 A RELAO ENTRE SENTIDO E REFERNCIA A PARTIR DO OLHAR DE FREGE

 Marinalva Vieira Barbosa

 Aluna do Curso de Mestrado em Lingstica - IEL UNICAMP

 marinalv@iel.unicamp.br

 Qual o significado do que voc est falando ?
 O que voc quer dizer com isso ?
 Es

 sas so questes que marcam o nosso cotidiano , mas que refletem tambm uma

 polmica que faz parte dos estudos semnticos .
 A definio do sentido das

 palavras no mundo , a necessidade de especificar a que o sentido se refere , de

 que ele fala , tem sido uma busca de diferentes tericos ligados ao campo da

 Semntica .
 O Filsofo Alemo Gottlob Frege , por exemplo , buscou amparo na

 lgica para desenvolver a sua teoria sobre o sentido e o referente .
 A abordagem

 freguiana postula que o estudo do significado tem como base o conceito de

 verdade .
 Um nome prprio , por exemplo , tem significado quando conseguimos

 alcanar , atravs do seu sentido , o objeto no mundo. ( p. 94 )

 A relao entre o significado da palavra e seu referente foi discutida por

 Frege no clssico ensaio Sobre o sentido e a referncia ( 1982 ) .
 Frege inicia

 seu texto afirmando que a igualdade desafia a reflexo dando origem a questes

 que no so muito fceis de responder .
 A relao de igualdade ou a explicao

 de como  possvel que uma sentena da forma a = a tenha valor cognitivo

 diferente de uma sentena da forma a = b  o ponto de partida do texto referido .

 No caso de a = a , trata-se da relao que o objeto tem consigo mesmo ; j em a = b a

 relao de igualdade  constituda entre dois sinais ou nomes diferentes que se

 referem a um mesmo objeto. ( p .61 )

  a considerao de que o sentido de uma expresso ou de uma sentena no se

 confunde com o objeto de referncia que torna possvel explicar como os valores

 cognitivos de a = a e de a = b diferem .
 Numa afirmao do tipo a estrela da manh 

 a estrela da manh , teramos uma relao do tipo a = a , em que o verbo ser

 estabelece uma relao de identidades entre dois objetos .
 Neste caso , no h

 diferena nem distino de sentidos .
 J na afirmao a estrela da manh  a

 estrela da tarde , temos uma relao do tipo a = b , pois dois sentidos diferentes

 so usados para referir a um mesmo objeto .

 As relaes do tipo a = a so denominadas de analticas e so verdadeiras em

 qualquer circunstncia .
  uma verdade bvia .
 J a expresso a = b remete a uma

 relao descritiva .
 Neste caso , o verbo ser liga expresses com sentidos

 diferentes , estabelecendo uma relao de identidade a partir de elementos

 diferentes .
 Na relao a = b existem extenses muito valiosas de nosso

 conhecimento , e nem sempre podem ser estabelecidas a priori .
 As expresses

 apresentadas nos exemplos acima tm um mesmo referente - o planeta Vnus - no

 entanto , existem dois modos de referir a este objeto .
 Estrela da manh e

 estrela da tarde so duas expresses com sentidos diferentes que remetem a um

 mesmo objeto. ( p. 61 )

 Tomando como base um sistema ternrio , Frege concebe o signo a partir da

 distino entre nome prprio , sentido e referncia .
 Usando como exemplo as

 linhas constitutivas do tringulo , o terico afirma que os pontos que ligam a e

 b e a e c apresentam a mesma interseco , isto  , so descries que apresentam

 o mesmo ponto de referncia , mas com sentidos diferentes .
 Para Guimares

 ( 1995 ) , Frege trata a igualdade como sendo uma relao entre os sinais a e b e

 no entre os objetos designados por a e b .
 Assim , uma diferena s poder

 aparecer se  diferena entre sinais corresponde uma diferena no modo de

 apresentao daquilo que  designado. ( p .61 )

 Os diferentes modos de referir a um mesmo objeto , segundo Oliveira ( 2001 ) ,

 mostra que a teoria desenvolvida por Frege considera que o significado envolve

 pelos menos dois conceitos : o de sentido e o de referncia .
 Essa face dupla do

 significado  responsvel pela ambigidade existente em perguntas do tipo : qual

 o significado da cor vermelha ?
 Tal pergunta pode mobilizar dois tipos de

 respostas : uma que aponta para o seu referente , no caso uma amostra do

 vermelho ; a outra resposta pode envolver definies que falam da categoria do

 vermelho como pertencente s chamadas cores primrias , ou seja , que remetem ao

 sentido que o vermelho tem .
 Ao perguntar pelo significado de uma palavra

 podemos ter respostas que falam de sua referncia ou que falam do seu sentido .

 A descrio do conceito de significado toma como ponto de partida o conceito de

 verdade , isto  , trata-se de uma proposta semntica que est fundamentada na

 relao da linguagem com os objetos no mundo , sendo o referente a condio

 fundamental para a compreenso do significado .
 O referente  o objeto no mundo ,

 que por sua vez , s pode ser alcanado a partir do seu sentido .
 Neste contexto ,

 um nome prprio exprime seu sentido e designa ou refere-se a sua referncia .

 Por meio de um sinal exprimimos seu sentido e designamos a sua referncia .

 ( p .67 )

 Para Frege , quando as palavras so usadas de forma costumeira fala-se de

 referncia .
 No entanto , tambm podem ser usadas para referir a si prprias ou

 sobre o seu sentido .
 Isto ocorre quando recorremos s palavras de outrem para

 falarmos de um determinado assunto .
 As palavras de quem cita tm como

 referncia as palavras citadas , sendo que somente as palavras trazidas de um

 outro contexto  que apresentam referncia usual .
 Da termos sinais de sinais .

 O outro caso que ocorre nestas circunstncias  o da citao indireta , em que

 usamos o sentido das palavras de outrem , mas no as mobilizamos diretamente

 para o contexto de uso , ou seja , quando fazemos uma citao indireta , as

 palavras tambm no apresentam uma referncia costumeira .

 Outra noo tambm implicada no conceito de significado  a de representao ,

 que trata do aspecto subjetivo do significado .
 A representao apresenta muitas

 diferenas no sentido de um sinal por ser resultado de um olhar individual

 sobre um determinado objeto .
 A representao que algum tem da lua , por

 exemplo ,  nica .
 Da Frege dizer que a representao deve ser vinculada a uma

 poca .
 Retomando a cor vermelha , podemos dizer que atualmente no Brasil ela

 suscita diferentes representaes dependendo dos envolvidos .
 Para um militante

 do MST , vermelho significa luta pela conquista da terra .
 J para um integrante

 do movimento ruralista , esta cor est ligada aos movimentos de esquerda , que

 por sua vez representam baderna , desrespeito e transgresso a ordem

 estabelecida .
 Para o primeiro , a cor representa necessidade de conquistar ,

 tornar vlido um direito ; para o segundo , ela representa a quebra de uma ordem

 estabelecida , a quebra de direitos .
 Nos dois casos , a cor - o referente do

 vermelho - no muda , no h um vermelho para o sem-terra e outro para o

 militante do movimento ruralista , o que muda  a forma de ver o vermelho .

 As representaes mudam de acordo com a poca e os envolvidos , mas o sentido

 cor primria que difere do azul ou do amarelo e a referncia uma amostra da cor

 vermelha so comuns a todos os falantes de uma comunidade , so compartilhados .

 Da a representao diferir do sentido de um sinal , que pode ser propriedade de

 muitos e no resultado de um olhar individual .
 Segundo Frege , os sentidos so o

 tesouro comum de pensamentos da humanidade , so resultados dos vrios caminhos

 traados por nossos antepassados e revelam os diferentes modos de apresentar e

 conhecer um objeto .

 Diante disso , pode-se dizer que a referncia do nome prprio  o objeto que

 ocupa um lugar no mundo , j a representao  resultado do olhar individual

 sobre o objeto , o que faz com que esta tenha um carter nico e subjetivo .

 Entre a referncia e a representao est o sentido , que no apresenta a mesma

 subjetividade da representao , mas tambm no  o objeto .
 O sentido  o que

 tem de estvel , de compartilhvel na lngua .
 O carter subjetivo da

 representao fez com que Frege a exclusse dos estudos semnticos ,

 considerando tratar-se de uma questo de interesse da psicologia .
 A discusso

 sobre este assunto aparece em seu texto com a finalidade de evitar que a

 representao seja confundida com o sentido ou com a referncia .

 Ao discutir o caso das sentenas assertivas completas , Frege afirma que o

 pensamento sentido das sentenas - no pode ser a referncia da sentena porque

 muda .
 Observa-se que a referncia parece na teoria freguiana como uma condio

 fundamental , tanto que Frege postula no s a necessidade de o nome prprio

 apresentar uma referncia , mas tambm a sentena .
 Assim , ao sentido de uma

 sentena chamou de pensamento e  sua referncia de valor de verdade .
 Tal

 condio traz o problema das sentenas que possuem sentido , mas que no tm uma

 referncia .

 Como pensar , por exemplo , uma referncia para sentena do tipo Papai Noel tem

 uma barba longa e muito branca ?
 Como pleitear um valor de verdade para tal

 sentena ?
 Segundo Frege , por no ser um objeto no mundo , por ser um nome sem

 referncia , no  possvel dizer se  uma sentena verdadeira ou falsa .
 A

 condio de verdade de uma sentena pode ser afirmada a partir de sua

 existncia no mundo , ou seja , a sentena Papai Noel tem uma barba longa e muito

 branca no pode ser considerada verdadeira ou falsa porque  uma criao

 imaginria cuja existncia no pode ser comprovada .
  uma criao que faz parte

 do imaginrio das pessoas , portanto para a teoria freguiana  totalmente

 irrelevante que tenha referncia ou no , isto porque  a busca da verdade que

 possibilita o movimento do sentido para a referncia .

 Segundo Oliveira ( 2001 ) , a forma como Frege resolve o problema criado pelos

 nomes relacionados ao mundo ficcional decorre de sua posio quanto ao problema

 da pressuposio existencial .
 A sentena Papai Noel tem uma barba longa e muito

 branca carrega a pressuposio de que papai noel existe .
 Negamos ou afirmamos

 uma sentena se consideramos que sua pressuposio de existncia  verdadeira .

 Se partimos do pressuposto de que papai noel no existe , ento no podemos

 tecer qualquer juzo sobre tal sentena , ou seja , no se pode afirmar a

 condio de verdade ou falsidade sobre sentenas que falam de papai noel .
 Para

 Guimares :

 Frege ( ...
 ) ao ser levado a tratar a pressuposio , trouxe para os estudos da

 significao a questo da exterioridade no sentido , no para inclu-la , mas

 para exclu-la de modo direto na sua formulao .
 Note-se que o nico exterior a

 ser considerado para Frege  o dos objetos , e o dos valores de verdade .
 A

 excluso de Frege  interessante porque o que ele exclui  a relao de sentido

 entre a sentena e um j-dito fora da sentena , o que ele exclui  linguagem .
 

 a exterioridade enquanto linguagem. ( 1995 , p. 86 )

 Por aspirar a construo de uma linguagem perfeita , que no apresentasse os

 mesmos problemas da linguagem natural , Frege deixa de fora de sua teoria aquilo

 que no pode ter uma referncia no mundo , pois parte do princpio de que a

 linguagem natural apresenta ambigidades que poderiam ser eliminadas numa

 linguagem artificial , objetiva .
 Para construir essa linguagem perfeita , apela

 para um mundo em que nomes e sentenas , necessariamente , precisam ter uma

 referncia .
 Somente quando pensa a representao  que afasta-se desse mundo ,

 mas a coloca no campo do individual .

 Assim , se as palavras so usadas de modo corrente , o que se pretende falar  de

 sua referncia .
 Utilizando as palavras do modo em que so conhecidas por

 aqueles que usam um sistema lingstico , a referncia  o objeto no mundo do

 qual se quer falar .
 Nos contextos indiretos , considerados opacos , a referncia

 localiza-se em outras palavras .
 Mas em tais condies no se fala em referncia

 usual , mas indireta. ( p. 64 )

 Ao discutir as condies em que o valor de verdade de uma sentena pode ser

 mantido , Frege afirma que no ocorre alterao quando  possvel trocar uma

 expresso por outra que tenha a mesma referncia .
 Nos exemplos Marta  a me de

 Carla e a professora de portugus  a me de Carla temos duas formas diferentes

 para falar de um mesmo referente , ou seja , os sentidos dessas expresses podem

 ser intercambiados sem que o seu valor de verdade seja alterado .

 No entanto , essa condio sofre alterao quando tratamos das sentenas

 complexas em discurso direto e indireto , pois nesses casos no apresentam um

 pensamento independente .
 Isto ocorre porque uma sentena em discurso direto

 remete a uma outra sentena e em discurso indireto a um pensamento .
 Da a

 concluso de que nas sentenas subordinadas , as substituies no se do entre

 expresses com referncia costumeira , mas entre as que apresentam um sentido

 costumeiro .

 Na sentena Colombo inferiu que da redondeza da terra poderia alcanar a ndia

 viajando em direo ao oeste esto presentes como referncia dois pensamentos

 diferentes : o de que a terra  redonda e o de que Colombo descobriu as ndias .

 Isso no  suficiente para que possamos afirmar que se trata de uma sentena

 verdadeira ou falsa , uma vez que a condio de verdade  estabelecida pela

 convico de Colombo de que a terra  redonda e de que podia chegar s ndias .

 A condio esfrica da terra e o sucesso da viagem no so importantes para a

 verdade da sentena. ( p. 73 )

 No exemplo acima , se for feita uma substituio por outra sentena que tenha a

 mesma referncia , poder ocorrer alterao no valor de verdade da sentena

 complexa , pois estamos tratando da crena de Colombo .
 Nesses casos , nos diz

 Frege , podemos realizar substituies desde que mantenhamos inalterado o

 sentido das expresses e no a referncia .
 Isto  , podemos substituir por uma

 sentena sinnima. ( Oliveira , 2001 , p. 119 )

 Por estar falando de linguagem a partir do campo da lgica , a preocupao com a

 verdade , para Frege , estava ligada  necessidade de encontrar as vrias

 maneiras por meio das quais o pensamento se apresenta , da a busca de um modelo

 de sentena que satisfaa as condies que defende em sua teoria .
 Para tanto ,

 toma como modelo sentenas subordinadas cujas palavras tenham referncias

 costumeiras e no apresentam um pensamento como sentido nem um valor de verdade

 como referncia .

 No exemplo : aquele que descobriu a forma elptica das rbitas planetrias

 morreu na misria , segundo Guimares ( 1995 ) , a expresso subordinada que

 descobriu a forma elptica planetria no apresenta referncia nem sentido .
 A

 ausncia de sentido  explicada pelo fato de ser uma expresso que no pode ser

 usada de forma independente .
 Por outro lado , a referncia tem como objetivo

 designar algum Kepler , o descobridor o que no encerra um valor de verdade .

 Para Frege , o que  afirmado na subordinada no faz parte do que se afirma na

 sentena complexa .
 Isto pode ser verificado a partir do teste da negao e da

 interrogao .
 Negao ou interrogao , tanto uma como a outra vo incidir

 somente na orao principal .

 Esse modelo permite que Frege contorne , por exemplo , o problema colocado pela

 sentena com discursos direto e indireto , pois pode fazer a substituio de uma

 sentena por outra que tenha a mesma referncia sem que o valor de verdade seja

 alterado .
 As sentenas subordinadas apresentam apenas uma parte do pensamento

 contido na sentena complexa e no tem um valor de verdade como referncia .
 Tal

 condio  possvel porque ou as palavras da sentena subordinada tm uma

 referncia indireta , de modo que a referncia da subordinada , e no o seu

 sentido , constitui um pensamento , ou bem a sentena subordinada , por conter um

 indicador indefinido ,  incompleta e s exprime um pensamento quando justaposta

  sentena principal ( p. 81 ) .

 Em suma , a separao feita por Frege entre sentido e referente  resultado de

 uma concepo que busca racionalizar a linguagem .
 Essa busca pela objetivao 

 a responsvel pela idia de que seria possvel construir uma mquina que

 reproduzisse de forma limpa e objetiva a competncia semntica de um falante .

 Recorrendo s palavras de Oliveira ( 2001 ) , podemos dizer que a mquina

 freguiana consegue imitar a criatividade semntica do falante , mas no d conta

 de explicar toda a sua complexidade .
  uma tarefa espinhosa higienizar a

 linguagem , matematizar o sentido , pois trata-se de algo cujo os limites no so

 redutveis a uma definio e nem passveis de explicaes exatas .

 BIBLIOGRAFIA

 FERRARI , Ana Josefina .
 A voz do dono uma anlise das descries feitas nos

 anncios de jornal dos escravos fugidos no oeste paulista entre 1870-1876 .

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 [ INLINE ]

 ISSN 1517-5421 lath biosa

 ANO I , N  130 - JANEIRO - PORTO VELHO , 2003

 UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA ( UFRO )

 CENTRO DE HERMENUTICA DO PRESENTE

 EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA

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