 REJEIO versus ACEITAO DE KANT

 NA FILOSOFIA ANALTICA CONTEMPORNEA

 The semantic tradition may be defined by its problem , its enemy , its goal , and

 its strategy. Its problem was the a priori ; its enemy , Kant's pure intuition ;

 its purpose , to develop a conception of the a priori in which pure intuition

 played no role ; its strategy , to base that theory on a development of

 semantics .

 A. Coffa , The Semantic Tradition from Kant to Carnap .

 Introduo

 O retorno a Kant

 No ltimo quarto do sculo , a historiografia sobre a filosofia

 analtica tem evocado frequentemente e com alguma insistncia a

 influncia de Kant neste ou naquele filsofo contemporneo ou nesta ou

 naquela problemtica analtica privilegiada ,  revelia , muitas vezes ,

 dos autores comentados , quando no das prprias interpretaes

 analticas tradicionais e mais ou menos " oficiais " a respeito dessa

 influncia .
 Na perspectiva destas ltimas , a rejeio da filosofia de

 Kant ( e , portanto , da sua influncia )  uma consequncia natural da

 rejeio analtica quer do fundacionalismo da Crtica da razo pura

 quer da problemtica caracteristicamente epistemolgica desse livro e

 da sua expresso na filosofia da linguagem e na filosofia da cincia

 contempornas , e , em particular , da actualidade da teoria kantiana

 sobre a distino entre o analtico e o sinttico , e a possibilidade

 do sinttico a priori , para uma teoria sistemtica da significao que

 unificaria esses domnios .
 Mas , por outro lado e em contraste , a

 historiografia mais recente da filosofia analtica ( Coffa , 1986 , 1995 ;

 Rorty , 1988 ; Friedman , 1992 , 1993 ) sugere claramente a existncia de

 uma continuidade mais ou menos essencial entre a problemtica kantiana

 referida , e , de maneira geral , o fundacionalismo kantiano , e a

 problemtica das diferentes vertentes do movimento analtico desde as

 suas origens at aos nossos dias , a qual ocorreria justamente a

 despeito dessa reiterada rejeio da actualidade da filosofia de Kant ,

 quer dizer , sem que os filsofos analticos tivessem necessariamente

 conscincia dela .

 Deste ltimo ponto de vista , do que se trata , desde logo ,  de um

 retorno no inteiramente assumido a Kant , ou a certos aspectos

 fundamentais da sua filosofia reequacionados  luz da problemtica

 analtica contempornea ; e , depois , na medida em que esse retorno

 significa um regresso s orientaes epistemolgicas mais ou menos

 esprias da filosofia kantiana , do que se trata para essa

 historiografia , no fundo ,  de fazer um diagnstico e a devida

 consciencializao das razes que tero conduzido ao fracasso aparente

 das solues analticas contemporneas a respeito da teoria da

 significao , e , em ltima anlise , da prpria filosofia analtica de

 maneira geral .
 Como Rorty dir , em jeito de balano final : " A

 ' filosofia analtica '  mais uma variante da filosofia kantiana , uma

 variante marcada principalmente pela considerao da representao

 como mais lingustica do que mental , e da filosofia da linguagem em

 detrimento da ' crtica transcendental ' , ou da psicologia , como a

 disciplina que exibe os ' fundamentos do conhecimento ' .
 Esta tnica na

 linguagem ( ...
 ) no altera a essncia da problemtica

 cartesiana-kantiana , e no confere verdadeiramente uma nova imagem de

 si mesma  filosofia .
 Porque a filosofia analtica [ tal como Kant ]

 est ainda empenhada na construo de um quadro permananente e neutro

 para o inqurito e , por conseguinte , para o resto da cultura. " ( Rorty ,

 1988 : 19 )

 Este retorno a Kant parece ser determinado no s pela necessidade de

 fazer um diagnstico do suposto falhano da filosofia analtica em

 matria de teoria da significao , mas , sobretudo , de perspectivar a

 filosofia analtica ela mesma na histria da filosofia , e na histria

 da filosofia analtica em especial , em contraste com uma bem conhecida

 orientao claramente anistrica da mesma no passado , cujo carcter

 nefasto agora se verbera geralmente de forma explcita .
  claro que ,

 reencontrando Kant nas origens mais ou menos remotas dos seus prprios

 problemas essenciais , a histria da filosofia analtica reencontra a

 histria da filosofia ocidental de maneira geral e , em particular , a

 da " filosofia continental " , sem por isso mesmo perder em autonomia e

 especificidade , porque um tal reencontro se dar justamente , e no por

 acaso , com o que de pernicioso ou funesto haver nesta ltima , e que

 se pretende agora diagnosticar ; no caso , como dir Coffa , as

 " negligncias " e " confuses " do idealismo kantiano ( Coffa , 1995 :

 20-21 ) .
 O facto de a histria da filosofia aparecer claramente como o

 centro de um debate possvel , redentor , entre os filsofos analticos

 a respeito de um tal diagnstico , implica , para alm desse divrcio

 entre duas tradies distintas que fica lamentalvelmente por discutir ,

 no tanto a mera inteno de repensar historicamente pela primeira vez

 a problemtica analtica em geral em ordem a alcanar uma superao

 das dificuldades actuais , mas , outrosim , a concepo de acordo com a

 qual a histria da filosofia constitui um instrumento essencial de

 legitimao do que se compreende , mais ou menos diversamente consoante

 os casos , como prtica analtica ideal ( Ribeiro , 1999a : 176ss ) .
  que

 ela , quando devidamente reconstruda e reorientada para o estudo do

 movimento analtico historicamente considerado no seu conjunto , pode

 constituir um esteio privilegiado do desenvolvimento programtico e

 sistemtico do prprio pensamento analtico ( ou do pensamento

 filosfico em geral ) , que era suposto , anteriormente , poder ser

 considerado em si mesmo e independentemente dela .
 Neste sentido , a

 historiografia analtica contempornea vai ao encontro de certas

 orientaes fundamentais na matria propostas nos anos setenta por

 alguns filsofos de relevo , como M. Dummett ( Dummett , 1981 ) e R. Rorty

 ( Rorty , 1988 ) , que , significativamente , foram os primeiros a

 denunciar , na poca , o carcter marcadamente anistrico da

 historiografia analtica tradicional ( Ribeiro , 1998 : 405ss. , 411ss. ;

 1999a : 61-84 ) .

 1 .
 O antema de Kant na histria da filosofia analtica :

 de Frege e de Russell a Quine

  fundamentalmente ao logicismo de Russell , no princpio do sculo XX ,

 que ns devemos o essencial das crticas a Kant por parte do movimento

 analtico posterior , nomeadamente , a posio oficial do positivismo

 lgico vienense na matria a partir do final dos anos vinte .
 Sem

 dvida , G .
 Frege tinha sido anteriormente um crtico severo de Kant

 numa srie de aspectos fundamentais que Russell subscrever ,

 nomeadamente a rejeio do psicologismo kantiano ( Frege , 1992 : 48ss. ;

 58ss. ) .
 E , deste ponto de vista , ter sido ele , sobretudo , que

 introduziu o essencial da postura anti-kantiana que viria a ser

 adoptada pela filosofia analtica ( Quine , 1994b : 107 e 111 ) .
 Mas a

 obra de Frege , com raras excepes ( como Carnap ou Quine ) , s parece

 ter sido conhecida inicialmente no movimento analtico , e entre os

 positivistas lgicos vienenses sobretudo , atravs da interpretao do

 prprio Russell ( Russell , 1992 : 501ss. ) .
 O mesmo poderia dizer-se

 quanto  filosofia analtica em geral at aos anos sessenta ( Dummett ,

 1991 : 179ss. ) .
 Mais importante do que a influncia de Frege sobre os

 positivistas , neste aspecto , importaria talvez salientar , na sequncia

 de R. Haller e de outros ( Haller , 1988 : 3ss. ; Mulligan , 1997 : 75ss. ) a

 influncia de uma certa tradio de pensamento filosfico austraco na

 ltima metade do sculo XIX , que , de B. Bolzano a F. Brentano ,

 procedeu a uma crtica sistemtica de certos aspectos fundamentais da

 filosofia kantiana .
 Mas tambm aqui , significativamente no que 

 influncia de Russell diz respeito , as referncias textuais ou

 implcitas a uma tal tradio entre os positivistas so escassas ou

 praticamente no existentes ( Ribeiro , 1999a : 55 ) .

 Trata-se , com Russell , da crtica resultante do nascimento do

 logicismo , quer dizer , da tese da reduo da matemtica  lgica ( ou

 da ideia de que todos os conceitos e operaes fundamentais da

 matemtica podem ser deduzidos e explicados com a ajuda apenas dos

 princpios da lgica ) ( Russell , 1992 : xx ) .
 Essa crtica conduz a uma

 tese complementar , mas igualmente essencial , que consiste na rejeio

 de todo o interesse epistemolgico para a nova filosofia da lgica e

 da matemtica ( incluindo no apenas o interesse tradicional pelo

 problema da origem e justificao do conhecimento , mas tambm a

 filosofia da cincia propriamente dita ) .

 Um aspecto crucial desta refutao logicista de Kant ,  a ideia de que

 o sujeito tem um papel fundamental no " acto do conhecimento " , e ,

 portanto , de que o objecto de conhecimento  sempre condicionado pelo

 sujeito , s quais Russell ope a sua prpria concepo

 platnico-realista das proposies , e de um conhecimento directo das

 mesmas ( Russell , 1992 : 33 e ss. ) .
 " ( ...
 ) knowledge now appears , como

 dir o comentador de Russell acima citado ( Hylton , 1990 : 145 ) , as

 merely our access to what we know , not as constitutive of it. "  a

 refutao dessa ideia de Kant , finalmente , que conduz  rejeio da

 noo kantiana de sntese a priori , e de todo o aparato conceptual

 psicologista da Crtica da razo pura .
 Uma vez combinada com a

 influncia de Wittgenstein , vamos encontrar o essencial desta crtica

 de Kant , sobretudo a respeito da noo de sntese , no positivismo

 lgico dos anos trinta , com Carnap , Schlick , Reichenbach e outros .

 Agora , a verdade  que o prprio Russell , antes da emergncia do

 logicismo na sua filosofia , quer dizer , antes de Os Princpios da

 Matemtica , subscreveu expressamente certos aspectos fundamentais da

 filosofia de Kant , em particular no que concerne ao problema da

 fundao da geometria ( Russell , 1897 ) , como ele prprio reconhecer

 posteriormente ( Russell , 1959 : 37ss ) , e que , mesmo depois dessa

 emergncia , mais precisamente a partir dos meados dos anos vinte , foi

 tendencialmente levado a faz-lo , sobretudo a propsito do problema da

 justificao da induo ( Russell , 1992b : 175 ; Russell , 1966 : 516ss. ) .

 Por outro lado , o impacto da filosofia de Wittgenstein em geral nessa

 poca , e na sua prpria filosofia em especial ( Wittgenstein , 1932 :

 7-23 ) , parece ter criado as condies para a emergncia da tese do

 positivismo lgico a respeito da existncia de dois tipos fundamentais

 de enunciados ( os tautolgicos e os empricos ou sintticos ) , que

 recoloca em novos termos os problemas kantianos da fundao da cincia

 e , particularmente , da distino entre o analtico e o sinttico , sem

 necessariamente lhes tirar a pertinncia e alcance epistemolgicos

 ( Eames , 1989 : 166-167 ) , uma vez que a matemtica e a fsica para os

 positivistas , sob outra forma  claro , continuam a ter , de facto , o

 mesmo papel privilegiado que tinham para Kant na justificao da

 possibilidade da nossa " experincia em geral " , e a reformulao

 positivista dessa distino no resolve o problema de Kant .
 Esta  uma

 concluso essencial de alguns autores ( Friedman , 1992 : 94-96 ;

 Friedman , 1993 : 50ss. ) , que retomaremos na seco seguinte .
 Ou seja ,

 embora tenham partido oficialmente , no incio dos anos trinta , na

 sequncia de Frege e de Russell , e particularmente do Tractatus de

 Wittgenstein , de uma rejeio declarada das teses de Kant a respeito

 da possibilidade do sinttico a priori , os positivistas lgicos

 reencontraram , por fim , os mesmos termos fundamentais do problema de

 Kant , e isso ter acontecido justamente porque aceitaram , de maneira

 geral , certos pressupostos do posicionamento desse problema que dizem

 respeito  relao da filosofia com a cincia emprica .

 O legado anti-kantiano de Frege e de Russell , em particular , essa

 vertente anti-epistemolgica da filosofia da lgica e da matemtica

 deste ltimo , bem como , seguramente , a concomitante repulsa

 anti-psicologista pela teoria do conhecimento , passaram do positivismo

 lgico vienense para a filosofia analtica inglesa dos anos cinquenta

 e sessenta nas suas diferentes vertentes , e , sobretudo , para a chamada

 " filosofia da linguagem ordinria " ( Rorty , 1975 : 38-39 ) .
 Mas ,

 significativamente , os mesmos pressupostos epistemolgicos

 fundacionalistas do problema de Kant que levaram os positivistas a

 atribuir um carcter paradigmtico ao estatuto da linguagem da fsica

 matmtica como quadro regulador e ordenador da experincia em geral ,

 conduziram veladamente os filsofos ingleses , por sua vez , a

 reintroduzir esse problema sob a forma da relao da linguagem

 ordinria com a realidade , como se anlise lgica daquela , como

 advertir M. Black desde os anos quarenta , no bastasse para atingir

 os seus objectivos essenciais em matria de filosofia da linguagem

 ( Black , 1989 : 254-255 ; Black , 1963 : 182-184 ) .
 Do lado oposto ao de

 Black no conflito de interpretaes sobre o assunto ocorrido no

 princpio dos anos sessenta , A. J. Ayer distanciar-se- da " filosofia

 lingustica " e apelar indirectamente para um retorno a Kant em ordem

 a repensar em novos termos essa relao entre a linguagem e o real

 ( Ayer , 1968 : 32ss. ) , e P. Strawson , de forma independente , subscrever

 explcitamente um tal apelo com a sua concepo de uma " metafsica

 descritiva " isenta do psicologismo kantiano ( Strawson , 1959 ; Strawson ,

 1992 : 52-53 ) .
 Kant no era mais uma fico inocente caracterstica da

 " filosofia continental " adversria , mas uma realidade prpria ,

 intrnseca , do movimento analtico ingls e da sua problemtica

 filosfica ( Rorty , 1975 : 17 ) .
 Entretanto , no princpio dos anos

 cinquenta Quine tinha j sugerido , embora sem grande impacto na

 altura , que a teoria da significao do positivismo lgico de maneira

 geral ( quer na sua fase vienense , quer na americana ) no fazia mais ,

 sem o saber , do que retomar sob outra forma sem o solucionar o

 problema kantiano da distino entre o analtico e o sinttico ( Quine ,

 1994c : 20-21 ) .
 Estava aberto o caminho para o retorno a Kant na

 filosofia analtica contempornea .

 2 .
 Testemunhos historiogrficos : quatro vertentes

 da rejeio versus aceitao de Kant

 Um dos testemunhos historiogrficos mais notveis do retorno a Kant

 por parte da filosofia analtica contempornea  , sem dvida , o livro

 de A. Coffa A tradio semntica de Kant a Carnap ( Coffa , 1995 ) .
 A

 " tradio semntica " , para o autor ,  a tradio do debate filosfico

 ps-kantiano sobre o problema da distino entre o analtico e o

 sinttico , e a possibilidade do sinttico a priori ;  uma tradio

 que , de Bolzano e Brentano ao positivismo lgico vienense , passando

 por Frege , Russell e algumas investigaes em matria de filosofia da

 cincia ( H. v. Helmholtz , H. Poincar , e P. Duhem , por exemplo ) e de

 fundao da matemtica ( D. Hilbert , I. Brower , nomeadamente ) , no

 aceita a soluo de Kant para esse problema e est interessada em

 resolv-lo ela prpria num quadro semntico ou tendencialmente

 semntico .
 Mais geralmente , os filsofos da tradio semntica pensam

 que  num tal quadro que  possvel renovar toda uma problemtica

 epistemolgica deixada por Kant num estado de desordem e de confuso

 ( Coffa , 1995 : 20-21 ) .
 Mas as concluses do prprio Coffa a respeito

 dessa renovao , que ele anticipa desde a introduo ao seu livro , so

 basicamente pessimistas : para ele , o empirismo dos positivistas 

 hostil  significao , seno mesmo " tem horror  significao " ;

 incapazes de tratar o problema da significao de acordo com as suas

 premissas empiristas , os positivistas adoptaram finalmente o idealismo

 " ficando sem a significao " ( Coffa , 1995 : 3 ) .

 Uma interpretao similar quanto ao papel de Kant no desenvolvimento

 da filosofia analtica encontra-se , tambm no princpio dos anos

 noventa , em T. Katz , A metafsica da significao ( Katz , 1990 ) .
 Mas

 alguns anos antes , em Frana , a mesma perspectiva essencial quanto a

 esse papel tinha j sido apresentada por J. Proust , em Questes de

 forma : lgica e proposio analtica de Kant a Carnap ( Proust , 1986 ) .

 Em Portugal , por exemplo , ela foi sugerida , por A .
 Melo em " As

 questes externas / internas segundo Carnap " ( Melo , 1988-1989 ) .
 Como j

 se sugeriu e se ver mais adiante , todos estes testemunhos

 historiogrficos s podem ser verdadeiramente compreendidos no

 contexto de certos posicionamentos meta-histricos e meta-filosficos

 sobre o problema kantiano da distino entre o analtico e o

 sinttico , e da possibilidade do sinttico a priori , como o de W. O .

 Quine no incio dos anos cinquenta com o conhecido trabalho " Os Dois

 Dogmas do Empirismo " .
 Na verdade , Quine  um dos principais

 responsveis pelo retorno da historiografia analtica a Kant ,

 lanando , talvez involuntariamente , a agenda desta sobre o assunto

 cerca de trinta anos mais tarde .

 Uma outra vertente da influncia de Kant na filosofia analtica

 contempornea , e em particular no positivismo lgico vienense ,  a

 concepo kantiana da relao entre cincia e filosofia .
 J. T. Desanti

 ( Desanti , 1975 : 21 ) tinha sugerido nos anos setenta que existe um

 sentido mais ou menos bvio em que toda a " filosofia da cincia " 

 originariamente kantiana , e que  aquele na perspectiva do qual " Le

 philosophe da la science a pour tche de remettre en chantier les

 noncs de statut scientifique en les reproduisant dans ce lieu

 ' transcendental ' o demeure le secret de leur ultime constitution. La

 ' philosophie des sciences ' apparat alors comme une tche spcifique

 et qu'on ne saurait confondre sans dommage avec l'oeuvre de la

 science. Dans la division technique du travail intellectuel , apparat

 alors une nouvelle espce de ' producteur ' .
 Quelqu'un qui , n'ayant  la

 rigeur jamais produit un nonc de charactre scientifique , se

 reconnat cependant le pouvoir de leur reproduire en leur fondement

 premier. " Mas mais decisivamente , tal como acontece no sistema

 kantiano , na medida em que a matemtica e a fsica tm um estatuto

 privilegiado na justificao da possibilidade do conhecimento em

 geral , a incluindo os prprios enunciados filosficos , e esse

 estatuto se manifesta atravs do seu papel regulador e estruturador da

 experincia em geral , a filosofia das cincias contempornea aparece ,

 no fundo , como um longo desenvolvimento de certas perspectivas

 essenciais de Kant na Crtica da razo pura .
  isso que Popper

 reconhece explicitamente a respeito da sua prpria filosofia ( Popper ,

 1999 ; Popper , 1974 ) , e que acontecer com os positivistas lgicos ( R .

 Carnap , M. Schlick , H. Reichenbach , e outros ) segundo M. Friedman

 ( Friedman , 1992 : 89 ) , apesar de estes rejeitaram de forma expressa

 qualquer tipo de assimilao a Kant : " ( ...
 ) the logical positivists

 are in clear agreement with Kant about the paradigmatic status of

 mathematics and mathematical physics as exemplars of objective and

 rational knowledge. Further , the positivists also agree with Kant on

 the underlying reason for this privileged status .
 Mathematics and

 mathematical physics are paradigmatic of objectivity and rationality

 because it is only by ordering , interpreting , and structuring our

 sensory perceptions within a rigorous mathematical framework that we

 can first ' objectify ' them  that is , transform them from mere

 appearance into objective experience. "

 A relao com Kant , tal como a estabelece geralmente Friedman na

 passagem anteriormente citada , constituu o pretexto fundamental neste

 ltimos anos , da parte desse autor ( Friedman , 1999 ) e de A. Richardson

 ( Richardson , 1998 ) , para o desenvolvimento dos estudos sobre a relao

 mais geral entre o neo-kantismo alemo do princpio deste sculo ( E .

 Cassirer e outros ) e o positivismo lgico vienense nas suas etapas

 iniciais , particularmente , Carnap e o famoso livro A construo lgica

 do mundo ( Carnap , 1967 ) .
 Mas , falando de neo-kantismo , de novo  de

 Kant que fundamentalmente se trata em ltima anlise , na medida em que

 o cerne da influncia em questo para esses autores , em contraste com

 certas interpretaes tradicionais que insistiam na relao entre o

 positivismo lgico e o atomismo lgico de Russell , ser o problema da

 objectividade da cincia emprica , acima mencionado , e , de maneira

 geral , o apriorismo caracterstico de um empreendimento de

 justificao que , como a " experincia possvel " da " Analtica

 Transcendental " da Crtica da razo pura ( Kant , 1989 : 193-194 ) , parece

 sugerir a possibilidade essencial de uma epistemologia a priori e

 isenta , idealmente , de pressupostos e implicaes psicolgicas e

 ontolgicas ( Richardson , 1998 : 25-26 ; Friedman , 1999 : 5 ) .
 Desta

 vertente dos estudos kantianos e neo-kantianos h certamente ainda

 muito a esperar ; e ns prprios temos vindo a dar o nosso contributo

 para ela ( Ribeiro , 2000 ) .

 Uma terceira vertente do retorno a Kant tem a ver justamente com a

 concepo kantiana do discurso filosfico , e , particularmente , com a

 identificao deste com o plano teortico de uma " experincia

 possvel " onde se dar , com certos limites , a sua prpria justificao

 e a do conhecimento cientfico em geral .
  sobretudo no mbito da

 filosofia das cincias que se realiza este retorno  Crtica da razo

 pura , e a , para alm da conexo neo-kantiana j referida , importa

 assinalar , mais uma vez , os trabalhos de Popper na sua poca vienense

 ( Popper , 1999 : 73ss. ; 1974 : 39 ; 44-46 ) , onde o impacto de Kant 

 indiscutvel ( Ribeiro , 1986 : 98 e ss. ; Ribeiro , 1987 : 104ss. ) .
 E j

 aludimos anteriormente , de passagem , a outras retomas desse conceito

 kantiano no mbito do pensamento analtico propriamente dito , como  o

 caso da " metafsica descritiva " de Strawson a partir dos anos

 sessenta .
 Como Strawson dir a respeito da " experincia possvel " de

 Kant : " The question is : how does the concept-user come to form beliefs

 about the reality ?
 ( ...
 ) The connection [ between concepts and

 reality ] is ( ...
 ) that the concepts of the real can mean nothing to

 the user of them except in so far as they relate , directly or

 indirectly , to possible experience of the real .
 It is not just that

 without experience of the real we should not be able to form true

 beliefs about it ; it is that the very concepts in terms of which we

 form our primitive or fundamental or least theoretical beliefs get

 their sense for us precisely as concepts which we should judge to

 apply in possible experience situations. ( ...
 ) what I am putting thus

 crudely and roughly is the central tenet of empiricism. It is the

 truth on which Kant insisted decisively , and on which all empiricists

 before and since have also insisted. " ( Strawson , 1991 : 52-53 )

 Finalmente , uma quarta vertente da influncia de Kant diz respeito s

 origens histricas e filosficas do holismo analtico contemporneo em

 matria de teoria da significao .
 A relao com Kant foi sugerida

 explicitamente por J. Hintikka a propsito de L. Wittgenstein no

 trabalho " O kantianismo semntico de Wittgenstein " ( Hintikka , 1986 :

 15-30 ) .
 O ponto essencial da relao consiste na ideia de que , embora

 a " revoluo copernicana " de Kant no tenha tido significao

 semntica para esse filsofo ,  possvel interpret-la nesses termos ,

 e ser na perspectiva de uma tal interpretao , no fundo , que devemos

 compreender a " viragem semntica " inaugurada pelo Tractatus

 Logico-Philosophicus : " It is important to see what this ' semantical

 turn ' means. The Kantian doctrine of the unknowability of things in

 themselves becomes the thesis that the world ( things in themselves )

 cannot be expressed ( thought , conceived of ) apart from language. The

 Kantian limits of knowledge marked by the notion of Ding an sich

 become the limits of expressibility in language due to the

 impossibility of saying in language what cannot be expressed in it .
 A

 turn analogous to the change I recommended above for Kantians ( but

 which Kant did not himself take ) from things in themselves to our

 means of knowing them now corresponds on the semantical side to a

 switch of attention from the ineffability of reality apart from

 language to the ineffability of the very relations which connect

 language with reality. The result of this semantical turn will be

 called here ' semantical Kantianism '. " ( Hintikka , 1986 : 19 ) A relao

 entre Kant e Wittgenstein , deste ponto de vista , tinha j sido

 anticipada , antes de Hintikka , por alguma historiografia sobre o

 Tractatus , como  o caso , da de D. Pears ( Pears , 1985 : 25ss. ;

 Pears , 1993 : 19ss. , e 23ss. ) .
 E esteve na origem , indirectamente pelo

 menos , do aparecimento de alguns estudos sobre a influncia de certas

 filosofias da cincia que se reclamam " kantianas " , como a de H. Hertz ,

 no Tractatus ( Janik e Toulmin , 1983 : 151ss. ; McDonough , 1994 :

 219-242 ) .
 Mas a teoria de Hintikka , quando interpretada rigorosamente ,

 significa de facto atribuir ao filsofo de Knigsberg a origem remota

 do conceito ( no obviamente da expresso ) contemporneo de holismo ,

 com a reserva fundamental , como se disse , de que esse conceito no

 tinha uma significao semntica em Kant ( Ribeiro , 1999a : 238ss .
 ; e

 Ribeiro , 1999b : 445ss. ) .

 3 .
 Quine , Kant , e os pressupostos filosficos mais

 recentes da historiografia analtica

 J se observou que eleio pela historiografia analtica contempornea

 do problema kantiano da distino entre o analtico e o sinttico , e

 da possibilidade do sinttico a priori , pode ser considerada como uma

 aplicao  histria da filosofia , e da filosofia analtica em

 particular , das teses de Quine em " Os dois dogmas do empirismo " a

 respeito do positivismo lgico , e sobretudo de Carnap .
 Foi Quine , de

 facto , que sugeriu pela primeira vez desse ponto de vista a relao

 entre Carnap e Kant logo no incio do artigo .
 E  a Kant , na verdade ,

 que Quine vai atribuir a noo fundamental de analiticidade a criticar

 ao longo do seu trabalho : " ( ...
 ) Kant's intent , evident more from the

 use he makes of the notion of analycity than from his definition of

 it , can be restated thus [ para os objectivos de Quine nesse trabalho ]

 : a statement is analytic when it is true by virtue of meanings and

 independently of fact. " ( Quine , 1994c : 21 ) Importa notar que Quine no

 fez a genealogia desta noo expressa e exclusivamente a propsito de

 Kant , uma que , para ele , ela tem uma histria muito mais vasta e

 complexa , que remonta a Aristteles e , depois de Kant , continua por

 exemplo no chamado " empirismo britnico " de Locke , Berkeley e Hume , em

 G .
 Frege e na teoria das descries de Russell ( Quine , 1994c : 38ss. ) .

 E , por outro lado ,  sabido que Quine nunca mostrou ao longo dos seus

 trabalhos um interesse excessivo pela histria do movimento analtico ,

 nem , muito menos , pela histria da filosofia em geral , sendo as suas

 observaes na matria muito genricas , quando no , por vezes , mesmo

 crpticas ( Ribeiro , 1998 : 422-424 ; Ribeiro , 1999a : 140ss. ) .

 Entretanto , a verdade  que desde os meados dos anos trinta ( Quine ,

 1994a : 102 ) ele tinha insistido sobre a conexo entre Kant , Carnap e o

 positivismo lgico , e em meados dos anos cinquenta tinha dado a essa

 conexo um relevo muito especial logo no comeo de um dos seus

 trabalhos sobre Carnap ( Quine , 1994b : 107 ) : " Kant's question ' How are

 synthetic judgments a priori possible ?
 ' precipitated the Critique of

 Pure Reason .
 Question and answer notwithstanding. Mill and others

 persisted in doubting that such judgments were possible at all. At

 lenght some of Kant's own clearest purported instances , drawn from

 arithmetic , were sweepingly disqualified by Frege's reduction of

 arithmetic to logic. Attention was thus forced upon the less

 tendencious and indeed logically priori question , ' How is logical

 certainty possible ?
 ' .
 It was largely this latter question that

 precipitated the form of empiricism which we associate with

 between-war Vienna  a movement which began with Wittgenstein's

 Tractatus and reached its maturity in the work of Carnap. "

 Uma vez dito isto , o essencial das teses de Quine no artigo referido

 pode ser resumido dizendo que , para ele , a teoria da significao no

 pode ser desenvolvida de forma consistente segundo a distino entre o

 analtico e o sinttico , quer dizer , entre dois tipos idealizados de

 componentes , um pertencendo ao quadro de interpretao lingustico da

 teoria , e , o outro , ao prprio mundo .
 Na verdade , embora Quine no o

 diga nestes termos , se interpretarmos linguisticamente os conceitos

 puros do entendimento , de Kant ( Pears , 1985 ) , a distino entre esses

 componentes era j um dos pressupostos fundamentais de Kant e da sua

 famosa " revoluo copernicana " .
 Ora ,  precisamente a suposio de que

 uma tal distino pode ser analisada sistematicamente pela teoria da

 significao que conduz aos dois dogmas em questo .
 No primeiro caso ,

 quer a tentativa de caracterizar a analiticidade mediante uma teoria

 da definio baseada na sinonimia cognitiva , como acontece em certos

 trabalhos de Carnap do princpio dos anos trinta e acontecia j alis

 no prprio Kant ( Coffa , 1995 , 13ss. ) , quer a tentativa de o fazer ,

 mais modernamente , mediante as regras semnticas que aplicaro ao

 mundo os sistemas teorticos da cincia emprica , como ocorreu na obra

 de Carnap posteriormente , so sempre relativas s condies impostas 

 partida pela prpria teoria da definio em uso nesses sistemas , e no

 a uma significao de analiticidade mais ou menos ideal e independente

 deles , que lhes competiria capturar ; o que significa que a definio

 de analiticidade num sistema pode ser perfeitamente contraditria com

 a de um outro ( Quine , 1994c : 34-36 ) .
 Mas , uma vez aceite que a

 sinonimia ou seus substitutos semnticos no do conta da definio de

 analiticidade no que respeita s formas linguticas em geral , fica

 aberto o caminho para o segundo dogma , o verificacionismo

 reducionista , ou para a ideia de que existir um tipo de enunciados ,

 sinttico , susceptvel de confirmao completa ou total atravs dos

 dados dos sentidos , em contraste com o tipo de enunciados analticos ,

 que so apenas , como diz Quine , " vacuamente confirmados " ( Quine ,

 1994c : 41 ) .
 A alternativa aos dois dogmas , contra Carnap e o

 positivismo lgico , e , mais geralmente , contra Kant ,  uma nova

 concepo da filosofia e da sua relao com a cincia , que abandona os

 pressupostos fundacionalistas tradicionais e , designadamente , a ideia

 de uma separao ou divrcio entre ambas ou entre os domnios do nosso

 conhecimento natural de maneira geral ( rejeitando ao mesmo tempo todas

 as nefastas implicaes ontolgicas e epistemolgicas dessa ideia ) , e

 retoma genuinamente o velho pressuposto empirista de que a cincia  ,

 no fundo , uma continuao do " senso comum " ( Quine , 1994c : 45 ) .

 Sem este posicionamento , da parte de Quine , do problema de Kant no

 novo contexto da filosofia analtica dos anos cinquenta , dificilmente

 o impacto desse filsofo , hoje em dia , teria a profundidade e alcance

 que so conhecidas .
 Mas , por outro lado , a historiografia analtica

 mais recente ( Haller , 1982 ; Richardson , 1998 ; Friedman , 1999 )

 apercebeu-se progressivamente que certas premissas da prpria crtica

 anti-positivista de Quine e de outros , como o seu holismo mais ou

 menos evidente , longe de aparecerem em oposio a um suposto

 verificacionismo e reducionismo dos positivistas lgicos , como Quine e

 C.ia tinham pretendido , eram j , sob outra forma , premissas desses

 filsofos , quer dizer , compreendeu que essa crtica anti-positivista

 partia , de maneira geral , de pressupostos errneos , e chegava a

 concluses , em parte pelo menos , no menos inaceitveis ( Ribeiro ,

 1999a : 140ss. , 164ss. ) .
  esta reorientao da historiografia

 analtica em que o problema da distino entre o analtico e o

 sinttico aparece no contexto mais vasto da concepo kantiana sobre a

 relao entre cincia e filosofia , e do seu holismo a respeito da

 noo de objectividade cientfica , que est na origem , em ltima

 anlise , da rejeio versus aceitao de Kant hoje em dia .
 Em suma :

 uma rejeio de Kant no inteiramente consciente de si e dos seus

 pressupostos fundamentais , filosoficamente falando , constituu a razo

 bsica da decadncia do movimento analtico no passado ( em especial ,

 do positivismo lgico vienense ) , e , finalmente , de um retorno

 involuntrio s posies de Kant ; por isso , trata-se agora para a

 historiografia analtica contempornea de fazer a histria desta

 rejeio inconsequente de Kant , e , em particular , de explicitar e

 reequacionar completamente esses pressupostos .

 Observaes finais

 Um problema meta-histrico e meta-filosfico

 Uma particularidade bvia do problema da influncia de Kant na

 filosofia analtica contempornea , para essa historiografia a que nos

 referimos ,  o seu carcter manifestamente meta-histrico e

 meta-filosfico .
 A filosofia de Kant  lida de acordo com as premissas

 e pressupostos de certos contextos recentes do desenvolvimento da

 prpria filosofia analtica , quer dizer ,  reconstruda  luz dessas

 premissas e pressupostos , porque , como ns  sugerido , no haver de

 maneira geral outra forma de a podermos ler hoje em dia .
 Foi

 justamente esta concluso fundamental que certos teorizadores da

 historiografia filosfica no mbito analtico , como Rorty , intitularam

 como " reconstruo histrica " e " reconstruo racional " ( Rorty , 1984 :

 51ss. ) .
 Uma das implicaes essenciais de tal postura metodolgica a

 respeito de Kant , como se viu ao longo deste trabalho , consiste em

 procurar equivalncias na problemtica analtica hodierna da

 problemtica do prprio Kant , sejam elas a distino entre o analtico

 e o sinttico , e a questo do sinttico a priori , ou a relao entre

 filosofia e cincia .
 Outra , a que tambm j se aludiu ,  que um

 filsofo analtico pode ser " kantiano " sem o saber , ou sem ter

 necessariamente conscincia disso , mesmo quando , por exemplo , ele 

 " oficialmente " um adversrio de Kant .
 Em ambos os casos , o que parece

 estar essencialmente em questo para a recontruo historiogrfica , em

 primeira instncia , e em conformidade com as tendncias na matria

 desde os anos setenta ( Dummett , 1981 ; Rorty , 1988 ) ,  a legitimidade

 de um conceito mais ou menos ideal de prtica analtica que se

 pretende instituir , normativamente , como prtica corrente .
 Neste

 sentido , o pressuposto meta-histrico e meta-filosfico de que as

 solues de Kant tero sido " confusas " , " inadequadas " ou

 " inconsistentes " , visa , no fundo , retom-las e critic-las fora de

 contexto no laboratrio da reflexo analtica supostamente criado pela

 reconstruo historiogrfica ela mesma ( Ribeiro , 1999c : 150ss. ) .
 Em

 contraste com a historiografia e , de maneira geral , com a prpria

 filosofia analtica tradicional ,  no quadro dessa reconstruo , seja

 ela qual for , que o desenvolvimento da teoria da significao passa a

 ter lugar por excelncia .

 Seria necessrio discutir atentamente quer a teoria da reconstruo

 historiogrfica quer as aplicaes da mesma , quer , obviamente , o

 pressuposto que acabmos de mencionar ; mas , por razes compreensveis ,

 estes objectivos no esto aqui ao nosso alcance .
 Em todo o caso ,

 importa observar que a reconstruo historiogrfica , pela sua prpria

 natureza , nem sempre representa fielmente a trama histrico-filosfica

 em todos seus matizes , contornos e complexidades ; e , deste ponto de

 vista , que a eleio da problemtica kantiana ( em si mesma ou

 transmutada numa qualquer verso mais moderna ) como fio condutor da

 histria do movimento analtico , parece constituir , por vezes , uma

 interpretao limitada e parcial do curso real dessa histria. quando

 no uma violentao clara do mesma ( Ribeiro , 1999 : 171ss ) .
 E , depois ,

 que esse desenvolvimento no teve seguramente a natureza teleolgica e

 circular , de embebncia quase-hegeliana , que essa reconstruo lhe

 atribui , fazendo de Kant simultaneamente o ponto de partida e de

 retorno , a superar , do desenvolvimento desse movimento .
 Em contraste

 com este esprito de epopeia , a historiografia analtica , como

 qualquer outra historiografia filosfica , no pode deixar de assumir a

 condio errante da prpria filosofia da maneira geral .

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 Abstract

 In this paper the author studies the place of Kant in the contemporary

 analytical philosophy and its historiography , from Frege , Russell and

 the Viennese logical positivists , to some more recent presentations of

 the Kantian problem on the distinction between the analytical and the

 synthetic , such as Quine's concerning Carnap in the " The Two Dogmas of

 Empiricism " , or Coffa's in The Semantic Tradition from Kant to Carnap .

 He discusses the reasons which are at the origins of the return to

 Kant in analytical philosophy from the 1950s onwards , and , especially ,

 of what he calls the " rejection versus acceptation of Kant's

 philosophy " .
 He shows that the focal point of this return to Kant was

 the debate on the impact of the above-mentioned problem and its

 implications for analytical philosophy ; and he insistes on the great

 relevance of that problem for contemporary analytical historiography .

 The author concludes his paper with the criticism of some fundamental

 aspects of the analytical view on the history of philosophy which is

 at the basis of such a return to Kant .

 Resumo

 Neste trabalho , o autor estuda o lugar de Kant na filosofia analtica

 contempornea e na respectiva historiografia , desde Frege , Russell e o

 positivismo lgico vienense , at a algumas reformulaes mais recentes

 do problema kantiano sobre a distino entre o analtico e o

 sinttico , como a de Quine a propsito de Carnap em " Os dois dogmas do

 empirismo " , ou a de Coffa em A tradio semntica de Kant a Carnap .

 Discute as razes que esto na origem do retorno a Kant na filosofia

 analtica desde os anos cinquenta , e , particularmente , do que chama a

 " rejeio versus aceitao da filosofia de Kant " ; mostra que esse

 retorno centrou-se na discusso do impacto do problema referido e suas

 implicaes , e pe em relevo a projeco ampla do mesmo na

 historiografia analtica contempornea .
 O autor conclui criticando

 alguns aspectos fundamentais da concepo analtica da histria da

 filosofia que est subjacente a um tal retorno .

 ___________________

 HENRIQUE JALES RIBEIRO

 Faculdade de Letras da

 Universidade de Coimbra

 3000-447 COIMBRA PORTUGAL

 Tel. : 239 859983 ; Fax : 239n836733

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