

 MENTE E SIGNIFICADO

 A AVALIAO FILOSFICA DE MARCIA CAVELL DA TEORIA PSICANALTICA

 Ney Marinho ( SBPRJ , 2004 )

 A discreta repercusso em nosso meio , tanto no

 ambiente psicanaltico como no filosfico , da avaliao de Marcia

 Cavell da teoria psicanaltica , nos faz julgar conveniente uma melhor

 divulgao de seu trabalho , uma vez entendermos que o mesmo abre uma

 nova e importante via de dilogo entre a psicanlise e a filosofia ,

 particularmente , a filosofia da linguagem .

 O trabalho de Marcia Cavell veio  luz de

 forma mais sistematizada , em seu livro : The Psychoanalytic Mind , from

 Freud to Philosophy ( Cavell , 1993 ) .
 Este  fruto de uma pesquisa que

 vinha realizando h mais de dez anos , a partir inicialmente da

 proposta : " uma criana se torna um ` sujeito ' ou um ` self ' somente

 atravs de relaes com outras pessoas " ( Cavell , 1993 : IX ) .
 Como a

 autora nos conta , esta era mais uma " posio " do que um " argumento " .

 Por sinal uma posio j familiar aos psicanalistas na medida em que

 seria um dos postulados do que ficou conhecido como " teoria das

 relaes de objeto " [ 1 ] .
 Chamava a ateno de Cavell que tal noo era

 muito compatvel com sua orientao filosfica , abrindo caminho para

 uma compreenso mais abrangente da psicanlise do que as tradicionais

 abordagens filosficas a respeito .
 Restava-lhe , contudo , fundamentar

 sua hiptese .
 Naquela ocasio teve contato com a obra de Richard

 Rorty : Philosophy and the Mirror of Nature , o que a levou ao estudo de

 Donald Davidson e a uma releitura de Wittgenstein .
 Declara ter se dado

 conta de que necessitava articular a discusso da linguagem com a da

 mente , uma vez que para aqueles trs autores tais noes seriam

 interdependentes e " ...
 assim como a linguagem  uma atividade

 comunitria , da mesma forma a mente  um fenmeno mais interpessoal do

 que estamos propensos a pensar " ( Cavell , 1993 : IX ) .
 Esta passou ento

 a ser sua tese bsica para o desenvolvimento ulterior da pesquisa .

 Como vemos , o trabalho de Cavell tem duas

 fontes : do ponto de vista psicanaltico , a " teoria das relaes de

 objeto " ; do filosfico , a moderna filosofia da linguagem ,

 principalmente , as contribuies de Donald Davidson e Ludwig

 Wittgenstein .

 No presente texto , procuraremos apenas

 apresentar a metodologia , argumentos e algumas implicaes do

 empreendimento de Cavell , evitando uma discusso mais detalhada de sua

 leitura , quer dos filsofos citados , quer da teoria psicanaltica ,

 deixando para outro momento um exame crtico do texto de Cavell .

 Entretanto , nas Consideraes Finais , adiantaremos algumas observaes

 a respeito , sugerindo o que entendemos poderiam ser desdobramentos

 frteis da avaliao de Cavell .
 Adiantamos nossa concordncia com o

 enfoque adotado que consideramos dos mais promissores para o exame

 filosfico da teoria psicanaltica , dada a nfase que empresta 

 intersubjetividade na compreenso da teoria e prtica da

 psicanlise .

 Como utilizaremos fundamentalmente o texto de

 Cavell , as indicaes de pginas , nas citaes sem indicao de autor ,

 referem-se sempre a The Psychoanalytic Mind - From Freud to

 Philosophy .

 1 - FUNDAMENTOS DA AVALIAO DE CAVELL

 A autora parte da suposio de que " a

 psicanlise  essencialmente uma teoria acerca de criaturas que tm

 mentes. " ( p .1 ) Portanto , a noo de mente ocupa um lugar privilegiado

 para qualquer discusso da teoria psicanaltica .
 Sua abordagem desta

 questo ser simultnea  da noo de significado .
 Chama a ateno

 para o parentesco de tais conceitos , assim como a forma com que foram

 tratados , tanto pela tradio filosfica como pela psicanaltica .

 Freud tendeu , preocupado com a cientificidade da psicanlise , a

 reduzir a mente a algo fundamentalmente biolgico ; ao passo que muitos

 dos seus seguidores partiram em direo oposta no sentido de uma

 compreenso hermenutica .
 Por outro lado , a tradio filosfica , desde

 Descartes , priorizou a concepo de mente sobre a de significado .
  a

 partir da discusso dos impasses que tal postura acarreta que a autora

 vai preparar terreno para a apresentao de sua perspectiva .

 A posio cartesiana encontra um forte suporte

 intuitivo , uma vez que estabelece uma autoridade para o ponto de vista

 da primeira pessoa , capaz de assegurar que o conhecimento obtido pela

 introspeco seria auto-evidente .
 A literatura designa como

 internalista , tal concepo .
 A crtica ao internalismo e suas

 implicaes no entendimento da teoria psicanaltica acompanhar todo o

 texto de Cavell .

 Antes de apresentar sua crtica  autoridade

 da primeira pessoa , expe ao leitor o papel crucial que desempenham as

 noes de crenas e desejos nas descries lingsticas de atos

 intencionais , como bases de aes .
 A importncia para a teoria

 psicanaltica  exemplificada pelas diferentes descries : " dipo

 acredita que matou um ancio na encruzilhada para Tebas " e " dipo

 acredita que matou seu pai na encruzilhada para Tebas. " Ambas as

 descries falam do mesmo evento , embora tenham significados muito

 diversos .
 Com este exemplo paradigmtico dos eventos mentais , Cavell

 introduz a discusso dos fundamentos epistemolgicos de nossas crenas

 e desejos .
 Qual a natureza do conhecimento que possumos acerca de

 nossas crenas e desejos ?
 Agrupa as diversas respostas a tal

 questionamento em duas grandes linhas : o ponto de vista da primeira

 pessoa e a perspectiva do intrprete .

 O PONTO DE VISTA DA PRIMEIRA PESSOA - Embora atribua a

 Descartes o papel de principal representante da autoridade da primeira

 pessoa como fonte de conhecimento irrecusvel , estende a uma vasta

 gama de filsofos a mesma perspectiva na investigao do mental .
 Entre

 eles cita : Locke , Berkeley , Hume , Kant , Russell e , entre os

 contemporneos ; John Searle e Thomas Nagel .
 Na medida em que se trata

 de uma ampla generalizao , a autora no examina as peculiaridades de

 cada autor ao tratar do tema .
 Desta forma , vai tomar Descartes como

 modelo - a ser criticado - de uma determinada forma de apreenso de

 contedos mentais .
 Recordando as duas primeiras meditaes cartesianas

 sublinha o aspecto auto-evidente dos dados obtidos pela introspeco ,

 em contraposio  possibilidade de por em dvida todas as crenas

 provenientes da experincia :

 " Observem que as dvidas de Descartes acerca da existncia das coisas

 que suas idias parecem representar de forma alguma ameaam - assim

 ele pensa - sua habilidade para representar , nem para conhecer o que

 suas idias representam .
 Assim , Descartes deve implicitamente manter

 que o carter Intencional de um pensamento  interno a ele , que o

 contedo mental em nada depende de algo externo  mente que o

 entretm .
 ...
 Esta  a suposio que Putnam ...
 chama ` solipsismo

 metodolgico ' , segundo a qual ` nenhum estado psicolgico ...
 pressupe

 a existncia de qualquer outro indivduo que o sujeito a quem este

 estado  atribudo. ' " ( p .12 )

 A denominao de internalista para esta

 concepo prende-se ao fato de que embora suponha que uma interao

 entre o crebro e o mundo exterior possa determinar que crenas temos ,

 seu contedo  determinado por fatos internos ao corpo .
 " Um estado

 mental  alguma espcie de estrutura - talvez uma estrutura sinttica ,

 uma inscrio em uma ` linguagem de pensamento ' ( Fodor ) , um quadro , ou

 uma representao - no crebro. " ( p .12 ) Os contedos dos pensamentos

 prescindiriam de uma avaliao no mundo exterior , ou do questionamento

 de outros , mas seriam alcanados pelo ato de introspeco .
 Resumindo

 as principais conseqncias do internalismo , Cavell lista :

 - O ceticismo sobre o mundo exterior .

 - O " solipsismo metodolgico " .

 - A suposio de que nossa mente nos  transparente , enquanto

 a de outros nos  opaca .

 - A equao : uma mente , um corpo .

 Apesar da rejeio de Freud a certas noes cartesianas - como a

 separao mente / corpo e o acesso imediato aos contedos da conscincia

 por introspeco - a autora lembra duas citaes de Freud , de dois

 distantes perodos de sua obra , que bem ilustram a influncia do

 pensamento cartesiano :

 " A conscincia nos faz cientes somente de nossos prprios estados

 mentais ; que outras pessoas tambm possuam uma conscincia  uma

 inferncia que tiramos por analogia de seus pronunciamentos

 observveis e aes , a fim de tornar este comportamento inteligvel

 para ns ...
 a suposio de uma conscincia neles [ nossos semelhantes ]

 repousa numa inferncia e no pode partilhar a certeza imediata que

 temos de nossa prpria conscincia. " ( Freud , 1915:169 )

 A outra citao , de 23 anos depois , diz :

 " Em nossa cincia como em outras o problema  o mesmo : atrs dos

 atributos ( qualidades ) do objeto sob exame que so apresentados

 diretamente  percepo , temos que descobrir algo mais que  mais

 independente da particular capacidade receptiva de nossos rgos

 sensoriais e que se aproxima mais daquilo que pode ser suposto ser o

 real estado de coisas .
 No esperamos ser capazes de alcanar o ltimo ,

 desde que  evidente que cada coisa nova que ns inferimos deve

 contudo ser traduzida na linguagem de nossas percepes , da qual 

 simplesmente impossvel libertar-nos. " ( Freud , 1940 ^ a [ 1938 ] : 196 )

 Cavell sintetiza suas crticas  abordagem

 atravs da primeira pessoa , em trs pontos : a natureza global do

 ceticismo acarretado [ 2 ] ; a dificuldade em dar conta do " xito " da

 linguagem e , finalmente , a dificuldade em explicar crenas e desejos

 inconscientes .
 Um sumrio de suas crticas ao internalismo est na

 seguinte passagem :

 " A perspectiva da primeira pessoa conduz ao ceticismo acerca do mundo

 material .
 A existncia de outras mentes torna-se mais um problema , uma

 vez que mesmo que possamos acreditar em nossos sentidos acerca da

 existncia de um outro corpo em um dado caso , o fato de que o mental

 seja tomado como radicalmente privado , s contingentemente expresso em

 comportamento , e cognoscvel apenas para a mente a qual pertence ,

 significa que nossa crena que outro corpo  habitado por uma mente 

 uma inferncia a mais. ( Como Descartes coloca , o que ns tomamos como

 uma outra pessoa poderia ser um autmato. ) " ( p .15 )

 A PERSPECTIVA DO INTRPRETE - Ao discutir a

 perspectiva do intrprete , em contraposio  da autoridade da

 primeira pessoa , Cavell apresenta sua proposta que denomina de

 externalista .
 Deste ponto de vista , v as atividades de pensar e falar

 como inter-relacionadas , sem um privilgio temporal .
 Na medida que a

 linguagem  uma atividade pblica , argumenta a autora , fundada num

 mundo compartilhado , assim so tambm os pensamentos que expressa .

 Desta forma constitui-se a perspectiva do intrprete , ou , da terceira

 pessoa , em oposio s concepes subjetivistas que procuram dar um

 carter privado a crenas e desejos .
 Curiosamente , tal posio

 anti-subjetivista , contrria , poderamos dizer , a uma tradio

 psicanaltica , encontra respaldo no desenvolvimento da teoria

 psicanaltica , como j mencionamos ( atravs da teoria de relaes de

 objeto ) , assim como fornece um instrumental muito valioso para a

 superao de impasses peculiares  epistemologia da psicanlise .

 Cavell parte das contribuies de

 Wittgenstein , atravs da nova aproximao que este autor faz do

 problema do significado na segunda fase de sua obra , onde a noo

 pragmtica de significado , o papel dos " jogos de linguagem " e a

 crtica  linguagem privada vo fornecer os pilares de uma nova

 abordagem epistemolgica das cincias .
 A autora resume , com

 felicidade , o contraste entre a tradio do privilgio da primeira

 pessoa e a nova perspectiva , no seguinte texto :

 " Descartes e a tradio filosfica mantinham que o discurso pblico se

 seguia ao privado ; as palavras configuram , mas de forma alguma

 permitem criar as idias que elas comunicam .
 O movimento

 revolucionrio de Wittgenstein consistiu em minar a noo que podemos

 divorciar o privado do pblico desta forma .
 Em suas passagens acerca

 do pensamento como o discurso silencioso ele adverte contra a idia

 que a linguagem  um vu lanado sobre os pensamentos que

 simultaneamente esconde e parcialmente os revela ...
 Levanta , pelo

 contrrio , que o discurso silencioso  um derivativo do discurso

 ouvido .
 Assim como aprendemos a calcular de cabea atravs de calcular

 no papel , assim aprendemos como individualizar algo em nossas mentes ,

 como pens-lo como uma face , uma farsa , uma seduo , como contar e

 ouvir coisas. ( p .24 )

 Lembra Agostinho como um dos precursores da primazia

 da primeira pessoa , do pensamento privado :

 Agostinho escreveu :

 ` Pouco a pouco eu comecei a me dar conta onde eu estava e que desejava

 tornar conhecidos meus desejos aos outros , que poderiam satisfaz-los .

 Mas isto eu no podia fazer , porque meus desejos estavam dentro de

 mim , enquanto as outras pessoas estavam fora e elas no tinham a

 faculdade de penetrar em minha mente .
 Assim , eu mexia meus braos e

 pernas e fazia rudos , na esperana de que tais sinais que podia fazer

 mostrassem meu intuito , ainda que fossem muito diferentes do que eles

 tencionavam mimetizar. '

 Primeiro h um pensamento privado - incluindo querer e desejar -

 Agostinho supe ; depois um ajuste do pensado com o discurso pblico .

 Este  um quadro , observamos , que somente uma criatura que possa tanto

 pensar e falar poderia apresentar .
 Neste quadro Wittgenstein traa a

 direo em outro sentido : primeiro h a introduo da criana numa

 forma de vida , que ao mesmo tampo  seu aprendizado de uma linguagem ,

 e com esta introduo uma entrada no pensamento .
 Uma linguagem de

 smbolos que  usada para o pensar deve ser necessria tambm para ser

 uma linguagem usada para comunicar .
 No tocante  referncia , ela 

 socialmente fixada , no determinada por entidades privadas em

 mentes / crebros individuais. " ( p .24-25 )

 Estendemo-nos nesta citao , pois ,

 resume pontos que sero importantes ao discutirmos as implicaes da

 proposta de Cavell , na seo seguinte deste trabalho .

 Alm de Wittgenstein , a autora utiliza para

 sua anlise do empreendimento psicanaltico as contribuies de Quine

 e de Davidson para a filosofia da linguagem e a teoria da ao .
 Esposa

 a teoria holstica do significado de Quine , com as modificaes

 trazidas por Davidson , ou seja : a passagem da traduo radical ( Quine )

  interpretao radical ( Davidson ). [ 3 ] A importncia desta passagem se

 revela pelas implicaes que ter em sua compreenso da teoria

 psicanaltica .
 Pois , no se trata apenas de compreendermos o discurso

 do outro ( Quine ) mas como nossos discursos falam do mundo ( Davidson ) :

 " Onde Quine construiu um modelo de traduo que nos diria como

 traduzir sentenas do discurso do outro para o nosso , o modelo de

 Davidson focaliza mais explicitamente o que  entender pensamentos do

 outro , da o movimento da ` traduo radical ' para a ` interpretao

 radical ' .
 Quine me diz como conectar pronunciamentos de outra pessoa

 com os meus , Davidson me diz como conectar aqueles pronunciamentos com

 o mundo .
  uma teoria voltada para a fundamental questo da semntica ,

 ou seja , como as palavras se relacionam com as coisas .
 A estratgia de

 Davidson tambm  a de indagar como um interprete sem o auxlio de

 dicionrios e manuais de traduo poderia empreender a tentativa de

 compreender outra criatura ou comunidade .
 ` Como o filsofo tradicional

 que aspira uma resposta ao ctico ' , escreve Rorty , Davidson ` aspira

 colocar-nos fora de nosso jogo de linguagem e v-lo a uma distncia ' ,

 no , contudo , pelo movimento em direo a algum ponto de vista fora de

 todos os jogos de linguagem ( digamos , imaginando algum conhecedor

 perfeito e assemelhado a Deus ) , mas ` a partir do ponto de vista

 mundano do campo lingstico , procurando dar sentido ao nosso

 comportamento lingstico ' ( 1985:339 ) " ( p .28 )

 A soluo de Davidson supe como condio para

 a interpretao que intrprete e falante considerem como verdadeiras

 um conjunto de crenas em comum .
 Somente a partir deste pano de fundo

 comum  possvel a diferena , ou , divergncias .
 Cavell chama a ateno

 que para a prtica psicanaltica , tal concepo  til uma vez que

 esclarece o papel de um dos pilares da teraputica psicanaltica mais

 criticado : o mtodo da " associao livre " .
 Comenta a respeito : " O que

 um analista supe quando ele usa a associao livre como guia para a

 interpretao ?
 " ( p .32 ) Responde que alm da " regra " de no censurar

 qualquer de seus pensamentos , permitindo o surgimento daqueles

 inconscientes e reprimidos , supe tambm que estaramos ento em

 condies de compreender o significado do discurso do paciente ,

 descobrindo a conexo entre suas sentenas e pensamentos com outros ,

 iluminando assim uma rede mais ampla na qual eles estariam inseridos .

 A autora se refere  necessidade que temos de utilizar o princpio da

 boa-vontade ( " principle of charity " ) [ 4 ] para dar sentido ao discurso .

 Tal posio tem conseqncias vrias , desde uma fundamentao lgica

 para o exame daqueles discursos que so , prima facie ,

 incompreensveis , como  o caso dos delrios ou outras manifestaes

 menos dramticas de irracionalidade , passando pela discusso de noes

 como a de incomensurabilidade ( esposadas em filosofia da cincia , em

 particular , por Kuhn e Feyerabend ) , at a prpria discusso de nossos

 padres de racionalidade que devem sempre acompanhar a identificao

 de irracionalidades .
 Voltaremos a este ponto quando discutirmos a

 proposta de Cavell para a questo da irracionalidade sob o ponto de

 vista psicanaltico .

 Cavell sublinha duas importantes conseqncias da

 aceitao da proposta de Davidson , para o exame da prtica

 psicanaltica .
 A primeira seria uma concepo de empatia que ,

 diferindo da tradicional ( psicolgica , de natureza intuitiva ) , seria

 baseada na descoberta e ampliao da base comum com que partilhamos

 crenas e desejos , o que torna razovel o comportamento do outro .
 Em

 segundo lugar , registra uma conexo de duas tradicionais noes de

 verdade : a coerentista e a correspondentista , opes que tm

 implicaes nas estruturao de correntes psicanalticas ( Hanly ,

 1995 ) [ 5 ] .
 Considera que o dilema entre as duas noes  um falso

 dilema , fruto de uma concepo internalista de significado , a qual

 dissociaria significado de conhecimento .
 Ao discutir esta interao -

 conhecimento e significado - introduz a questo da intersubjetividade :

 Se dizemos , ` eu e a coisa em si mesma ' , ento a coisa est  merc de

 meu capricho .
 Nada me d a idia dela como um objeto que pode ser

 visto de diferentes perspectivas e que eu possa estar certo ou errado .

 Nada exceto algum  necessrio para dar contedo a esta idia ( cita

 Davidson ) :

 ` Ter o conceito de uma mesa ou um sino  reconhecer a existncia de um

 tringulo , um vrtice do qual  a prpria pessoa , outro uma criatura

 similar a ela , e o terceiro um objeto ( mesa ou sino ) localizado em um

 espao assim constitudo em comum .
 A nica forma de conhecer que o

 segundo vrtice - a segunda criatura ou pessoa - est reagindo ao

 mesmo objeto como ela mesma ,  saber que a outra pessoa tem o mesmo

 objeto em mente .
 Mas ento a segunda pessoa deve tambm saber que a

 primeira pessoa constitui um vrtice do mesmo tringulo , no qual um

 outro vrtice a segunda pessoa ocupa. ' ( Davidson , " Second Person " ,

 indito ). " ( 1996:38 )

 A importncia dessas observaes de Cavell se evidenciar

 ao discutir o papel da interpretao na teoria psicanaltica , suas

 condies de validade , ou seja , a relao verdade e interpretao .
 

 com este instrumental , que procuramos sumariar , que a autora vai

 examinar alguns dos temas fundamentais da psicanlise , como : o

 inconsciente , a pulso [ 6 ] , a fantasia e os estados mentais da criana .

 Julgamos que o escrutnio dessas questes bsicas , com esta nova

 aproximao , esclarece certos impasses filosficos que as anteriores

 no davam conta , como  o caso da crtica de Adolf Grnbaum aos

 fundamentos da psicanlise .

 2 - IMPLICAES E DESDOBRAMENTOS

 Cavell se prope a discutir trs questes

 filosficas que considera implcitas na sua abordagem da teoria

 psicanaltica , quais sejam :

 - Em que sentido os pensamentos so " internos " ?

 - As condies de atribuio de contedo mental .

 - Como pensar a base de onde o mental surge , ou , a relao

 entre mente e corpo .

 A autora parte da noo que Freud esposou de

 " realidade psquica " , quando se viu decepcionado em sua tentativa de

 atribuir os sintomas neurticos a reais experincias traumticas

 anteriores .
 Em suma , ao abrir mo de sua teoria da seduo , passou a

 tomar o que antes seriam memrias por fantasias , estrias refletindo

 mais desejos " internos " do que eventos provenientes do mundo exterior .

 Tudo isto originou uma tradio , segundo a qual a interpretao

 psicanaltica estaria voltada para o desvelamento da " realidade

 psquica " , a subjetividade como uma forma de um mundo interno ,

 privado , antecedendo o conhecimento da realidade externa e ,

 conseqentemente , o privilgio de uma concepo internalista do

 significado .
 " A idia de uma forma de pensar pr-lingstica ,

 imagtica , desempenha um papel central nas primeiras descries de

 Freud da represso ( 1915b ) " ( p .47 )

 Boa parte da argumentao de Cavell ser uma

 crtica a tais concepes , assim como a apresentao de alternativas

 para os impasses a que aquele modelo conduzia a teoria psicanaltica .

 Tais impasses teriam seriam afastados , a seu ver , atravs de uma

 crescente sofisticao da teoria psicanaltica , na obra de Freud , mas

 sem alterar uma viso prioritariamente subjetivista ; por outro lado ,

 tal desenvolvimento abria caminho para uma possvel reduo do mental ,

 ou do inconsciente , ao biolgico , Isto atenderia a uma preocupao de

 Freud de dar um estatuto cientfico  psicanlise .
 Nesta linha , por

 exemplo , estaria a afirmao de Freud de que " tudo o que  consciente

 tem um estgio preliminar inconsciente " , ou , " um instinto nunca pode

 tornar-se um objeto da conscincia - somente a idia ( Vorstellung ) que

 o representa " , ou ainda : " O que ns chamamos de apresentao

 consciente de um objeto pode ser dividida em apresentao da palavra e

 apresentao da coisa. " Neste ltimo exemplo , a autora entende que

 Freud quer diferenciar uma apresentao consciente de uma apresentao

 inconsciente , sendo que a primeira consistiria tanto na apresentao

 da coisa como da palavra , enquanto a segunda somente a apresentao da

 coisa .
 Ressalta que apresentao nestas passagens  uma traduo de

 Vorstellung .
 Comenta Cavell :

 " Assim leio estas passagens como expressando uma viso internalista ,

 segundo a qual o papel da linguagem  o de dar expresso a ` idias '

 que so anteriores e logicamente independentes ( em relao 

 linguagem ) , idias que so inteiramente subjetivas e internas. " ( p .47 )

 Apesar de todos esses esforos de formular uma

 teoria que viesse a reivindicar um estatuto cientfico para a

 psicanlise , as crticas se sucederam uma vez que razes tm um papel

 explanatrio chave na teoria psicanaltica , enquanto a atividade

 cientfica requer causas e razes no so causas .
 Cavell vai propor

 uma outra linha de superao das crticas  cientificidade da

 psicanlise , propondo que : " ...
 ainda que explanaes por razes so

 explanaes causais , contudo nenhuma psicologia que trata estados

 mentais como mentais pode ser uma cincia no sentido que Freud

 reivindicava para a psicanlise. " ( p .57 )

 A linha argumentativa de Cavell seguir a

 partir de uma teoria da ao .
 Utiliza o termo ao " em seu mais

 convencional uso filosfico , para especificar feitos que so

 intencionais " .
 ( nota , p .242 ) Lembra que qualquer teoria sobre a mente

 deve reconhecer o papel que tanto crenas como desejos desempenham nas

 descries , quer do que observamos nas aes de outras pessoas quer em

 nossos relatos na primeira pessoa .
 Levanta o argumento de Wittgenstein

 de que crenas e desejos no se prestam a formulaes em termos de

 leis .
 Cita Wittgenstein :

 " ' O determinismo se aplica  mente to verdadeiramente como a coisas

 fsicas ' ( imagina algum dizendo ) .
 Isto  obscuro porque quando

 pensamos em leis causais para coisas fsicas , pensamos em

 experimentos .
 No temos algo como isto em relao a sentimentos e

 motivao .
 E contudo os psiclogos desejam dizer : ` Deve haver alguma

 lei ' - ainda que nenhuma lei tenha sido encontrada. ( Freud : ` Desejam

 dizer , senhores , que mudanas em fenmenos mentais so guiadas pelo

 acaso ?
 ' ) Ao passo que para mim o fato de que realmente no existem

 tais leis parece importante. " ( 1967 , p .42 ) ( p .59 )

 Desenvolvendo o ponto de vista de

 Wittgenstein , a autora sublinha que Wittgenstein julgava ser prprio

 de estados mentais como crenas e desejos que o agente seja capaz de

 admiti-los .
 Atribui ao fato de usarmos uma nica palavra - " por que " -

 para investigar tanto causas como motivos a origem da confuso de que

 um motivo seria uma causa da qual estamos imediatamente cientes , uma

 causa vista e experimentada como se fosse " de dentro " .
 Freud , segundo

 aquele autor , teria sido uma das vtimas desta confuso .

 A resposta de Cavell a este questionamento

 ocorrer em dois momentos , uma vez que v nesta crtica dois desafios

 para a psicanlise : um que diz respeito  noo de razes

 inconscientes e outro , no qual vai deter-se , que  a idia de que

 causas instanciam leis ao passo que o mesmo no ocorre com razes .

 Primeiramente , diz que " afirmar que razes so

 a espcie de coisa que podemos reconhecer , em nada implica sobre

 quando , ou , em que condies. " Lembra que Freud admitia duas

 possibilidades de reconhecimento : uma meramente intelectual e outra

 baseada no alcance de uma crena inconsciente , um reconhecimento com

 tonalidade afetiva bem diversa da do anterior .
 Lembra Cioffi quando

 diz que o que Wittgenstein considerou a confuso de Freud , pode ter

 sido mais " um ` faro gramatical ' do que uma ` atrapalhada gramatical ' "

 ( p .60 ) Pois , razes podem ser ditas constituir causas precisamente

 quando o indivduo ignora as razes para as suas aes , embora as

 reconhea em determinado momento .

 O segundo estgio de argumentao de Cavell

 mantm a distino wittgensteiniana entre causas e razes - no que diz

 respeito a leis - mas por outros motivos .
 Ou seja , considera que " as

 aes so eventos que tm causas como qualquer outro evento , mas ao

 descrevermos um evento como uma ao , na qual motivos e razes

 desempenham um papel explanatrio , localizamos o evento numa espcie

 particular de mapa. " ( p .61 ) Esta posio peculiar dos eventos mentais

 seria fundamental para a explanao psicanaltica , ao mesmo tempo que

 a afastaria das cincias " duras " .
 Cavell rebate quatro objees

 usualmente levantadas contra a concepo de razes como causas de

 aes .
 Isto  : ( 1 ) Crenas e desejos no so eventos , mas estados ou

 disposies , e somente eventos podem causar eventos .
 Lembra que

 disposies - como a fragilidade de um cristal - entram normalmente

 nos relatos causais ; ( 2 ) A causa de um evento deve ser logicamente

 independente de seu efeito .
 Recorda que desejar dobrar  direita e

 dobrar  direita so logicamente distintos .
 Descrever algo como uma

 ao implica em falarmos em intenes que visam certos efeitos ; ( 3 ) Se

 as aes tm causas ento somos vtimas sem recursos , sem necessidade

 de um agente .
 Replica : se tive que fazer o que fiz , depende da espcie

 de causas em jogo e no de que tenha , ou no , havido alguma ; e ,

 finalmente , ( 4 ) As razes no somente explicam uma ao , elas tambm

 algumas vezes a justificam ; e tal no ocorreria na fsica ou mesmo na

 biologia .
 A autora reconhece que esta  uma genuna diferena , mas que

 " ...
 no questiona que razes no sejam causas , somente ...
 que elas

 so uma particular espcie de causas , isto  , uma espcie que algumas

 vezes justifica. " ( p .62 ) Este ltimo ponto j indica a linha que a

 autora desenvolver mais adiante : o carter anmalo do mental , dentro

 da perspectiva do monismo anmalo , concepo desenvolvida por Donald

 Davidson , que Cavell sintetiza da seguinte forma :

 " O dualismo metafsico cartesiano est errado , pois a realidade  uma ;

 contudo Mente e Corpo articulam um nico e mesmo reino de processos e

 eventos materiais em diferentes e irredutveis linguagens que podem

 nunca se harmonizarem , resultando que nenhum sistema de leis causais

 pode capturar estados psicolgicos. " ( p .73 )

 Cavell atravs de vrios exemplos triviais , em

 que ordinariamente usamos o termo razo como causa de nossas aes ,

 embora em muitos casos , estas ltimas possam ser fruto de causas

 fortuitas , podendo equivocarmo-nos acerca de nossas razes , ou ,

 surpreendentemente agirmos contra nossas admitidas razes .
 Introduz ,

 no correr de seus exemplos , a questo da " super-determinao " das

 aes que pedem , para sua compreenso , uma multiplicidade de

 combinaes de crenas-desejos .
 Chama a ateno para o fato de que o

 conceito psicanaltico de " racionalizao " - atribuio pelo agente de

 " falsas razes " para a sua ao - se justifica quando as razes falham

 em cobrir os dois critrios para a " explicao por razes " que prope :

 " Uma explicao por razes explica uma ao de duas formas , ambas

 necessrias para a explicao ser vlida .
 Primeiro , ela ` racionaliza '

 uma ao ao mostrar como , dado um certo desejo ou objetivo do agente ,

 e certas crenas ( geralmente implcitas ) acerca de como tal objetivo

 pode ser alcanado , a ao em questo ` faz sentido ' ou foi racional 

 luz daquelas crenas e desejos , mesmo que ela tenha sido irracional 

 luz de outras .
 ...
 Segundo , as crenas e desejos que explicam a ao

 devem de fato estar entre aquelas que movem o agente para a ao ; em

 sua ausncia ele no teria agido .
  este segundo aspecto que nos faz

 dizer que as razes que explicam um ato devem tambm t-lo causado. "

 ( p .63 )

 A autora acrescenta  sua argumentao as

 caractersticas lgicas das descries de eventos mentais , que pedem

 sentenas contendo predicados mentais que no permitem substituio

 por termos co-referentes .
 Sua exposio  baseada nas contribuies de

 Chisholm ao discutir a noo de intencionalidade reintroduzida por

 Brentano [ 7 ] no debate filosfico , no contexto da discusso do estatuto

 das cincias humanas .

 As principais implicaes da aproximao de

 Cavell  teoria psicanaltica , referem-se  questo da aquisio da

 linguagem e todo um vasto trabalho existente acerca de observaes de

 bebs e teorias a respeito dos primrdios da vida mental ; e ao

 problema da irracionalidade .
 Estes dois tpicos recebem um tratamento

 extensivo , sendo-lhes dedicadas duas partes do livro , onde mais

 especificamente sero discutidos os fundamentos da clnica e teoria

 psicanalticas .
 Dados os propsitos do presente trabalho

 apresentaremos de uma forma extremamente sucinta a abordagem e

 propostas de elucidao destes dois temas - aquisio da linguagem e

 irracionalidade - feitas pela autora , uma vez que sua linha

 argumentativa exige um acompanhamento passo a passo dado o grande

 nmero de questes que procura responder .
 Neste caso a leitura do

 livro de Cavell  insubstituvel .

 2.1 - A AQUISIO DA LINGUAGEM

  uma questo freqente nas discusses psicanalticas as

 diversas conjecturas quanto  vida emocional dos bebs , principalmente

 quando remontamos a este estgio de desenvolvimento as fontes de

 compreenso da vida adulta , quer em seus aspectos normais ou

 patolgicos .
 As inmeras questes que se colocam podem ser referidas 

 indagao central quanto  origem da subjetividade , do self ,

 independente das diversas definies que se tenha sobre tais

 conceitos .
 Em outros termos : o que seria ser um beb ?
 Seria algo to

 incompreensvel como ser um morcego ?
 Haveria intencionalidade nos

 diversos comportamentos dos bebs ?
 Ou ainda : haveria algum significado

 a ser descoberto nas manifestaes do beb , ou , o significado seria

 construdo atravs da relao do beb com a me ou quem o atende ?

 Desde o ponto de vista que Cavell sustenta , ou seja , que a

 subjetividade  algo que uma criatura alcana , pelo menos na forma de

 estados mentais interpretveis , a autora procura dar conta das

 questes mencionadas partindo de outra indagao : como descrever o que

 ocorre antes ( de uma auto-conscincia ) ?
 Sua estratgia recorre a uma

 citao de Wittgenstein : " a luz surge gradualmente sobre o todo " .

 Assim , na medida em que liga pensamento e linguagem considera que o

 aprendizado da linguagem  um meio observvel para investigarmos o

 surgimento do pensar .

 " Tanto a reflexo filosfica como a observao de bebs nos dizem

 que muito antes que um beb possa realmente falar ele aprende uma

 grande quantidade de coisas que o prepara para a linguagem , e muito

 deste aprendizado  de uma natureza especificamente interpessoal .
 Esta

  uma das implicaes da idia de Wittgenstein que aprender uma

 linguagem  aprender uma forma de vida , o que eu leio como dizendo que

 muito acerca das maneiras de uma comunidade deve j ser partilhados

 antes que se possa interpretar os outros e ser por eles interpretados ;

 e so estas maneiras partilhadas que no podem elas mesmas ser

 colocadas em palavras , ainda que nada pudesse ser dito sem elas. "

 ( p .130 )

 Cavell ao desenvolver suas conjecturas sobre os

 primrdios da linguagem cita a famosa passagem de Winnicott quando

 este chama a ateno para um fato aparentemente trivial : a fisionomia

 da me como o espelho do beb .
 Um espelho peculiar que Cavell v como

 constitutivo da subjetividade do beb , nascida desta inter-relao .

 A autora procura nesta longa e detalhada discusso

 dialogar com outras concepes , como as sugeridas por Stern , Lacan , e

 Derrida .
 Com todos estes interlocutores questionar a suposio de

 " algo atrs do vu da linguagem " .
 Ao discutir as vicissitudes da

 constituio de um self , introduz o clssico trabalho de Ferenczi : " A

 Confuso de Lnguas entre o Adulto e a Criana ( A Linguagem da Ternura

 e a da Paixo ) " , para sustentar a usual concepo que radica , sob o

 ponto de vista psicanaltico , em perodos pr-verbais as origens de

 distrbios que mais tarde sero vistos como prprios da esquizofrenia .

 Contudo , reala o papel de uma linguagem entre o adulto e a criana

 que est na base da construo mais ou menos distorcida da realidade ,

 ou seja , est na base da construo de um peculiar sistema de crenas .

 Faz ento a transio do segundo tpico que seleciona como fundamental

 para a teoria psicanaltica : o tema da irracionalidade .

 2.2 - A IRRACIONALIDADE

 Cavell aproxima-se da discusso da irracionalidade sob o

 ponto de vista psicanaltico , fazendo uma radical crtica  noo de

 processo primrio , ou seja ,  suposio de uma atividade mental

 inconsciente , tolerante a contradies , regida por leis prprias de

 funcionamento - como os fenmenos de condensao [ 8 ] e deslocamento [ 9 ]

 - temporalmente primria e com livre trnsito de energia .

 " Como descrito no captulo VII da Interpretao dos Sonhos , a

 satisfao alucinatria do desejo  o melhor modelo de funcionamento

 do processo primrio , a maneira pela qual o organismo regride , assim

 Freud pensa , nos sonhos , na neurose , na fantasia inconsciente .
 Como um

 estado quasi-psicolgico , o desejo nasce quando o beb experimenta uma

 necessidade e atravs da lembrana de uma experincia de satisfao ,

 ` alucina ' o objeto pelo qual anseia .
 Freud pretende como este modelo

 exemplificar um arco reflexo , um condicionamento que no requer para

 sua explicao qualquer aquisio conceitual do processo secundrio de

 pensar .
 ...
 Minha tese era ( a autora lembra os captulos iniciais do

 livro ) a seguinte : uma criatura que pode representar para si , atravs

 de uma via ` alucinatria ' , o objeto pelo qual anseia ,  uma criatura

 capaz de fazer julgamentos acerca da realidade , quer exera ou no

 esta capacidade plenamente em uma dada situao de desejo. " ( p .166 )

 Cavell vai considerar , alm de equivocada , como

 dispensvel a noo de processo primrio para a compreenso

 psicanaltica de uma srie de fenmenos que a psicanlise investiga :

 sonhos , sintomas neurticos , comportamentos e pensamentos irracionais .

 A noo que vai sugerir como uma aproximao que considera mais

 fecunda da irracionalidade ser a de diviso do self .
 Assim , aponta

 para um ponto de comum interesse entre filsofos e psicanalistas : um

 ato ou crena que  " internamente " irracional , ou seja , " se ele 

 inconsistente ou indesejvel nos prprios termos do agente , por

 critrios ou  luz de fato que ele ou ela implicitamente reconhecem " .

 ( p .193 ) D como exemplo a crena do " homem dos ratos " de que suas

 sadas noturnas seriam vigiadas por seu pai ao mesmo tempo que ele

 mesmo sabia que seu pai estava morto .
 Contrasta esta situao de

 " irracionalidade interna " com outras como a suposio , por bizarra que

 seja , de que o mundo foi formado por vermes e queijo , mas que faz

 sentido no contexto de quem abriga este tipo de crena .

 O desenvolvimento das consideraes de Cavell sobre a

 questo da irracionalidade procuram ser coerentes com os fundamentos

 de sua avaliao filosfica da psicanlise .
 Em conseqncia , o que

 procura manter  a noo de um holismo mental , ou seja , que crenas e

 desejos esto interconectados fazendo parte de uma rede de

 racionalidade .
 Neste sentido diverge de Freud , pois , ao invs de

 atribuir os fundamentos da irracionalidade a impulsos pr-racionais

 ( sic ) , prope que a irracionalidade surge de fissuras em uma ampla

 base racional .

 3 - AS CONCLUSES DE CAVELL : GENEALOGIA DA MORAL , DA MENTE

 E DO SELF

 Cavell reserva para suas concluses o tema da " valorao e

 o self " .
 Considera questes inseparveis uma vez que o processo de

 valorar faria parte da prpria constituio de um self .
 Esta posio ,

 coerente com a concepo holstica do mental que como j vimos

 acompanha toda a exposio de Cavell ,  defendida a partir de uma

 aproximao que assinala entre a Genealogia da Moral ( Nietzche ) e o

 Mal-Estar na Civilizao ( Freud ) .
 Ambos os autores partilham da viso

 do " sentido moral como a tensa resoluo da dialtica entre impotncia

 e poder , amor e dio " .
 Pensa que a soluo freudiana da constituio

 de um super-ego impregnado da pulso de morte reprimida no d conta

 de uma filosofia moral ; embora esclarecedor de vrias experincias de

 culpa , mostra-se insuficiente para um projeto mais amplo .
 " A filosofia

 moral precisa compreender como o sentido moral se estende no somente

 queles que conhecemos e amamos , mas tambm queles que no conhecemos

 nem amamos e mesmo temos razes para temer e odiar. " ( p .219 ) Cavell

 assinala que este  o paradoxo que Mal-Estar na Civilizao coloca ,

 no esclarecido quer pela noo de " complexo de dipo " ( no explicaria

 a extenso a outros da inibio interna da agresso ao pai ) nem pelo

 apelo  ltima teoria dos instintos ( oposio entre Eros e Tnatos ) ,

 pois : " mesmo que a teoria fosse plausvel , no daria qualquer peso ao

 papel da culpa psicolgica que Freud oferece , um papel que ele

 obviamente deseja estabelecer em seus prprios fundamentos

 ( psicolgicos ) " .

 Cavell v duas linhas de pensamento em Freud :

 1 - Uma que tende a reduzir a mente ao corpo , valores a mecanismos ,

 todos os interesses ao auto-interesse .
 Nesta linha de pensamento a

 subjetividade seria anterior  objetividade , o self teoricamente

 isolvel do mundo externo e de outros selves .
  a linha que conduz

 Freud a tomar a moralidade como o nome de fantasia do auto-interesse .

 2 - Outra linha de pensamento freudiano tomaria a mente como uma

 categoria irredutvel explicativamente ; v a conexo entre mentes no

 como uma imposio vinda de fora mas como constitutiva do mental .
 O

 julgamento moral no  mais estranho ao ego ou ao self do que a

 crena .
 E tanto como a crena a moralidade pressupe um self dividido .

 Importante conseqncia desta linha de pensamento seria tomar a

 relao da criana com os outros como desempenhando um papel tal que

 lhe permite imaginar o mundo do ponto de vista do outro e cuidar deste

 como  pelo mesmo cuidado .
 Neste caso , o carter do amor - nas

 situaes de melhor desenvolvimento - repousaria numa identificao

 " com os valores e interesses de um outro " , permitindo o compartilhar

 de uma comunidade de interesses , metas , valores e princpios .

 Ao esposar esta segunda linha de pensamento de sua leitura

 de Freud , a autora vai sugerir que revisitemos uma genealogia da

 moral , agora em concomitncia com a do mental e a do self .
 Para

 realizar tal empreendimento expe sua leitura da triangulao edpica

 articulando-a com um concomitante processo de individuao , uma vez

 que o reconhecimento da situao edpica implica para a criana numa

 percepo distinta de seus trs componentes .
 Cavell lembra ainda dois

 momentos da obra de Freud - Os Dois Princpios do Funcionamento Mental

 ( Freud , 1911 ) e Luto e Melancolia ( Freud , 1917 [ 1915 ] ) - em que a questo

 da intersubjetividade desempenha a seu ver um papel decisivo para a

 compreenso do surgimento e estruturao do self .
 Dos Dois Princpios

 reala a ausncia da me como fator propulsor da introduo do

 Princpio de Realidade , dada a impossibilidade da satisfao solitria

 do beb sob a dominncia exclusiva do Princpio do Prazer .
 A partir

 deste ponto vai defender o carter essencialmente intersubjetivo do

 desenvolvimento do pensar assim como sua imbricao com as emoes do

 contexto que o envolve .
 De Luto e Melancolia , retira conjecturas

 anlogas as de Melanie Klein , considerando residir na relao do beb

 com o objeto perdido - reconhecido como um outro ausente - a origem da

 culpa e a gratido fruto do reconhecimento que o objeto uma vez odiado

 seria o mesmo que o gratificava .

 " Sob meu ponto de vista e da maioria dos psicanalistas , gratido e

 luto pressupem um grau de desenvolvimento cognitivo que um beb muito

 pequeno no possui .
 Mas podemos deixar de lado a questo de quando

 este desenvolvimento ocorre e focalizar a tese muito instigante de

 Melanie Klein que a gratido e o luto so emoes que registram

 cruciais momentos de desenvolvimento .
 A tese no  somente psicolgica

 mas filosfica , implicando que certas emoes morais desempenham um

 papel constitutivo no self humano. " ( p .227 )

 4 - CONSIDERAES FINAIS

 A apresentao da obra de Marcia Cavell , num

 trabalho como este , desperta-nos necessariamente um sentimento de

 frustrao e de injustia com a autora , embora tenhamos procurado

 ater-nos exclusivamente a seu texto e manter a fidedignidade possvel .

 Tais sentimentos se explicam pelo fato da autora apresentar uma

 argumentao que se desdobra no decorrer de toda a sua obra , o que

 torna qualquer tentativa de resumi-la muito precria .
 Como soluo

 alternativa , procuramos destacar e examinar as linhas bsicas de sua

 proposta de avaliao da teoria psicanaltica .
 Da mesma forma

 listaremos tambm os pontos que nos pareceram mais relevantes e

 propcios a desdobramentos , quer do vrtice filosfico do qual a

 autora parte , quer de sua compreenso da teoria psicanaltica :

 A CENTRALIDADE DA QUESTO DO SIGNIFICADO .
 O

 privilgio que Cavell d  noo de significado como o ponto de

 partida de sua avaliao , evita a complexidade muitas vezes excessiva

 que adquiriu a discusso da teoria psicanaltica , uma vez que

 concentra neste ponto a peculiar contribuio do pensamento freudiano ,

 evitando a polmica sobre novas entidades trazidas pela psicanlise .

 Referimo-nos a noes como inconsciente dinmico e pulses , noes que

 tomadas como ponto de partida , muitas vezes , obscureceram o debate

 filosfico sobre a teoria psicanaltica .
 Por outro lado , uma noo

 como significado , por mais controversa que seja , no pode ser

 facilmente descartada , por j ter sido incorporada ao temrio

 filosfico contemporneo , tornando-se um terreno comum para o dilogo

 entre psicanalistas e filsofos .

 A avaliao de Cavell pode ser vista como um perfeito contraponto , na

 literatura filosfica norte-americana , a de Adolf Grnbaum .
 Ambas so

 minuciosas , atentas aos textos e preocupaes epistemolgicas de

 Freud , apresentam um instrumental bem definido - Grnbaum a noo de

 refutabilidade como critrio de cientificidade ; Cavell os recursos da

 anlise atravs moderna filosofia da linguagem , preocupando-se mais

 com a noo de racionalidade - e alcanam resultados opostos .
 O

 pessimismo de Grnbaum quanto ao futuro do empreendimento

 psicanaltico se contrape ao franco entusiasmo de Cavell quanto s

 possibilidades da psicanlise contribuir para a investigao e

 teraputica de um amplo campo de manifestaes mentais que abarca

 desde atitudes ou condutas desviantes - consideradas irracionais - at

 quelas configuraes usualmente descritas como entidades clnicas

 ( neuroses e psicoses ) .
 Em nosso entendimento , a avaliao de Cavell

 supera os inmeros obstculos que a tradicional epistemologia

 anglo-sax se defronta quando lida com as cincias humanas e , em

 particular , com a psicanlise .
 Em ocasio anterior discutimos

 detalhadamente tais impasses. [ 10 ] No momento , gostaramos de chamar a

 ateno para dois pontos que prejudicaram o exame de Grnbaum da

 teoria psicanaltica .
 Em primeiro lugar , assinalaramos o emprego da

 noo de refutabilidade em sua forma dogmtica ou ingnua , utilizando

 a terminologia de Lakatos , ou seja : a idia de que a refutao de uma

 teoria componente seria condio suficiente para invalidar todo o

 conjunto do empreendimento cientfico .
 Acrescentaramos tambm a

 recusa em admitir explicaes ou teorias ad hoc - amplamente

 empregadas em qualquer projeto cientfico - considerando-as como

 artifcio para imunizar a teoria quanto qualquer prova refutadora .

 Ilustramos este ponto com a formulao de Freud de um " sentimento

 inconsciente de culpa " como elemento esclarecedor das " reaes

 teraputicas negativas " , ou seja : quando os procedimentos

 psicanalticos empregados corretamente no encontravam a resposta

 clnica esperada e , pelo contrrio , muitas vezes um agravamento do

 quadro .
 Tomamos este exemplo exatamente por representar a nosso ver um

 caso das vantagens e convenincias de teorias ad hoc que longe de

 comprometer a ncleo central da teoria psicanaltica podem permitir o

 seu desenvolvimento , como o estudo da nova hiptese - a da existncia

 de um de um " sentimento inconsciente de culpa " [ 11 ] - se mostrou no

 desenvolvimento do pensamento psicanaltico .
 Importante registrar que

 o ncleo central - ncleo duro - de uma teoria no  necessariamente

 explicitado e , a nosso ver , talvez nunca possa ser caracterizado .

 Embora no contexto deste trabalho no caiba a discusso mais

 aprofundada deste ponto que nos levaria longe demais , desejaramos

 apontar para um problema que a avaliao de Cavell apresenta e que diz

 respeito ao que estamos discutindo .
 Referimo-nos  sua recusa em

 aceitar a noo de Freud de processo primrio .
 Muitos analistas

 poderiam considerar que tal noo faa parte do ncleo duro da teoria

 psicanaltica .
 Em conseqncia , tal recusa implicaria na desaprovao

 de todo arcabouo terico da psicanlise .
 Contudo , pensamos que

 qualquer profissional da psicanlise reconhecer nas formulaes de

 Cavell que sua abordagem pode ser , legitimamente , considerada

 psicanaltica .
 Em que pese possveis discordncias no  exagero dizer

 que a substituio que faz de processo primrio pelo emprego da noo

 de diviso do self no distancia sua compreenso da prtica

 psicanaltica de outras mais usuais .
 Oferece um novo vrtice .
 Deixamos

 esta questo em aberto para o julgamento do leitor .
 O segundo ponto em

 que consideramos que Cavell supera impasses encontrados por Grnbaum

 consiste em sua adequada avaliao das importantes implicaes

 filosficas trazidas pela teoria de relaes de objeto .
 Grnbaum

 afirma textualmente no observar qualquer elemento indicativo de uma

 reviso epistemolgica da teoria psicanaltica com tais

 desenvolvimentos. [ 12 ] Em contrapartida , Cavell soube avaliar as

 grandes repercusses que estes desenvolvimentos trouxeram .
 Acerca

 deste ponto temos que nos deter .

 A ADOO DA " TEORIA DAS RELAES DE OBJETO "

 COMO PANO DE FUNDO DA DISCUSSO DA TEORIA PSICANALTICA .
 Esta posio

  o que permite  autora superar impasses que outras abordagens

 oferecem como , por exemplo , quando se pretende discutir a teoria

 freudiana a partir de noes como inconsciente ou pulso .
 Embora a

 teoria das relaes de objeto no prescinda daquelas noes , questes

 bsicas - tanto para a psicanlise como para o debate filosfico -

 como : a constituio de um self , identidade e identificao , ou , a

 reflexo sobre a racionalidade , tornam-se mais transparentes e

 acessveis para a discusso entre filsofos e psicanalistas .

 Esclarecemos :

 Diversas correntes psicanalticas -

 principalmente aquelas oriundas da chamada " escola inglesa " ( Fairbain ,

 Melanie Klein , Winnicott , Bion ) - apresentam como modelo para a

 compreenso das origens da vida mental , a relao me-beb e a

 aquisio da linguagem .
 Neste sentido , entendemos que haveria um

 consenso quanto ao necessrio papel das relaes na constituio de

 uma subjetividade .
 Como registramos na introduo , isto coincidiria

 com o pressuposto papel da linguagem como constitutivo do sujeito .

 Julgamos que este ponto escapou na avaliao de Grnbaum , uma vez que

 a tradio filosfica a que se filia relega o papel da linguagem a um

 plano secundrio , para compreender o que na feliz comparao de Emlia

 Steuerman teria sido a " virada lingstica " da psicanlise

 ( Steuerman , 2003:83 ) .
 A expresso  feliz , pois , realmente , a partir

 da teoria das relaes de objeto a questo da linguagem e da

 intersubjetividade encontra um papel central na teoria psicanaltica .

 Importante registrar que escapou tambm aos psicanalistas a ntima

 correlao : teoria de relaes de objeto / linguagem / intersubjetividade .

  nesta linha de pensamento que se abre o entendimento da proposta

 teraputica da clnica psicanaltica como a possibilidade de

 re-significao de um mundo , ou mesmo a criao de um mundo

 significativo , que no se desenvolveu , ou , sofreu as vicissitudes que

 propiciaram uma " forma de vida " peculiar , insatisfatria , que no

 permitiria o convvio criativo , tal como ocorre com o que

 tradicionalmente se descreve sob este ou aquele diagnstico .
 As

 perspectivas assim oferecidas para um aprofundamento do estudo das

 psicoses , aquisio da linguagem , psiquismo infantil so muito

 promissoras .

 IRRACIONALIDADE E RACIONALIDADE COMO UM PAR

 CONJUGADO .
 Outro ponto ilustrativo da fertilidade da abordagem de

 Cavell consiste na possibilidade de uma aproximao da irracionalidade

 sempre em contraposio com os padres de racionalidade aceitos .

 Assim , uma das mais importantes contribuies de Freud - a superao

 do fosso que tradicionalmente dividia o normal do patolgico - fica

 preservada e com amplas possibilidades de desenvolvimento .
 Compreender

 um sintoma , um delrio ou uma psicose , passa a ser o campo de

 investigao de uma " forma de vida " , ou seja , de uma linguagem que foi

 destruda , no foi construda ou revela restos - lembremo-nos da

 metfora do arquelogo - de relaes perdidas .
 Estamos utilizando a

 expresso " forma de vida " segundo a noo esboada por Wittgenstein

 que , embora seja compreendida das mais diversas formas por seus

 comentadores , est necessariamente imbricada na concepo de " jogos de

 linguagem " .
 "  fcil imaginar uma linguagem que consista apenas de

 comandos e informaes durante uma batalha. - Ou uma linguagem que

 consista apenas de perguntas e expresses de afirmao e negao .
 E

 muitas outras. - E imaginar uma linguagem significa imaginar uma forma

 de vida. " ( Wittgenstein , 1968 parag .19 ) No caberia aqui discutir o

 amplo leque de interpretaes que tais afirmaes de Wittgenstein

 propiciaram .
 Entretanto , podemos supor que entre elas comporta a

 utilizao desta relao : linguagem / forma de vida como instrumental

 para o exame de situaes que cotidianamente ocorrem a qualquer

 profissional de psicanlise ou psiquiatria , que  o desafio de

 compreender uma forma de vida ou linguagem que prima facie soem como

 extravagantes , bizarras ou incompreensveis .
 So problemas que a vida

 nos coloca .
 E , lembremos que a atitude que tomarmos nestas

 situaes , considerando-as como indicativas de um estado confusional ,

 de um delrio , de uma idia obsessiva , ou , de uma mera opinio

 divergente da nossa ( por razes culturais , ideolgicas ou outras ) ser

 decisiva para a continuao do dilogo , sua interrupo ou outras

 atitudes de maiores ou menores conseqncias .
 Lembremo-nos ainda que

 historicamente o grande impacto da teoria freudiana foi o de oferecer

 uma racionalidade ( por exemplo : as primeiras descries de casos de

 histeria ) onde o que se recusava era dotar de qualquer significado

 aquele comportamento , linguagem ou forma de vida .
 " Quando se encontram

 dois princpios que no podem conciliar-se um com outro , os que

 defendem um declaram os outros loucos e herticos. " ( Wittgenstein , 1990

 parag .611 )

 Assim , vemos como extremamente valiosa a

 contribuio de Cavell , ficando nossas restries limitadas mais ao

 que no explorou , especialmente , no campo da literatura psicanaltica

 das psicoses e das contribuies de W.R.Bion , autor que menciona em

 sua bibliografia mas cujas contribuies no utiliza , o que poderia

 enriquecer sua proposta .
 Em conseqncia , vrios desdobramentos da

 abordagem apresentada poderiam ser imaginados .
 Citaremos algumas das

 possibilidades que nos ocorrem , quer atravs da prpria obra de Freud ,

 quer pelas contribuies de Melanie Klein , alm das de Bion .

 Sumariamente , a ttulo de exemplo mencionaramos :

 EM FREUD .
 O necessrio papel do grupo na

 formao da subjetividade .
 Temos em mente a meno que faz , em

 Psicologia das Massas e Anlise do Ego , do fato da psicologia grupal

 anteceder a individual .
 Freud conferia ao complexo de dipo uma

 dimenso antropolgica , configurador ao mesmo tempo do psiquismo

 humano .
 Desta forma estamos autorizados a pensar a intersubjetividade

 como um pressuposto do prprio indivduo .
 Parafraseando Winnicott ,

 diramos que da mesma forma que no existe um beb sem sua me , no

 existiria um indivduo independente de um grupo e , conseqentemente de

 sua comunidade lingstica .
 O estudo da psicologia grupal a partir das

 noes esboadas por Freud , mais tarde desenvolvidas por uma vasta

 literatura sobre grupos , utilizando-se o instrumental que Cavell

 expe , abre sem dvida um campo to promissor como o da investigao

 das relaes me-beb , do qual a autora se utiliza amplamente .

 EM MELANIE KLEIN .
 Cavell trabalha , em suas

 concluses , com algumas das idias de Melanie Klein .
 Examina de forma

 criativa e competente , uma noo kleiniana bsica : o sentimento de

 gratido .
 Cavell observa que tal sentimento  essencialmente

 interpessoal : algum sente gratido em relao a algo que foi dado ou

 propiciado por um outro .
 Lembra a autora a estreita conexo que

 Melanie Klein faz entre gratido e luto .
  tradicionalmente

 reconhecida a origem da teoria das relaes de objeto a partir do

 texto de Freud Luto e Melancolia , onde os estados melanclicos so

 compreendidos tomando como modelo a experincia normal do luto .
 Seriam

 experincias bsicas que exigem um reconhecimento da realidade ,

 portanto um componente cognitivo , e que s podem ser imaginadas numa

 relao interpessoal .
 Contudo , h muito a ser pesquisado , com o apoio

 das contribuies kleinianas , no que diz respeito , sobretudo , s

 sempre obscuras fontes de nossos sentimentos ticos .
 O recm traduzido

 texto de Maria Emlia Steuermann - Os Limites da Razo - Habermas ,

 Lyotard , Melanie Klein e a Racionalidade -  um excelente exemplo do

 amplo campo de investigao que as contribuies kleinianas , quando

 associadas  moderna filosofia da linguagem , podem trazer ao atual

 debate sobre a questo tica e a discusso da condio moderna e

 ps-moderna .

 EM BION .
 A obra de Bion , principalmente pelo

 fato de oferecer uma nova viso sobre o pensar , a racionalidade e a

 irracionalidade , se apresenta como outro campo de utilizao da

 metodologia proposta por Cavell para um maior desenvolvimento das

 contribuies psicanalticas .
 Infelizmente , a autora no o explorou ,

 embora o cite em sua bibliografia e numa curta passagem .
 Pensamos ,

 sobretudo , na discusso que Cavell levanta sobre a inevitvel

 associao afeto / pensamento .
 Esta ntima relao poderia ser melhor se

 examinada  luz da teoria dos vnculos de Bion , a qual leva sempre em

 considerao os fatores Amor , dio e Conhecimento - e suas respectivas

 distores pela presena da pulso de morte : - Amor , - dio e

 - Conhecimento - como constituintes do contexto em que o pensamento se

 d .
 Talvez , este seja um tpico ainda virgem de investigao conjunta

 por parte de filsofos e psicanalistas .
 Recordemos que segundo a

 concepo pragmtica de significado este seria sempre contextual ,

 podendo evoluir , mudar , transformar-se segundo as circunstncias em

 que ocorre a comunicao , a prtica social que permite a sua apreenso

 e o xito da linguagem .
 Contudo , no campo especfico dos distrbios

 mentais embora no soe estranha a afirmao precedente , para qualquer

 profissional desta rea , falta um instrumental que nos permita

 esclarecer em que consistiria aquele determinado " contexto " .
  neste

 sentido que pensamos que a proposta de Bion - ou qualquer outra que se

 apresente com o mesmo intuito - possa ser de grande valia para o

 discernimento de situaes que fogem aos rtulos diagnsticos usais ,

 revelando suas insuficincias , e lana luz a fenmenos que antes ou

 seriam afastados como irracionais , incompreensveis , pelos filsofos

 ( Descartes  um dos exemplos [ 13 ] ) , ou , aprisionados em esquemas

 psiquitricos tradicionais que no do conta de sua sutileza e

 complexidade. [ 14 ]

 A ttulo de concluso diramos que o grande mrito do

 livro de Cavell  o de oferecer um novo instrumental que nos permite

 pensar a psicanlise e desenvolver suas inesgotveis possibilidades de

 contribuir para a compreenso de questes muito atuais .
 No

 consideramos fortuita a concomitncia do que ficou conhecido como a

 " crise da psicanlise " com a " crise da modernidade " , o fracasso do

 projeto iluminista ao lado da persistncia ( e diramos mesmo ,

 exacerbao ) dos problemas que o mesmo projeto evidenciou .
 Concordamos

 com Rouanet quando considera a psicanlise como " a conscincia infeliz

 do iluminismo " ( Rouanet , 1993:101 ) .
 Entretanto , o carter instrumental

 da teoria psicanaltica , agora aliado s contribuies da moderna

 filosofia da linguagem , oferece novas esperanas no de uma soluo -

 intuito historicamente falido por qualquer proposta - mas de uma

 elucidao , um " novo esclarecimento " capaz de permitir-nos continuar

 pensando , com mais humildade e mais perspiccia , as novas e velhas

 questes do homem - a sexualidade , a destrutividade , a razo ou a

 loucura - que parecem resistir a qualquer soluo definitiva .

 Donald Levy conta-nos que certa vez Wittgenstein , em

 resposta a seu amigo Drury que se mostrava fortemente surpreso perante

 alguns sintomas de seus pacientes psiquitricos , disse : " Voc nunca

 deve deixar de ficar surpreso perante os sintomas que os pacientes

 apresentam .
 Se eu enlouquecesse a coisa que eu mais temeria seria sua

 atitude de senso-comum .
 Que voc tomasse tudo como uma matria

 evidente de que eu estaria sofrendo de delrios. " ( Levy , D. 1996:24 ) .

 Penso que Marcia Cavell d uma importante contribuio a todos os que

 mantm a capacidade de espantar-se e continuar indagando e dialogando

 com a loucura em busca de nosso solo comum .

 5 - REFERNCIA BIBLIOGRFICA

 Bion , W. R. Seven Servants .
 New York , Aronson , 1974 .

 Cavell , M. The Psychonalytical Mind , from Freud to Philosophy .

 Cambridge , Harvard

 University Press , 1996 .

 Descartes , R. Obra Escolhida .
 So Paulo , Difel , 1973 .

 Freud , S. ( 1911 ) .
 Formulations on the Two Principles of Mental

 Functioning .
 S.E. XII .

 _______. ( 1915 ) .
 Papers on Metapsychology .
 S.E. XIV .

 _______. ( 1917 [ 1915 ] ) .
 Mourning and Melancholia .
 S.E. XIV .

 _______. ( 1921c ) .
 Group Psychology and the Analysis of the Ego .
 S.E .

 XVIII .

 _______. ( 1940 ^ a [ 1938 ] ) .
 An Outline of Psychoanalysis .
 S.E. XXIII .

 Grnbaum , A .
 " Is Object-Relations Tehory Better Founded than Orthodox

 Psychoanalysis ?
 A Reply to Jane flax. " Journal of Philosophy

 80

 ( 1983 ) : 46-51 .

 Hanly , C .
 O Problema da Verdade na Psicanlise Aplicada .
 Rio , Imago ,

 Ed. , 1995 .

 Lakatos , I .
 " O Falseamento e a Metodologia dos Programas de Pesquisa

 Cientfica " .
 In A

 Crtica e o Desenvolvimento do Conhecimento , Lakatos , I .
 &

 Musgrave ( org. ) .
 So

 Paulo , Cultrix e EDUSP , 1979 .

 Laplanche , J .
 & Pontalis , J. B. Vocabulrio da Psicanlise .
 Lisboa ,

 Moraes Editores , 1979 .

 Levy , D. Freud among the philosophers. New York , Yale University

 Press , 1996 .

 Marinho , N .
 O Amor como Vnculo - Reflexes sobre os Vnculos L ( Amor )

 e - L ( -

 Amor ) .
 In , Revista Brasileira de Psicanlise , vol. 31 , no. 4 ,

 1997 .

 ____.A Psicanlise entre o Passado e o Futuro - Notas sobre o

 " Pensar " em Hannah

 Arendt e W. R. Bion .
 IN , Revista Brasileira de Psicanlise ,

 vol. 34 , no. 3 , 2000 .

 ____. Discusso da Racionalidade da Teoria Psicanaltica a partir da

 Epistemologia de Karl Popper - Avaliaes - Impasses -

 Alternativas .
 Dissertao de

 Mestrado em Filosofia .
 Departamento de Filosofia PUC / RJ , Rio ,

 2001 .

 Popkin , R .
 Historia do Ceticismo , de Erasmo a Spinoza .
 Rio de Janeiro ,

 Francisco Alves ,

 2000 .

 Rouanet , S.P. Mal-Estar na Modernidade .
 So Paulo , Cia. das Letras ,

 1993 .

 Steuerman , M. E .
 Os Limites da Razo - Habermas , Lyotard , Melanie

 Klein e a

 Racionalidade .
 Rio , Imago Ed. , 2003 .

 Wittgenstein , L. Philosophical Investigations .
 New York , Macmillan ,

 1968 .

 ___________ .
 Da Certeza .
 Lisboa , Edies 70 , 1990 .

 _______________________

 [ 1 ] A Teoria das Relaes de Objeto foi inicialmente formulada na

 Inglaterra , por Fairbain e Melanie Klein , com caractersticas

 diferentes , assim como apresenta certas variaes quando adotada por

 outras correntes psicanalticas .
 Contudo , em linhas gerais , tal teoria

 privilegia para a compreenso psicanaltica dos conflitos mentais , as

 relaes inconscientes que o paciente mantm com suas figuras internas

 significativas ( seus objetos ) - me , pai , irmos , ou com objetos

 parciais : seio , pnis , me-boa ( gratificadora ) , me-m ( frustradora ) ,

 etc. - que constituiriam o mundo interno do paciente .
 As correntes que

 utilizam , fundamentalmente , as relaes de objeto para a compreenso

 clnica e mesmo para o entendimento da estruturao mental , do relevo

 s ltimas formulaes de Freud , em que divide o psiquismo em : ego , id

 e super-ego .
 Acrescentaramos que os objetos internos teriam tambm um

 papel constitutivo na organizao do sujeito .
 Este se estruturaria ,

 segundo tal concepo , a partir de seus objetos .

 [ 2 ] Para uma discusso mais ampla do ceticismo em Descartes , sugerimos

 o livro de Richard Popkin : Histria do Ceticismo , de Erasmo a Spinoza

 ( Rio .
 Francisco Alves , 2000 ) e , em especial , o captulo " Descartes :

 Sceptique Malgr Lui " .

 [ 3 ] A autora se refere  discusso introduzida por Quine quanto 

 impossibilidade de construirmos um nico e preciso manual de traduo

 - entre a nossa lngua e outra ento inteiramente desconhecida -

 obtido a partir de dados observacionais , empricos .
 Haveria sempre uma

 indeterminao da traduo .
 A construo de qualquer manual teria

 tambm um carter holstico , isto  , teria necessariamente de levar em

 considerao o conjunto de crenas daquela comunidade lingstica para

 qualquer tentativa de dar um significado aos pronunciamentos

 observados .
 No curso desta discusso , Davidson levanta questo anloga

 porm referindo-se a falantes de uma mesma lngua : como poderamos

 determinar uma interpretao ?
 Conclui no mesmo sentido que Quine pela

 indeterminao da interpretao .

 [ 4 ] Tal princpio , utilizado por Quine e Davidson ,  expresso pela

 autora nos seguintes termos : " Para que algum nos faa sentido devemos

 exercer um princpio de caridade que atribua quela pessoa normas

 racionais , normas como : acreditar somente nas proposies que julgue

 verdadeiras ; no acreditar em proposies contraditrias ; tirar

 inferncias indutivas na base de toda a evidncia relevante ; no agir

 de modo contrrio ao seu melhor julgamento .
 Estas no seriam normas

 que as pessoas conscientemente sustentem , mas esto implcitas em seu

 pensamento e comportamento ...
 O princpio especifica algumas

 condies necessrias para que o comportamento de uma outra pessoa

 faa sentido , condies que so constitutivas dos conceitos de crena ,

 desejo e ao. " ( p .32 )

 [ 5 ] O psicanalista e filsofo Charles Hanly procurou estabelecer uma

 relao entre as diversas correntes psicanalticas e suas respectivas

 posies no que diz respeito  noo de verdade .
 Aquelas que supem a

 verdade como " correspondncia entre um objeto e sua descrio " ( as

 correspondentistas e , conseqentemente realistas , admitindo um mundo

 externo independente de nossas conscincias ) e as que supem que a

 verdade seja uma noo prpria a um determinado sistema de crenas ,

 portanto , " a teoria da coerncia  compatvel com a concepo de que

 h mais de uma descrio verdadeira do mundo " ( ver : Hanly ,

 1995:17-40 ) .

 [ 6 ] Termo atualmente adotado , em portugus , para a traduo do alemo

 " Trieb " usado por Freud e que recebeu a traduo inglesa de " instinct "

 que obscurece sua dimenso " mental " , o que ser objeto de discusso na

 investigao de Cavell .

 [ 7 ]  conhecida a influencia em Freud da concepo de Brentano , cujas

 conferncias assistiu , em Viena .

 [ 8 ] " Um dos modos essenciais do funcionamento dos processos

 inconscientes : uma representao nica representa por si s vrias

 cadeias associativas , em cuja interseco se encontra .
 Do ponto de

 vista econmico ,  ento investida das energias que , ligadas a estas

 diferentes cadeias , se adicionam nela. " ( Laplanche e Pontalis ,

 1970:129 )

 [ 9 ] " Facto de a acentuao , o interesse , a intensidade de uma

 representao ser susceptvel de se soltar dela para passar a outras

 representaes originariamente pouco intensas , ligadas  primeira por

 uma cadeia associativa. " ( Ibidem , 1970:162 )

 [ 10 ] Ver Marinho , N. ( 2001 )

 [ 11 ] O ponto de vista aqui defendido vem ao encontro de observaes

 assinaladas por Lakatos , para as teorias de um modo geral , e

 exemplificadas por Klimovsky , no caso especfico da psicanlise , ao

 mesmo tempo , que  rejeitado por Grnbaum que , esposando um ponto de

 vista antagnico , vai questionar a cientificidade da psicanlise pelo

 uso de teorias desta natureza .
 A abordagem de Cavell nos poupa deste

 tipo de discusso que embora possa ser til e ilustrativo dos

 problemas epistemolgicos que a psicanlise levanta , tornou-se muitas

 vezes um estril obstculo para o dilogo da psicanlise com a

 filosofia da cincia .
 Nesta linha vemos a obra de Cavell como um

 salutar contraponto  avaliao de Grnbaum da teoria psicanaltica .

 [ 12 ] Ver Grnbaum ( 1983 )

 [ 13 ] Ver o " argumento da loucura " na Primeira Meditao ( Descartes ,

 1973 )

 [ 14 ] Em dois textos procuramos expor , a ttulo de uma espcie de

 exerccio terico-clnico , a utilizao da teoria dos vnculos para a

 compreenso de casos limtrofes .
 Estudamos em particular os vnculos L

 ( Amor ) e - L ( - Amor ) e H ( dio ) e - H ( - dio ) , ver Marinho , 1997 e

 Marinho , 2000 .

