 Pensar o sentido de uma proposio

 JOS OSCAR DE ALMEIDA MARQUES

 Departamento de Filosofia

 Instituto de Filosofia e Cincias Humanas

 Universidade Estadual de Campinas

 E-Mail : mailto : %20 jmarques@unicamp.br

 Web : http : // www.unicamp.br / ~ jmarques

 RESUMO : Linguagem e realidade constituem , no Tractatus de

 Wittgenstein , domnios estritamente isomorfos , no sentido de que

 compartilham uma mesma " forma lgica " .
 Para explicar como 

 possvel compreender o sentido de uma proposio , um recurso usual

  admitir , entre os membros desse par , uma terceira instncia - o

 pensamento - , que atuaria como o medium atravs do qual se

 estabelecem as relaes projetivas que conectam os dois domnios .

 Como resultado dessa interposio , uma dimenso mental , ou

 psicolgica , passa a ser parte integrante da exposio do processo

 pelo qual a linguagem pode representar a realidade .
 Neste trabalho

 pretendo mostrar que esse recurso  incapaz de atingir o resultado

 pretendido e defendo a idia de que uma explicao filosfica de

 como as proposies tm sentido deve ser alcanada por meio de

 consideraes puramente formais , dispensando a introduo de

 qualquer instncia ou atividade mental .

 ABSTRACT : In Wittgenstein's Tractatus , language and reality are

 strictly isomorphic domains , in the sense that they share a common

 " logical form " .
 In order to explain the possibility of

 understanding the sense of a proposition , it has been customary to

 postulate a third instance - the thought - , that would act as a

 medium through which both domains get in touch , by means of

 projective relations .
 In consequence of this , a mental or

 psychological dimension is called to play an essential role in the

 account of how language can represent reality .
 In this paper I try

 to show that this does not help to solve the original problem , and

 that a philosophical explanation of how propositions get their

 sense must be formulated in purely formal terms , without resort to

 any mental facts or activities .

 I

 " Toda minha tarefa " , escreveu Wittgenstein no incio de 1915 ,

 " consiste em explicar a essncia da proposio " .
 Essa declarao ,

 lanada entre as anotaes que serviram de base para a redao do

 Tractatus Logico-Philosophicus , no retorna explicitamente no texto da

 obra acabada , mas  claro que no estaria ali fora de lugar , j que

 constitui uma etapa indispensvel para atingir o objetivo final do

 livro , que  circunscrever o limite de tudo o que pode ser expresso na

 linguagem e chegar , com isso , a um entendimento crtico do propsito

 final da atividade filosfica .. Meu objetivo nesta exposio 

 examinar brevemente a maneira pela qual Wittgenstein procede para

 chegar a esse desvendamento da natureza da proposio e discutir

 algumas dificuldades que comumente so encontradas na interpretao

 desse procedimento .

 O dbito geral do Tractatus para com os trabalhos de Frege e Russell

 est explicitamente reconhecido no Prefcio , e , quanto ao tpico em

 questo , seu ponto de partida  basicamente o mesmo que o daqueles

 autores .
 Deixando de lado as diferentes terminologias empregadas para

 descrever esse processo , e , mais ainda , as diferentes implicaes

 semnticas e filosficas de suas exposies , pode-se dizer que os trs

 autores citados concordam em que a proposio deve ser entendida como

 um complexo formado por elementos mais simples , e o problema que se

 coloca para todos eles  explicar como a sua significao se determina

 a partir da significao de seus constituintes .

 Partindo desse pressuposto comum , a novidade do tratamento

 wittgensteiniano da proposio consiste em atribuir-lhe um estatuto

 inteiramente distinto do das expresses ou nomes que a constituem .

 Nomes adquirem significao ao atuarem , na linguagem , como

 representantes de alguma coisa .
 No Tractatus , so signos cujo

 significado decorre de que nomeiam um certo objeto - mais exatamente ,

 seu significado  o objeto que nomeiam .
 A proposio , por sua vez , 

 uma combinao de nomes , e seu sentido - isto  , aquilo que ela diz

 ser o caso -  que os objetos nomeados esto combinados na realidade

 do mesmo modo como os nomes esto combinados na proposio .

 Quanto  proposio , porm , Wittgenstein insiste em que a maneira pela

 qual ela se torna significativa , ou adquire seu sentido , no pode ser

 a mesma pela qual os nomes obtm seu significado .
 A dificuldade de se

 pretender que a proposio constitui um signo complexo cuja

 significao , em analogia com os nomes , seria dada por um objeto

 complexo ( um fato , suponhamos ) torna-se visvel quando se observa que

 um nome que no representa um objeto  ipso facto um signo desprovido

 de significao , ao passo que uma proposio no deixa de ser

 significativa pelo fato de no haver um complexo que lhe corresponda :

 ela se torna apenas falsa , mas no sem sentido ( Tractatus , 3.24 ) ^ 1 .
 E ,

 de fato , a explicao de como ela  capaz de preservar seu sentido

 independentemente de quaisquer circunstncias ligadas  existncia ou

 inexistncia de complexos constitui o cerne do tratamento da

 proposio apresentado no Tractatus .

 Em 3.1431 Wittgenstein oferece uma ilustrao que ele supe capaz de

 nos levar a uma concepo iluminadora da essncia da proposio .
 Ele

 nos pede que a imaginemos composta no de sinais escritos mas de

 objetos espaciais como mesas , cadeiras , livros .
 A disposio espacial

 dessas coisas , uma ao lado das outras , expressar - ele nos diz - o

 sentido da proposio .
 Essa ilustrao permite discutir diversos

 aspectos importantes da noo de proposio .

 Em primeiro lugar , um tal arranjo de coisas s consegue veicular um

 sentido , ou dizer-nos alguma coisa , se seus elementos no forem

 tomados em si mesmos , mas sim como representantes de outros objetos

 que compem a situao cuja existncia se pretende comunicar .
 Sem

 isso , aquelas coisas seriam simbolicamente inertes , e sua disposio

 espacial um mero fato bruto entre tantos outros de mesmo gnero no

 mundo .
 Tambm as proposies da linguagem , escrita ou falada , so em

 si mesmas apenas um arranjo de elementos ( sons , traos no papel ,

 etc. ) , e esses arranjos , enquanto tais , constituem apenas outro fatos

 brutos no mundo .
 A combinao desses elementos s se torna

 significativa pela conexo simblica que eles mantm com coisas

 distintas deles mesmos .
 Essas conexes constituem , no Tractatus , as

 relaes projetivas entre a linguagem e a realidade , e so essas

 relaes que permitem que o signo proposicional nos aparea como uma

 projeo da situao cuja existncia  afirmada .

 Em segundo lugar , o exemplo  revelador por acentuar o carter

 arbitrrio dos elementos que compem o signo proposicional .
 Quaisquer

 outras coisas poderiam ser empregadas com o mesmo resultado , desde que

 estivessem sendo empregadas para nomear os mesmos objetos .

 Diferentemente do signo proposicional como um todo , cuja articulao

 interna nos exibe o sentido da proposio , os nomes so signos

 no-articulados cujo significado  puramente convencional ; eles no

 nos mostram seu significado .
 Do mesmo modo ,  arbitrrio o papel

 atribudo s relaes espaciais entre os elementos do signo

 proposicional : outras relaes poderiam ser igualmente empregadas para

 o mesmo fim ( sucesso temporal , diferenciaes cromticas , etc. ) , mas

 no vou estender-me sobre este ponto .

 A identificao dos traos arbitrrios presentes em qualquer sistema

 lingstico concreto serve , no entanto , para isolar aquilo que no 

 arbitrrio na linguagem e no simbolismo em geral .
 Um sistema de signos

 capaz de representar deve ter , para Wittgenstein , a mesma

 " multiplicidade lgica " da realidade que ele representa , isto  , as

 possibilidades de articulao de seus elementos devem corresponder

 exatamente s possibilidades de combinao dos objetos que esses

 elementos designam .
 A linguagem , entendida como um sistema de signos

 capaz de veicular todos os sentidos concebveis , ou seja , capaz de

 expressar a existncia de qualquer situao possvel , deve portanto

 conter tantos nomes quantos so os objetos que compem o arcabouo da

 realidade , e deve ser governada por regras sintticas que espelham em

 seu funcionamento as combinaes admissveis daqueles objetos .

 Este breve apanhado dos aspectos essenciais do signo proposicional

 permite entender como a proposio pode expressar um sentido

 independentemente da existncia factual de qualquer entidade que

 estivesse funcionando como seu significado .
 O sentido da proposio ,

 isto  , o que ela expressa ,  um fato , a saber , o fato de que certos

 objetos esto combinados na realidade .
 Ela pode expressar isso porque

 ela mesma  um fato : o fato de que , nela , certos nomes esto

 combinados .
 A nica exigncia necessria para que ela esteja dotada de

 significao  que esses nomes tenham significado , que eles designem

 entidades existentes .
 Portanto , o nico contato entre a proposio e a

 realidade se d atravs dos nomes que a compem , por meio das relaes

 projetivas que conectam esses nomes aos objetos que eles nomeiam .

 Disto se segue que o sentido da proposio depende exclusivamente do

 significado de seus elementos constitutivos , e no pressupe a

 existncia factual do complexo ou combinao de objetos que ela afirma

 existir .
 Uma vez determinado o significado dos nomes , o sentido da

 proposio segue-se de imediato , sem qualquer considerao adicional .

 II

 O problema que quero examinar  : como , para Wittgenstein , os nomes

 adquirem seu significado ?
 Trata-se de uma questo extremamente difcil

 de responder com preciso , devido ao carter obscuro e fragmentrio

 das observaes do Tractatus sobre o assunto .
 A situao se torna

 ainda mais confusa quando se observa que muitos intrpretes no

 distinguem , de um lado , entre aquilo que Wittgenstein considera a

 questo filosfica de como  possvel um sistema de signos que tm

 objetos como seus significados e , de outro , a questo psicolgica de

 como os usurios da linguagem chegam a conhecer o significado desses

 signos .

 A conflao dessas duas questes resulta em uma concepo - que

 poderamos denominar " ingnua " - de como se estabelece , no Tractatus ,

 o significado de um nome .
 O ponto de partida dessa explicao 

 normalmente o aforismo 3.11 , onde se l :

 Wir bentzen das sinnlich wahrnehmbare Zeichen ( Laut - oder

 Schriftzeichen etc. ) des Satzes als Projektion der mglichen

 Sachlage .

 Die Projektionsmethode ist das Denken des Satz-Sinnes .

 A primeira sentena no  problemtica e refere-se ao fato j

 mencionado de que o signo proposicional - ou seja , a proposio

 considerada em seus aspectos materiais visveis ou audveis - fornece

 a projeo de uma situao possvel .
 Qual situao est sendo

 projetada depende , como j vimos , de quais so os objetos a que os

 elementos da proposio se associam pelas relaes projetivas .

 O problema que quero discutir prende-se  interpretao da segunda

 sentena .
 Literalmente , ela identifica o mtodo de projeo ao ato de

 pensar o sentido da proposio .
  primeira vista , parece que se est

 explicando o estabelecimento das relaes projetivas pela interveno

 de um ato mental -  como se o pensamento realizasse essa ligao

 entre as coisas e os signos que lhes servem de nomes .
 Essa leitura

 introduz uma dimenso psicolgica , ou intencional no relato de como a

 proposio adquire sentido .
  uma instncia mental que atua

 estabelecendo essa ligao entre nome e objeto , e que transforma um

 trao por si mesmo inerte em um elemento dotado de significado .

 H vrias dificuldades nessa concepo .
 Deixando de lado a complexa a

 questo da inexistncia , para Wittgenstein , de um sujeito psicolgico

 de representaes , vou levantar apenas algumas objees que me parecem

 mais facilmente compreensveis .

 Em primeiro lugar , lembre-se que , no Tractatus , o pensamento tem ele

 prprio um carter lingstico e , como qualquer proposio , constitui

 uma " figura dos fatos " ( 3 ) .
 Tambm ele  supostamente um arranjo de

 elementos cuja natureza precisa Wittgenstein afirma desconhecer e cuja

 determinao , ademais , considera irrelevante do ponto de vista

 filosfico .
 Mas no importa a natureza desses elementos : se so

 entidades mentais ou sinapses neuronais .
 O que importa  que tambm

 sua organizao s pode adquirir o poder de significar , ou de veicular

 um sentido , se seus elementos estiverem eles mesmos em relaes

 projetivas com a realidade .
 Portanto , o pensamento , enquanto atividade

 simblica , tem como pressuposto justamente essa relao projetiva com

 a realidade , e no pode legitimamente ser apresentado como o

 fundamento dessas relaes .

 Em segundo lugar , a concepo ingnua envolve a necessidade de algum

 tipo de apreenso , pelo pensamento , do objeto ao qual o nome se

 refere , para que se possa estabelecer a associao entre ambos .
 Mas

 recorde-se que os objetos do Tractatus ( que constituem os referentes

 ltimos dos nomes que ocorrem nas proposies ) so entidades muito

 peculiares , e - seja qual for a sua natureza - no coincidem de modo

 algum com os objetos com que nos confrontamos em nossa experincia

 cotidiana .
 No estamos em nenhum momento diretamente conscientes

 desses objetos , e no podemos identific-los isoladamente .
 Dada essa

 circunstncia , isto  a impossibilidade de identificar e

 re-identificar os referentes dos elementos do signo proposicional ,

 torna-se ininteligvel a hiptese de que esses elementos possam

 adquirir significado por meio de algum tipo de associao mental com

 entidades dadas  nossa experincia .

 Algumas outras passagens do Tractatus contribuem para nos convencer de

 que o que est em jogo na identificao de um objeto  algo muito

 diverso do mecanismo presente nas chamadas " definies por ostenso " .

 Wittgenstein nos diz , por exemplo , que , para conhecer um objeto , 

 preciso conhecer todas as suas " propriedades internas " ( 2.0123 ss. ) ,

 entendendo com isso suas possibilidades de combinao com outros

 objetos .
 Isto est ligado  sua suposio de que objetos no possuem

 propriedades materiais intrnsecas , mas apenas propriedades formais

 que se esgotam na determinao de quais so as combinaes de objetos

 em que eles podem ocorrer .
 Exclui-se portanto que a identificao de

 um objeto possa ser feita com base em caractersticas factuais desse

 objeto - ao contrrio , aponta-se aqui para um processo muito mais

 abrangente , segundo o qual cada objeto contm uma referncia interna a

 cada um dos outros , e a caracterstica distintiva que permite

 identific-lo consiste em sua particular posio no interior de um

 " espao lgico " de combinaes que engloba , de uma s vez , a

 totalidade dos objetos .

 III

 Se pretendermos nos aproximar de uma compreenso do modo pelo qual , no

 Tractatus , um nome adquire significao ,  indispensvel levar em

 conta a reiterao , ali , do princpio fregeano do contexto , a saber ,

 que um nome considerado isoladamente no tem significado , que s no

 interior da proposio um nome pode designar um objeto ( 3.3 ) .
 O

 princpio holstico que governa a identificao dos objetos 

 estendido aqui para o prprio domnio dos nomes , e a conseqncia

 disto  que a questo da significao dos nomes no pode ser resolvida

 atravs da considerao isolada desses nomes , mas exige o exame das

 proposies em que ocorrem .

 Este ponto  devidamente ressaltado numa das poucas passagens do

 Tractatus ( talvez mesmo a nica ) em que o problema recebe alguma

 ateno explcita .
 Em 3.263 , Wittgenstein afirma que o significado dos

 signos simples ( isto  , dos nomes ) pode ser esclarecido por meio de

 " elucidaes " ( Erluterungen ) , que so proposies que contm esses

 signos .
 Mas , a seguir , em uma frase que tem causado merecidamente

 muita perplexidade entre os comentadores , ele observa que tais

 proposies s podem ser entendidas se o significado daqueles signos

 j for conhecido .
 Ou seja , saber o significado dos nomes exige

 entender proposies nas quais esses nomes ocorrem ; para isso , porm ,

  preciso saber o que eles nomeiam .
 A passagem como um todo adquire a

 aparncia de um crculo vicioso , que frustra a expectativa inicial de

 obter um esclarecimento de como os nomes podem adquirir significado .

 Muito j se tem escrito com a finalidade de tornar inteligvel essa

 passagem do Tractatus , e no posso aqui recapitular as vrias

 tentativas de interpretao encontradas na literatura .
 Vou procurar

 apenas mostrar que , quando se adota uma outra leitura do aforismo 3.11

 mencionado anteriormente , sobre a relao entre " mtodo de projeo " e

 " pensar o sentido da proposio " , uma boa parte da estranheza inicial

 pode ser dissipada .

 Como entender corretamente o aforismo 3.11 ?
 O caminho , parece-me , 

 abandonar a idia de que a existncia das relaes projetivas entre

 nomes e objetos nomeados possa ser , em qualquer sentido , explicada

 pelo pensamento .
 Faz-lo equivale a tom-las como relaes de carter

 quasi-factual , que podem vigorar ou no vigorar em funo da atuao

 de uma instncia externa que criaria a ligao entre os dois termos .

 Ao contrrio , 3.11 deve ser entendida como afirmando que 

 precisamente a existncia dessas relaes que explica como  possvel

 pensar o sentido da proposio .
 O que se tem aqui  uma espcie de

 definio do pensamento : pensar uma proposio , assim como enunci-la ,

  empreg-la como projeo de uma situao possvel .
 No se trata de

 explicar o suposto mecanismo de projeo por meio da atividade mental

 de pensar o sentido da proposio , mas sim de empregar a noo

 filosfica e matematicamente mais clara de projeo para explicar a

 obscura noo de pensamento .

 Uma vez que se reconhea que o problema filosfico da linguagem diz

 respeito s condies de sua possibilidade e no s condies

 concretas de sua utilizao pelo zoon phonanta , teremos avanado

 bastante na resoluo das dificuldades acima expostas .
 O ser humano

 possui a faculdade de construir linguagens pelas quais quaisquer

 sentidos podem ser expressos , quaisquer situaes possveis podem ser

 precisamente descritas ( 4.002 ) .
 Mais do que o mecanismo envolvido

 nessa construo , Wittgenstein se interessa pelo que torna possvel

 essa expresso de sentidos perfeitamente determinados , e o associa ao

 requisito de que signos simples , ou nomes , sejam possveis ( 3.23 ,

 4.0312 ) , de que possa , em princpio , existir uma organizao de signos

 que , mediante as regras sintticas que governam sua associao ,

 constitua um perfeito espelhamento das relaes que podem vigorar no

 domnio dos objetos .

  claro que , nesse quadro ,  totalmente descabido perguntar quais

 signos constituem os nomes de quais objeto , e , conseqentemente , como

 ns chegamos a atribuir-lhes significado .
 A linguagem em sua forma

 completamente analisada , na qual signos simples ligam-se imediatamente

 aos objetos , aos constituintes ltimos da substncia do mundo , no

 existe concretamente em parte alguma ;  apenas sua possibilidade que 

 afirmada no Tractatus , enquanto condio transcendental para a

 existncia do fenmeno da representao .
  pergunta sobre qual seria o

 " real " nome de um objeto s se poderia responder , segundo o Tractatus ,

 dizendo-se que ele  qualquer signo que ocupa na linguagem uma posio

 formalmente idntica  que um objeto ocupa no campo de suas

 possibilidades de combinao com outros objetos .
 Rigorosamente

 falando , os nomes , enquanto signos determinados , so dispensveis para

 o funcionamento da linguagem : o sentido de uma proposio pode ser

 precisamente veiculado mesmo quando ela se apresenta sob a forma

 completamente generalizada , consistindo apenas de variveis ( 5.526 ) .

 Tudo o que h de relevante para a funo simblica esgota-se

 totalmente nos aspectos formais que regem a articulao dos nomes , nas

 regras de sintaxe que os tornam capazes de mimetizar as propriedades

 combinatrias dos objetos .

 A natureza das relaes projetivas entre a linguagem e a realidade

 pode agora ser melhor explicada .
 Elas no envolvem qualquer associao

 a posteriori entre signo e significado , mas esto dadas de antemo , em

 virtude do isomorfismo , no sentido matemtico , entre os dois domnios .

 Esse isomorfismo consiste na existncia de " lugares sintticos " no

 sistema abstrato da linguagem que correspondem univocamente s

 posies ocupadas pelos objetos no espao lgico de suas possveis

 combinaes .
 Desse modo , se  verdade que o sentido de uma proposio

 se determina a partir do significado de seus constituintes , esse

 significado est determinado exclusivamente pela possibilidade

 sinttica da ocorrncia desses constituintes em proposies dotadas de

 sentido .
 Voltando ao aforismo 3.263 , vemos agora que , longe de

 descrever uma situao paradoxal em que dois processos distintos

 parecem exigir , cada qual , a ocorrncia prvia do outro , ele surge

 como a expresso do fato de que a projeo de uma situao pelo signo

 proposicional resulta essencialmente das propriedades formais desse

 signo , e envolve uma referncia interna a todas as demais proposies

 em que seus constituintes podem ocorrer ; em ltima anlise , 

 linguagem como um todo .
 Enquanto estivermos dominados pela idia de

 que uma proposio deve adquirir seu sentido de forma isolada das

 demais proposies , podemos razoavelmente imaginar que ela

 necessitaria de algum auxlio para essa tarefa , que seria preciso

 estender externamente algumas linhas ligando os signos que nela

 ocorrem aos objetos , para que ela pudesse ser " guiada " em seu trajeto

 rumo  realidade .
 S assim , pareceria , ela seria capaz de expressar

 uma situao definida , uma situao que envolve tais e tais objetos , e

 no outros .
 Quando aceitamos , porm , todas as implicaes do princpio

 do contexto presentes no Tractatus , em especial , que  s no interior

 da linguagem como um todo que qualquer proposio adquire sentido ,

 compreendemos que esse auxlio externo  desnecessrio .
 Pois , em

 virtude da identidade de forma lgica entre a linguagem e a realidade ,

 em virtude do isomorfismo entre a totalidade das possibilidades

 combinatrias dos nomes e a dos objetos , s h uma maneira pela qual

 se pode estabelecer uma correspondncia entre os elementos dos dois

 domnios .
 Ao se determinar , portanto , o lugar preciso da proposio no

 sistema formal da linguagem estar determinada ipso facto a referncia

 precisa dos nomes que a compem , e , conseqentemente , seu sentido , a

 situao definida cuja existncia ela veicula , sem a necessidade de

 recorrer a uma instncia externa para criar a ligao entre os nomes e

 suas referncias .

 IV

 [ No fez parte do texto publicado ]

 Em minha interpretao de como , no Tractatus , as proposies adquirem

 seu sentido procurei criticar a introduo do pensamento como algo que

 estabelece a conexo entre os elementos do signo proposicional e os

 aspectos da realidade a que eles se referem , insistindo em que o

 significado de um signo est determinado exclusivamente pelas regras

 sintticas que governam seu emprego na linguagem , e que nenhuma

 associao factual com o objeto  necessria e nem mesmo possvel .

 Isto leva-me , para finalizar , a uma observao sobre tentativas

 recentes de avanar nesta linha de raciocnio at o ponto de expurgar

 do Tractatus a prpria noo de uma realidade extra-lingstica .
 Nessa

 concepo , o significado dos nomes se esgota totalmente no interior da

 prpria linguagem , e no se supe que eles estejam " no lugar " de

 alguma coisa , que sejam representantes de entidades exteriores 

 linguagem .

 Por engenhosa que possa ser , na medida em que consegue dar conta de

 muitas questes ainda problemticas na interpretao do Tractatus ,

 essa posio no me parece sustentvel e no deve ser tomada como uma

 conseqncia do que estou propondo aqui .
 O principal problema  como

 dar conta , nesse caso , da questo da verdade de uma proposio , que

 Wittgenstein insiste ser determinada pela comparao com a realidade ,

 isto  por referncia a uma instncia no-lingstica .
  verdade que o

 desvendamento da essncia da proposio foi considerado por

 Wittgenstein , na passagem datada de janeiro de 1915 que citei no

 incio , como constituindo " toda a sua tarefa " , mas  relevante notar

 que ele complementa imediatamente essa afirmao dizendo que essa

 tarefa se identifica  de especificar a essncia de todos os fatos dos

 quais a proposio  uma figura , a essncia de todo o ser .
 E ainda ,

 que poucos meses depois ele tenha registrado em seus cadernos de notas

 as seguintes palavras : " O grande problema em torno do qual gira tudo o

 que escrevo  : H uma ordem a priori no mundo e , se houver , qual 

 ela ?
 "

 As observaes de cunho ontolgico no Tractatus , longe de constiturem

 apenas um material introdutrio destinado a ser dialeticamente

 superado no decorrer do livro , fazem parte integrante do seu sistema e

 surgem mesmo em passagens to avanadas da exposio como 5.471 , onde

 se associa mais uma vez o problema de fornecer a essncia da

 proposio ao desvendamento da essncia do mundo .
 Seja como for que se

 interprete o posterior desenvolvimento filosfico de Wittgenstein , 

 indubitvel que , no Tractatus , est firmemente presente o vis

 realista que admite uma realidade exterior e independente de nossa

 linguagem ou nosso pensamento , e o desafio de explicar a relao entre

 esses dois domnios .

 VI Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF

 guas de Lindia , 5 a 10 de outubro de 1994

 Publicado em : Manuscrito. v. 18 , n. 2 , p. 185-197 , 1995

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 Referncias Bibliogrficas

 WITTGENSTEIN , L. Logisch-philosophische Abhandlung .
 Frankfurt am

 Main : Suhrkamp Verlag , 1989 .

 WITTGENSTEIN , L. Tagebcher 1914-1916 .
 Frankfurt am Main : Suhrkamp

 Verlag , 1984

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 Nota

 ^ 1 Incidentalmente , pode-se notar que essa dificuldade fornece talvez

 a razo de Frege ter sido levado a introduzir objetos especiais para

 atuarem como o significado das proposies , negando que elas nomeassem

 fatos ; e , ainda , para que Russell lhes tenha negado o estatuto de

 smbolos completos capazes de significarem isoladamente .
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