 VOZES BAKHTINIANAS : BREVE DILOGO

 Maria Celeste Said Marques

 Professora de Anlise do Discurso UFRO

 marques@enter-net.com.br

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 Neste artigo , meu procedimento ser fazer uma breve e concisa introduo ao pen

 samento de Mikhail Bakhtin .
 Para isso analisarei alguns conceitos e categorias .

 Interessam-me suas concepes relacionadas  linguagem , principalmente 

 interao verbal , ao dialogismo ,  repetio e  criao .
 Com efeito , centro-me

 em sua abordagem dialtica a partir de suas consideraes sobre o carter

 ideolgico do signo lingstico e da natureza eminentemente semitica ( e

 ideolgica ) da conscincia .

 Bakhtin  um dos maiores pensadores do sculo XX e um terico fundamental da

 lngua .
 Em Marxismo e filosofia da linguagem est sua teoria da linguagem e do

 dialogismo. Bakhtin enfatizou a heterogeneidade concreta da parole , ou seja , a

 complexidade multiforme das manifestaes de linguagem em situaes sociais

 concretas , diferentemente de Saussure e dos estruturalistas , que privilegiam a

 langue , isto  , o sistema abstrato da lngua , com suas caractersticas formais

 passveis de serem repetidas .
 Bakhtin concebe a linguagem no s como um

 sistema abstrato , mas tambm como uma criao coletiva , integrante de um

 dilogo cumulativo entre o eu e o outro , entre muitos eus e muitos outros .

 A linguagem constitui a centralidade da obra de Bakhtin .
 Ao delimitar a

 linguagem como objeto de estudo especfico , h , na filosofia da linguagem e nas

 divises correspondentes da lingstica geral , duas orientaes principais .
 

 primeira , ele chama de subjetivismo idealista e ,  segunda , de objetivismo

 abstrato .

 A crtica epistemolgica de Bakhtin / Voloshinov considera que o subjetivismo

 idealista , ao reduzir a linguagem  enunciao monolgica isolada , e o

 objetivismo abstrato , ao reduzir a linguagem a um sistema abstrato de formas ,

 constituem um obstculo a uma apreenso totalizante da linguagem .
 Para

 Bakhtin / Voloshinov , a compreenso ampla da natureza da linguagem no est no

 meio dessas duas orientaes ; ela est alm .
 Para superar , dialeticamente ,

 essas posies dicotmicas , props a interao verbal por ser uma idntica

 recusa tanto da tese como da anttese , e constituir uma sntese dialtica .

 Interao Verbal

 O carter interativo da linguagem  a base do arcabouo terico bakhiniano .
 A

 linguagem  compreendida a partir de sua natureza scio-histrica .
 A propsito ,

  significativa a seguinte afirmao de Bakhtin / Voloshinov ( 1992a:41 ) : as

 palavras so tecidas a partir de uma multido de fios ideolgicos e servem de

 trama a todas as relaes sociais em todos os domnios .

 Para Bakhtin / Voloshinov , o ato de fala , ou exatamente , o seu produto , a

 enunciao , no pode ser considerado levando-se somente em considerao as

 condies psicofisiolgicas do sujeito falante - apesar de no poder delas

 prescindir .
 A enunciao  de natureza social e para compreend-la  necessrio

 entender que ela acontece sempre numa interao .
 A verdadeira substncia da

 lngua  constituda , para Bakhtin , pelo fenmeno social da interao verbal ,

 realizada por meio da enunciao ou das enunciaes .
 A interao verbal

 constitui assim a realidade fundamental da lngua ( 1992a:123 ) .

 A enunciao  o produto da interao de dois indivduos socialmente

 organizados .
 A palavra dirige-se a um interlocutor real e variar em funo

 desse : em relao ao grupo social a que ele pertence , aos laos sociais , etc .

 No pode haver interlocutor abstrato , pois no teramos linguagem com tal

 interlocutor , mesmo no sentido figurado .

 Uma das formas mais importantes da interao verbal  o dilogo , caracterizado

 no apenas como comunicao em voz alta , de pessoas face a face , mas toda

 comunicao verbal , de todo tipo .
 Qualquer enunciao constitui apenas uma

 frao da corrente da comunicao verbal ininterrupta ( relativa  vida

 cotidiana ,  literatura , ao conhecimento ,  poltica , etc ) .
 Por sua vez a

 comunicao verbal ininterrupta constitui apenas um momento na evoluo

 contnua e em todas as direes de um grupo social determinado .

 Conforme Bakhtin / Voloshinov ( 1992a:124 ) , a lngua vive e evolui historicamente

 na comunicao social concreta .
 Dessa forma , para ele , a lngua  vista a

 partir de uma perspectiva de totalidade , integrada  vida humana .
 A lingstica

 no pode dar conta de explicar um objeto multifacetado .
 Para explicar a

 dialogicidade , o aspecto lingstico no  suficiente .
 Por isso , ele acrescenta

 o contextual e prope assim uma disciplina , a metalingstica ou

 translingstica , para estudar o enunciado .

 A abordagem que Bakhtin / Voloshinov prope para o discurso - que ultrapassa os

 limites da lingstica -  a do estudo da prpria enunciao .
 A estrutura da

 enunciao concreta  determinada inteiramente pelas relaes sociais , ou seja ,

 pela situao social mais imediata e pelo meio social mais amplo .

 Para Bakhtin / Voloshinov , a enunciao  produto da interao de dois indivduos

 socialmente organizados e , mesmo que no haja um interlocutor real , este pode

 ser substitudo por um representante ideal , mas que no pode ultrapassar as

 fronteiras de uma classe e de uma poca bem definidas ( 1992a:112 ) .

 A palavra se orienta em funo do interlocutor .
 Na realidade , a palavra

 comporta duas faces : procede de algum e se dirige para algum .
 Ela  o produto

 da interao do locutor e do interlocutor ; ela serve de expresso a um em

 relao ao outro , em relao  coletividade .
 A palavra  uma espcie de ponte

 lanada entre mim e os outros .
 Se ela se apia sobre mim numa extremidade , na

 outra se apia sobre o meu interlocutor .
 A palavra  o territrio comum do

 locutor e do interlocutor ( Bakhtin / Voloshinov , 1992a:113 ) .

  a partir da concepo de linguagem de Bakhtin que nasce uma das categorias

 bsicas de seu pensamento , que  o dialogismo .
  a partir dela que ele estuda o

 discurso interior , o monlogo , a comunicao diria , os vrios gneros de

 discurso , a literatura e outras manifestaes culturais .
 Ele aborda o dito

 dentro e como rplica do j-dito .

 Dialogismo

 Olhar o mundo de um ponto de vista para melhor captar o movimento dos fenmenos

 em sua pluralidade e diversidade no  apenas a postura filosfica de Bakhtin ,

 mas tambm , e principalmente , a orientao de seu sistema terico fundado no

 dialogismo .
 Para Bakhtin , a atividade do dilogo e da criao do personagem no

 interior da literatura  modelar para o dilogo e a criao em todos domnios

 da vida .
 O autor da obra literria , assim como o eu concebido por Bakhtin  uma

 entidade dinmica em interao com outros eus e personagens .

 As idias de Bakhtin sobre o homem e a vida so caracterizadas pelo princpio

 dialgico .
 A alteridade marca o ser humano , pois o outro  imprescindvel para

 sua constituio .
 Como afirma Bakhtin , a vida  dialgica por natureza .
 Assim ,

 a dialogia  o confronto das entoaes e dos sistemas de valores que posicionam

 as mais variadas vises de mundo dentro de um campo de viso : na vida agimos

 assim , julgando-nos do ponto de vista dos outros , tentando compreender , levar

 em conta o que  transcendente  nossa prpria conscincia : assim levamos em

 conta o valor conferido ao nosso aspecto em funo da impresso que ele pode

 causar em outrem [ ...
 ] ( Bakhtin / Voloshinov , 1992a:35-36 ) .

 Neste artigo , por questes de ordem metodolgica , foram separadas as duas

 noes de dialogismo que permeiam os escritos de Bakhtin : dilogo entre

 interlocutores e dilogo entre discursos .

 A interao entre interlocutores  o princpio fundador da linguagem .
  na

 relao entre sujeitos , ou seja , na produo e na interpretao dos textos que

 se constroem o sentido do texto , a significao das palavras e os prprios

 sujeitos .
 Com efeito , pode-se dizer que a intersubjetividade  anterior 

 subjetividade .
 Esta  o resultado da polifonia das muitas vozes sociais que

 cada indivduo recebe , mas que tem a condio de reelaborar , pois como ensina

 Bakhtin / Voloshinov , o ser , refletido no signo , no apenas nele se reflete , mas

 tambm se refrata ( 1992a:46 ) .

 Esses aspectos do dialogismo interacional de Bakhtin , assinalados acima ,

 contribuem para a compreenso , dentre outras caractersticas do discurso , os

 simulacros e as avaliaes entre os sujeitos .
 Destaque-se que a construo de

 tais caractersticas no so individuais , mas assentadas naquilo que Bakhtin

 denomina horizonte ideolgico , ou seja , na relao entre sujeitos ( entre

 interlocutores que interagem ) e a dos sujeitos com a sociedade .

 Bakhtin argumenta que cada um de ns ocupa um lugar e um tempo especficos no

 mundo , e que cada um de ns  responsvel ou respondvel por nossas atividades .

 Estas ocorrem nas fronteiras entre o eu e o outro , e , portanto , a comunicao

 entre as pessoas tem uma importncia fundamental .

 Enfatizei que Bakhtin considera o dialogismo como o princpio constitutivo da

 linguagem e como a condio do sentido do discurso .
 Dessa forma , o discurso no

  individual tanto pelo fato de que ele se constri entre , pelo menos , dois

 interlocutores que , por sua vez , so seres sociais ; como pelo fato de que ele

 se constri como um dilogo entre discursos , isto  , mantm relaes com outros

 discursos .
 O discurso , para Bakhtin ,  uma construo hbrida , ( in ) acabada por

 vozes em concorrncia e sentidos em conflito .

 O dialogismo  o permanente dilogo entre os diversos discursos que configuram

 uma sociedade , uma comunidade , uma cultura .
 A linguagem  , portanto ,

 essencialmente dialgica e complexa , pois nela se imprimem historicamente e

 pelo uso as relaes dialgicas dos discursos .
 A palavra  sempre perpassada

 pela palavra do outro .
 Isso significa que o enunciador , ao construir seu

 discurso , leva em conta o discurso de outrem , que est sempre presente no seu .

  nesse quadro , portanto , que me interessam mais de perto as relaes

 dialgicas que tomam forma e sentido nos textos .
 O objetivo do analista 

 analisar as vozes que esto impregnadas nos discursos , ou seja , os discursos

 que esto interagindo , mesmo que tal interao no esteja , algumas vezes , to

 evidente ou explcita e que , no entanto , a partir dela , os sujeitos se

 constituem e mostram sua inventividade .

 Repetio e criao

 O enunciado verbal no  simples reflexo ou expresso de algo que lhe

 pr-existe ; que est fora dele , dado e pronto .
 Para Bakhtin ( 1992b:348 ) , o

 enunciado sempre cria algo que , antes dele , no existira , algo novo e

 irreproduzvel , algo que est sempre relacionado com um valor ( a verdade , o

 bem , a beleza , etc. ) .
 Entretanto , qualquer coisa criada se cria sempre a partir

 de uma coisa que  dada ( a lngua , o fenmeno observado na realidade , o

 sentimento vivido , o prprio sujeito falante , o que  j concludo em sua viso

 do mundo , etc. ) .
 O dado se transfigura no criado .

 Para Bakhtin ,  mais fcil estudar , no criado , o que  o dado , como , por

 exemplo , os elementos de conjunto de uma viso do mundo , os fenmenos

 refletidos da realidade , etc. , do que estudar o criado .
 Ele diz : toda anlise

 cientfica se resume , no mais das vezes , a descobrir o que j estava dado , j

 presente e pronto antes da obra [ ...
 ] .
  como se todo o dado se reconstrusse

 de novo no criado , se transfigurasse nele ( Baktin , 1992b:349 ) .
 Dessa forma , tudo

  reduzido ao dado prvio , ao j pronto .
 Na verdade , o objeto vai edificando-se

 durante o processo criador , e o poeta tambm se cria , assim como sua viso do

 mundo e seus meios de expresso ( Bakhtin , 1992b:349 ) .

 As possibilidades e as perspectivas que esto presentes nas palavras e nas

 formas concebidas como abreviaturas ou representante de um enunciado , de uma

 viso do mundo , de um ponto de vista , etc. reais ou virtuais so infinitas ,

 segundo Bakhtin .
 Como se pode perceber , essa posio de Bakhtin  o oposto do

 posicionamento de Althusser e Pcheux sobre a categoria sujeito .
 Com efeito , a

 categoria criao do Bakhtin se ope a categoria do sujeito assujeitado , do

 lacano-althusserianismo , de Pcheux

 .

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 ANO I , N  36 - AGOSTO - PORTO VELHO , 2002

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