 Unimontes Cientfica V .6 n .1 - Janeiro / Junho de 2004

 ISSN 1519-2571 verso impressa

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 Sentir , apreender , entender , compreender

 To feel , to grasp , to understand , to comprehend

 Jlio Pinto *

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 Resumo

 Pretende-se fazer , neste texto , um exame dos conceitos de entendimento e

 compreenso , especficos para uma filosofia da linguagem a partir do

 pensamento de C. S. Peirce , fazendo uma breve incurso nos sentidos do tempo , a

 fim de ajudar a embasar a discusso contempornea sobre os fundamentos da

 inteligncia e schemata perceptivos .

 Palavras-chave : Entendimento , compreenso , filosofia da linguagem , tempo , C. S .

 Peirce

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 Abstract

 The present text intends to propose an examination of concepts specific to a

 philosophy of language based upon the thought of C. S. Peirce , namely

 understanding and comprehension , by making a brief incursion into the meanings

 of time so as to help lay the groundwork for the contemporary discussion on the

 foundations of intelligence and perceptive schemata .

 Key words : Understanding , comprehension , language philosophy , time , C.S. Peirce

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 Parece que compreendemos o compreender de muitas maneiras , o que ,

 naturalmente , s conduz  incompreenso .
 Parece que , para que

 compreendamos , ou comecemos a compreender a compreenso , faz-se

 necessrio desvestir um certo vis ou , pelo menos , assumir outro vis

 por alguns instantes , para apresentar uma possvel viso semitica do

 que viria a ser a compreenso .
 Digo possvel , porque , como isso vai

 depender de uma exegese do texto de Peirce , h pelo menos duas

 possibilidades : uma , que pensaria a compreenso como sinnima de

 entendimento , quase que numa adaptao direta da opinio lockiana^1 , e

 outra , a que adoto , que pensaria a compreenso como um fenmeno mais

 abrangente , que inclui o entendimento stricto sensu , mas que o

 extrapola .
 Espero , com essa discusso , propor algo til tanto para a

 comunicao e o pensamento sobre a linguagem .

 Se pensarmos que compreender  apreender com , apreender junto , fica

 claro que entender  apenas um entre os muitos aspectos do

 compreender .
 Apesar de essa afirmao parecer trivial  e o  , at

 certo ponto  , no o  tanto assim , pois entender  uma operao

 aparentemente de pura racionalidade .
 Compreender , contudo , envolve

 outras coisas que no apenas a conscincia canalizada para a nomeao

 e a generalizao sobre o fenmeno , que  precisamente aquilo em que

 consiste o entendimento .
 Ora , generalizar sobre o fenmeno  perder um

 pouco dele , na medida em que s se consegue generalizar atravs da

 perda de um absoluto fenomenal ou , em outras palavras , da

 relativizao em que incorremos ao tentar dizer de algo in futuro .
 A

 generalizao  uma operao preditiva , porque s posso dizer que algo

 tem a caracterstica geral assim e assado se eu tiver em mente um bom

 nmero de instncias desse algo , no s passadas , mas ainda por

 ocorrer .
 Nesse sentido , entender  produzir uma lei sobre algo .

 Mas , para que eu possa produzir uma lei sobre algo , um algo presente

 tem que ter se manifestado primeiro .
 E se , ao contrrio , algo se

 manifesta de modo a que eu o reconhea , esse meu reconhecimento s se

 d em vista de uma lei que  evocada quando o feeling^2 desse algo

 elicita outras memrias de feelings anlogos que me permitem prever

 que esse algo vai ser / fazer / consistir em tal e tal coisa .

 Se algum fala de compreender como entender , esse algum talvez esteja

 pensando que as idias so monolitos , coisas substantivas .
 Na verdade ,

  mesmo assim que estamos acostumados a pensar .
 Ora , segundo Peirce ,

 Estamos acostumados a falar de idias como reproduzveis , como tendo

 sido passadas de mente para mente , ou como semelhantes ou

 dessemelhantes ...
 Entretanto , pegando a palavra idia no sentido de um

 evento em uma conscincia individual , fica claro que uma idia , uma

 vez passada , foi-se para sempre , e qualquer suposta recorrncia dela 

 uma outra idia .
 Dizer , assim , que elas so semelhantes s pode

 significar que uma fora oculta das profundezas de nossa alma nos leva

 a conect-las em nosso pensamento depois que j se foram .
 Podemos

 notar aqui , de passagem , que dos dois princpios de associao

 geralmente reconhecidos , contigidade e semelhana , o primeiro  uma

 ligao que se deve a um poder externo , o segundo uma ligao que se

 deve a um poder interno. ( CP 6.106 ) ^ 3

 Essa fala de Peirce conduz a muitas perguntas .
 A primeira delas seria :

 Como uma idia passada pode estar presente ?
 , na medida em que qualquer

 recorrncia dela seria uma outra idia .
 Bem , certamente essa idia

 passada no estaria presente de modo vicrio .
 S pode , portanto , ser

 presentificada por percepo direta , isto  , para estar presente , ela

 precisa ser , ipso facto , presente .
 A nica forma de resolver isso

 seria pensar que uma idia no pode ser inteiramente passada .
 Ela s

 pode estar em andamento , ser infinitesimalmente passada , menos passada

 que qualquer data passada designvel .
 Isso nos fora  concluso de

 que o presente estaria ligado ao passado por uma srie de passos

 infinitesimais reais .

 Naturalmente , quando digo que algo est ou  presente , no posso me

 referir a um presente absoluto , na medida em que o presente

 absolutamente presente se esvai de imediato .
 Por isso , a conscincia

 deve cobrir um intervalo de tempo .
 Se no o fizesse , no poderamos

 ter nenhum conhecimento do tempo e no s uma cognio veraz dele :

 faltar-nos-ia a prpria concepo de tempo .
 Por isso , conclui-se que

 somos imediatamente conscientes atravs de um intervalo , mesmo que

 infinitesimal , de tempo .
 Neste intervalo , a conscincia seria

 subjetivamente contnua , isto  , teria durao .
 E , como se trata de

 uma conscincia imediata , o seu objeto tambm teria que ter o atributo

 da durao e da continuidade .

 Peirce pensa o tempo como a forma universal de mudana ( cf .
 CP

 6.132 ) .
 Segundo ele , o tempo no pode existir a menos que haja algo

 que sofra mudana e , para que haja mudana contnua no tempo , deve

 haver uma continuidade de qualidades mutveis .
 O tempo logicamente

 pressupe uma faixa contnua de intensidade de sensao .
 Segue-se ,

 portanto , que quando um feeling em particular est presente ,

 manifesta-se tambm um contnuo infinitesimal de feelings que diferem

 infinitesimalmente daquele .
 Ainda segundo Peirce ,

 O feeling tem uma extenso espacial subjetiva .
 Como o espao 

 contnuo , segue-se que deve haver uma comunidade imediata de feelings

 entre partes da mente infinitesimalmente prximas .
 Sem isso , creio ser

 impossvel que mentes externas uma  outra possam se coordenar. ( CP

 6.134 ) .

 Em outras palavras , alm da extenso temporal subjetiva , Peirce

 atribui ao feeling uma extenso espacial subjetiva .
 Isso torna

 possvel o funcionamento das duas formas de associao , id est ,

 contiguidade e semelhana .
 Comea a ficar claro , at pela ltima

 frase da citao acima  sem isso , creio ser impossvel que mentes

 externas uma  outra possam se coordenar  que Peirce est falando de

 comunicao ; e mais , fala de comunidades sensacionais com suas

 extenses subjetivas espaciais e temporais que compem o fenmeno da

 comunicao Em outras palavras , no se comunicam apenas os

 entendimentos racionais , o que  uma concluso absolutamente trivial

 de premissas no to triviais assim .

 A noo peirceana de idia , portanto , engloba a sensao .
 Na verdade ,

 isso j est claro desde o fundamento dessa semitica , nas categorias

 da experincia .
 Uma outra forma de colocar essa viso unitria e

 tripartite dos fenmenos , idias inclusive , est no CP 6.135 :

 O que significa dizer que uma idia afeta outra ?
 A resoluo desse

 problema exige que examinemos os fenmenos mais em detalhe .
 Trs

 elementos compem uma idia .
 O primeiro  sua qualidade intrnseca

 como feeling .
 O segundo  a energia com que ela afeta outras idias ,

 uma energia que  infinita no aqui-agora do feeling imediato , e

 finita e relativa na recenticidade do passado .
 O terceiro elemento  a

 tendncia que tem uma idia de ocasionar outras idias a partir dela .

 V-se que esse feeling est presente como fator constituinte dessa

 noo de idia muito mais abrangente que um simples entendimento .

 Examinemos esse pargrafo de Peirce mais detidamente .
 Pelo menos dois

 corolrios poderiam ser extrados da .
 Vejamos .

 Primeiro , mesmo que , ao se espalhar uma idia , seu poder de afetar

 outras v se reduzindo  conseqncia do fato de que , em se tratando

 de feeling imediato , a segundeza da energia  infinita , mas , em se

 tratando da recenticidade do passado ela  finita e relativa  , a sua

 qualidade intrnseca continua relativamente imutvel , j que , na

 primeireza , no estamos lidando com extenses espaciais ou temporais .

 Talvez seja necessrio lembrar , aqui ,  guisa de explicao , que tempo

 e espao so noes que comeam a se esboar apenas como relao

 didica , isto  , so necessrios , no mnimo , dois elementos para que

 elas se constituam ( um antes e um depois , um aqui e um ali ). ^ 4 .

 Segundo , falar da recenticidade do passado tambm implica que um

 intervalo finito de tempo geralmente contm uma srie inumervel de

 feelings .
 Quando esses feelings se juntam em uma associao , o

 resultado  uma idia geral .
 Entretanto , a primeira caracterstica de

 uma idia geral assim resultante  a de que ela  um feeling vivo .
 Um

 contnuo desse feeling , infinitesimal em durao , lembramos , mas ,

 ainda assim , abrangendo inmeras partes , e tambm , embora

 infinitesimal , inteiramente ilimitado , fica imediatamente presente .

 Nisso esto a vividez , a vivacidade e a vida da idia .
 Na ausncia de

 limites , como diz Peirce , uma vaga possibilidade de algo mais do

 aquilo que est presente  diretamente sentida ( CP 6.138 ) .

 Sem querer explorar essa ltima citao naquilo que se refere a uma

 possvel fundamentao alternativa para o que Peirce chamou de lgica

 do vago , pode-se dizer que essa vaga possibilidade  , seguramente , um

 dos fatores responsveis pelo deslizamento dos sentidos e pela fluidez

 e vivacidade daquilo a que chamamos compreenso. ^ 5

 Dada a complexidade das inter-relaes entre as categorias , e a

 recursividade que caracteriza essas interrelaes , aquilo que  visto

 como um primeiro , -o de um terceiro , que o  de um primeiro , e assim

 por diante .
 Somente assim torna-se possvel entender que o feeling que

 ainda no emergiu na conscincia imediata j  afetvel e j 

 afetado .
 De fato , essa  a noo de hbito , pela qual uma idia 

 trazida  conscincia presente atravs da ligao j estabelecida

 entre ela e outra idia enquanto ainda esse in futuro .

 O ser in futuro  da ordem do previsvel e a palavra hbito indica uma

 noo de lei , a possibilidade de generalizao atravs da nomeao .
 A

 terceireza , aquilo que est implcito na palavra entendimento , no  ,

 de forma alguma , dissociada das outras categorias .
 Por isso , dizer

 que os fenmenos mentais so governados pela lei , ou pelo hbito , no

 implica uma descriptibilidade por uma frmula geral , embora possa at

 implic-la .
 Mas implica , principalmente , que os smbolos , as idias

 gerais , os argumentos , em suma , as leis , so idias vivas , um

 continuum de feelings que as compem e as pervadem , e aos quais elas

 so dceis .
 Entender , portanto , acaba sendo mais que uma operao

 puramente racional , na medida em que  lei dotada de energia e que se

 deriva de uma associao de feelings .
 Ora , se feelings se associam

 com uma certa energia e dessa associao resultam generalizaes mais

 relativas que eles , sentir , prestar ateno e entender so partes de

 um processo geral que s pode ser chamado de compreenso , algo fluido

 e sempre dotado de uma certa vagueza e , por isso , vivo .

 Concluo com uma outra citao :

 Quando uma idia  transmitida ...
 , ela o  por formas , digamos uma

 curiosa simetria , ou pela unio de uma nuance de cor com um odor

 refinado .
 So idias corporificadas .
 Somente assim podem transmitir

 outras idias. ( CP 6.158 ) .

 Ora , no apreendemos nenhuma idia corporificada atravs de um simples

 fiat racional .
 Compreendemos algo in totum , junto com os feelings , as

 reaes , e tambm as idias que esse algo nos traz , com todas as

 idiossincrasias das nossas subjetividades e com as possibilidades de

 operaes intersubjetivas de contiguidade e semelhana que tornam

 possvel a comunicao .

 Referncias bibliogrficas

 LOCKE , J. Essay Concerning Human Understanding ( 1690 ) .
 Verso

 eletrnica Univ. de Harvard , Cambridge , Massachusetts , 2004 ( CD-Rom ) .

 PEIRCE , C.S. Collected Papers ( org .
 Charles Hartshorne e Paul Weiss ) .

 Cambridge , Massachusetts : The Belknap Press of Harvard University

 Press , 1934-1963 , 8 vols .

 PINTO , J. The Reading of Time .
 Berlim : Mouton de Gruyter , 1989 .

 PINTO , J .
 1 , 2 , 3 da Semitica .
 Belo Horizonte : UFMG , 1995 .

 PINTO , J .
 O Rudo e outras inutilidades .
 Belo Horizonte : Autntica ,

 2002 .

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 * Ph.D. University of North Carolina at Chapel Hill , EUA ; Ps-Doutor

 em Comunicao Social Univ .
 Catlica Portuguesa , Lisboa ; professor de

 Semitica da Faculdade de Comunicao e Artes da PUC-Minas ; e-mail :

 juliopinto@pucminas.br

 ^ 1 Refiro-me ao Ensaio sobre o entendimento humano , de 1690 .

 ^ 2 Uso feeling em ingls mesmo , para caracterizar bem a noo

 especfica de sensao a que Peirce se refere , que abrange no s a

 impresso sensorial , mas aquilo que ela ocasiona em quem percebe .

 ^ 3 CP refere-se aos Collected Papers de Charles S. Peirce .
 Uso a forma

 de citao padro em estudos peirceanos .
 O primeiro nmero refere-se

 ao volume ( 6 ) e o nmero depois do ponto refere-se ao pargrafo ( 106 ) .

 A traduo  minha .
 Todas as referncias subseqentes aos Collected

 Papers sero feitas no texto segundo essa conveno e todas as

 tradues so de minha autoria .

 ^ 4 Cf .
 Pinto , 1989 , para uma discusso de temporalidade em linguagem e

 Pinto , 1995 , para as noes de primeireza , segundeza , terceireza .

 ^ 5 Essa lgica da vagueza  por mim tratada numa discusso do proveito

 possvel a se tirar do rudo comunicacional em Pinto ( 2002 ) .

