 LINGUAGEM E MODERNIDADE

 Comunicabilidade da experincia e convenes de representao nas sociedades

 mediatizadas

 ( Tese de Mestrado em Cincias da Comunicao )

 Gil Antnio Baptista Ferreira , Universidade da Beira Interior

 Janeiro de 2000

 ( Introduo ; Captulo I ; Captulo III ; Captulo IV ; Concluso ; Bibliografia )

 Captulo Segundo

 ANLISE CRTICA DA LINGUAGEM E QUESTIONAMENTO DAS SUAS POSSIBILIDADES

 COMUNICATIVAS

 As teses antes apresentadas fornecem uma compreenso das questes da linguagem

 que so directamente relevantes para o que se reconhece usualmente como a crise

 corrente da linguagem .
 Uma possibilidade para estabelecer este argumento 

 apresentar uma comparao entre as posies antes referidas e outras abordagens

 cuja orientao visava superar os problemas que tais concepes colocavam ,

 sobretudo relacionados com a ambiguidade ou a impreciso em que caa a

 linguagem .
 Embora as teorias seguintes no sejam de forma alguma os nicos

 contendores na presente luta por uma cientificidade e depurao da linguagem , o

 seu questionamento revelar contudo se alguma posio forneceu  linguagem , de

 forma segura e operativa , as solues para os seus problemas na actualidade .

 A percepo dos problemas da linguagem , ampliada ao longo do sculo XIX , entrou

 neste sculo com uma importncia considervel e crescente .
 A exigncia de rigor

 no conhecimento do mundo vinha impondo a necessidade de compreender os

 mecanismos lingusticos , no s aos especialistas da linguagem mas tambm a

 lgicos , matemticos e filsofos .
 Um movimento iniciado por Gottlob Frege e por

 Bertrand Russell foi acompanhado por Ludwig Wittgenstein e pelo chamado Crculo

 de Viena , ^^ 1 com esforos notveis no sentido de construir linguagens precisas

 e destitudas de ambiguidade. ^^ 2

 O ideal da linguagem lgica

 A ambio de uma anlise da linguagem foi levada a cabo pelo neopositivismo

 lgico ou neo-empirismo , expresses que designam a chamada doutrina do Crculo

 de Viena .
 Foi elaborado um programa com grande detalhe por este movimento , de

 que Rudolph Carnap foi um dos destacados representantes .
 Uma das suas teses

 principais defendia que  quando a filosofia  purificada de todos os elementos

 no cientficos , apenas a lgica da cincia restar.  Se por lgica da cincia

 Carnap explicava referir-se   sintaxe da linguagem da cincia  ^^ 3 , por

 linguagem da cincia afirmava ainda entender no o vocabulrio tcnico dos

 cientistas , mas antes a linguagem universal nos termos em que todos os factos ,

 sejam do senso comum ou do domnio cientfico , possam ser expressos. ^^ 4 Embora

 as actividades propriamente ditas desta corrente tenham acabado em 1938 , a sua

 influncia no deixou de se fazer sentir atravs da filosofia analtica , de

 certo modo herdeira deste Crculo .

 E  assim que a tarefa da filosofia se apresenta como de anlise das formas

 lingusticas , atravs da investigao do seu significado autntico , eliminando

 os equvocos a que conduz o uso imprprio .
 Deste modo , a filosofia analtica ,

 resultante essencialmente da anlise lgica da linguagem , prope-se edificar

 uma sintaxe lgica aplicvel a uma linguagem rigorosa , que permitisse descrever

 e apreender o mundo emprico .

 Em acordo com as posies que antes abordmos , tambm a ideia fundamental da

 filosofia analtica  que o real no pode ser aprendido de outra forma que pela

 linguagem , donde vem que a anlise da linguagem  a nica via para a anlise do

 pensamento .
 A questo pode ser colocada de outra forma : no dia a dia , vemos

 como a nossa linguagem tem a grande vantagem de raramente nos deixar sem

 palavras , tudo  descritvel .
 Contudo , descrever o novo  , como demonstrmos

 antes , relacion-lo de formas especficas com o previamente conhecido .

 Apercebemos , tambm aqui , um preo a pagar :  que uma linguagem assim entendida

 no pode ser rgida .
  primeira vista , haver na linguagem um mecanismo que

 permite ao pensamento aplicar-se sempre ao mundo , independentemente da forma

 que este mundo possa assumir , fazendo-o falar , manifestando a essncia

 lingustica das coisas de que falava Benjamin .
 Com efeito , nas situaes do

 quotidiano , pensamos as coisas e dizemo-las mas , tambm em acordo com os

 neopositivistas , apenas de modo talvez verdadeiro .
  que com uma dada linguagem

 temos um conjunto indefinidamente grande de veculos para expressar um

 pensamento , cada conjunto com um sentido definido pelas partes que o compem ,

 que o torna numa descrio especfica de como as coisas so .
 Mas algo nos

 escapa se virmos isto como a totalidade da nossa capacidade de expressarmos

 pensamentos novos .
 H alguma plasticidade , por parte das palavras , que torna a

 linguagem imperfeita .
 Pois  a partir da constatao de tal flexibilidade das

 palavras que nasce a aspirao de uma linguagem rigorosa , que permita exprimir

 sem ambiguidade o sujeito da realidade. ^^ 5

 A filosofia analtica comea ento pela anlise lgica da linguagem ,

 principalmente pelo seu aspecto sintctico ou gramatical .
 O objecto do estudo

 so as articulaes lgicas entre os elementos da linguagem e as proposies

 constitudas por esses elementos .
 A ferramenta privilegiada destas pesquisas 

 formada pela lgica das proposies e pela lgica dos predicados , onde figuram

 os quantificadores , para a constituio de proposies complexas .
 A partir

 desta base so possveis orientaes diversas , mas as principais coordenadas

 destes trabalhos partiram das doutrinas lgico-matemticas de Frege e Russell .

 Acerca da linguagem , afirmava Frege como  espantoso ela conseguir expressar ,

 recorrendo a algumas slabas , sries de pensamentos insuspeitados .
  Como

 encontra imediatamente com que vestir um pensamento que foi pela primeira vez

 concebido por um terrestre , de tal modo que outro possa conceber uma coisa que

  totalmente nova.  ^^ 6 Frege explica que isso  possvel apenas porque

 conseguimos distinguir partes num pensamento , que correspondem s partes de uma

 frase , de forma a que a estrutura de uma frase possa ser vista como uma imagem

 ( bild ) do pensamento .
 Isto  ,  admitimos que usamos de facto um smile quando

 realizamos a relao do todo e da parte com os pensamentos.  ^^ 7 Um smile to

 natural e to adequado que eventuais defeitos devem ser encarados to s como

 meras perturbaes .

 Frege , ainda em 1879 na sua Begriffschrift ( escrita conceptual ) , elaborou o

 modelo de uma lngua conceptual ou ideografia , destinada a exprimir os

 enunciados matemticos nos termos de uma notao algortmica rigorosamente

 disciplinada por regras de inferncia , que deviam eliminar as lacunas no

 processo de raciocnio , at ento colmatadas pelos matemticos com o recurso 

 intuio. ^^ 8

 Trs anos depois , Frege caracterizaria assim a linguagem do quotidiano ou

 linguagem natural :  Os defeitos da linguagem natural supracitados tm a sua

 origem numa certa maleabilidade e mutabilidade da linguagem , que , por outro

 lado ,  condio da sua capacidade de desenvolvimento e da sua utilidade

 multifacetada.  ^^ 9 Explica ento esta ideia recorrendo  comparao da

 linguagem com a mo : apesar da sua aplicabilidade a diversas tarefas , a mo

 revela-se incapaz relativamente a outras .
 Ora , essa insuficincia  suprida

 pelo recurso a mos artificiais , que atingem uma preciso que uma mo no

 poderia ter .
 Trata-se de ferramentas que criamos para fins especiais , e que

 devido a caractersticas como a inflexibilidade ou a rigidez das partes

 constituintes ( caractersticas que a mo no tem ) , se tornam precisas .
 E tal

 como sucede com as mos ,  tambm a linguagem natural no  suficiente .

 Precisamos de um sistema de sinais do qual seja banida a ambiguidade , uma

 estrita forma lgica cujo contedo no possa escapar.  ^^ 10

 Para atingir esse objectivo de rigor no processo de raciocnio , Frege apontava

 um modelo de linguagem logicamente controlado , imune s distores emocionais e

 intuitivas que afectam a linguagem vulgar .
 Na realizao do seu projecto ,

 retomou , entre outras , a ideia da lngua ideal de Leibniz. ^^ 11 Procurou ento

 realizar tanto a dimenso sintctica ( ou calculstica ) , relativa s operaes

 sobre um certo sistema de signos ou caracteres simples e indefinveis , como a

 dimenso semntica , que define o universo do discurso em relao ao qual se

 revelam interpretveis as operaes executadas .
 A dimenso de rigor e de

 certeza dos enunciados lgicos  assim estabelecida nas suas condies de

 analiticidade e na sua condio de pertena a um sistema formal , constitudo

 por ideias e proposies primitivas , das quais resultavam dedutveis os

 teoremas , mediante as respectivas regras de deduo .
 A sua funo era excluir a

 interveno perturbadora dos elementos intuitivos que preenchiam as lacunas

 entre os elos de uma cadeia dedutiva .
 Assim , Frege ps em prtica a condio de

 rigor dos enunciados lgicos e matemticos , atravs do instrumento de uma

 lngua artificial e logicamente controlada a ideografia .
 Esta ope-se 

 linguagem natural de significados emocionais intuitivos e deve revelar-se

 idnea para exprimir de forma lmpida os princpios e as regras disciplinadoras

 dos processos dedutivos .

 Independentemente de Frege , Bertrand Russell criou nos Principia Mathematica

 ( 1910-1913 , publicados em colaborao com o lgico Whitehead ) um sistema

 lgico-formal a que deveria ser reduzida toda a matemtica pura , e que resulta

 da anlise dos enunciados matemticos segundo as formulas da lgica , e da

 decomposio dos mtodos e dos processos de deduo utilizados em matemtica em

 ideias indefinveis e inalisveis e em princpios ou proposies primitivas da

 lgica .

 Salientou ento as proposies elementares que , analisadas logicamente , se

 revelam claramente como proposies complexas .
 Mas o que ele procurava eram as

 proposies atmicas , os tomos lgicos indivisveis logicamente , proposies e

 tomos em plena correspondncia com os factos atmicos da realidade .
 Russell

 efectuou a partir daqui uma verdadeira anlise dos mecanismos do pensamento tal

 como eles se revelam na linguagem e ter sido esse o seu grande contributo para

 o presente estudo .
 Em suma , a teoria lgica de Russell agiu de modo bastante

 sugestivo no pensamento de ento ao propor a interpretao filosfica com um

 funcionamento antimetafsico , aspirando  conciliao entre empirismo e

 racionalismo numa filosofia cientfica .
 A cincia concentraria em si um nico

 mas vasto fragmento do mundo , que ento poderia explorar , e  esta uma ideia

 que ser determinante noutros momentos da anlise lgica da linguagem .

 A linguagem como refigurao do mundo

 Foi inspirado principalmente por Bertrand Russell que surgiu o filsofo de

 origem austraca Ludwig Wittgenstein .
 Com um percurso iniciado nas cincias

 aplicadas , desviou a sua investigao para a lgica a partir da leitura dos

 Principles of Mathematics e tambm das  grandiosas obras de Frege . ^^ 12 O

 ambiente cultural que viveu em Cambridge caracterizava-se pelo empenho numa

 operao de anlise conceptual : procuravam-se instrumentos de anlise

 destinados ao esclarecimento dos aparelhos lgico-lingusticos operantes nas

 cincias naturais , na matemtica , na lgica e nas doutrinas dos filsofos .

 Tambm o meio intelectual era irrequieto , na sua abundncia de filsofos ,

 economistas , matemticos , historiadores e lgicos , com nomes como o j referido

 Russell , Moore , Keynes , Strachey e , mais tarde , Ramsey e Sraffa , que pouco a

 pouco operaram o repdio das ortodoxias dominantes nas diversas reas do saber .

 A ideia dominante tendia a aplicar , atravs da reviso crtica da tradio ,

 novos valores culturais vincados por traos de clareza e rigor intelectual ,

 atravs da submisso a profunda reviso crtica das atitudes tericas , das

 problemticas e dos processos de argumentao tradicionais. ^^ 13 A importncia

 deste ambiente ser adiante reflectida ; atente-se contudo que Wittgenstein ,

 como muitos outros filsofos do sculo XIX e mesmo XX , est ainda enredado nas

 preocupaes epistemolgicas que dominaram o pensamento Iluminista , de que os

 aspectos mais significativos sero posteriormente desenvolvidos .
 O seu primeiro

 trabalho de vulto , o Tratado Lgico-filosfico ( 1922 ) , ^^ 14 surge do cuidado de

 Wittgenstein em realar a forte coeso das diferentes teses relativas 

 essncia da linguagem , sendo considerado uma elucidao das condies

 necessrias a priori e das possibilidades da linguagem em acordo com o ideal da

 metodologia kantiana .

 J desde 1913 que Wittgenstein atribua ao trabalho filosfico as coordenadas

 de uma pesquisa essencialmente analtica , subtraindo assim  filosofia a

 pretenso de afirmar enunciados de alcance existencial , para alm do poder de

 confirmar ou anular asseres cientficas. ^^ 15  neste sentido que refuta

 componentes da teoria logicista de Frege e Russell , que implicavam asseres

 existenciais e recorriam a pressupostos ontolgicos de qualquer espcie .

 Deste modo , ao investigar a natureza dos enunciados lgicos e dos enunciados

 matemticos , Wittgenstein elaborou no Tractatus uma doutrina destinada a

 atribuir um limite ao pensamento e  sua expresso , determinando a rea do

 pensamento significante .
 Os enunciados do pensamento tradicional constituem

 ( segundo a sua tese ) um sistemtico mau entendimento da lgica da linguagem , ao

 ultrapassarem o limite que ao pensamento e  expresso lingustica  atribudo .

 Como vemos , trata-se em suma do questionamento que se tornaria recorrente nos

 debates ao longo do sculo : apresenta-se ento esta obra como uma reflexo

 sobre as condies gerais que tornam possvel que uma linguagem , seja ela qual

 for , sirva para falar de um mundo , seja ele qual for .

 Em acordo com a perspectiva de Wittgenstein , a relao entre os factos do mundo

 e os da linguagem  expressa pela proposio segundo a qual a linguagem  a

 refigurao ( ou imagem ) lgica do mundo .
 Partindo de que  a imagem lgica dos

 factos  o pensamento  ,  o que a imagem representa  o seu sentido  .
 Uma

 linguagem assim considerada  a linguagem idealmente perfeita uma linguagem

 que , independentemente da sua estrutura gramatical , respeita em si a estrutura

 essencial da realidade .
 Ora , Wittgenstein avana com o sinal proposicional , o

  sinal atravs do qual exprimimos o pensamento  , sendo a proposio a

 possibilidade de exprimir o sentido .
 Atente-se no sinal proposicional : 

 constitudo por elementos ( as palavras ) , que nele se relacionam de determinado

 modo ; mas acima de tudo ,  o sinal proposicional  um facto  .
 Por outras

 palavras : a configurao do signo simples ( nome ) no signo proposicional

 corresponde  configurao do objecto numa situao real .

 Signo , sentido e mundo

 Mas a linguagem corrente no permite que dela se extraia imediatamente a lgica

 da linguagem :  a linguagem mascara o pensamento  , ou seja ,  da forma exterior

 da roupa ( leia-se proposies ) no se pode deduzir a forma do pensamento

 mascarado.  A razo de tal desacordo  a forma exterior da referida roupa haver

 sido concebida no para deixar entrever a forma do corpo , mas antes com fins

 totalmente diferentes , nomeadamente os relacionados com acordos tcitos de

 compreenso .

 Wittgenstein iniciara o Tractatus justamente afirmando como o mundo 

 determinado pelos factos ( ou estados de coisas ) , elementos em que  possvel

 decomp-lo .
 Ora , o sinal proposicional empregue e pensado  o pensamento , que 

 a proposio com sentido .
 E a totalidade das proposies , considera

 Wittgenstein ,  a linguagem .
 Com as linguagens , o homem pode expressar qualquer

 sentido sem ter qualquer noo do que significa cada palavra : no h uma imagem

 verdadeira a priori , as palavras antes de constitudas num sinal proposicional

 so , to s , projeces de situaes possveis .
 Com o sinal proposicional 

 projectada no mundo uma proposio , uma possibilidade de exprimir de modo

 perceptvel pelos sentidos. ^^ 16

 A fundamentao deste apriorismo lingustico que apresenta um modelo

 lingustico previamente dado ao pensamento levantar depois , entre outros , o

 questionamento de como  possvel a fundamentao de tal linguagem cientfica .

 Um substantivo especfico  quase sempre ligado aos mesmos adjectivos ( mesmo

 que implcitos ) , aos mesmos atributos explicativos antes que qualquer

 contradio ou antagonismo lhe possa ser proposto .
 Como uma sentena , o

 predicado fixar-se-ia na mente do receptor , que assim reage de um modo

 especfico , fixado ,  concreo esmagadora e petrificada de que adiante falar

 Herbert Marcuse .

 Convm notar que a proposio no pode ser considerada uma mera mistura de

 palavras : ela  articulada , e  essa articulao que define a sua ligao com o

 pensamento de estados de coisas ( pensveis , e logo possveis ) .
 Tal como refere

 noutro momento Wittgenstein , a proposio  a descrio de um estado de coisas ,

 que sendo verdadeira (  fixada em sim ou no ) mostra como as coisas se passam ,

 qual o seu sentido .
 E , assim ,  a relao projectiva da proposio com o mundo

 ( com o sinal proposicional ) que , ao ser um facto , pode exprimir um sentido. ^^ 17

 Neste momento , Wittgenstein acentua a distino entre as possibilidades do

 sentido e as do nome em torno de uma convico essencial : um conjunto de nomes

 no pode exprimir um sentido .
 Ou , dito de outro modo , se uma situao pode ser

 descrita ( pelo sentido ) , no pode contudo ter um nome .
 Aos nomes , sinais

 simples e primitivos que no podem ser decompostos ,  atribuda a funo de

 denotar objectos nomeamos objectos , que depois mandatamos na proposio ,

 permitindo falar deles , dizer como eles so .
 Assim ,  uma situao pode ser

 descrita , mas no pode ter um nome . ^^ 18 To exemplar como formalmente

 contraditria  a analogia fornecida pelo prprio Wittgenstein : os nomes so

 como pontos , distinguindo-se das proposies que se assemelham a setas e so

 estas que tm sentido. ^^ 19

 Recorde-se , contudo , que a proposio  a descrio de um estado de coisas : mas

 uma descrio especial , no entanto .
 Porque construda com a ajuda de um andaime

 lgico , a proposio descreve a realidade segundo as suas propriedades

 internas , comunica um sentido analisvel e compreensvel se compreendermos as

 suas partes constituintes. ^^ 20 Um sentido que  sempre classificvel , com as

 qualidades de verdade ou de falsidade , dependentes da  concordncia ou

 no-concordncia do seu sentido com a realidade.  ^^ 21

 Concluindo , importa destacar como tal tese pressupe uma identificao do

 pensamento com a linguagem ; recorde-se que no  pensvel nem exprimvel o que

 no for um facto do mundo , ideia bem expressa na famosa ltima notao do

 Tractatus :  Acerca daquilo de que se no pode falar , tem que se fica em

 silncio  , ^^ 22 ideia que encerra uma crtica do filsofo a questes

 ( filosficas , muitas delas ) , sem resposta porque sem sentido. ^^ 23

 Mas , convm notar que estas pesquisas s indirectamente dizem respeito 

 linguagem vulgar .
 No lhe dizem respeito directamente porque Wittgenstein ,

 neste momento do seu pensamento ( como todos os neopositivistas do Crculo de

 Viena ) toma como evidente que as imprecises e ambiguidades das lnguas

 naturais as tornam incapazes de dizer o real de modo rigoroso ; e assim , num

 estudo sobre as condies do dizer , elas podem , portanto , ser postas de parte .

 No entanto , as lnguas artificiais no so totalmente estranhas  linguagem

 vulgar : ou so transformaes desta ou , de qualquer maneira , so construes

 feitas a partir dela e por ela definveis .
 E , desta forma , reflectir sobre as

 condies que permitem s lnguas lgicas dizer o mundo  , indirectamente ,

 reflectir sobre a linguagem vulgar .

 A elucidao das condies a priori da possibilidade de toda a linguagem 

 assim o projecto de base do Tractatus , de onde se podem extrair ainda , em

 acordo com Gilbert Hottois , trs outros objectivos complementares : descrever a

 linguagem vulgar , elaborar um sistema lgico e , a partir daqui , passar 

 construo de uma linguagem ideal e perfeita. ^^ 24 Todas as teses desta obra so

 condicionadas por uma posio ontolgica fundamental desta fase do autor : o

 mundo  constitudo por factos , e os factos manifestam-se nesses outros factos

 que so as proposies significantes .
 Assim , os limites da linguagem so os

 limites do mundo , e os limites da minha linguagem so os limites do meu mundo ,

 de tudo o que compreendo , penso e exprimo .
 O conceito no tem qualquer contedo

 que no o designado pela palavra para o facto objectivo ; o nome da coisa

 designa essa coisa , fechando o significado dessa coisa e excluindo outras

 maneiras de funcionamento desse nome. ^^ 25

 Note-se que Wittgenstein vem vincando de forma notria um aspecto de particular

 importncia , aqui e ali j referido : a questo dos limites da linguagem .
  esta

 uma ideia intimamente ligada  doutrina do pensvel , uma das mais importantes

 teses de Wittgenstein .
 A este propsito , escrevera j no prefcio do Tractatus

 como o objectivo dessa obra era desenhar a linha de fronteira do pensamento ou

 antes , apenas daquilo que do pensamento podemos expressar .
 E , observa ento , a

 tal  linha da fronteira s poder ser desenhada na linguagem.  ^^ 26  neste

 sentido que afirmar adiante que toda a filosofia   crtica da linguagem  ; ^^ 27

 em torno desta ideia giram , de certo modo , a teses principais desta fase do

 autor .

 Em suma , a linguagem , devido  sua factualidade ,  essencialmente contingente ;

 para a tornar possvel  necessria uma substncia ou forma do mundo da qual a

 essncia da linguagem  isomrfica .
  No h uma imagem verdadeira a priori 

 antes da comparao com a realidade , afirmava Wittgenstein. ^^ 28  evidente o

 desejo de uma notao ideal nica por detrs da diversidade grosseira e

 aparente das linguagens e simbologismos lgicos , como postulado de um mtodo

 nico de projeco , concedendo assim  linguagem e  lgica um carcter

 essencialmente unitrio .
 Voltando  tese principal do Tractatus : uma lngua s

 diz os factos do mundo se a sua forma lgica for a forma do mundo .
  este o

 limite da linguagem ; para l dele est o no sentido , est o no pensvel .
 Por

 outras palavras , a questo que aqui se coloca  a da operacionalidade da

 linguagem , que se estabelece sempre que as palavras e os conceitos tendem a

 coincidir .

 No limite ,  tambm  percepo de Herbert Marcuse que recorremos : se as

 palavras e os conceitos coincidem , neste universo cientfico e tecnolgico ( que

 determina , contudo , a expresso poltica e social ) o  conceito tende a ser

 absorvido pela palavra  , e  considerado como  aquele que no tem qualquer

 outro contedo que no o designado pela palavra no uso anunciado e

 padronizado.  ^^ 29 E aqui a pertinncia da hermenutica de Ricoeur , que

 considera  absurdidade  a tentativa de interpretar literalmente a enunciao .

 Diz-nos :  O anjo no  azul , se azul  uma cor ; a tristeza no  um manto , se o

 manto  um trajo feito de tecido.  ^^ 30 Assim , ( e de novo ) , a palavra

 tornar-se-ia o clich , funcional , objectivo e eficaz , mas que evitaria tambm o

 desenvolvimento genuno do significado ; produzindo pensamento e aco

 positivos , embora excluindo noes transcendentes , crticas e de tenso .
 Noes

 estas que geram o conflito entre duas interpretaes que sustenta a metfora .
 E

 aqui , na interpretao metafrica , uma interpretao literal autodestri-se

 numa contradio significante .
 Ento , a verdadeira metfora , a metfora viva ,

 transporta consigo o inesperado , o diferente , dela brotando a inovao

 semntica. ^^ 31

 Mas o problema que ento se levantara era se as lnguas artificiais

 conseguiriam realizar o objectivo visado e considerado falhado pelas lnguas

 naturais .
 Observar-se- de seguida que esta essncia unitria traduzida pela

 notao no mtodo da projeco no se manifesta de todo .
 Como veremos , e como

 uma percepo kafkiana bem intura ( cujo maior alcance , todavia , apenas adiante

 aclararemos ) , aquele que perseguir tal inteno  corre atrs dos factos tal um

 principiante de patinagem que , ainda por cima , se treinasse num lugar onde 

 proibido faz-lo.  ^^ 32  neste sentido que tambm Musil verifica  que esta

 ordem no  to estvel como parece ; nenhum objecto , nenhuma pessoa , nenhum

 princpio  slido , tudo est dependente de uma metamorfose invisvel , mas

 nunca interrompida  ; ^^ 33 sente-se , assim , que s nos restar o papel do

 reconhecimento da irredutvel diversidade e heterogeneidade de projeces e

 notaes .

 Jogos de linguagem e interaco

 Em 1945 Wittgenstein terminou a primeira parte das Investigaes

 Filosficas , ^^ 34 onde abandonou o tema central do Tractatus - a definio das

 condies e requisitos de uma linguagem logicamente perfeita e universal , de um

 simbolismo ideal .
 Na sua autobiografia , Carnap recorda como Wittgenstein ,

  sobretudo por influncia de Frege , estava efectivamente convencido quer da

 superioridade das lnguas artificiais , constitudas com rigorosos procedimentos

 simblicos , quer da sua utilidade , se no indispensabilidade , para a anlise

 dos enunciados e dos conceitos filosficos e cientficos.  ^ ^ 35 Contudo , num

 segundo tempo , Wittgenstein desmentiria expressamente essa tese .

 A ideia segundo a qual podemos falar certezas vrias a priori sobre a relao

 entre a ordem do mundo e a ordem da linguagem ou , por outras palavras , a ideia

 de que podemos coordenar linguagem e mundo de um modo logicamente unvoco sem

 fazer uso da linguagem logicamente equvoca como interpretao do mundo ,

 revelou-se impossvel .
 No prefcio das Investigaes , Wittgenstein refere-se a

  erros graves  , que se via obrigado a reconhecer na sua primeira obra .
  com a

 inteno de dar relevo s suas novas ideias que prope a publicao conjunta da

 velha com a nova maneira de pensar :  esta s poderia ser verdadeiramente

 iluminada pelo contraste e contra o campo de fundo daquela.  ^^ 36 Parece

 consensual apesar de no unnime que as duas obras principais de Wittgenstein

 representam  primeira vista dois estilos filosficos to diferentes quanto 

 possvel. ^^ 37 O prprio  autor do Tractatus Logico-Philosophicus   referido no

 clebre e decisivo pargrafo 23 das Investigaes como uma vtima tpica das

 iluses de que o ( novo ) Wittgenstein nos tentar agora libertar. ^^ 38 No 

 decerto fcil determinar o que o pensador austraco tinha em mente quando

 afirmou a um contemporneo , no estilo enigmtico que lhe era peculiar , como o

 Tractatus constitua aos seus olhos a exposio perfeita de uma concepo no

 somente oposta s das Investigaes , mas que devia ser considerada igualmente ,

 num certo sentido , como a nica que lhe podia ser oposta. ^^ 39

 Tentaremos aqui , antes de mais , explicitar uma noo reconhecida como capital :

 os jogos de linguagem , ^^ 40 espcie de fio de Ariana que nos guiar em torno do

 sentido geral das teses relativas  linguagem .
 A citao inicial das

 Investigaes , retirada das Confisses de Santo Agostinho ,  o ponto de partida

 para a exposio do modelo que Wittgenstein pretende apresentar , e mais no 

 que ilustrativa do seu prprio paradigma no Tractatus .
 Na concepo

 agostiniana , a funo principal da linguagem consiste em conceber todas as

 palavras como aprendidas e funcionando  maneira de nomes ( a linguagem como

 nomenclatura ) , ou seja , como possuidoras de uma significao ( sob a forma de

 algum objecto real , mental ou ideal , pouco importa ; um significado , em suma )

 que lhe  correlativa .
 A conexo entre uma palavra ( nome ) e a sua significao

  levada a cabo por um acto de ostentao ou mostrao ou ainda de

 demonstrao .
 Ao construir a teoria dos jogos de linguagem simples ( como o do

 comerciante ou do pedreiro ) e considerando nela palavras com modalidades de uso

 e de apreenso manifestamente diversas , Wittgenstein mostrou como o modelo

 agostiniano no  aplicvel ao conjunto das palavras da nossa linguagem .
 De

 facto , como sugere nas Investigaes , no s no utilizamos da mesma forma

  utenslios  diferentes como laje , cimo ou este , mas tambm o efectivar da sua

 significao no pode ser conhecido atravs do modelo da  denominao

 ostensiva . ^^ 41 A diversidade dos jogos de linguagem no pode , de forma alguma ,

 ser uniformizada por uma frmula universalmente aplicvel , de modo a resultar

 em algo como  esta palavra designa isto  ou  cada palavra da linguagem designa

 algo . ^^ 42 Esta frmula deriva do modelo de  apreenso ostensiva  dos nomes das

 coisas , abusivamente considerado como fundamental ( ao fazer aceder as crianas

  linguagem ) e universal ( aplicvel a todas as espcies de palavras ) , e que

 teria o efeito de uniformizar o campo semntico , e logo o pensamento .

 A noo de jogo de linguagem surge associada por Wittgenstein  prtica e ao

 uso que se faz da linguagem ; usamos as palavras  semelhana de um daqueles

 jogos por meio dos quais as crianas aprendem a sua lngua natal .
 Porm , uma

 criana que pela primeira vez aprende a linguagem no pode ainda entender as

 explicaes indicativas , uma vez que no dispe de nenhuma articulao

 estrutural do mundo que lhe diga a que se alude em cada caso , nem conhece a

 funo que a palavra tem na linguagem .
   preciso j saber ( ou dominar ) um

 mnimo para poder perguntar pelo nome de uma coisa.  ^^ 43 A concepo

 agostiniana prev a criana como podendo j pensar , mas no ainda falar : e aqui

 a inverso profunda que Wittgenstein ento prope .

 Ora , verificamos aqui tambm o acordo com a posterior proposta de Ricoeur de

 uma semntica de profundidade .
 Vimos antes , com a tese hermenutica , como era a

 um mundo possvel e a um modo possvel de algum nele se orientar que a

 semntica se dirigia , um mundo com dimenses abertas e descortinveis pela

 interpretao .
 Numa clara aluso  concepo agostiniana diz-nos Ricoeur :  Vai

 [ o discurso ] alm da mera funo de apontar e mostrar o que j existe , e neste

 sentido , transcende a funo de referncia ostensiva , ligada  linguagem

 falada .
 Aqui , mostrar  ao mesmo tempo criar um novo modo de ser.  ^^ 44

 A definio de jogo de linguagem agora dada por Wittgenstein  clara : chamamos

 jogo de linguagem  ao todo formado pela linguagem com as actividades com as

 quais ela est entranada  ; ^^ 45 e assim , as palavras designam qualquer coisa

 dependente do modo como so usadas .
 Como as ferramentas que compem uma caixa

 de ferramentas , cada uma com a sua funo distinta , tambm as palavras se

 encontram arrumadas , com as respectivas funes a que correspondem .

 Wittgenstein , neste momento , tende a reduzir ter o mesmo sentido a efectuar a

 mesma coisa , sugerindo que traduo e sinonmia reenviam a uma famlia de usos :

  Num grande nmero de casos , se bem que nem em todos , em que utilizamos a

 palavra significado , ela pode ser assim definida : o significado de uma palavra

  o uso que ela tem na linguagem.  ^^ 46 A linguagem surgia , de novo , como uma

 actividade no sujeita a regras rgidas , mas a regras com uma inexaurvel

 margem de indeterminao e sujeita ainda a novas e ulteriores regras e

 restries que o uso requerer .

 E aqui surge , tambm , um ponto que julgamos de importncia capital , quer na

 oposio ao anterior paradigma wittgensteiniano , quer no desenvolvimento da

 presente posio : uma regra no constitui uma prescrio executiva e no tem um

 fundamento lgico para a escolha das modalidades da linguagem , mas apenas a

 circunstncia factual que os homens produzem .
 Quer isto dizer que as regras so

 inferidas pelo jogador , durante a observao do decurso do jogo , pela maneira

 como ele  jogado e pelo comportamento dos jogadores .
  Aprende-se o jogo vendo

 como  que os outros o jogam . ^^ 47 Trata-se , sem dvida , de uma assero que

 significa , de novo , a reafirmao do carcter social da linguagem e da

 comunicao , fazendo justia s intuies aqui apresentadas , desde o

 interaccionismo simblico de Mead .
 Segundo esta ideia , toda a compreenso do

 sentido supe a respectiva participao no jogo lingustico , em cujo contexto

 se liberta , a priori , a estrutura de sentido de uma situao .
 Quer isto dizer

 que , tambm em acordo com a doutrina de Wittgenstein , a compreenso do sentido

  substituvel pela descrio externa da conduta .
 Por ltimo , toda a conduta

 humana apenas resulta acessvel dentro dos limites de um jogo lingustico , ou

 seja , enquanto conduta compreensvel e com sentido. ^^ 48

 Mas tambm o uso no  uma regra normativa que possa ser imposta  linguagem :

 ele surge da prpria linguagem ,  o que h de habitual no seu decurso , e  a ,

 na prpria realidade da linguagem , que o seu ideal deve ser procurado .
 J  no

 procuramos a ordem ideal , tal como se as nossas frases habituais no tivessem

 ainda um sentido acabado e como se tivssemos de construir uma ordem perfeita  ,

 de rigor exacto .
  outra agora a forma de estabelecer a ordem :  onde existe

 sentido , existe ordem.  ^^ 49 Wittgenstein defende , assim , como mesmo na mais

 vaga das proposies deve existir uma ordem perfeita , desde que haja sentido .

 Do mesmo modo , qualquer definio , ostensiva ou verbal , no pode funcionar ( ser

 compreendida ) se no conhecermos antes o papel ( uso , funo ) fundamental da sua

 expresso. ^^ 50 Uma expresso pode muito bem esclarecer-nos sobre o significado

 de mesa , quando nos referimos a esse objecto concreto ( quando sabemos que no

 utilizamos essa palavra como nome de outra coisa ou para exprimir alguma

 sensao ) .
 Mas a definio no pode traduzir adequadamente a diferena entre

 categorias de palavras , porque - e aqui reside o perigo da frmula da definio

 - elas funcionam sempre segundo o modelo da denominao ; isto  , tratam

 indiferentemente todas as palavras como nomes .

  por isso que Wittgenstein diz que inicialmente ns temos  aprendizagens

 ostensivas  e no  definies ostensivas . ^^ 51 Tambm por isso , o acto de

  ostentao efectiva  ( gesto ) ou verbal ( cada palavra reenviar a cada

 significao ) no pode ser entendido se no nos soubermos j servir dos

 diferentes tipos de utenslios que a linguagem compreende .
 Quando dizemos so

 sete , somos compreendidos se o outro souber que nos servimos de nomes de

 nmeros de modo diferente de nomes de objectos .
 E a situao ainda mais se

 complica se eu enunciar  isto  um sonho  .
 Em suma :  o sentido de uma palavra 

 aquilo que a explicao do sentido explica . ^^ 52 Contudo , esta explicao do

 sentido necessita de ser procurada , como veremos .

 No entanto , no se trata aqui apenas de uma mera concepo instrumentalista da

 linguagem ; tambm Wittgenstein a defende para alm dessa concepo com o

 institucionalismo da aco .
 A obedincia a uma regra , a aces como um relato ,

 a uma ordem dada ou recebida e assim por diante , no  algo feito por um nico

 homem e apenas uma vez na vida .
 A obedincia  antes em relao a costumes , a

 usos e instituies .
 E , por isso , a filosofia enquanto anlise da linguagem no

 pode ter como tarefa rectificar a linguagem ou desenvolv-la , procurando uma

 forma mais completa ou perfeita .
 A filosofia  no pode de forma alguma intervir

 no uso efectivo da linguagem  ,  no pode fundar a linguagem  , ^^ 53 antigo sonho

 neopositivista .
 Pode , to s , descrever a linguagem , deixando depois tudo como

 encontrou .
 No explica nem deduz coisa alguma : limita-se a pr as coisas 

 nossa frente .
 Pode ainda comparar vrios jogos lingusticos entre si e at

 mesmo estabelecer entre eles uma ordem , visando uma tarefa particular mas ser

 ento uma ordem entre as muitas possveis ; ^^ 54 assume-se sem dvida aqui a

 defesa da multiplicidade de linguagens .

 Variabilidade , linguagens e vivncias

 Ao longo das Investigaes , a linguagem surge como um instrumento para resolver

 situaes existenciais .
 Trata-se de uma imagem que nos remete para o  11 das

 Investigaes temos uma caixa de ferramentas possuidoras de uma aparente

 identidade quanto  forma ( veremos adiante a importncia de tais semelhanas ) ,

 mas possuindo funes diferentes , e passveis de uso nas situaes mais

 diversas .
 A forma como agrupamos palavras e conceitos ( como construmos jogos

 de linguagem )  a explicitada : depende da finalidade da classificao e da

 nossa inclinao .
  evidente o afastamento em relao s intenes iniciais de

 Wittgenstein , dirigidas  anlise completa das proposies , onde , no fim ,

 encontraramos elementos estveis , imutveis .
 Teses que supunham na linguagem

 uma sistematizao e implicavam a existncia de um sentido analtico nico e

 determinado , para cada palavra ou proposio .
 Em suma , um mito analtico que

 supunha a possibilidade de traduzir os diversos jogos de linguagem num discurso

 lgico nico , que diria o sentido do essencial .

 Ora , a exigncia de regras rgidas  explicitamente oposta  constatao da

 infinita variedade da linguagem. ^^ 55 Wittgenstein ataca assim o postulado da

 anlise nica e absoluta , e introduz na relao mundo-linguagem o carcter no

 necessrio que reconhecera nos factos do mundo .
 E , se tal relao no 

 necessria , pode ento assumir formas diferentes ; so possveis diversas formas

 de linguagem , correspondentes s diversas formas que a relao pode assumir .
 O

 esquema terico tradicional , assumido no Tractatus ,  agora apenas uma das

 infinitas formas de linguagem .
 Infinitas porque se trata de uma multiplicidade

 que no pode ser assumida de uma vez por todas : novos jogos lingusticos e

 formas de linguagem nascem continuamente , isto enquanto outros caiem em desuso

 ou so esquecidos. ^^ 56 As palavras oscilam entre vrias possibilidades

 ( aparentadas , como veremos ) at se fixarem , em cada altura , no significado que

 mais lhes convm .
 Todavia , pode na locuo imediata uma palavra saltar para

 outro significado sem isso implicar qualquer aplicao incorrecta da linguagem .

  clebre a passagem Bblica em que Jesus Cristo , dando conta desta

 caracterstica da linguagem embora no conste que fosse especialmente letrado

 brincou com os significados da mesma palavra , quando um dia decidiu informar o

 apstolo So Pedro do seguinte :  tu s pedra ( Pedro ) , e sobre esta pedra

 edificarei a minha Igreja.  ^^ 57 Alm disso , estudiosos h que consideram haver

 mais de trs mil trocadilhos ou jogos de palavras s nas peas de Shakespeare ,

 verdadeiro malabarista da lngua inglesa , que dera bem conta do carcter

 ambguo das palavras ( e tambm das aces e dos acontecimentos ) e nele centrou

 alguns dos mais notveis momentos de criao artstica .

 Sublinhe-se , no entanto , o carcter pblico da observncia de regras , deduzido

 exactamente da subordinao dos jogos de linguagem ( como actividade ) a essas

 mesmas regras .
  Por isso , seguir uma regra  uma praxis. ( ...
 ) e por isso no

 se pode seguir a regra privatim . ^^ 58

 Ora , esta explanao de Wittgenstein sobre o que  seguir uma regra  dada ,

 como  bvio , com a preocupao de elucidar a natureza da linguagem ; no deixa ,

 contudo , de mais uma vez lanar luzes sobre a dimenso simblica do

 comportamento humano , aplicando a este domnio a noo de regra .
  neste

 sentido que , na esteira de Wittgenstein ( e de Max Weber , neste aspecto ) , Peter

 Winch define a natureza do comportamento significativo : o que se intenta

 subjectivamente , segundo uma configurao significativa de circunstncias

 ( motivo ) que para o agente ou observador surge como uma razo significativa do

 dito comportamento. ^^ 59

 Dissolvendo o enquadramento terico-lingustico do Tractatus , Wittgenstein

 fornece agora uma pesquisa gramatical dos usos da linguagem , opondo  anterior

 pretenso universalista um modelo gramatical de linguagem das experincias

 individuais .
 Torna-se agora de novo plausvel a tradio que , unindo

 pensamentos marcantes mas distintos , se formula no esprito da considerao

 kafkiana :  Ests ridiculamente ajaezado por este mundo.  ^^ 60 A expresso jogos

 lingusticos  , assim , utilizada para sublinhar a linguagem como actividade ou

 forma de vida : ^^ 61 com eles damos ou obedecemos a ordens , descrevemos um

 objecto e construmo-lo a partir de uma descrio , relatamos acontecimentos ou

 especulamos sobre eles , traduzimos de uma lngua para a outra as possibilidades

 de relao no mundo so mltiplas. ^^ 62

 A heterogeneidade dos jogos lingusticos  de tal ordem que no podem ser

 reduzidos a um qualquer conceito comum , que os classifique isoladamente , fora

  deste mundo  .
 Sobre a procura de um elemento constante , determinado e fixo que

 resista a tal heterogeneidade , Wittgenstein lana o desafio :  Olha , para ver se

 tm alguma coisa em comum  .
 Contudo , acrescenta ainda :  no penses , olha . ^^ 63

 O que nos impede de ver os detalhes e as diferenas isto  , de ver ,

 simplesmente  a nossa aspirao ao geral e averso ao caso particular .
 E

 ento , recorrendo aqui  admirvel imagem expressa por Kafka :  Com a vista mais

 poderosa , podemos dissolver o mundo .
 Diante dos olhos fracos solidifica-se ,

 diante dos olhos mais fracos mostra o punho , diante dos olhos mais fracos ainda

 no tem vergonha , espanca aquele que ousa contempl-lo.  ^^ 64

 Ora , o conceito de jogo de linguagem implica , como vimos , uma ateno ao

 particular , ao contextual ( ateno que   a orao natural da alma  , dizia

 Benjamin no ensaio sobre Kafka ) ; ope-se aos postulados universalistas que

 esquecem a inelimitvel singularidade do indestrutvel sujeito lingustico .

 Segundo nos dizia ainda Kafka numa bem densa reflexo :  O indestrutvel  um ;

 cada indivduo o  ao mesmo tempo que  comum a todos.  ^^ 65

 Diz-nos Wittgenstein :  Vers parecenas , parentescos , e em grande

 quantidade.  ^^ 66 Desta forma , tal como distinguimos semelhanas entre os

 membros de uma famlia , parecenas fsicas , psquicas ou outras , que se

 sobrepem e se cruzam da mesma maneira , tambm os conceitos tm fronteiras de

 uso delimitadas .
 Parecenas de conjunto e de pormenor .
 E assim o recurso aos

 exemplos e s metforas , uma constante na Investigaes : cerca de noventa por

 cento do seu contedo so descries , exemplos e metforas ; ^^ 67 traando as

 indelveis fronteiras na tenso entre individualismo e sociabilidade .
 A

 linguagem  compreendida , aqui , plena de mediaes que so as etapas do

 processo de cognio e de avaliao cognitiva ; subsiste ainda a tenso entre

 aparncia e realidade , entre substncia e atributo , que lhe confere

 autenticidade. ^^ 68

 A propsito da construo dos jogos de linguagem , e considerando as relaes de

 parentesco na sua elaborao , toda a descrio  algo que assenta no

 privilegiar de metforas sem razo suficiente para a sua escolha , sendo que 

 no privilegiar de certas metforas que se joga grande parte dos antagonismos

 entre os homens. ^^ 69 Poderia , ainda assim , ser possvel traar diversos

 conceitos precisos que denotassem , cada um , tal ou tais aspectos , tais

 semelhanas e diferenas , de um tecido conceptual de base .
 Para uma qualquer

 finalidade , poderemos traar fronteiras : mas no ser certamente essa

 delimitao a marcar a possibilidade de uso desse conceito delimitado .
 A

 verdadeira questo  que o traado que eu operar no coincidir necessariamente

 com o que outro traar .
 Sobre tal linha de fronteira ,  eu no a poderia

 reconhecer como aquela que eu sempre quis traar , ou que tinha traado em

 mente  , ^^ 70 observa Wittgenstein .

 O conceito que cada um traar no ser o mesmo que outro delimitar : antes lhe 

 aparentado .
 Wittgenstein lembra que Frege comparava um conceito com uma rea , e

 que depois observava que uma rea com fronteiras vagas no  uma rea .
 A

 questo que assim se coloca  a de saber se um conceito com limites

 indeterminados ainda  um conceito. ^^ 71 Mas se , como vimos antes , o significado

 de uma expresso consiste no seu uso , e os conceitos coincidem com o

 significado das expresses ( sentido ) , ^^ 72 ento os conceitos relativos ao

 domnio emprico so sempre conceitos abertos e mesmo os que , em determinado

 momento surjam fixos podem , subitamente , oscilar e tornarem-se vagos .

 A grande ausncia

 Face ao referido na seco anterior , a linguagem  , afinal , um  sab-lo e no

 ser capaz de o dizer  , um  saber de algum modo equivalente a uma definio sem

 palavras , de tal modo que ao ser posto em palavras eu o posso reconhecer como

 expresso do meu saber.  ^^ 73

  este um aspecto central deste trabalho e , em certa medida , recorrente , nas

 questes que temos vindo a desenvolver .
  uma questo necessria sobretudo para

 mostrar toda a distncia que existe entre reagir simplesmente de forma regular

 a um estmulo verbal ( e aqui tendemos para a instrumentalidade pura da

 linguagem , para a marcuseana linguagem administrada ) e o facto de utilizar um

 signo propriamente dito , como um nome , para introduzir um elemento ausente do

 contexto .
 Trata-se , em suma , de uma questo que nos remete para uma outra , que

  como aprendemos a designar e nomear no objectos exteriores , mas antes

 sensaes , impresses , estados ou processos mentais objectos de sentido

 interno .

  esta uma questo que atormentou , de forma significativa , a conscincia

 moderna que postulou a crise da linguagem , visvel entre outros desde Celan a

 Benjamin , a Kraus ou a Kafka ( os mais citados ) .
 Ainda em Agosto de 1913

 escrevia o escritor de Praga no seu Dirio :  Quantas falsas verdades de que

 tinha perdido toda a noo sobem como o resto  superfcie !
 Se a unio real

 fosse to permevel como a real separao , teria certamente feito bem .
 Dentro

 de mim prprio no h , sem relaes humanas , mentiras visveis.  ^^ 74 E  este o

 problema que Wittgenstein coloca num dos desenvolvimentos mais clebres mas

 tambm mais controversos das Investigaes , e que , pela sua importncia para

 este trabalho , merecer alguma ateno : a sua tese da linguagem privada .

 Por linguagem privada Wittgenstein entende uma linguagem que no s no 

 visvel em factos , mas ainda que no pode ser compreendida por outro que no o

 seu utilizador .
  Poder-se-ia falar de uma compreenso subjectiva .
 E poder-se-ia

 chamar linguagem privada a sons que eu pareo compreender , mas que ningum mais

 compreende.  ^^ 75 A principal razo dessa impossibilidade  que s esse

 utilizador est em condies de saber o que est em questo quando usa a

 linguagem s sensaes imediatas e privadas apenas o indivduo pode aceder ,

 uma impossibilidade que toca no vrtice do que tem sido um dos temas principais

 deste trabalho , a comunicabilidade da experincia .
  assim que nos aproximamos

 ainda um pouco de Benjamin e de Gadamer , e nos afastamos da ideologia que

 prescreve a linguagem instrumental , inslita acompanhante .

 A ttulo unicamente ilustrativo , recordamos como  frequente a constatao da

 impossibilidade de expressar vivncias internas por parte de poetas e artistas .

 Neste sentido , lembramos o jovem Werther , a clssica personagem de Goethe , que ,

 nas suas epstolas a propsito de um estado de alma causado pelo ambiente

 buclico que experienciava , tendo como interlocutor o crepsculo , escrevia :

  ah !
 , pudesses tu dar expresso a isto , pudesses tu insuflar no papel a vida

 ardente e plena que existe em ti , para que ele se tornasse o espelho da tua

 alma , tal como a tua alma  o espelho do Deus infinito !
 Mas a verdade , amigo , 

 que fico aniquilado ao faz-lo , acabando por sucumbir ao poder do esplendor

 destas vivncias.  ^^ 76  apenas um exemplo entre os mltiplos possveis ; a

 conscincia europeia do nosso sculo est amplamente documentada com

 referncias  inanidade da linguagem. ^^ 77

 Mas a questo  que  uma outra pessoa no pode compreender esta linguagem . ^^ 78

 Dissramos antes que h jogos que se jogam sozinho , ^^ 79 e assim , deste modo ,

 inicia Wittgenstein o que alguns consideram ser a sua exposio de tentativas

 de refutao de uma linguagem privada .
 A tese de Wittgenstein sobre a linguagem

 privada  elucidada sobretudo na seco 293 .
 Dando conta da impossibilidade

 prtica de extrair palavras de todos os factos , retractados em palavras pelas

 regras , mesmo assim h uma suposio que  criada .
 Usamos uma imagem ; uma

 imagem , repita-se , que permitir a formulao de hipteses acerca do objecto ou

 da sensao , e da sua relao com a pessoa .
  A imagem mental da dor entra no

 jogo de linguagem ; apenas no entra como imagem.  ^^ 80 A sua tese  ,

 simplesmente , no que um objecto privado  suprimido da nossa linguagem , mas

 que a sua imagem deve desempenhar outros papis nos nossos jogos de linguagem ,

 para alm de to s representar um objecto privado .
  visvel , nesta ideia , a

 influncia do estruturalismo lgico , concepo filosfica tradicional que

 defendia como  as sensaes so intransmissveis , ou antes , tudo o que nelas 

 qualidade pura  intransmissvel e jamais impenetrvel.  ^^ 81 Por outras

 palavras ,  uma imagem mental no  uma imagem , mas uma imagem pode

 corresponder-lhe.  ^^ 82

 Ao contestar a possibilidade de uma linguagem privada , Wittgenstein no ter

 querido dizer que as descries de sensaes ou de experincias privadas no

 teriam sentido se no fossem publicamente verificveis ou confirmveis ( pelo

 menos em princpio ) , mas simplesmente que a linguagem em que falamos de coisas

 desse gnero no tem sentido seno como parte de uma linguagem pblica mais

 vasta , com outros jogos de linguagem sobre outras coisas diversas .
 Um dos

 principais exemplos que Wittgenstein fornece de como as palavras se referem s

 sensaes , e como  que essa conexo  estabelecida , encontra-se na seco 244

 das Investigaes , com a imagem da palavra dor :  Eis uma possibilidade :

 estabelecer uma conexo entre a palavra e a expresso primitiva , natural , da

 sensao , e substituir a expresso natural pela palavra .
 Uma criana fere-se e

 grita ; os adultos falam com ela , ensinam-lhe a fazer exclamaes e , mais

 tarde , a dizer frases .
 Ensinam  criana um novo comportamento de dor. 

 Parece-nos ser este um bom exemplo de um tipo de esquema pblico que permite

 que diferentes pessoas comparem as respectivas sensaes .
 Segundo este modelo ,

 uma sensao  um caso de dor quando  do tipo que condiz , pelas suas

 caractersticas , com o que  normalmente considerado e ao qual se reage , como

 no exemplo referido .
 A tese de Wittgenstein  pois , como vemos , que o condizer

  conceptual ( gramatical ) e no factual .

 Por outras palavras , aquilo a que chamamos  dar um nome  dor  , significa na

 realidade a substituio das expresses naturais inarticuladas da sensao

 pelas expresses artificiais articuladas e elaboradas .
 Parece porm , em acordo

 com o que de Wittgenstein foi j dito , absurdo pretender que exista entre a

 expresso da dor e a prpria dor uma descrio da dor .
 Pergunta ele :  Ento

 como  que eu posso querer ainda entrar com a linguagem entre a dor e a sua

 exteriorizao ?
  ^^ 83

 Olhando de lado a prpria sensao

 Um corolrio notvel das observaes antes referidas  a importncia das

 vivncias privadas reais para as linguagens pblicas em que podemos exprimir as

 primeiras ou pelo menos falar delas em acordos de pressuposies tcitas ,

 segundo Wittgenstein .
 Mas o problema que se coloca  justamente a criao da

 linguagem pblica que exprima as vivncias privadas .

 Para esclarecer a significao de uma palavra  bastante til , segundo

 Wittgenstein , verificar por que tipo de aprendizagem ela foi adquirida .
 E

 assim , uma linguagem intrinsecamente inverificvel , como  o caso da linguagem

 privada ,  uma linguagem em que hesitamos em assegurar que h um sentido e que

 o compreendemos .
 Sente-se , nesta tese , a presena incontestvel do positivismo

 lgico , que decerto teve um importante papel na emergncia da linguagem

 privada .
 Encontramos de novo uma verso da concepo filosfica tradicional e

 corrente , que Poincar exprimiu :  As sensaes de outro sero para ns um mundo

 eternamente fechado .
 Se a sensao a que chamo vermelho  a mesma que aquela a

 que o meu vizinho tambm chama vermelho , ns no temos qualquer meio de

 verificar.  ^^ 84

 A ideia  tambm retomada nas Investigaes , nas seces 273-274 .
 Questionando

 a palavra vermelho e o seu sentido para cada um e para todos , Wittgenstein

 afirma como a compreenso do  dizer que se refere a , em vez de designa ( r )   a

  expresso mais acertada , do ponto de vista psicolgico , para uma determinada

 vivncia.  Ilustra ainda a ideia :   como se eu deitasse um olhar de lado para

 a minha prpria sensao ao pronunciar a palavra , como se me dissesse : eu sei

 realmente o que quero dizer com isto . ^^ 85  possvel encontrar neste modo de

 actuao princpios da ( re ) criao que serviam de guia tambm na traduo ,

 como vimos .
 Tambm aqui a linguagem vive essencialmente dessa tenso ,  margem

 entre o original e o novo texto , numa traduo que chammos lateral / litoral ,

 fiel a si prpria e  coerncia interna .

 A partir daqui , somos tentados a concluir que , na incapacidade de designar uma

 sensao privada , a palavra vermelho faz pelo menos referncia , ou

 relaciona-se , a uma sensao desse gnero ou a uma elemento dessa classe .
 Est

 assim presente toda uma filosofia da linguagem transportada para a prtica da

 comunicao ( mas muito para alm dos limites da mera comunicao ) que , passando

 pelo interaccionismo , ganhou forma na hermenutica deste sculo , em Benjamin e

 Gadamer , e onde a linguagem se transforma , nessa alquimia verbal actualizadora ,

 em processo de individuao no confronto com o Outro .
 Neste sentido , recorde-se

 como o principal objectivo de Wittgenstein nesta sua discusso acerca das

 vivncias privadas era antes um jogo de linguagem pblico para que se possa

 falar delas , e no a constatao da sua inacessibilidade ou inexprimibilidade .

 Mas , noutro momento , afirmaria Wittgenstein como esse  um benefcio puramente

 ilusrio .
 Porque so diversas as questes que se colocam : como se efectua tal

 operao misteriosa e oculta , que consiste em manter sob o olhar a impresso

 pessoal , a que se recorre sempre que se sinta necessidade de saber do que fala ?

 Que independncia podemos garantir de exercer o tal controlo lateral sobre todo

 o processo ?
 E ainda , para visar as coisas , saberemos ns dar um nome digno

 desse nome , susceptvel de funcionar como tal , e de ser utilizado realmente

 numa linguagem ?
 ^^ 86 Por outras palavras , a questo que se afirma

 verdadeiramente resume o seguinte pressuposto : no podemos comunicar a outro

 seno a forma , e no o contedo .
 Donde , falamos a ns mesmos sobre o contedo .

 Mas como se relacionam as nossas palavras com o contedo de que somos

 conscientes ?
 E para que fim ?

 Ao contestar de certo modo a possibilidade de uma linguagem privada ,

 Wittgenstein no ter , todavia , querido dizer que as descries de sensaes ou

 experincias privadas so sem sentido se no forem publicamente verificveis ou

 confirmveis : a forma como falamos de tais referentes  antes uma parte da

 linguagem pblica mais vasta , que comporta todas as outras coisas do gnero .
 E

 so o incio e no o fim de um jogo de linguagem : na medida em que eu o utilizo

 uma linguagem pblica , para alm de me constituir como sujeito que sou , 

 essencial que os outros , sendo informados de que sou , ajam e reajam de certa

 forma em funo do que digo ;  necessrio um jogo de linguagem pblico para

 constituir o significado da nossa fala sobre sensaes , e que lhe d

 sustentao semntica. ^^ 87 Uma sustentao problemtica , porque apontada ao uso

 e ao outro ,  uniformizao semntica , em ltima instncia instrumental , de

 contedos de improvvel circunscrio e concreo. ^^ 88 Porm , fazendo justia 

 intuio do interaccionismo simblico desde Mead ,  o homem  um ser racional

 porque  um ser social . ^^ 89 O significado apenas  apercebido , nos seus

 contornos , a partir da atitude performativa dos participantes em cada situao ;

 a compreenso de significados , de intenes ou de textos no poder ser

 reconstruda como conhecimento de factos objectivos .
 A soluo do problema que

 Wittgenstein prope , como explicita Saul Kripte , antes liga o termo significado

 a conceitos como regra ou modo de aplicao. ^^ 90

 Da imposio de regras como regulao da praxis

 Como anteriormente afirmmos , toda a filosofia da linguagem de Wittgenstein

 est de certo modo suspensa da existncia de proposies , que , na realidade ,

 so regras lingusticas .
 No ter esta filosofia a pretenso de questionar a

 gnese dos nossos conceitos ; antes se interessa pelo facto de termos os

 conceitos que temos - isto apesar da grande importncia do problema da

 aprendizagem e do objectivo declarado de o relacionar com o conceito de

 significao .
 Neste sentido ,  a explicao do esquema pblico / particular em

 que nos apoiamos para falar que aqui interessa , mesmo ( e em particular ) acerca

 das vivncias privadas .

 Para compreender uma situao fazemos uma conjectura , que  bem fundada se , por

 exemplo , pudermos constatar que a audio da palavra  regularmente acompanhada

 da ocorrncia de uma certa imagem , e posteriormente , de uma certa aco. His

 speech is their speech , nas palavras de Mead .
 Mas como tambm j vimos , no caso

 de uma linguagem privada o sujeito encontra-se , enfim , reduzido a apenas dizer

 que houve qualquer coisa que o fez dizer ...
 ; o que  to s uma causa e no

 algo verificvel , ajustvel a uma regra ou a um paradigma .
 Estamos de novo a

 jogar , de certo modo , com a natureza paradoxal da linguagem , em que a expresso

 lingustica bem sucedida se torna mais do que uma expresso individual , abrindo

 o espao da realidade comum. ^^ 91 Passa , ento , a existir algo entre ns ( o

 entre nous ) , flutuando a cada momento nesse ponto onde , em conjunto , sorvemos o

 mundo , um espao pblico , como explica Charles Taylor :  A linguagem cria o que

 podemos chamar um espao pblico , ( ...
 ) no qual coloca determinados contedos

 perante ns.  ^^ 92

 A questo que por agora se coloca  que , como afirma tambm Wittgenstein no

 Livro Azul ,  um homem que grita no escolhe a boca com que apela por ns.  E

 adivinha-se ento uma desproporo imensa , devoradora , galopante , entre as

 imagens privadas e as palavras pblicas .
 As consequncias desta questo ao

 nvel social so extraordinariamente importantes , e a contemporaneidade

 meditica a cada instante o comprova .
 Como refere Marcuse ,  os Governos e as

 mquinas , os controladores de ponto e os gerentes , os tcnicos em eficincia

 funcional , os sales de beleza dos polticos ( que garantem aos lderes a

 maquilhagem apropriada ) falam uma linguagem diferente e , portanto , parece ser

 deles a ltima palavra.  ^^ 93 E assim , constatamos hoje como o transmitido pelos

 media tem todo este efeito implacvel de montagem : acerca dos mais dolorosos ou

 terrveis acontecimentos sempre surge a insuportvel mas indispensvel voz de

 pose e artifcio , a voz da compostura oficial .
 Precisamente porque no  de

 todos os homens a palavra final , no  deles a boca com que apelam .
 E ento ,

 explica ainda Marcuse :   a palavra que ordena e organiza , que induz as pessoas

 a fazerem as coisas , comprar e aceitar.  ^^ 94 E aqui nos aproximamos uma vez

 mais do sentido daquela percepo que desde Mead nos acompanha : a significao

 tem uma referncia dupla , uma para a coisa que para ns mesmos indicamos , outra

 para a instncia a que se dirige o significado , primeiro ela  sempre um nome ,

 e depois um conceito .
 Neste jogo de incertezas se erguem e desmoronam as

 arquitecturas intelectuais , oscilando os significados decisivamente no sistema

 infinito de relacionaes mediante , embora , a conformao ou utilizao das

 possibilidades .

 Mas , para esclarecer a significao de uma palavra  necessrio questionar

 ainda por que tipo de aprendizagem ela foi ( ou pode ser ) adquirida ; por esta

 razo , a linguagem privada , inensinvel , no corresponde ao que consideramos

 ser utilizar uma linguagem .
 Uma linguagem  qualquer coisa que  essencialmente

 humana - no sentido em que  a partir do comportamento humano que interpretamos

 uma linguagem que nos  estranha. ^^ 95  neste contexto que surge o clebre dito

 de Wittgenstein :  se um leo pudesse falar , ns no o poderamos

 compreender  ^^ 96 , no apenas porque a sua vida social est organizada

 diferentemente da comunidade humana , mas sobretudo , como prope Intikka , porque

 os dados sensveis que constituem o mundo do leo so diferentes dos dados

 sensveis dos seres humanos Intikka sugere mesmo , em tom menos srio , que este

 exemplo seria talvez mais incisivo se usasse moscas , cujo aparelho perceptivo 

 mais gritantemente diferente do humano. ^^ 97

 Ora , o aspecto que importa salientar advm justamente desta ideia : h , sem

 dvida , jogos que jogamos sozinhos e em que os lances so privados .
 Contudo e

 este o argumento a destacar - , jogos que so parasitas dos jogos pblicos e

 que , alm disso , no podem desempenhar a funo semntica que os jogos de

 linguagem pblicos exercem .
 Como diz Wittgenstein ,  seguir a regra  uma

 praxis .
 E crer estar a seguir uma regra no  seguir a regra .
 E por isso no se

 pode seguir a regra privatim  ^^ 98

 Ao dizer que seguir uma regra  uma prtica , Wittgenstein avana que o conceito

 de aplicao de uma regra implica uma pluralidade de casos e de utilizadores .

 Apenas na medida em que nos referimos a um uso normal  que h uma relao

 entre a representao que me vem ao esprito e a utilizao que eu fao dessa

 representao ao longo do tempo .
 H pois  casos normais e casos anormais  , que

 funcionam na medida em que a imagem nos cria uma expectativa de aplicao ,

 porque em geral desta imagem os homens fazem esta aplicao .
 Quer isto dizer

 que o uso futuro est j presente de todo na compreenso , o dizer no querer

 dizer , o acto na inteno e a execuo na regra ;  de uma maneira estranha , a

 prpria aplicao j est , num certo sentido , presente . ^^ 99 Aqui reconhecemos ,

 uma vez mais , o papel decisivo da determinao pela tradio .

 Embora colocado de forma distinta , o problema hermenutico torna-se aqui

 central .
 A teoria tradicional do crculo hermenutico apresenta-se sob uma nova

 luz e readquire uma importncia fundamental : a compreenso implica sempre uma

 prcompreenso que  , por sua vez , pr-figurada pela tradio determinada na

 qual vive o intrprete e onde modela os seus juzos prvios , diria Gadamer .

 Reencontramo-nos , enfim , com uma percepo que no pode deixar de se colocar :

 toda a linguagem assenta numa significao social , pragmtica , em que  palavra

 e figurao constituem a argamassa que aglutina os elementos da clula

 tnica.  ^^ 100 Porm , e como nota Charles Taylor , se  certo que  sobre um pano

 de fundo implicitamente conhecido e compreendido que a prtica lingustica se

 move , este movimento  tambm na direco de uma actualizao do cdigo .
  esta

 faculdade que possibilita o aparecimento de novas expresses , inventadas no

 decurso da conversao , pela primeira vez articuladas a partir da compreenso

 implcita. ^^ 101

 Linguagem e limites do mundo : posies

 A linguagem est pois intimamente ligada  vida social humana , e em certa

 medida  mesmo constitutiva dela .
 Os reflexos desta assero para o

 desenvolvimento deste trabalho so significativos , sobretudo pelos paralelos

 que  possvel estabelecer com outras abordagens antes feitas , no obstante

 outras diferenas evidentes .
 Neste sentido , a comparao entre a perspectiva de

 Gadamer e a de Wittgenstein continua , pelo menos num certo nvel , simples de

 facilitar .
 Apesar da srie de contrastes que apresentam , no que respeita ao

 papel da linguagem na vida social humana as semelhanas so notveis .

 Mas antes das semelhanas , adiante-se o aspecto que constitui o principal

 contraste ente as duas posies .
 Mostrou-se que Gadamer definia a linguagem em

 termos ontolgicos ; no seguimento da tese de Heidegger de que a linguagem  a

  morada do Ser  , Gadamer defendia que  o que pode ser compreendido 

 linguagem  , fazendo desta ideia aspecto central do seu pensamento .
 Esta

 perspectiva da linguagem ope-se , obviamente ,  direco fundamental da teoria

 de Wittgenstein , essencialmente epistemolgica .
 O interesse deste pela

 linguagem  ditado pela tese de que no podemos conhecer nada do que est para

 alm da linguagem .
  de uma corrida contra os limites da linguagem que aqui se

 trata , no dizer de Wellmer , disputada desde as mais triviais falas ao domnio

 da arte : ento ,  falando na face de cada experincia individual  tambm falar

 na face da realidade.  ^^ 102

 A forma de evidenciar este contraste  sobretudo bem ilustrada pelos diferentes

 modos como Gadamer e Wittgenstein definem a ideia de jogo de linguagem .

 Wittgenstein refere-se  linguagem como um jogo , a fim de salientar que a

 linguagem  constitutiva da actividade humana : os seres humanos fazem coisas

 com as palavras .
 A posio de Gadamer , todavia , caracterizar-se- melhor com a

 afirmao :  as palavras fazem coisas connosco  , isto  , no jogamos ns jogos

 de linguagem , antes  a linguagem que nos joga pensamos dentro da linguagem , as

 palavras prescrevem os sentidos nicos em que podemos utiliz-las .

 Wittgenstein ainda est enredado nas preocupaes epistemolgicas que dominaram

 o pensamento Iluminista .
 Apesar de transcender muitas das dicotomias

 iluministas , recusar-se-ia a realizar a viragem crucial da epistemologia para a

 ontologia , que Gadamer efectuou .
 Em virtude de diferirem a este respeito , ambas

 as abordagens das possibilidades da linguagem divergem em aspectos

 significativos para esta anlise .
 Quer Gadamer quer Wittgenstein foram

 apanhados no que tem sido identificado como viragem lingustica na filosofia do

 sculo XX , e  a preocupao comum com a linguagem que define a semelhana

 entre si .
 Mas trata-se de uma semelhana bem mais profunda que um mero acordo

 sobre a temtica .

 Em primeiro lugar , a linguagem para Wittgenstein implica sempre um modo de

 vida ,  uma forma de vida  , o que  semelhante  valorizao do comunitarismo da

 abordagem gadameriana , que antes vimos .
 Em segundo lugar , o realce de Gadamer

 em que a linguagem no  como um instrumento que se possa pr de lado aps a

 sua utilizao  tambm repetido por Wittgenstein de forma muito semelhante .
 Em

 terceiro lugar , a famosa descrio de Wittgenstein dos jogos de linguagem

 encontra a sua contrapartida na posio de Gadamer : a linguagem  tambm para

 si algo em que entramos , uma actividade que partilhamos .

 A semelhana mais impressionante entre as abordagens da linguagem ditadas por

 Gadamer e Wittgenstein  assim a incapacidade de fornecer um ponto de

 compreenso fora do mundo linguisticamente constitudo pelos actores sociais ,

 incapacidade que admitem sem problemas. ^^ 103 Como Wittgenstein , Gadamer assere

 que os limites da linguagem so os limites do nosso mundo .
 Contudo ,

 vislumbramos tambm um acordo ( que , de forma mais profunda , encontra

 correspondncia em Heidegger ) no reconhecimento de que todas as explicaes ,

 enquanto enlaces de dados , pressupem j um compreender originrio de algo que

 pode libertar dados diversos e imprevistos , segundo o jogo lingustico

 envolvido com cada forma de vida .
  assim que nos aproximamos um pouco tambm

 de Benjamin , de Proust , de Kafka , entre outros , e de um dos seus temas

 principais : a recordao .
 H um mundo linguisticamente articulado

 pr-compreendido , e cujo sentido  posto em evidncia reactualizado ao ser

  tecido na substncia da vida vivida  de que nos falava Benjamin .

 Mas retomando : este acordo fundamental de posies tem uma srie de implicaes

 importantes para a compreenso de uma abordagem lingustica .
 Tanto Gadamer como

 os wittgensteinianos rejeitam explicitamente a busca da definio do

  conhecimento objectivo  dos cientistas naturais no domnio das cincias

 sociais , negando que o modelo cientfico oferecido pelas cincias naturais seja

 apropriado  investigao neste tipo de cincia .
 Outra semelhana fundamental

 entre estas duas posies  a recusa comum em analisar a intencionalidade

 subjectiva .
 Com Gadamer vimos como a interpretao  a fuso de horizontes , o

 que retira qualquer pretenso em obter um sentido objectivo intemporal , vincado

 pela subjectividade do autor : ao invs , autor e intrprete fixam historicamente

 o sentido .

 Podemos observar uma ideia semelhante no exemplo do escaravelho das

 Investigaes .
 A palavra escaravelho tem um uso na linguagem das pessoas .
 Se

 assim for podemos compreender ao que se est a referir aquele que usa essa

 palavra contudo , para isso precisa tal palavra de um jogo de linguagem pblico

 que lhe d sustentao semntica ( e o mesmo se passa sobre as linguagens

 privadas das sensaes ) , sendo fundamental , como  evidente , o jogo de

 linguagem interpessoal .
 Ora , desta posio comum , ditada pela rejeio da

 intencionalidade subjectiva , um aspecto de especial importncia h a destacar .

 Ao salientarem a natureza intersubjectiva da compreenso , tanto Gadamer como

 Wittgenstein situam a linguagem directamente no mundo comum das prticas

 humanas , em vez de a colocarem no mundo obscuro privado da subjectividade

 individual .
 A convergncia metodolgica entre ambos estende-se , assim , at a

 uma concordncia bsica sobre a definio da linguagem : ambos definem linguagem

 como discurso pblico mais do que traduo do discurso interior .
  este acordo

 sobre a natureza pblica da linguagem que , mais do que qualquer outro factor ,

 assemelha as abordagens da linguagem geradas pelas suas teorias. ^^ 104

 Concluso

 As posies antes desenvolvidas , apesar de diversas entre si , oferecem

 vantagens significativas para as cincias da linguagem .
 De maior importncia

 ainda , o que uma anlise destes pensadores revela  que , apesar da concepo

 iluminista , as investigaes sobre os diversos aspectos do conhecimento caem

 inevitavelmente no erro , na inoperabilidade ou na confuso .
 O confronto do

 cientificismo aplicado  linguagem com as posies de Wittgenstein ( na ltima

 fase do seu pensamento ) e de Gadamer ,  em parte , exemplar disso mesmo .
 Mas

 tambm aqui , e muito embora como vimos estes dois pensadores faam um srio e

 notvel esforo por definir a base social do conhecimento ( pela linguagem )

 atravs da anlise da constituio intersubjectiva do sentido , os seus esforos

 tero eventualmente pontos fracos , em ltima instncia , quando admitem a

 constituio ( tambm individual ) do sentido .
 Ambos sustentam como h um eu que

 fala ( ou em que a linguagem fala ) .

 Ora , est fora de questo que , ao utilizarem o meio social que  a linguagem ,

 os actores sociais participam de modo decisivo nos sentidos fornecidos pela

 linguagem .
 Mas  aqui que surge a limitao falar da constituio individual no

 sentido no d conta de como  que a linguagem  constituda no mundo social .

 Ou seja , a confiana na intencionalidade individual como base do sentido torna ,

 no obstante , problemtico o carcter distintamente social da linguagem .
 De um

 modo redutor , podemos considerar que a percepo desta deficincia mais no 

 que uma consequncia da adeso moderna  dicotomia objectivo-subjectivo

 ( objecto-sujeito ) , um problema central na filosofia da conscincia .

 1 Wienerkreis

 2 Cfr .
 Russ , Jacquelline , La Marche des Ides Contemporaines , Paris , Armand

 Collin , 1994 , pg .311 .

 3 Cfr .
 Carnap , R. , citado por Max Black ,  Some problems connected with

 language  , in Shanker , Stuart ( org. ) , Ludwig Wittgenstein , Critical

 Assessments , Vol .1 , Londres , Routledge , 1997 , pg. 47 .

 4 Paul Lorenzen refere-se   fico de Carnap de uma linguagem ideal construda

 a partir de puras frases atmicas  , para a contrapor com a metfora do barco de

 Otto Neurath :  Ns somos como navegantes que tm de transformar o barco no alto

 mar , sem nunca poderem , numa doca , desmanch-lo ou reconstru-lo usando

 melhores materiais .
 S a metafsica  que pode desaparecer de vez .
 Os

 aglomerados imprecisos so sempre , de um modo ou de outro , parte constituinte

 do barco  , citados por Blumenberg , Hans , Naufrgio com Espectador , Lisboa ,

 Vega , 1990 , pg .99 .

 5 Cfr .
 Dummett , Michael , Les Origines de la Philosophie Analytique , Paris ,

 Gallimard , 1991 , pgs. 13-15 .

 6 Frege , G. , citado por Travis , Charles ,  Intuicionismo sublunar  , in Cadernos

 de Filosofia n3 / 1998 , Lisboa , Edies Colibri , 1988 , pgs. 20-21 .

 7 Ibidem .

 8 As influncias da escrita conceptual de G .
 Frege no Tratado Lgico-filosfico

 so explicitadas pelo prprio Wittgenstein nesta obra .

 9 Frege , G. , Uber die wissenschaftliche Berechtigung einer Begriffschrift ,

 1882 , citado por Travis , Charles , Op.cit. , pgs. 18-19 .

 10 Ibidem .

 11 A lngua ideal de Leibniz possui uma dimenso calculstica ou sintctica ( o

 clculo ratiocinator ) , e uma dimenso semntica ( a characterstica ) , definindo

 a primeira o sistema de signos e a segunda o universo do discurso a que aqueles

 se aplicam .

 12 McGuiness , Brian , Wittgenstein , Les Anns de Jeunnesse , Paris , Seuil , 1984 ,

 pg .48 .

 13 Ibid. , pg. 48 e segs .
 As posies tericas que adoptaram eram dirigidas j

 no para a codificao de vastos esquemas metafsicos modelados com base em

 algumas intuies globais da realidade , representados pela escola do idealismo

 de Green , Bradley e McTaggart , e que tinha exercido ampla hegemonia sobre a

 cultura filosfica inglesa das ltimas dcadas do sculo XIX , mas antes para a

 elaborao de instrumentos analticos destinados ao esclarecimento dos

 aparelhos lgico-lingusticos , operantes nas cincias naturais , na matemtica ,

 na lgica e na filosofia .

 14 Wittgenstein , Ludwig , Tratado Lgico-filosfico , Lisboa , Fundao Calouste

 Gulbenkian , s / d. Nota : ao longo deste trabalho , para maior simplificao , esta

 obra ser abreviada por Tractatus , conforme  generalidade das obras

 consultadas .

 15 Wittgenstein , Ludwig , citado por Gargani , Aldo , Wittgenstein , Lisboa , ed .

 70 , 1988 , pg. 17 .

 16 Wittgenstein , Ludwig , Tractatus ,  3.1 .

 17 Ibid. ,  3.142 .

 18 Ibid. ,  3.144 .

 19 Analogia que , no obstante ser superiormente elucidativa , no esconde pois o

 paradoxo que  o recurso a uma imagem ou comparao em tal contexto .

 20 Wittgenstein , Ludwig , Tractatus , pg. 56 .

 21 Ibid. ,  2.222 , pg. 38 .

 22 Ibid. , pg. 142 .

 23 Cfr .
 Ibid. , pg. 53 .

 24 Cfr .
 Hottois , Gilbert , La Philosophie du Langage de Ludwig Wittgenstein ,

 Bruxelas , Universit Libre de Bruxelles , 1991 , pg .63 .

 25 Cfr .
 Marcuse , Herbert , A Ideologia da Sociedade Industrial , Rio de Janeiro ,

 Zahar Editores , 1982 , pg. 92-94 .

 26 Wittgenstein , Ludwig , Tractatus , pg. 29 .

 27 Ibid. ,  4.0031 , pg. 53 .

 28 Ibid. ,  2.225 , pg .38 .

 29 Marcuse , Herbert , Op. cit. , pgs. 94-95 .

 30 Ricoeur , Paul , Teoria da Interpretao , pg. 98 .

 31 Cfr .
 Ibid. , pg. 98-100 .

 32 Kafka , Franz , Meditaes , pg. 120 .

 33 Musil , Robert , Op. cit. , pg. 307 .

 34 Wittgenstein , Ludwig , Investigaes Filosficas , Lisboa , Fundao Calouste

 Gulbenkian , 1987 .
 Para uma maior simplificao , ao longo deste trabalho esta

 obra ser designada apenas por Investigaes .
 A parte II foi escrita entre 1946

 e 1949 .

 35 Carnap , R. Intellectual Autobiography , citado por Pasquinelli , Alberto ,

 Carnap e o Positivismo Lgico , Lisboa , Ed. 70 , 1987 , pg. 28 .

 36 Wittgenstein , Ludwig , Investigaes , pg. 166 .

 37 Veja-se , a este propsito , o que considera Black :  Despojem o Tractatus da

 sua ontologia como Wittgenstein tambm o fez , e subsistem muitas coisas que so

 importantes .
 Wittgenstein no rejeitou o Tractatus como um erro colossal : os

 seus temas principais podem ainda ser discernidos na sua obra posterior.  ,

 Verificationism and Wittgensteins Reflections on Mathematics , Revue

 international de Philosophie , pg. 88-89 ( 1969 ) , pg290 , cit. por Bouveresse ,

 Jacques , Le Mythe de lIntriorit , Paris , Minuit , 1987 , pg. 35 .

 38 Ibid. , pg. 190 .

 39 Cfr .
 Malcom , N. , Ludwig Wittgenstein , A Memoir , Oxford , B. Blackwell , 1958 ,

 pg .69 .

 40 Em alemo Sprach Spiel ,

 41 Cfr .
 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  28 , pg. 193 .

 42 Ibid. ,  10 e 13 , pgs. 179 e 181 .

 43 Ibid. ,  30 .

 44 Ricoeur , Paul , Teoria da Interpretao , pg. 132 .

 45 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  7 , pg. 177 .
 Uma explicao para a escolha

 do termo jogo de linguagem  a dada por Malcom , que conta que um dia em que

 Wittgenstein se passeava ao longo de uma pradaria onde se disputava um jogo de

 futebol , e que , observando as funes de cada jogador , lhe veio subitamente a

 ideia de que tambm a linguagem  um jogo mas que se joga com as palavras .

 Citado por Hottois , Gilbert , Op. cit. , pg. 449 .

 46 Wittgenstein , Ludwig , Investigaes ,  43 , pg .207 .

 47 Ibid. ,  54 .

 48   luz deste ponto de vista que se torna possvel a interpretao de

 Wittgenstein desenvolvida de forma consequente por Peter Winch em A Ideia de

 uma Cincia Social e sua Relao com a Filosofia ( So Paulo , Companhia Editora

 Nacional ) .
 Com efeito , tambm Winch parte de que  o domnio da realidade nos 

 dado pela linguagem que usamos .
 Os conceitos que temos estabelecem para ns a

 forma de experincia que temos do mundo.  ( pg. 25 ) Ora , assim tambm as

 relaes de um homem com os seus semelhantes esto marcadas pelas suas ideias

 sobre a realidade ,  as relaes sociais so expresses de ideias sobre a

 realidade.  ( pg .32 ) Da a necessidade de seguir regras que orientem no s o

 comportamento da pessoa em questo mas tambm necessrias a quem observa , e a

 partir delas interpreta .

 49 Cfr .
 Wittgenstein , Ludwig , Op.cit. ,  98 .

 50 Cfr .
 Ibid. ,  28 .

 51 Ibid. ,  5-6 .

 52 Cfr .
 Ibid. ,  28 .

 53 Ibid. ,  124 , pg .262 .

 54 Cfr .
 Ibid. ,  132 , pg .264 .

 55 Cfr .
 Ibid. ,  100-102 , pp. 253-254 .

 56 Cfr .
 Ibid. ,  99 , pg. 253 .

 57 O verdadeiro nome de S. Pedro era Simo , mas , logo no primeiro encontro com

 Jesus , que falava aramaico , recebeu o nome / alcunha de Kefas , que nessa lngua

 semita significava rochedo , pedra .

 58 Ibid. ,  202 , pg .322 .

 59 Cfr .
 Winch , Peter , Op. cit. , pg. 51 .

 60 Kafka , Franz , Meditaes , pg. 119 .

 61 Cfr .
 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  19 .

 62 Cfr .
 Ibid. ,  23 .
 Nota : a prpria matemtica  um jogo lingustico , uma vez

 que fazer matemtica significa agir  de acordo com certas regras  , afirma

 Wittgenstein noutro momento .
 A necessidade que preside a esta actuao , o

  deve  ( must ) ,  prprio das tcnicas em que consiste a matemtica , e que

 constitui um modo particular de lidar com as situaes .

 63 Ibid. ,  65-66 , pg. 227 .
 A mesma ideia constitui um dos fundamentos da

 poesia de Fernando Pessoa , heternimo Aberto Caeiro .
 Uma convico presente em

 toda a obra sob este heternimo , de que citamos a ttulo ilustrativo :  O Mundo

 no se fez para pensarmos nele / ( Pensar  estar doente dos olhos ) / Mas para

 olharmos para ele e estarmos de acordo ...
 / Eu no tenho filosofia : tenho

 sentidos ...
  ou  O essencial  saber ver , / Saber ver sem estar a pensar , /

 saber ver quando se v , / E nem pensar quando se v / Nem ver quando se pensa.  ,

 O Guardador de Rebanhos .

 64 Kafka , Franz , Op. cit. , pg. 120 .

 65 Ibid. , pg. 122 .

 66 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  66 , pg. 227 .

 67 Cfr .
 Hottois , Gilbert , Op.cit , pg .117 .

 68 Cfr .
 Marcuse , Herbert , Op. cit. , pg. 93 .

 69 Cfr .
 Hottois , Gilbert , Op. cit. , pg .117 .

 70 Ibid. ,  76 , pg. 235 .

 71 Cfr .
 Ibid. ,  70-71 , pgs. 231-232 .

 72 Cfr .
 Ibid. ,  560-561 , pg. 455 .

 73 Ibid. ,  75-76 , pgs. 235-236 .

 74 Kafka , Franz ,  Dirio  , in Antologia de Pginas ntimas , pg. 69 .

 75 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  269 , pg. 347 .

 76 Goethe , Johann Wolfgang , A Paixo do Jovem Werther , Lisboa , Relgio d gua ,

 1998 , pg .131 .

 77 Outro exemplo  o da Carta a Lord Chandos , de Hugo von Hoffmannsthal , onde

 se pode ler :  Eu sentia um mal estar inexplicvel apenas por pronunciar as

 palavras esprito , alma ou corpo. ( ...
 ) Sucedeu-me querer repreender a minha

 filha Khatarina Pompilia , com a idade de quatro anos , por ter dito uma mentira

 infantil ; pretendia mostrar-lhe a necessidade de dizer sempre a verdade , mas ao

 faz-lo as noes que me vieram  boca tomaram subitamente uma colorao to

 mutvel , encavalitaram-se a tal ponto umas sobre as outras , que esvaziaram

 completamente a minha frase .
 Como que num acesso de doena , tendo efectivamente

 o rosto plido e sentindo uma violenta presso sobre as frontes , deixei a

 criana sozinha , bati a porta atrs de mim e s recobrei algo do meu esprito

 sobre uma sela , ao fim de um pedao de tempo a galopar atravs da terra

 deserta.  Saliente-se ainda o recobrar da linguagem atravs do contacto com a

 mudez da terra .
 Hoffmannsthl , Hugo von , Carta a Lord Chandos , Lisboa , Hiena ,

 1990 , pgs. 26-28 .

 78 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  243 , pgs. 335-336 .
 A apresentao deste

 argumento prolongar-se- , sobretudo at ao  315 .

 79 Ver o  248 das Investigaes , pgina 337 :  A proposio  As sensaes so

 privadas   comparvel  proposio :  Pacincias com cartas joga-se sozinho  .

 80 Ibid. ,  300 , pg .360 .

 81 Poincar , E. La Valeur de la Science , Flammarion , Paris , 1905 , pg. 263 .

 82 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  301 , pg .360 .

 83 Ibid. ,  245 , pg. 336 .

 84 Poincar , Op.cit. , pg .202 .

 85 Wittgenstein , Ludwig , Op. cit. ,  274 , pg. 349 .

 86 Cfr .
 Bouveresse , Jacques , Op. cit. , pg .411 .

 87 Em muitos sentidos considerado um pensador moderno , o alemo Goethe tem no

 jovem Werther uma reaco contra os valores da ideologia burguesa que , contudo ,

 teria desenvolvimento capital a partir da segunda metade do sculo XIX , e que

 noutro ponto importar abordar .
 Atente-se contudo a propsito na reflexo do

 emblemtico Werther acerca dos jogos de linguagem pblicos , que no caso

 incidiam na jovem Lotte :  Devias ver a figura ridcula que fao quando se fala

 dela em sociedade !
 E quando me perguntam se ela me agrada ?
 Agrada !
 Odeio de

 morte a palavra .
 Que espcie de pessoa ser aquela a quem Lotte agrada , a quem

 no preenche todos os sentidos , todas as emoes ?!
 Agrada !
 Outro dia algum me

 perguntou se Ossian me agradava !
  Goethe , J. W. , Op. cit. , pg. 167

 88 A este propsito , registava em 1913 Kafka no Dirio :  O mundo prodigioso que

 tenho na cabea .
 Mas como me libertar e libert-lo sem me dilacerar ?
 E antes

 ser mil vezes dilacerado do que ret-lo em mim ou enterr-lo .
 Estou aqui para

 isso , dou-me perfeitamente conta.  , Kafka , Franz ,  Dirio  , pg. 67 .

 89 Mead , George Herbert , Espiritu , persona y sociedad , pg. 379 .

 90 Cfr .
 Wellmer , Albrecht , The Persistense of Modernity , Cambridge , MIT Press ,

 1993 , pgs. 68-69 .

 91 Cfr .
 Ibid. , pg. 75 .

 92 Taylor , Charles ,  Theories of Meaning  in Human Agency and Language ,

 Cambridge , Cambridge University Press , pg. 259 .

 93 Marcuse , Herbert , Op.cit. , pg. 94 .

 94 Ibidem .

 95 Cfr .
 Wittgenstein , Ludwig , Op.cit. ,  206-207 , pgs. 323-324 ..

 96 Ibidem .

 97 Intikka , Jaakko e Intikka , Merrill , Uma Investigao sobre Wittgenstein , So

 Paulo , Papirus Editora , 1994 , pg .329 .

 98 Wittgenstein , Ludwig , Investigaes ,  202 , pg. 322 .

 99 Ibid. ,  141 , pgs. 272 273 .

 100 Leroi-Gourhan , A. , Op. cit. , pg. 179 .

 101 Cfr .
 Taylor , Charles ,  Language and Society  , in Comunicative Action ,

 Essays on Jrgen Habermass The Theory of Communicative Action , Polity Press ,

 pgs. 25-26 .
 Como acrescenta Taylor , esta mesma posio  igualmente aplicvel

  sociedade :  h sempre costumes j estabelecidos e normas j articuladas ; elas

 so usadas e ao mesmo tempo renovadas no decurso da prtica .
 Esta prtica , no

 entanto ,  fruto de um nunca exausto pano de fundo [ background ] que pode

 simultaneamente ser a fonte de novos estados e articulaes.  As consequncias

 para uma teoria da sociedade so significativas .
 Com efeito :  Aco refere-se

 no s ao sistema de normas e regras explcitas de forma de vida , mas tambm

 sempre ao pano de fundo que pode gerar novas formas .
 Assim , so estas novas

 normas de comportamento que trazem consigo a mudana nessa forma de vida.  ,

 ibidem .

 102 Wellmer , Albrecht , Op. cit. , pg. 76 .

 103 Cfr .
 Heckman , Susan , Hermenutica e Sociologia do Conhecimento , Lisboa ,

 Edies 70 , 1990 , pg .175 .

 104 Cfr .
 Hacking , Ian , Why Does Language Matter to Philosophy ?
 , Cambridge ,

 Cambridge University Press , 1975 .

