

 Portugus e Esperanto-Ingls : Carlos Vogt

 Novas prticas melhoram ensino da lngua escrita

 A Histria do Portugus Brasileiro

 Lei probe uso de estrangeirismos

 A lngua na TV

 Lnguas so assunto de Estado

 Os emprstimos no lxico do futebol

 A origem e o destino das lnguas

 A globalizao da lngua :

 Aldo Rebelo

 A polmica sobre os " estrangeirismos " e o papel dos ligistas :

 Kanavillil Rajagopalan

 Lnguas Crioulas :

 Hildo Honrio do Couto

 Norma e prescrio lingstica :

 Maria Helena de Moura Neves

 A originalidade das lnguas indgenas no Brasil :

 Aryon D. Rodrigues

 Os estudos sobre linguagem : uma histria das idias :

 Eduardo Guimares

 A lingstica no Brasil :

 Paulino Vandresen

 Inteligncia , linguagem e mente humana :

 Ulisses Capozoli

 Desenvolvimento da linguagem e processo de subjetivao :

 Cludia Lemos

 Atlas Lingstico do Brasil :

 Suzana Cardoso e Jacyra Mota

 Jornalismo e questes de linguagem :

 Graziela Kronka

 Poema

 Bibliografia

 Crditos

 [ INLINE ]

 [ INLINE ]

 Os Estudos Sobre Linguagens

 Uma Histria das Idias

 Eduardo Guimares

 Entre as hipteses do senso comum sobre o que  a linguagem e as lnguas ,

 podemos encontrar hoje a predominncia de uma que considera a linguagem como

 instrumento de comunicao .
 Hiptese muito prpria do mundo contemporneo

 marcado , entre outras coisas , pela mdia .
 Esta hiptese acompanha duas outras ,

 pelo menos : a de que dizer  , fundamentalmente , informar ; e a de que a

 linguagem expressa nossos pensamentos ( e sentimentos ) .
 So hipteses tomadas ,

 enganosamente , pelo senso comum como compondo , em seu conjunto , uma concepo

 inquestionvel do que  a linguagem .

 Ao lado destas hipteses opera ainda uma outra que incide diretamente sobre o

 que  uma lngua , e o que  falar uma lngua especfica .
 Mais precisamente , o

 que  uma lngua nacional e o que  falar esta lngua .
 Neste caso entra em cena

 a hiptese de que uma lngua  aquilo que  tomado como padro de correo por

 uma elite escolarizada e culta .

 1 .
 Um Interesse Milenar

 O interesse pela linguagem data da antigidade clssica .
 Tal interesse se

 apresenta , na Grcia , no interior da filosofia , que se viu levada a estudar a

 estrutura do enunciado para poder tratar do juzo .
 Isto levou Plato [ 1 ] a

 estabelecer a primeira classificao das palavras de que se tem conhecimento .

 Para ele as palavras podem ser nomes e verbos .
 Depois dele Aristteles [ 2 ]

 considerou uma outra classificao das palavras : nomes , verbos e partculas .
 Se

 aqui temos a primeira diviso da cadeia de sinais lingsticos pelo

 reconhecimento de uma diferena de categoria entre palavras , estamos diante de

 uma posio que toma como interesse a relao da linguagem com o conhecimento .

 A diviso entre nomes e verbos procura descrever a estrutura do juzo , que deve

 falar de como  o mundo .

 Ao lado dos estudos filosficos , tambm na Grcia , desenvolveram-se os estudos

 retricos e gramaticais .
 A Gramtica pode ser considerada como elemento de uma

 das primeiras revolues tecnolgicas da histria do Homem [ 3 ] .
 A gramtica

 constitui-se na histria como uma instrumentao das lnguas que , enquanto arte

 ( no sentido latino ) ou tcnica ( no sentido grego ) , apresenta-se como um modo de

 ensinar a ler e a escrever corretamente .
 Ou seja , a Gramtica [ 4 ] instala , como

 central , no domnio do estudos da linguagem , a qualidade da correo .
 Qualidade

 que toma vrias feies no decorrer da histria e permanece , ainda hoje , como

 um modo de regular as lnguas como lnguas dos Estados Nacionais , com todas as

 conseqncias que isso traz .
 Por outro lado , a Retrica [ 5 ] se apresenta como o

 estudo das tcnicas de convencimento dos ouvintes por aquele que fala , o

 orador .
 Neste caso o que interessa  como dizer para levar o ouvinte 

 concluso projetada .
 Estamos diante de duas posies distintas : de um lado um

 norma de correo ( gramtica ) , de outro as regras de como proceder para

 convencer , para alcanar o ouvinte ( retrica ) .
 De um lado o " valor " da lngua ,

 de outro a adequao da relao orador / auditrio .

 Ainda na antiguidade , podemos retornar  ndia , onde o interesse religioso

 levou a estudos bastante rigorosos dos aspectos fonolgicos do snscrito .
 Estes

 estudos tinham a finalidade de estabelecer de modo perfeito que som deveria ser

 produzido nos cnticos sagrados , para que eles tivessem validade sagrada .
 Estes

 estudos levam a uma rigorosa descrio dos sons , que podemos encontrar na

 gramtica de Panini [ 6 ] , num certo sentido um precursor remoto de estudos

 estruturais do sculo XX .
 Neste caso o que est em jogo  a correo da

 descrio de uma qualidade fnica , est em jogo a descrio da forma da lngua ,

 nela mesma .

 2 .
 Saussure : as Idias Lingsticas na Entrada do Sculo XX

 O pensamento moderno sobre a linguagem instala-se a partir do incio do sculo

 XIX , com a lingstica comparativa [ 7 ] .
 Neste momento a lingstica se

 apresenta tomando como objeto a mudana lingstica , motivada por um projeto de

 poder reconstituir o passado lingstico das lnguas europias e asiticas .
 A

 questo principal aqui so as relaes genealgicas entre as lnguas , e o

 objeto do lingista so as formas no seu processo de mudana .
 Toma-se uma forma

 para saber como ela era antes , busca-se reconstruir por comparao entre as

 lnguas aparentadas ( dizia-se da mesma famlia ) , o passado da forma em questo .

 Este procedimento , que se d no interior de uma posio naturalista ,

 biolgica [ 8 ] , sobre a linguagem , se caracteriza fundamentalmente pela

 formulao das chamadas leis fonticas .
 Ou seja , as mudanas seriam resultado

 necessrio de certas caractersticas das formas das lnguas .
 Vamos dar um

 exemplo , tomando a passagem do latim vulgar ( popular ) para o Portugus [ 9 ] : As

 palavras do Portugus mantm a acentuao tnica do latim : mulire > mulher ,

 intgru > inteiro , cathdra > cadeira , tenbras > trevas , etc .

 Os estudos sobre a linguagem tomaram a forma que tm hoje a partir de mudanas

 no domnio da lingstica , constitudas no incio do sculo XX , pelo abandono

 do naturalismo dominante no comparatismo do sculo XIX .
  deste momento um dos

 trs principais movimentos fundadores nos estudos lingsticos naquele sculo ,

 o curso de lingstica geral de Ferdinand Saussure , na universidade de Genebra ,

 nos anos de 1906-1907 , 1908-1909 , 1910-1911 .
 Este curso foi posteriormente

 transformado em livro , por dois de seus discpulos ( Charles Bally e Albert

 Sechehaye [ 10 ] ) , depois da morte de Saussure , a partir das anotaes de vrios

 de seus alunos .

 A posio de Saussure , vindo do comparatismo do sculo XIX , no qual ele se

 formara , procura , de algum modo , ligar duas tradies daquele momento , a alem

 e a francesa .
  assim que Saussure chega a sua clssica distino entre lngua

 e fala , como forma de definir um objeto especfico para a lingstica , que ,

 segundo ele , apresentasse uma homogeneidade interna , sem o que seria impossvel

 pensar a linguagem cientificamente .
 A lngua  este objeto homogneo que ele

 caracteriza como uma sistema de formas que se caracterizam pelas relaes que

 tm umas com as outras .
 Estamos diante de uma concepo da lngua como sistema ,

 que substitui a concepo naturalista , organicista , e atomista , prpria do

 comparatismo .
 E ao lado dessa distino Saussure coloca uma outra , a distino

 entre sincronia e diacronia .
 Assim , embora ele reconhea o lugar dos estudos

 das mudanas , considera que a lingstica deveria colocar no centro de seu

 interesse o estudo do sistema da lngua , num momento dado .
 Segundo ele , no

 funcionamento da lngua , no se  levado pelo que as formas foram , mas por

 aquilo que elas so e pelas relaes que elas tm naquele momento da histria .

 Para quem fala no interessa se mulher veio de mulire , mas que mulher se ope

 a homem , por exemplo .
 Est em questo aqui relaes sistemticas de

 simultaneidade e no relaes de sucesso .

 Assim temos no campo da lingstica o problema da descrio do que a

 lingstica chamou depois de estrutura , ao lado do estudo da mudana .
 E a

 lingstica do sculo XX , embora tenha sido basicamente sincrnica , manteve

 forte produo na linha histrica , evidentemente afetada pelo corte da

 distino saussureana que , ao estabelecer a lngua como objeto da lingstica ,

 constituiu um objeto no qual no estavam includas as questes do sujeito , da

 relao com o mundo , e mesmo a questo da significao , que foi substituda por

 aquilo que Saussure chamou de valor das formas lingsticas .
 Estamos aqui no

 domnio do lingstico enquanto relao com o lingstico .
 Ou seja , nada no

 lingstico  externo  lngua .
 Neste caso , por exemplo , no interessa a

 relao das formas da lngua com os objetos do mundo ou com o pensamento .
 No

 est em questo em Saussure nem a referncia , nem a expresso do pensamento .

 Busca-se estar num domnio autnomo que no  o filosfico nem no sentido

 aberto por Plato , de um lado , nem no de Aristteles , de outro .
 Nem no sentido

 de Descartes [ 11 ] , no sculo XVI ( que retoma Plato num certo sentido ) , em que a

 questo  cognitiva ( ligada  estrutura do pensamento ) .

 3 .
 Caminhos do Estruturalismo

 Este corte saussureano pe os estudos da linguagem num novo caminho que se

 desdobra por vrias direes : desde estudos comparatistas que se renovaram pela

 concepo de sistema de Saussure , at estudos sincrnicos que , lidando com os

 limites do objeto saussureano , buscam incluir no lingstico o sujeito .
 Este 

 o caso , por exemplo , de Benveniste [ 12 ] que instala um domnio especfico para

 os estudos enunciativos , ou seja para considerar o funcionamento da lngua

 marcada pela relao que aquele que fala ( o locutor ) tem com a lngua e que se

 marca na estrutura da lngua .
 Estes trabalhos tiveram vrios desdobramentos

 bastante conhecidos no Brasil , como a semntica argumentativa , desenvolvida a

 partir da noo de escala argumentativa de Ducrot [ 13 ] e que aparece tambm nos

 trabalhos de Carlos Vogt [ 14 ] .
 A semntica argumentativa considera que o

 fundamento do sentido so estas relaes " retricas " que se marcam na lngua ,

 de tal modo que falar  ser tomado por estas relaes de argumentao .
 O

 retrico  assim tomado como integrado no lingstico .
 Para esta semntica o

 sentido no  uma relao da linguagem com o mundo , constitudo a partir de um

 conceito de verdade , mas uma relao prpria do acontecimento de enunciao que

 constitui os lugares do locutor e seu destinatrio .

 Paralelo a este tipo de trabalho podemos encontrar , tambm no campo do estudo

 da significao , aqueles que vm pela via da filosofia analtica inglesa e que

 deixaram para os estudos da linguagem a concepo dos atos de fala .
 Ou seja ,

 considera-se que falar  fazer algo .
 Por exemplo : dizer eu prometo x no 

 informar que se est prometendo .
 Dizer eu prometo x  a prpria promessa de

 fazer x .
 Aqui uma das figuras fundamentais  o filsofo ingls Austin [ 15 ] e sua

 clssica obra How to Do things with words , publicado em 1962 .
 Os trabalhos da

 filosofia analtica desenvolveram-se fortemente num campo conhecido como

 pragmtica , que j se desenhara nas formulaes de Morris na dcada de 30 de

 sculo XX [ 16 ] , numa linha ligada ao pragmatismo de Peirce [ 17 ] , americano do

 final do sculo XIX , e criador da semitica .

 Numa de suas formulaes atuais , feita a partir de Grice , para a pragmtica o

 sentido  pensado como inteno do falante , que ele comunica ao ouvinte , na

 medida do reconhecimento da inteno que teve .
 Estamos aqui diante de um certo

 tipo de psicologismo , em que o sujeito da linguagem  tomado como dono de suas

 intenes , precedendo o seu prprio dizer .
 Este psicologismo distingue estes

 trabalhos da pragmtica dos estudos enunciativos constitudos no interior das

 posies estruturalistas , como os de Benveniste , por exemplo .

 Outros caminhos que de algum modo circulam neste espao saussureano so os que

 desembocaram no funcionalismo de Jakobson de um lado e Martinet de outro .
 A

 posio de Jakobson teve tambm larga repercusso no Brasil , notadamente por

 suas posies comunicacionais , ou seja , pela considerao da linguagem como

 instrumento de comunicao e pelo dilogo que manteve , a partir desta posio ,

 com a antropologia e a teoria da informao .
 Tornou-se um clssico , entre

 outros , seu trabalho sobre as funes da linguagem , que est em " Lingustica e

 Potica " [ 18 ] .

 Num outro caminho do estruturalismo com filiao saussureana , podemos pensar em

 Hjelmslev [ 19 ] , que vai desenvolver um estruturalismo no funcionalista e que

 afetou diretamente um tipo de estudo da significao , a semntica estrutural de

 Greimas , que se constituiu enquanto uma semitica estrutural .
 No Brasil esta

 posio desenvolveu um dilogo particular com a anlise do discurso , nas obras

 de Jos Luis Fiorin e Diana Pessoa de Barros , como parte do movimento de

 incluir no tratamento semitico os aspectos ideolgicos da significao .

 O Estruturalismo que caracteriza a lingstica europia em meados do sculo XX ,

 dar a esta disciplina a posio de cincia piloto das cincias humanas .

 Veremos ento o estruturalismo avanar para os domnios da antropologia , da

 sociologia , da psicanlise , da Filosofia , configurando elementos fundamentais

 do pensamento de autores como Levi-Strauss , Lacan e Althousser , por exemplo .

 Esta via passa a pr no centro da questo das cincias humanas o simblico , ou

 seja , os fatos humanos significam , esto estruturados enquanto significao .

 4 .
 O Formal e uma Nova Busca da Gramtica

 Um segundo movimento fundamental da lingstica do sculo XX  marcado pelo

 trabalho de Chomsky , que se inscreve numa tradio americana da lingstica .

 Ele busca , ao mesmo tempo , para fundamentar uma nova posio biolgica para a

 linguagem , o cognitivismo do sculo XVI .
 Aqui a Linguagem passa a estar

 diretamente ligada  questo do pensamento e aparece como instrumento de

 expresso do pensamento .
 Isto se constitui a partir de uma posio metodolgica

 claramente formal e lgica .
 O trabalho de Chomsky e a Gramtica Gerativa e

 Transformacional colocam como central na lingstica as relaes das unidades

 lingsticas entre si , ou seja , a sintaxe .
 Para ele as pessoas falam porque tm

 um rgo da linguagem .
 A capacidade ( o que o gerativismo chama competncia )

 para falar  inata na medida mesmo em que  biolgica .
 Deste modo Chomsky [ 20 ]

 recoloca a lingstica no domnio das cincias da natureza , tal como no

 comparatismo do sculo XIX , com uma diferena fundamental : o biologismo  posto

 fora do historicismo .
 O Biolgico  pensado a partir de uma concepo universal

 e no a partir de uma viso de uma histria natural , em que o que se punha em

 realce eram as diferenas entre as espcies , etnias , etc .
 Para Chomsky a

 questo  que o Humano  biologicamente universal e  o mesmo para todos , e a

 linguagem  parte desta caracterizao naturalista e universal do homem .

 Na medida em que se constitui como uma gramtica , a teoria chomskyana concebe o

 conhecimento sobre as lnguas como um conjunto de regras de como formar frases .

 Estas regras so consideradas como constituindo a competncia dos falantes ,

 considerados idealmente , ou seja , fora de qualquer situao histrica

 particular .

 Este movimento formal encontra tambm sua face semntica .
 Baseando-se em

 posies da lgica do final do sculo de XIX e incio do sculo XX ( como os de

 Frege e Russell [ 21 ] ) , desenvolve-se um estudo da significao que se formula

 como um sistema lgico e constitui a noo de sentido a partir do conceito de

 verdade .
 Ou seja , est-se aqui numa posio relacionada ou ao idealismo

 platnico , ou ao pensamento aristotlico .
 Estes estudos se do com freqncia

 no interior da filosofia da linguagem , onde encontramos autores como

 Wittgenstein ( do tratado lgico-filosfico ) , Grice e Davidson [ 22 ] .

 5 .
 O Lingstico e as Diferenas Culturais e Sociais

 Se o que at aqui se colocou formula aspectos de concepes da unidade do

 lingistico , podemos encontrar a considerao da no unidade da lngua na

 lingstica do sculo XX tanto a partir de consideraes ligadas  antropologia

 quanto  sociologia .
 No Caso da Antropologia , encontramos o pensamento de

 Sapir , lingista americano formado a partir das posies da Antropologia de

 Boaz .
 Para ele a lngua  parte da cultura de um povo e  assim marcada por

 esta cultura .
 Estamos aqui diante de uma concepo em que a linguagem  pensada

 a partir de elementos exteriores que a constituem .
 Mattoso Cmara , j no incio

 da dcada de 40 do sculo XX , inicia , no Brasil , um trabalho ligado a estas

 concepes , que ele formula , tambm , a partir das posies vindas de Saussure ,

 notadamente pela via de Jakobson e Martinet .
 Ele  , ao mesmo tempo , um

 lingista de formao histrica e deixa uma obra estruturalista que vai do

 estudo histrico da Lngua Portuguesa ,  descrio sincrnica do Portugus dito

 padro .
 Dedica-se , ainda ,  estilstica , ao lado de vasto trabalho no campo das

 lnguas indgenas .

 Um outro movimento oposto ao da universalidade e unidade do lingistico ,

 pensado agora enquanto competncia ,  o da sociolingstica quantitativa

 americana de Labov .
 Aqui a lngua  pensada como tendo uma estrutura varivel

 que se pode conhecer por um mtodo quantitativo , atravs do qual  possvel

 estabelecer relaes entre um diviso estratificada da sociedade e a

 variabilidade estatstica da lngua .
 Neste caso o externo que determina a

 lngua  pensado como distinto do lingstico e a socioligstica incumbe-se de

 estabelecer as correlaes entre uma estratificao social e a variabilidade

 das estruturas lingsticas .

 Estas posies antropolgicas e sociolingsticas trazem para a discusso atual

 questes relativas ao que se costuma chamar contato de lnguas .
 Aspectos j

 postos em pauta , a partir do comparatismo , por Hugo Schuchardt [ 23 ] na passagem

 do sculo XIX para o XX .

 6 .
 Mais um Movimento do Lingstico no Domnio das Cincias Humanas e Sociais

 Um terceiro momento decisivo na histria dos estudos da linguagem no sculo XX

  marcado por uma posio terica que busca pensar a relao entre a

 exterioridade e o lingstico como uma relao histrica e constitutiva do

 processo lingstico .
 Estamos aqui diante da posio da Anlise de Discurso que

 se desenvolve a partir do final da dcada de 60 do sculo XX na Frana .
 De um

 lado podemos lembrar aqui o pensamento de Foucault , no interior de um

 pensamento filosfico dedicado ao estudo da histria , e de outro o pensamento

 de Pcheux [ 24 ] , que constitui a anlise do discurso como modo de se poder

 pensar o histrico e o poltico como prprios do processo de significao do

 dizer ( no qual se constitui o sujeito ) .
 Para esta posio o objeto fundamental

 dos estudos  o discurso enquanto objeto integralmente lingstico e

 integralmente histrico .
 Ou seja , a exterioridade no se apresenta como um fora

 a que a linguagem deve ser correlacionada , ela  parte do que  prprio da

 linguagem e de seu funcionamento .
 E. Orlandi [ 25 ] traz para este campo , entre

 outras , duas contribuies especficas .
 A primeira  a formulao de que a

 questo do sentido diz respeito a uma tenso entre a polissemia ( os muitos e

 sempre outros sentidos ) e a parfrase ( o dizer o mesmo ) .
 A segunda  a

 considerao de que o sentido no diz respeito ao segmental , mas a que o

 silncio significa , e  isto que faz o sentido da linguagem .

 Reencontra-se assim uma posio que coloca a questo da linguagem no centro da

 cena das cincias humanas .
 A diferena , aqui , relativamente ao estruturalismo ,

  que est em questo a historicidade , que no est presente nem no social

 saussureano , nem no funcionalismo de Jakobson , nem mesmo , num certo sentido ,

 nas abordagens diacrnicas e magistrais de Benveniste nos seus estudos do

 Indo-europeu .
 Ou seja , a historicidade no est na anlise do discurso definida

 pelo tempo , enquanto dimenso do mundo , mas por uma especificidade determinada

 pela ideologia , por uma materialidade scio-histrica .

 7 .
 Uma Cena Contempornea

 Do ponto de vista das cincias da linguagem hoje , vivemos um embate entre a ) um

 cognitivismo naturalista que o pensamento chomskyano reintroduziu e que

 localiza a lingstica no interior da biologia ( enquanto cincia psicologica ) ,

 ou seja , das cincias naturais ; b ) posies derivadas do estruturalismo , como

 os estudos enunciativos , para os quais o funcionamento da lngua se d porque a

 lngua est marcada por formas prprias para seu funcionamento no acontecimento

 enunciativo , posies ento que mantm a questo da autonomia do lingstico

 posta por Saussure ; c ) posies que procuram estabelecer dilogos entre as

 diversas disciplinas das cincias humanas que levam a pensar o lingstico como

 definido por uma correlao com o que est fora do lingstico : o

 antropolgico , o social , o psicolgico , etc. d ) posies como a da anlise de

 discurso que pem em cena a questo de que no se pode reduzir o lingstico

 nem ao social ( antropolgico ) nem ao psicolgico , pois a linguagem  , ao lado

 de integralmente lingstica - num certo sentido saussureano - tambm

 integralmente histrica .

 Eduardo Guimares  lingista e professor do Instituto de Estudos da Linguagem

 ( IEL ) , da Unicamp .

 Notas

 [ 1 ] Filsofo grego do sculo IV a .
 C. [ voltar ]

 [ 2 ] Filsofo grego do sculo IV a .
 C. [ voltar ]

 [ 3 ] Esta  a posio de S. Auroux , em A Revoluo Tecnolgica da Gramatizao ,

 Campinas , Editora da Unicamp , 1992 .
 [ voltar ]

 [ 4 ] Como marco da histria da Gramtica na grcia pode-se considerar Dionsio da

 Trcia , Gramtico do sculo II a.C. , tambm deste sculo  o gramtico latino

 Varro. [ voltar ]

 [ 5 ] Pode-se considerar o incio da retrica no sculo IV a.C , com Corax e

 Tsias .
 Decisiva nesta histria  a Retrica de Aristteles. [ voltar ]

 [ 6 ] Gramtico Indu do sculo IV a .
 C .
 Do sculo II a.C  Pantajali que , junto

 com Panini , constitui a tradio da gramtica normativa do snscrito. [ voltar ]

 [ 7 ] Considera-se o trabalho de Franz Bopp , Sobre o sistema de Conjugaes do

 Snscrito , Grego , Latim , Persa e Lnguas Germnicas , publicado em 1816 , como um

 marco para a constituio da lingustica comparativa .
 Outra obra fundamental 

 a Gramtica Germnica de Grimm , de 1819 .
 Antes deles pode-se considerar o

 trabalho de Rasmus Rask de 1811 , publicado em 1818 .
 [ voltar ]

 [ 8 ] A lingstica  considerada uma disciplina da biologia. [ voltar ]

 [ 9 ] Como se sabe , o Portugus  resultado de mudanas histricas especficas a

 partir do latim vulgar. [ voltar ]

 [ 10 ] A primeira edio do Curso de Lingustica Geral de Saussure  de 1916 .

 Saussure nasceu em 1857 e morreu em 1913 .
 [ voltar ]

 [ 11 ] Filsofo Francs ( 1596-1650 ) [ voltar ]

 [ 12 ] Lingista Francs ( 1902-1976 ) .
 Ver fundamentalmente seus artigos nas sees

 " O Homem na Lngua " e " Comunicao " , em Problemas de Lingustica Geral I e II .

 Estas obras renem sua produo em lingstica geral desde o final da dcada de

 30 do sculo XX .
 Publicados no Brasil por Pontes , Campinas. [ voltar ]

 [ 13 ] Ver " As Escalas Argumentativas " de 1983 , traduzido para o Portugus em

 Provar e Dizer .
 So Paulo .
 Global , 1981 .
 Ver tambm " Argumentao e ' topoi '

 argumentativos " .
 Publicado em Histria e Sentido na Linguagem , Campinas ,

 Pontes , 1989 .
 [ voltar ]

 [ 14 ] Ver , por exemplo , O Intervalo Semntico , So Paulo , tica , 1977 e

 Linguagem , Pragmtica e Ideologia , So Paulo , Hucitec , 1980 .
 [ voltar ]

 [ 15 ] Filsofo ingls ( 1911-1960 ) [ voltar ]

 [ 16 ] Ver Fundamentos da Teoria dos Signos , de 1938 .
 Publicado no Brasil por

 Eldorado Tijuca / Edusp , Rio de Janeiro , 1976 .
 [ voltar ]

 [ 17 ] Charles Sanders Peirce ( 1839-1914 ) [ voltar ]

 [ 18 ] Texto de 1960 , publicado no Brasil em Lingstica e Comunicao , So Paulo ,

 Cultrix , 1969 .
 Jakobson nasceu na Rssia em 1896 e morre nos Estados Unidos em

 1982 .
 [ voltar ]

 [ 19 ] Lingista dinamarqus ( 1899-1965 ) .
 [ voltar ]

 [ 20 ] Pode-se considear como obras de fundao de seu pensamento Estruturas

 Sintticas de 1957 e Aspectos da Teoria da Sintaxe de 1965 .
 Para se observarem

 as mudanas de modelo da teoria , numa anlise do Portugus , pode-se recorrer a

 Anlise Sinttica .
 So Paulo , tica , 1984 , de Miriam Lemle ; e As Gramticas do

 Portugus , Campinas , Editora Unicamp , 2001 , de Charlotte Galves. [ voltar ]

 [ 21 ] Podemos lembrar de Frege , " Sobre o Sentido e a Referncia " de 1892 ,

 publicado no Brasil em Lgica e Filosofia da Linguagem , So Paulo ,

 Cultrix / Edusp , 1978 ; e de Russell , " Da Denotao " , de 1950 , publicado no Brasil

 em Os Pensadores XLII , So Paulo , Abril , 1974 .
 [ voltar ]

 [ 22 ] O Tratado Lgico-Filosfico  publicado em 1921 .
 De Grice ver , por exemplo ,

 " Lgica da Conversao " , de 1967 ; e de Davidson " Verdade e Sentido " de 1967 ,

 publicado no Brasil em Dascal , M Semntica , Campinas , 1982 .
 [ voltar ]

 [ 23 ] Lingista alemo ( 1842-1927 ) .
 [ voltar ]

 [ 24 ] Ver , entre outros trabalhos seus , Anlise Automtica do Discurso de 1969 ,

 publicado no Brasil em Por Uma Anlise Automtica do Discurso , Campinas ,

 Editora da Unicamp , 1990 ; Semntica e Discurso , de 1975 , publicado no Brasil

 pela Editora da Unicamp , Campinas , 1988 ; e Estrutura ou Acontecimento , de 1983 ,

 publicado no Brasil por Pontes , Campinas , 1990 .
 [ voltar ]

 [ 25 ] A este respeito ver A Linguagem e seu Funcionamento de 1983 , Campinas ,

 Pontes , 1987 ; As Formas do Silncio , Campinas , Editora da Unicamp , 1992 ;

 Interpretao , Petrpolis , Vozes , 1996 .
 [ voltar ]

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 Atualizado em 10/08/2001

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