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 A LINGSTICA DO SC .
 XX : BALANO CRTICO

 Gustavo Adolfo Pinheiro da Silva

 ( UERJ e UGF )

 A primeira das teses fundamentais do Curso de Lingstica Geral de

 Ferdinand Saussure  , sem dvida , a oposio lngua e fala .
 Como

 afirma o prprio Saussure : " Essa  a primeira bifurcao que se

 encontra quando se procura estabelecer a teoria da linguagem " .
 ( p. 38 )

  esse princpio , essencialmente , que estabelece o objeto da

 lingstica saussureana , inferindo-o do " aglomerado confuso de coisas

 heterclitas , sem liame entre si " .

 Ao separar a lngua da fala , Saussure estabelece ao mesmo tempo um

 objeto cientfico e um objeto especificamente lingstico : um objeto

 cientfico , ao se discriminar o que  geral e social do que 

 exclusivamente individual ; e um objeto especificamente lingstico ,

 separando-se , ao mesmo tempo , nas prprias palavras de Saussure , " o

 essencial do acessrio " .
 Saussure relega para a fala tudo que julgava

 ser apenas variantes individuais e , conseqentemente , no passveis de

 um tratamento algbrico ou sistemtico , bem como todos os dados no

 redutveis a uma pauta sistemtica , que poderiam ser tratados por

 outras cincias que lidam com a linguagem .
 Saussure desloca , portanto ,

 para fora da lingstica propriamente dita todas as questes em torno

 do sujeito falante .

 Estamos plenamente de acordo com Pcheux quando afirma que a oposio

 lngua-fala :

 Autoriza o reaparecimento triunfal do sujeito falante como

 subjetividade em ato , unidade ativa de intenes que se realizam

 pelos meios colocados  sua disposio .
 A fala como uso da lngua ,

 aparece como caminho da liberdade humana ; avanar sobre este

 caminho estranho que conduz dos fonemas ao discurso ,  avanar

 gradativamente do sistema  contingncia da liberdade. ( 1969:10 )

 A remisso ao sujeito e  situao , a dimenso referencial , em suma ,

 todos os fatores pelos quais a linguagem se faz mediadora entre o

 homem e o homem , entre o homem e o mundo , entre o esprito e as

 coisas , transmitindo a informao , comunicando a experincia , impondo

 a adeso , suscitando a resposta , implorando , coagindo , todos esses

 fatores , portanto , no fariam parte desse " tesouro " depositado nos

 " crebros " dos indivduos de uma mesma coletividade .

 A lingstica estrutural , desde Saussure , colocou-se explicitamente

 contra a tradio anterior , que dava grande peso  histria e 

 dimenso temporal .
 A lingstica deste nosso sculo  marcada por uma

 forte dicotomizao .
 O informal , o prescritivo , o valorativo , o

 emotivo , o temporal e tudo aquilo que tem a ver com a produo

 espao-temporal de fragmentos de lngua acaba relegado ao domnio

 residual .

 Bastou que a oposio lngua-fala fosse postulada , para que dela

 decorressem todas as demais " teses " dessa teoria .
 As excluses

 constitutivas do objeto " lngua " ( o referente , a situao , o sujeito

 falante , etc. ) instauram a possibilidade de uma " semntica "

 propriamente lingstica , onde puderam aparecer , por exemplo , questes

 levantadas por essa categoria de signos presentes em todas as lnguas :

 os diticos .
 Um novo palco onde a noo de dixis representa um papel

 relevante passa a ser constitudo pela assim chamada " Pragmtica " .

 Embora nos ltimos trinta anos muitos estudos tenham sido colocados

 como objeto da Pragmtica , tais estudos , porm , no tm tido um

 tratamento equnime , de modo que as reflexes sobre a linguagem

 apontam diferentes caminhos para a Pragmtica .
 O termo  utilizado por

 um conjunto de disciplinas tradicionalmente delimitadas , como a

 Filosofia da Linguagem , a Lgica , a Psicologia , a Lingstica , a

 Sociologia e a Semitica .

 O prprio limite entre semntica e Pragmtica  constantemente

 discutido .
 O contextualismo , em oposio ao " literalismo " ( Dascal ,

 1982 ) , defende , em filosofia da linguagem , que o sentido se

 caracteriza como globalmente ligado ao contexto .
 Ao contrrio , vrias

 teorias exponenciais do sentido procuram salvaguardar uma noo de

 sentido " literal " ou " independente do contexto " que  necessria

 quando se quer proteger a autonomia e independncia da semntica .
 A

 defesa do contextualismo no implica que a teoria da pragmtica deva

 ser vaga e assistemtica .
 Naturalmente que a gramtica que importa 

 Pragmtica no  a de Chomsky , mas sim a de Wittgenstein .
 A gramtica

 de Wittgenstein desenvolve a noo de " gramtica profunda " , que  a

 sntese de todo uso da lngua , em sua infinidade e diversidade .

 A noo central de toda Pragmtica  a de " estratgia " .
 A gramtica

 profunda da Pragmtica no  a gramtica profunda da Lingstica ,

 porque em Pragmtica so pertinentes estratgias ao invs de regras .

 As estratgias so regularidades exteriorizadas por uma competncia

 comunicativa .

 A semntica clssica opera com um conceito bipolar de racionalidade

 cujos dois plos so o pensamento e a realidade .
 Ao contrrio , a

 Pragmtica opera com um modelo triangular : o raciocinar no 

 determinado por sua relao com o real ( desse modo a racionalidade

 seria reduzida a uma faculdade de reconstruo da verdade ) , mas pela

 intermediao de um conceito : o toque pragmtico dado a racionalidade

 implica que as estratgias sejam encaradas como relacionando-se a

 valores .

 A competncia discursiva como um mecanismo gerativo , na gramtica

 transformacional , por exemplo ,  vista como uma competncia de

 produo .
 Ao contrrio , uma " competncia comunicativa " pragmtica 

 uma competncia de compreenso .

 Wittgenstein ( 1953 ) sustenta que na vida e na lngua de todos os dias

 a compreenso funciona ora como interpretao , ora como explicao ,

 ora como traduo .
 Compreenso para Wittgenstein  uma habilidade

 extrnseca , no  uma operao puramente psicolgica , mas uma

 operao-no-mundo .

 A Pragmtica  caracterizada essencialmente pela concepo da

 dependncia contextual do sentido discursivo , da racionalidade

 dependente do contexto e pela orientao da compreenso .

 A Pragmtica pressupe o sujeito em discurso .
 Em razo dessa atitude

 reage contra o estruturalismo lingstico , no qual a subjetividade 

 afastada da " lngua " para a " fala " , no passvel de domnio terico .

 Tal reao se volta tambm contra a gramtica gerativa chomskyana ,

 onde o " falante-ouvinte ideal " no  o sujeito que fala , mas uma

 " mente " que se identifica com a estrutura neurofisiolgica do crebro .

 Cabe a Benveniste ( 1966 ) reintroduzir a subjetividade como uma

 categoria operacional na teoria lingstica .
 Benveniste reintroduz a

 ateno para dixis ( pessoa , tempo , espao ) , para o universo do

 funcionamento do discurso como demonstrao ( pronomes ,

 demonstrativos ) , argumentao e persuaso .

 Retomando a questo da definio do objeto especfico da Pragmtica ,

 pode-se dizer que os estudos sobre a linguagem abrigam hoje diversas

 pragmticas , o que nos levar a percorrer , sucintamente , por uma

 diacronia que julgamos relevante para nosso estudo , j que a dixis 

 uma questo pertinente  Pragmtica .

 A considerao dos aspectos pragmticos da linguagem remonta ao

 filsofo americano Charles Peirce , um dos iniciadores da Semitica .

 Segundo ele , " um signo , ou representamen ,  algo que , sob certo

 aspecto ou de algum modo , representa alguma coisa para algum "

 ( Peirce , 1972 : 94 ) .

 Para Peirce , o funcionamento do signo envolve aquilo que o signo

 representa e aquele para quem o signo representa algo .
 Isso coloca em

 cena o usurio do signo .

 Outro aspecto tomado como fonte da Pragmtica  a distino feita por

 Peirce entre cone , ndice e smbolo .
 De acordo com ele , o ndice  :

 Um signo ou representao que se refere a seu objeto 0no tanto em

 virtude de qualquer similaridade ou analogia com ele , nem por

 estar associado a caracteres que tal objeto eventualmente possui ,

 mas porque se coloca em conexo dinmica ( inclusive espacial ) com

 o objeto individual e , por outro lado , com os sentidos ou memria

 da pessoa para quem ele atua como um signo. ( Peirce , 1972:131 )

 Nessa passagem , Peirce colocava a questo de que h signos que so

 interpretados somente em relao aos objetos da situao em que o

 usurio faz uso da linguagem .

  , no entanto , com Charles Morris ( 1938 , 1946 ) e Carnap ( 1942 ) que se

 prope um componente pragmtico na teoria dos signos .

 Em " Foundation of the Theory of Signs " , Morris prope a tripartio da

 Semitica em sintaxe , semntica e pragmtica .
 A Pragmtica investiga a

 dimenso pragmtica da semiose , ou seja , o modo como o signo expressa

 ser utilizador , j a semntica investiga a maneira como o signo denota

 seu objeto .
 O que nos parece relevante aqui  o fato de considerar-se

 que a dimenso pragmtica  governada por um sistema de regras que so

 independentes das dimenses sinttica e semntica e , simultaneamente ,

 correlacionadas com elas .

 A abordagem do aspecto pragmtico na linguagem se inicia e se

 desenvolve fora da Lingstica .
 Com os lgicos e filsofos da

 linguagem como Bar-Hillel ( 1954 ) , Austin ( 1962 ) , Grice ( 1972,75 ) ,

 Searle ( 1972 ) , Stalnaker ( 1972 ) .

 Com base nessas fontes , podemos apontar trs direes para a

 Pragmtica .
 Uma que considera o usurio somente para determinar a

 relao da linguagem com o mundo ( referncia ) , outra que considera o

 usurio enquanto tal na sua relao com a linguagem e uma terceira que

 v o usurio como interlocutor .

 Ao primeiro tipo de Pragmtica ( que subordina o usurio ao referente )

 chamaremos indicial .

 Opondo-se a idia de eminncia do sentido , conforme algumas verses do

 estruturalismo , os lgicos e filsofos tm sustentado que o sentido da

 linguagem se verifica na sua relao com seus referentes .

 Um deslocamento da semntica para a Pragmtica vai ocorrer toda vez

 que , falante e ouvinte , bem como sua localizao espao-temporal sejam

 considerados como ndice desse contexto existencial .
 A considerao

 desses ndices ou categorias diticas ( pessoa , tempo , espao ) na

 descrio do sentido leva a uma Pragmtica indicial .

 Em " Expresses Indiciais " , Bar-Hillel ( 1954 ) , na anlise de sentenas

 como :

 Este carro  amarelo

 Eu viajo hoje .

 Afirma que quanto a ( 1 ) ,  preciso saber o lugar em que se disse ( 1 ) ,

 para se poder decidir sobre o carro referido e , conseqentemente ,

 afirmar se a sentena  falsa ou verdadeira .
 Em relao a ( 2 ) , a sua

 falsidade ou veracidade est condicionada em se saber quem e quando se

 proferiu a sentena .

 Um segundo tipo de Pragmtica desponta no texto de Morris ( 1976 ) .
 Para

 ele a semntica estuda a relao dos signos com os objetos .
 Ou em sua

 prprias palavras : " a semntica trata da relao dos signos com seus

 " designata " e tambm com os objetos que eles podem denotar ou

 realmente denotam " ( Morris , 1976 , p. 38 ) .
 " E a Pragmtica estuda a

 relao dos signos com seus intrpretes " ( Morris , 76 , p. 50 ) .

 Neste caso , observamos uma vertente da Pragmtica que tem por objeto a

 relao linguagem-usurio , mas na medida em que o usurio  visto como

 intrprete do signo .

 Uma terceira vertente da Pragmtica  a que considera o usurio como

 interlocutor .
 Dentro dessa vertente poderamos apontar trs direes .

 A primeira se origina das colocaes de Grice em " Meaning " ( Grice , 72 ) e

 em " Logic and conversation " ( Grice , 75 ) , a Pragmtica Conversacional .

 Para Grice , a questo do significado lingstico  considerado como

 uma funo da inteno do enunciador e do reconhecimento desta

 inteno pelo ouvinte .
 A questo do significado  , portanto ,

 fundamentalmente pragmtica .. O usurio , na sua relao com a

 linguagem ,  visto , desta forma , como interlocutor .

 Em " Logic and conversation " ( 1975 ) , Grice considera a existncia de

 certos princpios gerais que regulam o modo pelo qual , numa relao de

 conversao , o ouvinte pode reconhecer a inteno do locutor .
 Para ele

 a conversao  regida pelo princpio da cooperao que subsume quatro

 mximas : 1 .
 qualidade , 2 .
 quantidade , 3 .
 relao e 4 .
 modo .

 ( Grice , 1975:45-46 ) .

 1 .
 Qualidade : No diga o que acredita ser falso .
 No diga aquilo para

 o que voc no pode fornecer evidncia adequada .

 2 .
 Quantidade : Faa com que sua contribuio seja to informativa

 quanto requerida .
 No faa sua contribuio mais informativa do que 

 requerida .

 3 .
 Relao : seja relevante .

 4 .
 Modo ou Maneira : Seja claro , evite obscuridade , evite ambigidade ,

 seja breve , seja ordenado .

 Vejamos num exemplo a mxima da relao : seja relevante ( Grice ,

 75:46 ) .
 O ouvinte da sentena :

 Como hoje est frio !

 Na situao :

 Falante e ouvinte esto numa sala com todas as janelas abertas e ambos

 esto agasalhados , conversando sobre futebol .

 Vai desenvolver um raciocnio do seguinte tipo :

 Eu sei que est frio e tudo indica que ele sabe que eu sei que est

 frio .

 Ento , se ele disse que est frio  porque ele quer dizer outra coisa .

 As janelas abertas aumentam o frio da sala .

 Ento , ele est pedindo que eu feche as janelas .

 Desse modo , o sentido do que o falante diz  aquele que o ouvinte

 infere , considerando a situao em que o que se disse foi dito e as

 mximas conversacionais .

 Ressalta-se que Grice d grande valor  funo informativa da

 linguagem .
 Chega a considerar a mxima da qualidade ( diga a verdade )

 como uma super-mxima ( 75:46 ) .
 Assim , embora seja esta uma Pragmtica

 que considera os usurios enquanto interlocutores , no entanto ainda

 considera a funo informativa ( referncia ) como essencial na

 linguagem .

 Esta teoria , embora goze at hoje de bastante prestgio ,  fcil

 perceber que no d conta de toda " malcia " e " manipulao " to

 presentes na interao verbal : estamos constantemente " jogando " ,

 " blefando " , simulando , ironizando , fazendo aluses e criando

 subentendidos , fenmenos nem sempre explicveis apenas com base nas

 mximas conversacionais .

 Na mesma linha de uma pragmtica da interlocuo , temos uma segunda

 direo , a Pragmtica ilocucional. Ressalta-se aqui a Teoria dos Atos

 de Fala desenvolvida , inicialmente , por Austin e depois , por Searle .

 A principal contribuio de Austin foi a idia de que a linguagem deve

 ser tratada fundamentalmente como uma forma de ao , e no de

 representao da realidade .
 O sentido de um enunciado no pode ser

 estabelecido apenas atravs da anlise de seus elementos

 constituintes .
 Ao contrrio , so as condies de uso do enunciado que

 determinam o seu significado .

 Ao se proferir enunciados tais como " eu declaro " , " eu peo desculpas " ,

 " eu aposto " , " eu te batizo " , " eu nomeio " , " eu condeno " , " eu prometo " ,

 etc. , a inteno no  a de se fazer afirmaes falsas ou verdadeiras .

 Esses enunciados no so usados para informar , mas para realizar

 vrios tipos de ao .
 E Austin nos diria mais : Dizer

 - Declaro encerrada a sesso .

 no  informar sobre o encerramento da sesso .
  encerrar a sesso .

 Austin dividiu os enunciados em constativos ( enunciados de relato ) e

 perfomativos , isto  , o enunciado cujo verbo aparece na primeira

 pessoa do tempo presente .
 Os perfomativos no podem ser analisados

 quanto  verdade ou falsidade .
 Somente quanto s condies de

 felicidade .

 Austin chegou  distino de trs tipos de ao lingstica :

 Ato locucionrio

 - enunciado com determinado sentido ou referncia .

 Ato ilocucionrio

 - o falante atribui a esse contedo proposicional uma determinada

 fora : a realizao de uma afirmao , oferecimento , promessa , ordem ,

 num determinado contexto .

 Ato perlocucionrio

 - o falante exerce certos efeitos sobre o ouvinte por meio do

 enunciado

 Destes atos , os ilocucionais tornam-se o centro de grande nmero de

 trabalhos sobre a linguagem .
 Esse tipo de ao lingstica no  uma

 ao que  conseqncia do que se diz .
 A ao ilocucional  feita ao

 se dizer o que se diz .
 Assim , dizer " declaro encerrada a sesso " 

 encerrar a sesso .

 A Pragmtica ilocucional  tambm uma Pragmtica da relao

 falante-ouvinte , tal a de Grice , mas diversa num aspecto .
 A Pragmtica

 ilocucional no considera a funo informativa como a funo

 fundamental da linguagem .
 Aqui a linguagem  vista como ao entre os

 interlocutores .

 Searle , discpulo de Austin , na dcada de sessenta , questionou a

 taxionomia proposta pelo mestre , criticando , principalmente , o fato de

 que a classificao inicial baseava-se em verbos ilocucionrios e no

 em atos ilocucionrios .
 Ele tambm no se prope a definir a expresso

 " atos ilocucionrios " .
 Em lugar disso , analisa um ato ilocucionrio

 especfico para estabelecer as bases para uma definio futura .
 O ato

 ilocucionrio seria a unidade mnima da comunicao lingstica e , ao

 realiza-los , estamos nos envolvendo em formas de comportamento

 governado governadas por regras .
 Em uma situao tpica de fala ,

 pressupe-se de um falante , um ouvinte e um proferimento por parte de

 um falante .
 So vrios os tipos de atos associados a este

 proferimento : declaraes , perguntas , ordens , cumprimentos e outros .

 A noo bsica introduzida por Austin " o enunciado X conta como Y " 

 tambm adotada por Searle , que a define como a condio essencial para

 que um ato de fala funcione como tal .
 Alm disso , Searle prope as

 condies de felicidade : a construo conjunta das vrias foras

 ilocutrias atuantes .
 Classifica-as em quatro tipos de condies : as

 condies preparatrias , as condies de sinceridade , a condio de

 contedo proposicional e a condio essencial .

 Os pedidos ( classificados como diretivos ) apresentam as seguintes

 condies de felicidade :

 Condio preparatria : o ouvinte ( H )  capaz de fazer A .

 Condio de sinceridade : O falante ( S ) quer que o ouvinte ( H ) faa A .

 Contedo proposicional : O falante ( S ) pressupe um futuro ato A por

 parte do ouvinte ( H ) .

 Condio essencial : Conta como uma tentativa do falante ( S ) em fao

 essencial : Conta como uma tentativa do falante ( S ) em fazer com que o

 ouvinte ( H ) faa A .

 S = speaker ( locutor )

 H = hearer ( ouvinte )

 A = act ( ato )

 Searle prope a seguinte tipologia dos atos de fala :

 1 .
 representativo - compromete o falante coma a verdade expressa na

 proposio ( dizer , asseverar ) .

 2 .
 diretivo : tenta levar o interlocutor a fazer algo ( pedir , mandar ,

 ordenar ) .

 3 .
 comissivo : compromete o falante como uma ao futura ( prometer ,

 ameaar ) .

 4 .
 expressivo : expressa um estado psicolgico ( agradecer ,

 congratular ) .

 5 .
 declarativo : muda o estado institucional , tende a se apoiar em

 instituies extralingsticas ( excomungar , declarar guerra ,

 condenar , demitir )

 Diversas crticas foram feitas  proposta de Searle : a ) Em primeiro

 lugar , quanto  prpria tipologia , que no cobriria toda gama de atos

 de fala usados no dia a dia. b ) Outra crtica diz respeito  separao

 entre expresso lingstica ( sentena ) e o seu uso no contexto

 ( enunciado ) , c )  preciso tambm observar que todo ato de fala 

 simultaneamente locucionrio , ilocucionrio e perlocucionrio , pois

 sempre que se interage atravs da lngua , profere-se um enunciado

 lingstico dotado de determinada fora .
 Esse enunciado produz no

 interlocutor certos efeitos , ainda que no aqueles que o locutor tinha

 em mente , pois a interpretao depende de crenas mtuas contextuais .

 Quando se fala em Teoria dos Atos de Fala , vem  baila a dicotomia -

 atos de fala diretos e indiretos .
 O ato de fala direto  realizado

 atravs de formas lingsticas especificadas como certos tempos ou

 modos verbais , dadas expresses estereotipadas , determinados tipos de

 entoao .
 Empregam-se , por exemplo , expresses como " por favor " , " por

 gentileza " para fazer pedidos , solicitaes , dar ordens .

 O ato de fala indireto  aquele em que uma fora ilocucionria 

 obtida indiretamente por meio de um outro ato ( Searle , 1969 ) .
 H

 muitos casos em que o falante realiza um ato de fala que pode , ao

 mesmo tempo , significar literalmente o que expressa na proposio , e

 indicar um contedo proposicional diferente , ligado a outra fora

 ilocutria .
 No to citado exemplo " Voc pode me passar o sal ?
 " , o

 significado pode-se tornar ambguo por no se saber , em princpio , se

 o enunciado  apenas uma pergunta ou um pedido .
 Searle prope regras

 de inferncias com base em Grice , abrangendo atos de fala indiretos ,

 ironia e metfora .
 Defende que nos atos de fala indiretos os falantes

 comunicam mais do que aquilo que realmente dizem , confiando no

 conhecimento das condies de felicidade .
 O uso de " poder " no exemplo

 de passar o sal acima seria uma referncia  condio preparatria .

 Um ponto importante na teoria dos atos de fala  a noo de sentido

 literal e no-literal dos enunciados .
 Sentido literal  o mesmo que

 dizer sentido prprio , bsico , a partir do qual o sentido das

 expresses lingsticas , em qualquer situao possa ser apreendido .

 Sentido no-literal , por sua vez , refere-se quele cuja interpretao

 exige inferncia por parte do interlocutor .
 No caso , os atos de fala

 indiretos seriam exemplos de sentido no-literal .

 Entre as crticas que se fizeram ao tratamento de Searle para os atos

 indiretos , temos o fato de que os enfoques inferenciais falham em

 explicar por que motivo os falantes preferem fazer verdadeiras

 " contores " com os atos indiretos em lugar da simplicidade das

 expresses diretas .
 Assim , por exemplo , em Labov e Fahshell mostra-se

 a necessidade dos mitigadores , em Brown & Levinson expe-se o modelo

 do pessimismo interacional , com a presso das estratgias de polidez .

 Uma sada radical contra as teorias da fora literal seria admitir que

 no existe fora literal alguma .
 O que existe  um problema de mapear

 a fora dos atos de fala em sentenas num contexto .
 A fora

 ilocucionria seria inteiramente pragmtica .
 A semntica teria papel

 mnimo , com significados muito amplos , baseados nos trs tipos bsicos

 de sentena : afirmativa , interrogativa , imperativa , que tm fora

 ilocucional embutida .
 Assim , por exemplo , a sentena interrogativa

 seria uma proposio aberta , limitada pelo conjunto de respostas

 apropriadas .

 Uma terceira via desenvolvida , entre outros , por Ducrot , Anscombre e

 Vogt , e que teve como fontes imediatas os trabalhos de Austin e

 Benveniste ,  a que poderamos chamar Semntica da Enunciao .

 Para Ducrot , numa vertente vinda de Benveniste , o falante , ao produzir

 seu discurso , constitui-se como enunciador , constituindo ,

 simultaneamente seu interlocutor .
 Ressalta ainda a concepo da

 linguagem como ao e , de modo particular , a importncia da ao

 ilocucional .
 Cabe ressaltar aqui sua concepo de ato ilocucional como

 um ato jurdico ( Ducrot , 1972 : 77 ) , atravs do qual o enunciador

 altera sua relao com o enunciatrio .

 Quando um chefe , por exemplo , diz ao seu subordinado :

 - Feche a porta .

 enunciador e enunciatrio tm sua relao alterada .
 O enunciatrio

 est na situao de cumprir ou no uma ordem do enunciador .
 Situao

 na qual no se encontrava antes .

 Esta concepo de ato ilocucional possibilita resolver adequadamente

 problemas como o da caracterizao da ordem como um ato que exige uma

 relao hierrquica previamente estabelecida .

 Neste mesmo espao de consideraes , coloca-se o trabalho de Carlos

 Vogt .
  interessante observar , no entanto , sua concepo de ato

 ilocucional como ao dramtica .
 Desse modo , a ao ilocucional  uma

 ao na qual o locutor se representa de certo modo na sua relao com

 o interlocutor ( Vogt , 1980 ) .

 Tem-se aqui uma Pragmtica da relao enunciador-enunciatrio .
 Temos

 uma Pragmtica dialgica , onde o aspecto pragmtico  essencial para a

 significao .

 Em suma , este trabalho representa um esforo de sntese sobre o estado

 atual da arte .
 As teorias sobre a enunciao lingstica abriram um

 largo horizonte , redimensionando os estudos da linguagem humana .

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