 Sentido e Verificao *

 M. Schlick

 As questes filosficas , se comparadas aos problemas cientficos

 comuns , so sempre estranhamente paradoxais .

 Entretanto , parece ser um paradoxo especialmente estranho o fato de

 que o problema concernente ao sentido de uma proposio constitua uma

 dificuldade filosfica sria .
 Com efeito , porventura no consiste a

 prpria natureza de toda e qualquer proposio em expressar ela mesma

 o seu sentido ?

 De fato , quando deparamos com uma proposio - em uma lngua que nos

 seja familiar - , habitualmente conhecemos de imediato o seu

 significado .
 Se no o conhecermos , algum pode no-lo explicar , porm a

 explicao constar de uma nova proposio ; e se esta nova proposio

 for capaz de exprimir o sentido , por que razo a original no o ter

 conseguido fazer ?
 De tal maneira que uma pessoa comum , ao se lhe

 perguntar o que quis dizer com um certo enunciado , poderia com plena

 razo responder o seguinte : " Quis dizer exatamente o que disse " .

  logicamente legtimo - constituindo o caminho normal na vida

 ordinria e mesmo na cincia - responder a uma questo atinente ao

 sentido de uma proposio , simplesmente repetindo-a de maneira mais

 distinta ou em palavras ligeiramente diferentes .

 Em que circunstncias , portanto , pode ter sentido inquirir pela

 significao de um enunciado que temos bem presente aos olhos ou aos

 ouvidos ?
 Evidentemente , a nica possibilidade  que no o tenhamos

 compreendido .
 Neste caso , o que na realidade temos diante dos olhos ou

 aos nossos ouvidos

 no passa de uma seqncia de palavras que somos incapazes de manejar ;

 no sabemos como utiliz-las , como " aplic-las  realidade " .

 Tal srie de palavras  para ns simplesmente um conjunto de sinais

 " destitudo de significao " , uma mera seqncia de sons ou uma pura

 seqncia de sinais grficos no papel , no tendo ns direito algum de

 denomin-la " uma proposio " ; talvez possamos falar , no caso , de uma

 " frase " ou " sentena " .

 Se adotarmos esta terminologia , podemos agora facilmente livrar-nos do

 paradoxo , dizendo que no podemos perguntar pelo sentido de uma

 proposio , contudo podemos inquirir pelo sentido de uma " frase " ou

 " sentena " , e que isto eqivale a perguntar " em lugar de que

 proposio est a frase ou sentena ?
 "

 Esta ltima questo , respondemo-la ou por uma proposio em uma lngua

 com a qual estamos perfeitamente familiarizados , ou indicando as

 regras lgicas que permitem transformar uma sentena em uma

 proposio , isto  , indicando em que circunstncias a sentena deve

 ser empregada .

 Na realidade , esses dois mtodos no diferem em princpio ; ambos do

 sentido  sentena ou frase ( em outros termos , ambos transformam-na em

 proposio ) .
 localizando-a , por assim dizer , dentro do sistema de uma

 determinada lngua ou linguagem .
 O primeiro mtodo fa-lo- empregando

 uma linguagem que j possumos ; o segundo , construindo-a para ns .

 O primeiro mtodo representa a espcie mais simples da " traduo "

 comum ; o segundo proporciona uma compreenso mais profunda da natureza

 da significao , e dever ser utilizado no intuito de superar

 dificuldades filosficas relacionadas  compreenso das sentenas .

 A fonte dessas dificuldades encontra-se no fato de muitas vezes no

 sabermos como empregar as nossas prprias palavras ; falamos ou

 escrevemos sem antes termos concordado em uma gramtica lgica

 definida , que deve estabelecer o significado dos nossos termos .

 Cometemos o erro de pensar que conhecemos o sentido de uma frase ou

 sentena , ou seja , que a compreendemos como uma proposio , quando

 estamos familiarizados com todos os termos que nela ocorrem .
 Todavia ,

 isto no  suficiente .
 No conduzir isto  confuso ou erro enquanto

 permanecermos no mbito da vida de cada dia que formou as nossas

 palavras e para o qual estas so adequadas ; entretanto , tornar-se-

 fatal no momento em que tentarmos refletir sobre problemas abstratos

 com os mesmos termos , sem fixar diligentemente o seu significado para

 a nova finalidade .

 Com efeito , cada palavra tem um determinado sentido ou significao

 somente dentro de outro contexto definido no qual foi inserida e ao

 qual foi adaptada ; em qualquer outro contexto carecer inteiramente de

 significao , a no ser que formulemos novas regras para o emprego da

 palavra no mesmo caso ; ora , isto pode ser feito , ao menos em

 princpio , de maneira muito arbitrria .

 Consideremos um exemplo .
 Se um amigo me dissesse : " Leva-me a um pas ,

 onde o cu  trs vezes mais azul do que na Inglaterra " , no saberia

 eu como satisfazer a tal desejo .
 A sua frase se me antolharia carente

 de sentido , pois o termo " azul "  empregado de uma forma no prevista

 pelas normas da nossa linguagem .
 A combinao de um nmero com a

 designao de uma cor no ocorre nesta ( linguagem ; por este motivo , a

 frase de meu amigo no tem sentido , ainda que a sua forma lingstica

 externa seja a de uma ordem ou a de um desejo .

 Todavia , meu amigo pode naturalmente dar um sentido  sua frase .
 Se

 lhe perguntar : " O que entendes por ' trs vezes mais azul ' poder ele

 indicar arbitrariamente certas circunstncias fsicas definidas com

 respeito  serenidade do cu , circunstncias essas que deseja ver

 expressas na descrio contida na sua frase .
 Ento serei talvez capaz

 de atender  sua ordem ; o seu desejo adquirir sentido para mim .

 Desta forma , toda vez que fazemos , com respeito a uma frase , a

 pergunta , " Que significa ela " , o que esperamos  uma indicao das

 circunstncias nas quais a frase deve ser - empregada ; desejamos uma

 descrio das condies em que a frase ou sentena formar uma

 proposio verdadeira , e das condies em que a proposio  falsa .

 Assim sendo , o significado de uma palavra ou de uma combinao de

 palavras ser determinado por uma srie de normas que regulam o seu

 uso e que , segundo Wittgenstein , podemos denominar normas da sua

 gramtica , tomando este termo no seu sentido mais amplo. ^ 1

 Enunciar o sentido de uma frase eqivale a estabelecer as normas

 segundo as quais a frase deve ser empregada , o que significa enunciar

 a maneira pela qual se pode constatar a sua verdade ( ou a sua

 falsidade ) .
 O significado de uma proposio constitui o mtodo da sua

 verificao .

 As regras " gramaticais " consistiro em parte em definies comuns , ou

 seja , em explanaes de palavras atravs de outros termos , e em parte

 no que se denomina definies " indicativas " , isto  , explicaes

 atravs de um mtodo que utiliza as palavras segundo o uso efetivo .

 A forma mais simples de uma definio indicativa consiste em um gesto

 indicativo combinado com a pronncia de uma palavra , assim como quando

 ensinamos a uma criana o sentido do termo " azul '' mostrando-lhe um

 objeto azul .

 Contudo , na maioria dos casos a definio indicativa reveste uma

 modalidade mais complexa ; no podemos apontar um objeto que

 corresponda a palavras como " porque " , " imediato " , " acaso " , " de novo " ,

 etc .
 Nestes casos exigimos a existncia de certas situaes complexas ,

 sendo o significado das palavras definido pela maneira em que as

 empregamos nessas diversas situaes .

  manifesto que , para compreendermos uma definio verbal , devemos

 antecipadamente conhecer o sentido das palavras explicativas , assim

 como  bvio que a nica explicao que pode funcionar sem qualquer

 conhecimento prvio  a definio indicativa .

 Daqui conclumos que no existe nenhuma possibilidade de entender um

 sentido sem referir-nos em ltima anlise a definies indicativas , o

 que implica , em um sentido bvio , referncia  " experincia " ou 

 " possibilidade de verificao " .

 Esta  a situao , parecendo-me nada haver mais simples ou menos

 sujeito a dvida .
 Esta - e nada mais -  a situao que descrevemos ao

 afirmar que o sentido de uma proposio somente pode ser encontrado

 indicando-se as normas da sua verificao na experincia. ^ 2

 Esta tese tem sido designada com a expresso " teoria experimental do

 sentido " ( teoria hermenutica experimental ) .
 Ora ,  certo que no se

 trata absolutamente de uma teoria , porquanto o termo " teoria " 

 empregado para designar uma srie de hipteses acerca de uma

 determinada matria , e a nossa tese no envolve hiptese alguma , uma

 vez que no pretende ser outra coisa seno uma simples afirmao do

 modo como na realidade se apura o sentido das proposies , tanto na

 vida cotidiana como na cincia .

 Jamais existiu alguma outra maneira para isto , e seria erro grave

 supor que descobrimos um novo conceito de sentido , o qual seria

 contrrio  concepo comum , conceito este que pretenderamos

 introduzir na filosofia .

 Pelo contrrio , o nosso conceito no somente concorda inteiramente com

 o senso comum e com o mtodo cientfico , seno que deles deriva .

 Embora o critrio por ns adotado sempre tenha sido empregado na

 prtica , muito raramente foi formulado no passado , constituindo esta

 circunstncia possivelmente a nica razo das tentativas feitas por

 tantos filsofos para negar a sua plausibilidade .

 O caso mais conhecido de uma formulao explcita do critrio por ns

 defendido  a resposta de Einstein  seguinte questo : " Que queremos

 dizer ao falar de dois eventos que acontecem simultaneamente em

 lugares distantes ?
 "

 A resposta de Einstein consistiu na descrio de um mtodo

 experimental , atravs do qual se constatou com certeza a

 simultaneidade de tais eventos .
 Os filsofos opositores de Einstein

 mantinham - sendo que alguns deles continuam a manter - que sabiam o

 sentido da referida questo independentemente de qualquer mtodo de

 verificao .

 Quanto a mim , no fao outra coisa seno aderir decididamente 

 posio de Einstein e no admitir nenhuma exceo dela divergente. ^ 3

 No estou escrevendo para aqueles que acreditam estarem com a razo os

 filsofos adversrios de Einstein .

 II

 O Professor C. I. Lewis , num notvel estudo sobre " A experincia e o

 sentido " ^ 4 afirmou recentemente que a tese acima exposta - refere-se

 a ela com a expresso " exigncia emprica do sentido '' ( empirical

 meaning requirement ) constitui o fundamento de toda a filosofia do que

 se tem denominado " o positivismo lgico do Crculo de Viena " .

 Critica ele este fundamento como inadequado , sobretudo pelo motivo que

 a aceitao do mesmo acarretaria necessariamente certas restries 

 " importante discusso filosfica " , restries essas que , em alguns

 pontos , tornariam tal discusso totalmente impossvel , ao passo que ,

 em outros pontos , haveriam de restringir a discusso em medida

 intolervel .

 Uma vez que me considero responsvel por certas posies da filosofia

 vienense - que preferiria chamar de empirismo consistente - e visto

 que , em meu entender , o supramencionado critrio no acarreta na

 realidade quaisquer restries ao pensar filosfico , procurarei

 analisar os principais argumentos do Prof. Lewis , expondo igualmente

 as razes em virtude das quais no acredito que tais argumentos possam

 derrubar a nossa posio - ao menos na medida em que por ela assumo

 responsabilidade .

 Todos os meus argumentos derivaro das asseres feitas no ponto I

 acima .

 Segundo a descrio do Professor Lewis , o mtodo empirical meaning

 requirement exige que " todo e qualquer conceito avanado ou qualquer

 proposio afirmada tenha uma denotao ou indicao definida ; que

 sejam inteligveis no s verbal e logicamente , mas tambm no sentido

 de que se possa especificar aqueles itens empricos que determinariam

 a aplicabilidade do conceito ou constituir a verificao da

 proposio " .
 ^ 5

 Aqui parece-me no haver justificativa alguma para as palavras " mas

 tambm no sentido de que .
 .
 .
 " , acrescentadas no intuito de

 distinguir dois ( ou trs ?
 ) sentidos inteligveis .

 As observaes tecidas na primeira parte demonstram que , em nosso

 entender , a compreenso " verbal e lgica " consiste em saber como

 poderia ser verificada a proposio em pauta .

 Com efeito , a menos que por " compreenso verbal " entendamos o fato de

 se saber como as palavras so na realidade empregadas , dificilmente o

 termo poderia significar outra coisa a no ser um nebuloso sentimento

 de estar familiarizado com as palavras .

 Ora , em uma discusso filosfica no parece aconselhvel denominar tal

 sentimento ou impresso de " compreenso " .

 Similarmente , tampouco aconselharia qualificar de " logicamente

 inteligvel " uma sentena , simplesmente pelo fato de estarmos

 convencidos que a sua estrutura externa  a de uma proposio

 autntica. ^ 6

 Efetivamente , acredito que com tal frase queremos expressar muito

 mais , isto  , que estamos perfeitamente conscientes da gramtica

 completa da sentena , ou seja , que conhecemos exatamente as

 circunstncias para as quais  adequada .

 Assim sendo , conhecer a maneira de verificar uma proposio no

 constitui algo adicional ou suplementar ao seu sentido ou compreenso

 verbal e lgica , seno que com ela se identifica .
 Em conseqncia ,

 parece-me que , ao exigirmos que uma proposio seja verificvel , no

 estamos acrescentando uma nova exigncia , mas formulando simplesmente

 as condies que na realidade sempre foram consideradas necessrias

 para averiguar o sentido e a inteligibilidade .

 O mero enunciado de que nenhuma sentena tem sentido a no ser que

 sejamos capazes de indicar um meio de comprovar a sua verdade ou

 falsidade , no apresenta muita utilidade se no explicarmos com muito

 cuidado a significao das expresses " mtodo de comprovar " e

 " verificabilidade " .

 Tem o Prof. Lewis muita razo ao solicitar tal explicao .

 Ele mesmo sugere algumas maneiras de dar tal explicao , e sinto

 prazer em declarar que as suas sugestes me parecem concordar

 inteiramente com os meus prprios pontos de vista e os dos filsofos

 meus amigos .

 Ser fcil demonstrar que no existe nenhuma discordncia sria entre

 o ponto de vista do pragmatista qual o entende o Prof. Lewis , e o dos

 empiristas vienenses .
 Se em alguns itens especiais chegam a alguns

 pontos diferentes ,  de se esperar que uma anlise levada a efeito com

 mais diligncia elimine esta aparente divergncia .

 De que maneira definimos a verificabilidade ?

 Antes de tudo , gostaria de assinalar que , ao afirmar que " uma

 proposio s tem sentido se for verificvel " , no estamos dizendo " .

 .
 .
 se for verificada " .

 Esta simples observao preliminar invalida uma das principais

 objees ; o here and now predicament ( predicado hic et nunc ) j no

 existe mais .

 S camos nas malhas desse predicado se considerarmos a prpria

 verificao como critrio do sentido , ao invs de " possibilidade de

 verificao " ( verificabilidade ) ; isto conduziria a uma reductio ad

 absurdum do sentido .

 Obviamente o referido predicado se origina de alguma falcia pela qual

 essas duas noes so confundidas .
 No sei se a afirmao de Russell

 de que " o conhecimento emprico se restringe quilo que realmente

 observamos^7 deve ser interpretada como contendo esta falcia , porm

 certamente valeria a pena descobrir a sua gnese .

 Consideremos o seguinte argumento , que o Prof. Lewis discute , ^ 8 mas

 que no deseja atribuir a ningum :

 " Suponhamos que nada tem sentido , a no ser que possa ser submetido a

 prova de uma verificao decisiva .
 Ora , nenhuma verificao pode ser

 feita , a no ser na experincia do sujeito , experincia esta direta e

 imediatamente presente .
 Conseqentemente , nada pode ser significado ,

 exceto o que est atual e realmente presente na experincia dentro da

 qual esse sentido ou significado  predicado " .

 O mencionado argumento apresenta a forma de uma concluso tirada de

 duas premissas .

 Suponhamos no momento que a segunda premissa tenha sentido e seja

 verdadeira .
 Mesmo neste caso , observar-se- que a concluso no segue .

 Pois a primeira premissa nos afirma que uma coisa tem sentido se puder

 ser verificada ; a verificao no necessita ter lugar , sendo por

 conseguinte de pouca importncia se pode ser feita no futuro ou

 somente no presente .

 Mesmo abstraindo disto , a segunda premissa  obviamente sem sentido .

 Com efeito , que fato poderia ser possivelmente descrito pela sentena

 " a verificao s pode ter lugar na experincia presente " ?
 No

 constitui , porventura , o verificar um ato ou processo semelhante ao

 ouvir ou ao sentir-se aborrecido ?
 No poderamos porventura com a

 mesma razo dizer que s posso ouvir ou sentir-me aborrecido no

 momento presente ?
 E que poderia eu querer dizer com isto ?

 A falta de sentido envolvida em tais frases tornar-se- mais clara

 quando mais adiante falarmos do " predicado egocntrico " .
 No momento ,

 contentamo-nos com saber que o nosso postulado do sentido emprico

 nada tem a ver em absoluto com o predicado-agora ( now predicament ) .
 O

 termo " verificvel " nem sequer significa " verificvel aqui e agora " ;

 muito menos significa " ser verificado agora " .

 Possivelmente se acredite que a nica maneira de ter certeza da

 verificabilidade de uma proposio consistiria na sua verificao

 real .
 Brevemente veremos que tal no  o caso .

 Parece haver uma forte tendncia a estabelecer entre o sentido e " o

 dado imediato " uma conexo que no corresponde  verdadeira realidade .

 Devo dizer que alguns dos positivistas de Viena podem ter cedido a

 esta tentao , aproximando-se assim perigosamente da falcia que

 acabamos de descrever .
 Por exemplo , algumas partes da obra Der

 Logische Aufbau der Welt ( A Construo Lgica do Mundo ) poderiam ser

 interpretadas no sentido de que uma proposio acerca de eventos

 futuros na realidade no se referiria ao futuro , mas afirmaria apenas

 a existncia presente de certas expectativas ou esperanas. ^ 9

  certo , porm , que o autor desse livro atualmente no defende tal

 ponto de vista , e que este no pode ser considerado uma tese do novo

 positivismo .
 Pelo contrrio , j desde o incio salientamos que a nossa

 definio de sentido ou significao no implica tais conseqncias

 absurdas .
 E se algum perguntasse : " De que maneira se pode verificar

 uma proposio acerca de um evento futuro ?
 " , responderamos , como j

 respondemos : " Por exemplo , esperando que o evento acontea !
 " Com

 efeito , o " aguardar " constitui um mtodo de verificao perfeitamente

 legtimo .

 *

 Desta forma , acredito que todos , inclusive o adepto do empirismo

 consistente , concordam em que seria um absurdo afirmar que " nada

 podemos significar a no ser o que  imediatamente dado " .

 Se na sentena acima substituirmos o termo " significar " pela palavra

 " saber " ou " conhecer " , chegamos a uma assero semelhante  afirmao

 de Bertrand Russell que acabamos de mencionar .

 Acredito que a tentao de formular frases deste tipo se origina de

 uma certa ambigidade do verbo to know ( saber , conhecer ) , termo este

 que constitui a fonte de muitas dificuldades metafsicas , para as

 quais muitas vezes j tive ocasio de chamar a ateno. ^ 10

 Em primeiro lugar , a palavra pode significar simplesmente " estar

 consciente de um dado " , ou seja , a mera presena de um sentimento , de

 uma cor , de um som , etc .

 Se o termo knowledge ( conhecimento ) for tomado nesta acepo , o

 asserto " o conhecimento emprico restringe-se ao que realmente

 observamos " no diz nada em absoluto , mas constitui mera

 tautologia. ^ 11

 Em segundo lugar , a palavra knowledge pode ser empregada numa das

 importantes significaes que possui na cincia e na vida ordinria ;

 nesta acepo , obviamente a assero de Russell seria falsa , conforme

 observou o Prof. Lewis .
 Como se sabe muito bem , o prprio Russell

 distingue entre knowledge by acquaintance e knowledge by description

 ( conhecimento por familiaridade e conhecimento por descrio ) .

 Contudo , dever-se-ia talvez observar que esta distino no coincide

 inteiramente com aquela sobre a qual acabamos de insistir .

 *

 III

 A verificabilidade significa a possibilidade de verificao .

 Com acerto observa o Prof. Lewis que " omitir a anlise completa da

 vasta gama de significao que poderia ter a expresso ' verificao

 possvel ' , eqivaleria a deixar todo o conceito na obscuridade ". ^ 12

 Para o nosso objeto  suficiente distinguir entre duas das muitas

 maneiras de empregar o termo " possibilidade " .
 Denomin-las-emos

 " possibilidade emprica " e " possibilidade lgica " .

 O Prof. Lewis descreve duas acepes da palavra " verificabilidade " que

 correspondem exatamente  nossa distino .
 Estando ele perfeitamente

 consciente deste fato , no me resta outra coisa seno desenvolver

 cuidadosamente a distino e mostrar a sua importncia para o nosso

 tema .

 Proponha que se qualifique como " empiricamente possvel ' , tudo aquilo

 que no contradiz as leis da natureza .
 Acredito seja este o sentido

 mais amplo em que possamos falar de possibilidade emprica .

 No restringimos o termo a acontecimentos que , alm de estarem em

 conformidade com as leis da natureza , concordam tambm com o estado

 real e atual do universo - sendo que " real " ou " atual " se poderia

 referir ao momento presente das nossas prprias vidas , ou  condio

 dos seres humanos que vivem neste planeta , e assim por diante .

 Se escolhermos a ltima definio , ^ 13 no teremos aquela preciso de

 delimitao de conceitos que necessitamos para o nosso objetivo .
 Assim

 sendo , " possibilidade emprica " significar " compatibilidade com as

 leis naturais " .

 Ora , uma vez que no dispomos de um conhecimento completo e certo

 acerca das leis da natureza ,  evidente que jamais podemos afirmar com

 certeza a possibilidade emprica de qualquer fato , sendo-nos aqui

 facultado falar de graus de possibilidade .
  possvel , para mim ,

 levantar este livro ?
 Certamente !

  possvel , para mim , levantar esta mesa ?
 Acredito que sim !

  possvel , para mim , levantar esta mesa de bilhar ?
 Acredito que no !

  possvel , para mim , levantar este automvel ?
 Certamente no !

  bvio que nesses casos a resposta  dada pela experincia , como

 resultado de experincias levadas a efeito no passado .
 Todo e qualquer

 juzo acerca da possibilidade emprica baseia-se na experincia e

 muitas vezes se caracterizar por uma certa incerteza ;

 conseqentemente , no haver uma delimitao precisa entre a

 possibilidade emprica e a impossibilidade emprica .

 Seria deste tipo emprico a possibilidade de verificao na qual vimos

 insistindo ?

 Nesta eventualidade , haveria diferentes graus de verificabilidade ; a

 questo do sentido seria um problema de mais ou menos , no um problema

 de sim ou no .
 Em muitas das discusses a respeito do nosso tema , a

 discusso versa sobre a possibilidade emprica da verificao .
 Por

 exemplo , os vrios exemplos de verificabilidade indicados pelo Prof .

 Lewis constituem exemplos de diferentes circunstncias empricas , nas

 quais a verificao  feita ou  impedida de ser feita .

 Muitos daqueles que se recusam a aceitar o nosso critrio no tocante

 ao sentido parecem imaginar que o mtodo de aplic-lo em um caso

 especial  mais ou menos o seguinte : uma proposio nos  apresentada

 pronta ; no intuito de descobrir o seu sentido , temos que tentar vrios

 mtodos de verificar a sua verdade ou a sua falsidade ; se um desses

 mtodos funcionar , encontramos o sentido da proposio ; caso

 contrrio , afirmamos que a proposio carece de sentido .

 Se realmente devssemos proceder dessa forma ,  manifesto que a

 determinao do sentido constituiria inteiramente uma questo de

 experincia , e , conseqentemente , em muitos casos no se poderia obter

 uma deciso precisa e definitiva .
 Como poderamos ter certeza que

 esgotamos todas as tentativas , no caso de nenhum dos mtodos usados

 haver logrado xito ?
 No poderiam eventualmente os nossos esforos

 futuros revelar a existncia de um sentido que anteriormente fomos

 incapazes de descobrir ?

  bvio que toda esta concepo  inteiramente errnea .
 Fala do

 sentido como se este fosse uma espcie de entidade ou ser inerente a

 uma sentena e nela escondido como um caroo dentro da casca que o

 envolve , sendo que ao filsofo caberia quebrar a casca ou a sentena

 para descobrir o caroo , o sentido .

 Partindo das consideraes que tecemos na primeira parte do presente

 estudo , que no existe proposio que nos seja dada " pronta " ( ready

 made ) ; sabemos tambm que o sentido no inere a uma sentena -

 sentena esta na qual o sentido poderia ser descoberto - , mas , antes ,

 constitui algo que deve ser dado ou conferido  sentena .
 Isto 

 feito , aplicando-se  sentena as regras da gramtica lgica da nossa

 linguagem , segundo explicamos na primeira parte .

 Ora , tais regras ou normas no constituem fatos da natureza que

 poderiam ser " descobertos " , seno que constituem prescries

 estipuladas por atos de definio .
 Essas definies devem ser

 conhecidas daqueles que pronunciam a sentena em pauta , bem como

 daqueles que a ouvem ou a lem .
 Se assim no for , os referidos

 ouvintes ou leitores no so confrontados com uma proposio , no

 havendo no caso nada que possam tentar verificar , uma vez que no se

 pode verificar a verdade ou a falsidade de uma mera srie de palavras .

 Nem sequer se pode comear a verificar antes de conhecer o sentido ,

 isto  , antes de se ter estabelecido a possibilidade da verificao .

 Em outros termos , a possibilidade de verificao que importa para o

 sentido no pode ser do tipo emprico ; no pode ela ser estabelecida

 post festum .
 Temos que estar certos da mesma antes de podermos

 considerar as circunstncias empricas e investigar se estas

 permitiro ou no verificao , e em que condies o permitiro .

 As circunstncias empricas revestem muita importncia se quisermos

 saber se uma proposio  verdadeira - o que compete ao cientista -

 porm no tm nenhuma relevncia para o sentido da proposio ( o que

 compete ao filsofo ) .

 O Prof. Lewis discerniu e expressou isto com muita clareza , ^ 14 sendo

 que o nosso positivismo de Viena - na medida em que eu mesmo possa

 responder por ele - concorda inteiramente com ele neste ponto .

 Cumpre enfatizar que , quando falamos de verificabilidade , entendemos a

 possibilidade lgica de verificao , e somente isto .

 *

 Denomino " logicamente possvel " um fato ou processo se este puder ser

 descrito , ou seja , se a sentena que o descreve obedece s normas da

 gramtica que estipulamos para a nossa lngua. ^ 15

 Vejamos alguns exemplos .
 As sentenas " Meu amigo faleceu depois de

 amanh " , " A dama usava um vestido vermelho-escuro que era

 verde-claro " , " A torre tem uma altura de 100 ps e de 150 ps " , " A

 criana estava nua , porm usava um roupo noturno longo e branco " ,

 obviamente violam as leis que , no uso normal , governam o emprego dos

 termos que ocorrem em tais frases .
 Tais frases no descrevem fatos

 reais , ou seja , so destitudas de sentido , uma vez que representam

 impossibilidades lgicas .

  de importncia mxima - no somente para o tema que nos ocupa no

 momento , seno para os problemas filosficos em geral - ver que , toda

 vez que falamos de impossibilidade lgica , referimo-nos a uma

 discrepncia entre as definies dos nossos termos e o modo em que os

 empregamos .

 Cumpre evitar o grave equvoco no qual incorrem alguns dos antigos

 empiristas - como Mill e Spencer - que consideravam os princpios

 lgicos - por exemplo a lei da contradio - como leis da natureza que

 regem o processo psicolgico do pensamento .

 As asseres carentes de sentido a que acima fizemos aluso , no

 correspondem a pensamentos ou idias que , por uma espcie de

 experimento psicolgico , nos consideramos capazes de pensar ; o que

 acontece  que no correspondem a pensamento algum .

 Ao ouvirmos as palavras " Uma torre que tem a altura de 100 ps e a

 altura de 150 ps " ,  possvel que em nossa mente surja a imagem de

 duas torres , de alturas diferentes , e podemos considerar

 psicologicamente ( empiricamente ) impossvel combinar as duas imagens

 em uma nica , porm no  este o fato designado pelos termos

 " impossibilidade lgica " .
 A altura de uma torre no pode ser ao mesmo

 tempo de 100 ps e de 150 ps ; uma criana no pode ao mesmo tempo

 estar nua e estar vestida - no porque sejamos incapazes de imaginar

 isto , mas pelo fato de que as nossas definies de " altura ' , .
 dos

 nmeros , dos termos " nu " e " vestido " no so compatveis com as

 combinaes especficas desses termos nos nossos exemplos .

 A expresso " no so compatveis com tais combinaes " significa que

 as regras da nossa lngua no previram um emprego para tais

 combinaes ; no descrevem nenhum fato .

 Naturalmente , poderamos modificar tais normas e desta forma encontrar

 um sentido para os termos " tanto vermelho como verde '' , " tanto nu como

 vestido " .
 Todavia , se decidirmos aderir s definies comuns - as

 quais se revelam na maneira como na realidade usamos as nossas

 palavras - decidimos tambm considerar a referida combinao de termos

 como carentes de sentido , ou seja , decidimos no usar tais combinaes

 para descrever nenhum fato .

 Qualquer que seja o fato que imaginemos ou no imaginemos , se o termo

 " nu " ( ou " vermelho " ) ocorrer na sua descrio , decidimos que a palavra

 " vestido " ( ou " verde " ) no pode ser colocada no lugar dele , na mesma

 descrio .

 Se no seguirmos esta norma , isto significa que queremos introduzir

 uma nova definio das palavras , ou que no nos importa empregar

 palavras destitudas de sentido , e apreciamos dizer coisas sem

 sentido. ^ 16

 O resultado das nossas consideraes  o seguinte : a verificabilidade

 - que constitui a condio suficiente e necessria do sentido ou

 significao -  uma possibilidade de ordem lgica ; a verificabilidade

 deriva do fato de construirmos a frase em conformidade com as regras

 pelas quais so definidos os seus termos .

 O nico caso em que a verificao  ( logicamente ) impossvel ocorre

 quando

 ns mesmos a tivermos tornado impossvel , no estabelecendo norma

 alguma para a sua verificao .
 As regras gramaticais no se encontram

 na natureza , seno que constituem obra do homem , sendo por princpio

 arbitrrias .
 Assim sendo , no podemos dar sentido a uma frase ,

 descobrindo um mtodo para verificar a sua verdade , mas somente

 estipulando como isto deve ser feito .
 Conseqentemente , a

 possibilidade ou a impossibilidade lgica de verificao  sempre uma

 auto-imposio .
 Se pronunciarmos uma frase destituda de sentido , ser

 sempre por nossa prpria culpa .

 A importncia extraordinria desta ltima observao ser percebida se

 considerarmos que aquilo que dissemos acerca do sentido das asseres ,

 vale tambm quanto ao sentido das questes .

 Evidentemente , existem muitas questes que jamais podem ser

 respondidas pelo ser humano .
 Cumpre notar , todavia , que a

 impossibilidade de encontrar resposta pode ser de duas espcies

 diferentes .

 Se a impossibilidade for simplesmente emprica , no sentido definido ,

 se for devida s circunstncias do acaso resultantes dos

 condicionamentos da nossa existncia humana , pode haver motivo para

 lamentar a nossa sorte e a debilidade das nossas capacidades fsicas e

 mentais ; entretanto , jamais poderamos afirmar que o problema 

 absolutamente insolvel , podendo haver sempre alguma esperana , ao

 menos para geraes futuras .
 Com efeito , as circunstncias empricas

 podem vir a sofrer modificao ,  possvel que os recursos humanos

 sejam desenvolvidos , e at mesmo as leis da natureza podem sofrer

 alteraes - talvez at repentinamente , e de tal maneira que o

 universo permita investigaes muito mais vastas .

 Um problema deste tipo poderia ser qualificado de praticamente ou

 tecnicamente insolvel , podendo constituir-se em srio incmodo ou

 handicap para o cientista , porm , para o filsofo , que somente se

 interessa diretamente pelos princpios de ordem geral , isto no

 representaria nenhum motivo de grave preocupao .

 Todavia , que dizer daquelas questes para as quais  logicamente

 impossvel encontrar uma resposta ?

 Tais problemas permaneceriam insolveis em quaisquer circunstncias

 imaginveis ; tais questes se nos apresentariam sempre com uma nica

 resposta , definitiva e sem possibilidade de reviso : ignorabimus .

 Para o filsofo  extremamente importante saber se existem tais

 questes .
 Ora , a partir do que dissemos  fcil depreender que tal

 calamidade somente poderia acontecer no caso de a prpria questo ser

 destituda de sentido .
 Neste caso estaramos no diante de uma

 verdadeira questo , mas apenas face a uma simples sucesso de palavras

 com um ponto de interrogao no fim .

 Devemos dizer que uma questo tem sentido , se formos capazes de

 entend-la , ou seja , se formos capazes de , para qualquer proposio

 dada , decidir se , em caso de ser verdadeira , constituiria uma resposta

 para a questo em pauta .

 Assim sendo , a deciso somente poderia ser impedida pelas

 circunstncias de ordem emprica , o que significa que no seria

 logicamente impossvel .
 Conseqentemente , nenhum problema que tenha

 realmente sentido pode ser insolvel por princpio .
 Se , por

 conseguinte , acharmos ser logicamente impossvel uma resposta , sabemos

 que na realidade no estamos face a uma questo verdadeira , mas diante

 de uma pseudo-questo , uma combinao de palavras destituda de

 sentido .

 Uma autntica questo  aquela para a qual existe possibilidade lgica

 de resposta .
 Este  um dos resultados mais marcantes do nosso

 empirismo .
 Significa que por princpio no existe limite algum para o

 nosso conhecimento .
 As fronteiras que devemos reconhecer so de

 natureza emprica e , por conseguinte , jamais sero definitivas .
 Tais

 fronteiras podem ser progressivamente eliminadas .
 No existe nenhum

 mistrio insondvel no universo .

 A linha divisria entre a possibilidade e a impossibilidade lgica de

 verificao  absolutamente clara e ntida .
 No existe nenhuma

 transio gradual entre " ter sentido ' , e " carecer de sentido " .
 Tanto

 para um como para o outro vale o princpio : ou ditamos ou no ditamos

 as normas gramaticais de verificao ; tertium non datur , no existe

 outra alternativa .

 A possibilidade emprica  determinada pelas leis da natureza , porm o

 sentido e a verificabilidade independem totalmente delas .
 Tudo aquilo

 que posso descrever ou definir ,  logicamente possvel - e as

 definies de maneira alguma esto vinculadas s leis naturais .

 A proposio " os rios correm para cima " tem sentido , mas  falsa

 porque o fato que descreve  fisicamente impossvel .
 Uma proposio

 no perder o sentido pelo fato de as condies que estipulo para a

 sua verificao serem incompatveis com as leis da natureza ; posso ,

 por exemplo , prescrever condies que s poderiam cumprir-se caso a

 velocidade da luz fosse superior  que na realidade  , ou se no fosse

 vlida a lei da conservao da energia , e assim por diante .

 Um opositor do nosso ponto de vista poderia discernir um perigoso

 paradoxo ou mesmo um contradio nas explicaes que vimos dando , uma

 vez que , por uma parte , insistimos tanto no que denominamos a

 " exigncia emprica do sentido " , e por outro lado afirmamos com tanta

 nfase que o sentido e a verificabilidade no dependem de quaisquer

 condies empricas , seno que so determinados por possibilidades

 puramente lgicas .
 O oponente objetar : se o sentido  uma questo de

 experincia , como pode ser uma questo de definio e de lgica ?

 Na realidade , no existe contradio nem qualquer dificuldade .
 O termo

 " experincia "  ambguo .

 Em primeiro lugar , pode ele designar quaisquer assim chamados " dados

 imediatos " - o que representa uma acepo relativamente moderna da

 palavra .
 Em segundo lugar , podemos empregar o termo " experincia " no

 sentido em que , por exemplo , falamos de um " viajante experiente " ,

 querendo referir-nos a uma pessoa que no somente viu muita coisa , mas

 tambm sabe como tirar proveito delas para as suas aes .
  nesta

 segunda acepo^17 que se deve afirmar que a verificabilidade 

 independente da experincia .

 A possibilidade de verificao no repousa em qualquer " verdade da

 experincia " , em alguma lei da natureza ou em qualquer outra

 proposio verdadeira de ordem geral , seno que  determinada

 exclusivamente pelas nossas definies , pelas normas que foram fixadas

 para a nossa lngua , ou que podemos estabelecer arbitrariamente a

 qualquer momento .

 Todas essas normas em ltima anlise apontam para definies

 indicativas segundo j explicamos , e atravs delas a verificabilidade

 est vinculada  experincia no primeiro sentido da palavra .

 Nenhuma regra de expresso pressupe qualquer lei ou regularidade no

 mundo , ^ 18 porm , pressupe , sim , dados e situaes aos quais se podem

 dar nomes .

 As regras da linguagem constituem regras da aplicao da lngua ; assim

 sendo , deve haver alguma coisa na qual esta pode ser aplicada .
 A

 expressabilidade e a verificabilidade constituem uma e mesma coisa .

 No existe antagonismo algum entre a lgica e a experincia .
 No

 somente o lgico pode ser ao mesmo tempo um empirista , mas deve s-lo ,

 se quiser compreender o que ele mesmo est fazendo .

 IV

 Vejamos agora alguns exemplos , no intuito de ilustrar as conseqncias

 da nossa atitude no que respeita a certos pontos da filosofia

 tradicional .

 Tomemos o clebre caso da realidade do outro lado da lua - alis , um

 dos exemplos mencionados pelo Prof. Lewis .

 Ningum de ns - assim creio - estar disposto a aceitar uma opinio

 segundo a qual no teria sentido falar da face oposta do nosso

 satlite .
 Pode porventura pairar a mnima dvida quanto ao fato de

 que , segundo as nossas explanaes , neste caso se cumprem

 perfeitamente as condies para que haja sentido ?

 Acredito que no possa haver dvida alguma .

 Com efeito , a pergunta " a que se assemelha o outro lado da lua ?
 "

 poderia ser respondida , por exemplo , por uma descrio daquilo que

 seria visto ou tocado por uma pessoa localizada em algum ponto atrs

 da lua .

 A questo de se  fisicamente possvel para um ser humano - ou para

 qualquer ser vivente - viajar em torno da lua nem sequer precisa ser

 levantada aqui , sendo completamente irrelevante .

 Mesmo na hiptese de se poder demonstrar que uma viagem em volta de um

 corpo celeste fosse absolutamente incompatvel com as leis da natureza

 conhecidas , teria sentido uma proposio acerca do outro lado da lua .

 Uma vez que a nossa frase fala de certos pontes no espao como sendo

 cheios de matria , ^ 19 tem sentido indicar sob que circunstncias deve

 ser qualificada como verdadeira ou como falsa uma proposio do tipo

 " este lugar est cheio de matria " .

 O conceito " substncia fsica em um determinado lugar "  definido pela

 nossa linguagem na fsica e na geometria .
 A prpria geometria  a

 gramtica das nossas proposies acerca das relaes " espaciais " , e

 no  muito difcil ver como as asseres sobre as propriedades

 fsicas e as relaes espaciais esto vinculadas com os " dados

 sensveis " por definies indicativas .

 Alis , esta vinculao ou conexo , no  tal que nos autorize a

 afirmar que a substncia fsica constitui " uma simples construo

 baseada nos dados sensveis " , ou que um corpo fsico constitui " um

 conjunto de dados sensveis " - a menos que interpretemos tais frases

 mais como abreviaes inadequadas da afirmao de que todas as

 proposies que encerram o termo " corpo fsico " requerem , para a sua

 verificao , a existncia de dados sensveis .
 Ora , isto constitui

 certamente uma afirmao excessivamente trivial .

 No caso da lua poderamos talvez afirmar que a exigncia para que haja

 sentido se cumpre se formos capazes de " imaginar '' - representar

 mentalmente situaes que verificariam a nossa proposio .

 Todavia , se dissssemos em geral que a verificabilidade de um asserto

 implica a possibilidade de " imaginar " o fato afirmado , isto seria

 verdadeiro apenas em um sentido restrito .
 No seria verdadeiro na

 medida em que a possibilidade for de tipo emprico , isto  , que

 envolve capacidades humanas especficas .

 No acredito , por exemplo , que possamos ser acusados de dizer coisas

 sem sentido se falarmos de um universo em dez dimenses , ou de seres

 que possuem rgos sensoriais e percepes inteiramente diferentes das

 nossas ; ora , no parece correto afirmar que somos capazes de

 " imaginar " tais seres e tais percepes , ou um universo de dez

 dimenses .
 Todavia , devemos ser capazes de dizer em que circunstncias

 observveis afirmaramos a existncia dos referidos seres .

  manifesto que posso falar com sentido sobre o som da voz de um amigo

 sem ser atualmente capaz de record-lo na minha imaginao .
 No cabe

 aqui discutir a gramtica lgica do termo " imaginar " .
 Essas poucas

 observaes so suficientes para precaver-nos contra uma aceitao

 precipitada de uma explicao psicolgica da verificabilidade .

 No devemos identificar o sentido ou significao com qualquer um dos

 dados psicolgicos que constituem a matria de uma sentena mental ( ou

 " pensamento " ) no mesmo sentido em que os sons articulados constituem a

 matria de uma sentena falada , ou os sinais pretos no papel

 constituem a matria de uma sentena escrita .

 Ao fazermos um clculo de aritmtica ,  de todo irrelevante se temos

 diante da mente as imagens de nmeros pretos ou de nmeros vermelhos ,

 ou nenhuma imagem visual .
 E mesmo que fosse empiricamente impossvel

 para algum efetuar qualquer clculo sem , ao mesmo tempo , imaginar

 nmeros pretos , de maneira alguma as imagens mentais desses sinais

 pretos poderiam evidentemente ser consideradas como elementos

 constitutivos do sentido ou de parte do sentido do clculo .

 Tem razo Carnap ao enfatizar com muita fora o fato - sempre

 salientado pelos crticos do " psicologismo " - de que a questo do

 sentido nada tem a ver com a questo psicolgica dos processos mentais

 que podem constituir um ato de pensamento .

 Todavia , no estou plenamente certo de que Carnap tenha enxergado com

 igual clareza que a referncia a definies indicativas - que ns

 postulamos para que haja sentido - no envolve o erro de uma confuso

 das duas questes .
 A fim de compreender uma sentena que contm , por

 exemplo , as palavras " bandeira vermelha " ,  indispensvel que eu seja

 capaz de indicar uma situao em que poderia apontar um objeto que

 denominaria " bandeira " , e cuja cor poderia reconhecer como " vermelha " ,

 distinta de outras cores .

 Entretanto , para fazer isto no  necessrio que eu apele para a

 imagem de uma bandeira vermelha .
  extremamente importante ver que

 essas duas coisas nada tm em comum .
 Neste momento estou tentando em

 vo imaginar a forma de um G maisculo em tipografia alem ; no

 obstante isto , posso falar dele com sentido , e sei que haveria de

 reconhec-lo se visse a letra .
 Imaginar um remendo vermelho 

 inteiramente diferente de referir-se a uma definio indicativa de

 " vermelho " .
 A verificabilidade nada tem a ver com quaisquer imagens

 que possam ser associadas com as palavras da sentena em questo .

 *

 No mais difcil do que o caso do outro lado da lua ser discutir -

 para tomarmos outro exemplo significativo - a questo da

 " imortalidade '' , questo esta que o Prof. Lewis denomina , como se

 costuma fazer em geral , um problema metafsico .

 Considero ponto pacfico a suposio de que " imortalidade " no

 significa vida sem fim - uma vez que isto poderia possivelmente

 carecer de sentido pelo fato de estar envolvendo o conceito de

 infinitude - , mas que a questo a discutir  a da sobrevivncia aps a

 " morte " .

 Acredito podermos concordar com o Prof. Lewis , quando este afirma o

 seguinte no tocante a esta hiptese : " A nossa compreenso sobre o que

 haveria de comprovar tal hiptese no  destituda de clareza " .

 Efetivamente , posso imaginar com facilidade , por exemplo , que assisto

 ao enterro do meu prprio corpo e continuo a existir sem corpo , pois

 nada me  mais fcil do que descrever um mundo que difere do nosso

 mundo ordinrio exclusivamente pela ausncia completa de todos os

 dados que consideraria partes do meu prprio corpo .

 Devemos concluir que a imortalidade , no sentido definido , no deve ser

 considerada como " problema metafsico " , seno que constitui uma

 hiptese emprica , pelo fato de ser logicamente verificvel .
 Poderia

 ser verificada seguindo-se a prescrio : " Aguarda at que morras " .

 O Prof. Lewis parece sustentar que tal mtodo no  satisfatrio do

 ponto de vista da cincia .
 Afirma ele o seguinte : ^ 20

 " A hiptese da imortalidade  inverificvel num sentido bvio .
 .
 .
 se

 mantivermos que somente o que  cientificamente verificvel tem

 sentido , pois esta concepo  um desses casos .
 Dificilmente poderia

 ser verificada pela cincia ; e no h nenhuma observao ou

 experimento que a cincia pudesse efetuar , cujo resultado negativo

 pudesse refut-la " .

 Presumo que nessas sentenas o mtodo privado de verificao 

 rejeitado como no cientfico pelo fato de que se aplicaria apenas ao

 caso individual da prpria pessoa que tem experincia , ao passo que

 uma afirmao cientfica deve ser suscetvel de uma demonstrao

 geral , aberta a qualquer observador cuidadoso .

 Todavia , no vejo razo por que mesmo isto deva ser considerado

 impossvel .
 Pelo contrrio ,  fcil descrever experincias tais que a

 hiptese de uma existncia invisvel de seres humanos depois da sua

 morte corporal seria a explicao mais aceitvel dos fenmenos

 observados .

 Esses fenmenos ,  verdade , deveriam ser de natureza muito mais

 convincente do que os ridculos eventos que se diz terem ocorrido em

 reunies dos ocultistas - porm acredito que no possa haver a mnima

 dvida quanto  possibilidade ( no sentido lgico ) de fenmenos que

 representariam uma justificao cientfica da hiptese da

 sobrevivncia aps a morte , e permitiriam uma investigao dessa forma

 de vida por mtodos cientficos .

 Indiscutivelmente , a hiptese jamais poderia ser estabelecida com

 absoluta certeza , porm esta caracterstica  comum a todas as

 hipteses .

 Se algum retrucasse que as almas dos falecidos poderiam morar em

 algum espao supraceleste onde no seriam acessveis  nossa

 percepo , e que , por conseguinte , jamais se poderia constatar a

 verdade ou a falsidade da assero , a resposta seria que , se as

 palavras " espao supraceleste " possuem algum sentido este espao deve

 ser definido de tal maneira que a impossibilidade de alcan-lo ou de

 perceber alguma coisa nele seria meramente emprica , de sorte que no

 mnimo se poderia descrever algum meio de superar as dificuldades ,

 ainda que tal meio ultrapassasse as foras humanas .

 Face a essas consideraes , fica de p a nossa concluso .

 A hiptese da imortalidade constitui uma afirmao emprica que deve o

 seu sentido  sua verificabilidade , no tendo nenhum sentido alm da

 possibilidade de verificao .

 Se for preciso admitir que a cincia no poderia efetuar nenhum

 experimento cujo resultado negativo refutaria esta hiptese , isto 

 verdade apenas no mesmo sentido em que o  para muitas outras

 hipteses de estrutura similar - especialmente para aquelas que

 derivaram a sua origem de motivos outros que o conhecimento de uma

 grande quantidade de fatos da experincia que devem ser considerados

 como emprestando uma alta probabilidade  hiptese .

 O problema concernente  " existncia do mundo externo " ser abordado

 na prxima parte .

 V

 Voltemos agora a ateno para um ponto de fundamental importncia e de

 extremo interesse para a filosofia .

 O Prof. Lewis refere-se a ele com a expresso " predicado egocntrico " ,

 apresentando a tentativa de tom-lo a srio como uma das

 caractersticas mais salientes do positivismo lgico .

 O Prof. Lewis parece formular o " predicado egocntrico " na seguinte

 sentena : ^ 21 " A experincia real e atual se d na primeira pessoa " .
 A

 sua importncia para a doutrina do positivismo lgico parece

 evidenciar-se pelo fato de Carnap , em sua obra Der Logische Aufbau der

 Welt ( A Construo Lgica do Mundo ) , declarar que o mtodo deste livro

 pode ser chamado de " solipsismo metodolgico " .

 O Prof. Lewis acredita com acerto que o princpio egocntrico ou

 solipsstico no  implicado pelo nosso princpio geral da

 verificabilidade , considerando-o como um segundo princpio que ,

 juntamente com o de verificabilidade , em seu entender , conduz aos

 principais resultados da Filosofia de Viena .

 Se me for permitido tecer aqui algumas reflexes de ordem geral ,

 gostaria de dizer que uma das maiores vantagens e atrativos do

 verdadeiro positivismo parece-me ser a atitude anti-solipsstica que o

 caracteriza desde o incio .

 Existe , sim , um pequeno risco de solipsismo no positivismo , como em

 qualquer " realismo " , parecendo a mim que o ponto essencial que

 diferencia o idealismo do positivismo reside no fato de que este

 ltimo se conserva totalmente imune do predicado egocntrico .

 Em minha opinio , o maior equvoco reinante em torno do positivismo

 equvoco - este cometido muitas vezes pelos prprios pensadores que se

 denominam positivistas - reside no fato de ver nele uma tendncia para

 o solipsismo ou uma semelhana com o idealismo subjetivo .
 Podemos

 considerar a obra de Vaihinger A Filosofia do Como Se como um exemplo

 caracterstico deste equvoco , ^ 22 ao passo que a filosofia de Mach e

 Avenarius constituiria uma das tentativas mais srias para evit-lo .

  um fato infeliz que Carnap advogou o que denomina " solipsismo

 metodolgico " , e que , na sua construo de todos os conceitos a partir

 dos dados elementares , vm em primeiro lugar os eigenpsychische

 Gegenstaende ( for-me entities , elementos egocntricos ) e constituem a

 base para a construo dos objetos fsicos , os quais ao final conduzem

 ao conceito de outros eus .

 Todavia , se existe aqui algum equvoco , reside este , antes de tudo , na

 terminologia , no no prprio pensamento .
 O " solipsismo metodolgico "

 no  uma espcie de solipsismo , mas um mtodo para construir

 conceitos .
 Deve-se outrossim levar em conta que a ordem de construo

 recomendada por Carnap comeando pelas for-me entities - no 

 considerada como a nica possvel .
 Teria sido melhor escolher uma

 ordem diferente , porm , em princpio , Carnap estava perfeitamente

 consciente de que a experincia original  " sem um sujeito ''. ^ 23

 Importa enfatizar ao mximo o fato de que a experincia primitiva 

 absolutamente neutral ou , como disse ocasionalmente Wittgenstein , que

 os dados imediatos " no tm proprietrio '' .
 Uma vez que o verdadeiro

 positivista nega - com Mach , etc. - que a experincia original " tenha

 aquela qualidade ou estrutura que caracteriza todas as experincias

 dadas , indicada pelo qualificativo ' primeira pessoa " ' , ^ 24 no pode

 tomar a srio o " predicado egocntrico " ; para ele tal predicado no

 existe .
 Convencer-se de que a experincia primitiva no  experincia

 de primeira pessoa parece-me constituir um dos passos mais importantes

 que a filosofia deve fazer se quisermos solucionar os seus problemas

 mais profundos .

 A posio nica do self ( ego ) no representa uma propriedade bsica de

 toda experincia , mas constitui ela mesma um fato - entre outros - da

 experincia .
 O idealismo - na concepo do esse = percipi ( ser = ser

 percebido ) de Berkeley ou da formulao Die Welt ist meine Vorstellung

 ( o mundo  a minha representao ) de Schopenhauer , - e outras

 doutrinas com tendncias egocntricas incidem no grande erro de

 confundir a posio nica do ego - que constitui um fato emprico -

 com uma verdade lgica , a priori , ou , melhor , no equvoco de colocar

 um em lugar do outro .

 Conseqentemente , vale a pena investigar esta matria e analisar a

 sentena que parece expressar o predicado egocntrico .
 Isto no ser

 uma digresso , pois sem esclarecer este item ser impossvel

 compreender a posio fundamental do empirismo que defendemos .

 De que maneira o idealista e o solipsista chegam  afirmao de que o

 mundo , na medida em que o conheo ,  " a minha prpria idia " , que em

 ltima anlise nada conheo a no ser o " contedo da minha prpria

 conscincia " ?

 A experincia ensina que todos os dados imediatos dependem , de uma

 forma ou de outra , daqueles dados que constituem o que denomino " meu

 corpo " .
 Todos os dados visuais desaparecem quando os olhos deste corpo

 esto fechados ; todos os sons cessam quando os ouvidos esto fechados ;

 e assim por diante .

 Este corpo se distingue dos " corpos dos outros seres " pelo fato de que

 sempre aparece em uma perspectiva peculiar - por exemplo , o seu dorso

 ou os seus olhos nunca aparecem , a no ser em um espelho ; todavia ,

 isto no  to significativo ou importante como o outro fato , ou seja ,

 que a qualidade de todos os dados  condicionada pelo estado dos

 rgos deste corpo especfico .
  patente que esses dois fatos -

 talvez , originalmente , o primeiro - constituem a nica razo pela qual

 este corpo  denominado " meu " corpo .
 O pronome possessivo o

 individualiza e o distingue de outros corpos ;  um qualificativo que

 assinala a unicidade descrita .

 O fato de que todos os dados dependem do " meu " corpo - em especial as

 partes dele que se chamam " rgos dos sentidos " - nos leva a formar o

 conceito de " percepo " .
 No nos deparamos com este conceito na

 linguagem dos povos primitivos e no sofisticados .
 Estes no dizem

 " percebo uma rvore " , mas , simplesmente , " existe uma rvore " .

 A " percepo " implica uma distino entre o sujeito que percebe e um

 objeto que  percebido .
 Originalmente , o sujeito que percebe  o rgo

 dos sentidos , ou o corpo ao qual este pertence , porm , uma vez que o

 prprio corpo - incluindo o sistema nervoso - - tambm  uma das coisas

 percebidas , a perspectiva original  logo " corrigida " colocando em

 lugar do percipiente um novo sujeito , denominado " ego " ou " mente " ou

 " conscincia " .

 Habitualmente concebe-se o " ego " ou a " conscincia " como residindo no

 corpo , pois os rgos dos sentidos se encontram na superfcie do

 corpo .
 O equvoco de localizar a conscincia ou a mente dentro do

 corpo - " na cabea " - , equvoco este que  denominado por R. Avenarius

 " introjeo " , representa a fonte primordial das dificuldades do assim

 chamado " problema mente-corpo " .

 Ao evitarmos o erro da introjeo , evitamos , ao mesmo tempo , a falcia

 idealstica que conduz ao solipsismo .

  fcil demonstrar que a introjeo constitui um erro .
 Ao vermos um

 prado verde , dizemos que o " verde "  um contedo da minha conscincia ,

 porm , na verdade , no est ele dentro da minha cabea .
 Dentro do meu

 crnio s existe o meu crebro ; e se acontecesse haver um ponto verde

 em meu crebro , obviamente no seria o verde do prado , mas o verde do

 crebro .

 Entretanto , para o propsito que perseguimos no  necessrio

 continuar a analisar a seqncia do pensamento , sendo suficiente

 recolocar os fatos com clareza .

  um fato da experincia que todos os dados dependem de alguma forma

 do estado de um certo corpo que apresenta a peculiaridade de que os

 seus olhos e o seu dorso nunca so vistos a no ser mediante um

 espelho .
 Este se denomina habitualmente " meu " corpo .

 Aqui , porm , no intuito de evitar equvocos , tomarei a liberdade de

 cham-lo de corpo " M '' .
 Um caso peculiar da dependncia de que acabo

 de falar  expresso pela frase : " No percebo nada , a no ser que os

 rgos dos sentidos do corpo M sejam afetados " .

 Em outros termos , considerando um caso ainda mais peculiar , posso

 fazer a seguinte afirmao :

 " Eu sinto dor somente quando o corpo M for ferido " .
 ( P )

 Denominarei esta afirmao " proposio P " .

 Consideremos agora uma outra proposio ( Q ) :

 " Eu s posso sentir a minha dor " .
 ( Q )

 A frase Q pode ser interpretada de vrias maneiras .

 Primeiramente , pode ser considerada como equivalente a P , de sorte que

 P e Q seriam apenas duas formas diferentes de exprimir um e mesmo fato

 emprico .
 A palavra " posso " , ocorrente em Q , designaria o que

 denominamos " possibilidade emprica " , e os termos " eu " e " minha "

 ( " meu " ) se refeririam ao corpo M .
  da mxima importncia observar que

 nesta primeira interpretao Q  a descrio de um fato da

 experincia , isto  , um fato que muito bem poderamos imaginar como

 sendo diferente .

 Facilmente poderamos imaginar^25 que sinto uma dor toda vez que o

 corpo de meu amigo for ferido ; que estou contente quando o seu rosto

 apresenta uma expresso alegre ; que me sinto cansado depois de ele ter

 feito um longo passeio , ou at que nada enxergo quando os seus olhos

 esto fechados , e assim por diante .

 A proposio Q - se for interpretada como equivalente a P - nega que

 tais coisas jamais acontecem ; todavia , se na realidade acontecessem ,

 demonstrar-se-ia a falsidade da proposio Q .

 Assim sendo , indicamos o sentido de Q ( ou de P ) descrevendo fatos que

 tornam Q verdadeira , e descrevendo outros fatos que tornariam Q falsa .

 Se ocorressem fatos desta ltima espcie , o nosso mundo seria bastante

 diferente daquele em que na realidade vivemos ; as propriedades dos

 " dados '' dependeriam de outros corpos humanos ( ou talvez apenas de um

 deles ) bem como do corpo M .

 Este mundo fictcio pode ser empiricamente impossvel , por ser

 incompatvel com as atuais leis da natureza - embora no possamos em

 absoluto ter certeza disto - , porm seria logicamente possvel , uma

 vez que fomos capazes de descrev-lo .

 Suponhamos agora por um momento que este mundo fictcio seja real .

 Como haveria a nossa linguagem de adaptar-se a ele ?
 Isto poderia

 ocorrer de duas maneiras diferentes , que so de interesse para o nosso

 problema .

 A proposio P seria falsa .

 No que concerne a Q , haveria duas possibilidades .
 A primeira consiste

 em manter que o seu sentido deve ainda ser o mesmo que o de P .
 Neste

 caso , Q seria falsa e poderia ser substituda pela proposio

 verdadeira :

 " Eu posso sentir a dor de uma outra pessoa to bem como a minha

 prpria " .
 ( R )

 R haveria de afirmar o fato emprico - que no momento supomos

 verdadeiro - que o dado " dor " ocorre no somente quando M  ferido ,

 mas tambm quando  ferido algum outro corpo , digamos por exemplo o

 corpo " O '' .

 Se exprimirmos o suposto estado de coisas pela proposio R ,

 evidentemente no haver nenhuma tentao e nenhum pretexto para fazer

 qualquer afirmao " solipsstica " .
 Meu corpo - que neste caso no

 poderia significar outra coisa seno o " corpo M " - continuaria a ser

 nico pelo fato de que sempre apareceria em uma perspectiva peculiar

 ( com o dorso invisvel , etc. ) , porm no seria mais nico no sentido

 de ser o nico corpo de cujo estado dependeriam as propriedades de

 todos os outros dados .

 Ora , foi exclusivamente esta ltima caracterstica que deu origem ao

 ponto de vista egocntrico .
 A dvida filosfica em relao 

 " realidade do mundo externo " originou-se da considerao de que no

 tenho nenhum conhecimento desse mundo a no ser atravs da percepo ,

 ou seja , atravs dos rgos sensoriais do meu corpo .

 Se isto no mais for verdade , se os dados dependerem tambm de outros

 corpos O - os quais diferem de M quanto a certos aspectos empricos ,

 mas no em princpio - neste caso no haver mais justificativa para

 qualificar os dados de " meus prprios " ; outros indivduos O tero o

 mesmo direito de serem considerados como sujeitos ou proprietrios dos

 dados .

 O ctico tinha receio de que outros corpos O pudessem no ser outra

 coisa seno imagens possudas pela " mente " pertencente ao corpo M ,

 pois tudo parecia depender do estado deste ltimo ; todavia , nas

 circunstncias descritas , existe perfeita simetria entre O e M ; o

 predicado egocntrico desapareceu .

 Chamar-me-o talvez a ateno para o fato de que as circunstncias que

 descrevemos so fictcias , que no ocorrem em nosso mundo real , de

 maneira que neste mundo infelizmente o predicado egocntrico mantm o

 seu domnio .

 A isto respondo que desejo basear o meu argumento exclusivamente no

 fato de a diferena entre as duas palavras ser meramente emprica , ou

 seja , acontece que a proposio P  verdadeira no mundo atual no que

 tange  nossa experincia .

 A sua negao nem sequer parece ser incompatvel com as leis da

 natureza conhecidas ; a probabilidade que tais leis do  falsidade de

 P no  zero .

 Ora , se ainda concordarmos em que a proposio Q deve ser considerada

 idntica a P - o que significa que " meu " deve ser definido como

 referindo-se a M - a palavra " posso " em Q ainda indicar possibilidade

 emprica .
 Conseqentemente , se um filsofo tentasse empregar Q como

 fundamento para uma espcie de solipsismo , deveria preparar-se para

 ver toda a sua construo demonstrada como falsa por alguma

 experincia futura .
 Ora ,  exatamente isto que o verdadeiro solipsista

 se recusa a fazer .
 Sustenta ele que nenhuma experincia poderia

 possivelmente contradiz-lo , uma vez que teria sempre necessariamente

 o carter peculiar de para mim , que pode ser descrito pelo " predicado

 egocntrico " .

 Em outras palavras , est ele perfeitamente consciente de que o

 solipsismo no pode basear-se em Q enquanto Q , por definio , no for

 outra coisa seno uma outra maneira de exprimir P .

 Com efeito , o solipsista que faz a afirmao Q d um sentido diferente

 s mesmas palavras ; no quer ele simplesmente afirmar P , seno que

 entende dizer algo inteiramente diverso .
 A diferena reside no termo

 " meu " .
 No quer ele definir o pronome pessoal atravs da referncia ao

 corpo M , porm o uso de uma forma muito mais geral .

 Isto nos leva a perguntar : que sentido d ele  sentena Q ?

 Examinemos agora esta segunda interpretao que pode ser dada a Q .

 O idealista ou solipsista que afirma " Eu posso sentir somente a minha

 prpria dor " , ou , de maneira mais geral , " Eu posso estar consciente

 somente dos dados de minha prpria conscincia " , acredita estar

 enunciando uma verdade necessria e evidente que nenhuma experincia

 possvel  capaz de faz-lo abandonar .

 Ter ele que admitir a possibilidade de circunstncias como as que

 acima descrevemos para o nosso mundo fictcio .
 Contudo , dir ele ,

 mesmo que eu sinta dor toda vez que um outro corpo O for ferido , nunca

 direi " Eu sinto a dor de O " , mas sempre " A minha dor est no corpo de

 O " .

 No podemos afirmar que esta assero do idealista seja falsa ; 

 apenas um modo diferente de adaptar a nossa linguagem s novas

 circunstncias imaginadas , e as normas da linguagem so , em princpio ,

 arbitrrias .

 Entretanto ,  natural que alguns empregos de nossas palavras podem

 recomendar-se como prticos e bem adaptados ao passo que outros podem

 ser condenados como maus condutores .
 Examinemos a atitude do idealista

 deste ponto de vista .

 Rejeita o idealista a nossa proposio R e a substitui por esta outra :

 " Eu posso sentir dor tanto em outros corpos como no meu prprio " .
 ( S )

 Quer ele insistir que qualquer dor que eu sinta deve ser qualificada

 como minha dor , no importando onde a dor  sentida .
 No intuito de

 afirmar isto , diz ele :

 " Eu s posso sentir a minha dor '' .
 ( T )

 A frase T  , no que diz respeito s palavras , a mesma que Q .
 Empreguei

 sinais ligeiramente diferentes grifando os termos " posso " e " minha " ,

 no intuito de assinalar que , ao serem usados pelo solipsista , essas

 duas palavras se revestem de uma significao diferente da que tinha

 em Q quando interpretamos Q como significando a mesma coisa que P .

 Em T , " minha dor " no mais significa " dor no corpo M " , uma vez que , de

 acordo com a explicao do solipsista , " minha dor " pode tambm estar

 em um outro corpo O .
 Assim sendo , devemos perguntar : que significa

 aqui o pronome " minha " ?

  fcil ver que o pronome no significa nada ;  uma palavra suprflua ,

 que pode perfeitamente ser omitida .

 " Eu sinto dor " e " Eu sinto a minha dor " devem ter a mesma

 significao , segundo a definio do solipsista .
 Por conseguinte , o

 termo " minha " no tem funo alguma na frase .
 Se o solipsista disser

 " A dor que sinto  minha dor " , est ele enunciando uma mera

 tautologia , uma vez que declarou que , quaisquer que sejam as

 circunstncias empricas , nunca permitir que se empreguem os pronomes

 " tua " ou " sua " em conexo com " Eu sinto dor " , mas sempre o pronome

 " minha " .

 Esta determinao , por ser independente de fatos empricos , constitui

 uma regra lgica , e , se for seguida , T se torna uma tautologia .
 O

 termo " posso " em T - juntamente com " exclusivamente " - no denota

 impossibilidade emprica , mas impossibilidade lgica .

 Em outras palavras , no seria falso , mas no teria sentido - ou seja ,

 seria gramaticalmente proibido - dizer " Eu posso sentir a dor de

 alguma outra pessoa " .
 Uma tautologia , sendo a negao do sem-sentido ,

  ela mesma destituda de sentido , pelo fato de no afirmar nada , mas

 apenas indicar uma regra no tocante ao emprego de palavras .

 Conclumos que T , a qual constitui a segunda interpretao de Q ,

 adotada pelo solipsista e formando a base do seu argumento , 

 rigorosamente sem sentido .
 No diz absolutamente nada , no exprime

 nenhuma interpretao do mundo nem perspectiva alguma a respeito do

 mundo ; apenas introduz um modo estranho de falar , uma linguagem

 desajeitada , a qual atribui o termo " minha " ( ou ento " contedo da

 minha conscincia " ) a tudo , sem exceo .

 O solipsismo carece de sentido , uma vez que o seu ponto de partida , o

 predicado egocntrico ,  destitudo de sentido .

 As palavras " Eu " e " minha " , se as usarmos de acordo com a prescrio

 do solipsista so absolutamente vazias , meros adornos de linguagem .

 No haveria diferena alguma de sentido entre as trs expresses : " Eu

 sinto a minha dor " , " Eu sinto dor " , e " Existe dor " .

 Lichtenberg , o admirvel fsico e filsofo do sculo XVIII , afirmou

 que Descartes no tinha direito algum de iniciar a sua filosofia com a

 proposio " Eu penso " ( Cogito ) , ao invs de dizer " Pensa-se " .

 Da mesma forma como no teria sentido algum falar de um cavalo branco ,

 a menos que fosse logicamente possvel a existncia de um cavalo que

 no fosse branco , assim , no teria sentido nenhuma frase que contenha

 as palavras " Eu " ou " meu ' ,, a no ser que possamos substitu-las por

 " Ele " ou " seu " sem dizermos algo carente de sentido .

 Entretanto , tal substituio  impossvel em uma frase que pareceria

 exprimir o predicado egocntrico ou a filosofia solipsstica .

 As proposies no so explicaes ou interpretaes diferentes de um

 certo estado de coisas que descrevemos , mas simplesmente formulaes

 verbalmente diferentes desta descrio .

  de fundamental importncia ver que R e S no constituem duas

 proposies , mas uma e mesma proposio em duas linguagens diversas .
 O

 solipsista , rejeitando a linguagem de R e insistindo na linguagem de

 S , adotou uma terminologia que torna a proposio Q tautolgica ,

 transforma-a em T .
 Desta forma , fez com que seja impossvel verificar

 a verdade ou a falsidade das suas prprias afirmaes ; ele mesmo as

 privou de sentido .

 Recusando valer-se das oportunidades - que lhe mostramos - de dar um

 sentido  afirmao " Eu posso sentir a dor de alguma outra pessoa " , ao

 mesmo tempo malbaratou a oportunidade de dar sentido  frase " Eu posso

 sentir somente a minha dor " .

 O pronome " minha " designa possesso .
 No podemos falar do

 " proprietrio " de uma dor - ou de qualquer outro dado - a no ser em

 casos em que a palavra " minha " possa ser empregada com sentido , ou

 seja , onde , substituindo tais termos por " sua " ou " tua " , teramos a

 descrio de um estado de coisas possvel .

 Esta condio  cumprida se " minha " for definido como referindo-se ao

 corpo M , sendo tambm cumprida se eu concordar em chamar de " meu

 corpo " qualquer corpo no qual eu possa sentir dor .

 Em nosso mundo atual , essas duas definies aplicam-se a um e mesmo

 corpo , porm estamos aqui face a um fato emprico que poderia ser

 diferente .

 Se as duas definies no coincidissem , e se adotssemos a segunda ,

 necessitaramos de uma nova palavra para distinguir o corpo M de

 outros corpos nos quais eu poderia ter sensaes ; o termo " minha "

 teria sentido em uma frase do tipo " A  um dos meus corpos , mas B no

 o  " , porm careceria de sentido na afirmao " Eu posso sentir dor

 somente nos meus corpos " , pois isto representaria uma pura tautologia .

 A categoria gramatical da palavra " proprietrio "  semelhante  do

 termo " meu " ; em outras palavras : somente tem sentido onde for

 logicamente possvel a uma coisa mudar de proprietrio , isto  , onde a

 relao entre o proprietrio e o objeto possudo for emprica , no

 lgica ( " externa " , no " interna " ) .

 Assim sendo , poderamos dizer " O corpo M  o proprietrio desta dor " ,

 ou ento " Esta dor  possuda pelos corpos M e O " .

 A segunda proposio talvez nunca possa ser afirmada com verdade em

 nosso mundo atual - embora no consiga ver que a mesma possa ser

 incompatvel com as leis da natureza - porm tanto uma como a outra

 teriam sentido .
 O seu sentido consistiria em expressar certas relaes

 de dependncia entre a dor e o estado de certos corpos , sendo que a

 existncia de tal relao poderia facilmente ser testada .

 O solipsista recusa empregar a palavra " proprietrio " desta maneira

 sensata .
 Sabe ele que muitas propriedades dos dados no dependem

 absolutamente de quaisquer estados dos corpos humanos , isto  , todas

 as regularidades do seu comportamento que podem ser expressas por

 " leis fsicas " ; sabe ele , por conseguinte , que seria errneo dizer

 " meu corpo  o detentor de tudo " ; fala ele de um " ego " , ou

 " conscincia " , afirmando que este ego ou conscincia  o detentor de

 tudo .

 Isto no tem sentido , uma vez que a palavra " proprietrio " ou

 " detentor " , quando empregada desta maneira , perde o seu sentido .

 A afirmao solipsstica no pode ser verificada como verdadeira ou

 como falsa , seno que ser verdadeira por definio , quaisquer que

 sejam os fatos ; consiste ela simplesmente na prescrio verbal de

 acrescentar os termos " possudos por mim " aos nomes de todos os

 objetos , etc .

 Alis , o idealista comete o mesmo erro ao afirmar que nada conhecemos

 a no ser " aparncias " .
 Vemos , desta forma , que a no ser que optemos

 por designar o nosso corpo como proprietrio , detentor ou portador dos

 dados - o que pareceria constituir uma expresso bastante equvoca - ,

 temos que afirmar que os dados no tm proprietrio nem portador .

 Esta neutralidade da experincia - contra a subjetividade que o

 idealista para ela reclama - constitui um dos aspectos mais

 fundamentais do verdadeiro positivismo .

 A frase " Toda experincia  uma experincia da primeira pessoa " ou

 significar o simples fato emprico de que todos os dados dependem ,

 sob certos aspectos , do estado do sistema nervoso do meu corpo M , ou

 ser carente de sentido .

 Antes que este fato fisiolgico seja descoberto , a experincia de

 forma alguma  " minha " experincia , mas  auto-suficiente e no

 " pertence " a ningum .

 A proposio " O ego constitui o centro do mundo " pode ser considerada

 como uma expresso do mesmo fato , tendo sentido somente se se referir

 ao corpo .
 O conceito de " ego "  uma construo que repousa sobre o

 mesmo fato , e poderamos facilmente imaginar um mundo no qual este

 conceito no teria sido elaborado , mundo no qual no haveria nenhuma

 idia de uma barreira intransponvel entre o que est dentro do ego e

 o que est fora dele .

 Teramos neste caso um mundo no qual ocorrncias como as

 correspondentes  proposio R e similares constituiriam a regra , e no

 qual os fatos da " memria " no seriam to pronunciados como em nosso

 mundo atual .

 Em tais circunstncias no seramos tentados a cair no " predicado

 egocntrico " , seno que a frase que tenta expressar tal predicado

 seria carente de sentido em qualquer hiptese .

 *

 Aps nossas ltimas observaes ser fcil abordar o assim chamado

 problema relativo  existncia do mundo externo .

 Se , com o Prof. Lewis , formularmos a hiptese " realista " afirmando :

 " Se todas as mentes desaparecessem do universo , as estrelas

 continuariam nas suas trajetrias " , devemos admitir a impossibilidade

 de verific-la , porm a impossibilidade no caso  meramente emprica .

 Alis , as circunstncias empricas so tais que temos todas as razes

 para crer que a hiptese  verdadeira .
 Estamos to certos disto quanto

 estamos certos do fundamento das leis fsicas que a cincia descobriu .

 Com efeito , j assinalamos que existem certas regularidades no mundo ,

 as quais a experincia demonstra serem totalmente independentes

 daquilo que acontece aos seres humanos existentes na terra .

 Assim , as leis do movimento dos corpos celestes so formuladas

 inteiramente sem referncia a quaisquer corpos humanos , sendo esta a

 razo que nos autoriza a sustentar que tais corpos continuaro na sua

 trajetria depois que o gnero humano desaparecer da terra .

 A experincia no demonstra nenhuma conexo entre as duas espcies de

 eventos .
 Observamos que o curso das estrelas no  mais alterado pela

 morte de seres humanos do que , por exemplo , pela erupo de um vulco ,

 ou por uma mudana de governo na China .
 Por que motivo haveramos de

 supor que haveria alguma diferena se fossem extintos todos os seres

 viventes do nosso planeta , ou mesmo em todo o universo ?
 No pode

 pairar dvida alguma acerca do fato de que , em virtude de evidncia

 emprica , a existncia de seres viventes no constitui condio

 necessria para a existncia do resto do mundo .

 A questo " Continuar o mundo a existir aps a minha morte ?
 " no tem

 sentido algum , a no ser que seja interpretada como significando " A

 existncia das estrelas , etc. depende da vida ou da morte de um ser

 humano ?
 " , questo esta para a qual a experincia fornece resposta

 negativa .

 O erro do solipsista ou do idealista consiste em rejeitar esta

 interpretao emprica e procurar alguma soluo metafsica para ela .

 Todavia , todos os esforos do solipsista ou do idealista para

 arquitetar um novo sentido para a questo acabam por priv-lo do seu

 sentido antigo .

 Notar-se- que tomei a liberdade de substituir a frase " se todas as

 mentes desaparecessem do mundo " por " se todos os seres viventes

 desaparecessem do universo " .

 Espero que no se pense haver eu alterado o sentido do problema com

 esta substituio .
 Evitei o termo " mente " porque o emprego para

 significar a mesma coisa que as palavras " ego '' ou " conscincia " , que

 constatamos serem to obscuras e perigosas .
 Por seres viventes entendo

 seres capazes de percepo , e o conceito de percepo foi definido

 somente por referncia a corpos viventes , a rgos vivos .

 Desta forma , tive eu justificativa para substituir " desaparecimento

 das mentes " por " morte dos seres viventes " .

 Todavia , os argumentos so vlidos para qualquer definio emprica

 que se queira escolher ou dar para " mente '' .
 Preciso apenas assinalar

 que , de acordo com a experincia , o movimento das estrelas , etc. 

 totalmente independente de todos os fenmenos " mentais " como sentir

 alegria ou tristeza , meditar , sonhar , etc. ; e podemos concluir que o

 curso das estrelas no seria afetado se tais fenmenos cessassem de

 existir .

 Entretanto , ser verdade que tal concluso pode ser verificada ?

 Empiricamente isto parece impossvel , porm sabemos que se exige

 apenas a possibilidade lgica de verificao .
 Ora , verificao sem uma

 " mente "  logicamente possvel , em razo do carter " neutro " e

 impessoal da experincia , conforme acima insistimos .

 A experincia primitiva , a mera existncia de dados ordenados , no

 pressupe um " sujeito " , um " ego " , um " eu " , uma " mente '' , podendo

 efetuar-se sem qualquer um dos fatos que levaram  formao de tais

 conceitos ; no so o fruto da experincia de ningum .

 No  difcil imaginar um universo sem plantas , animais e corpos

 humanos - inclusive sem o corpo M - bem como sem os fenmenos que

 acabamos de mencionar ; seria certamente um " mundo sem mentes " - pois ,

 que outra coisa poderia merecer este nome ?
 - porm as leis da natureza

 bem poderiam ser as mesmas que as existentes em nosso mundo atual .

 Poderamos descrever este universo em termos de nossa experincia

 atual - - com a nica diferena de que teramos que omitir todos os

 termos referentes aos corpos humanos e s emoes .
 Ora , isto 

 suficiente para podermos falar de tal mundo como sendo um universo de

 experincia possvel .

 As ltimas consideraes podem servir como exemplo de uma das

 principais teses do verdadeiro positivismo , ou seja : que a

 representao singela do mundo , qual a v o homem da rua , 

 perfeitamente correta ; que a soluo dos grandes problemas filosficos

 consiste em retornar a esta mundiviso original , aps termos

 demonstrado que os problemas penosos se originaram exclusivamente de

 uma descrio inadequada do mundo mediante uma linguagem defeituosa .

 Notas

 * Do original ingls : ' Meaning and Verification ' , publicado pela

 primeira vez em The Philosophical Review , vol. XLV , 1936 .

 ^ 1 Se as consideraes acima so to corretas como acredito que sejam ,

 devo isto , em grande parte , aos contatos que mantive com Wittgenstein ,

 que exerceram notvel influncia sobre os meus pontos de vista nesta

 matria .
 Dificilmente posso exagerar a minha dvida para com este

 filsofo .
 No tenciono atribuir-lhe qualquer responsabilidade pelo

 contedo do presente artigo , porm tenho razes para crer que ele

 concordar com os seus pontos essenciais .

 2 Na realidade , o acrscimo " na experincia "  suprfluo , porquanto

 no se definiu nenhuma outra espcie de verificao .

 3 A obra do prof. Bridgman A Lgica da Fsica Moderna ( The Logic of

 Modern Physics ) representa uma tentativa admirvel de realizar este

 programa para todos os conceitos da fsica .

 4 ' Experience and Meaning ' , em The Philosophical Review , Maro 1934 .

 5 Loc .
 Cit. , p. 125 .

 6 Se , por exemplo , a sentena apresenta esta estrutura : sujeito -

 predicado - objeto , parecendo portanto predicar uma propriedade de uma

 coisa .

 7 Citado pelo prof. Lewis , loc. Cit. , p. 130 .

 8 Loc .
 Cit. , p. 131 .

 9 Como poderiam ser interpretadas no sentido de que falar acerca do

 passado , na realidade , equivaleria a falar de memrias presentes .

 10 Ver , por exemplo , Allgemeine Erkenntnislehre ( Teoria Geral do

 Conhecimento ) , Segunda edio , 1925 , # 12 .

 11 Acredito que este caso corresponderia ao que o prof. Lewis denomina

 ' teorias da identidade ' da ' relao-conhecimento ' ( identity-theories

 of the knowledge-relation ) .
 Tais teorias , por se basearem em uma

 tautologia deste tipo , representariam simples palavreado distitudo de

 significao .

 12 Loc .
 Cit. , 137 .

 13 Ao que parece ,  nela que Lewis pensou ao falar de " experincia

 possvel enquanto condicionada pela experincia real " loc. Cit. , p .

 141 .

 14 Loc .
 Cit. , 142 , nas seis primeiras linhas .

 15 Talvez no me tenha expressado corretamente .
 Um fato que no

 pudesse ser descrito , naturalmente no constituiria fato algum ;

 qualquer fato  logicamente possvel .
 Todavia , acredito que o leitor

 tenha entendido o que quis dizer .

 16 Longe de mim condenar esta atitude em qualquer circunstncia .
 Em

 certas ocasies - como em Alice no Pas das Maravilhas - pode ser a

 atitude mais sensata e muito mais deliciosa do que qualquer tratado de

 lgica .
 Todavia , num tal tratado temos o direito de esperar uma

 atitude diferente .

 17 Alis ,  este o sentido que o termo tem na filosofia de Hume e de

 Kant .

 18 Estas representam a condio da ' experincia ' , na acepo em que

 Hume e Kant empregam esta palavra .

 19 Pois  isto que significam as palavras ' lado da lua ' .

 20 Loc .
 Cit. , pg. 143 .

 21 Loc .
 Cit. , pg. 128 .

 22 O autor intitula o seu livro um Sistema de Positivismo Idealstico .

 23 Ver Lewis Loc .
 Cit. , pg. 145 .

 24 Loc .
 Cit. , pg. 145 .

 In Os Pensadores Schlick e Carnap , pgs. 83-110 , So Paulo : Ed. Abril ,

 1980 .

