 Filosofia , Linguagem e Mente

 Graham Button , Jeff Coulter , John R. R. Lee , Wes Sharrock

 Este livro  um trabalho coletivo .
 Como ficar evidente no que se

 segue , estamos em srio desacordo com uma variedade de teses , modas e

 tendncias do ambiente intelectual contemporneo na filosofia e nas

 cincias humanas , que foram cultivadas com uma adeso muito ampla a ( o

 que alegamos ser ) uma viso filosfica defeituosa dessas cincias .

 Essa viso  , em ampla medida , como alegaremos , o produto de uma

 atitude no crtica em relao a certas interpretaes filosficas do

 papel das cincias naturais e , em especial , das cincias

 computacionais na tarefa de descrever e explicar a mentalidade e as

 capacidades cognitivas do homem .

 Estamos muito conscientes de que a nossa tentativa de estabelecer a

 nossa tese tem algo de um rduo combate e de que teremos de antecipar

 muitas objees que hoje so de praxe - embora , de modo

 caracterstico , um tanto irrefletidas - contra a linha que

 assumiremos .
 Essa linha poderia ser estereotipada como uma abordagem

 de " linguagem ordinria " , algo considerado amplamente dmod .
 Contudo ,

 no nos importamos muito com o fato de que as posies que defendemos

 tenham sido desenvolvidas em meados do sculo XX , uma vez que as

 posies a que nos oporemos , como mostraremos , so essencialmente

 produtos de argumentos e pressupostos aventados no sculo XVII .
 Assim ,

 no nos perturbam as objees s nossas idias baseadas na data de seu

 desenvolvimento inicial .
 De fato , concordamos com a opinio de John

 Cook de que a chamada " filosofia da linguagem ordinria " compreende

 uma metodologia que no foi testada e considerada falha , pois mal foi

 realmente testada ( Cook , 1980 ) .

 Num tempo em que muitos cultores da " filosofia da mente " esto

 ocupados citando uns para os outros as ltimas pesquisas cientficas ,

 nossa interveno corre o risco de provocar o desdm que justamente

 incide sobre aqueles que procuram colocar questes essencialmente

 cientficas sem uma referncia ou sem a posse dos ltimos resultados

 cientficos dos estudos sobre o crebro humano , por exemplo .
 Corremos

 o risco de ser tratados como um daqueles que julgam poder servir de

 juiz entre posies divergentes nas cincias com base em consideraes

 sobre o significado das palavras comuns .

 Corremos , sim , o risco desses mal-entendidos .
 No entanto , to obstante

 esse risco , no acreditamos que devssemos conceder o que quer que

 fosse  fanfarronada filosfica que no raro est associada ao nome de

 Cincia , nem  noo de que uma recitao dos seus resultados

 presentes seja forosamente relevante ( ou efetiva ) para que se

 enfrentem os problemas que aqui visamos .
 Como tornaremos claro ,  uma

 idia errnea julgar que argumentos como os nossos procurem ter

 prioridade sobre as descobertas da cincia ou legislar sobre o que as

 cincias empricas possam descobrir .
 Imaginar que poderamos resolver

 uma questo emprica inteligvel por meio de manobras conceituais vai

 de encontro a tudo o que supomos , mas , evidentemente ,  tambm por

 isso que temos de encarar com ceticismo a adoo de material emprico

 por parte dos filsofos : pois , assim como nos recusamos a supor que

 explicaes conceituais possam determinar fatos empricos , assim

 tambm , correspondentemente , rejeitamos a idia de que a informao

 emprica possa resolver questes conceituais .

 Quanto ao difundido menosprezo pelas tentativas de resolver problemas

 filosficos por meio do recurso ao " que ( geralmente ) diramos " ,

 faramos o seguinte comentrio .
 No raro acontece que aqueles mesmos

 que ostentam tal menosprezo fazem aquilo que programaticamente

 menosprezam , pois nos parece , no mnimo , defensvel que muitas das

 questes filosficas centrais venham sendo , na realidade , e apesar dos

 protestos em contrrio , discutidas recorrendo-se ( embora

 freqentemente de maneira inepta ) ao " que ns ( geralmente )

 diramos ...
 " .
 Que as questes principais da filosofia contempornea da

 mente sejam essencialmente sobre a linguagem ( no sentido de que nascem

 das confuses sobre os significados das palavras comuns e lutam contra

 eles )  uma posio que , insistimos , ainda pode ser razoavelmente

 proposta e defendida .
 Argumentaremos aqui que a maior parte , se no

 todas as aporias , controvrsias e desafios da filosofia da mente ,

 neste final de sculo XX , consiste numa atitude coletivamente

 confiante , embora confusa , em relao a termos lingsticos comuns

 como mente , conscincia , pensamento , crena , " inteno " etc. , e

 que os problemas que so colocados tm caracteristicamente a forma que

 pergunta o que deveramos dizer se colocados diante de certos fatos ,

 como descrito .

 Por exemplo , num ponto central desta discusso , vamos tratar do debate

 sobre a questo de se uma mquina pode pensar ou entender , sendo a

 principal caracterstica desse debate o fato de nos pedirem para

 examinar o output de dispositivos robticos imensamente sofisticados ,

 output este que pode enganar-nos , para que digamos que foi produzido

 por um ser humano .
 0 teste que pretende estabelecer se as pessoas

 podem distinguir entre amostras produzidas por pessoas e amostras

 produzidas por sistemas computacionais sofisticados  concebido para

 servir de teste - um " teste de Turing " ( Turing , 1950 ) ^ 1 - para decidir

 a questo de se uma mquina pode ter as mesmas capacidades mentais que

 os seres humanos : se ela pode pensar , entender , ser consciente etc .

 Discutiremos minuciosamente o teste de Turing mais adiante , mas seus

 mritos e demritos intrnsecos so menos importantes aqui do que seu

 papel em dar a impresso de que tenha substitudo uma " questo

 conceitual " por uma questo emprica .
 Se procurarmos dizer , com base

 na " linguagem ordinria " , que uma mquina no pode pensar , ento

 pareceremos estar tentando contrariar o que dissemos ser uma

 pressuposio bsica , ou seja , que essas consideraes no podem

 responder a uma questo emprica .
 Afinal , o teste de Turing no fora

 proposto justamente como um meio de transformar o problema do

 " pensamento / inteligncia da mquina " num problema emprico ?
 Turing

 procurou apresentar uma questo precisa , quantificvel e respondvel ,

 uma questo de tipo especificamente emprico .
 Seu teste visava a

 determinar com que freqncia as pessoas seriam incapazes de

 distinguir entre amostras de output de seres humanos e amostras de

 output de computadores .
 Se os resultados do teste mostrarem que a

 freqncia com que os sujeitos do teste podem distinguir entre o

 output humano e o output da mquina so estatisticamente

 insignificantes , o fato de eles no poderem distinguir entre esses

 outputs significaria ( afirma-se ) que  correto dizer que no h uma

 diferena ( essencial ) entre um ser humano " pensante " e uma tal pea

 sofisticada de robtica , e tambm , portanto , que  correto dizer que a

 segunda  to capaz de " pensar " quanto o primeiro ( contanto que os

 outputs sejam do tipo que , quando produzido por seres humanos ,

 dir-se-ia implicar " pensamento " ) .

 0 ponto essencial aqui , insistimos , no  se podemos obter o tipo de

 resultado que Turing desejava obter com seu teste , mas antes o que

 deveramos dizer se confrontados com resultados que mostrassem que as

 pessoas submetidas ao teste no conseguiam distinguir entre os outputs

 dos humanos e os das mquinas .
 No precisamos , realmente , estar de

 posse de tais resultados para determinarmos o que deveramos dizer se

 eles devessem realizar-se. ( Note-se que estamos agora sublinhando

 recorrente e necessariamente o papel de um recurso ao uso lingstico

 nesta discusso. ) 0 teste de Turing  uma cortina de fumaa que faz

 que parea que o que est em questo seja um assunto essencialmente

 emprico : poderamos construir realmente uma mquina que passasse no

 teste ?
 No entanto , a questo real nada tem a ver com a questo de se

 as dificuldades prticas para se montar tal mquina so ou no

 insuperveis .
 Pelo contrrio , a questo fundamental ( com a qual a

 discusso tem incio ) continua sendo : dado que pudesse ser construda

 uma mquina que passasse pelo teste de Turing , deveramos ( ento )

 dizer que ela poderia pensar , entender , ser consciente etc .?
 A questo

 de se se pode ou no dizer que uma mquina que simula o comportamento

 de seres humanos - a ponto de seu output ser indistingvel do

 comportamento de seres humanos - pensa no  , em si mesma , uma questo

 para um engenheiro ou para um cientista computacional .
 Tampouco  uma

 questo emprica a ser resolvida por uma investigao emprica ,

 cientfica .
 E uma questo conceitual .
 Se , na realidade , algum pode ou

 no construir uma mquina que passe no teste  , sem dvida , uma

 questo sobre a qual esses cientistas podem ter certa autoridade , mas

 a questo sobre o que teriam eles realizado ao construrem uma mquina

 que pudesse passar no teste , sobre o que teriam testado com o teste ,

 no  uma questo sobre a qual estes ou quaisquer outros cientistas

 tenham uma autoridade particular .
 Sublinhamos aqui que o prprio teste

 de Turing invoca o julgamento dos usurios da linguagem ordinria ,

 pois so eles que so convidados a dizer se h ou no uma diferena

 entre o output do humano e o da mquina .
 Assim , a questo de se o

 teste de Turing tem alguma relevncia para a determinao de se se

 deveria ou no deveria dizer que uma mquina pode pensar no tem

 absolutamente nada a ver com o progresso da engenharia ( robtica ) ou

 com qualquer outro intento emprico e natural-cientfico .
 Assim ,

 discutir a pretenso de que tal teste pudesse mostrar que uma mquina

 possa pensar de modo algum impede ou limita o progresso da cincia ou

 da engenharia .
 A questo de se deveramos ou no dizer naturalmente

 ( comumente ) que uma mquina que passe no teste de Turing pode pensar ,

 entender etc.  uma questo que pode ser respondida por aqueles de ns

 que f alam a linguagem ordinria de que as palavras " pensar " e

 " entender " so tomadas .
 Ou seja , deveramos ns , em qualquer sentido

 ordinrio dessas palavras , dizer que o que est envolvido em permitir

 que a mquina passe no teste de Turing deva ser chamado de pensamento

 ou de entendimento ( pelo menos da sua parte ) ?

 Dar uma resposta a essa questo no requer que apresentemos uma

 " teoria da mente " que explique como se poderia dizer que tanto os

 seres humanos quanto as mquinas tenham mentes , uma teoria , assim , que

 supostamente estabelea como  possvel que as mquinas tenham

 capacidades " mentais " de humanos ou assumam estados que so chamados

 " estados mentais " .
 Era este , evidentemente , o papel da " teoria

 funcional da mente " como inicialmente proposta por Hilary Putnam

 ( 1960 , 1965 ) , e da qual recentemente se retratou ( 1981 ) .
 Na poca em

 que Putnam retirou seu assentimento a essa teoria , ela se tornara a

 ortodoxia na filosofia da mente .
 A teoria funcional sustentava que os

 mecanismos da mente eram definveis em termos de suas inter-relaes

 formais e funcionais , por um lado , e de sua posio mediadora entre

 inputs ambientais e comportamentos reais , e postulava uma distino

 entre tais relaes e as formas materiais em que podiam ser

 realizadas , na mesma linha que a distino feita na cincia

 computacional entre software e hardware .
 Assim , no havia

 aparentemente nada que exigisse supor que s se encontrariam " mentes "

 em associao com estruturas biolgicas - para no dizer s com essas

 estruturas biolgicas caractersticas do organismo humano - e ,

 portanto , podia-se considerar que essas inter-relaes funcionais

 pudessem ser realizadas em construes eletromecnicas ; isto  , na

 medida em que as operaes das mquinas ( computadores ) so formalmente

 paralelas s operaes da mente humana , esse fato confere  mquina

 caractersticas mentais .
 De nosso ponto de vista , em contrapartida , o

 que se requer no  uma tal " teoria da mente " , mas sim uma descrio

 lcida dos fatos relevantes que compem a situao visada pelo teste

 de Turing .

 0 muito discutido caso do " Quarto Chins " pode dar-nos uma til

 oportunidade de esclarecimento .
 0 Quarto Chins  um exemplo

 imaginrio , criado por John Searle para combater o que ele chama de " o

 programa forte da inteligncia artificial " ( Searle , 1980 ) .
 0

 argumento , como formulado por Searle ,  que um computador pode ser

 capaz de manipular smbolos de acordo com procedimentos sintticos

 ( isto  , que suas operaes podem possuir uma semelhana formal com as

 da mente humana como retratada pela teoria funcionalista ) , mas suas

 operaes no podem igualar as da mente humana , pois esta ltima no

 procede apenas sintaticamente , dado que tambm possui uma semntica .

 Essa capacidade de operar semanticamente est , para Searle ,

 necessariamente ligada a um aparelho biolgico humano , contra as

 posies funcionalistas .
 0 seu Quarto Chins  justamente uma

 implementao ( por Gedankenexperiment ) do teste de Turing .
 Ele

 considera um arranjo que , ex hypothesi , passa no teste de Turing .

 Trata-se de um arranjo anlogo ao do computador , embora na realidade

 envolva seres humanos .

 0 Quarto Chins est equipado com uma variedade de caixas contendo

 cartas em que esto escritos caracteres da lngua chinesa .
 0 quarto

 tambm contm manuais que instruem um operador individual que est em

 seu interior sobre como responder quando pedaos de papel com

 instrues em chins lhe so passados de fora do quarto .
 Essas

 instrues dizem ao indivduo como avaliar a seqncia de caracteres

 que lhe  passada , e como responder a elas , indicando quais caixas

 usar e como juntar as cartas com smbolos numa seqncia que  , ento ,

 devolvida atravs da porta para o exterior do quarto .
 Obviamente , isso

  uma fantasia , pois a operao seria demasiado complexa para o uso

 prtico , mas o ponto  , evidentemente , que se o falar chins pudesse

 ser codificado a ponto de poder ser expresso nos manuais , o indivduo

 que est no quarto poderia simular intercmbios chineses com as

 pessoas de fora do quarto , intercmbios estes bons o bastante para

 iludi-los , fazendo-os pensar que a pessoa que est dentro do quarto

 sabe chins , Ora ,  verdade que so enormemente rpidas as operaes

 das mquinas com as quais se est fazendo a analogia , mas a velocidade

 de operao da mquina no  fundamentalmente relevante para a sua

 suposta " inteligncia " ou " compreenso " .
 No entanto , este  um exemplo

 imaginrio , e estamos , assim , autorizados a imaginar que o sujeito no

 quarto tambm pode trabalhar muito rapidamente !
 0 ponto essencial

 continua sendo como , com esses procedimentos , o Quarto Chins

 funciona , e no quo rpido ele o faz .

 Julgamos que , sob certo aspecto , a situao do Quarto Chins 

 totalmente suprflua , uma vez que ilustra um argumento na realidade

 muito mais simples , que expe as falcias elementares envolvidas em

 tantos raciocnios nessa rea .
 0 argumento  o seguinte : uma pessoa

 que no sabe chins recebe um conjunto de instrues ( em sua linguagem

 materna , por exemplo , ingls ) que lhe permite simular as propriedades

 sintticas , semnticas e seqenciais da conversao chinesa , sem

 realmente adquirir qualquer entendimento do chins .
 0 fato de que o

 " output " do indivduo - seu comportamento lingstico - simula de modo

 que no possa ser distinguido do de algum que fala chins no

 demonstra por si s que o simulador entende chins .
 A aparente

 competncia do simulador decorre inteiramente de seu entendimento do

 ingls , pois so as instrues dadas nessa lngua que facilitam a

 simulao .
 Em suma , o que temos aqui  um sistema para simular chins

 sem entend-lo .
 Assim , deveramos dizer , em qualquer sentido corrente

 da palavra " entender " , que do fato de que possam ser feitas certas

 simulaes impecveis de conversao em chins no se decorre que elas

 devam manifestar um entendimento do chins .
 Pode ser que , ignorando o

 fato de que se estabelecera um arranjo para permitir a bem-sucedida

 simulao de chins sem uma real compreenso dele , pudssemos supor

 que o comportamento de algum que falasse chins no pudesse ser

 simulado , que falar chins s pudesse ser feito por algum que

 entendesse chins , mas nesse caso concluiramos erradamente que o

 comportamento tem de manifestar compreenso .
 Todavia , e por definio ,

 o que temos aqui  um caso de algum capaz de simular de modo

 competente uma conversa em chins sem entender chins .

 Os resultados matemticos do prprio Turing que levaram ao

 desenvolvimento dos modernos computadores e que o conduziram s suas

 ( desastrosas ) confuses sobre o maquinismo e a inteligncia

 computacional envolveram algo comparvel ao que acabamos de descrever .

 Turing concebeu um mtodo de decompor clculos em passos to

 notavelmente simplificados que pudessem ser executados de acordo com

 uma srie de instrues cuja execuo no envolvesse nenhum

 entendimento das operaes matemticas que atravs delas eram

 executadas .
 Estas podiam ser instaladas numa mquina muito primitiva .

 Expresses como " somar dois " podiam ser substitudas por instrues

 como " escreva isso " , " v para a esquerda " , " apague isso " , etc .
 Uma

 pessoa poderia simular a execuo de clculos corretos seguindo essas

 instrues , poderia fazer operaes que so o equivalente funcional de

 somar dois , se pudesse entender expresses como " apague isso " e

 " escreva isso " , mesmo no podendo entender a expresso " some dois " .

 Turing , ento , descobrira uma maneira de permitir que os clculos

 fossem executados sem requerer a compreenso desses clculos , mas

 parece que ele , ao refletir sobre os seus resultados , no conseguiu

 entender que era este o seu carter , supondo , ao invs disso , que , uma

 vez que quando as pessoas fazem contas sua execuo dessas contas

 implica entendimento , se as contas puderem ser feitas em ( ou , como ele

 sem dvida teria preferido , por ) mquinas , essas mquinas devem ser

 capazes de entender !

 Evidentemente - mas evidentemente - se o Quarto Chins ou a computao

 mecnica de qualquer tipo deve funcionar , ento algum entendimento

 deve estar envolvido nisso .
 Tentativas de argumentar que quem entende

 chins  " o quarto " ou " o sistema " so excludas ex hypothesi .
 A

 situao  precisamente designada para no envolver nesse nvel nenhum

 entendimento do chins , pois o operador s tem competncia em ingls e

 os manuais com os quais trabalha so escritos inteiramente em ingls .

 S as cartas nas caixas representam caracteres chineses , mas estes

 so , para o operador , apenas rabiscos - o operador sequer precisa

 saber que aquilo so palavras em chins para operar o sistema , e muito

 menos precisa saber quais palavras so e o que elas significam .
 0

 quarto , o sistema , funciona exclusivamente com base no ingls ; no h

 absolutamente nenhum entendimento do chins .
 H , evidentemente , certo

 entendimento do chins envolvido , mas ele aparece , evidentemente , na

 organizao do quarto e na redao do manual .
 No se poderiam escrever

 as instrues ( em ingls ) para a bem-sucedida simulao do

 comportamento lingstico chins sem um entendimento do chins

 muitssimo detalhado .
 Assim , existe algum entendimento , envolvido , mas

 trata-se do entendimento que  expresso na concepo do manual , por

 exemplo .
 0 fato de tal entendimento estar assim expresso no significa

 que o manual tenha algum entendimento do chins !
 Pode-se dizer que os

 livros contm certo conhecimento de fsica , mas no se pode dizer que

 eles sabem ou entendem aquilo que contm .
 Um manual de fsica em si

 mesmo nada sabe sobre a estrutura da matria ( nem tampouco  ignorante

 no assunto !
 ) .
 Certo entendimento est contido no manual do Quarto

 Chins , mas o entendimento ali contido  o de quem elaborou o manual

 ( assim como o conhecimento no manual de fsica  o dos seus autores e

 de sua disciplina ) e no a do prprio manual .

 H um outro aspecto da situao do Quarto Chins que exige maior

 ateno .
 A idia subjacente ao teste de Turing e ao seu equivalente

 Quarto Chins  que , para " o sistema " ser capaz de fazer o mesmo tipo

 de coisa que um ser humano pode fazer , ele deve ser dotado das mesmas

 capacidades que permitem aos seres humanos fazer o que podem fazer ,

 como , e especialmente , pensamento , compreenso , inteligncia etc .
 " 0

 mesmo que " agora desempenha um papel vital no argumento .
 0 sentido em

 que se pode dizer que o sistema do Quarto Chins faz o mesmo que o

 chins conversador  , portanto , somente uma questo de semelhanas

 formais entre seus respectivos " outputs " .
 Embora o output do quarto

 possa ser paralelo ao output de algum que fale , que entenda chins , o

 output do sistema no pode querer dizer o que o falante chins quis

 dizer quando disse o que disse .
 0 operador do Quarto Chins , ex

 hypothesi , no entende chins , portanto est produzindo output sem

 nenhuma idia do seu significado ; assim , ele no sabe o que o output

 poderia ser usado para dizer e , portanto , no pode querer dizer nada

 atravs dele .
 No queremos , evidentemente , negar que o output da

 mquina automtica falante que apresenta o saldo bancrio de um

 cliente no signifique que ele est , por exemplo , no vermelho , mas

 isso no  o mesmo que dizer que ela tenha o poder de querer dizer o

 que diz , assim como no deveramos dizer que o fato de que um aviso de

 " Proibido fumar " nos diga para no fumar signifique que cartazes de

 papelo tm o poder de dar ordens .

 Nosso argumento poderia ser aqui criticado porque , mais uma vez ,

 centrando-se inteiramente no operador humano do quarto , parece deixar

 passar a possibilidade de que  o sistema como um todo que entende

 chins .
 No entanto , esta particular linha da discusso fornece , na

 realidade , uma refutao do argumento do " sistema como um todo " .
 E

 isso tornando totalmente claro que cabe aos defensores dessa ltima

 tese o nus de explicar como " entender chins " est presente no

 quarto , isto  , no sistema .
 0 entendimento da lngua chinesa est , de

 fato , envolvido na organizao do quarto , de tal maneira que a

 simulao do comportamento lingstico chins possa ser realizada

 inteiramente com base num entendimento do ingls .
 A questo  ,

 portanto : se dissermos que o quarto ( isto  , o sistema ) " entende

 chins " , como  que o entendimento da lngua chinesa  nele

 introduzido ?
 Para algum que no sabe como o sistema foi organizado , a

 simulao do comportamento lingstico chins ( baseada inteiramente no

 domnio do ingls ) por ele produzida pode parecer manifestar uma

 compreenso genuna do chins .
 Parecer entender , porm , no  o mesmo

 que realmente entender .
 Algum que repetisse frases sussurradas em seu

 ouvido por outra pessoa poderia conseguir dar a impresso de que

 entendesse chins , mas isso no provaria necessariamente que o

 entendesse .
 Produzir expresses apropriadas numa lngua , portanto , no

 manifesta invariavelmente compreenso dessa lngua .

 Se no somos culpados da acusao de tentar limitar o progresso da

 cincia , podemos ser absolvidos da acusao de tentar ditar o

 significado das palavras ?
 E no ser esse um outro aspecto de um

 esforo por obstruir a cincia ?
 A expresso " ordinrios " em

 " significados ordinrios " ou na frase " usos ordinrios da linguagem "

 pode confundir , e o fez com freqncia .
  usada em oposio a

 " linguagem tcnica " , o vernculo com o vocabulrio da cincia .
  , sem

 dvida , verdade que atentamos para expresses que podem ser chamadas

 de " ordinrias " nesse sentido , como as mencionadas anteriormente , tais

 como " pensamento " , " crena " , " inteno " , " significado " , " entendimento "

 etc .
 Estas so palavras ordinrias , no sentido de serem simples

 palavras portuguesas , e certamente contrastariam com expresses

 tcnicas das cincias , como " prton " , " bson " , nutron " etc. , e tambm

 com expresses tcnicas de profisses como o direito e a medicina , com

 " mandamus " , " mens rea " , " hipotiroidismo " e que tais .
 A nfase aqui

 dada a palavras ordinrias como crena , conscincia , entendimento etc .

  , no entanto , totalmente acessria ao argumento da " linguagem

 ordinria " - por mais incrvel que essa sugesto possa parecer 

 primeira vista .
 A forte nfase dada a essas palavras ordinrias  uma

 conseqncia contingente do fato de que muitos dos problemas

 filosficos importantes ( isto  , confuses , idias erradas , falcias )

 se centram em palavras que so ordinrias nesse sentido .
 Contudo , isso

 no significa que no possa haver quebra-cabeas e confuses

 filosficas tambm sobre palavras tcnicas , pois , de fato , tais casos

 existem e , enquanto tais , proporcionam oportunidades para tratamento

 em termos de " linguagem ordinria " .
 0 contraste essencial , portanto ,

 no  entre termos " ordinrios " e " tcnicos " , mas sim entre " usos

 ordinrios " e " abusos filosficos " , e este contraste poderia

 aplicar-se a termos tcnicos ( inclusive cientficos ) to facilmente

 quanto a simples palavras vernculas .
 Estamos fazendo esta digresso

 sobre a questo porque , evidentemente , o ponto que defendemos no

 procura inibir a capacidade que os cientistas , engenheiros ou outros

 profissionais tm de criar um vocabulrio tcnico para prover s suas

 necessidades .
 Todavia , ser que podemos permitir que os

 engenheiros / cientistas computacionais chamem as mquinas que passem no

 teste de Turing de " mquinas pensantes " ou digam que elas possuem

 " entendimento " ?
 No estaremos tentando ditar aos cientistas

 computacionais e engenheiros se eles podem dizer que as mquinas

 pensam e entendem ?
 Isso no  somente uma falsidade ,  o exato

 contrrio da verdade .

 Se os engenheiros desejam chamar os computadores de " mquinas

 pensantes " , no temos absolutamente nenhuma objeo contra isso .
 Da

 mesma maneira , podemos no ter nenhuma objeo ( exceto , talvez , por

 suas implicaes sexistas ) ao fato de os proprietrios ingleses de

 carros e de barcos ( cars e ships ) se referirem a suas propriedades no

 feminino , como " ela " ( she ) .
 Nem nos importamos com o fato de os

 proprietrios ingleses de aspiradores de p Eletrolux falarem em usar

 seus aparelhos para " hoover " ( limpar com o aspirador ) ^ 2 o assoalho .

 No supomos que algum que fale de seu carro como " ela " suponha que o

 veiculo possua as caractersticas sexuais femininas ( como tampouco

 supomos que o encaixe de plugs " machos " e " fmeas " caracterize uma

 conexo sexual , e no uma conexo eletrnica ) .
 Os usurios de

 aspiradores de p passaram a usar a expresso " hoover " como uma

 expresso genrica para tais aspiradores , apesar de sua origem de nome

 prprio , e aqueles que falam de seu Eletrolux como de um " hoover " no

 esto cometendo nenhum erro sobre a marca de seu aspirador de p .
 As

 palavras de fato adquirem novos significados , e a expresso " mquinas

 pensantes " poderia tornar-se universalmente usada para os

 computadores ; a questo no  se isso poderia acontecer ( e certamente

 tampouco se seria aceitvel que isso acontecesse ) .
  , antes , qual o

 significado do fato de essa prtica tornar-se to disseminada .

 No temos absolutamente nada contra a cunhagem de usos novos ,

 tcnicos , como dissemos .
 Porm , o problema  que muitos daqueles que

 insistem em falar de " pensamento " e de " entendimento " das mquinas no

 pretendem minimamente estar cunhando usos novos , estritamente

 tcnicos , para esses termos .
 No  , por exemplo , que eles tenham

 decidido chamar um novo tipo de mquina de " mquina que entende " , em

 que a palavra " entende " passa a significar algo diferente do que ns

 comumente queremos dizer com essa palavra .
 Pelo contrrio , a marca

 filosfica deriva inteiramente do fato de eles insistirem que esto

 usando as palavras pensamento e " entendimento " nos mesmos sentidos que

 ns comumente as usamos .
 0 objetivo  , de modo muito caracterstico ,

 provocar , desafiar e enfrentar o resto de ns .
 Seu objetivo 

 contradizer algo em que o resto de ns acreditamos .
 Aquilo em que o

 " resto de ns " acredita  simplesmente o seguinte ; pensar e entender

 so algo distintivo dos seres humanos ou , talvez , tambm de outras

 formas superiores de vida , e essas capacidades nos apartam do

 meramente mecnico .
 Muitos de ns supostamente somos apegados  noo

 de que a mquina no pode pensar porque isso garante o nosso senso de

 superioridade , e esse tipo de arrogncia seria seriamente atingido se

 se pudesse mostrar que a mquina pode , na realidade , pensar , entender ,

 estar consciente etc .
 0 argumento de que uma mquina pode pensar ou

 entender , portanto , ganha interesse justamente porque representa um

 uso das palavras " pensar " e " entender " que  propositadamente o mesmo

 que no uso corrente .
 Caso contrrio , o sentido de desafio , e , por

 conseguinte , o interesse iriam evaporar-se .
 0 impacto de teorias

 baseadas no trabalho com computao por inteligncia artificial se

 deve  sua insistncia na idia de que as mquinas podem , de fato ,

 fazer o que normalmente diramos que elas no podem fazer .
 Se os

 engenheiros pretendessem transformar " entender " e " pensar " em termos

 tcnicos , com significados especiais , tcnicos , diferentes e distintos

 daqueles que geralmente consideramos que eles tm , ento ,

 evidentemente , suas pretenses de ter construdo mquinas que pensam e

 entendem no teriam nenhuma relevncia em relao  nossa propenso

 comum a dizer que , no sentido corrente , mquinas no pensam nem

 entendem .
 Assim , se h algum que est procurando ditar aos outros o

 que devem dizer , so os proponentes do " programa forte da inteligncia

 artificial " ( Searle , 1980 ) .

 No comeo desta discusso , endossamos a afirmao de John Cook ( 1969 )

 de que " a filosofia da linguagem ordinria " raramente foi testada , e

 muito menos testada e considerada falha .
 A atitude fundamental desse

 tipo de filosofia  de que os problemas filosficos podem mais ser

 dissolvidos do que resolvidos , e que no h nada para as teorias dos

 filsofos explicarem .
 Essa tentativa de " dissolver " os problemas

 filosficos por meio da referncia ao uso " ordinrio " das palavras 

 certamente condenada em muitos crculos , hoje em dia ; alega-se que ela

 despoja a filosofia de sua dignidade e de sua grandeza , abandona

 problemas importantes , convida  participao num exerccio tedioso e

 desinteressante , a investigao dos finos matizes do significado das

 palavras .
 Tais respostas so abusivas e depreciativas , mas no so

 relevantes .
 Simplesmente fogem  questo levantada por Wittgenstein e

 Ryle , e assumem que aquilo que consideram ser os problemas filosficos

 pode resistir  aplicao persistente e plena do mtodo a que se

 opem .
 No entanto , as abordagens de Wittgenstein e de Ryle no devem

 ser discutidas in abstracto , mas devem ser testadas , e testadas

 sistematicamente , e no de maneira breve , superficial e negligente .

 Acima de tudo , nada em Wittgenstein e Ryle deveria ser tratado como se

 fosse a adoo de teorias alternativas , outras solues para os

 problemas da filosofia ( como quando se diz que Ryle , e por vezes

 Wittgenstein , adotou uma forma de soluo behaviorista para os

 mistrios cartesianos ) .
 A ateno deve ser dirigida exclusivamente 

 exposio da ( s ) origem ( ns ) da confuso filosfica e  dissoluo do

 problema .

 Quanto ao conjunto dos argumentos tratados neste livro ,  claro que

 muito depende do que se considera que fazemos quando usamos palavras

 como inteno , crena , propsito e assim por diante .
 A questo de se

 tais expresses so usadas da mesma forma como os " termos tericos "

 so empregados no vocabulrio cientfico , e se so usadas de tal

 maneira que as transforme em pretensos equivalentes de termos desse

 vocabulrio cientfico , deve ser decisiva com referncia ao caso do

 " eliminativismo " , por exemplo , mas o problema de como tais palavras

 funcionam em nossa linguagem no  ele prprio objeto de exame atento

 por parte da maioria dos participantes deste debate .
 Pelo contrrio ,

 confia-se em concepes a priori sobre como essas palavras funcionam ,

 no raro bastante dogmaticamente .
 Neste captulo , afirmamos que a

 estipulao de algum mtodo para que se estabelea como essas palavras

 funcionam deveria ser inevitvel na abordagem dessas questes .

 Muitas das questes que temos de enfrentar dizem respeito , portanto , 

 deturpao de abordagens filosficas , mais do que a questes

 substantivas .
 Procuramos estabelecer em nossa discusso exemplar do

 Quarto Chins que :

 1 As declaraes dos filsofos que costumam fazer os mais enrgicos

 protestos de que no tm interesse em ( meras ) questes sobre o

 significado das palavras no devem necessariamente ser levadas ao p

 da letra , pois se mostrou que as afirmaes acerca da perspectiva de

 que uma mquina possa pensar ( etc. ) tm , antes , a ver com o emprego

 das palavras " pensar " e " entender " do que com as complexidades da

 cincia da robtica , e as condies reais dessa ltima so

 completamente irrelevantes para a questo .

 2 Apesar das alegaes de que o trabalho do tipo que Wittgenstein e

 Ryle iniciaram envolvesse pretenses a um conhecimento a priori ,

 tentativas de dizer antecipadamente em relao  investigao emprica

 o que acontecer , o que  possvel , por exemplo , no mundo da robtica ,

 elas se revelaram falsas , pois se mostrou que os argumentos no

 dependem de modo algum das realidades e possibilidades tcnicas da

 cincia da engenharia .
 0 argumento , como afirmamos , contra a

 possibilidade de que uma mquina possa entender uma lngua no envolve

 a menor sugesto de uma restrio s ambies prticas dos

 engenheiros , pois tal argumento admite que os engenheiros tenham

 desenvolvido uma robtica to avanada quanto se possa imaginar e

 pergunta : o que , ento , deveramos dizer sobre o caso ?

 Alm dessas objees contra a " filosofia da linguagem ordinria " , em

 relao , sobretudo ,  sua suposta " banalizao " da natureza da prpria

 filosofia , existe uma outra , e significativa , objeo , que est

 relacionada com algumas diferenas centrais e profundas .
 A acusao 

 de que a " filosofia da linguagem ordinria "  anticientfica , sendo a

 alegada ( embora , como mostramos , realmente no-existente ) oposio 

 robtica supostamente o fruto de uma resistncia reacionria e

 conservadora ao " progresso " , sob a forma do progresso de um ramo da

 cincia .
 Existe uma tendncia claramente historicista de se formularem

 questes classificando as pessoas em " a favor da cincia " ou em

 oposio a ela , e tais tentativas so , a nosso ver , apenas mais um

 exemplo da fanfarronada que acusamos mais acima , com o objetivo de

 intimidar aos outros para que aceitem suposies ou concluses , sem

 examinar seu verdadeiro mrito , apenas com base no fato de estarem

 elas em harmonia com o esprito e as descobertas da cincia .

 No h razo para que algum acredite incondicionalmente nas palavras

 dos filsofos que declaram seu apego  cincia , e especialmente no h

 razo para que se deva considerar que tais declaraes confiram algum

 tipo de autoridade aos seus argumentos .
 Aqueles que insistem que o que

 fazem est em harmonia com a cincia no nos parecem particularmente

 cientficos no esprito com que abordam as coisas .
 Por exemplo , no

 trabalho dos Churchland ( 1979,1984,1986 ) , deparamos com uma comovente ,

 mas perturbadora e estranha certeza acerca das perspectivas futuras

 das neurocincias , acerca do que elas devem mostrar , o que parece em

 contradio com a idia de que estas sejam investigaes empricas e

 abertas quanto ao seu final .
 Certamente no poderamos concordar que

 uma recusa em aceitar que os Churchland representem algum tipo de " voz

 da cincia " ou de que seus argumentos expressem de alguma forma um

 " ponto de vista cientfico " implique algum tipo de oposio  cincia .

 Rejeitar a pseudocincia ( ou , para diz-lo mais delicadamente ,

 especulao sobre o futuro da cincia ) no coloca algum na posio de

 " oposio  cincia " , e nem Wittgenstein nem Ryle , como tampouco ns

 mesmos devemos ser colocados nesse campo .
 Nosso argumento consiste

 justamente em afirmar que estar do lado do " absurdo "  certamente no

 estar " do lado da cincia " , e que , portanto , o bem-sucedido

 prosseguimento de nossos esforos simplesmente no pode limitar as

 perspectivas de desenvolvimento da cincia .

 Numa poca em que algumas das cincias naturais gozam de muito

 prestgio , pode ser proveitoso para as pessoas perfilarem-se com as

 cincias , e certamente parece que apelidar um argumento ou uma

 concluso de " cientfica " seja avanar na causa de sua mais ampla

 aceitao .
 A dvida sobre se todos aqueles que chamam a si mesmos de

 " cientistas " ou que dizem que sua abordagem  " cientfica " merecem a

 mesma aceitao que a j concedida s cincias naturais absolutamente

 nada tem a ver com qualquer tipo de reserva acerca das conquistas

 feitas at aqui por essas cincias .
 A dvida  sobre se se est

 oferecendo em nome da cincia algo que nada tem de autenticamente

 cientfico em seu carter , algo que pode , pelo contrrio , ser um

 produto do estatuto ideolgico que a idia de cincia assumiu

 atualmente .
 Wittgenstein e Ryle opunham-se ambos  promoo ideolgica

 da cincia .

 Na Gr-Bretanha de hoje , temos o azar de estar sujeitos a infinitos

 sermes sobre a importncia das atividades teis e produtivas em nossa

 vida , em oposio s inteis e improdutivas ( entre as quais as

 atividades sociolgicas e filosficas so freqentemente includas ) .
 A

 indstria de manufaturas  a encarnao de tudo o que seja virtuoso .

 Esses sermes tm origem , com muita freqncia , em pessoas que ganham

 a vida como polticos de carreira e que , em atividades anteriores ,

 eram eles prprios panfletistas , jornalistas , advogados e at mesmo

 professores acadmicos .
 Analogamente , assim como devemos distinguir

 entre aqueles que praticam a pesquisa cientfica e aqueles que fazem

 campanha em seu favor , assim tambm devemos distinguir entre aqueles

 que praticam a pesquisa cientfica e aqueles que se autoproclamam

 porta-vozes do " ponto de vista cientfico " .
 Assim como 0 ceticismo

 sobre a questo de se os que falam em favor da indstria

 necessariamente sabem o que  melhor para ela , e assim como a

 resistncia contra o filistesmo daqueles que falam muito sobre o

 valor da manufatura no implica necessariamente uma oposio  prpria

 indstria , assim tambm mesmo a mais resoluta indiferena pelos

 chamados e autoproclamados estilos " cientficos " dentro da filosofia

 no implica necessariamente nenhuma " oposio "  cincia .

 No existe nenhuma razo no mundo pela qual devesse ser permitido aos

 filsofos tirar vantagem das conquistas da cincia .
 Os argumentos que

 elevariam a cincia a um lugar muito preeminente em nossas vidas , mais

 preeminente do que aquele hoje ocupado por ela na realidade , no tm

 eles prprios sua origem dentro das cincias .
 No so argumentos que

 decorram de quaisquer descobertas cientficas especficas ou que

 contribuam para elas , nem tampouco so argumentos que favoream a

 causa do avano cientfico , fazendo crescer o corpo total de seus

 resultados .
 Eles procuram fazer avanar a causa da cincia melhorando

 a sua posio institucional , transplantando 0 chamado " ponto de vista

 cientfico " da prtica da pesquisa cientfica para a organizao de

 outras esferas de nossas vidas , para a conduta de nossos negcios do

 dia-a-dia , transformando-a na base sobre a qual se reformem as

 prprias maneiras como falamos .
 De fato , as exigncias de que

 concordemos com os requisitos da cincia so tais que nos mandam

 antecipar quais sero eles .
 Assim , os " eliminativistas " ( entre os

 quais Richard Rorty , Paul Churchland , Stephen Stich e os

 " conexionistas eliminativos " ) nos aconselham sobre a necessidade de

 nos livrarmos de " expresses intensionais " ^ 3 de nossa linguagem

 corrente ( por exemplo , " eu tenciono ...
 " , " ele acredita que ...
 " , " ele

 espera ...
 " , " ela conta com que ...
 " , " eles desejam que ...
 " e que tais ) ,

 e nos aconselham vivamente essa transformao em vista dos

 " resultados " das neurocincias .
 No entanto , eles no nos mostram que

 as neurocincias tenham desenvolvido um vocabulrio que possa e deva

 substituir aquele que  constitudo por expresses intensionais .
 Pelo

 contrrio , vm-nos com fanfarronadas sobre a necessidade de

 desistirmos dessas expresses porque uma neurocincia desenvolvida com

 sucesso nos mostrar que elas podem ser substitudas .
 Deveramos estar

 ainda mais confusos se fssemos imaginar que essas fatdicas

 implicaes para o nosso vocabulrio " ordinrio " tivessem origem no

 estado real do desenvolvimento das neurocincias , pois isso atribuiria

 a essas cincias um progresso muito maior ( e um " progresso " de um tipo

 muito especfico ) do que o que elas verdadeiramente realizaram .
 0

 argumento " eliminativista " pode ser , e  , adotado na ausncia de

 " descobertas " genuinamente relevantes nas neurocincias , porque ,

 evidentemente , ele no depende de modo algum do carter especfico de

 nenhuma dessas descobertas .
 Isso porque , para defender uma posio

 eliminativista , no importa minimamente o que as neurocincias

 descobriram ou mesmo descobriro , uma vez que , se assim fosse , a

 posio eliminativista no poderia ser colocada antes da determinao

 dessas descobertas !
 A verdade  que falar sobre as neurocincias

 ( mesmo um discurso especificamente elaborado , sinttico e especulativo

 sobre os seus contedos )  fugir do assunto , uma distrao que faz que

 parea que o argumento de algum modo se baseie em ou dependa dos

 resultados da pesquisa emprica , cientfica , quando na realidade ele

 se baseia na aceitao prvia de uma posio filosfica , em termos da

 qual os resultados e as perspectivas da cincia devem ser

 interpretados .
 Dizemos isso mesmo que possa acontecer tambm que

 alguns neurocientistas em atividade olhem com bons olhos para esses

 argumentos desses intrpretes filosficos .
 0 fato de que tais

 interpretaes no constituam uma parte necessria da conduta real da

 pesquisa neurocientfica fica claro a partir do fato de que no  um

 pr-requisito para se fazer um trabalho bem-sucedido nesse campo que

 os praticantes adotem qualquer interpretao filosfica de seus

 resultados ou objetivos , e do fato de que muitos neurocientistas

 desprezem todas essas especulaes ( metafsicas ) .
 Isso tambm fica

 claro pelo fato de que vrias e diferentes interpretaes filosficas

 podem mostrar-se coerentes com a mesma gama de descobertas de pesquisa

 ( inquestionadas ) .
 0 que  notvel a esse respeito , no entanto ,  a

 observao de que a maior parte dessas interpretaes filosficas

 postule resultados conjecturais dos atuais trabalhos de pesquisa .

 A posio filosfica cuja aceitao prvia  indispensvel para a

 promoo da viso " eliminativista " relaciona-se com a linguagem , e

 inclui pr-concepes acerca dos papis respectivos dos vocabulrios

 cientfico e " ordinrio " .
 Afinal , s  possvel alegar que o

 vocabulrio das neurocincias pode substituir o nosso vocabulrio

 " intensional " se o primeiro preencher adequadamente os objetivos a que

 visa esse ltimo .
 Ironicamente , essas suposies sobre os objetivos

 dos respectivos vocabulrios  tipicamente a priori .

 0 que nos costumam oferecer em nome da cincia  tudo , menos o que a

 cincia mesma tem a oferecer .
 Oferecem-nos um tipo particular de

 filosofia , comumente chamado de " naturalismo " , e que trabalha com a

 suposio no de que a cincia se tenha livrado da metafsica ou a

 tenha substitudo , mas sim de que ela tenha fornecido a resposta a uma

 das questes centrais da prpria metafsica , qual seja : " Que existe no

 mundo ?
 " .
 A metafsica pergunta sobre o que , em ltima instncia , h , e

 a suposio de que a cincia deva ser elevada a um lugar especial em

 nossas vidas tem sua razo de ser no fato de fornecer uma resposta a

 essa questo , dizer-nos o que h em ltima instncia .
 Certamente , W .

 V. Quine , um dos mais influentes dos naturalistas modernos , afirma que

 o objetivo da filosofia ( como ele a entende )  lanar uma luz sobre a

 verdadeira e ltima estrutura da " realidade " ( 1960 , 1961 , 1981 ) , e

 situa a cincia ( em especial a fsica ) no centro de sua filosofia ,

 pelo fato de ela fornecer ( ou facilitar a produo de ) a melhor

 explicao disponvel da verdadeira e ltima estrutura da realidade .

 Uma vez que as cincias , nessa explicao , nos dizem o que existe em

 ltima instncia , deve parecer que seus resultados devam importar em

 todos os momentos da vida , porque em cada um deles procederemos com

 base em suposies sobre que tipo de coisa existe , e na medida em que

 as cincias nos mostrarem at que ponto tais suposies so vlidas

 ( ou no ) , elas nos levaro a rever , na mesma medida , os termos em que

 nossas outras atividades so conduzidas .

 0 programa dos " eliminativistas " ( de que , evidentemente , os prprios

 naturalistas discordam ) decorre no dos resultados das prprias

 neurocincias , mas sim da suposio de que um dos papis primordiais

 da cincia seja julgar a questo do que , em ltima instncia , existe .

 " Cincia "  uma locuo parcialmente enganosa sob esse aspecto , porque

 a posio real dos filsofos naturalistas  que as cincias fsicas 

 que podem julgar o que existe em ltima instncia .
 0 papel das

 neurocincias depende , aqui , da suposio de que a sua identificao

 dos fenmenos autnticos possa ( finalmente ) ser traduzida nos termos

 da fsica .
 Com relao  explicao do comportamento humano , assim , 

 antes de tudo suposto que a sua explicao deva ser causal e , segundo ,

 que os determinantes causais sero tais que possam ser formulados ( em

 ltima instncia ) nos termos da fsica .
 Os fenmenos das neurocincias

 podem indiscutivelmente ser formulados em termos fsicos ( aceitemo-lo )

 e , sob esse aspecto - ou assim procede a lgica do argumento - eles

 no podem ajustar-se aos termos " intensionais " que usamos para

 explicar nossas condutas na vida do dia-a-dia .
 Torna-se , no mnimo ,

 controversa a questo de se coisas tais como intenes , motivos ,

 desejos , pensamentos etc. existem realmente , no sentido de em ltima

 instncia .

 Os principais opositores aos " eliminativistas " dentro da atual

 filosofia naturalista da mente so aqueles que negam que as expresses

 intensionais possam ser eliminadas de nosso vocabulrio , mas que

 discutem isso , obviamente , em termos naturalistas , compartilhados com

 os eliminativistas .
 Alegam eles que o progresso das neurocincias

 mostrar que os fenmenos identificados num vocabulrio intensional

 so fenmenos reais , exatamente no sentido compartilhado com os

 eliminativistas , ou seja , no sentido de que eles possam ( finalmente )

 ser descritos no vocabulrio da fsica .
 Em outras palavras , os

 antieliminativistas " naturalistas " sustentam que se mostrar que eles

 so estados do sistema nervoso , inclusive do crebro .
 Assim , os

 eliminativistas podem ir adiante na defesa do seu ponto de vista

 argumentando que o progresso da neurocincia pode mostrar o contrrio ,

 que no h estados do sistema nervoso central ou do crebro que

 correspondam ou sejam idnticos a , por exemplo , ter uma inteno ,

 acreditar em algo , desejar algo , esperar algo e que tais .
 Essa

 possibilidade no pode ser excluda , e , assim , os eliminativistas tm

 uma resposta  idia de que os estados intensionais devam ter uma base

 fsica. ( No nos esqueamos de que o " funcionalismo " de Putnam , por

 exemplo , se opunha a qualquer reduo , direta ou " suave " , do fenmeno

 intensional ao biolgico - logo fsico. )

 Note-se que as suposies comeam a se acumular .
 Note-se tambm que

 elas prprias no so suposies que se originem na cincia em geral

 ou nas neurocincias em particular .
 So , pelo contrrio , suposies

 que pertencem a argumentos sobre o papel das cincias em fornecer

 respostas  questo metafsica sobre " que existe ( realmente , em ltima

 instncia ) ?
 " e sobre o papel especial da fsica dentro dessas cincias

 na resposta a essa questo , bem como na conexo com suposies sobre o

 papel cannico do tipo de explicao causal encontrado nessa cincia

 para se definir o que possa ser uma " explicao " .
 Nesse sentido ,

 portanto , poderia parecer que se segue que , se a fsica fornece

 solues  questo sobre o que existe em ltima instncia no mundo , e

 a fsica explica apresentando causas , ento , uma vez que s existem

 fenmenos fsicos , as nicas coisas que podem ser citadas como causas

 devem ser os fenmenos fsicos .
 Portanto , a cincia da psicologia , que

 se empenha em " explicar o comportamento humano " , deve ela prpria agir

 de acordo com esse paradigma , deve dar explicaes causais que

 expliquem citando apenas causas fsicas ( isto  , estados / processos

 fsicos do organismo que se comporta ) .

 Falar acerca de determinaes a priori do que deve , empiricamente , ser

 verdade !
 Falar sobre tentar predeterminar que forma uma cincia deve

 assumir e o que a cincia pode descobrir !
 0 fato  que , em relao 

 suposta cincia da psicologia , esse tipo de naturalismo fornece uma

 determinao de condio para o carter dessa cincia .
 Assim ,

 encontramos nos argumentos de Quine , Fodor , Dennet , Stich , Block , dos

 Churchland e de muitos outros , apesar de suas diferenas internas , a

 idia de que a psicologia " cientfica " deva ser definida em termos que

 permitam a acomodao dessas contestveis pr-concepes naturalistas .

 No caso de Fodor , o objeto de tal psicologia deve ser restringido de

 tal forma que s mesmo sendo implementado atravs de um " solipsismo

 metodolgico " ( 1980 ) possa caber dentro dos parmetros a priori que

 Fodor , com base em suposies naturalistas , estabeleceu para ele .

 A relutncia em aceitar que a cincia fornea a consumao dos

 objetivos da metafsica e que o vocabulrio da fsica fornea ,

 portanto , afirmaes definitivas sobre " o que existe em ltima

 instncia " no se reflete nem favorvel nem desfavoravelmente sobre as

 cincias mesmas , e , assim , uma crtica de tal explicao da cincia

 no  nenhuma crtica da prpria cincia .
 Assim como uma crtica

 daqueles que se enrolam na bandeira  uma crtica contra os que fazem

 isso e no contra a bandeira em que eles se enrolam , assim tambm a

 oposio queles que se autoproclamam os legtimos defensores do ponto

 de vista cientfico no precisa valer-se de reservas que diminuam as

 conquistas das cincias cujo prestgio eles procuram tomar para si .
 0

 ponto de vista naturalista  um ponto de vista filosfico , e o fato de

 ele se autoproclamar o possuidor de uma alta considerao pela cincia

 ( e mesmo da mais alta ) em nada garante que possua um entendimento

 correto do que tem em to alta estima , que os seus termos sejam por

 isso mesmo os mais apropriados para caracterizar aquilo que 

 ostensivamente venerado .
 A idia de que a cincia exija e dependa de

 justificao em termos de doutrinas filosficas e de que ela precise

 de orientao e de interpretao em termos de um conjunto de

 pressupostos metafsicos no nos parece fornecer uma viso to

 absolutamente lisonjeira da cincia .

 Da perspectiva do naturalismo , faz-se que parea que o problema

 essencial seja o da relao entre ordens diferentes de fenmenos ; que

 o problema fundamental seja identificar os fenmenos que existem " em

 ltima instncia " , isto  , que sejam fenmenos autenticamente fsicos ,

 e descrever as maneiras como eles interagem causalmente entre si .
 A

 prestidigitao do naturalismo consiste , ento , em fazer parecer que

 esse problema nasa dos resultados da fsica .
 Todavia , se deixarmos ,

 por um instante , de lado os termos do naturalismo , fica claro que o

 problema no tem realmente origem nos resultados da cincia , mas sim ,

 pelo contrrio , origina-se na articulao de dois vocabulrios , o da

 fsica e o da linguagem " ordinria " que usamos , e os problemas de

 corolrio so gerados inteiramente pela suposio de que o vocabulrio

 da fsica tenha o papel principal .
 Os naturalistas no costumam ser

 particularmente atentos s suas suposies .
 Isso talvez se deva ao

 fato de considerarem auto-evidentes as suas suposies .
 Ningum nunca

 encontrar os naturalistas pensando se suas suposies so

 convincentes , se pode haver alternativas para elas e o que se poderia

 dizer dessas alternativas , ou se o nico caminho vivel  adotar essas

 suposies .
 Ser que realmente precisamos colocar o vocabulrio da

 fsica em primeiro lugar , trat-lo como se fosse um vocabulrio

 vale-tudo ?
 Ou ser que podemos , como observava Ryle , e como

 discutiremos com maior mincia mais adiante , trat-lo de preferncia

 como um vocabulrio especializado , que foi desenvolvido para servir a

 certos propsitos distintos , para caracterizar as coisas sob certos

 aspectos e deixando ( em princpio ) de lado muitas de suas

 caractersticas ?

 0 fsico fala de um " corpo em queda " e especifica que o seu ndice de

 acelerao no vcuo ser tal .
 A especificao do fsico no menciona a

 natureza do corpo em queda , nem a maneira como ele inicia a sua

 descida , pois isto  , do ponto de vista da descrio da acelerao ,

 irrelevante .
 No importa , do ponto de vista da fsica , que aqui est

 interessada puramente no movimento , se a queda  de um ser humano ou

 no , nem se , caso o corpo seja de um ser humano , se est caindo porque

 tropeou , pulou ou foi empurrado / jogado .
 No que , do ponto de vista da

 fsica , no haja diferena entre um acidente , um suicdio ou um

 homicdio , mas sim , pelo contrrio , que o fato de haver ou no tal

 diferena  irrelevante para a determinao do ndice de queda .
 A

 diferena entre um acidente , um suicdio e um homicdio no deve ser

 estabelecida no vocabulrio da fsica , mas sim no vocabulrio do

 discurso jurdico .
 Os diversos vocabulrios especializados

 caracterizam as coisas sob diferentes aspectos e no rivalizam uns com

 os outros nem competem pela prioridade , pois servem a interesses

 diferentes e funcionam , sob importantes aspectos , desconsiderando-se

 uns aos outros .
 Assim como uma afirmao sobre o tamanho de um livro

 ou sobre a composio do seu papel e dos seus caracteres  uma

 afirmao sobre algo completamente diferente de uma afirmao sobre o

 que ele diz , sobre que conhecimento ele comunica e assim por diante ,

 assim tambm uma afirmao sobre um corpo em queda dentro e para os

 propsitos da cincia fsica  indiferente a ( embora nem por isso as

 negue ) distines entre um acidente , um suicdio e um homicdio .
 Por

 conseguinte , ento , no h necessidade de supor que , porque a fsica

 ( e a fisiologia ) no mencionam " expresses intensionais " , elas neguem

 a existncia de estados de coisa intensionalmente exprimveis .
 Que uma

 diferena no importe para a fsica no significa que no haja

 diferena , e que uma distino seja irrelevante para a fsica no

 significa que ela no possa ser legitimamente estabelecida para outros

 propsitos .

 0 tratamento da fsica como um vocabulrio especializado e no

 primordial no acarreta nenhuma restrio  sua generalidade , nem

 tampouco nenhuma limitao  sua ( ampla ) utilidade .
 Ao insistir ,

 porm , em sua primazia , o tratamento naturalista do discurso da fsica

 s pode chegar a uma nica concluso : se a fsica no a assinalar , no

 h nenhuma distino entre fenmenos " fisicamente " e " intensionalmente

 exprimveis " , e da se estabelece uma ou outra das duas concluses

 disponveis ( ao que parece de modo exaustivo ) mas opostas .
 A primeira

 diz que h apenas fenmenos fsicos ( porque a fsica fala apenas

 deles , mas no menciona e , portanto , deve negar a existncia de

 fenmenos intensionalmente definveis ) , e a segunda diz que no h

 diferena entre fenmenos fisicamente e intensionalmente definveis ,

 e , assim , os fenmenos intensionalmente definveis devem realmente ser

 fenmenos fsicos .
 Parece no se reconhecer a possibilidade

 alternativa : que os fenmenos intensionais sejam irrelevantes para a

 fsica , e que embora possa haver uma diferena entre um evento ou um

 estado de fato que seja intensional e um que no o seja , no se trata

 de uma diferena que a fsica precise assinalar ou registrar de alguma

 forma e , alm disso , no se trata de uma distino que deva ser feita

 em termos fsicos .

 A srie de suposies naturalistas tambm provoca o problema da

 " psicologia popular " , que implica uma viso da natureza dos predicados

 intensionais como a inteno , a crena , o pensamento etc .
 0 problema 

 levantado na tentativa de expor o carter que deve ter uma psicologia

 realmente cientfica .
 Se uma psicologia cientifica deve ser criada ,

 ela deve , ao que parece , ter o seu prprio vocabulrio cientfico .

 Surge , ento , a questo de saber se alguma das palavras usadas em

 nosso vocabulrio " ordinrio " possa ser dirigida para a construo

 desse vocabulrio .
 0 objetivo primrio de um tal vocabulrio 

 fornecer os termos que possam ser usados na explicao cientfica do

 comportamento das pessoas .
 Para os naturalistas ,  claro que termos

 como " inteno " e " crena " so termos que usamos comumente para

 explicar o comportamento das pessoas , e que esto entre aqueles que

 deveriam ser considerados candidatos  incluso em qualquer teoria

 cientfica de tal comportamento .
 Surge , ento , a questo : podem eles

 ser aceitos para incluso numa teoria propriamente cientfica ?
 Podem

 tais termos ser usados em explicaes cientficas ?
 E diz-se agora que

 essas questes dependem exclusivamente de se tais expresses ,

 predicados , termos etc. podem ou no satisfazer os requisitos bsicos

 estabelecidos pela concepo filosfica naturalista , ou seja , se eles

 identificam estados , processos ou eventos fsicos do ( ou no ) organismo

 humano que tem um comportamento .
  sobre essa questo que os

 naturalistas discordam .
 Fodor , por exemplo , em sua obra inicial ,

 insiste em que a " psicologia popular " ( ou seja , o tipo de explicao

 do comportamento das pessoas que emprega predicados intensionais

 ordinrios ) ser justificada pela psicologia cientfica .
 Argumenta ele

 que , usando noes como " inteno " , podemos prever e realmente

 prevemos com sucesso o comportamento dos outros - as pessoas costumam

 fazer o que dizem ter a inteno de fazer - e , sem dvida , isso

 acontece porque o conceito de " inteno " identifica estados reais da

 mente ( ou antes , do crebro ) .
 Stich ( 1983 ) , em contrapartida , insiste

 em que no h razo para se inclurem tais noes em nenhuma

 psicologia cientfica , pois no h nenhum estado fsico etc. que

 corresponda aos conceitos ou predicados da " psicologia popular ' .
 Uma

 vez que o vocabulrio da cincia fsica serve , segundo os

 naturalistas , para definir " o que realmente existe " , se o vocabulrio

 de uma psicologia cientfica provar que no existe uso para expresses

 como " ter a inteno " ou " acreditar " ( " inteno " ou " crena " ) ,

 principalmente porque os naturalistas no conseguem identificar nenhum

 estado ou processo fsico que corresponda a essas expresses , ento

 isso  o mesmo que dizer que no existem coisas tais como crenas e

 intenes .

 Tais afirmaes tm a vantagem de soarem de fato surpreendentes e de ,

 assim , chamarem a ateno para o trabalho em que so propostas ,

 garantindo muita discusso sobre ele .
 0 esprito de pater les

 bourgeois est muito disseminado na cultura contempornea , e isso

 talvez ajude a animar os filsofos naturalistas contemporneos que

 adotam posies eliminativistas .
 Eles parecem virar nossos

 preconceitos existentes de cabea para baixo : afinal , poderia haver um

 assalto mais brutal s nossas pr-concepes " ordinrias " do que

 afirmar que realmente no temos nem intenes nem crenas ?
 0 que

 poderia ser mais radical do que nos dizer que nunca tivemos uma

 inteno , no temos crenas , no possumos desejos etc .?
 Assim como a

 tese de que os computadores podem entender , a tese de que cabe 

 psicologia cientfica decidir se as crenas e as intenes existem

 realmente  proposta como que em desafio direto s nossas crenas

 " ordinrias " e " pr-cientficas " ( ou assim seria , se pudssemos ter

 alguma crena !
 ) .
 Contudo , talvez esses desafios no sejam exatamente o

 que s vezes imaginamos que sejam .
 Como muitos argumentos cticos ,

 eles no desafiam diretamente as nossas maneiras habituais de pensar .

 0 argumento naturalista trata da questo de saber se existem ou no

 coisas como " intenes " e " crenas " , no sentido de existirem estados

 ou processos fsicos que correspondam a essas noes .
 Se o que

 quisermos dizer ao atribuirmos uma inteno ou uma crena for que a

 pessoa a quem  feita essa atribuio est em certo estado fsico , s

 ento a nossa afirmao de que a pessoa tinha a inteno ou a crena

 seria refutada ou confirmada pelas demonstraes dessa planejada

 psicologia cientfica .
 Do ponto de vista do naturalista , e s desse

 ponto de vista , as expresses que compem a psicologia popular ( tal

 como ele a descreve ) envolvem essencialmente hipteses sobre o

 crebro .
 Elas tm de ser assim , pois , para o naturalismo , nada mais h

 para discutir a esse respeito alm de , por assim dizer , estados da

 matria ou processos materiais .
 Se uma palavra como " crena " tiver de

 ser usada para falar sobre alguma coisa , ela deve , segundo as

 premissas naturalistas , ser usada para falar sobre estados ou

 processos do organismo ou ento para no falar de absolutamente nada

 " real " .
 Mais uma vez , s podemos registrar o carter estritamente

 apriorstico de uma tal insistncia , uma vez que ela no deriva nem de

 uma inspeo rigorosa das maneiras reais como falamos nem das

 explicaes que realmente nos damos uns aos outros quando usamos essas

 palavras .
 0 " confronto " com nossas maneiras ordinrias de falar  , no

 entanto , um pouco mais complicado do que parece , e talvez no seja de

 modo nenhum um confronto genuno .
 0 conflito no  da forma : " Voc diz

 que existem crenas , mas ns negamos que elas existam " .
 0 confronto

 real  , antes , o seguinte : se voc considera que as crenas so

 estados do crebro , ns negamos que elas existam .
 Nesses termos , no

 h confronto entre a nossa posio e a do naturalista , pois podemos

 concordar plenamente com essa afirmao .
 No consideramos que crenas ,

 intenes e pensamentos sejam estados do crebro ( eventos , processos

 etc. ) , embora seja crucial notar que no dizemos isso como uma

 declarao de uma posio filosfica que nos seja prpria .
 Dizemos

 isso como falantes comuns da lngua .
 Quando falamos da inteno que

 algum tem de pegar o trem das quatro e quinze ou de sua crena de que

 esteja atrasado para um encontro , nem por isso estamos fazendo alguma

 hiptese sobre um possvel estado cerebral dele .

 A insistncia na idia de que fazemos hipteses sobre fenmenos

 neurais quando atribumos , por exemplo , uma inteno no pode ser

 defendida pelo naturalista com base num exame do que estamos fazendo

 quando atribumos realmente uma inteno .
 A insistncia  , julgamos

 ns , o resultado de uma obrigao imposta pelo que  possvel nos

 termos das pr-concepes dos prprios naturalistas : seja o que for

 que possa parecer que estejamos fazendo , seja o que for que possamos

 pensar ou acreditar estar fazendo quando atribumos uma inteno ou

 uma crena , ns devemos , segundo o naturalista , estar fazendo

 hipteses sobre estados da matria , pois no h mais nada que possa

 bastar para dar significado a tais termos e devemos , portanto , estar

 fazendo hipteses , correta ou incorretamente , sobre eles .
 0 confronto

 com o que costumamos pensar ou acreditar na realidade no acontece de

 modo algum .
 Tal confronto no  com nada que ns , como pessoas que

 usam com competncia palavras como " tencionar " ou " acreditar " ,

 aceitemos como o nosso propsito ao usarmos tais termos .
 Pelo

 contrrio , eles nos so artificialmente impingidos em virtude da

 adeso a uma filosofia  qual ns , em nossa capacidade de falantes

 comuns , no precisamos dar nosso assentimento .
 0 que realmente fazemos

 quando atribumos uma inteno ou uma crena ?
 Voltaremos , no captulo

 3 , ao tema da " crena " : por enquanto , focalizemos alguns exemplos de

 atribuio de inteno .

 Ns , falantes de uma linguagem ordinria , fazemos uma distino entre

 as atribuies correta e incorreta de uma inteno .
 Quando vemos o

 pisca-pisca laranja da esquerda comear a piscar no carro  nossa

 frente , e as luzes de freio vermelhas se acenderem , dizemos que o

 motorista  nossa frente tenciona virar  esquerda .
 Sobre o que

 estamos falando quando dizemos isso ?
 Estamos falando sobre o que o

 motorista vai fazer .
 Quando o carro chegar  entrada  esquerda , o

 motorista vai virar o carro por ali .
 No estamos aqui propondo nenhuma

 teoria filosfica , e muito menos uma teoria behaviorista , mas sim , de

 preferncia , ponderando sobre o uso ordinrio - o significado - da

 palavra " inteno " .
 Por que dizemos que o motorista do carro  nossa

 frente tenciona virar  esquerda ?
 Pelo que o motorista est fazendo

 agora , que  assinalar tal inteno , algo que podemos exprimir

 igualmente bem sem de modo algum nos referirmos ao termo " inteno " ,

 pois o motorista est assinalando o que est prestes a fazer .
 Assim ,

 atribumos uma inteno ao motorista com base no que ele est fazendo

 agora .
 No estamos conjecturando sobre o fato de o motorista estar em

 algum tipo de estado cerebral : tal conjectura seria completamente

 inttil .
 No temos nenhuma idia , qua atribuidores rotineiros de

 inteno , sobre o estado cerebral em que as pessoas esto , pois , qua

 atribuidores rotineiros , no sabemos neurocincia .
 Os filsofos s

 vezes fazem conjecturas sobre o tipo de estado cerebral em que as

 pessoas devem estar para terem uma inteno : por exemplo , porventura

 tm eles uma sentena imperativa inscrita em seu crebro ?
 ^ 4 Mas ser

 que essa  uma hiptese necessria para algum que esteja simplesmente

 notando que o motorista  sua frente tenciona virar ?
 Tal pessoa no

 est tentando fazer uma inferncia a partir do que o motorista est

 fazendo agora para o que est acontecendo em seu crebro !
 A pessoa

 est , antes , inferindo do que o motorista est fazendo agora o que ele

 far em seguida .
 Essa  uma inferncia direta , no uma inferncia que

 passe por uma outra inferncia que parta do que o motorista est

 fazendo agora para algo que esteja ocorrendo no seu crebro e da para

 o que ele far em seguida .
  uma inferncia direta que vai do que o

 motorista est fazendo agora ao que ele far em seguida .
 A inferncia ,

 evidentemente , parte do que o motorista nos diz que ir fazer em

 seguida para o que ( realmente ) ele vai fazer em seguida .
 0 fato de o

 motorista dizer-nos o que vai fazer em seguida  , nesse caso , parte de

 sua preparao para fazer algo em seguida .
 Ao virar  esquerda , parte

 da atividade de fazer isso consiste em preparar-se para tal , avisar

 aos outros que voc far esse movimento e diminuir a velocidade do seu

 veculo para que a virada possa ser controlada com segurana , e so as

 aes do motorista na preparao da virada , sinalizando e freando , que

 nos dizem o que ele est pronto para ( tenciona ) fazer .
  em virtude do

 fato de serem esses os estdios iniciais de uma seqncia particular

 que podemos ver que o motorista resolveu percorrer essa seqncia e 

 esse mesmo fato que nos leva a esperar suas fases finais .
 Aquilo sobre

 que estamos falando , portanto , quando falamos sobre a inteno do

 motorista  sobre o que ele est fazendo , sobre a relao entre o que

 ele est fazendo agora e o que estar fazendo daqui a pouco , onde

 essas aes esto ligadas como passos numa seqncia de aes .
 Se o

 motorista est sinalizando , freando e depois entra numa rua lateral ,

 ento isso confirma que ele tencionava virar .
 0 que dissemos estava

 certo : o motorista realmente tinha a inteno de virar .
 Nossa

 afirmao de que o motorista tinha a inteno no era nenhum tipo de

 afirmao sobre estar ele num estado cerebral particular , pois

 certamente no estamos  procura , ao fazermos a determinao da

 inteno ou ao ficarmos satisfeitos por termos acertado em nossa

 determinao , de alguma evidncia sobre a possibilidade de o seu

 crebro ter certas caractersticas , pois no queremos , ao

 identificarmos a sua inteno , fazer descobertas sobre o estado do seu

 crebro , mas sim prever a sua conduta no trnsito .

 Ao dizermos que a nossa atribuio de uma inteno de virar  esquerda

 estava correta , estamos apenas dizendo que a virada  esquerda no

 estava relacionada acidentalmente com o que aconteceu antes , que a

 virada foi o resultado de uma seqncia preparada , e no uma virada

 abrupta e improvisada , ou algo resultante do fato de o carro ter

 derrapado e perdido o controle .
 0 fato de o motorista ter dado o passo

 final na seqncia cujos passos iniciais consistiram em sinalizar e

 frear estabelece que ele tinha a inteno de virar .
 Quando dizemos que

 algum tem uma inteno , no raro estamos dizendo algo como " ele est

 se preparando para X " , como no exemplo do motorista acima descrito .

 Dizer que ele " tenciona virar  esquerda " , nesse caso ,  o equivalente

 de dizer " ele est agora preparando-se para virar  esquerda " , e a

 capacidade de dizer isso no depende da existncia de estados

 neurolgicos , mas , antes , das relaes entre vrios tipos de aes nas

 circunstncias em que so produzidas .
 Algumas aes so

 convencionalmente anteriores a outras , e a noo de inteno tem muito

 a ver com a relao entre um resultado e as aes que levam a ele ; se

 elas forem preparatrias , por exemplo .
 0 teste para saber se uma

 pessoa tem uma inteno no  o fato de ela fazer as coisas que

 declara ser a sua inteno ou as suas intenes ; se algum diz que tem

 a inteno de pegar o vo da tarde , h vrias coisas que ela tem de

 fazer para que devamos dizer que ela ( de fato ) realmente tem essa

 inteno particular , e estas so , naturalmente , coisas que ela tem de

 fazer se for pegar o vo da tarde .
 Algum que deve pegar ( que

 verdadeiramente tem a inteno de pegar ) o vo da tarde tem de fazer

 coisas como obter um bilhete de viagem , chegar ao aeroporto e para

 isso pegar um txi , certificar-se de que traz consigo um passaporte

 ( vlido ) , fazer as malas etc .
 0 teste para saber se ele tem a inteno

 de pegar o vo da tarde consiste em ver se ele faz algum esforo para

 tanto , se tira um passaporte , compra moeda estrangeira , chama um txi

 ou outro meio de transporte para o aeroporto , parte para o aeroporto

 etc .
 Se a pessoa no fizer essas coisas , ento ela no tem a inteno

 de pegar o avio da tarde : dizer , nesse caso , que ela no tm a

 inteno  o mesmo que dizer que ela no est sequer tentando !

 Deveramos mostrar que algum que faz todos os preparativos para

 embarcar no avio e por fim embarca no avio no somente nos fornece a

 evidncia pela qual a existncia da sua inteno pode ser inferida :

 antes , fazer tais coisas qualifica a pessoa como possuidora da

 inteno .
 Realizar todas essas aes e lev-las at sua concluso  o

 que " ter a inteno de pegar um avio "  .
 A observao de J. L. Austin

 sobre ver sinais de po quando se vem algumas migalhas  pertinente

 aqui , pois no se vem sinais de po quando se v um po .

 0 paradigma do " interior " e do " exterior "  um paradigma com razes

 profundas na psicologia filosfica , um paradigma assumido pela

 tradio naturalista , mesmo em sua forma " behaviorista " .
 Os

 behavioristas ( de Watson a Skinner ) supem que a identificao de

 intenes e outros estados " mentais " ( etc. ) devem ser objeto de

 inferncia com base em um " comportamento observvel " ( seja ele " fina "

 ou " grosseiramente " descrito ) para fenmenos inobservveis ,

 interiores .
 Os behavioristas simplesmente excluram a legitimidade de

 tais " inferncias " .
 No entanto , no se est inferindo da compra de uma

 passagem de avio , da chamada de um txi etc. um " estado interior " que

 seja o senhor da inteno .
 Onde h inferncias envolvidas , com

 freqncia  de parte do tipo de atividade para o resultado dessa

 atividade .
 0 fato de que algum tente adquirir moeda estrangeira

 permite a inferncia de que ele ou ela vai fazer uma viagem para o

 exterior e que , portanto , ele ou ela vai pegar um avio , portanto

 algum pode inferir que ele ou ela vai pegar um avio do fato de ele

 ou ela comprar moeda estrangeira , ou seja , pode-se inferir o que a sua

 inteno  , o que ele / ela vai fazer .
 Isso , no entanto , consiste apenas

 em inferir coisas acerca do papel de sua atividade dentro de parte de

 um ripo , no em inferir um estado interior a partir de um

 comportamento exterior .

 E por causa do paradigma interior / exterior que os naturalistas ( muitas

 vezes a contragosto ) aderem ao dualismo cartesiano , pois procuram

 convencer-nos de que quando atribumos intenes devemos estar

 tentando fazer hipteses sobre estados " interiores " com base em

 estados exteriores .
 Seu naturalismo entra em jogo porque eles supem

 ( e aqui , mais uma vez , no discordamos deles ) que " dentro " existe

 apenas matria ( ou seja , matria cerebral ) e que , portanto , se

 estivermos fazendo uma inferncia com base no que podemos ver para o

 que est " por dentro " , ento a inferncia ter de ser sobre estados do

 crebro .
 Mas esse quadro  um resultado do fato de se considerar

 indevidamente em primeiro lugar o dualismo " interior / exterior " como

 sempre pertinente .
  por causa da reteno desse quadro que o

 naturalista  levado  concluso de que falar de intenes ( etc. ) deve

 envolver a postulao de estados " interiores " , e de que estes devem

 ser , em termos naturalistas , estados cerebrais .
 Abster-nos , como

 fazemos , de estabelecer uma dicotomia " interior / exterior " de maneira a

 priori livra-nos das necessidades que o naturalista encontra e nos

 deixa livres para perguntar o seguinte .
 Qual  a evidncia que mostre

 que as pessoas que usam " palavras ordinrias " como " inteno " e

 " crena " realmente agem em termos dessa dicotomia interior / exterior

 quando falam ?
 Como algum que acreditasse que uma inteno fosse um

 estado fsico do crebro diferiria de modo detectvel de algum que

 no acreditasse nisso , quando ambas se envolvessem em coisas como

 atribuir uma inteno de tomar o avio da tarde a alguma outra pessoa ,

 ou quando anunciassem sua prpria inteno de tomar o avio ?

 A razo pela qual no se pode dizer que uma pessoa que no compra

 moeda estrangeira , no se certifica de que seu passaporte est em dia ,

 chama um txi para o aeroporto etc. tem a inteno de pegar o avio 

 simplesmente que , sem fazer essas coisas , ela no pode de fato tomar o

 avio .
 Fazer essas coisas  uma pr-condio de poder embarcar no

 avio , e a necessidade de faz-las nada tem a ver com a psicologia .
 A

 conexo entre a obteno de passaportes , passagens areas etc. e o

 fato de tomar o avio da tarde no se faz mediante nenhuma

 regularidade psicolgica , nem mediante qualquer generalizao feita

 sobre a conjuno dessas coisas , mas , pelo contrrio , se faz mediante

 o fato de que a posse de um passaporte , de passagens areas etc. so

 requisitos para embarcar no avio : as primeiras so ( simplesmente )

 meios para o segundo .
 Existe , evidentemente , o fato de que , s vezes ,

 as intenes so mais declaradas do que atribudas .
 Se algum nos

 disser que tem a inteno de tomar o avio da tarde , no o faz com

 base em alguma evidncia ( de qualquer tipo , e certamente no com base

 num exame de seus prprios estados cerebrais ) .
 Por exemplo , no nos

 vemos comprando uma passagem de avio , comprando moeda estrangeira ,

 reservando um txi para o aeroporto e depois concluindo que devemos ,

 portanto , ter a inteno de ir ao aeroporto , tomar o avio da tarde

 etc .
 Certamente no buscamos evidncias de que nosso crebro esteja em

 certos estados especficos : no temos meios de examinar por

 introspeco o carter de nossos crebros , e assim , ao declararmos uma

 inteno , no contamos aos outros que descobrimos que nosso crebro

 est em determinada condio .
 Quando declaramos uma inteno , dizemos

 s outras pessoas o que faremos , informamos no sobre nossos crebros ,

 mas sim sobre nossos planos .
 No estamos propondo uma hiptese

 preditiva , que , depois de emitida , passamos a esperar para ver se se

 confirma .
 Quando informamos a algum a ( s ) nossa ( s ) inteno ( es ) , no

 lhe estamos fornecendo uma predio emprica sobre o nosso

 comportamento futuro , tal que , igualmente , ele possa esperar para ver

 se nossa predio era correta .
 Quando falamos a algum sobre a nossa

 inteno , dizemo-lhe o que faremos , mas o fato de lhe falarmos isso 

 mais uma garantia do que uma predio .
 Se falharmos em cumprir a nossa

 inteno declarada , os outros podem acusar-nos de faltar com a

 palavra , de engan-los , e no simplesmente de que infelizmente lhes

 tenhamos dado ( como se revelou ) uma informao errnea .
 Com isso , no

 enganamos as pessoas acerca do estado de nosso sistema nervoso

 central , mas sim , por exemplo , sobre onde estaramos naquela tarde , ou

 sobre o que faramos posteriormente naquela semana etc .

 Deveria estar claro , agora , por que temos srias dificuldades com a

 idia eliminativista de que possamos desistir de nossas expresses

 intensionais ( sendo " ter a inteno de " fazer X uma das mais comuns

 delas ) .
 A formulao de uma inteno no descreve um estado do

 crebro , mas sim , de modo tpico , um curso de ao ou seu resultado .

 Precisamos , para um sem-nmero de propsitos prticos , ser capazes de

 assinalar distines entre aes deliberadas , resultados acidentais ,

 ocorrncias fortuitas , conseqncias no intencionais , conduta

 inadvertida , comportamento involuntrio , resultados no previstos ,

 efeitos antecipados e previstos , conduta obrigatria , conduta

 proposital etc. , e precisamos dessas distines de modo totalmente

 independente do tipo de distines que podem ser necessrias para o

 avano da pesquisa cientfica .
 S se supusermos que uma inteno  um

 estado particular do crebro o anncio de que tais coisas no existem

 nos diz alguma coisa .
 E uma vez que mostramos que tal identificao

 leva a absurdos , nada nos  dito , sem dvida ...

 No prximo captulo , tentaremos descobrir algumas das razes

 histricas dessa obsesso com o " mental " construdo como um frum

 interior , com " fenmenos interiores " , maduro para alguma ( futura ,

 hipottica ) reduo ao fisiolgico .
 Grande parte do que aqui

 caracterizamos como " naturalismo " tem suas razes na filosofia do

 sculo XVII , mas  uma peculiaridade de nossa cultura intelectual

 contempornea o fato de ainda no nos termos emancipado plenamente dos

 seus efeitos colaterais .
   tarefa de advogar essa emancipao ,

 diante de tantas tendncias em contrrio , que o resto deste livro se

 dedica .
 Conseqentemente , tendo esboado neste captulo a direo

 geral de nossa abordagem dos problemas que enfrentamos , voltamos no

 prximo captulo a um exame mais minucioso do primeiro tema de que

 estamos tratando neste livro : o dualismo mente / corpo .

 Notas

 1 Para uma discusso a esse respeito , ver Hodges , 1983 , p .266 , 415-7 .

 2 No ingls britnico , existe o verbo to hoover , passar o aspirador de

 p : trata-se de verbo derivado da marca de aspiradores Hoover , como em

 portugus " gilete " deriva da marca Gillette. ( N. T. )

 3 Neste trabalho , usaremos " intensional " para significar a propriedade

 de uma expresso que assinala a sua no-separabilidade de um

 objeto-complemento , Isso para evitarmos a confuso com o significado

 ordinrio de " intencional " ( com " c " ) .

 4 Ver " Brain Writing and Mind Reading " em Dennett , 1987 , p .39-50 ,

 in Button , G .
 & Coulter , J. , Lee , J. R. R. , Sharrock , W. ( 1997 ) :

 Computadores , Mentes e Conduta , So Paulo : Ed .
 UNESP , cap. 1 , pgs .

 29-60 .

