 SEMITICA , A LGICA DA COMUNICAO

 Antnio Fidalgo , Universidade da Beira Interior

 Primeira parte

 A ORIGEM LGICA DA SEMITICA CONTEMPORNEA

 Introduo | Captulo Primeiro - Bolzano , Frege e Husserl |

 Captulo Segundo - Peirce e o Pragmatismo como Lgica da Abduo

 INTRODUO

 As fronteiras entre a semitica , a lgica , a filosofia analtica , a

 filosofia da linguagem , a filosofia dos signos ( Zeichenphilosophie )

 no so fceis de traar .
 Em todas estas disciplinas encontramos

 questes comuns e muitas vezes  mesmo difcil encontrar diferenas

 na maneira como as abordam .
 Questes de sintaxe e de semntica , por

 exemplo , so comuns a todas elas e no existem critrios definidos

 para atribuir esta ou aquela anlise sintctica ou semntica a

 determinada disciplina .

 Contributos decisivos da filosofia do sculo XX , como sejam as

 filosofias de Wittgenstein , o positivismo lgico e a " ordinary

 language philosophy " , as investigaes lgicas de Tarski e Carnap ,

 tanto no mbito da sintaxe como da semntica , a teoria dos actos de

 fala de Austin e Searle , e outros , reflectem-se nas disciplinas

 citadas e nenhuma destas disciplinas pode reivindicar para si a

 exclusividade de tais contributos .

 Mais do que campos bem delimitados defrontamo-nos aqui com acentos ,

 perspectivas , estratgias , provenincias diferentes .
  talvez um

 mesmo campo atravessado por pistas que se cruzam , que seguem por

 vezes o mesmo percurso e depois se separam , que caminham em

 paralelo , mas influenciando-se umas s outras .

 Se quisermos encontrar uma identidade deste campo , e o mesmo 

 dizer , apurar o factor comum a todas as disciplinas enunciadas ,

 poderamos apontar a crena e a preocupao de clarificar o

 pensamento atravs dos meios em que esse pensamento se processa e

 se exprime .

 Restritamente , quer isto dizer que o pensamento s pode ser

 analisado em termos de linguagem .
 Trata-se antes de mais da

 superao das filosofias da conscincia ( Descartes , Kant , Husserl )

 que buscavam na imanncia do vivido a verdade das ideias .
 A

 inteleco geral das diferentes corren-tes do pensamento

 contemporneo  a de que a objectividade cientfica tem de assentar

 na positividade da lngua .
 A lngua  o meio em que surge e se

 desenvolve todo o pensamento e fora do qual pura e simplesmente no

 h pensamento .
 Nisto reside o celebrado " linguistic turn " da

 filosofia recente .
 Mais precisamente ainda , diremos que a estrutura

 do pensamento s  acessvel atravs da anlise da estrutura da

 frase e da lngua .

 Em termos mais latos , o pensamento  entendido como um processo

 simblico .
 No se trata apenas de tematizar as lnguas positivas em

 que o pensamento efectivamente se concretiza , mas tambm de

 analisar os elementos e os processos simblicos reais e possveis .

 Estudar uma disciplina que radica na crena apontada , exige a

 clarificao desse enraizamento e ao mesmo tempo que se consi-derem

 as disciplinas adjacentes tambm radicadas nesse campo .
 No caso da

 semitica , tal como se realiza em Charles Sanders Peirce , no h

 dvida que a melhor via para a determinar o mbito , o objecto , a

 inteno e o mtodo ,  averiguar as suas relaes com a lgica .

 CAPTULO PRIMEIRO

 BOLZANO , FREGE E HUSSERL

 Peirce  um lgico .
 No obstante a diversidade dos seus escritos ,

 Peirce compreendia-se a si mesmo como um lgico e o cerne do seu

 labor intelectual est indubitavelmente nas suas investigaes

 lgicas .
 Apesar disso , na maior parte das apresen-taes do seu

 pensamento , toma-se Peirce como ponto de partida do pragmatismo

 americano e como um dos pais da semitica contempornea sem o

 relacionar com a tradio lgica em que se insere .
 Sabemos que

 efectivamente Peirce se considerava como pioneiro nos seus estudos

 e que a admitir precursores esses eram o Aristteles lgico , no o

 metafsico ou o fsico , e Leibniz .1 Mas quem olhar para a obra de

 Peirce de um ponto de vista histrico e no simplesmente imanente ,

 verificar que ela tem pontos comuns com correntes filosficas

 europeias da poca , nomeadamente com as correntes iniciadas por

 Frege e Husserl .
 Alis , convm lembrar que Peirce dominava o alemo

 e se correspondia com cientistas alemes , nomeada-mente com o

 lgico Gerhard Schrder .

 Gottlob Frege  geralmente considerado o pai da filosofia analtica

 e Edmund Husserl  o grande iniciador do movimento fenomenolgico .

 Um e outro desenvolveram a sua obra partindo de consideraes

 lgicas .
 A proximidade temtica entre eles e Peirce 

 inquestionvel .
 A introduo do nome de Bolzano justifica-se pelo

 seu importante papel na lgica do sculo XIX e pela influncia

 exercida sobre a semitica de Husserl .
 Contudo , a razo principal

 para citar os nomes de Bolzano , Frege e Husserl , reside na tese

 comum a todos eles de que as ideias no so nada de psicolgico e

 de que , portanto , a anlise do pensamento s  possvel mediante

 uma anlise da linguagem .2

 1 - Bolzano e a importncia dos signos para a lgica

 Por trs vezes aborda Bolzano na Wissenschaftslehre a temtica dos

 signos .
 A primeira vez  logo no primeiro volume (  52 ) e incide

 sobre a questo se as representaes so ou no signos dos objectos

 representados .
 A Bolzano esclarece que o termo signo tem dois

 significados e que nenhum deles permite afirmar que uma

 representao seja o signo do objecto representado .
 Por signo pode

 i ) entender-se qualquer objecto de que nos servimos para atravs da

 sua representao despertar uma outra representao associada 

 primeira ou ento ii ) uma caracterstica ou qualidade que , ao

 darmo-nos conta dela , nos leva a inferir uma outra quali-dade ou

 uma outra coisa .
 No primeiro caso signo significa um objecto , no

 segundo uma qualidade ou caracterstica de um objecto .

 Mas  no terceiro volume da Wissenschaftslehre que Bolzano analisa

 mais profundamente o conceito de signo e salienta o papel dos

 signos no pensamento lgico .
 A Bolzano trata dos signos uma vez a

 propsito da " assinalao das nossas representaes"3 e outra vez

 relativamente  associao das nossas representaes feita

 propositadamente com signos e aos benefcios de uma tal associao

 4 e s caractersticas desses signos 5 .

 Quanto  assinalao das representaes , Bolzano funda-menta na

 unidade do esprito a possibilidade de suscitar certas

 representaes , em si difceis de representar , mediante outras

 representaes mais fceis de ter que esto associadas s

 primeiras .
  neste contexto que Bolzano volta a definir signo como

 um " objecto de que nos servimos com o objectivo de mediante a sua

 representao despertarmos num ser pensante uma outra representao

 associada a ela " 6 .
 O significado do signo  a representao

 assinalada ou o objecto dessa representao 7 .
 Bolzano faz a

 distino entre significado e sentido do signo .
 O significado de um

 signo distingue-se do sentido , na medida em que o significado do

 signo  apenas aquela representao que ele se propunha despertar e

 normalmente desperta e nenhuma outra .
 O sentido do signo , pelo

 contrrio ,  representao que visamos num caso particular .
  por

 esta razo que algum pode usar um signo num sentido oposto ao seu

 significado real .

 Bolzano apresenta aqui j uma classificao dos signos : i ) signos

 gerais se determinados objectos so utilizados por todos os homens

 para assinalar as mesmas representaes ; ii ) signos naturais se a

 sua assinalao de certas representaes reside na natureza do

 homem ; iii ) signos ocasionais se essa assinalao reside numa

 circunstncia particular ; iv ) signos arbitrrios se essa

 assinalao no tem outro fundamento alm da vontade de ser

 pensante ; v ) signos simples aqueles que no so compostos por

 outros com assinalaes prprias ; vi ) signos compostos quando se

 compem de signos com significados prprios ; vii ) signos unvocos e

 signos equvocos ; viii ) signos com significados prprios e signos

 com significados imprprios ; ix ) signos directos e signos

 indirectos .

 Quanto  concatenao das representaes mediante signos , Bolzano

 considera que tal se trata de um mtodo extremamente importante na

 obteno de ideias claras e na construo de um pensamento rigoroso

 8 .
 As vantagens desse mtodo so vrias .
 Primeiro , atravs da

 simples atribuio de um signo adequado a uma representao

 acontece frequentemente que sendo ela uma representao obscura se

 transforma numa representao clara .
 Segundo , nos casos em que por

 comodidade nos servimos dos signos em vez das representaes

 podemos sempre passar do signo para a representao assinalada e

 obtermos desse modo a desejada clareza .
 Terceiro , s atravs da

 associao das nossas representaes a signos  possvel conseguir

 um domnio completo sobre elas , nomeadamente suscit-las sempre que

 quisermos .
  que  muito mais fcil ter uma representao do signo

 enquanto objecto sensvel do que a respectiva representao

 assinalada .
 Os signos permitem um acesso mais fcil e cmodo s

 representaes .
 Quarto , ao produzirmos os signos ( sons , figuras ,

 etc. ) , ganhamos uma destreza tal nos processos fisiolgicos da sua

 produo que sempre que repetimos estes processos a representao

 do signo surge de novo .
 Quinto , sobretudo a fixao de

 representaes complexas  extremamente facilitada com a utilizao

 de signos simples .
 Caso no existisse o signo como factor de

 ligao , facilmente nos escapariam este ou aquele componente da

 representao .
 Sexto , se os signos forem objectos duradoiros do

 mundo exterior , por exemplo figuras , caracteres , e os produzirmos

 realmente no nos quedando pela sua representao , como quando

 escrevemos os nossos pensamentos , ento ficamos em condio de

 reproduzir estes pensamentos sempre que quisermos , sujeit-los a

 novo exame , e retirar deles novas inferncias .
  deste modo que

 asseguramos os juzos feitos , possibilitamos a reflexo sobre eles

 e prosseguimos na descoberta de novas verdades .
 Tornando-se as

 cadeias de inferncia cada vez mais extensas e ficando as novas

 concluses cada vez mais distantes das premissas iniciais , seria

 impossvel ret-las na memria .
 S com a ajuda da fixao por

 escrito dessas cadeias podemos prolong-las mais e mais .
 Stimo ,

 mediante a escrita podemos obter uma viso de conjunto das verdades

 j obtidas sobre determinado objecto e desse modo apurar novas

 verdades .
 Oitavo , mesmo uma associao arbitrria e contingente de

 signos pode originar novas representaes e assim levar-nos a novas

 verdades .
 Nono , ao fixarmos os nossos pensamentos atravs de signos

 compreensveis a outros , ficamos em condies de sujeitar os nossos

 juzos e as suas razes ao exame de outras pessoas .

 A estas vantagens , que se cingem  utilizao dos signos pela

 pessoa e para si prpria , e apenas em vista  descoberta de novas

 verdades , haveria a juntar as inmeras vantagens decorrentes da

 comunicao das ideias entre as pessoas .

 As caractersticas que os signos devem possuir de modo a servirem

 de instrumento  reflexo prpria so segundo Brentano as seguintes

 9 : i ) os signos tm de ser objectos sensveis ; ii ) fceis de

 representar em qualquer lado ; iii ) tem de haver uma relao

 estreita entre a representao do signo e a representao

 assinalada ; iv ) no provocarem a confuso com outras representaes

 prximas .
 Quanto s propriedades que os signos devem ter de modo a

 preservar os nossos pensamentos elas so 10 : i ) os signos tm de

 ter uma durao suficiente ; ii ) serem facilmente reconhecidos em

 toda a parte ; iii ) nunca possurem vrios significados fceis de

 confundir ; iv ) e no serem semelhantes a outros signos que exprimem

 representaes diferentes .

 Os contributos de Bolzano para a semitica no residem , como se v ,

 numa tematizao prpria da problemtica semitica .
 Bolzano no

 desenvolve strictu sensu uma lgica dos signos .
 Para ele o estudo

 dos signos mais do que um captulo da doutrina da cincia ,

 constitui uma propedutica dessa disciplina 11 .
 Os mritos de

 Bolzano esto , primeiro , no facto de salientar de um modo muito

 claro a importncia dos signos para a lgica e de , desse modo ,

 associar intimamente o estudo da lgica ao estudo dos signos , e em

 segundo lugar , no rigor das anlises dos signos acima referidas .

 Esse rigor tornou-se modelar para os pensadores que neste campo se

 lhe seguiram .

 2 - Frege e a distino entre significado e referncia

 O lugar de destaque que Gottlob Frege ocupa na histria da lgica 

 hoje incontestvel .
 A sua teoria dedutiva ou clculo  considerada

 a " maior realizao alguma vez alcanada na histria da lgica " 12 .

 Alm disso , no s apresentou a ideia de que a matemtica se inclui

 na lgica , como mostrou em pormenor como  que a lgica se

 desenvolve na aritmtica .
 Mas a importncia de Frege no se limita

  lgica , ela estende-se a toda a filosofia .
 A filosofia que hoje

 se apelida , no muito correctamente , de anglo-saxnica , a filosofia

 analtica e a filosofia da linguagem , considera Frege como um dos

 seus fundadores 13 .
 Frege poderia ser , com efeito , um grande

 lgico , sem ser um grande filsofo .
 Porm , as consequncias que os

 seus trabalhos lgicos tiveram na filosofia em geral foram to

 vastas e profundas e o seu mtodo de anlise e de exposio foi de

 tal modo exemplar para as outras disciplinas filosficas que 

 considerado justamente um dos maiores filsofos contemporneos .

 De capital importncia para a lgica e para toda a filo-sofia do

 sculo XX  sem dvida o artigo de Frege de 1892 sobre o

 significado e a referncia .
 Gnther Patzig considera este artigo

 como uma das fontes principais da semntica moderna 14 .
 Nele

 distingue Frege com extrema clareza as dimenses referencial e

 significativa dos signos 15 .

 O ponto de partida de Frege est na questo sobre a igualdade .
  a

 igualdade uma relao de objectos ou uma relao de nomes ou signos

 de objectos ?
 Frege defende que a igualdade  uma relao de signos .

 Ele argumenta do seguinte modo : as proposies " a = a " e " a = b "

 possuem valores cognitivos diferentes ; enquanto a primeira  , em

 linguagem kantiana , um juzo analtico que nada de novo nos ensina ,

 a segunda representa bastas vezes uma importante ampli-ao do

 conhecimento .
 A descoberta de que  o mesmo sol , e no um novo , que

 cada manh nasce constitui um dos conhecimentos de maior alcance na

 astronomia .
 Ora se a igualdade fosse uma relao entre objectos

 isto  , entre aquilo que " a " e " b " se referem ento " a = a " e " a =

 b " no seriam proposies diferentes .
  que nesse caso , apenas se

 afirmaria a relao de igualdade de um objecto consigo mesmo .
 Mas

 isso no nos traria um novo conhecimento .
 Aqui h que introduzir um

 novo elemento .
 Para alm da referncia deve-se considerar o

 significado do nome ou do signo .
 O significado consiste na forma

 como o objecto  dado .
 A mais valia cognitiva da proposio " a = b "

 relativamente a " a = a " reside justamente em " a " e " b " se referirem

 de modo diferente ao mesmo objecto .
 Tm significados diferentes e

 uma mesma referncia .
 " A estrela da manh " no significa o mesmo

 que " a estrela da noite " mas ambas as expresses referem o mesmo

 objecto .
 Por estrela da manh entende-se ( significa-se ) o ltimo

 astro a desaparecer do cu com a aurora , ao passo que por estrela

 da noite entende-se o primeiro astro a aparecer no firmamento ao

 entardecer .
 Num e noutro caso designa-se o planeta Vnus .

 O significado de um nome ou signo  apreendido por quem conhece a

 lngua ou o conjunto dos signos em que esse signo se enquadra .

 Normalmente um signo tem um significado e a esse significado

 corresponde uma referncia .
 O mesmo significado e a correspondente

 referncia tm em diferentes lnguas diferentes expresses .

 Nem sempre a um significado corresponde uma referncia .
 A expresso

 " o corpo mais afastado da Terra " tem certamente um significado , mas

  questionvel se ela refere algum objecto .

 Frege sublinha enfaticamente que o significado no  uma

 representao subjectiva .
 O significado  objectivo .
 A

 representao que uma pessoa faz de um objecto  a representao

 dessa pessoa e  diferente das representaes que outras pessoas

 tm do mesmo objecto .
 A representao de uma rvore , por exemplo ,

 varia de pessoa para pessoa , e isso torna-se bem patente quando

 lhes pedimos para desenhar uma rvore .
 Cada uma far um desenho

 diferente .
 O significado de rvore , em contrapartida ,  comum a

 todos aqueles que o apreendem .

 Mas a distino entre significado e referncia no se restringe aos

 nomes prprios , entendendo-se aqui por nomes prprios quaisquer

 designaes como sejam " Aristteles " , " o professor de Alexandre o

 Grande " , " 4 " , " 2 +2 " .
 Segundo Frege , tambm as proposies tm um

 significado e uma referncia .
 O significado de uma proposio  o

 pensamento ou a ideia que ela exprime .
 Admitindo que uma proposio

 tem uma referncia , a substituio de um seu elemento por um outro

 com a mesma referncia , no alterar a referncia da proposio .
 No

 entanto , o sentido poder ser muito diferente .
 As proposies " a

 estrela da manh  um planeta iluminado pelo sol " e " a estrela da

 noite  um planeta iluminado pelo sol " exprimem ideias diferentes

 de tal modo que algum pode aceitar uma e negar a outra .
 Em termos

 de referncia nada , porm , se modificou .
 Se a ideia expressa pela

 proposio constitui o seu significado , ento qual  a sua

 referncia ?
 A questo  importante na medida em que em muitas

 frases com significado o sujeito no tem referncia .
 A frase

 " Ulisses aportou a taca enquanto estava a dormir "  certamente uma

 proposio com significado , embora no se possa garantir que

 Ulisses tenha uma referncia .
 Alis , tenha ou no tenha " Ulisses "

 uma referncia , o significado da proposio no se altera .
 A

 questo  ainda mais evidente na frase " Um crculo quadrado  uma

 impossibilidade geomtrica " .
 " Crculo quadrado " no designa

 manifestamente nada , mas a frase  cheia de significado .
 Tem aqui

 cabimento perguntar se uma proposio no ter apenas significado .

 Frege responde que se assim fosse , isto  , que se uma proposio

 tivesse apenas significado , ento no faria sentido investigar a

 referncia de um dos seus elementos , pois que bastaria o

 significado desse elemento .
 Ora o que efectivamente se passa ,  que

 em regra preocupamo-nos com saber se um elemento da frase tem ou

 no referncia .
 Sendo assim , ento teremos de admitir que tambm as

 proposies tm referncia .
 Ademais o valor do pensamento expresso

 na proposio depende da referncia dos seus elementos .
 Esse valor

  justamente o valor de verdade da proposio .

 Quando se trata de fico mitolgica ou literria o nosso interesse

 prende-se exclusivamente ao significado das proposies .
 

 irrelevante se os nomes prprios integrantes nas proposies tm ou

 no referncia .
 Porm , quando no se trata de fico , ento a

 questo referencial dos elementos da proposio  fundamental para

 aquilatar da verdade da proposio .
  justamente no respectivo

 valor de verdade que Frege v a referncia de uma proposio .
 Valor

 de verdade de uma proposio significa to somente o facto dessa

 proposio ser verdadeira ou falsa .
 No havendo outros valores de

 verdade que a verdade e a falsidade , conclui-se que toda e qualquer

 proposio tem como referncia ou o verdadeiro ou o falso .
 Todas as

 proposies verdadeiras tm a mesma referncia , o verdadeiro , e

 todas as falsas o falso .

 O que ficou dito aplica-se s proposies principais , que podem ser

 consideradas tambm como nomes prprios , como designaes da

 verdade ou da falsidade .
 Quanto s proposies acessrias o caso 

 diferente .
 Considerem-se as proposies integrantes comeadas por

 " que " .
 Nestes casos h que distinguir entre referncia directa e

 indirecta .
 Quando algum se quer referir ao significado das

 palavras e no aos objectos por estas designados , ento essa

 referncia  indirecta .
 Assim , quando uma pessoa cita em discurso

 directo as palavras de uma outra pessoa , as prprias palavras

 referem-se s palavras do outro e s estas ltimas  que tm a

 referncia habitual .
 A referncia directa consiste , portanto , nos

 objectos designados , a indirecta no significado habitual das

 palavras ou dos signos .
 As frases integrantes tm uma referncia

 indirecta , isto  , a sua referncia coincide com o seu sentido

 habitual e no com o respectivo valor de verdade .
  assim que o

 diferente valor de verdade das proposies acessrias no modifica

 o valor de verdade da proposio principal no exemplos seguintes :

 " Coprnico julgava que as rbitas dos planetas eram circulares " e

 " Coprnico julgava que a iluso do movimento solar era provocada

 pelo movimento real da terra " .
 Ambas as proposies citadas so

 verdadeiras , embora no primeiro caso a referncia directa da

 proposio acessria seja falsa .
 S que no se trata aqui de

 avaliar se o juzo de Coprnico estava correcto ou errado , mas sim

 se efectivamente ele julgava isso .
 A questo no se prende ,

 portanto com a referncia , mas com o sentido da frase .
 Por isso

 mesmo , a primeira proposio  to verdadeira como a segunda .

 A importncia das investigaes de Frege sobre o significado e a

 referncia para a semntica em particular e para a semitica em

 geral reside em pela primeira vez se associar a questo da verdade

  questo do significado .
 As teorias clssicas da verdade como

 correspondncia partiam do significado como algo dado  partida .

 No questionavam o significado da proposio cuja verdade cabia

 investigar , ou melhor , julgavam que era possvel inquirir o

 significado de uma proposio independentemente de saber o que 

 que a tornava verdadeira ou falsa .
 Ora o mrito de Frege consiste

 justamente em ter mostrado que  impossvel apreender o significado

 de uma frase sem reconhecer as condies da sua verdade .
 S em

 conjunto  possvel explicar as noes de verdade e significado ,

 justamente enquanto elementos de uma mesma teoria 16 .

 3 - Husserl ou da aritmtica  fenomenologia

 i ) O pequeno tratado de Husserl sobre semitica , a lgica dos

 sinais , data de 1890 e insere-se no conjunto de estudos de Husserl

 sobre a fundamentao da aritmtica , em que sobressai a obra

 Filosofia da Aritmtica .
 Investigaes Lgicas e Psicolgicas 17 de

 1891 .
 Da que fosse publicado na obra completa de Husserl como um

 complemento  Filosofia da Aritmtica : Husserliana XII , pp .

 340-373 .
 A citada Filosofia da Aritmtica de 1891 retoma e

 desenvolve a tese da habilitao acadmica " Sobre o conceito do

 nmero .
 Anlises psicolgicas " 18 de 1887 .
 A inteno declarada de

 Husserl , neste perodo ,  a de , por um lado , levar a cabo " uma

 anlise dos conceitos fundamentais da aritmtica " e , por outro ,

 proceder a " uma explicao lgica dos seus mtodos simblicos"19 .

 ii ) Husserl declara numa nota de rodap da Filosofia da Aritmtica

 dever ao seu mestre Franz Brentano a inteleco da suma importncia

 das representaes imprprias ou simblicas para a vida psquica

 20 .
 Tambm aqui como em outros aspectos a influncia de Brentano

 sobre Husserl  decisiva .
 No foi sem razo que Husserl lhe dedicou

 " com profundo agradecimento " a Filosofia da Aritmtica .
 Ser bom ,

 por conseguinte , apresentar , ainda que em traos algo largos ,

 alguns tpicos do labor filosfico de Brentano que mais tocam a

 questo das representaes simblicas .

 Brentano distinguiu-se na Histria da Filosofia sobretudo pela

 distino entre a psicologia gentica e a psicologia descritiva .

 Enquanto a psicologia gentica se ocupa da gnese dos fenmenos

 psquicos , averiguando as suas causas e estudando os seus efeitos ,

 a psicologia descritiva procura dar-se conta antes de mais da

 natureza e estrutura desses mesmos fenmenos .
 A primeira visa

 explicar causalmente , a partir de hipteses , a vida psquica , mas

 essa explicao s  possvel aps uma exacta descrio , pela

 segunda , dos fenmenos a explicar .
 A psicologia descritiva tem como

 tarefa clarificar intuitivamente os conceitos utilizados na

 explicao psicolgica , da que assuma uma funo fundante

 relativamente  psicologia gentica .
 Brentano introduz na

 psicologia a mxima que Gustav Robert Kirchhoff e Ernst Mach

 aplicaram na mecnica , a saber , eliminar todos os conceitos no

 obtidos descritivamente numa experincia directa .

 A distino de Brentano vai sobretudo contra a psicologia

 associativa , a corrente psicolgica dominante no sculo XIX .
 Na

 esteira de Johann Friedrich Herbart , a psicologia associativa

 concebia a vida psquica como um mecanismo cego das representaes

 21 .
 O que se passava ao nvel do consciente era explicado por

 processos psquicos inconscientes .
 Ora o recurso sistemtico , feito

 pela psicologia associativa , ao inconsciente abria a porta 

 arbitrariedade total na medida em que se tratavam de processos

 inverificveis , de puras hipteses congeminadas sem o menor

 fundamento objectivo .
 Ou seja , como as explicaes psquicas eram

 remetidas para o inconsciente , no havia qualquer forma de apurar a

 sua objectividade. Brentano pe fim aos desmandos da psicologia

 associativa que , na nsia de aplicar o modelo mecanicista  alma

 tal como a fsica newtoniana o aplicava ao universo 22 , no se

 coibia de compreender as representaes como peas de um mecanismo

 que se empurravam , condicionavam e obstruam no mesmo espao

 psquico .

 O mtodo descritivo de Brentano possibilitava quebrar o monismo

 tpico da psicologia associativa .
 Consistia esse monismo em admitir

 unicamente contedos da conscincia .
 As sensaes , as

 representaes , os sentimentos , no seriam mais que o seu contedo .

 Assim , por exemplo , na audio de um som , o som ouvido seria o

 nico dado da conscincia .
 Da audio propriamente dita , isto  , do

 acto psquico , no haveria qualquer experincia .
 Os dados directos

 da conscincia reduzir-se-iam aos contedos psquicos .
 As

 actividades da conscincia , o sentir , percepcionar , etc. , seriam

 to s produtos segundos da reflexo causal sobre os dados

 imediatos 23 .
 Brentano mostra que h uma conscincia indirecta das

 actividades psquicas .
 Na sua obra capital , Psicologia do Ponto de

 Vista Emprico , de 1874 , considera impossvel uma observao

 directa dos fenmenos psquicos : " quem quisesse observar a ira que

 nele arde , depararia com ela j fria e o objecto da observao

 teria desaparecido"24 , mas defende que a percepo interna se

 exerce " em oblquo " .
 No  por uma deduo hipottica que chegamos

 s actividades psquicas , como afirmavam os herbartianos , mas sim

 pela experincia .
 Nas lies de Brentano de 1888 a 1890 25 , surge

 uma passagem sobre as representaes que fazem as vezes de outras

 ( stellvertretende Vorstellungen ) .
 Brentano chama a ateno para o

 facto de certas representaes assinalarem outras apesar de serem

 diferentes .
  assim que , ao vermos de cima o tampo de uma mesa

 redonda , dizemos que a mesa  redonda e de no mudarmos de juzo

 quando a vemos de lado .
 A relao entre as duas representaes ,

 pela qual uma assinala a outra , designa-a Brentano de

 convertibilidade .
 O que cabe a uma representao cabe  outra e o

 que se associa a uma associa-se frequentemente  outra .
 Em suma ,

 Brentano abre com o mtodo descritivo todo um novo campo  anlise

 psicolgica .
 H muito mais fenmenos psquicos para ver e descrever

 do que a psicologia associativa alguma vez julgou .

 Os discpulos de Brentano aplicaram , com xito assinalvel , o novo

 mtodo a campos muito diversos de investigao .
 Refiram-se os

 trabalhos de Anton Marty na filosofia da lingua-gem , os de Carl

 Stump na psicologia emprica , os de Alexius Meinong na ontologia ,

 os de Christian von Ehrenfels na morfologia , os de Kasimir

 Twardowski na lgica e os de Husserl na fenomenologia .

 iii ) Do mesmo ano do tratado de Husserl sobre semitica data o

 estudo pioneiro de Christian von Ehrenfels sobre a morfologia

 ( teoria da Gestalt ) 26 .
 Ora  possvel traar um certo paralelismo

 entre as qualidades morfolgicas de Ehrenfels e as representaes

 simblicas de Husserl e , desse modo , situar melhor o tratado de

 Husserl sobre semitica na escola brentanista .
 Alis num estudo de

 1893 " Intuio e Representao " 27 , Husserl aborda a mesma

 problemtica do artigo de Ehrenfels : como  possvel perceber a

 unidade de um contedo complexo como  o caso da melodia , se o que

  dado imediatamente  conscincia so intuies de diferentes

 sons .
 Tanto em Ehrenfels como em Husserl a questo  , no fundo ,

 acerca das representaes indirectas .

 Com as qualidades morfolgicas , Ehrenfels tenta responder 

 pergunta sobre se a " melodia " consiste numa simples associao de

 elementos ou se em algo novo face a estes , que acompanha

 efectivamente essa associao , mas , no entanto , dela distinta .
 Dito

 de outra maneira , uma melodia composta de n sons , ouvida por um

 indivduo , representa algo mais que os mesmos sons n ouvidos

 singularmente por n indivduos ?
 Ou ento , o todo  igual  soma das

 suas partes ou  mais que essa soma ?
 Ehrenfels nega o atomismo

 psquico que apenas admite a existncia de elementos .
 As qualidades

 morfolgicas so o elemento novo que se junta aos elementos

 singulares para que um todo seja possvel .
 Ehrenfels utiliza como

 argumento o facto da transposio meldica ou figural para

 demonstrar que o todo no pode reduzir-se  soma das suas partes .

 Uma melodia , cantada numa tonalidade , pode conter sons ( notas )

 completamente diferentes quando cantada numa outra tonalidade .
 No

 entanto , permanece a mesma melodia , e todos os ouvintes

 reconhecero a sua identidade .
 Os elementos alteraram-se , mas o

 todo meldico permaneceu o mesmo .
 A concluso irrefutvel  que a

 melodia  algo diferente da soma dos sons singulares em que se

 baseia 28 .
 Mas Ehrenfels no limita o mbito das qualidades

 morfolgicas aos elementos discretos de um complexo , como  o caso

 dos sons da melodia , ele estende-o tambm aos elementos contnuos ,

 como  o caso dos pontos de uma linha ou de um plano ou ainda dos

 momentos de um perodo temporal .
 A apreenso de um todo no ocorre

 sem a apreenso das partes , mas no se reduz a ela .
 Daqui se extrai

 a seguinte definio : " Por qualidades morfolgicas entendem-se os

 contedos representativos positivos que esto ligados  existncia

 de complexos representativos na conscincia , que , por seu lado

 consistem em elementos separveis " 29 .

 Partindo das investigaes de Ehrenfels sobre as qualidades

 morfolgicas , Meinong introduz a noo de contedos fundados 30 .

 Estes so contedos psquicos que tm outros contedos , os

 contedos fundantes , por base .
 Os contedos fundados esto

 dependentes dos fundantes , ao passo que estes so independentes .

 Deste modo , representaes fundadas e representaes independentes

 constituem uma disjuno completa , isto  , todas as representaes

 ou so fundadas ou fundantes .
 Todas as complexes e todas as

 relaes so representaes fundadas .
 Fundadas nomeadamente nos

 seus elementos ou relata , mas - e  isto que importa acentuar !
 -

 representaes conscientes e distintas , e no processos

 inconscientes como defendia a psicologia associativa .
 Assim , por

 exemplo , representar as relaes de diferena ou de analogia entre

 um x e um y , ou qualquer outra relao entre eles , significa

 justamente representar algo para alm de x e y .
 Algo que no se

 infere , mas que se constata .

 So estas investigaes sobre contedos fundados que estaro na

 origem da ontologia meinonguiana , da clebre teoria dos objectos ou

 objectologia ( Gegenstandstheorie ) .
 A noo crucial de objectos de

 ordem superior , por exemplo , radica na de contedos fundados 31 .

 iv ) Tambm Husserl se ocupa  altura das representaes que so

 mediadas por outras .
 As representaes simblicas ou imprprias ,

 tal como as define logo no incio da segunda parte da Filosofia da

 Aritmtica , so representaes atravs de signos 32 .
 Quer isto

 dizer que toda a representao cujo contedo no for directamente

 dado  conscincia  uma representao indirecta e como tal

 simblica 33 .
 s representaes simblicas ou imprprias opem-se

 as prprias , a saber , aquelas em que o contedo  dado

 imediatamente , como aquilo que ele  .
 Da fachada exterior de uma

 casa , por exemplo , temos uma representao prpria quando realmente

 a vemos .
 Mas j se trata de uma representao simblica se algum

 nos der a caracterstica indirecta da casa ao indic-la como a casa

 da esquina de tal e tal rua .
 Neste caso o contedo  dado

 claramente por uma caracterstica que o marca e o distingue de

 todos os outros contedos .

 Husserl afirma que na descrio de um objecto h sempre a tendncia

 para substituir a representao prpria , que por vezes tambm

 designa por representao real ( wirklich ) , pela representao

 simblica 34 .
  que as caractersticas da representao simblica

 permitem o reconhecimento posterior do objecto , podendo , desse

 modo , os juzos feitos na base das representaes simblicas ser

 aplicados ao prprio objecto .
 Por exemplo , afirmar que um edifcio

 est muito bem situado  um juzo que assenta na caracterizao

 simblica do edifcio .

 Mas no s os objectos da intuio sensvel podem ser representados

 simbolicamente ; a simbolizao estende-se tambm a conceitos

 abstractos e gerais .
 Uma determinada cor , por exemplo o vermelho ,

 pode ser impropriamente representada como a cor a que correspondem

 tantas e tantas milhes de vibraes do ter por segundo .
 Do mesmo

 modo , um tringulo , entendido propriamente como a figura geomtrica

 fechada , delimitada por trs rectas , pode ser representada

 impropriamente por qualquer outra determinao que lhe seja

 exclusiva , por exemplo , como a figura cujos ngulos somados

 perfazem a soma de dois ngulos rectos .

 A aritmtica no opera com conceitos prprios de nmeros , isto  ,

 as operaes aritmticas no se realizam com os nmeros realmente

 prprios ou sobre eles .
 Na primeira parte da Filo-sofia da

 Aritmtica Husserl mostra como  falsa a doutrina que reduz toda a

 aritmtica a operaes reais com os prprios nmeros , portanto 

 adio e  diviso enquanto nicas aces reais com e sobre os

 nmeros , doutrina que entende as operaes aritmticas superiores

 como simples especializaes : a multiplicao como uma adio

 especial e a potenciao como uma multiplicao especial .

 Tal doutrina ignora " o facto fundamental de que todas as

 representaes de nmeros que possumos para alm dos primeiros da

 srie numrica so simblicos e que s podem ser simblicos ; um

 facto que determina por completo o carcter , o sentido e a

 finalidade da aritmtica"35 .
 S um intelecto divino poderia ter uma

 representao prpria de todos os nmeros e bem assim das operaes

 que com eles se pudessem realizar .
 Deus no necessita da

 matemtica .
  o homem , ser finito , que precisa da aritmtica para

 representar qualquer conjunto que ultrapasse uma dzia de

 elementos .
 Por essa razo , Husserl contrape  expresso " o Deus

 matemtico " de Gau a de " o homem matemtico " 36 .

 Porm , aqui coloca-se a questo com que Husserl encerra o captulo

 X da Filosofia da Aritmtica e com que inicia ipsis verbis o

 tratado " Sobre a Lgica dos Signos " : " Mas como  possvel falar de

 conceitos que propriamente no temos , e como  que no  absurdo

 que sobre esses conceitos se funde a mais segura de todas as

 cincias , a aritmtica ?
 " 37 .
 A resposta que Husserl comea por dar

  sucinta : " Se bem que os conceitos no nos sejam dados de modo

 prprio , so-no de modo simblico"38 .
 Pelos vistos Husserl no

 ficou satisfeito com a brevidade desta resposta dada na Filosofia

 da Aritmtica .
 No seu jeito muito prprio de aclarar qualquer

 questo menos clara mediante anlises mais aprofundadas , Husserl

 retoma no estudo de 1890 sobre semitica a mesma questo em busca

 de uma resposta mais cabal .

 De notar , desde logo , na anlise com que Husserl procura a

 responder  questo  a afirmao inicial de que se trata de uma

 reflexo do mbito da lgica .
 O objectivo  assim responder

 logicamente e no psicologicamente  questo .
 Para isso Husserl

 tenta esclarecer primeiro o conceito de signo .
 Efectivamente se

 representaes imprprias ou simblicas apenas significam

 representaes mediadas por signos , ento o primeiro passo a dar 

 clarificar o termo " signo " .

 v ) Apesar de Husserl declarar que a palavra signo , como aqui a

 define , deve ser tomada no sentido mais amplo que  possvel

 conceber , isso no o isenta de determinar esse sentido .
 A extenso

 do significado do termo no deve equivaler a um significado

 impreciso .
 Assim , Husserl ao dizer que signo de uma coisa  tudo

 aquilo que a distingue , que  adequada a diferenci-la de outras , e

 pelo qual somos capazes de a reconhecer de novo , comea por

 salientar o carcter relacional de signo .
 " O conceito de signo 

 justamente um conceito de relao : ele aponta para um assinalado "

 39 .
 Ora  precisamente a partir da natureza relacional de signo que

 Husserl procede a uma distino dos signos que grosso modo segue a

 de Bolzano .
 Aqui importa chamar a ateno para as distines mais

 importantes , nomeadamente para as distines entre signos que

 assinalam , mas no caracterizam , e outros que caracterizam , mas no

 assinalam , e para a distino entre signos formais e materiais .

 Husserl comea por dividir os signos em signos exteriores e signos

 conceptuais .
 Os primeiros nada tm a ver com o conceito especial do

 assinalado , com o seu contedo ou com as suas qualidades

 especficas .
 Neste caso , os signos limitam-se a assinalar o

 objecto , sem darem qualquer informao acerca da natureza do

 assinalado .
 Exemplo desta classe de signos so os nomes prprios .

 Em contrapartida , os signos conceptuais caracterizam o assinalado ,

 na medida em que dependem do conceito especial deste .
 Os signos

 conceptuais tanto podem ser caractersticas interiores como

 exteriores .
 As caractersticas interiores so determinaes que

 esto includas como contedos parciais na representao do

 contedo assinalado ; as exteriores so determinaes relativas que

 caracterizam o contedo como o fundamento de certas relaes nele

 baseadas .

 Uma distino crucial entre os signos feita por Husserl e com

 consequncias importantssimas na teoria do juzo  a distino

 entre signos formais e signos materiais .
 Esta distino vem

 clarificar a natureza relacional do juzo .
 Muitas vezes

 confundem-se no juzo duas distines completamente diferentes : a

 distino entre contedo do juzo e acto do juzo , por um lado , e a

 entre fundamentos da relao e relao , por outro .
 Confundia-se a

 forma do acto judicativo com a forma da relao .
 Na velha

 explicao do juzo como uma relao ou conexo de representaes

 subjaz indubitavelmente esta confuso .
 A razo de ser principal

 desta confuso est no facto de a largussima maioria dos nossos

 juzos incidir sobre relaes , e da se identificar o ajuizar com o

 relacionar .
 Entretanto no se procedia com a necessria

 consequncia e atribuam-se elementos da relao ora  forma ora ao

 contedo .
 No juzo " Deus  justo " atribua-se " Deus " e " justo " 

 matria ; no juzo " Todos os homens so mortais " o " todos " ( como em

 geral os sinais de quantidade )  forma , na opinio de que a

 quantidade respeitava ao modo de ajuizar .

 Husserl , seguindo a doutrina de Brentano , considera que o juzo no

  uma relao entre um sujeito e um predicado , isto  , a predicao

 de um sujeito , mas sim uma afirmao ou negao de um estado de

 coisas .
 Esta concepo de juzo permite demarcar muito claramente o

 mbito do contedo do juzo e nele distinguir a matria e a forma .

 A matria  representada por nomes , e a forma por expresses

 sincategoremticas , sejam elas simples ou compostas .
 Os nomes

 servem , e essa  a sua especial funo , para designar os contedos

 absolutos , os fundamentos da relao .
 Em contrapartida , as

 expresses sincategoremticas tm a funo de exprimir a relao

 entre os elementos absolutos do pensamento .
 Do ponto de vista do

 juzo singular , pertence  forma , por exemplo na frase , tudo aquilo

 que exprime a relao judicada , e ao contedo tudo aquilo que 

 aqui fundamento da relao .
 Se um destes for composto , ento

 pertence  matria , relativamente a esta composio , o elemento da

 ligao , e  forma o modo da ligao .
 No raciocnio , as premissas e

 a concluso constituem a matria e a sua disposio , na medida em

 que for caracterstica da relao das frases , a forma .
 S em

 segunda linha  que a forma das frases singulares e em terceira

 linha a forma das suas matrias pertence  forma do raciocnio , na

 medida em que processo e contedo da actividade inferencial so

 tambm condicionados por elas .

 vi ) Husserl concebe os signos como um instrumento imprescindvel ao

 pensamento e  cincia .
 So os signos que tornam possvel o

 desenvolvimento psquico .
 Eles so autnticas ferramentas

 necessrias s operaes superiores lgicas .
 " Sem a possibilidade

 de signos caractersticos exteriores e permanentes enquanto apoios

 da nossa memria , sem a possibilidade de representaes simblicas

 substitutas de representaes prprias , mais abstractas , e mais

 difceis de distinguir e de manejar , ou mesmo de representaes que

 nos so de todo interditas enquanto prprias , no haveria qualquer

 vida espiritual superior , para j no falar de cincia .
 Os smbolos

 so o maior meio de ajuda natural com que ultrapassamos os limites

 estreitos da nossa vida psquica , com que podemos tornar

 inofensivas , pelo menos at um certo grau , estas imperfeies

 essenciais do nosso intelecto .
 Por desvios peculiares , poupando

 actos superiores do pensamento , capacitam o esprito humano a

 realizaes que directamente , com um trabalho gnosiolgico prprio ,

 nunca poderia alcanar .
 Os smbolos servem a economia do trabalho

 intelectual tal como as ferramentas e as mquinas servem o trabalho

 mecnico .
 Com a simples mo , o melhor desenhador no traar to

 bem um crculo como um rapaz de escola com o compasso .
 O homem mais

 inexperiente e mais fraco produzir com uma mquina ( desde que a

 saiba manejar ) incomparavelmente mais que o mais experiente e mais

 forte sem ela .
 E o mesmo se passa no campo intelectual .
 Tirem-se ao

 maior gnio as ferramentas dos smbolos e ele tornar-se- menos

 capaz que a pessoa mais limitada .
 Hoje em dia uma criana que

 aprendeu a fazer contas est mais capacitada que na antiguidade os

 maiores matemticos .
 Problemas que para eles eram de difcil

 compreenso e de todo insolveis resolve-os hoje um principiante

 sem grande dificuldade e sem qualquer mrito especial .
 E assim como

 as ferramentas , em crescente complexificao at s mquinas mais

 maravilhosas , constituem uma srie gradativa que reflecte o

 progresso da humanidade no trabalho mecnico , assim tambm acontece

 com os smbolos relativamente ao trabalho intelectual .
 Com a

 aplicao consciente dos smbolos o intelecto humano eleva-se a um

 novo nvel , a um nvel verdadeiramente humano .
 E o progresso do

 desenvolvimento intelectual corre paralelo a um progresso na

 cincia dos smbolos .
 O fantstico desenvolvimento das cincias da

 natureza e a tcnica nelas fundada constituem sobretudo a glria e

 o orgulho dos ltimos sculos .
 Mas no menor ttulo de glria

 parece merecer , com efeito , esse notvel sistema de smbolos , ainda

 no esclarecido , a que aquelas devem imenso , e sem o qual tanto

 teoria como prtica ficariam completamente desamparadas : o sistema

 da aritmtica geral , a mais admirvel das mquinas espirituais que

 j alguma vez apareceram. " 40 .

 CAPTULO SEGUNDO

 PEIRCE E O PRAGMATISMO

 COMO LGICA DA ABDUO

 a ) A mxima pragmatista e a clareza de ideias

 1 No h dvida que pragmatismo se tornou um termo bastante

 equvoco .
 O prprio Peirce deu-se conta da equivocidade que o termo

 assumira desde que o criara , e em 1905 abandonou-o em troca do

 termo pragmaticismo , um termo " suficientemente feio para o livrar

 dos ladres de crianas " .
 Mas se nessa altura , o termo se havia

 tornado um equvoco , hoje quase que se pode falar de um

 abastardamento do seu significado .

  sobretudo no mbito da poltica que hoje se emprega o termo

 pragmtico ou pragmatista .
 Um poltico pragmtico  aquele que age

 de um modo prtico , movido pelas exigncias do momento , sem

 quaisquer preocupaes de ordem ideolgica .
 No h dvida que este

 significado comporta um elemento positivo .
 A um poltico pragmtico

 atribui-se capacidade de iniciativa e de aco .
 Ele interessa-se

 mais pela resoluo concreta dos problemas do que pela investigao

 das suas causas ou da anlise terica dos mesmos .
 A validade de uma

 teoria consiste , ento , apenas numa adequao  prtica .

 Pragmatismo significa positivamente , neste sentido , a percepo

 lcida dos problemas e a capacidade prtica de os resolver sem

 preocupaes de ordem terica .
 O significado negativo de

 pragmatismo est no imediatismo e na falta de referncias tericas .

 O poltico pragmtico opta por solues prticas que sero , na

 maioria das vezes , solues imediatistas , a curto prazo .
 No se

 preocupa com os custos que tais solues possam acarretar .

 Falta-lhe uma cuidadosa ponderao dos efeitos secundrios , mas

 inevitveis , do seu agir .
 Por outro lado , pragmatismo neste sentido

 tambm significa por vezes a completa ausncia de princpios de

 aco e , simultaneamente , a cegueira tica no agir .

 2 Mas qual o significado originrio que C. S. Peirce atribuiu ao

 termo " pragmatismo " ?
 Esse significado pode encontrar-se no artigo

 de Peirce " Como tornar as nossas ideias claras " de 1878 41 .
 O

 pragmatismo tal como transparece da mxima pragmatista formulada a

 por Peirce  sobretudo um mtodo lgico de clarificao das ideias .

 O significado originrio de pragmatismo  de natureza lgica .

 Peirce comea por pr em causa as noes cartesianas de clareza e

 distino .
 Segundo Peirce , na tradio lgica , iniciada por

 Descartes , clareza significa a capacidade de reconhecer uma ideia

 em qualquer circunstncia que ela ocorra e nunca a confundir com

 nenhuma outra .
 Contra tal ideia de clareza levanta Peirce duas

 objeces .
 Em primeiro lugar , isso representaria uma capacidade

 sobre-humana .
 Com efeito , quem poderia reconhecer uma ideia em

 todos os contextos e em todas as formas em que ela surgisse , no

 duvidando nunca da sua identidade ?
 Identificar uma ideia em

 circunstncias diversas no  tarefa fcil , e identific-la em

 todas as suas formas  com certeza tarefa que implicaria " uma fora

 e uma clareza to prodigiosas do intelecto como se encontram

 raramente neste mundo " .
 Em segundo lugar , esse reconhecimento no

 seria mais do que uma familiaridade com a ideia em causa .
 Neste

 caso , porm , teramos um sentimento subjectivo sem qualquer valor

 lgico .
 A clareza de uma ideia no pode resumir-se a uma impresso .

 Por seu lado , a noo de distino , introduzida para colmatar as

 deficincias desta concepo de clareza , exige que todos os

 elementos de uma ideia sejam claros .
 A distino de uma ideia

 significaria , portanto , a possibilidade de a definir em termos

 abstractos .
 A crtica capital de Peirce  noo cartesiana de

 clareza e distino  a de que no permitem decidir entre uma ideia

 que parece clara e uma outra que o  .
 H homens que parecendo estar

 esclarecidos e determinados defendem opinies contrrias sobre

 princpios fundamentais .
 Algum pode estar muito convencido da

 clareza de uma ideia que no o  .

 Como assegurarmo-nos ento objectivamente da clareza de uma ideia ?

  aqui que Peirce introduz a engenharia do pensamento moderno .

 Alis , as invectivas de Peirce contra a lgica tradicional so

 precisamente a de ter ignorado ao longo de mais um sculo a

 revoluo ocorrida no pensamento cientfico e , por conseguinte , no

 ter retirado da as devidas lies .

 Peirce apresenta o pensamento como um sistema de ideias cuja nica

 funo  a produo da crena .
 Que devemos entender aqui por

 sistema de ideias ?
 Antes de mais , h que distinguir entre dois

 tipos de elementos da conscincia : aqueles de que temos

 imediatamente conscincia e aqueles de que temos mediatamente

 conscincia .
 Uma melodia  um bom exemplo destes dois tipos de

 elementos .
 Os sons que a compem so ouvidos directamente .
 Cada som

  uma nota e dele temos conscincia ( ouvimo-lo ) num determinado

 momento , separadamente dos sons que ouvi-mos antes e dos sons que

 ouviremos depois .
 Em contrapartida , a melodia  um elemento mediato

  conscincia , mediado pelos sons que a compem .
 Tal como a

 melodia , tambm o pensamento  uma aco que tem comeo , meio e

 fim , e consiste na congruncia da sucesso de sensaes que passam

 pela mente .
 Nas palavras de Peirce , " o pensamento  a linha de uma

 melodia atravs da sucesso das nossas sensaes " .
 Dizer , portanto ,

 que o pensamento  um sistema de ideias significa dizer que o

 pensamento  uma sucesso ordenada de ideias .
 A ordem da sucesso

 ou a unidade do sistema reside na sua funo .
 A funo do

 pensamento  unicamente a de produzir a crena .
 A crena , por seu

 lado ,  o apaziguamento da dvida .
 Mas , ao sossegar a irritao da

 dvida , a crena " implica a determinao na nossa natureza de uma

 regra de aco , ou , numa palavra , de um hbito " .
 Quer isto dizer

 que com a crena acaba a hesitao de como agirmos ou procedermos .

 Um exemplo poder esclarecer como  que a crena  uma regra de

 aco .
 Se encontro uma pessoa que no me  inteiramente

 desconhecida , mas que de momento no identifico , comeo a

 interrogar-me sobre quem ser , de onde a conheo .
 Essa pessoa

 cumprimenta-me e no consigo lembrar-me de quem se trata .
 No sei

 que hei-de dizer-lhe , e isso perturba-me .
 De repente , consigo

 identificar a pessoa .
 Da em diante todas as minhas aces , a

 maneira como me dirijo a essa pessoa e os assuntos que com ela

 poderei abordar so determinados por esse reconhecimento .
 Em termos

 peirceanos ,  uma crena que sossegou a minha dvida e que

 constitui agora a base das minhas .

 A essncia da crena  a criao de um hbito ; e diferentes crenas

 distinguem-se pelos diferentes modos de aco a que do origem .
 

 com estas palavras que Peirce inicia o pargrafo 398 , um dos mais

 importantes do seu ensaio .
 Vejamos a primeira parte da afirmao de

 Peirce : " a essncia da crena  a criao de um hbito " .
 Se eu

 julgar que determinado objecto  um garfo , ento servir-me-ei dele

 para levar  boca certos alimentos slidos .
 A crena de que esse

 objecto  um garfo condiciona as aces que farei com ele .
 O hbito

 no  mais do que o conjunto de todas essas aces , tanto reais

 como possveis .
 Porm , para um chins de uma aldeia remota do

 interior da China , que se serve normalmente de pauzinhos para levar

  boca os alimentos slidos , e que encontra um " garfo " perdido por

 um viajante ocidental , a sua crena acerca desse objecto pode ser

 completamente diferente .
 Pode julgar , por exemplo , que se trata de

 um ancinho para pequenos vasos de flores .
 Nesse caso , a sua crena

 consistir em servir-se dele para tratar a terra dos seus vasos .

 Vimos atrs que as crenas determinam a aco .
 Mas a mesma crena

 determina as mesmas aces .
 Se as crenas se alteram tambm as

 aces se alteram .
  por isso que o hbito constitui a identidade

 da crena .

 A segunda parte da afirmao de Peirce , isto  , de que " diferentes

 crenas se distinguem pelos diferentes modos de aco a que do

 origem " , decorre da primeira .
 Enquanto identidade da crena , o

 hbito de aco  o critrio para avaliar da diferena entre

 crenas .
 No teria pois qualquer sentido afirmar uma diferena de

 crenas cujos resultados de aco no s efectivamente , mas tambm

 possivelmente fossem os mesmos .
 O que decide ento da identidade ou

 da diversidade das crenas no so meras palavras , mas sim aces

 empiricamente verificveis , j que os referidos resultados de aco

 so resultados sensveis 42 .

 Para ilustrar o seu mtodo de tornar as ideias claras , Peirce faz

 no pargrafo 401 uma incurso pelos domnios da f catlica

 relativamente ao mistrio da Eucaristia .
 Os catlicos acreditam que

 na celebrao eucarstica tem lugar a transubstanciao do po e do

 vinho no corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo .
 A sua f

 diz-lhes que , a partir do acto da consagrao pelo sacerdote , o po

 deixa de ser po , o vinho deixa de ser vinho , e passam a ser

 realmente o corpo e sangue de Cristo .
 Em contrapartida , " as igrejas

 protestantes defendem em geral que os elementos da eucaristia so

 carne e sangue apenas em sentido figurado " .

 Ora , pela teoria de Peirce , no tem sentido dizer que no  po ou

 vinho aquilo que tem as qualidades de po e vinho .
 O po e o vinho

 consagrados na eucaristia , e segundo a f catlica tornados

 realmente corpo e sangue de Cristo , mantm as propriedades que

 caracterizam o po e o vinho ; as mesmas propriedades fsicas ,

 qumicas e nutritivas .
 Isso nenhum catlico enquanto pessoa de bom

 senso pode negar .
 E , portanto , segundo Peirce , "  palavreado oco ,

 falar de algo como tendo todas as caractersticas do vinho , mas que

 na realidade  sangue " .

 A doutrina catlica da transubstanciao funda-se na filosofia

 aristotlica , nomeadamente na distino entre substncia e

 acidentes .
 Na Eucaristia , tem lugar uma mudana de substncia do

 po e do vinho em corpo e sangue de Cristo , mas mantendo-se nessa

 mudana substancial os acidentes de po e vinho .
 A meu ver , a

 crtica de Peirce dirige-se no tanto ao mistrio eucarstico , mas

 sobretudo  explicao filosfica adoptada pelo magistrio

 catlico .
 A teoria aristotlica da substncia e dos acidentes 

 hoje cientificamente inaceitvel , obrigando pois a uma reviso do

 conceito de " transubstanciao " aplicado ao mistrio eucarstico .

 Contudo , permanece a questo da " realidade " do corpo e sangue de

 Cristo nos elementos do po e do vinho .
 Empiricamente , o po e o

 vinho continuam a ser po e vinho , justamente na medida em que

 mantm as propriedades de po e vinho .
 Aos olhos da f , porm , o

 po deixa de ser realmente po e o vinho deixa de ser realmente

 vinho , para se tornarem no corpo e sangue de Cristo .
 O hino

 eucarstico de S. Toms de Aquino " Pange lingua " diz isso mesmo :

 " Praestet fides supplementum sensuum defectui " .
  alis de acordo

 com a realidade dos olhos da f que o crente catlico determina as

 suas concepes e os seus actos relativamente  Eucaristia .

 Alis aqui pode aplicar-se o mtodo de Peirce .
 A crena na

 realidade eucarstica estabelece uma regra de aco nos catlicos .

 Quando vai  comunho , a inteno do catlico no  alimentar-se

 corporalmente , embora efectivamente tambm o faa se comungasse

 meio quilo de hstias consagradas , obviamente que ficaria saciado ,

 mas sim alimentar-se espiritualmente .
 Quando vai visitar o

 Santssimo Sacramento da Eucaristia , ento f-lo pela f na

 presena real de Cristo .
 O martrio de S. Tarcsio , morto por

 defender as espcies sagradas ,  o melhor exemplo dos

 comportamentos prticos que a crena determina .
 Se " a essncia da

 crena  a criao de um hbito " e se " diferentes crenas se

 distinguem pelos diferentes modos de aco a que do origem " , ento

 a realidade eucarstica dever espelhar-se nas aces e

 comportamentos dos catlicos .
 Ora  justamente isso que acontece .
 A

 crena na realidade eucarstica , o mesmo  dizer , na presena real

 de Cristo na eucaristia , consiste na crena nos efeitos prticos

 que os catlicos concebem que essa presena divina tem nas suas

 vidas .

 No pargrafo 402 , Peirce formula ento a mxima pragmatista :

 " considera quais os efeitos , que podem ter certos aspectos

 prticos , que concebemos que o objecto da nossa concepo tem .
 A

 nossa concepo dos seus efeitos constitui o conjunto da nossa

 concepo do objecto " .
 Quer isto dizer , que a nossa ideia do

 objecto  to simplesmente a ideia dos efeitos sensveis que

 concebemos que o objecto tem ou pode ter .

 b ) O pragmatismo como lgica da abduo

 A mxima pragmatista  uma mxima lgica e no um sublime princpio

 de filosofia especulativa .
  isto que Peirce afirma logo na

 primeira 43 das sete conferncias sobre pragmatismo que em 1903 fez

 em Harvard a convite de William James e que , de certo modo , tornou

 essas conferncias ininteligveis para os ouvintes 44 .
 Com estas

 conferncias Peirce tenta fundamentalmente dar uma resposta lgica

 e no psicolgica !
  seguinte questo : " Qual  a prova de que os

 efeitos prticos de um conceito constituem a soma total do

 conceito ?
 " 45  que na primeira formulao da mxima pragmatista , o

 argumento , de que a crena consistia em estar deliberadamente

 preparado para adoptar a frmula criada como guia da aco ,

 assentava num princpio psicolgico , nomeadamente o de a concepo

 de verdade se desenvolver a partir de um impulso original para agir

 consistentemente ou ter uma inteno definida .
 Mas , alm de tal

 princpio no ser claro , ele tambm no respondia  objeco de que

 embora no existisse diferena prtica entre duas concepes ,

 algum poderia reconhecer uma concepo como sua e no a outra .
 O

 critrio pragmtico no seria nesse caso suficiente para decidir

 sobre a identidade ou diferena de duas concepes .
 A prova lgica

 de que os efeitos prticos de um conceito constituem efectivamente

 a soma total do conceito obtm-a Peirce apresentando o pragmatismo

 como a lgica da abduo .
 Efectivamente o ciclo de conferncias em

 Harvard termina por apurar que a questo do pragmatismo mais no 

 que a questo da abduo 46 .

 Nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu .
 Este

 princpio aristotlico  a primeira das trs proposies com que

 Peirce tenta " afiar " a mxima pragmatista 47 .
 Por in intellectu

 deve entender-se toda a ideia ou representao de qualquer tipo de

 conhecimento , seja este virtual ou simblico .
 Por ter estado in

 sensu entende expressamente Peirce ter passado por um juzo

 perceptivo .
 Quer esta primeira proposio cotria dizer , portanto ,

 o seguinte : nenhuma ideia , seja de que tipo for , se encontra na

 mente que no tenha passado primeiro por um juzo perceptivo .
 Os

 juzos preceptivos surgem assim como a verdadeira fonte do

 conhecimento .

 O problema que aqui se levanta , e que  o problema principal de

 qualquer teoria do conhecimento ou lgica ,  o seguinte : como 

 possvel obter de juzos particulares , como so os juzos

 perceptivos , conceitos e juzos universais ?
 Dito de outra maneira :

 Se tudo vem da sensibilidade , e sendo a sensibilidade sempre uma

 apreenso do singular , como  que podemos chegar a conceitos

 universais ?

 Logo no incio da sexta conferncia " Trs tipos de raciocnio " 48 ,

 Peirce define geral e singular .
 Seguindo Aristteles , Peirce define

 o geral como aquilo quod aptum natum est praedicari de pluribus .

 Trata-se de uma definio de cariz eminentemente lgico .
  geral o

 que se predica de vrios .
 O singular , por seu lado  definido como

 aquilo que reage .
 Reaco deve ser entendida aqui como resistncia

  arbitrariedade representativa de quem formula o juzo .
 O singular

  o existente que est completamente determinado e , portanto , no

 d azo a uma determinao ulterior por parte de quem o apreende .
 

 justamente o singular que traduz o carcter impositivo ou reactivo

 de todo o objecto da percepo .
 Dito de outro modo : o sujeito de um

 juzo perceptivo de um juzo baseado numa percepo !
  sempre um

 existente e , sendo esse existente completamente determinado na sua

 existncia , ele impe-se como tal ao cognoscente 49 .

 Mas embora os juzos perceptivos sejam juzos singulares , eles no

 deixam de envolver a generalidade o seu predicado  geral , de tal

 forma que a partir deles se podem deduzir proposies universais .
 

 esta a segunda proposio cotria .
 A questo que muito

 pertinentemente se levanta aqui  como  que a generalidade entra

 nos juzos perceptivos .
 Se  com estes juzos que todo o

 conhecimento comea , de acordo com a primeira posio cotria ,

 ento importa saber como  que a generalidade aparece neles .
 A

 resposta de Peirce  que a introduo da generalidade nos juzos

 perceptivos se faz abdutivamente .

 O que  a abduo ?
 Peirce apresenta-a como um dos trs tipos de

 raciocnio , sendo os outros dois a deduo e a induo 50 .
 Enquanto

 a deduo prova que algo deve ser ( inferncia necessria ) e a

 induo prova que algo realmente  ( inferncia experimental ) , a

 abduo prova que algo pode ser ( inferncia hipottica ) .
 A deduo

 parte de certas hipteses ( premissas ) e retira delas de modo

 necessrio o que nelas se encontra implicitamente suposto , a saber ,

 a concluso .
 Mas a deduo deixa em aberto a verdade das premissas

 51 .
 A induo , por seu lado , consiste em verificar uma teoria

 mediante a experimentao .
 Ela no constitui certamente o mtodo de

 adquirir novos conhecimentos , como pretenderam os pensadores

 modernos .
 Por mais experimentos que se fizessem , eles nunca nos

 levariam a uma nova doutrina .
 O que a induo faz  apenas

 comprovar uma teoria avanada de antemo para explicar certos

 fenmenos .
 " A induo consiste em partir de uma teoria , dela

 deduzir predies de fenmenos e observar esses fenmenos a fim de

 ver quo de perto concordam com a teoria. " 52 .
 A abduo , por fim ,

  o mtodo de formao de novas hipteses explicativas .
 Trata-se do

 nico tipo de raciocnio capaz de engendrar novos conhecimentos .
 As

 premissas da deduo e as teorias supostas pela induo so de

 natureza hipottico-explicativa , a sua criao deve-se  abduo .

 A forma de inferncia abdutiva  a seguinte : " Um facto

 surpreendente , C ,  observado ; Mas se A fosse verdadeiro , C seria

 natural .
 Donde h razo para suspeitar que A  verdadeiro " 53 .
 Mas

 como chegamos a A ?
 Como surge essa hiptese explicativa ?
 Peirce

 associa a abduo ao instinto .
 O homem tem uma faculdade especial

 de elaborar hipteses explicativas .
  uma espcie de introviso

 ( Insight ) da natureza 54 .
 Sebeok utiliza aqui o velho topos da

 lumen naturale para classificar a capacidade abdutiva do homem 55 .

 Exposto o tipo de raciocnio abdutivo , vejamos agora como  que a

 generalidade entra abdutivamente nos juzos perceptivos .

 A terceira proposio cotria apresenta os juzos perceptivos como

 casos extremos de inferncias abdutivas 56 .
 " A terceira proposio

 cotria  que a inferncia abdutiva se transforma no juzo

 perceptivo sem que haja uma linha clara de demarcao entre eles :

 ou , por outras palavras , as nossas primeiras premissas , os juzos

 perceptivos , devem ser encarados como um caso extremo das

 inferncias abdutivas , das quais diferem por estar absolutamente

 alm de toda a crtica " 57 .
 Peirce fundamenta a terceira proposio

 cotria no carcter interpretativo dos juzos perceptivos .
 Em

 muitos casos o objecto da percepo pode ser classificado de

 maneira diferente .
 O exemplo apontado por Peirce so as iluses

 pticas , nomeadamente a iluso da figura esboada de alguns degraus

 vistos em perspectiva por vezes temos a impresso de olhar os

 degraus de cima , e de repente parece que vemos de baixo os degraus .

 Nestes casos , uma teoria da interpretao da figura d sempre a

 impresso de ser dada na percepo : " Da primeira vez em que nos 

 apresentada , ela parece estar sempre to completamente alm da do

 controle da crtica racional quanto o est qualquer objecto da

 percepo ; mas , aps muitas repeties da experincia agora

 familiar , a iluso desgasta-se , tornando-se inicialmente menos

 definida e acabando , ao fim , por desaparecer por completo .
 Isto

 demonstra que estes fenmenos so verdadeiros elos conectivos entre

 abdues e percepes. " 58 .
 Estas variaes da percepo do objecto

 e consequentemente dos juzos perceptivos mostram que existe uma

 dependncia destes juzos relativamente  abduo .
 O objecto da

 percepo no  dado como um facto bruto , absolutamente

 inquestionvel , mas  sempre percepcionado  luz de determinada

 teoria .
 De certo modo , ele  sempre interpretado .
 Portanto , os

 juzos perceptivos so casos ainda que extremos de inferncias

 abdutivas 59 .

 A linha de demarcao entre juzos perceptivos e inferncias

 abdutivas propriamente ditas reside na incapacidade de conceber a

 negao dos juzos perceptivos .
 Trata-se da prova da

 inconceptibilidade .
 Esta  o nico meio de distinguir entre uma

 abduo e um juzo perceptivo .
 Enquanto podemos conceber sem mais a

 negao de uma inferncia abdutiva e imaginar uma outra hiptese

 explicativa , " no podemos formar a menor concepo do que seria

 negar o juzo perceptivo " 60 .

 A mxima pragmatista constitui o critrio de admissibilidade das

 hipteses explicativas .
  precisamente por isso que a questo do

 pragmatismo se identifica com a questo da abduo .
 " O pragmatismo

 prope uma certa mxima que , se slida , deve tornar desnecessria

 qualquer norma ulterior quanto  admissibilidade das hipteses se

 colocarem como hipteses , isto  , como explicaes dos fenmenos

 consideradas como sugestes auspiciosas ; e , mais ainda , isto  tudo

 o que a mxima do pragmatismo pretende realmente fazer , pelo menos

 na medida em que est restrita  lgica e em que no  compreendida

 como uma proposio em psicologia. " 61 .
 Quer isto dizer o seguinte :

 o universo das hipteses explicativas  infinito .
 Sendo a forma

 cannica da abduo o raciocnio " Um facto surpreendente , C , 

 observado ; Mas se A fosse verdadeiro , C seria natural .
 Donde h

 razo para suspeitar que A  verdadeiro " , ento todo e qualquer

 alvitre que de alguma forma pudesse explicar um fenmeno teria

 razo de ser 62 .
  aqui que se impe estabelecer um limite e esse

 limite  a mxima pragmatista .
 A abduo feita , mais exactamente , a

 hiptese abduzida tem de criar o hbito de como lidar com o

 fenmeno explicado .
 Essa hiptese vai guiar a conduta prtica de

 quem a formulou .

 Entendida a mxima pragmatista como critrio da admissibilidade de

 hipteses , isto  , entendida como princpio lgico , ela formula-se

 da seguinte forma : " A mxima do pragmatismo  que uma concepo no

 pode ter efeito lgico algum , ou importncia a diferir do efeito de

 uma segunda concepo salvo na medida em que , tomada em conexo com

 outras concepes e intenes , poderia concebivelmente modificar a

 nossa conduta prtica de um modo diverso do da segunda concepo "

 63 .

 [ INLINE ]

 1 - Ver Brent , ibidem. p. 326 .

 2 - " Ist der von Bolzano und anschliessend von Frege , Meinong und

 Husserl vollzogene Anfangsschritt , durch den die Gedanken aus der

 Innenwelt der Bewusstseinserlebnisse verstossen werden , erst einmal

 getan , ist der zweite Schritt die Auffassung , wonach die Gedanken

 durch die Sprache nicht nur bertragen , sondern erzeugt werden

 praktisch kaum zu vermeiden. " Micahel Dummet , Ursprnge der

 analytischen Philosophie , Frankfurt : Suhrkamp , p. 37 .

 3 - "  285 .
 Bezeichnung unserer Vorstellungen " , pp .67-78 .

 4 - "  334 .
 Verknpfung unserer Vorstellungen mit zweckmssigen

 Zeichen .
 Vorteile dieser Verknpfung " , pp. 355-358 .

 5 - Cf  335-344 , pp. 358-377 .

 6 - " Ein Gegenstand , dessen wir uns zu einem solchen Zwecke bedienen ,

 d.h. durch dessen Vorstellung wir eine andere in einem denkenden

 Wesen mit ihr verknpfte Vorstellung erneuert wissen wollen , heisst

 uns ein Zeichen. " p. 67 .

 7 - Bolzano no faz a diferena entre representao assinalada e o

 objecto da representao assinalada .
 Aos dois chama significado do

 signo .
 Mas  bvio que se tratam de coisas diferentes .
 A confuso

 surge dada a definio de signo se basear no conceito de

 representao .

 8 - Cifrar  334 .

 9 - Cifrar  335-338 .

 10 - Cifrar  339-342 .

 11 - " jene Regeln , nach denen wir bei der Bezeichnung unserer

 Vorstellungen fr den Zweck des eigenen Nachdenkens vorzugehen

 haben , in der Lehre vom wissenschaftlichen Vortrage schon als

 bekannt vorausgesetzt werden mssen. "  334 .

 12 - Ver William Kneale e Martha Kneale , O Desenvolvimento da Lgica ,

 Lisboa : Fundao Calouste Gulbenkian , 1972 , p. 441 .

 13 - Sobre este item cifrar Michael Dummet , Ursprnge der

 analytischen Philosophie , Frankfurt : Suhrkamp , pp. 11-39 .

 14 - " In diesem Aufsatz [ Sinn und Bedeutung ] darf man eine der

 wichtigsten historischen Quellen der modernen Semantik sehen. "

 Gnther Patzig na introduo a Gottlob Frege , Funktion , Begriff ,

 Bedeutung .
 Fnf logische Studien , ( org .
 G.Patzig ) , Goettingen :

 Vandenhoeck & Ruprecht , 1980 , ( p .4 ) .

 15 - Utiliza-se aqui a edio referida na nota anterior deste artigo

 de Frege .

 16 - Sobre este tema cifrar o cap. 3 " Wahrheit und Bedeutung " da

 obra referida de Michael Dummet .

 17 - Philosophie der Arithmetik .
 Logische und Psychologische

 Unter-suchungen .
 Husserliana ( Hua ) XII , pp. 1-283 .

 18 - " ber den Begriff der Zahl .
 Psychologische Analysen " , tambm

 publicada como complemento em Hua XII , pp. 289-339

 19 - Hua XII , p .287 .

 20 - " Auf den Unterschied zwischen " eigentlichen " und

 " uneigent-lichen " oder " symbolischen " Vorstellungen hat Fr .

 Brentano in seinen Universittsvorlesungen von jeher den grten

 Nachdruck gelegt. Ihm verdanke ich das tiefere Verstndnis der

 eminenten Bedeutung des uneingentlichen Vorstellens fr unser

 ganzes psychisches Leben , welche vor ihm , soweit ich sehen kann ,

 niemand voll erfat hat. " Hua XII , p. 193 .

 21 - Sobre este assunto , ver em Antnio Fidalgo , O Realismo da

 Fenomenologia de Munique , Braga , 1991 , o cap .
 " O Mecanismo

 Associativo da Alma " , pp. 47-63 .

 22 - " Neben die Mechanik der ueren Natur tritt die Mechanik der

 Seele .
 Von Herbart rhmten seine Schler , er habe mehr ge-leistet

 als Newton mit seiner Mechanik des Himmels , da die Seele soviel

 hher stehe und komplizierter sei als die Krperwelt. " Michael

 Landmann , Philosophische Anthro-pologie , Berlim : Gruyter , 19825 ,

 p .105 .

 23 - Cf .
 Fidalgo , " Pfnders Weg vom Monismus zur Phnomenologie " in

 Karl Schuhmann , Categories of Counsciousness .
 The Descri-pti-ve

 Psychology of Alexander Pfnder , Dordrecht , Nijhoff .

 24 - Brentano , Psychologie vom empirischen Standpunkt , Hamburgo :

 Meiner , p .41 .

 25 - Brentano , Deskriptive Psychologie , Hamburgo : Meiner , 1982 , pp .

 67-69 .

 26 - Ehrenfels , " ber Gestaltqualitten " in Vierteljahrschrift fr

 wissenschaftliche Philosophie 14 , pp. 249-292 .

 27 - Publicados em Hua XXII , Aufstze und Rezensionen ( 1890-1910 )

 28 - " Hieraus geht unwiderleglich hervor , da die Melodie oder

 Tongestalt etwas Anderes ist , als die Summe der einzelnen Tne , auf

 welchen sie sich aufbaut. " Ehrenfels , ibidem , p. 259 .

 29 - " Unter Gestaltqualitten verstehen wir solche positive

 Vorstellungsinhalte , welche an das Vorhanden-sein von

 Vorstel-lungs-komplexen im Bewutsein gebunden sind , die ihrerseits

 aus von einander trennbaren ( d.h. ohne einander vorstellbaren )

 Elementen bestehen. " ibidem , p. 262 .

 30 - Meinong , " Zur Psychologie der Komplexionen und Relationen " em

 Zeitschrift fr Psychologie und Physiologie der Sinnesorgane 2 ,

 1891 , pp. 245-265 .

 31 - Cf .
 Meinong , " ber Gegenstnde hherer Ordnung un deren

 Ver-hltnis zur inneren Wahrnehmung " em Zeitschrift fr

 Psycho-logie und Physiologie der Sinnesorgane 21 , 1899 , pp .

 182-272 , e ber Gegenstandstheorie .
 Untersuchungen zur

 Gegenstandstheorie und Psychologie , Leipzig : Barth , 1904 .

 32 - " Eine symbolische oder uneigentliche Vorstellung ist , wie schon

 der Name besagt , eine Vorstellung durch Zeichen. " Hua XII , p. 193

 33 - " Ist uns ein Inhalt nicht direkt gegeben als das , was er ist ,

 sondern nur indirekt durch Zeichen , die ihm eindeutig

 charakterisieren , dann haben wir von ihm statt einer eigen-tlichen

 eine symbolische Vorstellung. " ibidem .
 34 - " Jede Beschreibung eines

 anschaulichen Objekts hat die Tendenz , die wirkliche Vorstellung

 desselben durch eine stell-vertretende Zeichen-vorstellung zu

 ersetzen. " ibidem , p. 194 .

 35 - Hua XII , p. 190 .

 36 - Hua XII , p. 192 .

 37 - Hua XII , p. 192 e Hua XII , p. 340 .

 38 - HUA XII , p. 192 .

 39 - Cf. [ 341 ] .

 40 - Hua XII , p. 349 .

 41 - O termo pragmatismo ainda no aparece neste artigo .
 Alis ele

 no se encontra nos primeiros escritos de Peirce .
 Trata-se pois do

 seu significado avant la lettre .

 42 - Sobre esta temtica , veja-se a excelente exposio de John

 Murphy , O Pragmatismo .
 De Peirce a Davidson , Lisboa : Asa , 1993 ,

 pp .38-41 .

 43 - " uma das faltas que me podem atribuir  ter feito do pragmatismo

 uma mxima lgica em vez de um sublime princpio de filosofia

 especulativa " Col .
 Papers , 5.18 , traduzido em Peirce , Frege .
 Os

 Pensadores , So Paulo : Editor Victor Civita , 1983 , p. 11 .

 44 - " Most of his hearers , including James ...
 , found the lectures

 obscure , if not unintelligible. " Joseph Brent , Charles Sanders

 Peirce .
 A Life , Bloomington : Indiana University Press , p. 291 .
 O

 prprio Peirce , numa carta a Christine Ladd-Franklin , queixa-se da

 incompreenso encontrada e acusa o psicologismo de Wundt disso : " In

 the Spring of 1903 I was invited , by the influence of James , Royce

 and Mnstenberg , to give a course of lectures in Harvard University

 on Pragmatism .
 I had intended to print them ; but James said he

 could not understand them himself and could not recommend their

 being printed. I do myself think there is any difficulty in

 understanding them , but all modern psychologists are so soaked with

 sensatinalism that they can not understand anything that does not

 mean that , and mistranslate into the ideas of Wundt whatever one

 says about logic. " ibidem .

 45 - ibidem .

 46 - " Se os senhores examinarem com ateno a questo do

 pragmatismo , vero que ela nada mais  excepto a questo da lgica

 da abduo. " Charles S.Peirce , Semitica , So Paulo : Editora

 Perspectiva , 1977 , p. 232 ) .

 47 - Cf .
 1 .
 cap .
 " As Trs Proposies Cotrias " da ltima conferncia

 " Pragmatismo e Abduo " ibidem , pp. 225-239 ) .

 48 - ibidem , pp. 211-224 .

 49 - " Reaco  existncia e o juzo perceptivo  o produto cognitivo

 de uma reaco. " ibidem , p. 213 .

 50 - Tambm aqui Peirce se reporta a Aristteles , nomeadamente aos

 Primeiros Analticos ; ibidem , p. 207 .

 51 - " Na deduo , ou raciocnio necessrio , partimos de um estado de

 coisas hipottico que definimos sob certos aspectos abstractos .

 Entre os caracteres aos quais no prestamos nenhuma ateno neste

 modo de argumento est o seguinte : se a hiptese das nossas

 premissas se adequa ou no , mais ou menos , ao estado de coisas no

 mundo exterior. " ibidem , p. 215 .

 52 - ibidem , p. 219 .

 53 - ibidem , p. 229

 54 - " Seja como for que o homem tenha adquirido a sua faculdade de

 adivinhar os caminhos da Natureza , certamente no o foi atravs de

 uma lgica crtica e autocontrolada .
 Mesmo agora ele no consegue

 dar uma razo precisa para as suas melhores conjecturas .
 Parece-me

 que a formulao mais clara que podemos fazer a respeito da

 situao lgica a mais livre de toda a mescla questionvel de

 elementos consiste em dizer que o homem tem uma certa Introviso

 ( Insight ) , suficientemente forte para que esteja , na esmagadora

 maioria das vezes , com mais frequncia certo do que errado , uma

 Introviso da Terceiridade , os elementos gerais , da Natureza. "

 ibidem , 221 .

 55 - " As Peirce characterizes abduction , it is based on instinct in

 particular , on a natural insight into the laws of nature captured

 by the frase il lume naturale ' the natural light ' .
 In spite of its

 instinctive base , abduction is clearly classified by Peirce as a

 method of reasoning. " Sebeok , Enciclopedic Dictionary of Semiotics ,

 56 - " Abductive inference is also linked to perceptual judgement by

 Peirce ; perceptual judgements are extreme instances of abductive

 inference , from which they differ in being absolutely beyond

 criticism. " ibidem .

 57 - Peirce , ibidem , p. 226 .

 58 - Peirce , ibidem , p. 227 .

 59 - " 184 .
 Se o percepto ou o juzo perceptivo fosse de uma tal

 natureza que estivesse de todo desligada da abduo , seria de

 esperar que o percepto fosse inteiramente livre dos caracteres que

 so prprios s interpretaes , enquanto que dificilmente pode

 deixar de apresentar tais caracteres se for meramente uma srie

 contnua daquilo que , discreta e conscientemente realizadas , seriam

 as abdues .
 Temos aqui , desta forma , quase uma verificao crucial

 da minha terceira proposio cotria .
 Neste caso , qual  o facto ?
 O

 facto  que no h necessidade de ir alm das observaes comuns da

 vida comum para encontrar uma variedade de modos amplamente

 diferentes pelos quais a percepo  interpretativa. " ibidem , p .

 227 .

 60 - ibidem , p. 228 .

 61 - ibidem , p. 232 .

 62 - " Um fsico depara-se com um novo fenmeno em seu laboratrio .

 Como  que ele sabe se as conjunes dos planetas tm algo a ver

 com isso , ou se isso  assim porque , talvez , a imperatriz viva da

 China , no mesmo momento h um ano atrs , pronunciou alguma palavra

 com um poder mstico , ou se o facto se deve  presena de algum

 esprito invisvel ?
 Pense-se nos trilhes e trilhes de hipteses

 que se poderiam formular e das quais apenas uma  verdadeira ;

 todavia , aps duas ou trs , no mximo uma dzia de conjecturas , o

 fsico d , bastante aproximadamente , com a hiptese correcta. " .

 ibidem , p. 220 .

 63 - ibidem , p. 232 .

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