 O papel do sujeito nos estudos da linguagem

 Paulo Juarez Rueda Strogenski

 Mestre em Lingstica pela UFPR Professor de Lngua Portuguesa do

 Cefet-PR Unidade de Curitiba paulojrs@cefetpr.br

 Resumo :

 Os estudos da linguagem sempre apresentaram dicotomias do tipo

 forma / contedo , linguagem / lngua , escrita / fala etc .
 Aqui , pretende-se

 enfocar uma outra dicotomia : a oposio falante / sujeito .
 Oposio

 muito mais filosfica do que formal , atravs da qual o sujeito 

 anulado pela maior parte dos estudos da linguagem que prefere se

 referir quele que enuncia algo como falante , j que o conceito de

 falante  muito mais facilmente formalizvel do que qualquer conceito

 de sujeito .
 O presente trabalho  uma releitura de um ensaio publicado

 no nmero 1 desta revista , com o ttulo de Linguagem e Sujeito ,

 atravs da qual procurar-se- abordar algumas questes sobre o papel

 do sujeito , principalmente , na postura terica de M. Bakhtin .

 Desde os primeiros estudos sobre a linguagem , na Grcia Antiga , sempre

 se procurou dividir aquilo que era visto como linguagem enquanto

 objeto de estudo a linguagem literria e aquilo que , por outro lado ,

 fazia parte do dia a dia das pessoas e por isso era encarado como

 apenas linguagem cotidiana .
 A gramtica cuidava de estudar o primeiro

 tipo de linguagem enquanto que o segundo tipo deixava-se para um outro

 momento ( prtica , alis , comum nos estudos lingsticos ) .

 Outra dicotomia experimentada pelos gregos e legada  tradio dos

 estudos da linguagem foi a de separar estrutura e expresso : enquanto

 a estrutura era estudada pela gramtica e pela lgica , a expresso era

 estudada pela retrica ; ambos os estudos produzindo frmulas e manuais

 de como pensar , de como construir e de como expressar para que as

 palavras signifiquem da melhor maneira possvel .

 A questo do significado e do processo de significao permeia vrios

 campos dos estudos da linguagem desde aquela poca .
 Aristteles , que

 pode ser considerado como o criador da Lgica ( apesar de que Plato j

 havia se preocupado com a questo do significado ) , tentou resumir a

 estrutura sinttica das lnguas  frmula sujeito , verbo de ligao ,

 atributo , de forma que o significado das sentenas poderia ser

 resolvido silogisticamente .
 Em Scrates  mortal - o exemplo clssico

 de silogismo ns encontramos Scrates como sujeito ,  , verbo de

 ligao e mortal como atributo .
 Silogisticamente , a proposio seria

 interpretada : 1 Os homens so mortais ; 2 Scrates  homem ; logo ,

 Scrates  mortal .
 Casos como Maria trabalha , que contm um verbo de

 ao e no um verbo de ligao e nem um atributo , deveriam ser

 decompostos  forma bsica e lidos como Maria  trabalhadora ,

 transformando-se o verbo trabalha num atributo , trabalhadora , ligado

 ao sujeito pelo verbo ser .

 No entanto , mesmo a forma bsica no permitia solues para todos os

 casos .
 Um enunciado como Todos os brasileiros so loucos por futebol ,

 apesar de ser constitudo por sujeito ( todos os brasileiros ) , verbo de

 ligao ( so ) e atributo ( loucos por futebol ) , no pode ser tratada

 silogisticamente , embora seja uma expresso bem formada , porque o

 termo todos introduz uma noo de totalidade que complica a anlise

 silogstica , que consegue dar conta de indivduos mas no de conjuntos

 de indivduos .

 A lgica aristotlica sobreviveu como linguagem da cincia at o

 sculo passado .
 Atualmente ainda existe , mas mais pelo carter

 histrico do que prtico .
 Com o advento das cincias modernas , os

 cientistas comearam a sentir falta de uma maneira de expresso que

 no fosse impregnada pela ambigidade gerada pelas linguagens humanas ,

 porque as linguagens naturais no se prestam ao clculo e como a

 lgica aristotlica baseia-se nelas , ento seria necessrio um modelo

 lgico capaz de afastar a ambigidade .
 Em funo dessa necessidade , a

 partir de trabalhos como o de Frege ( Lgica e Filosofia da Linguagem ) ,

 passou-se a utilizar a linguagem matemtica ( lgica simblica ) , numa

 tentativa de afastar de vez a influncia ambgua da linguagem humana .

 De maneira geral , os estudos da linguagem ( como os da lgica ) sempre

 se preocuparam mais com a linguagem como um produto acabado , isento

 das suas condies de produo .
 O Estruturalismo , inspirado no Curso

 de Lingstica Geral , de Saussure , nunca considerou o falante como

 elemento importante na produo lingstica .
 O objeto de estudo dos

 estruturalistas sempre foi a lngua por ela mesma .
 A sua inteno era

 simplesmente a de descrever os diversos sistemas lingsticos ,

 independentemente das condies de produo ou at mesmo dos falantes

 que deles faziam uso .
 Se por um lado essa postura proporcionou 

 Lingstica o status de cincia formalmente constituda , por outro

 acabou gerando uma srie de equvocos , no s no que se refere ao

 estudo das lnguas , mas tambm em relao aos mtodos de ensino que

 passaram a ser do tipo siga o modelo ( prtica ainda comum nos dias

 atuais , quando se d maior importncia  criatividade individual ) .

 O surgimento da Gramtica

 Gerativa-Transformacional ( 1957 ) , por Chomsky , revolucionou o meio

 lingstico porque transferiu a ateno dos estudiosos do objeto

 pronto ( como no Estruturalismo ) para o processo essencial de produo .

 Sem dvida um passo decisivo para o estudo da linguagem que , a partir

 da , comeou a se preocupar no s com o resultado emprico do

 processo lingstico , mas com os mecanismos biolgicos / mentais

 envolvidos na sua produo .
 A Lingstica passou , a partir de ento , a

 ser de fato a cincia que estuda a linguagem ( no seu sentido mais

 amplo ) e no mais o estudo da lngua ( produto ) .

 Por outro lado , a Gramtica Gerativa , como a

 concebeu Chomsky , sempre apresentou um grande inconveniente para a

 incluso do sujeito no processo , que  o conceito de homogeneidade .

 Para que ela funcione ,  preciso antes de mais nada conceber um

 falante ideal que viva em uma sociedade ideal .
 Infelizmente ( ou

 felizmente ) o nosso mundo no  homogneo e ns , como seres humanos ,

 menos ainda .

 Alm desse problema , o de no abranger a falta

 de homogeneidade do meio lingstico , a Gramtica Gerativa limita-se 

 sentena complexa e , como se sabe , da mesma forma que as pessoas no

 se comunicam apenas pela palavra , elas tambm no se comunicam atravs

 de sentenas .
 Na comunicao humana ,  preciso considerar unidades

 maiores que , apesar de serem formadas por palavras e sentenas , operam

 pelo estabelecimento de relaes entre elas .
 A anlise dessas unidades

 maiores ( enunciados , discursos , textos ) no pode ficar limitada 

 morfo-sintaxe porque muito da significao est alm desses limites ,

 determinada por fatores extralingsticos ( os diticos e os anafricos

 so exemplo disso ) , entre os quais at mesmo o silncio pode ter

 significados contextuais .

 A necessidade de explicar esses fenmenos

 extralingsticos acabou por descortinar um leque de estudos

 correlatos como os da Sociolingstica e da Psicolingstica .
 O maior

 problema dessas reas  que elas tambm permaneceram estanques em seus

 limites , tentando explicar esses fenmenos em funo de um tipo de

 fatores ou de outro , mas nunca a partir de vrios tipos de fatores

 ( sociais , psicolgicos , ideolgicos , histricos , filosficos , etc. ) ao

 mesmo tempo .
 Isso ocorre , naturalmente , pelo prprio carter da

 cincia , que exige que se parta de um ponto para se chegar a um

 resultado , seguindo uma determinada linha , ou seja , delimitando o

 objeto de anlise de maneira formal .

 Na dcada de 60 surgiram vrios trabalhos que

 tentaram abordar o estudo da linguagem de maneira mais abrangente na

 rea da Pragmtica ( entre os quais se destacam os de Oswald Ducrot ) e

 de uma nova linha de pensamento que comeou a influenciar os meios

 lingsticos e filosficos : a anlise do discurso .
 Em 1969 , Michel

 Pcheux lanou a Anlise Automtica do Discurso , mostrando uma nova

 maneira de se encarar a linguagem humana ao deslocar o ponto de

 partida da anlise do produto pronto ou do processo interno de

 produo , segmentado ou no , para as condies de produo , ou seja , o

 objeto de estudo deixou de estar centrado na fala , na escrita ou no

 texto em si mesmos para recair nas condies , na situao , no momento

 de produo , invertendo a linha de raciocnio a respeito do processo

 de produo .
 A questo deixou de ser o discurso existe

 independentemente do sujeito , como no Estruturalismo ou no

 Gerativismo , ou determinado tipo de indivduo produz determinado tipo

 de discurso , como na Sociolingstica , para ser o porqu de

 determinado tipo de indivduo produzir determinado tipo de discurso .
 A

 ateno passou do texto para o sujeito e para as condies / razes de

 produo .

 Esse sujeito-falante , na concepo de Pcheux ,

 seria resultado de um processo histrico-social e influenciado

 ideologicamente , o que o transforma e marca o seu discurso .
 Se por um

 lado  facilmente concebvel que um sujeito imerso em uma sociedade

 seja influenciado por ela , por outro , a questo referente  presena

 de ideologia  bastante discutvel .

 A anlise do discurso nesta linha chamada

 comumente de Anlise do Discurso Francesa privilegiou sempre o

 discurso institucional , o que quer dizer que o trabalho de anlise

 leva sempre em conta a situao discursiva como sendo uma

 situao-tipo , porque cada instituio , ao possuir caractersticas

 prprias , gera tipos de relaes , procedimentos , rotinas discursivas ,

 etc .
 Por exemplo , o discurso mdico , o discurso jurdico , o discurso

 cientfico , o discurso acadmico , etc. so , respectivamente , aqueles

 que ocorrem em situaes-tipo da Medicina , do Direito , da cincia , das

 universidades , etc .
 Ao se conceber que existam situaes tpicas ,

 deve-se aceitar tambm que os sujeitos do discurso fazem parte de um

 universo tpico de cada instituio .
 Mas se o sujeito  parte desse

 universo , deve-se propor ou que um sujeito s trafega por um universo

 e ento , tambm  um sujeito-tipo , um elemento institucional , ou que o

 sujeito ( apesar de poder ser participante de uma instituio ) trafega

 por vrias instituies e  capaz de assumir cada um dos diversos

 discursos institucionais .

 Os analistas franceses defendem a segunda

 idia , a de que o sujeito , ao passar de um ambiente para outro , assume

 os discursos institucionais possveis conforme o seu trnsito .
 A esse

 processo de adaptao discursiva d-se o nome de assujeitamento .
 Esse

 sujeito assujeitado  ento aquele que se apropria de um discurso

 preexistente e faz uso dele a partir de regras tambm preexistentes .
 A

 conseqncia dessa concepo acaba sendo a de se supor que no existem

 discursos originais ou textos individuais .
 A esses discursos no

 originais d-se o nome de intertexto .
 Segundo Eni Orlandi ( 1988 ) , por

 exemplo , os textos efetivamente produzidos so intertextos , j que

 para essa autora a produo discursiva de um falante sempre ser

 atravessada por uma srie de discursos preexistentes e mediada

 ideologicamente .
 Da a preferncia pelo discurso institucional .

 Nessa perspectiva , o sujeito sofre uma reduo

 enquanto participante de uma situao de comunicao : ele sofre o

 processo de assujeitamento , assumindo no s o vocabulrio e as

 estruturas prprias de uma instituio , mas tambm as prprias

 estratgias comunicativas inerentes a ela .

 Talvez essa postura terica se explique porque

 a partir do momento em que o sujeito deixa de ser sujeito e passa a

 ser assujeitado e o seu texto deixa de ser texto para ser intertexto ,

 o que resta so estruturas j definidas , mais ou menos imutveis e no

 criativas , o que vem facilitar o trabalho de anlise , j que sempre 

 mais fcil aplicar-se dados de pesquisa sobre paradigmas do que tentar

 buscar explicaes naquilo que no  formalizvel , naquilo que no 

 estrutural , mas sim mutvel .
 Um produto do fazer cotidiano daqueles

 que compartilham uma lngua .
 Isso implica , por outro lado , em uma

 grande dificuldade para se analisar o discurso fora das instituies ,

 porque  nelas que ele  mais fortemente marcado .
 Para a anlise do

 discurso francesa , as instituies definidas so o lugar do discurso

 por excelncia .
 Da se explica a enorme quantidade de trabalhos

 especficos sobre os discursos institucionais , como citado

 anteriormente .

 Como se pode perceber , as teorias da

 linguagem , de maneira geral , no do maior ateno ao papel individual

 do sujeito na produo da linguagem .
 As teorias formalistas geralmente

 vo trat-lo como inexistente , ideal ou assujeitado .
 Em todos os

 casos , a individualidade do falante acaba sendo excluda .

 Nesse universo uma postura que se diferencia  a de M. Bakhtin que se

 distancia dessas porque consegue colocar o sujeito como elemento

 participativo e atuante do processo comunicativo .
 A sua viso

 histrico-materialista determina ao sujeito uma posio de constante

 interao com a sociedade e com a linguagem , a qual  vista por ele

 como um produto social .
 Como a linguagem  um produto social ( e no

 institucional ) e o sujeito  parte atuante do meio social , ento ele

 acaba por tambm ser um fator de interao .

  muito importante a nfase que ele procurou

 dar  linguagem como atividade social , pois  a partir da que surge a

 argumentao de que o processo de significao  resultado de uma ao

 social , o que implica em dizer que os signos so mutveis , j que a

 sua existncia estaria relacionada com um fazer social que no 

 constante ou imutvel , mas sim um processo contnuo do qual toda a

 sociedade participa .

 Apesar de o seu objetivo , em princpio , ser o estudo de

 aspectos relativos ao discurso na obra literria , as suas reflexes

 ultrapassam os limites da teoria da literatura e tornam-se reflexes

 apropriadas aos estudos de uma lingstica abrangente ( que ele chama

 de metalingstica ) e no reducionista , diferente da lingstica

 estruturalista , de inspirao sausseriana , praticada na sua poca .

 Alis ,  importante lembrarmos que a

 lingstica que ele conheceu  uma lingstica ainda muito distante

 das idias correntes da lingstica textual de hoje , uma lingstica

 pr-pragmtica que ainda estava muito longe de abordagens como as dos

 atos da fala , de Grice , ou das regras do discurso , de Ducrot .
 Essas

 abordagens tambm no do conta do discurso , como pretendia Bakhtin ,

 mas esto muito mais prximas do que estava qualquer abordagem

 estruturalista de sua poca .
 As abordagens estruturalistas , segundo

 ele , no ultrapassavam o aspecto composicional , ou seja , a forma da

 linguagem .
 A anlise lingstica , vista assim , seria capaz de perceber

 os diversos estilos ou at falares , mas no as diversas vozes ,

 justamente o aspecto que interessava a ele : a polifonia , as vozes do

 discurso .

 O seu interesse maior estava nas relaes dialgicas

 existentes entre os discursos , relaes estas que so

 extralingsticas , no podendo , portanto , ser estudadas pela

 lingstica , j que aquela lingstica tinha como maior interesse as

 relaes de oposio existentes no sistema da lngua .
 Uma lngua

 abstrada do uso concreto da sociedade , o que impedia qualquer

 possibilidade de anlise lingstica do discurso , pois esse discurso

 se faz de uma linguagem inatingvel para as anlises lingsticas ,

 linguagem esta que s vive na comunicao dialgica daqueles que a

 usam ( Problemas da Potica de Dostoievski , p. 183 ) .
 Comunicao

 dialgica que precisa da lngua e dos seus aspectos lgicos e

 semnticos para poder se realizar , mas que jamais poder ser reduzida

 apenas a estes aspectos , pois , para realizar-se , precisa ser discurso

 de um sujeito e superar os limites prprios da lngua , ou seja , os

 limites lgicos e semnticos estudados pela lingstica .

 A grande questo que  colocada por Bakhtin 

 justamente a incapacidade filosfica que a lingstica tradicional ,

 estruturalista e determinstica , apresenta para tratar de questes

 relativas ao discurso , quando o discurso  visto como manifestao de

 uma interao entre seres humanos , seres dotados de individualidades e

 intenes que , dificilmente , podem ser abstrados do contexto real .
 Ou

 seja , a lngua  um bem social , compartilhado por todos aqueles que

 fazem parte de uma sociedade , o que faz com que a linguagem seja

 pluridiscursiva , fruto de contradies scio-ideolgicas entre

 presente e passado , entre diferentes pocas do passado , entre diversos

 grupos scio-ideolgicos , entre correntes , escolas , crculos , etc .

 ( Questes de Literatura e Esttica , p. 98 ) O que implica em afirmar-se

 que o discurso no pode ser estudado apenas em si mesmo , ignorando-se

 os fatores externos que o determinam como produto dialgico da

 sociedade e no como objeto monolgico e independente que , em ltima

 anlise , seria um discurso morto .

 O discurso deve ser encarado como um dilogo

 que  produzido em relao a um interlocutor , presente ou no , afinal ,

 o discurso vivo est imediata e diretamente determinado pelo

 discurso-resposta futuro : ele  que provoca esta resposta , pressente-a

 e baseia-se nela ( p .89 ) .
 Isso porque o falante , ao produzir um

 discurso , o faz em relao a um ouvinte .
 Ele cria um conjunto de

 significaes e o estende a outra pessoa , invadindo o crculo

 perceptivo e contando com a capacidade de compreenso do seu conjunto

 de significaes por outro indivduo .
 Ningum produz discursos para as

 pedras ( pelo menos no normalmente ) e mesmo que converse com as

 pedras , provavelmente o far atribuindo caractersticas anmicas para

 elas , imaginando quais seriam suas respostas ou questionamentos ou

 dvidas , etc. , num processo dinmico , dialogicamente constitutivo do

 discurso .

 Cada sujeito , como parte da sociedade a que

 pertence , teria ento o seu papel enquanto agente modificador na

 atividade social .
 Mesmo assumindo que no discurso de um sujeito possam

 estar presentes outros discursos anteriores , a sua forma de analisar o

 processo de apropriao do discurso alheio pressupe um sujeito ativo

 e atuante , capaz de fazer escolhas e estabelecer estratgias .
 A

 reside a diferena bsica entre a anlise do discurso francesa e o

 pensamento de Bakhtin .
 Enquanto a primeira admite apenas um sujeito

 assujeitado , o segundo prope um sujeito ativo , capaz de utilizar a

 linguagem para a formao de sua conscincia individual e tambm de

 usar a sua individualidade para interferir no processo social da

 linguagem , atravs da sua atividade interacional constante junto 

 sociedade .

 A concepo bakhtiniana atribui ao sujeito

 responsabilidade pelo uso que este faz da linguagem .
 O sujeito no 

 somente um divulgador de discursos preexistentes , mas sim um agente

 dentro do processo discursivo , capaz de interferir , aprimorar ou at

 modificar o discurso social .
 Esta distino  possvel pelo fato de

 Bakhtin , ao contrrio da anlise do discurso francesa , conseguir ver o

 discurso na sua dimenso social .
 Dimenso esta que contm tambm as

 dimenses institucionais e as ultrapassa , sendo parte expressiva do

 conjunto de relaes da atividade histrico-social .

 Em resumo , a posio do sujeito frente 

 linguagem varia conforme a poca ou o interesse .
 Se por um lado

 podemos imaginar que os estudos lingsticos da lngua por ela mesma ,

 como os praticados numa perspectiva estruturalista , possam e at devam

 desprezar o papel comunicativo do sujeito para de fato centrar todo o

 interesse na estrutura da lngua sem interferncias ( que a sero

 subjetivas ) , por outro , no se pode imaginar que se pratique algum

 tipo de estudo do discurso sem atribuir um papel relevante ao sujeito .

 Acredito que , ao menos em princpio , possamos

 pensar a questo de duas maneiras um pouco diferentes .
 Na primeira ,

 podemos supor que exista o primado do discurso ( muitos pensam assim ) ,

 isto  , que o discurso pr-existe aos sujeitos e cada sujeito , ao

 nascer , j seria uma espcie de refm dos discursos sociais aos quais

 estaria exposto .
 Talvez seja assim , mas , j num primeiro momento ,

 surge um paradoxo interessante : se por um lado o sujeito  refm de um

 discurso que o precede , por outro o discurso precisa do sujeito para

 ser produzido , ou seja , o discurso  refm do sujeito que  refm do

 discurso .
 Na segunda , podemos supor , ao contrrio , que exista o

 primado do sujeito , o qual se utilizaria de estruturas lingsticas

 ( no de discursos ) pr-existentes para produzir seus discursos , que

 at poderiam ser influenciados por discursos de outros , mas que seriam

 originais .

 Talvez at se possa imaginar que na realidade exista uma possibilidade

 conciliadora e defender que discurso e sujeito sejam realidades

 interdependentes e igualmente fortes no processo comunicativo .
 Ou

 seja , talvez esteja correto o paradoxo proposto no pargrafo anterior :

 o discurso  refm do sujeito que  refm do discurso que  refm do

 sujeito que  refm do discurso ...

 Bibliografia citada :

 BAKHTIN , Mikhail .
 Questes de Literatura e Esttica .
 So Paulo : Ed .

 Hucitec , 1988 .

 ________________ Problemas da Potica de Dostoivski .
 2 ed. Rio :

 Forense - Universitria , 1997 .

 ________________ Marxismo e Filosofia da Linguagem .
 So Paulo :

 Editora Hucitec , 1986 .

 CHOMSKY , N. Aspectos da Teoria da Sintaxe .
 Coimbra : Amrico Amado

 Editor , 1978

 FREGE , G. Lgica e Filosofia da Linguagem .
 So Paulo : Cultrix , EDUSP ,

 1978 .

 ORLANDI , E.P. Discurso e Leitura .
 So Paulo : Cortez Editora-Unicamp ,

 1988 .

 PCHEUX , M. Anlise Automtica do Discurso , ( 1969 ) , in GADET , F .
 &

 HAK , T .
 Por uma Anlise Automtica do Discurso .
 Campinas : Unicamp ,

 1990 .

