 Percepo e Linguagem em Merleau-Ponty e Wittgenstein

 Tania Eden

 Em sua ltima obra intitulada O Visvel e o Invisvel , Merleau-Ponty

 toca numa ferida da assim chamada virada lingustica : " s conseguimos

 reduzir a filosofia a uma anlise da linguagem se assumirmos que a

 linguagem contm sua evidncia em si mesma " ( Merleau-Ponty 1986 , pg .

 131 ) .
 A linguagem  um instrumento de concepo do mundo , mas sua

 funo de deduzir esse mundo no se esgota naquilo que pode ser obtido

 a partir de uma anlise dos nossos significados de palavras lexicais .

 Como diz Austin , uma anlise da linguagem no  de modo algum

 considerada como um fim em si mesmo .
 Uma " fenomenologia da linguagem "

 deve levar em conta o fato de que as distines lingusticas so

 provenientes de um procedimento de escolha histrico , i.e. , " um longo

 teste de sobrevivncia do mais apto " que nos ensina , na discusso

 incessante com o mundo  nossa volta , a colocar em ao o instrumento

 ` linguagem ' do modo mais eficiente possvel ( Cf .
 Austin 1977 ) .
 O

 conhecimento , na relao recproca homem / mundo , que no 

 adequadamente concebido nem como resultado do uso de dados empricos

 nem atravs da suposio de uma natureza determinada racionalmente ,

 torna necessrio , para Merleau-Ponty ( cf .
 Merleau-Ponty 1966 , pg .

 489 ) , um novo conceito de sentido e de ao que se ape tanto ao

 idealismo lingustico quanto ao esquema behaviorista

 estmulo-resposta. Sentido e significado no esto ligados a

 realizaes lingusticas ; antes , eles so imanentes a todos os modos

 de ao e vivncia .
 Na medida em que a teoria da Gestalt , atravs da

 diferenciao entre figura e fundo , aponta para os trabalhos de

 formao e estrururao pr-lingusticos , ela se configura como

 paradigmtica para a tentativa de esboar uma genealogia do

 significado lingustico .
 Diante desse pano de fundo , a discusso de

 Wittgenstein - na segunda parte das Investigaes Filosficas e nas

 Consideraes sobre a Filosofia da Psicologia - , sobre a apresentao

 da psicologia da Gestalt de Khler ( Khler 1975 ) , adquire um

 significado especial .

 ( 1 ) J na Estrutura do Comportamento , Merleau-Ponty reduz a concepo

 de comportamento  conscincia perceptiva ( MP 1976 ) .
 Uma teoria do

 comportamento sem uma teoria da percepo  impensvel .
 Entre uma

 estrutura de comportamento e uma de percepo existe uma relao de

 reciprocidade : o espao do comportamento humano est , de um lado ,

 limitado pela percepo , que media a nossa relao com o mundo e se

 constitui no pano de fundo ineliminvel de todas as nossas atividades .

 Por outro lado , o campo da percepo , que se aperfeioa apenas atravs

 do nosso agir vivente , oferece orientaes .
 Para Merleau-Ponty , o

 corpo individual  aquela zona de mediao na qual o limite entre o

 interno e o externo , entre o puro ato de conscincia e o mero

 mecanismo corporal se confundem .
 O conceito de estrutura da teoria da

 Gestalt confirma a ambigidade .
 Estruturas no so nem idia nem

 coisa .
 Elas se organizam espontaneamente em totalidades irredutveis ,

 que so constitutivas de significado , mas no significados

 intelectuais .
 Numa perspectiva merleau-pontiana , as seguintes questes

 crticas podem ser dirigidas a Wittgenstein : o discurso do

 ` comportamento ' resiste  ` retificao ' social , enquanto expresso

 quasi-naturalista das vivncias psquicas , sem levar em conta o fato

 de que tambm " o nosso agir , que se funda no jogo de linguagem " ( ber

 Gewissheit , parag. 204 ) , encontra um limite naqueles horizontes e

 perspectivas que so representadas pela percepo ?
 Uma teoria da

 percepo no poderia , ao contrrio , contribuir para especificar mais

 detalhadamente a relao entre jogo de linguagem e forma de vida ?

 ( 2 ) Inversamente , a teoria do " sentido encarnado " ( Waldenfels 1983 ,

 cap. 3. ) de Merleau-Ponty poderia se enriquecer se a ela subjazer uma

 crtica analtica da linguagem .
 Merleau-Ponty tambm fala daquilo que

 gira em torno de conexes funcionais entre os organismos e o seu meio

 ambiente , a saber , a intencionalidade .
 A ela corresponde o princpio

 bsico de Husserl de uma intencionalidade " atuante " , que no  uma

 intencionados de atos conscientes , mas sim que fundamenta uma " unidade

 natural , ante-predicativa do homem e do mundo " ( MP 1966 , pg. 15 ) .

 Tendo em vista que Merleau-Ponty estende o mbito do intencional ao

 agir motor , afetivo e sexual , o processo de constituio de sentido

 pode tambm ter lugar na espontaneidade corporal e substituir o ` eu

 penso ' cartesiano pelo ` eu posso ' originrio ( ibid. , pg. 166 ) .
 A

 concepo de uma intencionalidade fundada no corpo e perceptiva torna

 possvel a Merleau-Ponty estabelecer um contnuo genealgico entre a

 organizao fsica da percepo e sua interpretao simblica e

 cultural ( Metraux 1986 , pg. 232 ) .
 Esse uso inflacionrio do conceito

 de intencionalidade faz com que conceitos como ` sentido ' e

 ` significado ' se tornem imprecisos , de modo que a desejada transio

 de um sentido concreto e corporal para o significado lingustico no

 possa mais ser realizada teoricamente .
 Uma teoria que associa uma

 funo constitutiva de sentido a reflexos fsicos e meras figuras

 corre o risco de confundir o sentido no-proposicional com o sentido

 proposicional de ` perceber ' .
 Wittgenstein deixa claro , com o exemplo

 do ` ver-asepcto ' , que uma tal confuso leva a dificuldades insolveis .

 Se a afirmada auto-organizao da percepo de si , por parte do

 terico da Gestalt , fosse gerada a partir de algo como o significado ,

 ento teria de ser possvel que algum que conhece um coelho mas no

 um pato , diante da figura pato-coelho , considere ainda um outro

 aspecto  parte do ` aspecto-coelho ' , mesmo que ele no tenha nenhuma

 palavra para o segundo , i.e. , o ` aspecto-pato ' ( Bemerkungen ber die

 Philsophie der Psychologie , parte I , pg. 70 ) .
 O discurso a partir de

 meras figuras corre o risco de contrariar o nosso uso ordinrio da

 linguagem .
 A suposio de que eu percebo primeiramente um algo

 determinado no se harmoniza com o modo como ns usualmente conferimos

 expresso a nossas experincias visuais .
 Eu afirmo ver um coelho , no

 uma figura ou um objeto visual a partir do qual eu posso depois

 afirmar que fora um coelho o que , naquele momento , eu via na figura .

 ( 3 ) Faz parte de uma teoria fenomenolgica da intencionalidade que a

 experincia  uma transcrio do vivido atual e comum ( Husserl 1963 ,

 parag. 20 ) .
 A idia de uma intencionalidade constitutiva de sentido ,

 que se move em horizontes abertos de interpretaes potenciais do

 percebido , corresponde  idia de que o homem possui a capacidade de

 negao .
 Ele pode romper sistemas de regra existentes e criar novos .

 Isso vale tambm para a linguagem .
 O fato de que sinais lingusticos

 possam ser empregados de maneira imprevista  , por sua vez ,

 constitutivo de significado .
 Novos jogos de linguagem podem modificar

 nossa forma de vida .
 Cada emprego de um conceito contribui para sua

 formao .
 A multiplicidade de possibilidades de uso de nossas relaes

 com o meio lingustico d margem  concepo de uma " linguagem

 atuante " , que tanto cria algo de novo quanto se deixa ela prpria ser

 provocada pelos dados e estimulada para essa atividade produtiva .
 Para

 Merleau-Ponty , aprende-se a conhecer uma tal linguagem efetiva ou

 atuante apenas de dentro e atravs da prxis ( MP , 1986 , pg. 168 ) .
 E ,

 de fato , Wittgenstein afirma na Gramtica Filosfica que compreender

 uma linguagem significa ter presente o simbolismo com o qual a

 linguagem pode falar por si mesma .

 in Casati , G. ( et allia ) ( ed. ) ( 1993 ) : Philosophie und die cognitiven

 Wissenschaften , Kirchberg : sterreichischen Ludwig Wittgenstein

 Gesellschaft , pgs. 123-6 .

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