam

 o modo como respectivamente a sociedade no objectivvel e a natureza

 interior aparecem na fala .
 Correco  a pretenso que fazemos valer

 face  normatividade de um enunciado , veracidade  a pretenso que

 fazemos valer face  inteno expressa .
 Intersubjectidade designa a

 comunidade estabelecida , graas  compreenso de significados

 idnticos e ao reconhecimento de exigncias universais , entre sujeitos

 capazes de falar e de agir .

  possvel , assim , traar o quadro de modelo comunicacional que a

 seguir se apresenta :

 _________________________________________________________________

 7 - NOTAS

 1 Aristteles , 981a-981b .

 2 ibidem .

 3 Cf .
 Adriano Duarte Rodrigues , Comunicao e Cultura , Lisboa :

 Presena , 1994 e Jos Bragana de Miranda , Analtica da Actualidade ,

 Lisboa : Vega , 1994 .

 4 Posio esta que  reforada com as correntes epistemolgicas

 recentes tais como a teoria das revolues cientficas de T. S. Kuhn e

 o anarquismo epistemolgico de P. Feyerabend .

 5 Ferdinand de Saussure , Curso de Lingustica Geral , Lisboa :

 Publicaes Dom Quixote , 1986 , p. 44 .

 6 Roland Barthes , Mitologias , Lisboa : Edies 70 , 1988 , p. 183 .

 7 Georges Mounin , Introduction  la Smiologie , Paris : ditions de

 Minuit , 1970 , pp. 11-15 .

 8 Eric Buyssens , Semiologia e Comunicao Lingustica , S. Paulo :

 Cultrix , s.d. ( 1967 ) .

 9 Luis Prieto , Mensagens e Sinais , S. Paulo : Cultrix , 1973 ( 1966 ) .

 10 Ibidem , p. 22-23 .

 11 Charles Sanders Peirce , Semitica , S.Paulo : Editora Perspectiva ,

 1977 , p. 45 , " Em seu sentido geral , a lgica  , como acredito ter

 mostrado , apenas um outro nome para semitica , a quase-necessria , ou

 formal , doutrina dos signos. "

 12 Cf .
 Adriano Duarte Rodrigues , Introduo  Semitica , Lisboa :

 Presena , 1991 , p. 76 .

 13 Cf .
 Joseph Brent , Charles Sanders Peirce .
 A Life , Bloomington :

 Indiana University Press , pp. 322-326 .

 14 Charles Morris , Foundations of the Theory of Signs , The University

 of Chicago Press , 1970 ( 1938 ) .

 15 Pierre Guiraud , A Semiologia , Lisboa : Presena , p. 9 .

 16 Jrgen Trabant , Elementos de Semitica , Lisboa : Presena , 1980

 ( 1976 ) , p. 10 .

 17 Ernst Cassirer , Philosophie der symbolischen Formen , I Vol. Die

 Sprache , Darmstadt : Wissenschaftliche Buchgesellschaft , 1988 ( 1923 ) ,

 p. 55 .
 " Die philosophische Frage nach dem Ursprung und dem Wesen der

 Sprache ist im Grunde so alt , wie die Frage nach dem Wesen und

 Ursprung des Seins. " Sobre esta questo cifrar todo o 1 cap .
 " Das

 Sprachproblem in der Geschichte der Philosophie " .

 18 Platon , Cratyle , Paris : Les Belles Lettres , 1969 .

 19 Cassirer , ibidem , " Im Aufbau und im Stufengang des dialektischen

 Wissens behlt das Wort einen ihm eigentmlichen Platz und Wert .
 Die

 flieenden Grenzen , die jederzeit blo relative Festigkeit des

 Wortgehaltes wird fr den Dialektiker zum Ansporn , um sich , im

 Gegensatz und im Kampf mit ihm , zur Forderung der absoluten Festigkeit

 des Bedeutungsgehalts der reinen Begriffe zu erheben. " p. 62 .

 20 Plato , Cartas , Lisboa : Estampa , 1980 , pp. 74-79 .

 21 Cassirer , ibidem , " Das Wissen vom Gegenstand und dieser selbst

 erscheint demnach ebensowohl als etwas , was diese drei Stufen

 berschreitet , wie als etwas , was sie in sich befat - als deren

 Transzendenz und deren Synthese. " pp. 63-64 .

 22 Tzvetan Todorov , Teorias do Smbolo , Lisboa : Edies 70 , 1979

 ( 1977 ) .

 23 Todorov , ibidem p .18 .
 Sobre a influncia da doutrina sgnica dos

 esticos sobre Sto Agostinho veja-se Tilman Borsche , " Zeichentheorie

 im bergang von den Stoikern zu Augustin " in Allgemeine Zeitschrift

 fr Philosophie 19/2 , 1994 , pp. 41-52 .

 24 Todorov , ibidem , veja-se o captulo " A sntese augustiniana " pp .

 33-54 .

 25 A exposio mais importante da teoria estica  a de Sextus

 Empiricus : " Os esticos dizem que h trs coisas ligadas : o

 significado , o significante e o objecto .
 Destas coisas , o significante

  o som , por exemplo ' Dion ' ; o significado  a prpria coisa que 

 revelada e que ns entendemos como subsistindo em dependncia do nosso

 pensamento , mas que os brbaros no compreendem , embora sejam capazes

 de ouvir a palavra pronunciada ; enquanto o objecto  o que existe no

 exterior : por exemplo , Dion em pessoa .
 Duas destas coisas so

 corpreas : o som e o objecto , e a outra  incorprea ,  a entidade que

  significada , o dizvel , que  verdadeiro ou falso. " ( Contra os

 Matemticos , VIII , 11-12 ) citado em Todorov , ibidem , p. 18 .

 26 Todorov , ibidem , p. 35 .

 27 " Dizvel ser vivido tanto por aquele que fala como por aquele que

 ouve .
 Dictio , pelo contrrio ,  um sentido que funciona , no entre os

 interlocutores , mas entre o som e a coisa ;  aquilo que a palavra

 significa , independentemente de quem a usa. " Todorov , ibidem .

 28 No faltam obras recentes a reduzir a semitica contempornea a

 simples repeties de teorias simblicas medievais e renacentistas .

 Assim , por exemplo , John Deely , Introducing Semiotics , Bloomington :

 Indiana University Press , 1982 , que , no dizer de Helmut Pape ,

 Einleitung in Charles Peirce Semiotische Schriften , Frankfurt :

 Suhrkamp , 1986 , acaba por afirmar que tudo aquilo que a semitica

 moderna procura j se encontra no filsofo renascentista John Poinsot ,

 descoberto por ele prprio Deely .

 29 Veja-se a passagem frequentemente citada de uma carta de Peirce a

 Lady Welby em que lhe afirma que desde que teve , por volta dos doze ou

 treze anos , o primeiro contacto com a lgica " nunca mais foi capaz de

 estudar o quer que fosse - matemtica , moral , metafsica , gravitao ,

 termodinmica , fontica , economia , histria das cincias , homens e

 mulheres , vinho , metrologia - seno como estudo de semitica " .
 ( carta

 de Dez. de 1908 , Semiotic and Significs .
 The Correspondence between

 Charles S.Peirce and Victoria Lady Welby , Bloomington : Indiana

 University Press , 1977 , pp. 85-86 .

 30 Veja-se o texto de 1903 " Syllabus of Certain Topics of Logic " , que

 constitui o manuscrito mais extenso sobre a temtica e cujo primeiro

 captulo trata do esboo de uma classificao das cincias .
 O texto

 integral encontrava-se at h pouco tempo publicado apenas em alemo ,

 Phnomen und Logik der Zeichen , Frankfurt ; Suhrkamp , 1993 , pp. 39-44 .

 31 O ttulo completo no original  Foundations of the Unity of

 Science .
 Toward an International Encyclopedia of Unified Science ,

 Chicago : The University of Chicago Press .

 32 ibidem , p. 2 .

 33 ibidem , p. 3 .
  bem patente aqui a concepo da semitica como

 mathesis universalis .
 Significativamente , Morris inicia o seu trabalho

 com uma citao de Leibniz : " nemo autem vereri debet ne characterum

 contemplatio nos a rebus abducat , imo contra ad intima rerum ducet " .

 34 " Doutrinas to venerveis como a das categorias , a dos

 transcendentais , e a dos predicveis so incurses primitivas nos

 domnios semiticos e deveriam ser clarificados pelos desenvolvimentos

 posteriores .
 Vale a pena recuperar e interpretar as controvrsias

 helensticas sobre os signos de advertncia e os indicativos , e as

 teorias medievais da inteno , imposio e suposio .
 A histria da

 lingustica , retrica , lgica , empirismo , e cincias experimentais

 fornecem um rico material suplementar. " ibidem , p. 55 .

 35 Esta tradio  reconhecida pelo prprio Morris ao lanar os

 fundamentos da semitica enquanto cincia : " A semitica tem uma longa

 tradio , e  semelhana de todas as outras cincias deveria manter

 viva a sua histria. " ibidem , p. 55 .

 36 Por exemplo , Naves , La Semiologia , Madrid : Editorial Sintesis ,

 1989 , p .7 , Guiraud , ibidem , p. 9 .

 37 Eduardo Prado Coelho , Os Universos da Crtica , Lisboa : Edies 70 ,

 1987 , pp. 501-505 .

 38 ibidem , p. 502 .

 39 ibidem , p. 503 .

 40 ibidem , p. 503 .

 41 Jeanne Martinet , Chaves para a Semiologia , Lisboa : D.Quixote , 1983

 ( 1974 ) , p. 159-160 .

 42 Cf Adriano Duarte Rodrigues , Introduo  Semitica , Lisboa :

 Presena , 1991 , captulos 4 e 9 .

 43 Umberto Eco , Lector in fabula , Lumen : Barcelona , 1981 , citado por

 Prado Coelho , ibidem , p. 502 .

 44 Prado Coelho , ibidem .

 45 " Os trabalhos que consideramos actualmente integrados no campo da

 Semitica relevam de duas tradies cientficas diferentes .
 A primeira

  a Filosofia : desde os tempos de Plato e Aristteles , passando pelos

 esticos , por Sto Agostinho , pela escolstica , por Locke , Leibniz ,

 Wolff , Lambert , Hegel , Bolzano , e at aos nossos dias , com Frege ,

 Wittgenstein , Husserl , Carnap e Morris - para citar apenas alguns

 nomes - que a reflexo filosfica incide sobre os signos - e ,

 especialmente sobre os signos lingusticos .

 A outra origem da Semitica  a Lingustica europeia moderna , que ,

 como todas as disciplinas cientficas actuais , tem as suas razes na

 filosofia , mas se tornou mais ou menos independente da Semitica

 filosfica devido  aco do fundador da Lingustica europeia moderna ;

 Ferdinand de Saussure , e , com os trabalhos de Jakobson , Trubetzkoy e

 Hjelmslev , abriu caminho a diversos ramos de investigao semitica. "

 Jrgen Trabant , ibidem , pp. 13-14 .

 46 Ver Brent , ibidem. p. 326 .

 47 " Ist der von Bolzano und anschliessend von Frege , Meinong und

 Husserl vollzogene Anfangsschritt , durch den die Gedanken aus der

 Innenwelt der Bewusstseinserlebnisse verstossen werden , erst einmal

 getan , ist der zweite Schritt - die Auffassung , wonach die Gedanken

 durch die Sprache nicht nur bertragen , sondern erzeugt werden -

 praktisch kaum zu vermeiden. " Michael Dummet , Ursprnge der

 analytischen Philosophie , Frankfurt : Suhrkamp , p. 37 .

 48 Bernhard Bolzano , 1970 ( 1837 ) , Wissenschaftslehre , 4 vol. , Aachen :

 Scientia verlag .

 49 "  285 .
 Bezeichnung unserer Vorstellungen " , pp. 67-78 .

 50 "  334 .
 Verknpfung unserer Vorstellungen mit zweckmssigen

 Zeichen .
 Vorteile dieser Verknpfung " , pp. 355-358 .

 51 Cf .
  335-344 , pp. 358-377 .

 52 " Ein Gegenstand , dessen wir uns zu einem solchen Zwecke bedienen ,

 d.h. durch dessen Vorstellung wir eine andere in einem denkenden Wesen

 mit ihr verknuepfte Vorstellung erneuert wissen wollen , heisst uns ein

 Zeichen. " p. 67 .

 53 Bolzano no faz a diferena entre representao assinalada e o

 objecto da representao assinalada .
 Aos dois chama significado do

 signo .
 Mas  bvio que se tratam de coisas diferentes .
 A confuso

 surge devido  definio de signo se basear no conceito de

 representao .

 54 Cf .
  334 .

 55 Cf .
  335-338 .

 56 Cf .
  339-342 .

 57 " jene Regeln , nach denen wir bei der Bezeichnung unserer

 Vorstellungen fr den Zweck des eigenen Nachdenkens vorzugehen haben ,

 in der Lehre vom wissenschaftlichen Vortrage schon als bekannt

 vorausgesetzt werden mssen. "  334 .

 58 Cf .
 William Kneale e Martha Kneale , O Desenvolvimento da Lgica ,

 Lisboa : Fundao Calouste Gulbenkian , 1972 , p. 441 .

 59 Sobre este item cifrar Michael Dummet , Ursprnge der analytischen

 Philosophie , Frankfurt : Suhrkamp , pp. 11-39 .

 60 " In diesem Aufsatz [ Sinn und Bedeutung ] darf man eine der

 wichtigsten historischen Quellen der modernen Semantik sehen. " Gnther

 Patzig na introduo a Gottlob Frege , Funktion , Begriff , Bedeutung .

 Fnf logische Studien , ( org .
 G.Patzig ) , Goettingen : Vandenhoeck &

 Ruprecht , 1980 , ( p .4 ) .
 Cf. tambm a traduo espanhola , Frege ,

 Estudios de Semntica , Barcelona : Ariel , 1973 .

 61 Utiliza-se aqui a edio alem referida na nota anterior deste

 artigo de Frege .

 62 Sobre este tema cifrar o cap. 3 " Wahrheit und Bedeutung " da obra

 referida de Michael Dummet .

 63 Philosophie der Arithmetik .
 Logische und Psychologische

 Untersuchungen .
 Husserliana ( Hua ) XII , pp. 1-283 .

 64 " ber den Begriff der Zahl .
 Psychologische Analysen " , tambm

 publicada como complemento em Hua XII , pp. 289-339 .

 65 Hua XII , p. 287 .

 66 " Auf den Unterschied zwischen " eigentlichen " und " uneigentlichen "

 oder " symbolischen " Vorstellungen hat Fr .
 Brentano in seinen

 Universittsvorlesungen von jeher den grten Nachdruck gelegt. Ihm

 verdanke ich das tiefere Verstndnis der eminenten Bedeutung des

 uneingentlichen Vorstellens fr unser ganzes psychisches Leben , welche

 vor ihm , soweit ich sehen kann , niemand voll erfat hat. " Hua XII , p .

 193 .

 67 Sobre este assunto , ver em Antnio Fidalgo , O Realismo da

 Fenomenologia de Munique , Braga , 1991 , o cap .
 " O Mecanismo Associativo

 da Alma " , pp. 47-63 .

 68 " Neben die Mechanik der ueren Natur tritt die Mechanik der Seele .

 Von Herbart rhmten seine Schler , er habe mehr geleistet als Newton

 mit seiner Mechanik des Himmels , da die Seele soviel hher stehe und

 komplizierter sei als die Krperwelt. " Michael Landmann ,

 Philosophische Anthropologie , Berlim : Gruyter , 1982 , p. 105 .

 69 Cf .
 Fidalgo , " Pfnders Weg vom Monismus zur Phnomenologie " a vir 

 luz em Karl Schuhmann , Categories of Counsciousness .
 The Descriptive

 Psychology of Alexander Pfnder , Dordrecht , Nijhoff .

 70 Brentano , Psychologie vom empirischen Standpunkt , Hamburgo : Meiner ,

 p. 41 .

 71 Brentano , Deskriptive Psychologie , Hamburgo : Meiner , 1982 ,

 pp. 67-69 .

 72 Ehrenfels , " ber Gestaltqualitten " in Vierteljahrschrift fr

 wissenschaftliche Philosophie 14 , pp. 249-292 .

 73 Publicados em Hua XXII , Aufstze und Rezensionen ( 1890-1910 )

 74 " Hieraus geht unwiderleglich hervor , da die Melodie oder

 Tongestalt etwas Anderes ist , als die Summe der einzelnen Tne , auf

 welchen sie sich aufbaut. " Ehrenfels , ibidem , p. 259 .

 75 " Unter Gestaltqualitten verstehen wir solche positive

 Vorstellungsinhalte , welche an das Vorhandensein von

 Vorstellungskomplexen im Bewutsein gebunden sind , die ihrerseits aus

 von einander trennbaren ( d.h. ohne einander vorstellbaren ) Elementen

 bestehen. " ibidem , p. 262 .

 76 Meinong , " Zur Psychologie der Komplexionen und Relationen " em

 Zeitschrift fr Psychologie und Physiologie der Sinnesorgane 2 , 1891 ,

 pp. 245-265 .

 77 Cf .
 Meinong , " ber Gegenstnde hherer Ordnung un deren Verhltnis

 zur inneren Wahrnehmung " em Zeitschrift fr Psychologie und

 Physiologie der Sinnesorgane 21 , 1899 , pp. 182-272 , e ber

 Gegenstandstheorie .
 Untersuchungen zur Gegenstandstheorie und

 Psychologie , Leipzig : Barth , 1904 .

 78 " Eine symbolische oder uneigentliche Vorstellung ist , wie schon der

 Name besagt , eine Vorstellung durch Zeichen. " Hua XII , p. 193 .

 79 " Ist uns ein Inhalt nicht direkt gegeben als das , was er ist ,

 sondern nur indirekt durch Zeichen , die ihm eindeutig

 charakterisieren , dann haben wir von ihm statt einer eigentlichen eine

 symbolische Vorstellung. " ibidem .

 80 " Jede Beschreibung eines anschaulichen Objekts hat die Tendenz , die

 wirkliche Vorstellung desselben durch eine stellvertretende

 Zeichenvorstellung zu ersetzen. " ibidem , p. 194 .

 81 Hua XII , p. 190 .

 82 Hua XII , p. 192 .

 83 Hua XII , p. 192 e Hua XII , p. 340 .

 84 HUA XII , p. 192 .

 85 Cf. [ 341 ] .

 86 Hua XII , p. 349 .

 87 O termo pragmatismo ainda no aparece neste artigo .
 Alis ele no

 se encontra nos primeiros escritos de Peirce .
 Trata-se pois do seu

 significado avant la lettre .

 88 Sobre esta temtica , veja-se a excelente exposio de John Murphy ,

 O Pragmatismo .
 De Peirce a Davidson , Lisboa : Asa , 1993 , pp. 38-41 .

 89 " uma das faltas que me podem atribuir  ter feito do pragmatismo

 uma mxima lgica em vez de um sublime princpio de filosofia

 especulativa " Col .
 Papers , 5.18 , traduzido em Peirce , Frege .
 Os

 Pensadores , So Paulo : Editor Victor Civita , 1983 , p. 11 .

 90 " Most of his hearers , including James ...
 , found the lectures

 obscure , if not unintelligible. " Joseph Brent , Charles Sanders Peirce .

 A Life , Bloomington : Indiana University Press , p. 291 .
 O prprio

 Peirce , numa carta a Christine Ladd-Franklin , queixa-se da

 incompreenso encontrada e acusa o psicologismo de Wundt disso : " In

 the Spring of 1903 I was invited , by the influence of James , Royce and

 Mnstenberg , to give a course of lectures in Harvard University on

 Pragmatism .
 I had intended to print them ; but James said he could not

 understand them himself and could not recommend their being printed. I

 do myself think there is any difficulty in understanding them , but all

 modern psychologists are so soaked with sensationalism that they can

 not understand anything that does not mean that , and mistranslate into

 the ideas of Wundt whatever one says about logic. " ibidem .

 91 ibidem .

 92 " Se os senhores examinarem com ateno a questo do pragmatismo ,

 vero que ela nada mais  excepto a questo da lgica da abduo. "

 Charles S. Peirce , Semitica , So Paulo : Editora Perspectiva , 1977 ,

 p. 232 .

 93 Cf .
 1 .
 cap .
 " As Trs Proposies Cotrias " da ltima conferncia

 " Pragmatismo e Abduo " ibidem , pp. 225-239 .

 94 ibidem , pp. 211-224 .

 95 " Reaco  existncia e o juzo perceptivo  o produto cognitivo de

 uma reaco. " ibidem , p. 213 .

 96 Tambm aqui Peirce se reporta a Aristteles , nomeadamente aos

 Primeiros Analticos. ibidem , p. 207 .

 97 " Na deduo , ou raciocnio necessrio , partimos de um estado de

 coisas hipottico que definimos sob certos aspectos abstractos .
 Entre

 os caracteres aos quais no prestamos nenhuma ateno neste modo de

 argumento est o seguinte : se a hiptese das nossas premissas se

 adequa ou no , mais ou menos , ao estado de coisas no mundo exterior. "

 ibidem , p. 215 .

 98 ibidem , p. 219 .

 99 ibidem , p. 229 .

 100 " Seja como for que o homem tenha adquirido a sua faculdade de

 adivinhar os caminhos da Natureza , certamente no o foi atravs de uma

 lgica crtica e autocontrolada .
 Mesmo agora ele no consegue dar uma

 razo precisa para as suas melhores conjecturas .
 Parece-me que a

 formulao mais clara que podemos fazer a respeito da situao lgica

 - a mais livre de toda a mescla questionvel de elementos - consiste

 em dizer que o homem tem uma certa Introviso ( Insight ) ,

 suficientemente forte para que esteja , na esmagadora maioria das

 vezes , com mais frequncia certo do que errado , uma Introviso da

 Terceiridade , os elementos gerais , da Natureza. " ibidem , 221 .

 101 " As Peirce characterizes abduction , it is based on instinct in

 particular , on a natural insight into the laws of nature captured by

 the frase il lume naturale ' the natural light ' .
 In spite of its

 instinctive base , abduction is clearly classified by Peirce as a

 method of reasoning. " Sebeok , Org. , 1986 , Enciclopedic Dictionary of

 Semiotics , Berlin : Mouton de Gruyter .

 102 " Abductive inference is also linked to perceptual judgement by

 Peirce ; perceptual judgements are extreme instances of abductive

 inference , from which they differ in being absolutely beyond

 criticism. " ibidem .

 103 Peirce , ibidem , p. 226 .

 104 Peirce , ibidem , p. 227 .

 105 " Se o percepto ou o juzo perceptivo fosse de uma tal natureza

 que estivesse de todo desligada da abduo , seria de esperar que o

 percepto fosse inteiramente livre dos caracteres que so prprios s

 interpretaes , enquanto que dificilmente pode deixar de apresentar

 tais caracteres se for meramente uma srie contnua daquilo que ,

 discreta e conscientemente realizadas , seriam as abdues .
 Temos aqui ,

 desta forma , quase uma verificao crucial da minha terceira

 proposio cotria .
 Neste caso , qual  o facto ?
 O facto  que no h

 necessidade de ir alm das observaes comuns da vida comum para

 encontrar uma variedade de modos amplamente diferentes pelos quais a

 percepo  interpretativa. " ibidem , p. 227 .

 106 ibidem , p. 228 .

 107 ibidem , p. 232 .

 108 " Um fsico depara-se com um novo fenmeno em seu laboratrio .
 Como

  que ele sabe se as conjunes dos planetas tm algo a ver com isso ,

 ou se isso  assim porque , talvez , a imperatriz viva da China , no

 mesmo momento h um ano atrs , pronunciou alguma palavra com um poder

 mstico , ou se o facto se deve  presena de algum esprito invisvel ?

 Pense-se nos trilhes e trilhes de hipteses que se poderiam formular

 e das quais apenas uma  verdadeira ; todavia , aps duas ou trs , no

 mximo uma dzia de conjecturas , o fsico d , bastante

 aproximadamente , com a hiptese correcta " .
 ibidem , p. 220 .

 109 ibidem , p. 232 .

 110 Cf .
 Adriano Duarte Rodrigues , Introduo  Semitica , Lx :

 Presena , 1991 , pp. 26-33 .

 111 Traduo portuguesa nas Edies Dom Quixote , Lisboa .

 112 Curso de Lingustica Geral , p. 40 .

 113 ibidem , p. 41 .

 114 Roland Barthes , Elementos de Semiologia , Lisboa : Edies 70 , 1989 ,

 p. 11 .

 115 Saussure , ibidem , p. 121 .

 116 ibidem , p. 122 .

 117 ibidem , p. 124

 118 ibidem .

 119 ibidem , p. 126 .

 120 ibidem .

 121 ibidem , p. 125 .

 122 ibidem , p. 128 .

 123 ibidem .

 124 ibidem , p. 129 .

 125 ibidem , p. 130 .

 126 ibidem , p. 132 .

 127 ibidem , p. 133 .

 128 ibidem , p. 134 .

 129 ibidem , p. 176 .

 130 ibidem .

 131 ibidem , p. 177 .

 132 ibidem , p. 184 .

 133 ibidem , p. 185 .

 134 ibidem , p. 190 .

 135 ibidem , p. 191 .

 136 ibidem .

 137 ibidem .

 138 ibidem , p. 192 .

 139 ibidem .

 140 ibidem , p. 193 .

 141 ibidem , p. 182 .

 142 ibidem , p. 207 .

 143 ibidem , p. 207-208 .

 144 ibidem , p. 208 .

 145 Dicionrio de Grego ( Isidro Pereira ) , Porto : Livraria Apostolado

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 146 Grande Dicionrio de Lngua Portuguesa ( Jos Pedro Machado ) ,

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 147 ibidem , p. 208 .

 148 ibidem .

 149 ibidem .

 150 ibidem , p. 208-209 .

 151 Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov , Dicionrio das Cincias da

 Linguagem , Lisboa : Dom Quixote , 1991 , p. 135 .

 152 Saussure , ibidem , p. 209 .

 153 ibidem , p. 209 .

 154 ibidem , p. 210 .

 155 ibidem , pp. 211-212 .

 156 ibidem , p. 212 .

 157 Roland Barthes , Mitologias , Lisboa : Edies 70 , 1988 , pp. 179-223 .

 158 Cf Georges Mounin , Introduction  la smiologie , Paris : Les

 ditions de Minuit , 1970 , " smiologie de la communication et

 smiologies de la significacion " , pp. 11-15 .

 159 Barthes , ibidem , p. 182 .

 160 ibidem , p. 181-182 .

 161 ibidem , p. 183 .

 162 Roland Barthes , Elementos de Semiologia , Lisboa : Edies 70 , 1989 .

 163 ibidem , p. 9 .

 164 ibidem , p. 8 .

 165 ibidem , p. 9 .

 166 ibidem , p. 34 .

 167 Cf. a conferncia " Semntica do objecto " de 1964 , publicada em

 Roland Barthes , A Aventura Semiolgica , Lisboa : Edies 70 , 1987 ,

 pp. 171-180 .

 168 Mitologias , p. 187 .

 169 " Ao tornar-se forma , o sentido afasta a sua contingncia ;

 esvazia-se , empobrece-se , a histria evapora-se , nada mais resta do

 que a letra .
 H uma permutao paradoxal das operaes de leitura , uma

 regressso anormal do sentido  forma , do signo lingustico ao

 significante mtico. " ibidem , p. 188 .

 170 " O sentido ser para a forma como que uma reserva instantnea de

 histria , como que uma riqueza submissa , que  possvel convocar ou

 afastar numa espcie de alternncia rpida : importa que sem cessar a

 forma possa voltar a enraizar-se no sentido e nele alimentar-se

 naturalmente : importa sobretudo que possa nele ocultar-se .
  este

 interessante jogo de esconde-esconde entre o sentido e a forma que

 define o mito. " ibidem , p. 189 .

 171 Elementos de Semiologia , p. 75 .

 172 ibidem , p. 77 .

 173 ibidem .

 174 ibidem , p. 76 .

 175 Charles Morris , Fundamentos da Teoria dos Signos , Traduo

 policopiada na UBI .

 176 Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov , Dicionrio das Cincias da

 Linguagem , Lx : Publicaes D. Quixote , 1991 , p. 257 .

 177 ibidem .

 178 Como introduo  obra de Carnap veja-se Alberto Pasquinelli ,

 Carnap e o Positivismo Lgico , Lx : Edies 70 , 1983 .

 179 C.Morris , ibidem , p. 16 .

 180 Sobre esta questo veja-se Stephen Ullmann , Semntica .
 Uma

 Introduo  Cincia do Significado , Lisboa : Fundao Calouste

 Gulbenkian , 1987 , cap. III e Jos Pinto de Lima , Linguagem e Aco .
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 filosofia analtica  lingustica pragmtica , Lisboa : Apginastantas ,

 1989 .

 181 C. K. Odgen e I. A. Richards , The Meaning of Meaning , London :

 Routledge & Kegan , 1923 .

 182 Naves Maria del Carmen Bobes , La Semiologa , Madrid :

 Sntesis , p. 97 .

 183 Cf .
 Morris , ibidem , p. 28 .

 184 ibidem , p. 27 .

 185 ibidem , p. 28 .

 186 ibidem .

 187 ibidem .

 188 Austin , 1986 , How to do things with words , Oxford University

 Press , p. 121 .

 189 ibidem , p. 14-15 .

 190 Os exemplos que se seguem so extrados da exposio que Wolfgang

 Stegmller faz da teoria dos actos de fala de Austin ; Hauptstrmungen

 der Gegenwartsphilosophie II , Stuttgart : Alfred Krner Verlag ,

 1987 , pp. 64 e ss .

 191 Para esta exposio da pragmtica universal servi-me do artigo de

 Habermas " Was heit Universalpragmatik ?
 " in Karl-Otto Apel , org. ,

 Sprachpragmatik und Philosophie , Frankfurt , Suhrkamp , 1982 , pp .

 174-272 , limitando-me , por vezes , a uma simples parfrase literal do

 texto habermasiano .
 Da que no recorra a aspas para assinalar as

 citaes do original .

 _________________________________________________________________

 8 .
 BIBLIOGRAFIA

 Esta bibliografia  um instrumento de trabalho para os alunos .
 Da que

 i ) se d preferncia s tradues em lngua portuguesa , ii ) que seja

 hierarquizada em importncia para a cadeira .
 Assinalam-se , assim , com

 um asterisco as obras recomendadas e com dois asteriscos as obras de

 leitura obrigatria .
 Se a bibliografia aparece demasiado vasta ,  com

 dois objectivos .
 Um  pedaggico , indica-se aos alunos que a semitica

 vai muito alm da disciplina de Semitica .
 O outro  cientfico ,

 desperta-se a curiosidade dos alunos para outros autores e outros

 temas ligados  semitica .

 1 .
 Indicaes de bibliografia :

 A bibliografia mais vasta sobre Semitica encontra-se em :

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