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 INTRODUO AO PRAGMATISMO LINGSTICO

 Jorge da Silva ( UERJ / FFP )

 Vera Lucia T. da Silva ( UERJ / FFP )

 INTRODUO

 Da mesma maneira como ocorre em outras reas da cincia , o estudo da

 linguagem tem sido afetado pelas inconsistncias e hesitaes

 originadas na pretenso filosfica de que o conhecimento cientfico

 deva ser justificado racionalmente .
 Assim  que , desde a antigidade ,

 teorias tm sido propostas a respeito da origem e da natureza da

 linguagem humana - elemento essencial  compreenso da prpria

 existncia do ser humano e do universo - , e bem assim sobre como o

 pensamento se articula com a linguagem ( ou esta com aquele ) , e como a

 linguagem se estrutura e  apreendida pelos sujeitos falantes .

 Alm dessas preocupaes de cunho filosfico , e levando-se em conta a

 multiplicidade de lnguas existentes no mundo - e tambm a necessidade

 de os homens se comunicarem para compartilhar conhecimentos e

 experincias - , torna-se fundamental buscar conhecer , de um ponto de

 vista prtico : a ) que mecanismos esto presentes no processo de

 aquisio natural da linguagem em geral e de uma determinada lngua

 materna em particular ; b ) como o indivduo humano utiliza a linguagem

 no dia-a-dia , nas diversas situaes ; c ) se , no aprendizado de uma

 lngua estrangeira ( LE ) ou segunda lngua ( L2 ) , os processos

 envolvidos diferem grandemente da aprendizagem da lngua materna ; d )

 como as diferentes habilidades lingsticas ( falar , ouvir , ler ,

 escrever ) em LE ou L2 podem ser transmitidas e adquiridas e , mais que

 tudo , aprimoradas ; e ) de que forma a lngua materna , particularmente o

 fenmeno da fossilizao lingustica , interfere na aprendizagem da

 lngua-alvo .

 O presente texto tem por escopo assinalar a importncia de se abordar

 estas questes de forma pragmtica , vale dizer , com a atitude

 filosfico-metodolgica do pragmatismo lingstico , interessado no

 papel das lnguas como instrumento cultural-social , de comunicao e

 interao entre indivduos e povos .
 Embora o conhecimento produzido

 por filosficos e lingistas sobre a natureza da linguagem e sobre

 como esta  originariamente adquirida pelo ser humano ( em contraste

 com a linguagem no-humana ) seja de crucial importncia para o ensino

 / aprendizagem de lnguas , a atitude pragmtica levar em conta os

 achados dos filsofos ( e sobretudo as suas perplexidades ) mas

 concentrar-se- nos problemas encontrados concretamente no processo de

 aprender / ensinar uma lngua estrangeira , ou segunda lngua .

 As afirmaes do texto buscam sustentao , de um lado , nas idias de

 filsofos como Wittgenstein ( 1953 ) , Khun ( 1994 ) , Rorty ( 1980 ) e

 Watkins ( l984 ) ; e de outro lado , nas de linguistas tericos e

 aplicados como Coulthard ( 1977 ) , Leech

 & Thomas ( 1990 ) , Ellis ( 1994 ) , Lightbown & Spada ( 1993 ) , Brown ( 1994 )

 e Akmajian et al. ( 1995 ) .
 Os primeiros , preocupados com a natureza do

 conhecimento em geral , e mantendo uma atitude mais ou menos comum de

 ceticismo em relao  possibilidade de justificao racional do

 conhecimento cientfico , centram tal possibilidade nos sujeitos

 cognoscentes ( os indivduos ) - e no no objeto do conhecimento em si

 ( a linguagem ) .
 Lanam , ento , os fundamentos de abordagens que iro

 levar em conta os fatores da realidade : culturais , histricos ,

 sociolgicos , psicolgicos e antropolgicos envolvidos. ( Thomas Khun

 chega mesmo a afirmar que a cincia no tem nada a ver com a

 racionalidade e que os seus mecanismos se explicam de modo

 emprico-descritivo , e no apriorstico-normativo ) .
 Os segundos ,

 preocupados especificamente com o fenmeno da linguagem , vo tentar

 livrar-se dos confinamentos de teorias como o estruturalismo

 lingustico inaugurado por Ferdinand de Saussure e desenvolvido

 sobretudo pelo lingista norte-americano Leonard Bloomfield ; e

 igualmente no insistiro nas complexidades do gerativismo

 transformacional de Noam Chomsky e sua " Gramtica Universal " , a qual

 explicaria pretensos universais lingsticos inerentes a qualquer ser

 humano , independentemente desta ou daquela lngua materna ( Lightbown &

 Spada , 1993 ; e Brown , 1994 ) .
 Estes iro , sim , aprofundar os estudos

 que acabaro por reforar a importncia da pragmtica lingustica

 ( " pragmatics " ) , ramo da lingstica que nos dias de hoje disputa com

 outras disciplinas a primazia do estudo dos fatores contextuais

 retro-referidos .
 Assim , ao lado da pragmtica , vo concorrer a

 filosofia da linguagem , a sociolingstica , a psicolingstica , a

 antropologia lingstica , a etnolingstica , a neurolingstica .

 Embora se deva reconhecer a dificuldade de abordar o tema de um ponto

 de vista estritamente lingstico , quer dizer , deixando de lado as

 preocupaes das disciplinas supra-referidas , conforme afirmam Brown &

 Yule ( 1983 : ix ) ,  com essa pretenso - lingstica - que se visualiza

 o pragmatismo neste texto .
 Tal pretenso se justifica pelo fato de o

 nosso interesse ser o ensino / aprendizagem do ingls como lngua

 estrangeira para falantes do portugus do Brasil .
 As consideraes que

 se seguem , sobre a ` linguagem humana ' e o ` pragmatismo lingstico ' ,

 no tratam de problemas concretos .
 So uma tentativa de encurtar o

 caminho do leitor , que poder , lido o presente texto , ir direto ao

 ponto , ou seja , o ` ensino / aprendizagem do ingls como lngua

 estrangeira ' , sem perder-se em especulaes .
 Tais consideraes

 constituem-se , portanto , em informao propedutica , essencial a

 professores e aprendizes .

 A LINGUAGEM HUMANA

 Desde tempos imemoriais o ser humano vem se afligindo com questes

 cruciais a respeito de sua prpria existncia .
 Num crculo vicioso ,

 passar da incerteza  perplexidade ; da perplexidade s concepes

 mitolgicas ; da mitologia s teorias pretensamente racionais ; das

 teorias  certeza ; e da certeza novamente  incerteza e 

 perplexidade .
 Ele se deu conta de que a contrapartida do poder da

 mente humana era , paradoxalmente , a sua ( da mente humana ) limitao

 para explicar as questes relativas a si mesmo e ao mundo em que

 vivia .
 O fascnio diante do universo f-lo imaginar-se como um ser

 nico em toda a natureza , no mundo animal , vegetal ou qumico , crena

 nutrida em bases mticas e teolgicas ; a ponto de lev-lo a

 retratar-se como sendo a imagem e semelhana de Deus .
 Da , maravilhado

 com essa imaginria distino , o homem buscou interpret-la com a

 faculdade de que  peculiarmente dotado : a razo .
 Com efeito , no

 houve momento de sua histria - por mais que estivesse perdido na

 escurido da ignorncia a respeito dessas questes - em que ele no se

 arriscasse a " raciocinar " sobre as mesmas , e engendrar vises de mundo

 consentneas com as vrias etapas do seu desenvolvimento .
 E se sempre

 foi assim na histria da humanidade , no haveria de ser diferente nos

 dias de hoje ; estranhvel seria se assim no o fosse .

 H que se admitir , portanto , que o homem contemporneo - a despeito do

 considervel domnio da natureza e das magnficas realizaes do

 pensamento - continua a vivenciar angstias tais que ainda  possvel

 v-lo com aquele mesmo medo da fria dos deuses , manifestada atravs

 dos raios e dos troves .
 No obstante o fato de a filosofia ter-lhe

 acenado com a possibilidade de buscar a certeza sobre novas concepes

 de mundo , a prpria filosofia colocou-lhe perguntas para as quais no

 consegue encontrar resposta .
 Dentre estas perguntas , as referentes 

 origem e a natureza da linguagem humana so provavelmente as mais

 instigantes , pois elas se apresentam como uma preliminar 

 problemtica do conhecimento em si .
 Ora , se  com a linguagem que

 essas intrincadas questes ho de ser explicadas ( se  que um dia

 sero ...
 ) , coloca-se aos filsofos e aos lingistas o problema

 adicional de o objeto do seu estudo ( a linguagem ) ter que explicar-se

 a si mesmo .
 Em suma : trata-se do desafio de explicar enunciados

 ( necessariamente lingsticos ) com outros enunciados necessariamente

 lingsticos .
 Da , continuarem sem resposta as seguintes indagaes :

 qual a origem da linguagem humana ?
  fruto de evoluo ou  uma

 faculdade em estado latente no " Homo sapiens sapiens " desde que este

 apareceu na face da terra , dependendo simplesmente de cultivo ?
 O

 pensamento  conseqncia da linguagem , ou " vice-versa " ?
 Poderia haver

 pensamento extra-lingustico , isto  , que no dependesse da linguagem

 para ser pensado ?
 Teria a linguagem a capacidade de expressar todos os

 pensamentos que ocorrem ao ser humano , por mais intrincados e difusos

 que sejam ?

 Alm da importncia intrnseca do fenmeno lingstico , por

 conseguinte , h que assinalar a sua relevncia , e mesmo

 indispensabilidade , para o estudo da histria do homem e das suas

 relaes com os semelhantes e com o mundo ( fsico e metafsico ...
 ) .
 Se

 no se podem encontrar respostas para perguntas to complexas , isto

 no tem impedido , todavia , o extraordinrio desenvolvimento do

 pensamento ao longo dos tempos , coincidentemente paralelo ao

 desenvolvimento da linguagem articulada .

 De um ponto de vista pragmtico - referente s potencialidades da

 linguagem no s para a comunicao humana , como , igualmente , para a

 elaborao de raciocnios complexos - os estudos direcionados a saber

 como funciona a linguagem corrente , no dia-a-dia , ganham realce ; e

 ser fundamental sobretudo conhecer os mecanismos que presidem a

 aquisio ( processo instintivo ) e a aprendizagem ( processo

 intencional ) da lngua , e igualmente o ensino .

 Ainda nestes aspectos especficos , as teorias estritamente

 lingsticas sero insuficientes para orientar os homens na

 compreenso do fenmeno da linguagem .
 No ser possvel uma explicao

 da mesma como sendo um fenmeno autnomo .
 A comunicao e a elaborao

 de raciocnios complexos dizem respeito , sim ,  faculdade autnoma da

 linguagem articulada , mas esta ltima est inextrincavelmente ligada a

 fatores culturais , sociais , psicolgicos , antropolgicos e histricos ,

 como se viu acima .

 PRAGMATISMO

 " To understand the matters which Descartes wanted to understand -

 the superiority of the New Science to Aristotle , the relation

 between this science and mathematics , common sence , theology , and

 morality - we need to turn outward rather than inward , toward the

 social context of justification rather than to the relations

 between inner representations. This attitude has been encouraged in

 recent decades by many philosophical developments , particularly

 those stemming from Wittgenstein's Philosophical Investigations and

 from Khun's Structure of Scientific Revolutions " .

 ( Richard Rorty , 1980:210 )

 Cumpre , antes de tratar especificamente do pramatismo lingstico ,

 tecer algumas consideraes genricas sobre o pragmatismo como atitude

 filosfica .

 Como sugerido no excerto acima , de Rorty , o pragmatismo no  uma

 teoria nem propriamente uma escola metodolgica .
 Trata-se de uma

 atitude em face do problema do conhecimento ; de uma alternativa ao

 ceticismo e  tradio clssica ; de uma abordagem que utilizar as

 metodologias disponveis e que possam ser teis ao sujeito

 cognoscente , isto  , ao " conhecedor " , a seu critrio e de acordo com a

 sua viso de mundo .
 Embora o pragmatismo considere o conhecimento como

 sendo arracional ( insuscetvel de ser racionalizado ) , reconhece a

 possibilidade de o sujeito cognoscente poder fazer escolhas racionais

 com base na maior ou menor utilidade para a hiptese em questo .

 Assim , por exemplo , diante de duas teorias , no buscar saber qual  a

 verdadeira ou mais consistente do ponto de vista de uma racionalidade

 a elas imanente .
 Atravs de uma avaliao personalista , calcular a

 utilidade - tambm personalista - de escolher entre uma e outra .
 A

 verdade de uma proposico estar , ento , condicionada  sua

 verificabilidade , ou seja , depender de sua conseqncia prtica e do

 seu valor para a vida concreta .
 Se uma teoria diz que a criana

 aprende por imitao ,  possvel que ela no seja de todo verdadeira ,

 mas ser possvel verificar que uma das estratgias utilizadas pela

 criana  realmente a imitao ( Brown , 1994 , p .38 ) .
 Se uma teoria

 sustenta que h uma idade crtica ( " Critical Period Hypothesis " ) , para

 se aprender bem a prpria lngua materna no ser difcil verificar

 que , at certo ponto , a afirmao tem sentido ( Brown , op.cit. , pp .

 52/53 ; e Lightbown & Spada , 1993 , p. 11 ) .

 Embora ao longo do tempo as crticas s atitudes especulativas de

 busca de verdades " a priori " j se tivessem corporificado , a discusso

 sempre se deu em torno de se saber se a fundamentao racional do

 conhecimento era possvel ou no , tendo a resposta positiva a essa

 questo prevalecido .
 Filsofos de todas as pocas se empenharam em

 apresentar argumentos e teorias contra e a favor , sem , contudo ,

 rejeitar integralmente o pressuposto da " necessidade " de fundamentao

 racional do conhecimento .
 Da , o campo propcio  expanso das

 tendncias aos estudos pragmticos , ensaiados pelos utilitaristas

 ingleses , porm consolidados pela filosofia norte-americana .

 As origens prximas do pragmatismo , portanto , vo ser encontradas na

 filosofia estadounidense da virada deste sculo , particularmente na

 filosofia de William James e John Dewey , os quais se empenharam em

 trazer para a rea das cincias humanas os mtodos experimentais .

 Seria suficente assinalar que William James foi o primeiro

 norte-americano a organizar um laboratrio de psicologia experimental ;

 e que John Dewey criou a primeira escola experimental da histria da

 Educao .

 Como nos informa William James , a palavra pragmatismo ( do grego pragma

 = ao ) foi introduzida pela primeira vez em filosofia por Charles

 Peirce , em 1878 .
 Segundo esse autor , Peirce afirmava que nossas

 crenas nada mais so do que regras de ao , e que o importante 

 determinar que condutas o pensamento est apto a produzir .
 Na viso de

 James , todavia , embora em toda a histria do pensamento sejam

 identificadas abordagens de cunho pragmtico , tais abordagens se deram

 de forma fragmentria , sem que seus propugnadores abandonassem de todo

 concepces tradicionais : ( 1974 , p. 12 )

 " O pragmatista volta as costas resolutamente e de uma vez por todas

 a uma srie de hbitos inveterados , caros aos filsofos

 profissionais .
 Afasta-se da abstrao e da insuficincia , das

 solues verbais , das ms razes

 a priori , dos princpios firmados , dos sistemas fechados , com

 pretenses ao absoluto e s origens .
 Volta-se para o concreto e o

 adequado , para os fatos , a ao e o poder .
 O que significa o

 reinado do temperamento emprico e o descrdito sem rebuos do

 temperamento racionalista .
 O que significa ar livre e

 possibilidades da natureza , em contraposio ao dogma , 

 artificialidade e  pretenso de finalidade na verdade " .

 Essas tendncias pragmatistas se consolidam em meio s tentativas de

 oferecer alternativas  viso de David Hume , ctico quanto a qualquer

 possibilidade de fundamentao racional do conhecimento cientfico ,

 isto  , qualquer tentativa de fundamentao " a priori " com a pretenso

 de estabelecer nexo terico entre fins e meios .
 Nas palavras de

 Watkins ( 1984 ) , este ceticismo de Hume pode ser descrito como sendo :

 a ) " antiapriorista " ; b ) " experiencialista " ; e c ) " dedutivista " .
 Assim ,

 o conhecimento , para Hume , no pode ser explicado " a priori " , depende

 da experincia do dia-a-dia , e no pode ser justificado por

 inferncias indutivas , ou seja , por raciocnios que possam predizer o

 que vai acontecer a partir do j acontecido e das nossas percepes .

 Depois de extensos comentrios sobre a contundncia dos argumentos de

 David Hume , Watkins sintetiza de forma clara e precisa o ceticismo

 humeano : ( 1984 : 3 )

 " Para que qualquer enunciado factual

 h constitua conhecimento ,  preciso que existam premissas

 verdadeiras e que se reportem a h e das quais h  logicamente

 derivvel .
 Mas se h fala do mundo exterior e e fala apenas de

 experincias perceptuais , h vai alm de e , e , portanto , no pode

 ser logicamente derivada de e. "

 Aps descrever o que , para ele ,  um resumo das principais estratgias

 tentadas por outros filsofos para responder ao ceticismo humano , e

 aps mostrar as inconsistncias de todas elas , Watkins elabora a

 alternativa do que chama de conjeturalismo , que procura distinguir do

 pragmatismo , ainda que vendo em ambos " semelhanas superficiais "

 quanto a propiciar meios para fazer escolhas racionais entre hipteses

 radicalmente incertas ou mesmo contrrias .
 Para ele , a vantagem do seu

 conjeturalismo - na qual residiria a diferena crucial -  a de que as

 escolhas so presididas por propsitos " cognitivos " , enquanto no

 pragmatismo tais escolhas teriam propsitos no-cognitivos , entendendo

 ele por propsito " cognitivo " , por exemplo , a busca da verdade , a

 maximizao da probabilidade , um entendimento mais profundo ou uma

 melhor explicao , e no , por exemplo ( e a vai uma crtica mordaz aos

 pragmatistas assumidos ) , evitar problemas com as autoridades ou causar

 impresso de profundidade e erudio ) .

 A expresso " evitar problemas com as autoridades " pode ser associada 

 referncia que o autor faz ao clebre exemplo do apostador de Pascal

 ( apresentado por Watkins como um caso tpico de atitude pragmatista ) .

 Extremamente religioso , Pascal valeu-se desta frmula para demonstrar

 que acreditar em Deus era , antes de tudo , o melhor para o homem ,

 independentemente de Deus existir ou no .
 No se tratava da crena em

 si , mas na " vantagem " pessoal de acreditar .
 Assim , se eu aposto que

 Deus no existe , s h duas possibilidades : se Deus no existir , eu

 ganho tudo ; mas se Deus existir , eu perco tudo , quer dizer , estou

 condenado ao inferno ; se , entretanto , eu aposto que Deus existe ,

 tambm s h duas possibilidades : se Deus existir , eu ganho tudo ; mas

 se Deus no existir eu nada perco .

 Importante observar que , apesar das crticas aos pragmatistas , na

 essncia Watkins no se situa muito longe deles , embora as idias de

 " busca da verdade e de entendimento mais profundo " , presentes no seu

 conjeturalismo , de certa forma reponham a crena na possibilidade de o

 conhecimento cientfico poder ser justificado racionalmente .

 No que tange especificamente ao pragmatismo lingustico , na forma como

 posteriormente se consolidou , releva citar o " segundo " Wittgenstein

 ( como se sabe , depois de se desiludir com a filosofia por um longo

 perodo , Wittgenstein mudou completamente a sua viso de mundo ,

 voltando s reflexes filosficas como se fosse um outro Wittgenstein ,

 inclusive repudiando muito do que ele prprio escrevera

 anteriormente ) .
 Conforme assinalou Silva ( l993 : 12 ) ,  na filosofia do

 segundo Wittgenstein que tem origem o antifundacionismo ( a negao da

 possibilidade de fundamentao racional do conhecimento ) , sendo " o

 primeiro filsofo a propor uma estratgia indiferente  fundamentao

 da gnese do conhecimento " .
 Com efeito , parece ter sido sobretudo

 depois que se dedicou durante anos ao ensino de crianas

 ( coincidentemente na mesma linha de preocupao educacional de John

 Dewey ) que Wittgenstein reconsiderou as formulaes que fizera sobre

 como funciona a linguagem humana .
 O primeiro Wittgenstein enveredara ,

 no Tratactus Logico-Philosophicus , pelo caminho movedio tradicional

 de tentar estabelecer , abstratamente , paralelo entre o pensamento e a

 linguagem .
 Aderira  teoria segundo a qual a linguagem humana se

 estrutura de acordo com padres dados , " a priori " , na mente ; e que 

 possvel , em conseqncia , ir alm dos sentidos e da experincia para

 compreender o mundo e explic-lo .
 O segundo Wittgenstein parece ter

 ento concludo pela pouca utilidade de se buscar identificar nexo

 lgico entre as proposies , consideradas em si mesmas , e a pretensa

 realidade representada por elas ; ou seja , entre a forma e o sentido ,

 entre o significante e o significado .
 Em suma , no passaria de um mero

 exerccio de semntica formal , sem nenhuma utilidade prtica .
 Como

 assinala o prprio filsofo em Philosophical Investigations ( l953 ) ,

 depois de reconhecer explicitamente os " graves erros " que publicara no

 primeiro livro ( 1953 :  65 ) :

 "

  65 ...
 For someone might object against me : " you take the easy

 way out !
 You talk about all sorts of language - , but have nowhere

 said what the essence of a language-game , and hence of language ,

 is : what is common to all these activities , and what makes them

 into language or parts of language. So , you let yourself off the

 very part of the investigation that once gave yourself most

 headache , the part about the general form of the propositions and

 of language " .
 And this is true. Instead of producing something

 common to all that we call language , I am saying that these

 phenomena have no one thing in common which makes us use the same

 word for all , but that they are related to one another in many

 different ways. And it is because of this relationship , or these

 relationships , that we call them all " language " .

 Para o segundo Wittgenstein , destarte , no mais ser importante

 especular sobre as propriedades intrnsecas das proposies .
 Importar

 saber , a partir da observao emprica , como funcionam o que rotulou

 de " jogos da linguagem " , vistos por ele como parte de uma atividade ,

 ou - como tambm chamaria - " formas de vida " .

 Contemporaneamente , o pragmatismo tem seguido junto a outras

 tendncias na busca de estratgias que centrem no sujeito cognoscente ,

 e no no objeto do conhecimento , a possibilidade de fazer escolhas

 racionais .
 E este parece ser o desafio aos filsofos da atualidade .

 Richard Rorty ( 1980 ) , apontando esses " desenvolvimentos filosficos "

 recentes , e aps erigir Wittgenstein , Heidegger e Dewey como heris do

 seu Philosophy and the Mirror of Nature , posiciona-se , junto com os

 chamados filsofos analistas , ao lado dos pragmatistas , diferentemente

 de Watkins , numa atitude resolutamente anti-fundacionista , sendo

 relevante assinalar a importncia que Rorty d  linguagem , pois ,

 apesar de se referir episodicamente  linguagem em vrias partes do

 livro , particularmente no captulo IV , dedica um captulo inteiro , o

 VI ( " Epistemology and Philosophy of Language " ) , s intrincadas

 questes da linguagem humana e suas necessrias conexes com as

 indagaes sobre o conhecimento em geral .

 PRAGMTICA LINGSTICA

 A pragmtica lingstica , que , pode-se dizer ,  a materializao , no

 estudo de lnguas e na comunicao , do pragmatismo lingstico , tem

 tido uma carreira atribulada desde que comeou a firmar-se no incio

 da dcada de 1970 , embora , como nos do conta Akmajian e outros ( 1995 ,

 p. 339 ) , tenha sido Charles Morris quem , em 1938 , props a diviso

 tricotmica do estudo da lngua em : sintaxe , semntica e pragmtica ,

 tendo definido esta ltima por " the study of the relation of signs to

 interpreters " , e , mais tarde , por " the relation of signs to their

 users " .

 O interesse pelos estudos pragmticos e o seu desenvolvimento devem-se

 grandemente a estudos realizados inicialmente por filsofos , como j

 referi .
 Nada obstante , como se ver adiante , ainda hoje no se tem uma

 delimitao clara do campo de investigao da pragmtica .
 Trata-se ,

 sem dvida , de um ramo da lingstica , mais precisamente , da

 lingstica aplicada , o qual enfoca prioritariamente a linguagem oral ,

 e ainda assim dentro dos limites em que ela ( a pragmtica ) se encontra

 com as disciplinas afins acima aludidas .
 Interessa-se pela linguagem

 como forma de comunicao humana , sendo relevantes aqui os chamados

 jogos da linguagem e as formas de vida de Wittgenstein , como num jogo

 em que as regras no esto explcitas mas o jogador as vai aprendendo

 - e criando novas regras -  medida que o jogo se desenvolve .

 Embora muitas definies de pragmtica tenham sido formuladas , as que

 se seguem so suficientes para dar uma idia do conceito .

 Primeiramente a de Richards et al. ( l992 , p. 284 ) no seu Dictionary of

 Language Teaching & Applied Linguistics :

 " pragmatics

 : the study of the use of language in communication , particularly

 the relationships between sentences and the contexts and situations

 in which they are used. Pragmatics includes the study of :

 a ) how the interpretation and use of UTTERANCES depend on knowledge

 of the real world

 b ) how apeakers use and understand SPEECH ACTS

 c ) how the structure of sentences is influenced by the relationship

 between the speaker and the hearer .

 Pragmatics is sometimes contrasted with SEMANTICS , which deals with

 meaning without reference to the users and communicative functions

 of sentences. "

 E a definio de Rod Ellis ( l994 , p. 23 ) :

 " Pragmatics is the study of how language is used in communication .

 It covers a wide range of phenomena including deixis ( i.e. the

 ways in which language encodes features of the context of

 utterance ) , conversational implicature and pressuposition ( i.e. the

 way language is used to convey meanings that are not actually

 encoded linguistically ) , illocutionary acts ( i.e. the use of

 language to perform speech acts such as stating , questioning , and

 directing ) , conversational structure ( i.e. the way in which

 conversations are organized across turns ) , and repair ( i.e. the

 conversational work undertaken to deal with miscommunications of

 various kinds ). "

 E a definio de Akmajian et al. ( 1995:339 ) :

 " the study of language use in relation to language structure and

 context of use .
 As such , the sudy of pragmatica straddles the

 boundary between language and the world. "

 Das definies acima releva realar os conceitos de " language in use "

 ( lngua em uso ) , " utterance " ( expresso oral , emisso ) , e " speech act "

 ( ato da fala ) .
 O primeiro , " language in use " significa que no se est

 considerando a lngua em abstrato ; o segundo , " utterance " ,  usado

 para representar uma unidade de discurso , no correspondendo

 necessariamente  sentena ( perodo ) tradicional dos gramticos , a

 qual tem que obedecer a critrios lgicos de correo e

 aceitabilidade .
 O terceiro , " speech act " , associa-se ao que se passou

 a chamar de teoria dos atos da fala ( " speech-act theory " ) , que estuda

 as unidades de discurso ( " utterances " ) sob dois aspectos : o literal

 ( ou proposicional ) , e o prtico , isto  , o efeito provocado no

 comportamento da pessoa a quem so dirigidas .
 Em resumo , cumpre

 distinguir entre perodo ( unidade de estudo dos gramticos

 tradicionais ) e expresso oral / emisso ( unidade de estudo dos

 lingistas pragmticos ) .
 Assim , uma expresso oral / emisso pode

 consistir de apenas uma palavra ou pequena frase , como " Hi !
 " , " Good

 morning !
 " , etc. ) , ou mesmo coincidir com um perodo , em que se

 distinga ( m ) a ( s ) orao ( es ) e os diferentes termos da ( s ) mesma ( s ) ; e

 ainda : tais unidades de discurso ( expresses orais / emisses ) no

 apresentam formas pr-estabelecidas , nem regras de correo e

 aceitabilidade , como no caso dos perodos e oraes .
 O trabalho dos

 lingistas pragmticos ser , portanto , o de identificar

 " regularidades " em face da maior ou menor freqncia com que elas

 ocorrem .

 Embora a pragmtica lingstica j tivesse sido delineada nos estudos

 de Wittgenstein desde a dcada de 1950 , s recentemente passou a

 constituir-se como um campo de investigao autnomo .
 Conforme nos

 informam Leech & Thomas ( 1990:174 ) :

 " [ ...
 ] pragmatics was born out of the abstractions of philosophy

 rather than of the descriptive needs of linguistics ( and this , it

 will be argued below , accounts in part for the difficulties which

 were later experienced by linguists when they tried to apply

 pragmatic models to the analysis of stretches of naturally-occuring

 discourse ) .
 Even when pragmatics started to become important for

 linguistics , it was again , at least in the English-speaking world ,

 informed by the work of philosophers " .

 Os autores esto se referindo aos filsofos do chamado Grupo de

 Oxford , cujo interesse terico preponderante  o lingstico .
 Curioso

 notar que se atm ao mundo dos anglfonos , e do destaque ao trabalho

 de Jonn Austin , J. R. Searle e H. P. Grice .
 De fato , esses filsofos

 ( houve mesmo quem negasse essa condio a Austin , alegando que ele no

 fazia filosofia e sim , de um ponto de vista emprico , cincia da

 linguagem ) so as fontes inspiradoras da pragmtica lingstica na

 forma como ela se desenvolveu na dcada de 1970 .
  neles que se

 originam as noes de fora performativa ( " performative force " de

 Austin ) , da teoria dos atos da fala ( " speech-act theory " de Searle ) , e

 da distino " o que  dito " / " o que  significado " ( " what is said " /

 " what is meant " , de Grice ) .

 No campo especificamente lingstico , a pragmtica vai originar

 correntes de estudo diversas : a Lingstica Aplicada , a Anlise do

 Discurso , a Anlise do Erro etc ; e novas teorias de

 aquisio / aprendizagem / ensino de lnguas , no s da lngua nativa , mas

 principalmente da lngua estrangeira / segunda lngua ) .
 Assumem papel de

 relevo nesses estudos - no mundo anglfono - Malcolm Coulthard , M. A .

 K. Halliday , Ruqaia Hasan , Gillian Brown , George Yule , Jack C .

 Richards , Evelyn Hatch , Rod Ellis , Guy Cook , e outros listados na

 bibliografia ao final deste texto .

 CONCLUSO

 Diante da aparente impossibilidade de fundamentao racional do

 conhecimento cientfico .
 Ou mais precisamente , diante da contundncia

 do ceticismo humano a respeito da sua natureza , as cincias humanas

 acabam por encontrar outras formas de buscar o seu prprio

 desenvolvimento , independentemente daquelas pretensamente fundadas em

 verdades a priori .
 Ao invs de se indagar sobre a essncia do

 conhecimento , vai-se procurar , nos contextos onde se desenvolvem as

 atividades humanas , observar as diferentes " formas de vida " , na

 expresso de Wittgenstein .
 Embora muitos filsofos acreditem na

 possibilidade de fundamentao racional do conhecimento , seja para

 justificar o conhecimento em geral , seja para justificar esta ou

 aquela teoria especificamente , a realidade no tem estado ao lado

 deles .
 Em conseqncia , as correntes filosficas de tendncias

 pragmatistas ganham terreno , embora os seus adeptos nem sempre

 utilizem este termo para designar a sua filosofia - como parece ser o

 caso de Watkins .

 Quanto aos estudos especificamente lingsticos , o pragmatismo parece

 ter provocado uma verdadeira revoluo .
 A lingstica pura no

 consegue mais se impor como cincia terica , como ocorria h apenas

 menos de trs dcadas atrs .
 E tambm no consegue delimitar

 claramente o seu campo de atuao .
 A pragmtica lingstica

 ( " pragmatics " ) ganha cada vez mais terreno , incursionando na rea de

 outras disciplinas , como a sociologia , a antropologia , a psicologia , e

 a prpria filosofia da linguagem , e vice-versa .
 Na realidade , estudar

 lingstica aplicada  estudar , de forma relativamente difusa :

 semitica , pragmtica , anlise do discurso , sociolingstica ,

 psicologia lingstica , antropologia lingstica e mesmo filosofia

 lingstica .

 De qualquer modo , apesar dessa aparente confuso de objeto , cumpre

 reconhecer que , tambm no terreno da linguagem , o conhecimento humano

 parece estar dando um grande salto .

 No estudo de lnguas , a atitude pragmtica , na forma como explicada

 acima , tem-se revelado um instrumento de grande valia , no s para

 professores como para aprendizes , seja no estudo da aquisio de

 lngua materna , seja na aprendizagem de LE ou L2 .
 No nosso caso ,

 trata-se do ` ensino / aprendizagem do ingls como lngua estrangeira

 para falantes do portugus do Brasil , no Brasil .
 A atitude pragmtica

  crucial .

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