 Sumrio

 [ INLINE ]

 Itens

 1.A Linguagem e o Algoritmo

 5.Linguagem e Discurso

 2.Linguagem e Experincia 6.A Experincia do " arbitrrio " na Linguagem

 3.Linguagem e Ao 7.Cincia e Experincia da Linguagem

 4.Linguagem e Conveno Notas e referncias

 A Linguagem e o Algoritmo

 " Vai-se repetindo que a cincia  uma lngua bem feita .
  dizer tambm que a

 lngua  comeo de cincia , e que o algoritmo  a forma adulta de linguagem "

 ( Merleau-Ponty - A Prosa do Mundo )

 Numa poca , como a nossa , em que os resultados e procedimentos da cincia

 servem de modelo e critrio para que as prticas sejam consideradas legtimas

 por qualquer grupo social , no  de estranhar que tambm a linguagem seja

 vinculada a demandas de um " saber-dizer " que a submeteriam , em ltima

 instncia , aos padres de constituio do " objeto " , segundo o paradigma

 cientfico .
 Com frequncia ouvimos dizer , em diferentes contextos , que a

 linguagem deve ser , antes de tudo , precisa , o que supe entre as representaes

 por ela produzidas e seus referentes uma relao determinada pela lgica da

 identidade .
 A linguagem funcionaria , ento , associando , de modo claro e

 inequvoco , os significantes - constitudos pelos sinais materiais acessveis

 aos nossos sentidos - e os significados - constitudos por contedos mentais ,

 correspondentes s situaes e aos objetos da vida real , de modo determinado ,

 singular e unvoco .
 Entre o mundo dos signos e dos pensamentos haveria ,

 portanto , uma " relao " , ao mesmo tempo analtica e global , de paralelismo e

 correspondncia ; a linguagem no seria seno designao ; e a " boa expresso "

 consistiria apenas em substituir " uma percepo ou uma idia por um sinal

 convencionado que a anuncia , evoca ou abriga " ( 1 ) .

 Porm , supor ou desejar que a linguagem tenda a um algoritmo no significaria

 negar-lhe o prprio pathos criador e confin-la numa dimenso puramente

 instrumental ?
 Como uma espcie de " duplo do mundo " , ela estaria impedida de

 ser , e , no entanto , obrigada a representar os seres , de modo inequvoco , embora

 sempre  distncia .

 A linguagem deixaria ento de se constituir , por um lado , em campo e condio

 de possibilidade da poesia - que se nutre justamente de sua polissemia e de sua

 equivocidade - e , por outro lado , em acontecimento da comunicao , posto que ,

 instrumento de designao de objetos exteriores a ela , esta linguagem j se

 encontraria pronta antes de qualquer dilogo e no seria capaz seno de

 circular , com a fixidez de uma mensagem cifrada , entre " sujeitos pensantes

 fechados sobre suas significaes " .

 Como assinala Merleau-Ponty , neste processo no encontraramos jamais , nas

 palavras dos outros , nada alm do que ns mesmos houvssemos colocado nelas , e

 a comunicao seria apenas uma aparncia , no podendo nos ensinar nada de

 verdadeiramente novo .

 O que haveria por trs de tais noes ?
 Qual seria o sentido desta representao

 da linguagem como pura representao ?
 De um modo geral , esta concepo

 algortmica da linguagem teria a " virtude " de reafirmar , cartesianamente , a

 transparncia do pensamento para o sujeito : nossa expresso no consistiria

 seno em " substituir as aluses confusas que cada um de nossos pensamentos faz

 a todos os outros por atos de significao de que sejamos verdadeiramente

 responsveis ( ...
 ) " ( 2 ) .

 Mas esta " responsabilidade " do sujeito sobre seu pensamento e sua expresso , ao

 mesmo tempo que reafirmao de seu suposto poder , seria tambm sintoma da

 impotncia da prpria linguagem , testemunho do seu carter secundrio em

 relao  prpria significao ; evidncia , enfim , de que a palavra no passaria

 de um mero sinal capaz de cifrar um pensamento em tudo anterior e superior a

 ela .
 No haveria a uma condenao da linguagem , como se preferssemos nos

 libertar dela para nos relacionarmos diretamente com o " mundo das coisas " ?
 No

 estaramos retomando a a velha recusa da experincia efetiva , em nome de um

 mundo essencial , inaparente , ideal , sublime e " verdadeiro " ?

 Ora , a vivncia que os falantes reais tm da linguagem no coincide com aquele

 esquema .
 Sabemos que as lnguas so sistemas simblicos , dotados de regras e

 limites precisos , mas a riqueza da fala - ao mesmo tempo sua fora e seu

 mistrio - est em ultrapassar efetivamente qualquer determinao prvia do

 sentido .

 Em primeiro lugar , porque , enquanto prtica , toda linguagem se realiza atravs

 de uma conduta que introjeta suas regras e se exerce fluentemente sem que

 precisemos ter , a todo momento , conscincia de seu carter sistemtico ,

 estrutural e normativo , j que o falante no submete o que diz a uma anlise

 sinttica prvia , e as exigncias gramaticais operam nele apenas

 implicitamente .
 Em segundo lugar , porque , embora composto por um conjunto de

 unidades fixas - os fonemas , na linguagem oral , e sua representao alfabtica ,

 na escrita - , este sistema permite a gerao virtualmente infinita de imagens e

 mensagens sempre novas .
 E , finalmente , porque , mesmo em sua dimenso

 sistemtica , a lngua est continuamente incorporando expresses , neologismos e

 modos de dizer que surgem e se difundem no universo constitudo pela atividade

 atual dos falantes concretos .

 O que se revela , portanto , neste elogio da " expresso pura " , no  seno um

 certo niilismo ( 3 ) da linguagem , sua negao pura e simples .
 Como ser vivo -

 natural , cultural e histrico - o homem jamais deixa de ocupar ( a no ser com a

 sua prpria morte ) uma situao cujos contornos esto definidos simultaneamente

 de modo perceptivo , lingustico e histrico .

 Essas dimenses constituem efetivamente o seu horizonte existencial , ou seja , o

 campo em relao ao qual no h , para ele , exterior possvel ; ou , como diria

 Merleau-Ponty , o domnio para o qual as portas " s se abrem por dentro " .
 Pela

 mesma razo porque no lhe  dado , em ltima instncia , distanciar-se da vida

 para julg-la , no cabe ao homem igualmente emitir juzos cabais sobre sua

 condio de existente , de ser situado num horizonte .
 Acusar o corpo e a carne ,

 negar a autonomia e a eficcia simblica dos processos culturais ou desejar

 sobrepor-se ao tempo so apenas outras formas de negar a vida em sua dinmica

 prpria , de conden-la em funo de um " deve ser " cujo modelo s pode estar

 fora do mundo , num " alm " moral e metafsico indiferente s condies concretas

 de sua experincia .

 Por essa razo , no que se refere particularmente  expresso ,  possvel

 afirmar que " o algoritmo , o projeto de uma lngua universal ,  a revolta contra

 a linguagem dada .
 No se quer depender de suas confuses , quer-se refaz-la na

 medida da verdade , redefini-la segundo o pensamento de Deus , recomear do zero

 a histria da palavra , ou antes arrancar a palavra  histria " ( 4 ) .

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 Linguagem e Experincia

 " Pode-se dizer : sem a linguagem no podemos nos comunicar ?
 Isso soa como se

 houvesse comunicao sem linguagem .
 Porm o conceito de linguagem repousa sobre

 o conceito mesmo de comunicao "

 ( Wittgenstein - Os Cadernos Azul e Marrom )

 Esta concepo , segundo a qual usar palavras consiste em enunciar idias , das

 quais aquelas seriam o significado " adequado e imediato " , no se apresenta

 apenas no mbito do senso comum , mas tem uma longa histria na prpria

 literatura filosfica , mesmo fora da tradio teolgica ou explicitamente

 metafsica .
 Ainda no final do sculo XVII , um empirista como John Locke no

 hesita em escrever , por exemplo , que " o uso comum , por um acordo tcito ,

 atribui certos sons a certas idias em todas as linguagens , limitando assim o

 significado desse som que , a menos que uma pessoa o aplique  mesma idia , ela

 no fala corretamente ( ...
 ) " ( 5 ) .
 Ou seja , embora referindo-se ao " uso comum " ,

  a uma correspondncia estabelecida no plano mental ( entre palavra e idia )

 que o autor remete a realidade ltima da linguagem : " as palavras constituem os

 substitutos das idias que esto na mente dos homens e , portanto , sua nica

 funo  a transmisso de pensamentos " ( 6 ) .

 Em sua teoria , a idia - isto  , " qualquer coisa que consiste em objeto do

 entendimento quando o homem pensa " ( 7 ) - tem sua origem na " experincia " , e

 esta ltima  dada exclusivamente por duas fontes : a sensao e a reflexo ,

 conforme vivenciadas individualmente .
 Neste empirismo atomista , portanto , a

 relao palavra-idia se d com referncia a um campo de significaes

 privadas , de modo que " a menos que as palavras de uma pessoa estimulem as

 mesmas idias em quem as escuta , tornando-as significativas no discurso , no

 fala inteligivelmente " ( 8 ) .
 Desse modo , neste horizonte conceitual , mesmo

 aquela " transmisso de pensamentos " , que , segundo o prprio Locke ,

 caracterizaria a nica funo da linguagem ,  extremamente redundante , algo

 bastante distinto do que entendemos hoje por comunicao .
 Tomando o significado

 como se este fosse uma " substncia " , escapa-lhe o fato de que a significao -

 antes que uma relao formal -  um processo concreto de atribuio de valor ,

 no contexto de uma interao .

 Atendo-nos , por enquanto ,  tradio filosfica , encontraremos num autor do

 nosso sculo , Ludwig Wittgenstein - cuja trajetria intelectual se desenvolveu

 a partir de uma concepo igualmente representacionista - , a primeira crtica

 realmente ampla e contudente  concepo da linguagem como designao .
 Em suas

 Investigaes Filosficas , ele aponta os dois aspectos bsicos das concepes

 convencionais : a idia de que a linguagem  uma maneira de se representar uma

 realidade dada de antemo , independente dela , e a idia de que a linguagem

 " pode ser descrita como uma atividade essencialmente monolgica e individual , e

 apenas acidentalmente dialgica , isto  , comunicativa e social " ( 9 ) .
 Em

 oposio a tais noes , ele procura mostrar o vnculo indissolvel entre a

 funo expressivo-representativa da linguagem e sua funo comunicativa .
 Para

 Wittgenstein , ao contrrio do que acreditaram Locke e seus seguidores , " 

 impossvel a existncia de uma linguagem estritamente privada , pois todo

 significado apia-se numa base social e se adquire praticando um jogo de

 linguagem " ( 10 ) .
 Enquanto para Locke o uso de uma palavra  apenas a " marca

 sensvel " da idia que lhe corresponde , para ele ,  exatamente aquilo que d

 vida ao signo e se confunde com o seu significado .
 A significao deixa de ser ,

 portanto , " representao " e passa a ser entendida funcionalmente , com

 referncia ao contexto em que as palavras so de fato utilizadas .

 Comentando um texto das Confisses de Santo Agostinho , onde este reduz a

 linguagem ao processo de denominao , Wittgenstein escreve : " nessas palavras

 temos , assim me parece , uma determinada imagem da essncia da linguagem humana .

 A saber , esta : as palavras da linguagem denominam objetos - frases so ligaes

 de tais denominaes .
 Nesta imagem da linguagem encontramos as razes da idia :

 cada palavra tem uma significao .
 Esta significao  agregada  palavra .
  o

 objeto que a palavra substitui " ( 11 ) .

 Wittgenstein se empenha em mostrar o carter reducionista desta concepo ,

 assinalando que um tal conceito filosfico de significao " cabe bem numa

 representao primitiva da maneira pela qual a linguagem funciona " ,

 acrescentando em seguida : " mas , pode-se dizer tambm ,  a representao de uma

 linguagem mais primitiva do que a nossa " ( Ibid. :  2 ) .
 Nossa linguagem , escreve

 ele mais adiante , " pode ser considerada como uma velha cidade : uma rede de

 ruelas e praas , casas novas e velhas , e casas construdas em diferentes

 pocas ; e isto tudo cercado por uma quantidade de novos subrbios com ruas

 retas e regulares e com casas uniformes " ( Ibid. :  18 ) .

 O autor caminha , portanto , de uma concepo formal da linguagem em direo 

 apreenso de sua natureza de coisa viva : " Quantas espcies de frases existem ?

 Afirmao , pergunta e comando , talvez ?
 - H inmeras de tais espcies : inmeras

 espcies diferentes de emprego daquilo que chamamos de " signo " , " palavras " ,

 " frases " .
 E essa pluralidade no  nada fixo , um dado para sempre ; mas novos

 tipos de linguagem , novos jogos de linguagem , como poderamos dizer , nascem e

 outros envelhecem esquecidos " ( Ibid. :  23 ) .
 O termo " jogo de linguagem " deve ,

 como esclarece o prprio Wittgenstein , " salientar que o falar da linguagem 

 uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida " ( Ibid. :  23 ) .
 Ele implica ,

 ao mesmo tempo , que a denotao e a enunciao , so apenas determinados jogos

 de linguagem entre inmeros outros ; e que a linguagem  uma atividade ligada " a

 uma prtica coletiva e suas normas , ou ainda , que a linguagem  um complexo

 inseparvel de atos lingusticos e extra-lingsticos " ( 12 ) .
 A noo de " jogo

 de linguagem " refere-se , portanto , simultaneamente :  capacidade de interao

 que rege tanto o aprendizado lingustico quanto a interlocuo ; ao modo de

 fixao do significado de um termo em determinadas condies de uso ; e ,

 finalmente , ao " conjunto da linguagem e das atividades com as quais est

 interligada " ( 13 ) .

 Em suma , a gramtica do jogo de linguagem " no pode ser descrita ,

 exclusivamente , em termos da habilidade de aplicar convenes semnticas de

 formao , mas em termos de internalizao de normas e papis .
 A competncia

 lingustica envolvida no aprendizado  basicamente uma competncia

 comunicativa , no apenas a capacidade de aplicar morfologicamente regras

 semnticas e sintticas " ( 14 ) .

  compreensvel que um linguista neo-cartesiano como Noam Chomsky - para quem

 " o sistema inteiro da lngua , isto  , o sistema de regras que permitem gerar e

 transformar as diferentes frases e expresses que pertencem a uma lngua , est

 virtualmente presente em cada indivduo , como uma espcie de mecanismo inato no

 sujeito " ( 15 ) - considere " taxionmico-behaviorista " a concepo que

 Wittgenstein tem da linguagem , e no perceba a nfase que este ltimo coloca no

 aspecto institucional da ao lingustica e da comunicao , em sentido amplo .

 Mas foi o prprio Wittgenstein , antes mesmo que Chomsky pudesse pensar em suas

 objees , quem assinalou o fato de que a capacidade de usar uma regra s se

 revela efetivamente no comportamento de algum que a aplique em um contexto

 concreto e depende , portanto , de um aprendizado , assim como qualquer tcnica ,

 qualquer saber-fazer .
 Como assinala Guido de Almeida , para Wittgenstein , " se

 toda regra supe um saber-fazer , a aplicao da regra exige em cada momento uma

 deciso de que esta  a aplicao correta : a regra precisa ser compreendida , e

 compreender uma regra significa saber us-la corretamente " ( 16 ) .

 Evidentemente , a noo de uso ( e seus correlatos : hbito , costume , tcnica ,

 etc. ) no  suficientemente desenvolvida e precisada a ponto de permitir uma

 ampla elucidao dos jogos de linguagem .
 Alm do mais , como observa John Searle

 - um dos seguidores contemporneos da ltima fase de Wittgenstein - " a palavra

 ' uso '  to vaga , que inclui , de uma s vez , as condies de verdade da

 proposio expressa e o propsito , ou fora ilocucionria , que caracteriza a

 realizao da frase correspondente " ( 17 ) .

 Searle nos adverte contra o perigo de transformar a noo de que " a

 significao  o uso " em um slogan to formal e vazio quanto as noes que sua

 adoo visava deslocar criticamente .
 Com ela pretende-se acentuar o fato de que

 a significao de uma palavra ou expresso deve ser estabelecida por um

 cuidadoso exame de como ela  realmente utilizada na linguagem ordinria , e no

 pela procura de um contedo mental subjetivo ou de uma entidade - abstrata ou

 concreta - a que ela estaria associada , enquanto " representao " .
 Sua fora

 crtica , na superao das concepes tradicionais  grande , mas seu poder

 analtico  menor do que pareceu aos autores que a empregaram inicialmente .

 Partindo da idia de que a linguagem  " um comportamento intencional regido por

 regras " e do que ele denomina " princpio da expressabilidade " - a afirmao de

 que " tudo o que se quer dizer pode ser dito " - , Searle conclui que " a unidade

 da comunicao lingustica no  , como se tem geralmente suposto , o smbolo , a

 palavra , ou a frase , ou mesmo a ocorrncia de smbolo , palavra ou sentena na

 execuo do ato da fala. ( ...
 ) Mais precisamente , a produo ou emisso de uma

 ocorrncia de frase sob certas condies  um ato da fala , e os atos da fala

 ( ...
 ) so a unidade bsica ou mnima da comunicao lingustica " .
 Para ele ,

 portanto , " o estudo da significao das frases e o estudo dos atos da fala no

 constituem dois domnios independentes , mas um nico apenas , visto sob dois

 aspectos diferentes " ( 18 )

 De um modo mais amplo , o autor considera que " falar uma lngua  executar atos

 da fala , atos como : fazer afirmaes , dar ordens , fazer perguntas , fazer

 promessas , etc. , e num domnio mais , atos como : referir e predicar ; em segundo

 lugar , estes atos so , em geral , possveis graas a certas regras para o uso de

 elementos lingusticos e  em conformidade com elas que eles se realizam ( l9 ) .

 Em suma , falar  uma experincia , mas no uma experincia privada , monolgica e

 eventual .
 Falar  uma experincia sistemtica de interao .
 Searle observa que

 " falar uma lngua  , a todo momento , comprometer-se , assumir obrigaes ,

 encontrar argumentos que devam convencer , etc. " ( 20 ) .
 A linguagem  esta

 unidade de ao e normatizao numa interao comunicativa .
 E a , novamente , se

 revelam a fora e o mistrio de sua riqueza .
 Como toda prtica coletiva , a

 linguagem  uma instncia da experincia humana em que o social e o individual

 se inscrevem e se reiteram um no outro .

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 Linguagem e Ao

 " ( ...
 ) se a nossa concepo da linguagem  correta , ( ...
 ) uma teoria de

 linguagem  parte de uma teoria da ao , simplesmente porque falar  uma forma

 de comportamento regida por regras " .

 ( John Searle - Os Atos da Fala )

 A crtica s concepes convencionais permite-nos superar um duplo

 reducionismo : dizer que a linguagem  uma forma de ao  dizer que ela no se

 reduz  simples representao de sujeitos isolados , nem se limita  mera

 reiterao de frmulas vazias partilhadas por um grupo .
 Enquanto comportamento

 regido por regras , a linguagem tem evidentemente uma estrutura de elementos

 formais que admite um estudo independente , mas um tal estudo jamais daria conta

 da experincia da comunicao , enquanto interao efetiva .
 Como assinala

 Searle , " muito pode ser dito no estudo da linguagem sem estudar os atos da

 fala , mas todas estas teorias puramente formais so necessariamente

 incompletas " ( 21 ) .

 Se nos afastarmos daquela viso simplificadora que trata a linguagem como um

 conjunto de enunciados denotativos , onde cada expresso apenas designa ou

 descreve coisas , fatos ou situaes , poderemos perceber , no acontecimento da

 fala , dimenses mais ricas e complexas da experincia da linguagem , em que

 explicitamente " dizer  fazer " ( 22 ) .
 Austin - o primeiro a introduzir a noo

 de " atos da fala " no horizonte delimitado pelo conceito de " jogo de linguagem "

 - inicialmente distingue dois tipos de atos da fala que lhe pareciam

 independentes e mutuamente exclusivos : os proferimentos constatativos - capazes

 de enunciar um ato exterior a eles mesmos ; passveis de uma avaliao em termos

 de veracidade ou falsidade ; e definindo , portanto , uma dimenso primariamente

 monolgica da linguagem - e os proferimentos performativos - que seriam por si

 ss a realizao de um ato , definido por alguma norma social que associaria

 determinadas expresses , proferidas por determinados falantes em determinadas

 circunstncias , a determinados efeitos ( como prometer , jurar , suplicar ,

 advertir , etc. ) .

 Tal distino , contudo , revela-se tambm de carter relativamente formal , posto

 que os proferimentos constatativos tm igualmente uma dimenso performativa , e

 estes podem tambm admitir uma avaliao na escala do verdadeiro e do falso .

 Como assinala Guido Almeida , " estas e muitas outras dificuldades levaram Austin

 a abandonar a distino , isto  , a tentativa de distinguir classes mutuamente

 exclusivas de proferimentos , em favor da tentativa de distinguir nveis

 estruturais dos fatos lingusticos " ( 23 ) .
 Ele passa , ento , a distinguir trs

 tipos de atos que podem se realizar simultaneamente num mesmo proferimento : os

 atos locucionrios , os ilocucionrios e os perlocucionrios .
 O primeiro tipo

 refere-se  simples emisso de palavra de uma lngua determinada , segundo " uma

 determinada estrutura sinttica e pronunciada num certo tom de voz e entonao ,

 e veiculando um sentido e uma referncia de acordo com o contexto e a inteno

 do locutor " ( 24 ) .

 O segundo refere-se ao ato que se pode realizar como decorrncia convencional

 de atos locucionrios particulares , dotados de carter performativo .

 Finalmente , os atos perlocucionrios , que visam obter sobre o interlocutor ,

 atravs de um ato locucionrio ou ilocucionrio , um efeito derivado , no de uma

 conveno , mas de uma relao natural ou causal ( como , por exemplo , na

 intimidao , na persuaso , na dissuao , etc. ) .

 Seria possvel questionar essa classificao , pondo em dvida o carter

 necessariamente convencional do prprio ato ilocucionrio .
 Se algum  capaz de

 fazer o interlocutor reconhecer , por trs do uso de uma expresso ou de uma

 frase , sua inteno significativa ( avisar , pedir , advertir , etc. ) , ento , seu

 ato de fala ter fora ilocucionria , independente de qualquer conveno .

 Contudo - e o prprio Searle responde a esta objeo - , esse locutor s poder

 contar com o reconhecimento de sua inteno , presumindo que ele e seu

 interlocutor compartilhem um conjunto de regras que associam certas conotaes

 de sua expresso ou frase a determinadas circunstncias em que elas podem ser

 proferidas .

 Ou seja , h , na lngua , e em cada tipo de ato da fala , um sistema de regras que

 se materializa num determinado conjunto de convenes , reconhecidas como tais

 pelos falantes .
 " A regra constitutiva do ato da fala estabelece uma

 equivalncia entre fazer e dizer , e essa equivalncia advm de uma conveno e

 no de uma consequncia natural " ( 25 ) , como poderia parecer ,  primeira vista ,

 em certos casos .
 Desse modo , na perspectiva de Searle , " os atos da fala

 pressupem sempre uma instituio social , ou seja , uma maneira

 institucionalizada de proceder e o quadro da instituio social em que esse

 comportamento tem lugar " ( 26 ) .

 Se , numa concepo atomista da linguagem , o sujeito individual  dado como a

 " instncia ltima do discurso " , enquanto a linguagem aparece como simples

 " expresso de seus pensamentos e representaes dos objetos com que se

 defronta " , nesta concepo pragmtica - representada , aqui , por esses trs

 autores : Wittgenstein , Austin e Searle - , "  a instituio social ( um grupo ,

 classe , a famlia , a escola , a instituio militar , etc. ) que  a verdadeira

 instncia ou substrato do ato de linguagem " ( 27 ) , e  ela que faz aparecer , em

 determinadas circunstncias , por um efeito " ideolgico " , a figura desse suposto

 sujeito individual da linguagem .

 Por outro lado ,  necessrio observar que as regras que definem o ato de

 linguagem no so sua " determinao " , assim como o seu substrato institucional

 tambm no  sua " causa " , mas so , ambos , sua condio de possibilidade .
 Se

 descrevemos a fala efetiva dos homens atravs das noes de " jogo de linguagem "

 e " ato da fala " , no podemos cair no formalismo de considerar este jogo apenas

 como " o conjunto das regras que o descrevem " ( 28 ) .
  preciso admitir que esta

 definio pode servir para caracterizar cada jogo de linguagem particular , mas

 devemos considerar , ao mesmo tempo , que o " jogar " desse jogo  irredutvel a

 regras que o definam cabalmente , posto que a prpria " definio "  um jogo de

 linguagem .

 A propsito dessa noo do jogo de linguagem , alis , Jean-Franois Lyotard faz

 trs observaes interessantes , que vale a pena retomar aqui : " A primeira  que

 suas regras no possuem sua legitimao nelas mesmas , mas constituem objeto de

 um contrato , explcito ou no , entre os jogadores ( o que no quer dizer todavia

 que estes as inventem ) .
 A segunda  que na ausncia de regras no existe jogo ,

 que uma modificao , por mnima que seja , de uma regra , modifica a natureza do

 jogo , e que um " lance " ou um enunciado que no satisfaa as regras , no

 pertence ao jogo definido por elas .
 A terceira observao acaba de ser

 inferida : todo enunciado deve ser considerado como um " lance " feito num jogo "

 ( 29 ) .

 Em resumo , o estudo da linguagem a partir das noes de " ato da fala " e " jogo

 de linguagem " situa a fala como uma espcie particular de empenho que se

 origina num universo marcado pela polmica e pelas polarizaes , sem obscurecer

 o fato de que este comportamento se refere a uma atividade coletiva e o fato de

 que , por sua vez , tambm " o vnculo social observvel  feito de " lances " de

 linguagem " ( 30 ) .
 Neste horizonte , portanto , a linguagem deixa de ser um

 instrumento para a expresso de representaes individuais e se torna um campo

 de interaes significantes .

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 Linguagem e Conveno

 " O lao que une o significante ao significado  arbitrrio ou ento , visto que

 entendemos por signo o total resultante da associao de um significante com um

 significado , podemos dizer mais simplesmente : o signo lingustico 

 arbitrrio " .

 ( Saussure - Curso de Lingustica Geral )

 Nas formulaes apresentadas at aqui procuramos , a partir de uma abordagem da

 linguagem ordinria , ir alm das tentativas de explicao de seu funcionamento

 com base numa anlise interna do sistema lingstico .
 Neste sentido , tais

 formulaes aproximam-se do que se poderia , talvez , classificar como uma

 anlise sociolingistica em sentido amplo .
 Mas , como adverte Eni Orlandi em um

 texto voltado para a questo da conveno na linguagem , mesmo neste mbito

 geral " no se trata de propor uma teoria sociolingustica que se constitua de

 uma teoria lingustica ( sintaxe e fonologia ) com parmetros sociolgicos que se

 teria que formalizar adequadamente " ( 31 ) .

 De incio , ser conveniente retomar , do horizonte da cincia da linguagem , a

 idia de que existe uma relao entre lngua e sociedade .
 Antes de mais nada ,

 cabe lembrar que " a lingustica e a sociologia encontram-se no mesmo plano

 analtico : o dos sistemas e instituies " ( 32 ) .
 Mas isto no significa que

 possamos nos contentar com a simples afirmao de um suposto isomorfismo entre

 cada sociedade e a lngua falada pelos seus membros .
  possvel conceber um

 condicionamento recproco entre ambos , j que a lngua  um pressuposto de

 qualquer identidade coletiva , ao mesmo tempo em que a estrutura social est de

 algum modo presente na estrutura lingustica .
 Mas esta seria ainda uma

 associao de termos separados , entre os quais seria sempre possvel imaginar

 uma relao de exterioridade e anterioridade .

 A equivalncia analtica entre sociologia e lingustica remete , antes , ao fato

 de que ambas procuram estudar prticas humanas , ou seja , formas de

 comportamento que compreendem a conduta individual sobre o fundo de uma

 regularidade institucional .
 Tanto uma quanto a outra investigam , portanto ,

 modos de ao que se desenvolvem num campo de possibilidades delimitado por um

 sistema de normas sociais .
 " Melhor seria , ento , no se observar estaticamente

 os tipos de sistemas que se estuda , o social e o lingustico , mas olhar-se a

 partir de uma teoria geral de atuao , que , entre outras coisas , tratasse da

 relao entre aes no lingusticas e lingusticas " ( 33 ) .

 Na abordagem lingustica inaugurada por Ferdinand de Saussure , a lngua 

 considerada um " fato social " ( 34 ) , no sentido que tem esse conceito na

 sociologia de mile Durkheim .
 Isto significa que a lngua , nesse registro , 

 pensada como " representao coletiva " ( exterior ao indivduo ) , dotada de um

 poder de coero em virtude do qual os fatos sociais se impem ao indivduo , e

 tem por substrato e suporte a conscincia coletiva " ( 35 ) .
 Portanto , alm de

 envolver uma noo nebulosa como a " conscincia coletiva " , esta conceituao

 implica a dicotomia - configurada na distino entre lngua e fala - entre o

 que seria social e abstrato , por um lado , e o que seria individual e concreto ,

 por outro .
 " O fenmeno lingustico " , pode-se ler no Curso de Lingustica Geral ,

 " apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma no

 vale seno pela outra " ( 36 ) .

  certo que , ao caracterizar a lngua , como um todo , como " um sistema de signos

 que exprimem idias ( 37 ) , Saussure no deixa de criticar " a concepo

 superficial do grande pblico " , que " v na lngua somente uma nomenclatura "

 ( 38 ) .
 Para ele , a definio da lngua como " fato social " no deve obscurecer o

 fato de que " a lngua no  uma instituio social semelhante s outras em

 todos os pontos " ( 39 ) , no apenas porque , ao contrrio de outras instituies

 sociais ( cdigos , ritos , sinais funcionais , etc. ) , a lngua tem a participao

 de todos os homens a todo instante , mas antes de tudo porque " a lngua  uma

 conveno e a natureza do signo convencional  indiferente " ( 40 ) , ou seja , pelo

 carter arbitrrio dos signos .

 Em particular , por esta razo , a lngua seria a instituio social que " oferece

 menos oportunidade s iniciativas ( ...
 ) .
 Justamente porque o signo 

 arbitrrio , no conhece outra lei seno a da tradio , e  por basear-se na

 tradio que pode ser arbitrrio " ( 41 ) .
 Esta nfase no carter arbitrrio do

 signo tem , por outro lado , como conseqncia , o primado terico da estrutura

 sistemtica da lngua em relao  fala ( 42 ) , e embora Saussure chame a ateno

 para o fato de que seja necessria " uma massa falante para que exista uma

 lngua " , no hesita em afirmar que a lngua  " a linguagem menos a fala " ( 43 ) .

 Como assinala Eni Orlandi , Saussure , " apoiando-se na caracterizao abstrata da

 lngua , desvinculou-se daquilo que  propriamente social e histrico .
 Quando

 fala do carter convencional da linguagem , toma , da conveno , apenas seu

 carter arbitrrio ( e abstrato ) , e deixa de lado o que haveria de mais

 caracterizador , isto  , seu aspecto social " ( 44 ) .
 Num outro registro , para

 autores que definem a linguagem como produo e situam a produo lingustica

 na produo social geral , como Rossi-Landi ( 45 ) , citado por Orlandi , " deve-se

 encarar a linguagem como trabalho e as lnguas como produto desse trabalho .
 O

 problema da arbitrariedade aparece , ento , analisado dessa perspectiva : o que 

 produto do trabalho humano se contrape tanto ao que  natural quanto ao que 

 arbitrrio , ainda que parea natural ou arbitrrio uma vez que o produtor no

 possua o seu controle. ( ...
 ) Em suma , a lngua no  s um instrumento , nem um

 dado , mas um trabalho humano , um produto histrico-social " ( 46 ) .

 Compreendemos o esforo da autora em explicar a idia de que a linguagem 

 convencional , caracterizando a conveno " pelo seu contedo social e pela sua

 historicidade " , atravs da associao entre os conceitos de linguagem e

 trabalho .
 Mas no nos parece que tal associao seja sustentvel .
 Tanto a

 linguagem quanto o trabalho so formas de ao intencional que se articulam

 social e historicamente , da que nos parea mais conveniente utilizar a noo

 de prtica para nos referirmos  realidade de ambos ( 47 ) .
 A prpria autora ,

 alis , acentua , com propriedade , o carter concreto e singular das lnguas

 efetivas : " a lngua , em si , no existe .
 Assim como tambm  fico a lngua

 homognea .
 Faz parte da prpria essncia da lngua revestir-se de

 concretizaes histricas determinadas , como o portugus , o francs , o alemo ,

 o ingls , etc .
 Este  o conceito da lngua histrica. ( ...
 ) Essa lngua

 individual histrica constituda pela conscincia de seus falantes ( isto  : a

 conscincia de sua identidade lingustica ) no  homogna como supe o

 estruturalismo e o transformacionalismo .
 A homogeneidade atribuda  lngua 

 abstrao .
 A lngua individual concreta  heterognea " ( 48 ) .

 Neste sentido , um autor como Labov ( 49 ) define a comunidade lingustica como

 " um grupo de pessoas que compartilham um conjunto de normas comuns com respeito

  linguagem e no como um grupo de pessoas que falam do mesmo modo " ( 50 ) .
 Num

 sentido mais amplo , com respeito no s  variao e  heterogeneidade

 lingustica , mas em relao  prpria mutabilidade do signo , o prprio Saussure

 deduz , a partir da afirmao do seu carter arbitrrio , o necessrio

 deslocamento da relao entre o significado e o significante ao longo da

 histria ( 51 ) .

 Fugindo , portanto , das oposies mais abstratas e formais entre a fala e o

 sistema de lngua ( ou entre a " performance " e a " competncia lingustica " ) ,

 somos levados a tematizar a competncia comunicativa , admitindo que , ao

 contrrio de se " deformarem " em sua realizao efetiva , as lnguas incorporam e

 institucionalizam as atuaes da fala , e que a afirmao do carter

 absolutamente arbitrrio da conveno na linguagem deve ceder lugar 

 investigao concreta do modo como se estabelecem e se modificam as convenes .

 Como afirma Eni Orlandi , " ao estritamente lingustico , quando pensando

 concretamente , juntam-se premissas sociais , atitudes , convices , que fazem

 parte do ato da linguagem , da comunicao .
 No podemos recusar esses fatores

 como constitutivos " ( 52 ) .

 [ LINK ]

 Linguagem e Discurso

 " ( ...
 ) a questo do vnculo social , enquanto questo ,  um jogo de linguagem , o

 da interrogao , que posiciona imediatamente aquele que a apresenta , aquele a

 quem ela se dirige , e o referente que ela interroga : essa questo j  assim o

 vnculo social " .

 ( Jean-Franois Lyotard : O Ps-Moderno )

 No  simples , portanto , a relao que se pode estabelecer , no mbito da lngua

 e da linguagem , entre a ao individual e a conveno social .
 O mnimo que se

 pode dizer  que , entre as restries impostas pela ordem sistemtica e o fluxo

 difuso e indeterminado da fala se estabelece tambm - como entre o significante

 e o significado - um campo de tenses no qual se desenvolve incessantemente um

 jogo e uma disputa que no ope simplesmente a " ordem " das estruturas 

 " liberdade " do discurso .

 Embora individual , o discurso - enquanto percurso de um termo a outro ( ou de

 uma proposio a outra ) no processo de raciocnio - j se manifesta como algo

 reconhecidamente articulado e ordenado , e , portanto , oposto  simples escolha

 pessoal .
 Enquanto locuo - como uma srie de sons vocais que possui uma

 significao convencional - , o discurso " se compe de conceitos ou de termos

 concatenados em tal forma , que dizem algo acerca de algo " ( 53 ) , definindo ,

 pois , um objeto material , racional ou mesmo formal , que depende de um

 reconhecimento coletivo e pode ser submetido a abordagens sistemticas , como as

 da lgica , da retrica ou da potica , por exemplo .

 E mesmo considerado em um sentido amplo , como na semitica contempornea ,

 enquanto " complexo de signos " , o discurso est submetido a ordens ou

 tipologias , segundo os propsitos com que seja usado e os modos de significao

 que acione para atingir tais propsitos .
 Mas , em qualquer caso , a dimenso

 social das ordens a que podem estar submetidos os discursos  complexa ; e sua

 discusso , necessariamente problemtica .

 Em sua aula inaugural no Collge de France , proferida a 2 de dezembro de l970 e

 em seguida editada sob o ttulo de A Ordem do Discurso , Michel Foucault

 refere-se aos mecanismos de controle a que estaria submetida a prpria produo

 dos discursos em toda sociedade .
 Diz ele : " a produo do discurso  ao mesmo

 tempo controlada , selecionada , organizada e redistribuda por um certo nmero

 de procedimentos que tm por funo conjurar-lhe os poderes e os perigos ,

 dirigir seu acontecimento aleatrio , livr-lo de sua pesada , temvel

 materialidade " ( 54 ) .

 Nesta ocasio , ele assinalou e analisou alguns desses procedimentos

 limitadores : os de excluso ( o interdito , a segregao e a oposio entre

 verdadeiro e falso ) ; os de limitao do discurso ( os princpios do comentrio ,

 do autor e das disciplinas ) ; e os de limitao dos sujeitos falantes ( os

 rituais da fala , as sociedades de discurso e a apropriao social do discurso ) .

 Por outro lado , apontou alguns temas filosficos que reforam esse jogo de

 limitaes e excluses : o " sujeito fundador " , a " experincia originria " e a

 " mediao universal " .
 Tais limitaes - que , em sua base , supem que todo

 discurso enunciado deva se preencher e se formular sempre e apenas como um

 recurso de produo da " verdade " - , lhe atribuem " uma fisionomia tica ntida ,

 uma responsabilidade produtiva e utilitria e um vetor finalista " ( 55 ) .

 Essa malha de regras , interdies e limitaes , contudo , longe de caracterizar

 a submisso do discurso , revela a fora e o perigo daquilo que est

 continuamente escapando aos esquemas de dominao desenvolvidos para submeter

 sua potncia crtica e desviante .
 Desse modo , de um ponto de vista , que procure

 considerar o discurso em sua dinmica prpria , torna-se necessrio : colocar em

 questo a nossa " vontade de verdade " , que , por trs de exigncias lgicas ,

 submete o discurso a desgnos , em ltima instncia , morais ( 56 ) ; restituir ao

 discurso seu carter de acontecimento ; e suspender a soberania do significante ,

 pela qual o discurso se v destitudo de sua fora e de sua vitalidade .

 Da que Foucault , tentando explicar o confronto entre o impulso espontneo 

 proliferao do discurso e a reao disciplinadora da sociedade , afirme sua

 vinculao com o desejo e o poder e mostre o estmulo ertico envolvendo as

 prprias prticas discursivas .
 O discurso , escreve ele , " no  simplesmente o

 que manifesta ( ou encobre ) o desejo ;  tambm o que  o objeto do desejo ; ( ...
 )

 no  simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominao , mas

 aquilo pelo qual e por meio do qual se luta , aquele poder de que todos querem

 se assenhorear " ( 57 ) .

 A introduo da noo de discurso na abordagem do problema da linguagem nos

 permite , pois , perceber com maior clareza o carter institucional da ao

 lingustica .
 Mas isto no implica afirmar unilateralmente o primado da ordem

 ( ou o da liberdade ) , por trs das convenes e dos cdigos lingusticos .
 Ao

 contrrio , o que se torna ainda mais evidente , com a noo de discurso ,  a

 profunda articulao entre a interveno individual e o sistema de regras , o

 que mostra , em ltima instncia , a relatividade e a parcialidade dessa

 dicotomia .
 Mas a noo de discurso - de maior alcance que a de " proposio " , em

 geral circunscrita  lgica - sugere-nos , ao mesmo tempo , que tal articulao

 no obedece ao logos formal da lgica ( 58 ) .
 O aspecto " linguageiro " da vida

 social assume , assim , nova amplitude e nova importncia , num conceito que no

 reduz o problema da linguagem "  alternativa tradicional da palavra

 manipuladora ou da transmisso unilateral de mensagens , por um lado ; ou da

 livre expresso ou do dilogo , por outro lado " ( 59 ) .

 Portanto , se o reconhecimento da dinmica do discurso nos leva a relativizar o

 papel e o peso da " ordem " e a duvidar da possibilidade de uma total

 burocratizao das falas - posto que os limites que a instituio pode opor aos

 lances da linguagem  " o resultado provisrio e a disputa de estratgias de

 linguagem travadas dentro e fora da instituio " ( 60 ) - , tal reconhecimento no

 deve , todavia , nos reconduzir a uma afirmao solipsista do " livre arbtrio " do

 sujeito da linguagem , transformado , agora , em sujeito do discurso .

 Este ltimo caso parece ser o da " teoria da enunciao " de Emile Benveniste ,

 por exemplo ( 61 ) .
 Embora procure uma passagem entre lngua e fala , entre

 enunciao e enunciado , ela , por fora de seu acento dicotmico com respeito ao

 que  social e individual na linguagem - opondo estritamente ao aspecto

 convencional da linguagem ( o domnio semitico ) a ao individual de um

 " produtor de mensagens " ( o domnio semntico ) - , acaba por traduzir a realidade

 do discurso numa epopia do sujeito da enunciao .
 Nas palavras de Eni Orlandi :

 " observando a distino feita pelo autor , entre o semitico ( que deve ser

 reconhecido ) e o semntico ( que deve ser compreendido ) , vemos que a enunciao ,

 processo mediador do semntico , se define como um processo de apropriao ,

 enquanto realizao individual .
 A linguagem aparece , ento , como a

 possibilidade da subjetividade e o discurso como provocando a emergncia da

 subjetividade " ( 62 ) .

 Num outro plo , encontraramos , talvez , a " anlise do discurso " de Michel

 Pcheux ( 63 ) , que parte da idia da linguagem como condio de possibilidade do

 discurso , para chegar a analis-lo , contudo , sob a perspectiva de uma teoria da

 determinao histrica dos processos semnticos , ou seja , a partir de suas

 condies de produo .
 Desse modo , a semntica lingustica ( formal e referida

 ao nvel lxico e a suas transformaes ) deve ser substituda por uma semntica

 discursiva , supostamente capaz de estabelecer a articulao entre o processo de

 produo de um discurso e as condies em que ele  produzido .

 Tal aproximao entre o lingustico e o discursivo tem a vantagem de permitir a

 elaborao de uma teoria no-subjetiva da enunciao , posto que , segundo ela ,

 " a fronteira que separa o lingustico e o discursivo  sempre colocada em causa

 em toda prtica discursiva , e  prprio da relao entre lngua e discurso que

 as regras fonolgicas , morfolgicas e sintticas - que so as condies

 materiais de base sobre as quais se desenvolvem os processos discursivos -

 sejam objeto de recobrimentos e apagamentos parciais ( ...
 ) .
 No  o sujeito

 ( locutor ) que se apropria , mas h uma forma social da apropriao da linguagem

 em que est refletida a iluso do sujeito , isto  , sua interpelao feita pela

 ideologia " ( 64 ) .

 Todavia , esse quadro interpretativo , ao vincular a teoria do discurso a uma

 teoria das formaes sociais ( o materialismo histrico ) , no deixa de adotar um

 procedimento ainda reducionista ,  medida que busca uma determinao

 histrico-social do discurso , reintroduzindo , subrepticiamente , a categoria do

 sujeito , atravs da problemtica noo de " ideologia " ( 65 ) .

 De fato , uma tentativa de interpretao do discurso como esta ltima oculta uma

 certa opo metodolgica - que j podemos considerar , a esta altura ,

 tradicional , apesar ( ou pelo fato mesmo ) de ser " moderna " , isto  , de estar

 associada ao legado intelectual da Revoluo Francesa e do Iluminismo - , a

 partir da qual se analisa a insero do saber e do discurso na sociedade

 segundo um princpio de inteligibilidade que elege a " totalidade "

 scio-histrica como referncia ltima da experincia e da estrutura da

 sociedade humana .

 Tanto em sua verso positivista ( atravs da crena de que a sociedade forma um

 todo funcional ou um sistema auto-regulvel , partilhada pelos fundadores da

 sociologia , pelo funcionalismo e pela abordagem ciberntica e sistmica da

 sociedade ) , quanto em sua verso dialtica ( pelo princpio segundo o qual a

 sociedade se divide numa oposio classista que repousaria , em ltima

 instncia , nas " relaes de produo " , as quais , no entanto , de acordo com as

 palavras do prprio Marx , " formam um todo " ) , o que est em jogo  a idia de

 " determinao " .

 O que a realidade contempornea , contudo , no cessa de nos mostrar  que o

 vnculo social  mais complexo e no h porque definir um mbito ou uma

 instncia que seja determinante do conjunto da sociedade e de sua histria e

 deva , por conseguinte , ser tomado como referncia terica obrigatria e

 decisiva na explicao de qualquer tipo de acontecimento .
 Os discursos , os

 saberes , as lnguas e as formas da sociedade so histricos , e isso nos envia

 cada vez menos a uma " lgica " de sua constituio e de seu desenvolvimento .

 " A histria " , escreve Maurice Merleau-Ponty a esse respeito , " realiza um

 intercmbio de todas as ordens de atividade , das quais nenhuma pode receber a

 dignidade de causa exclusiva , e a questo  , antes , a de saber se esta

 solidariedade de problemas anuncia sua resoluo simultnea , ou se no h

 concordncia e recorte seno na interrogao " ( 66 ) .
 Ou seja , o que est posto

 em questo na atualidade  esta prpria idia de " determinao " dos

 acontecimentos .
 E no que se refere  linguagem e ao discurso , em particular , 

 preciso admitir que , qualquer que seja a " natureza " atribuda ao vnculo

 social , os jogos de linguagem so " o mnimo de relao exigido para que haja

 sociedade " ( 67 ) e que a prpria questo do vnculo social  , j , enquanto

 interrogao , um jogo de linguagem .

 Em suma , no se pode mais aceitar uma teoria da linguagem baseada no " sujeito

 fundador " e tampouco seria legtimo admitir sua construo a partir de uma

 referncia social , supostamente indiferente s aes singulares e s relaes

 parciais e locais .
 Cada homem vive a histria tambm como sua histria .
 No

 quer e no pode deixar os acontecimentos de sua existncia completamente ao

 acaso , ou conceb-los como um mero caso das determinaes estruturais .
 Cada

 qual est entregue a si mesmo e sabe que este " si mesmo "  muito pouco , mas no

 est isolado : "  tomado numa textura de relaes mais complexa e mais mvel do

 que nunca .
 Est sempre , seja jovem ou velho , homem ou mulher , rico ou pobre ,

 colocado sobre os " ns " dos circuitos de comunicao , por nfimos que sejam .

 ( ...
 ) E ele no est nunca , mesmo o mais desfavorecido , privado de poder sobre

 estas mensagens que o atravessam posicionando-o , seja na posio de remetente ,

 destintario ou referente " ( 68 ) .

 [ LINK ]

 A Experincia do " arbitrrio " na Linguagem

 " Existe entre o som e o significado uma conexo aparente , a qual , entretanto ,

 s raramente se presta a uma elucidao exata ; muitas vezes ,  apenas

 entrevista e na maioria dos casos permanece obscura " .

 ( Humboldt )

 No Crtilo , dilogo em que Plato tematiza a questo da significao , o

 personagem que d nome ao texto - para quem a linguagem liga a forma ao

 contedo " por natureza " - , ope-se a Hermgenes - para quem tal vnculo se d

 por conveno , costume , hbito .
 Ao afirmar que " a lngua  uma conveno e a

 natureza do signo que se convencionou  indiferente " e ao insistir na idia de

 que " o liame que une o significante ao significado  arbitrio " , Saussure , no

 que se refere ao problema da natureza do signo lingustico , se filia claramente

  tradio inaugurada por Hermgenes .
 O mesmo se pode dizer , por exemplo , de

 Dwight Whitney , linguista americano que o antecedeu e que afirmava , j no

 sculo passado , que a lngua  uma instituio social caracterizada como " um

 sistema de signos arbitrrios e convencionais " , ou de Leonard Bloomfield , que ,

 na dcada de 30 do nosso sculo , insistia na idia de que " as formas da lngua

 so arbitrrias " ( 69 ) .

 Todavia , se abandonarmos o terreno formal das definies e levarmos em conta a

 perspectiva das lnguas histricas reais e a experincia efetiva de seus

 falantes , estaremos em condies de observar que , na vivncia de uma

 determinada comunidade lingustica , a relao entre significado e significante

 no  jamais , em sentido amplo , absolutamente arbitrria .
 E mesmo numa

 perspectiva conceitual e cientfica , a crtica  idia do carter inteiramente

 arbitrrio do signo pode ser desenvolvida .
 Enquanto Saussure afirmava , por

 exemplo , que " os signos inteiramente arbitrrios realizam melhor que os outros

 o ideal do procedimento semiolgico " , Charles Sanders Peirce , em suas reflexes

 semiticas , defendia j a idia de que os mais perfeitos dos signos so aqueles

 nos quais o carter icnico , o carter indicial e o carter simblico " esto

 amalgamados em propores to iguais quanto possvel " ( 70 ) .

 De fato , por mais que tenha um sentido convencional , o smbolo s  acessvel

 mediante determinadas designaes , nas quais est presente algum tipo de

 indicao .
 E a frase , enquanto elemento constitutivo dos jogos de linguagem ,

 traz , em geral , em sua arquitetura , indicaes estruturais espontaneamente

 partilhadas pelos falantes de um mesmo idioma .
  o que assinala , por exemplo ,

 Jakobson , escrevendo a esse respeito : " a ordem temporal dos processos de

 enunciao tende a refletir a ordem dos processos do enunciado , quer se trate

 de uma ordem na durao ou de uma ordem segundo a posio " ( 71 ) .

 Esta correspondncia quanto  ordem entre a enunciao e o enunciado 

 estendida por Peirce ao prprio signo , atravs da anlise pela qual ele

 distingue , no conjunto dos cones , as imagens - signos nos quais a semelhana

 entre significante e significado se refere s qualidades simples deste ltimo -

 e os diagramas - nos quais a semelhana " concerne apenas s relaes entre suas

 partes " .
 Curvas estatsticas comparativas , grficos , partituras musicais e at

 mesmo as equaes algbricas seriam exemplos imediatos de diagramas .
 Mas Peirce

 chama ateno tambm para o fato de que , na prpria linguagem ordinria , " para

 que uma frase possa ser compreendida ,  mister que a colocao das palavras no

 seio dela tenha a funo de cone " ( 72 ) .

 De um modo geral , Jakobson observa que , no que se refere a propriedades

 lingusticas , tais como " a conexo essencial das entidades lingusticas entre

 si e com os limites inicial e final da sequncia , a vizinhana imediata e a

 distncia , o carter central e o carter perifrico , as relaes simtricas e

 assimtricas e a supresso elptica de uma parte de componentes encontram

 equivalentes muito exatos na constituio dos grficos " , de modo que se torna

 possvel destacar " as formas diagramticas , icnicas , dos traos estritamente

 convencionais , simblicos " , do sistema sinttico em questo ( 73 ) .
 E mais :

 segundo o autor , " verifica-se a existncia de um ntido carter diagramtico

 no somente na combinao de palavras em grupos sintticos , mas tambm na

 combinao de morfemas em palavras " .
 Em suma , para Jakobson , a anlise dos

 procedimentos histricos que , nas diversas lnguas , constituem relaes

 diagramticas entre a enunciao e o enunciado contradiz a tese saussuriana de

 que o " significante , na sua estrutura fnica , no tem nada que lembre nem o

 valor nem o significado do signo " .

 A experincia da linguaguem vem relativizar , portanto , o formalismo das

 abordagens sistemticas da comunicao verbal , limitando o papel de seus

 aspectos convencionais e questionando as duas caractersticas que a lingstica

 considera primordiais na estrutura de todas as lnguas : o arbitrrio do signo e

 o carter linear do significante .
 Como escreve Jakobson , " o ' sistema de

 diagramatizao ' , de um lado evidente e obrigatrio em toda a estrutura

 sinttica e morfolgica da linguagem , de outro lado latente e virtual no seu

 aspecto lexical , arruna o dogma saussureano do arbitrrio , enquanto o segundo

 destes dois ' princpios gerais ' - o carter linear do significante - ficou

 abalado pela dissociao dos fonemas em traos distintos .
 Uma vez abolidos

 esses dois princpios de base , seus corolrios , por sua vez , exigem uma

 reviso " ( 74 ) .

 [ LINK ]

 Cincia e Experincia da Linguagem

 " H uma Gestalt da lngua. ( ...
 ) A significao e o sinal so de ordem

 perceptiva , no da ordem do Esprito absoluto " .

 ( Merleau-Ponty : A Prosa do Mundo )

 Uma abordagem atenta  dinmica da linguagem nos conduz , portanto , a um exame

 crtico dos postulados metodolgicos que poderiam sustentar uma concepo

 algortmica e nos obriga a reconhecer a radical insero da linguagem ( e da

 prpria " lngua " ) no horizonte prtico da experincia comunicativa .

 Mas talvez seja oportuno assinalar ainda dois outros aspectos relacionados ao

 carter desta insero .
 Em primeiro lugar , caberia observar que a presena de

 relaes diagramticas no seio da linguagem simblica ( convencional ) sugere uma

 relao ntima entre linguagem e percepo e evidencia a importncia desta

 ltima para os esquemas de recepo ( ou captao ) sgnica que representam um

 aspecto decisivo da competncia comunicativa .
  neste sentido , por exemplo , que

 um linguista como Whorf se refere aos " desenhos da estrutura da frase " , uma

 gestalt do discurso , que revelaria , em ltima instncia , que o aspecto de

 estruturao ( patternment ) da linguagem domina e governa sempre seu aspecto de

 lexation ou de nominao .

 Por outro lado , os diagramas lingusticos permitem-nos enxergar a vida da

 linguagem a nvel do prprio enunciado - j que eles revelam , entre as

 palavras , " uma afinidade mtua , que provoca interao conjunta de seus

 significantes e de seus significados " ( 75 ) - , fazendo-nos perceber a sua

 potncia potica prpria - posto que , na lngua , mesmo " do ponto de vista da

 sintaxe e da morfologia ( no que concerne , ao mesmo tempo ,  flexo e 

 derivao ) " , ocorrem correspondncias diagramticas semelhantes s que so

 exploradas , a nvel do lxico , por procedimentos expressivos , tais como a

 paranomsia , a metfora e a metonmia ( 76 ) .
 Todavia , acrescentemos , essas

 consideraes - que partem da relativizao do pressuposto de um arbitrrio

 lingustico , no devem nos conduzir  afirmao de alguma espcie de " iconismo "

 da linguagem frente ao mundo .
 " A linguagem nos leva s prprias coisas na exata

 medida em que , antes de ter uma significao , ela  significao " ( 77 ) .

 A idia de Peirce segundo a qual a compreenso de uma frase depende da funo

 icnica de sua estrutura gramatical  independente de qualquer espcie de

 " ontologia do cone " que restitusse ao mundo algum tipo de pr-figurao

 " captvel " pela linguagem .
 Uma tal concepo estaria totalmente no terreno da

 tradio representacionista .
 Seria uma teologia da forma , mas seria ainda uma

 teologia , como o ontologismo gramatical patrocinado pela Razo ( 78 ) .

 " Parece-nos sempre " , escreve Merleau-Ponty , " que os processos de experincia

 codificados em nossa lngua seguem as prprias articulaes do ser , porque 

 atravs dela que aprendemos a vis-lo , e , querendo pensar a linguagem , ou seja ,

 reduzi-la  condio de uma coisa diante do pensamento , continuamos a correr o

 risco de tomar por uma intuio do ser da linguagem os processos pelos quais

 nossa linguagem tenta determinar o ser " ( 79 ) .

 Uma reflexo sobre o ser a partir da linguagem pode escapar da tradio da

 metafsica da representao tendo em conta uma ontologia do mundo sensvel e do

 acontecimento , desenvolvidas a partir de uma fenomenologia da percepo e da

 experincia histrica .
 Cada uma dessas experincias conduz ao ser , mas , como

 no podemos isolar seus mbitos de vigncia , elas constituem para ns ,

 simultaneamente , algo mais e menos que um " caminho " .
 Uma reflexo que parta

 delas segue , portanto , um " atalho hermenutico " que nos permite compreender o

 " mundo " porque somos " mundo " e porque nossa presena permanece solidria com

 sua presena , instante a instante ( 80 ) .

 Octvio Paz - um poeta que procura pensar a palavra - escreveu : " coisas e

 palavras sangram pela mesma ferida " .
 No podemos , diz ele , escapar da

 linguagem , mas as palavras no vivem fora de ns .
 Em sua " realidade final " , a

 linguagem nos escapa .
 Ela  " uma condio de existncia do homem , no um

 objeto , um organismo ou um sistema convencional de signos que podemos aceitar

 ou rejeitar " ( 81 ) .

 As palavras no so objetos nem idias , mas ocorrncia e campo de nossa

 experincia .
 " Ns somos o seu mundo e elas o nosso " .
 Mas esta co-incidncia

 ontolgica no tem nenhum contedo mstico ou transcendental , pois nossa

 existncia , nossa experincia do mundo e nossa experincia da expresso se do

 no reino da faticidade .
 " Para capturar a linguagem " , diz Paz , " no precisamos

 mais que us-la .
 As redes de pescar palavras so feitas de palavras " ( 82 ) .

 Merleau-Ponty diz algo semelhante : " tudo o que digo da linguagem a supe , mas

 isto no invalida o que digo , revela somente que a linguagem se toca e se

 compreende a si mesma , isto mostra somente que ela no  objeto , que 

 susceptvel de uma retomada , que  acessvel do interior " ( 83 ) .

 " O poder de transcendncia da palavra e da percepo resulta precisamente de

 sua prpria organizao " , escreve ainda Merleau-Ponty .
 Isso implica , por um

 lado , que " para que alguma coisa seja dita  preciso que nunca seja dita

 inteiramente " , e , por outro lado , que " as coisas percebidas no seriam para ns

 irrecusveis , presentes em carne e osso , se no fossem inesgotveis , nunca

 inteiramente dadas , no teriam o ar de eternidade que lhe encontramos se no se

 oferecessem a uma inspeo que em nenhum tempo pode terminar " ( 84 ) .

 O corao da palavra , como o do " objeto " , no est em sua forma ( seu

 significante ) nem em seu conceito ( seu significado ) , mas no movimento

 expressivo que constitui sua significao , no gesto pelo qual se estabelece seu

 sentido .
 Este poder de me ultrapassar mediante a fala e a escrita , a escuta e a

 leitura , decorre do fato de ser eu " sujeito falante , gesticulao lingustica ,

 como minha percepo s  possvel por meu corpo " ( 85 ) .
 Mas este gesto no  a

 ao inteligente de um sujeito racional que decide a cada momento o que deve

 fazer para realizar seus propsitos .
 Assim como o pintor que , hesitando diante

 de seu quadro , leva , afinal , a mo " para a regio que chamava o pincel " , meu

 propsito expressivo leva-me da linguagem  linguagem sem que eu sequer me

 coloque conscientemente os problemas que minha palavra resolve : a tambm " o

 que fazemos tem mais sentido do que sabemos " ( 86 ) .

 Essa qualidade refere-se , portanto ,  prpria expresso .
 Refere-se  dimenso

 comunicativa da linguagem , para alm de sua estrutura sinttica .
 Da porque se

 pode dizer que " s h subentendidos numa lngua , qualquer que ela seja , a

 prpria idia de uma expresso adequada , aquela de um significante que viria

 cobrir exatamente o significado , aquela enfim de uma comunicao integral so

 inconsistentes ( ...
 ) , o morfema gramatical no se confunde com o que se poderia

 chamar o morfema de expresso .
 H negaes que confessam .
 O sentido est alm

 da letra , o sentido  sempre irnico " ( 87 ) .

 O sentido  fugaz , portanto , e a natureza polissmica de cada palavra traduz e

 realiza a prpria potncia polissmica da linguagem .
 Ela  uma espcie de

 " vetor desviante " na dimenso do sentido , ela projeta o sentido para atingir o

 sentido , num movimento contnuo que , no entanto , jamais se extravia .

 " Exprimir-se  ento um empreendimento paradoxal , j que supe um fundo de

 expresses aparentadas , j estabelecidas , incontestadas , e que sobre esse fundo

 a forma empregada se destaque , permanea bastante nova para despertar a

 ateno .
  uma operao que tende  sua prpria destruio , j que se suprime 

 medida que se credita , e se anula se no se credita " ( 88 ) .

 Apesar de sistema , portanto , cada lngua se d efetivamente num movimento

 perptuo de devir-linguagem , pois suas regularidades no se referem apenas a

 uma estrutura lingustica , mas ao campo das possibilidades expressivas .
 Da

 porque se possa dizer que a fala " no realiza somente as possibilidades

 inscritas na lngua " ( 89 ) e que a lngua , ela mesma , "  toda acaso e toda

 razo " ( 90 ) .
 Esse carter de movimento ininterrupto que  prprio da lngua

 mostra que a dinmica do sentido no se refere estritamente aos signos , aos

 objetos ou mesmo a processos definidos , mas a um pathos diferencial a partir do

 qual se delimitam os objetos e processos lingusticos .
 " Tal como a percepo , a

 linguagem  antes de mais nada atividade de articulao , de estruturao , e se

 institui originariamente como dcoupage no continuum fontico primitivo ,

 empobrecimento que constitui uma primeira doao de forma ao mundo sonoro "

 ( 91 ) .

 Como o campo visual , escreve Merleau-Ponty , " o campo lingustico de um

 indivduo acaba no vago .
  que falar no  ter  sua disposio um certo nmero

 de sinais , mas possuir a lngua como princpio de distino , qualquer que seja

 o nmero de sinais que ela nos permite especificar " ( 92 ) .

 Mas o prprio Saussure , falando sobre " o signo considerado na sua totalidade " ,

 reconhece este carter diferencial da significao .
 Na lngua , diz ele , " s

 existem diferenas .
 E mais ainda : uma diferena supe em geral termos positivos

 entre os quais ela se estabelece ; mas na lngua h apenas diferenas sem termos

 positivos .
 Quer se considere o significado , quer o significante , a lngua no

 comporta nem idias nem sons preexistentes ao sistema lingustico , mas somente

 diferenas conceituais e diferenas fnicas resultantes deste sistema .
 O que

 haja de idia ou de matria fnica num signo importa menos que o que existe ao

 redor dele nos outros signos .
 A prova disso  que o valor de um termo pode

 modificar-se sem que se lhe toque quer no sentido quer nos sons , unicamente

 pelo fato de um termo vizinho ter sofrido uma modificao " ( 93 ) .

  no mesmo sentido que Merleau-Ponty afirma : " o que encontramos  que os

 sinais , os morfemas , as palavras uma a uma no significam nada , que s venham a

 conter significao por sua reunio , e que enfim a comunicao vai do todo da

 lngua falada ao todo da lngua entendida .
 Falar  a cada momento detalhar uma

 comunicao cujo princpio j est colocado " ( 94 ) .
 Instituio , a lngua  ,

 portanto , tambm um movimento instituinte .
 Mas no h , na linguagem , princpio

 originrio , fundamento irredutvel e inicial que pudesse ser tomado como ponto

 de partida da significao , e que agisse de modo exterior e anterior aos

 prprios movimentos da linguagem .

 Dizer , portanto , que a linguagem no  um algoritmo significa dizer que ela no

 s no se restringe  nomeao de um objeto por um sujeito , mas que no se

 reduz igualmente a uma simples " relao " entre sujeitos previamente

 constitudos .
  dizer , de outro modo , que a linguagem tem um carter

 intrinsecamente relacional .
 Ela  sempre um confronto entre uma " linguagem

 falada " - ou seja , " a massa de relaes de sinais estabelecidos como

 significaes disponveis " - e uma " linguagem falante " - " essa operao pela

 qual um certo arranjo de sinais e de significaes j disponveis vem a

 alterar , depois a transfigurar , cada um deles e finalmente secretar uma

 significao nova ( ...
 ) .
 Enquanto a linguagem funciona verdadeiramente , no 

 simples convite , para quem escuta ou l , descobrir em si mesmo significaes

 que l j estejam .
  essa manha , pela qual o escritor ou o orador , tocando em

 ns essas significaes , tire delas sons estranhos e que parecem  primeira

 vista falsos e dissonantes , e depois nos religue to bem ao seu sistema de

 harmonia que a partir de ento o tomamos pelo nosso " ( 95 ) .

 A crtica  concepo algortmica da linguagem no se resume , portanto , 

 rejeio do " naturalismo " e do " instrumentalismo " lingusticos , mas revela , no

 carter interativo , perspectivo e relacional da fala , a dimenso de sua

 potncia , sua condio de abertura para o ser .
 A linguagem , afirma Andrea

 Bonomi , " no se introduz na ordem do ' eu penso ' mas na do ' eu posso ' , como sede

 de uma praxis orientada : a gnese do sentido deve ser procurada do lado do

 sujeito agente e concreto , tomado no tecido das relaes inter-humanas " ( 96 ) .

 Pela linguagem , o falante pode se transportar e se instalar numa outra

 perspectiva , e no apenas reduzir tudo a sua perspectiva de partida .
 " O eu que

 fala est instalado em seu corpo e em sua linguagem no como numa priso , mas

 ao contrrio , como num aparelho que o transporta magicamente na perspectiva de

 outrem " .
 Este eu , portanto , no  mais o sujeito ou o ego racional , ele no s

 " existe " como participa a sua existncia .
 " Porque eu falo presentemente " ,

 escreve Merleau-Ponty , " minha lngua no  para mim uma soma de fatos , mas s

 um instrumento para uma vontade de expresso total .
 E porque ela  isso para

 mim sou capaz de entrar em outros sistemas de expresso compreendendo-os

 primeiro como variantes do meu , depois deixando-me habitar por eles ao ponto de

 pensar o meu como uma variante daqueles " ( 97 ) .
 " No compreendemos mesmo a

 linguagem a no ser a esse preo .
 Dizer que nenhum sinal isolado nada

 significa , e que a linguagem reenvia sempre  linguagem , j que a cada momento

 s alguns sinais so recebidos ,  dizer tambm que a linguagem exprime tanto

 pelo que est entre as palavras como pelas prprias palavras , e pelo que no

 diz como pelo que diz , como o pintor pinta , tanto pelo que ele traa , pelos

 brancos que coloca , ou pelos traos de pincel que no realizou " ( 98 ) .

  , provavelmente , a isto que se refere Octvio Paz , ao incluir a linguagem " no

 campo dos movimentos expressivos " ( 99 ) .
 Na expresso , o homem se d a si

 prprio , se d como um todo , e se d todo : do gesto  mmica , da palavra ao

 discurso , da literatura  poesia e s artes .
 Se " a linguagem  poesia em estado

 natural " ( 100 )  porque ela no nasce de um abismo , de uma pr-histria sem

 sentido ;  porque , pendendo do silncio , a palavra , no entanto , no provm de

 uma ausncia de significao : "  preciso considerarmos a palavra antes que ela

 seja pronunciada , sobre o fundo do silncio que a precede , que no pra de

 acompanh-la , e sem o qual ela no diria nada ; mais ainda , precisamos ser

 sensveis a esses fios de silncio com os quais o tecido da palavra est

 misturado " ( 101 ) .

 Mas se a palavra  " um smbolo que emite smbolos " ( 102 ) ,  porque ela

 re-presentifica o " real " atravs da sua presena .
 " Pois a potncia da linguagem

 no est no tte--tte que proporcionaria ao nosso esprito e s coisas , nem

 alis no privilgio que teriam recebido as primeiras palavras de designar os

 elementos mesmo do ser , como se todo conhecimento a vir e toda palavra ulterior

 se limitassem a combinar esses elementos .
 O poder da linguagem no est nem

 nesse futuro de inteleco para o qual vai , nem nesse passado mtico de onde

 proviria : est todo inteiro em seu presente na medida em que consegue ordenar

 as pretendidas palavras-chave de maneira a lhes fazer dizer mais que jamais

 disseram , que se ultrapasse como produto do passado e nos d assim a iluso de

 ultrapassar qualquer palavra e ir s prprias coisas porque com efeito

 ultrapassamos toda linguagem dada " ( 103 ) .

 A potncia da linguagem  vivida , portanto , na experincia atual da linguagem :

 na expresso e na comunicao efetivas .
 E  somente nesta experincia que ser

 possvel encontrar a " linguagem " , enquanto palavra ou mesmo que para faz-la

 objeto de uma cincia : " a idia de uma linguagem se forma e apia sobre a

 linguagem atual que falamos , que somos , e a lingustica no passa de uma

 maneira metdica e mediata de esclarecer por todos os outros fatos de linguagem

 esta palavra que se pronuncia em ns e  qual , mesmo em meio ao nosso trabalho

 cientfico , continuamos ligados como que por um cordo umbilical " ( 104 ) .

 [ LINK ]

 Notas e Referncias

 ( 1 ) MERLEAU-PONTY , M. : O Homem e a Comunicao ( A Prosa do Mundo ) .
 Traduo de

 Celina Luz .
 RJ. , Bloch , 1974 , p. 19 .

 ( 2 ) Id. : Ibid. , p. 21 .

 ( 3 ) " Na palavra niilismo , nihil no significa o no-ser e sim , inicialmente , um

 valor de nada .
 A vida assume um valor de nada na medida em que  negada ,

 depreciada. ( ...
 ) Os valores superiores  vida no se separam de seu efeito : a

 depreciao da vida , a negao deste mundo. ( ...
 ) Em seu primeiro sentido e em

 seu fundamento , niilismo significa portanto : valor de nada assumido pela vida ,

 fico dos valores superiores que lhe do esse valor de nada , vontade de nada

 que se exprime nesses valores superiores " .
 DELEUZE , G. : Nietzsche e a

 Filosofia .
 Traduo de Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias .
 RJ. , Editora

 Rio , 1976 , p. 123 .

 ( 4 ) MERLEAU-PONTY , M. : Op. cit. , p. 21 .

 ( 5 ) Apud NASCIMENTO , Jlio de Oliveira : " A Comunicao em Locke : Algumas

 Dificuldades " .
 In MORENO , Arley e FAVARETTO , Celso ( organizadores ) : Filosofia ,

 Linguagem , Arte .
 S.P. , EDUC ( srie Cadernos PUC , n  21 ) , 1985 , p. 76 .

 ( 6 ) NASCIMENTO , J.O. : Op. cit. , p. 78 .

 ( 7 ) CHAER , Marcos : " Pensamento , Linguagem e Comunicao " .
 Ibid. , p. 83 .

 ( 8 ) LOCKE , J. : Op. cit. , p. 229 .

 ( 9 ) ALMEIDA , Guido Antnio de : " Aspectos da Filosofia da Linguagem " .
 Cadernos

 SEAF .
 RJ , ( 1 ) , agosto de 1978 , p. 68 .

 ( 1O ) NASCIMENTO , J.O. : Op. cit. , p. 79 .

 ( 11 ) WITTGENSTEIN , L. : Investigaes Filosficas .
 Traduo de Jos Carlos

 Bruni .
 S.P. , Abril Cultural ( Os Pensadores ) , 1975 ,  1 , p. 13 .

 ( 12 ) ALMEIDA , G.A. : Op. cit. , p. 70 .

 ( 13 ) WITTGENSTEIN , L. : Op. cit. ,  7 , p. 16 .

 ( 14 ) ALMEIDA , G.A. : Op. cit. , p. 71 .

 ( 15 ) Id. : Ibid. , p. 73 .

 ( 16 ) Id. : Ibid. , p. 75 .

 ( 17 ) SEARLE , J.R. : Os Actos de Fala .
 Traduo coordenada por Carlos Vogt .

 Coimbra , Livraria Almedina , 1981 , p. 196 .

 ( 18 ) Id .
 Ibid. , p. 29 .

 ( 19 ) Id. : Ibid. , p. 26 .

 ( 2O ) Id. : Ibid. , p. 261 .

 ( 21 ) Id. : Ibid. , p. 28 .
 O autor acrescenta : " poderia ainda parecer que o nosso

 ponto de vista  simplesmente , em termos saussureanos , um estudo da ' parole ' e

 no da ' langue ' .
 Sustentamos , entretanto , que um estudo adequado dos atos de

 fala  um estudo da ' langue ' " .
 Voltaremos a esse ponto .

 ( 22 ) " Quand dire c'est faire "  , alis , o ttulo da traduo francesa do texto

 de J.L. Austin : How to Do Things with Words .
 Oxford , 1962 .

 ( 23 ) ALMEIDA , G.A. : Op. cit. , p. 80 .

 ( 24 ) Id. : Idid. , p. 80 .

 ( 25 ) Id. : Ibid. , p. 83 .

 ( 26 ) Id. : Ibid. , p. 83 .

 ( 27 ) Id. : Ibid. , p. 86 .

 ( 28 ) NEUMANN & MORGENSTERN : Theory of Games and Economic Behavior .
 Princeton

 U.P. , 1944 ; 3 ^ a ed. , 1954 , p .49 .
 Apud .
 LYOTARD , J.F. : O Ps-Moderno .
 Traduo

 de Ricardo Correia Barbosa , 3 ^ a ed. , RJ , Jos Olympio , 1988 , nota 33 , p. 18 .

 ( 29 ) LYOTARD , J.F. : Op. cit. , p.l7 .

 ( 3O ) Id. : Ibid. , p. 17 .

 ( 31 ) ORLANDI , Eni .
 P. : " A sociolingustica , a teoria da enunciao e a anlise

 do discurso " .
 A Linguagem e seu Funcionamento , SP , Brasiliense , 1983 , p .88 .

 ( 32 ) Id. : Ibid. , p .89 .

 ( 33 ) Id. : Ibid. , p. 89 .

 ( 34 ) " A Lingustica tem relaes bastante estreitas com outras cincias , que

 tanto lhe tomam emprestados como lhe fornecem dados .
 Os limites que a separam

 das outras cincias no aparecem sempre nitidamente .
 Por , exemplo , a

 Lingstica deve ser cuidadosamente distinguida da Etnografia e da

 Pr-Histria , onde a lngua no intervm seno a ttulo de documento ;

 distingue-se tambm da Antropologia , que estuda o homem somente do ponto de

 vista da espcie , enquanto a linguagem  um fato social " .
 SAUSSURE , F. : Curso

 de Lingstica Geral .
 Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye .
 Traduo

 de Antnio Chelini , Jos Paulo Paes e Izidoro Blikstein .
 SP , Cultrix , 9 ^ a ed. ,

 s / d , p .13 .

 ( 35 ) ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p. 89 .

 ( 36 ) SAUSSURE , F. : Op. cit. , p. 15 .

 ( 37 ) Id. : Ibid. , p. 24 .

 ( 38 ) Id. : Ibid. , p. 25 .

 ( 39 ) Id. : Ibid. , p. 17 .

 ( 40 ) Id. : Ibid. , p. 18 .

 ( 41 ) Id. : Ibid. , p. 88 .

 ( 42 ) " Com o separar a lngua da fala , separa-se ao mesmo tempo : 1 , o que 

 social do que  individual ; 2 , o que  essencial do que  acessrio e mais ou

 menos acidental .
 A lngua no constitui , pois , uma funo do falante :  o

 produto que o indivduo registra passivamente ( ...
 ) " .
 Id. : Ibid. , p. 22 .

 ( 43 ) Id. : Ibid. , p. 92 .

 ( 44 ) ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p .90 .

 ( 45 ) ROSSI-LANDI , F. : " A Linguagem como Trabalho e como Mercado " .
 Semiologia e

 Lingustica Hoje .
 Apud ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p. 90 .

 ( 46 ) ORLANDI , E.P. : Op. , p. 90 .

 ( 47 ) Este conceito tem se desenvolvido no horizonte aberto pelo trabalho de

 historiadores ps-estruturalistas , como Michel Foucault , por exemplo , ou Paul

 Marie Veyne , que escreve : " A prtica no  uma instncia misteriosa , um

 subsolo da histria , um motor oculto :  o que fazem as pessoas ( a palavra

 significa exatamente o que diz ) .
 Se a prtica est , em certo sentido ,

 " escondida " , e se podemos , provisoriamente , cham-la " parte oculta do iceberg " ,

  simplesmente porque ela partilha da sorte da quase-totalidade de nossos

 comportamentos e da histria universal : temos , freqentemente , conscincia

 deles , mas no temos o conceito para eles .
 Do mesmo modo , quando falo , sei ,

 geralmente , que falo e que no estou em estado de hipnose ; entretanto , no

 tenho a concepo da gramtica que aplico intuitivamente ; acredito exprimir-me

 naturalmente para dizer o que  preciso ; no estou consciente de que aplico

 regras estritas " .
 VEYNE , P.M. : " Foucault Revoluciona a Histria " .
 Como se

 Escreve a Histria .
 Traduo de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp .

 Braslia , Editora da Unb , 1982. , p. 157 .

 ( 48 ) ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p. 92 .

 ( 49 ) Cf .
 ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p. 93 .

 ( 5O ) Apud ORLANDI , E.P. : Op. cit. , p. 93 .

 ( 51 ) " Uma lngua  radicalmente incapaz de se defender dos fatores que

 deslocam , de minuto a minuto , a relao entre o significado e o significante .
 

 uma consequncia da arbitrariedade do Signo " .
 SAUSSURE , F. : Op. cit. , p .90 .

 ( 52 ) ORLANDI , E.P. : Op. , p .94 .

 ( 53 ) MORA , Jose Ferrater : Diccionario de Filosofia .
 Buenos Aires , Editorial

 Sudamericana , 4 ^ a ed. , 1958 , pp. 375-377 .

 ( 54 ) FOUCAULT , M. : L'Ordre du Discours .
 Paris , Gallimard , 1971 , pp 10 e 11 .

 ( 55 ) SEVCENKO , Nicolau : " Charles Baudelaire : o discurso em desordem " .
 In

 RIBEIRO , Renato Janine ( organizador ) : Recordar Foucault .
 SP , Brasiliense , 1985 ,

 p. 189 .

 ( 56 ) " ( ...
 ) ' vontade de verdade ' no significa ' eu no quero me deixar

 enganar ' , mas , e no h escolha : ' eu no quero enganar , nem a mim , nem aos

 outros ' e eis-nos no terreno da moral. ( ...
 ) No h dvida , o verdico , no

 sentido mais rigoroso e extremo , tal qual o prev a f na cincia , afirma

 destarte um outro mundo que aquele da vida , da natureza e da histria e

 enquanto afirma esse outro mundo , nega seu antpoda , este mundo , nosso mundo

 ...
 mas compreendeu-se ou se est em vias de compreender que  sempre numa

 crena metafsica que repousa nossa f na cincia - que ns , tambm ns

 buscamos , ainda hoje , o conhecimento , ns , mpios e metafsicos , emprestamos

 nosso fogo ao incndio que uma f de mil anos acendeu , essa f crist que

 tambm foi a de Plato e que admitia que Deus  a verdade e que a verdade 

 divina ...
 " .
 NIETZSCHE , F. : A Gaia Cincia .
 Traduo de Mrcio Pugliesi , Edson

 Bini e Norberto de Paula Lima .
 SP , Hemus , 1981 ,  344 , p .228 .

 ( 57 ) Segundo a traduo de Sevcenko .
 Op. cit. , p. 189 .

 ( 58 ) M. Callon refere-se a uma sociolgica : " A Sociolgica  o movimento pelo

 qual os atores constituem e instituem diferenas , fronteiras entre o que 

 social e o que no o  , o que  tcnico e o que no o  , e o que  imaginrio e

 o que  real : o traado destas fronteiras  uma disputa e nenhum consenso ,

 salvo em caso de dominao ,  realizvel " .
 Apud LYOTARD , J.F. : Op. cit. , nota

 64 , p. 34 .

 ( 59 ) LYOTARD , J.F. : Op. cit. , p. 29 .

 ( 6O ) Id. : Ibid. , p. 32

 ( 61 ) BENVENISTE , E. : Problemas de Lingustica Geral .
 SP , Nacional , 1976 .

 ( 62 ) A autora prossegue : "  o locutor no exerccio do discurso que se apropria

 das formas que a linguagem prope e s quais ele se refere a sua pessoa

 definindo-se a si mesmo ( como eu ) e ao parceiro ( como tu ) .
 Nessa perspectiva o

 processo do eu  semntico ,  histrico , enquanto o tu permanece no nvel

 semitico .
 Benveniste diz que temos ' no locutor a vontade de referir pelo

 discurso e no outro a possibilidade de correferir identicamente no consenso

 pragmtico que faz de cada locutor um " colocutor " ' .
 Assim , o interlocutor ,

 enquanto tal ,  possibilidade estabelecida pelo semitico e , quando se faz

 semntica , se faz locutor .
  s nesse sentido que vemos um contato entre o

 semitico e o semntico , mas que no se faz como passagem , e  dissimtrico .

 Nesse sentido , o quadro figurativo da enunciao - as duas figuras em posio

 de participantes que so alternativamente protagonistas da enunciao - aparece

 como cenrio para que o eu represente seu papel. " ORLANDI , E.P. : Op. cit. ,

 p .98 .

 ( 63 ) PCHEUX , M. : " Analyse Automatique du Discours " .
 Paris , Dunod , 1969 e

 PCHEUX , M. et alii : " Analyse du Discours , Langue et Idologie " .
 Langages , n 

 37 .
 Paris , 1975 .

 ( 64 ) ORLANDI , E.P. : Op. cit. , pp. 101 e 102 .

 ( 65 )  interessante retomar , nesse ponto , as objees que Foucault ope a esta

 noo : " A noo de ideologia me parece dificilmente utilizvel por trs razes .

 A primeira  que , queira-se ou no , ela est sempre em oposio virtual a

 alguma coisa que seria a verdade. ( ...
 ) Segundo inconveniente : refere-se

 necessariamente a alguma coisa como o sujeito .
 Enfim , a ideologia est em

 posio secundria com relao a alguma coisa que deve funcionar para ela como

 infra-estrutura ou determinao econmica , material , etc .
 Por estas trs razes

 creio que  uma noo que no deve ser utilizada sem precaues " .
 FOUCAULT , M. :

 " Verdade e Poder " ( entrevista ) .
 Microfsica do Poder .
 Traduo de Roberto

 Machado .
 RJ. , Edies Graal , 1979. , p. 7 .

 ( 66 ) MERLEAU-PONTY , M .
 " Materiaux pour thorie de l'histoire " Rsums de Cours

 ( College de France , 19562-1960 ) .
 Paris , Gallimard , l968 , p. 44 .

 ( 67 ) LYOTARD , J-F. : Op. cit. , p. 29 .

 ( 68 ) Id. : Ibid. , p .28 .

 ( 69 ) JAKOBSON , R .
 "  procura da Essncia da Linguagem " .
 Lingustica e

 Comunicao .
 Traduo de Izidoro Blikstein e Jos Paulo Paes .
 SP. , s / d , p .102 .

 ( 70 ) Cf .
 JAKOBSON , R. Op. cit. , p. 104 .
 A tipologia dos signos formulada por

 Peirce  bastante conhecida .
 Nos termos do prprio Jakobson : " Peirce , como

 Saussure , estabeleceu uma distino ntida entre as ' qualidades materiais ' , o

 significante de todo signo e seu ' intrprete imediato ' , isto  , o significado .

 A diferena que se manifesta na relao entre o significante e o significado

 permite-lhe discernir trs variedades fundamentais de signos ( ou de

 representamen , na sua terminologia ) .
 1 ) O cone opera , antes de tudo , pela

 semelhana de fato entre seu significante e seu significado , ( ...
 ) 2 ) O ndice

 opera , antes de tudo , pela contiguidade de fato , vivida , entre seu significante

 e seu significado ( ...
 ) 3 ) O smbolo opera , antes de tudo , por contiguidade

 instituda , apreendida , entre significante e significado .
 O intrprete de um

 smbolo , qualquer que seja , deve obrigatoriamente conhecer esta regra

 convecional , e  s e exclusivamente por causa desta regra que o signo ser

 efetivamentee interpretado .
 " Op. cit. , pp. 100-101 .

 ( 71 ) Id. : Ibid. p. 105 .

 ( 72 ) Citado por Jakobson .
 Op. cit. , p. 106 .

 ( 73 ) Id. : Ibid. , p. 107 .

 ( 74 ) Id. : Ibid. , p. 115 .

 ( 75 ) Id. : Ibid. , p. 111 .

 ( 76 ) Id. : Ibid. , p. 111-115 .

 ( 77 ) MERLEAU-PONTY , M .
 A Prosa do Mundo , ed. cit. , 30 .

 ( 78 ) Lembremo-nos do que diz Nietzsche , escrevendo sobre " A ' Razo ' na

 Filosofia " : " A razo na linguagem , que velha embusteira !
 Temo que jamais nos

 livremos de Deus , posto que cremos ainda na gramtica " .
 Crepsculo dos dolos .

 Traduo de Edson Bini e Mrcio Pugliesi .
 SP. , Hemus , l976 , p. 29 .

 ( 79 ) MERLEAU-PONTY , M. : Op. cit. , 41 .

 ( 80 ) Numa reflexo sobre " Sensibilidade e Inteligibilidade " , Ernildo Stein

 assinala que Heidegger , ao contrrio da Escola Histrica Alem - que situa a

 compreenso ainda no campo do conhecimento - , " coloca a compreenso como um

 existencial : antes de nos darmos conta ns j compreendemos .
 O mundo j esta

 compreendido , no h como chegar antes dele e compreend-lo .
 E , sendo um

 existencial ,  uma marca da existncia humana e no um rgo , quer sensvel ,

 quer inteligvel , de acesso ao mundo histrico. ( ...
 ) A racionalidade do mundo

 histrico , portanto , no se esgota , ns nunca podemos estabelec-la

 definitivamente , pois vai se dando sempre .
 STEIN , E. : Racionalidade e

 Existncia .
 Porto Alegre , L & PM , 1988 , p .31 .

 ( 81 ) PAZ , Octvio : O Arco e a Lira .
 Traduo de Olga Savary .
 Rio de Janeiro ,

 Nova Fronteira , 1982 , pp .35 e 37 .

 ( 82 ) Id .
 Ibid. , p. 37 .

 ( 83 ) MERLEAU-PONTY , M. Op cit. , p. 39 .

 ( 84 ) Id. : Ibid. , pp. 50 e 51 .
 O acesso  linguagem  da ordem perspectiva ,

 portanto , perspectiva : " A claridade da linguagem  de ordem perceptiva " , p. 43 .

 ( 85 ) Id .
 Ibid. , p. 29 .
 " Falar e ouvir , ao e percepo s so para mim

 operaes diferentes quando reflito , e decomponho as palavras pronunciadas em

 influxos motores ou em momentos de articulao - as palavras ouvidas em

 sensaes e percepes auditivas .
 Quando falo , no me represento os movimentos

 a fazer : todo o meu aparelho corporal se rene para alcanar e dizer a palavra

 como minha mo se mobiliza por si mesma para pegar o que me estendem " ( p. 34 ) .

 ( 86 ) Id .
 Ibid. , p. 58-59 .

 ( 87 ) Id .
 Ibid. , p. 44 .
 " A todo momento , sob o sistema da gramtica oficial , que

 atribui a tal sinal tal significao , v-se transparecer um outro sistema

 expressivo que traz o primeiro e procede diferentemente dele : a expresso ,

 aqui , no est ordenada , ponto por ponto , ao exprimido ; cada um de seus

 elementos no se precisa e no recebe a existncia lingustica a no ser pelo

 que ele recebe dos outros e pela modulao que imprime a todos os outros " .

 Ibid. , p. 42 .

 ( 88 ) Id .
 Ibid. , p. 50 .

 ( 89 ) MELEAU-PONTY , M. : " Le Problme de la Parole " Rsums de Cours , p. 33 .

 ( 90 ) " A lngua  toda acaso e toda razo porque no existe sistema expressivo

 que siga um plano e que no tenha sua origem em algum dado acidental , mas

 tambm no h acidente que se torne instrumento lingustico sem que a linguagem

 tenha insuflado nele o valor de uma nova maneira de falar , tratando-o como

 exemplo de uma regra futura que se aplicar a todo um setor de sinais ( ...
 ) .
 A

 vontade de expresso ela mesma  ambgua e contm um fermento que trabalha para

 modific-la : cada lngua , diz por exemplo Vendryes ,  submetida a cada momento

 s necessidades gmeas e contrrias da expressividade e da uniformidade " .
 Id. :

 A Prosa do Mundo .
 Ed. cit. , p. 49 .

 ( 91 ) BONOMI , A. : Fenomenologia e Estruturalismo .
 Traduo de Joo Paulo

 Monteiro , Patrizia Piozzi e Mauro Almeida Alves .
 SP. , Ed. Perspectiva , 1974 ,

 p .11 .

 ( 92 ) MERLEAU-PONTY , M. : A Prosa do Mundo .
 Ed. cit. , p. 46 .

 ( 93 ) SAUSSURE , F. : Op. cit. , p. 139 .

 ( 94 ) MERLEAU-PONTY , M. : Op. cit. , p. 56 .

 ( 95 ) Id : Ibid. , pp. 28 e 29 .

 ( 96 ) BONOMI , A. : Op. cit. , p. 14 .

 ( 97 ) MERLEAU-PONTY , M. : A Prosa do Mundo .
 Ed. cit. , p. 54 .

 ( 98 ) Id. : Ibid. , p. 58 .

 ( 99 ) PAZ , O. : Op. cit. p. 40 .

 ( 100 ) Id. : Ibid. , p. 41 .

 ( 101 ) MERLEAU-PONTY , M. : A Prosa do Mundo .
 Ed. cit. , p. 60 .
 O autor acrescenta

 , na margem : " no se sabe o que se diz , sabe-se depois de ter dito " .

 ( 102 ) PAZ , O. : Op. cit. , p. 41 .

 ( 103 ) MERLEAU-PONTY , M. : A Prosa do Mundo .
 Ed. cit. p. 55 .

 ( 104 ) Id. : Ibid. , p. 31 .

 [ LINK ]

 A Instituio do Sentido

 Experincia e Significao

