

 Uma histria da filosofia ocidental

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 Uma Histria da Filosofia Ocidental

 De D. W. Hamlyn

 Jorge Zahar Editor

 Traduo de Ruy Jungmann

 17

 A FILOSOFIA ANALTICA

 O ttulo deste captulo induz a erro na medida em que tencionamos

 estudar uma srie de filsofos , somente alguns dos que consideraram

 seus objetivos como principalmente analticos .
 De qualquer modo , com

 um olhar retrospectivo , podemos ver que mesmo aqueles que

 explicitamente expuseram suas concepes de filosofia como centradas

 na anlise no se interessaram apenas por isso , no mais do que Hume

 se interessou , por exemplo .
 H alguns anos , dizia-se com freqncia

 que teria ocorrido uma revoluo na filosofia nos primeiros anos deste

 sculo [ XX ] .
 Estas alegaes perderam um tanto de credibilidade ,

 embora a oposio de Wittgenstein nos ltimos anos , explcita ou no ,

 a Descartes , implicasse uma nova maneira de pensar , to importante em

 nosso tempo como foi a do filsofo francs no seu .
 Neste e no captulo

 seguinte , iniciaremos nosso estudo com filsofos do sculo XIX que ,

 com toda probabilidade , no teriam se considerado como partes do

 movimento que discutiremos como tendo se originado deles .
 Ser

 necessrio tambm fazer uma ou duas digresses .

 FREGE

 Gottlob Frege ( 1848-1925 ) foi outro filsofo que teve relativamente

 pouco reconhecimento enquanto viveu , embora fosse respeitado e

 admirado por Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein .
 De certa maneira ,

 pertence a um grupo interessado no desenvolvimento da lgica formal e

 da filosofia da matemtica .
 Tentativas de instilar nova vida na lgica

 formal haviam comeado antes com George Boole ( 1805-64 ) , e matemticos

 como George Cantor ( 1845-1908 ) interessaram-se pelos fundamentos da

 matemtica .
 A primeira obra de Frege , Begriffschrift ( Conceitografia )

 constituiu um esforo para expor uma nova notao de lgica que lhe

 daria uma base muito mais vasta que a lgica aristotlica e poderia

 ser usada para tratar de assuntos da filosofia da matemtica .
 Como

 notao no obteve grande sucesso , mas assinalou um rompimento

 completo com a lgica tradicional .
 O Die Grundlagen der Arithmetik ( Os

 fundamentos da aritmtica ) tentou demonstrar que a aritmtica podia

 ser derivada das leis ou axiomas de um sistema de lgica formal .
 Isto

 implica a denominada tese logstica da aritmtica e , portanto , a

 matemtica em geral poderia ser derivada da lgica .

 Esse programa foi levado adiante no As leis fundamentais da aritmtica

 ( Die Grundgesetze der Arithmetik , 1893-1903 ) .
 ( Bertrand Russell tentou

 desenvolver programa semelhante no The Principles of Mathematics

 ( 1903 ) , e levou-o a cabo de forma mais abrangente e formal no

 Principia Mathematica ( 1910-13 ) , escrito em colaborao com A. N .

 Whitehead. ) Em 1902 , Russell escreveu a Frege , chamando-lhe a ateno

 para contradies em sua teoria , que ele mesmo tentou resolver com

 emprego de princpios ancilares , embora em detrimento da elegncia da

 teoria .
 De qualquer modo , em 1931 , Kurt Gdel provou que a matemtica

  incompleta e que h verdades aritmticas que so improvveis dentro

 de qualquer sistema lgico coerente .
 Isto ps um fim ao programa

 logstico .
 No obstante , permanecem as introvises filosficas que

 acompanharam as tentativas de desenvolver o programa .

 H , em primeiro lugar , a definio de nmero .
 A introviso de Frege

 foi que nmeros pertencem a conceitos ( Russell disse que eles

 pertenciam a classes ) .
 No quer isto dizer que os nmeros sejam

 propriedades de conceitos , embora predicados numricos se apliquem a

 coisas apenas na medida em que estas so ordenadas sob um conceito

 ( algo que aparentemente Plato tambm percebeu ) .
 Frege sustenta que os

 nmeros so objetos e o nmero que pertence ao conceito F  , segundo

 sua definio , a extenso ( faixa de aplicao ) do conceito igual ao

 conceito F .
 O argumento  o seguinte : pode-se dizer que dois

 conjuntos , ou classes , de objetos organizados pelos conceitos F e G

 so eqinmeros se seus membros podem ser colocados numa

 correspondncia um-a-um - algo que , como demonstra Frege , no

 pressupe o conceito de nmero .
 Frege pergunta o que significa dizer

 que o nmero que pertence ao conceito F  o mesmo que pertence ao

 conceito G , e responde ao longo dos mesmos princpios : isto equivale a

 dizer que a extenso do conceito igual ao conceito F  o mesmo que

 igual ao conceito G , isto  , as classes que formam sua extenso tm o

 mesmo nmero de membros. ( Analogamente , Russell disse que cinco era a

 classe de todos os quintetos , e o nmero de classes de todas as

 classes semelhante a uma dada classe. ) Frege define em seguida o zero

 como o nmero que pertence ao conceito " no idntico consigo mesmo "

 ( nada havendo , claro , que no seja idntico a si mesmo ) .
 Tendo

 definido zero , e em seguida dada a noo de sucesso , que  definvel

 em termos lgicos ,  possvel determinar todos os nmeros

 subseqentes .

 A descrio que demos no  fcil de compreender .
 A verso de Russell

 talvez seja mais fcil de entender , mas  a Frege que cabe a

 precedncia .
 E foi uma realizao notvel .
 A falha que Russell

 descobriu residia no fato de que era possvel construir um paradoxo

 sobre a noo de classe de todas as classes , perguntando-se se a

 classe de todas as classes que no so membros de si mesmas  um

 membro de si mesma ou no .
 Se  , ento no  , e se no  , ento  .
 A

 possibilidade de produzir-se esse paradoxo pareceu lanar dvida sobre

 a prpria noo de uma classe de todas as classes .
 Frege tentou

 resolver o problema restringindo sua teoria .
 Russell props a teoria

 dos tipos , que se assemelha a uma teoria de categorias , ao proibir que

 se incluam coisas de diferentes tipos no mesmo nvel .
 O paradoxo de

 Russell e sua " soluo " despertaram o interesse por uma faixa inteira

 de paradoxos de tipo anlogo e pela questo de como devem ser

 resolvidos .

 Frege era contrrio ao que chamava de " psicologismo " - ou a

 interpretao da lgica em termos psicolgicos .
 A lgica diz respeito

 a proposies e , por conseguinte ,  importante ser claro sobre o que

 so elas e qual o status dos termos que as compem .
 No Fundamentos da

 aritmtica , disse que se devia perguntar pelo sentido de uma palavra

 apenas no contexto , ou nexo , de uma proposio .
 As proposies  que

 constituem as unidades fundamentais do sentido .
 Mais tarde , ele diria

 que o sentido de uma proposio  um pensamento , de modo que so

 estes , sob a forma de juzos , que devem constituir o ponto de partida

 de qualquer teoria de sentido .

 A fim de dar uma descrio das proposies , Frege recorreu  noo

 matemtica de funo .
 Na expresso de uma funo como 2x + x a

 funo  o que quer que seja escolhido pela parte da expresso que

 permanece quando retiramos as letras de argumento , os xs .
 Por

 comparao com o argumento de uma funo , a funo em si  incompleta

 e o lugar do argumento tem que ser preenchido para complet-la .
 Frege

 colocou essas idias em um trabalho , " Funo e Conceito " , dizendo que

 as funes so " insaturadas " .
 As funes tm valores diferentes para

 argumentos diferentes .
 As proposies podem ser interpretadas como

 funes que tm os valores Verdadeiro ou Falso e , assim , podem ser

 denominadas funes-verdade .

 O argumento de uma funo proposicional corresponde a um objeto .
 As

 expresses que tm que ser substitudas por variveis , a fim de se

 conseguir o valor Verdadeiro ou Falso , devem ser tomadas como se

 referindo a objetos .
 Em contraste , a parte de funo de uma proposio

 no se refere a um objeto , mas a um conceito , o que  logicamente

 muito diferente .
 Frege expe essa distino em seu trabalho ( artigo )

 intitulado " Conceito e Objeto " .
 Observa tambm que , se usamos a

 expresso " o conceito cavalo " , teremos nos referido , por causa da

 natureza da expresso , a um objeto , com o resultado paradoxal de que o

 conceito cavalo  um objeto , no um conceito .
 Como quer que se pense

 que o paradoxo deva ser resolvido ,  claro que ele surge pelo

 tratamento dos termos " objeto " e " conceito " como iguais a quaisquer

 outros , ao passo que eles tm o papel especial de selecionar as

 diferentes categorias de coisas pressupostas ao se dar sentido 

 proposio .

 No seu artigo " Sobre Sentido e Significado " , Frege vai mais adiante na

 questo relativa a sentido .
 Comea da observao de que " A estrela

 matutina  a estrela vespertina " e " A estrela matutina  a estrela

 matutina " so , por igual , afirmaes de identidade verdadeiras .
 Os

 termos de cada uma se referem  mesma coisa , mas a primeira proposio

  informativa ao passo que a segunda no  .
 Frege sugere que podemos

 explicar isso apenas distinguindo entre o sentido e o significado de

 expresses .
 O sentido de uma proposio completa  um pensamento .
 Seu

 significado tem que ser Verdadeiro ou Falso , isto  , seu

 valor-verdade .
 O sentido de toda a proposio , o pensamento ,  dado

 pelos sentidos das partes e por seu mtodo de combinao .
 A fim de

 passar de sentido a significado , isto  , determinar a verdade ou

 falsidade de uma proposio , precisamos conhecer o significado das

 partes .

 Frege entra em detalhes considerveis sobre como isso funciona em

 vrios casos , especialmente quando h o que ele chama de significado

 indireto , como na frase " Coprnico acreditava que as rbitas

 planetrias eram crculos " , porque , nesse caso , o significado que se

 segue ao " que "  determinado pelo significado de " Coprnico " , " rbitas

 planetrias " e " crculos " , ao passo que o significado de toda a

 proposio no  assim determinado .
 Coprnico podia ter acreditado ser

 isso verdade ou no .
 Em tais casos , diz Frege que o significado da

 subclusula  um pensamento , isto  , seu sentido .
 Seja ou no

 satisfatria essa explicao , no h dvida que so importantes os

 problemas que Frege est tentando resolver .

 Vimos em alguns captulos anteriores que alguns filsofos aceitaram

 sujeitos e predicados de proposio como representando objetos de um

 tipo ou outro , que so seus significados .
 At agora no nos referimos

 a sujeitos e predicados ao discutir a obra de Frege , mas eles

 correspondem , na verdade , aos argumentos e funes .
 Dado isto ,  claro

 que , para Frege , predicados acompanham conceitos , de modo que

 constitui um erro completo procurar os objetos aos quais se referem .
 A

 distino entre conceito e objeto  fundamental .
 Alm disso , Frege

 fala s vezes no sentido de uma expresso como o modo de apresentao

 de seu significado .
 Uma vez que as proposies tm como principal

 papel o de serem as unidades do discurso , e seu significado 

 Verdadeiro ou Falso , isto d  verdade e  falsidade um lugar

 importante na teoria do significado apresentada - idia esta muito

 explorada por filsofos recentes .
 Por outro lado , pode-se bem pensar

 que Frege confia em uma analogia duvidosa ao assemelhar proposies a

 funes e que a teoria de sentido proposta  ainda simples demais , a

 despeito de suas vantagens sobre a teoria de que o sentido das

 expresses  simplesmente seu significado .
 A discusso sobre esses

 pontos continua e a reputao de Frege  hoje mais alta do que jamais

 foi durante sua vida .

 Mais um dado : por " conceito " Frege no entendia coisa alguma que

 acontece na mente do indivduo , e o mesmo se aplica a " pensamento " .

 Esses termos teriam a ver com um reino de sentidos pblicos .
 Em alguns

 de seus ltimos trabalhos , ele falaria da existncia de um reino de

 entidades entre os objetos fsicos e as entidades mentais , e era a

 este reino que os conceitos e pensamentos pertenceriam .
 Mas esta 

 meramente uma maneira pitoresca de formular o argumento de que o

 sentido que as proposies e termos tm  algo publicamente acessvel ,

 sem que sejam fsicos .
 Frege no perguntou como isso seria possvel .

 Suas contribuies  filosofia , embora importantes , foram limitadas .

 Ele no duvidava da existncia real de coisas fora da mente , mas no

 estava interessado em mais questes epistemolgicas e metafsicas

 sobre isso .
 Seu comentador mais recente , Michael Dummett ( nascido em

 1925 ) , considerou esse fato como uma indicao da importncia

 fundamental da filosofia da linguagem , mas esse  um assunto

 discutvel .

 RUSSELL

 Bertrand Russell ( 1872-1970 ) teve interesses mais amplos .
 O conde

 Russell , o que se tornou em 1931 , era membro de uma ilustre famlia

 aristocrtica .
 Matriculou-se no Trinity College , Cambridge , a fim de

 estudar matemtica , passou  filosofia e subseqentemente tornou-se

 Fellow do Trinity por algum tempo , voltando ao colgio em 1944 .

 Entrementes , lecionou em Cambridge durante alguns perodos e visitou

 outras universidades , especialmente nos Estados Unidos .
 Pacifista

 durante a I Guerra Mundial , passou seis meses na priso em 1918 por

 esse motivo .
 Foi homem de excepcional brilhantismo - alguns diriam que

 demais - e teve a ateno despertada por numerosas coisas , tanto em

 sua vida pessoal como em assuntos sociais e polticos .
 Seu trabalho em

 prol da Campanha pelo Desarmamento Nuclear , perto do fim da vida , 

 bem conhecido .
 Escreveu muitos livros sobre assuntos que no so

 rigorosamente filosficos .
  defensvel a tese de que o melhor de sua

 filosofia apareceu  poca em que ainda era jovem , e ele ficou

 realmente desapontado com a falta de entusiasmo pelo seu ltimo

 trabalho importante , Human Knowledge ( 1948 ) .

 O primeiro livro de Russell , sua dissertao para a conquista de uma

 bolsa de estudo , tratou dos fundamentos da geometria e apareceu em

 1897 .
 Mostrava a obra as influncias do idealismo , ento dominante .

 Desviou-se , porm , para o realismo , em parte sob a influncia de G. E .

 Moore , que estudaremos na seo seguinte , e at certo ponto porque

 veio a acreditar que o idealismo no podia explicar a verdade

 matemtica .
 O The Principles of Mathematics ( 1903 ) , precedido por um

 livro sobre Leibniz , introduziu o programa do logicismo que

 mencionamos ao discutir a obra de Frege , e defendeu uma forma extrema

 de realismo , segundo a qual tudo que podia ser um possvel significado

 de um termo , mesmo entidades no-existentes ou logicamente

 impossveis , tinham existncia em algum sentido .
 Ligou ele essas

 idias s de Alexius von Meinong ( 1853-1920 ) , a quem voltaremos no

 captulo seguinte .
 Mas veio a pensar que essa opinio carecia de

 sentido de realidade suficientemente robusto e seu trabalho

 subseqente nessa rea - o monumental Principia Mathematica ( 1910-13 ) ,

 escrito em colaborao com A. N. Whitehead , e o mais popular , mas

 longe de fcil , Introduction to Mathematical Philosophy ( 1919 ) - tomou

 direo oposta , chegando a ponto de negar a realidade das classes .

 O passo crucial nessa direo foi dado por sua teoria das descries ,

 exposta em um trabalho intitulado " On Denoting " , publicado na revista

 Mind ( e reimpresso vrias vezes ) .
 Esse trabalho foi considerado por F .

 P. Ramsey ( 1903-30 ) , ele mesmo filsofo ilustre nessa rea , como um

 " paradigma da filosofia " .
 Afirma-se que essa teoria e a sua teoria dos

 tipos constituram suas grandes contribuies  filosofia .
 Mencionamos

 a teoria dos tipos quando discutimos a obra de Frege e no voltaremos

 a esse assunto .
 Ela tem algo em comum , considerada como teoria

 filosfica e no apenas como soluo para um problema tcnico , com as

 teorias de categorias de outros filsofos .

 O problema que levou  teoria das descries , foi a aparente

 possibilidade de referncia a entidades no-existentes .
 Isto era um

 problema especial para Russell , porque ele achava que o sentido de um

 termo  o que quer que seja a que ele se refere .
 Ele no aceitava , ou

 aparentemente nem entendia , a distino de Frege entre sentido e

 significado e tendia , quando discutia o trabalho de Frege , a

 reinterpretar a distino em seus prprios termos .
 H na sua opinio

 um problema particular no tocante s chamadas frases denotadoras , tais

 como " O atual rei de Frana " .
 No parece sem sentido dizer que " O

 atual rei de Frana  calvo " .
 Mas , se dissssemos que isso  falso ,

 poderamos ser interpretados como dizendo que o presente rei de Frana

 no  calvo , quando o ponto crucial  que no h nenhum presente rei

 de Frana .

 A soluo de Russell consistiu em dizer que a forma aparente de tal

 proposio no  o que ele chamou de sua forma lgica , e que , para

 compreender a proposio , precisamos analis-la de modo a que sua

 forma lgica correta seja revelada ( e com isto a idia da anlise

 lgica faz seu aparecimento ) .
 Essa forma lgica  tornada clara

 dizendo-se que " O presente rei de Frana  calvo " equivale a " H um x ,

 tal que x  agora rei de Frana , e para todos os y , se y  agora rei

 de Frana , y  idntico a x , e x  calvo " .
 Esta anlise torna

 explcita a assero da existncia de um presente rei de Frana , a

 excepcionalidade de tal indivduo , e o fato de possuir a propriedade

 de calvcie .
 Quando analisada , pode-se ver que a proposio  falsa ,

 embora no da maneira vista em sua forma no analisada .

 Na discusso de assunto semelhante no " Sobre Sentido e Significado " ,

 disse Frege que as proposies do tipo que vimos considerando

 pressupem a existncia de alguma coisa correspondente  frase

 denotadora , e que , se a pressuposio no for justificada , no surge a

 questo de sua verdade ou falsidade .
 Mas continuou e sugeriu que , como

 artifcio tcnico , podia-se tomar essas frases como se referindo a uma

 classe nula .
 A primeira sugesto era possvel , de acordo com a opinio

 de Frege , porque a proposio poderia ter um sentido sem ter um

 significado .
 Como adotava uma teoria diferente de sentido , Russell no

 podia aceitar essa soluo .
 Quando uma opinio semelhante  de Frege

 foi sugerida em 1950 por P. F. Strawson , com base em uma teoria que

 vinculava significado ao possvel uso das expresses , Russell reagiu

 com incompreenso , alegando que Strawson no compreendera o problema .

 No intervalo , contudo , a teoria das descries fora invocada em

 conexo com outras opinies e passou a ter outras explicaes .
 Em

 especial , insistiu Russell em que devia haver o que ele chamou de

 nomes logicamente corretos , expresses tais que seu significado 

 garantido , com objetos correspondentes s mesmas .
 Julgava-as

 necessrias porque o pensamento , da forma expressada na linguagem , no

 poderia , de outra forma , evidenciar qualquer firme apreenso da

 realidade .
 Nomes comuns no so assim e , em conseqncia , Russell

 dizia que eles so , na realidade , descries disfaradas .
 Os nicos

 nomes logicamente corretos so palavras como " aquele " , " aqui " e

 " agora " ( que no so nomes absolutamente , da forma como ordinariamente

 interpretados ) .
 Estas so " egocntricas " em seu uso , na medida em que

 pressupem o ponto de vista da pessoa que os usa .
 O Russell posterior

 deu grande importncia aos " particulares egocntricos " , ao passo que o

 primeiro considerava os dados sensoriais como primrios por causa de

 certas idias epistemolgicas .

 Essas opinies epistemolgicas mostravam a influncia dos empiristas

 britnicos .
 No Our Knowledge of the External World ( 1914 ) , argumentava

 que os objetos fsicos so , como disse , construes lgicas formadas

 de dados sensoriais reais e possveis ( chamando a estes ltimos de

 " sensibilia " ) .
 Dizer isso equivale a afirmar que proposies a

 respeito de objetos fsicos podem ser analisadas como proposies

 relativas a dados sensoriais reais e possveis .
 O motivo por trs da

 anlise , conforme revelado em alguns ensaios do seu Mysticism and

 Logic ( 1917 ) , era a aceitao por ele de uma mxima que constitua sua

 verso da navalha de Occam - que , em todos os casos possveis , as

 construes lgicas deviam ser substitudas por entidades inferidas .

 Em uma magistral introduo  filosofia , The Problems of Philosophy

 ( 1912 ) , Russell pensara nos objetos fsicos como entidades inferidas

 dos dados sensoriais .
 Seu empirismo nesse momento tornava isso

 condenvel .
  verdade que reteve essas inclinaes empiristas durante

 toda a vida , mas alimentava dvidas se o empirismo era sustentvel em

 todas as reas do conhecimento .
 As verdades matemticas no podem ser

 derivadas da experincia - elas so analticas - , mas isso  uma

 opinio comum  maioria das verses do empirismo do sculo XX , ao

 contrrio da de Mill .
 Russell alimentava dvidas maiores , porm , sobre

 os princpios subjacentes  induo e , no fim de sua vida filosfica ,

 no Human Knowledge ( 1948 ) , destacou-os como indicando os limites do

 empirismo .

 No obstante , o The Problems of Philosophy contm , de muitas maneiras ,

 o essencial da epistemologia russelliana .
 E faz isto , em especial , no

 captulo que trata da distino entre conhecimento por familiaridade

 ( contato direto ) e o conhecimento por descrio , ambos dizendo

 respeito a conhecimento de objetos , em contraste com conhecimento

 proposicional , ou " conhecimento que " .
 Supe Russell que temos

 conhecimento por familiaridade , certo e indubitvel , dos dados

 sensoriais , dos dados da memria , de ns mesmos , e de universais

 ( estes ltimos , talvez , uma relquia curiosa de seu platonismo

 anterior , e opinio que descartou mais tarde ) .
 William James em seu

 Principles havia estabelecido uma distino entre familiaridade e

 conhecimento sobre , e alegara que o primeiro objeto de familiaridade

 da criana  todo o universo , mesmo que ela nada saiba a seu respeito .

 Essa opinio no  to implausvel como pode parecer  primeira vista ,

 mas , de qualquer modo , no pressupe em todos os casos coisa alguma

 sobre a indubitabilidade da familiaridade pressuposta por Russell .
 Ao

 fazer alegaes neste sentido , Russell estava se colocando em clara

 oposio s idias de idealistas como Bradley , que negavam que a

 experincia sensorial proporcionasse qualquer coisa de carter

 imediato .

 Russell assumiu a opinio contrria , e assim fez a maioria dos

 empiristas do sculo XX , embora , s vezes , com apreenses .
 Mais

 importante , talvez , Russell estabeleceu como um axioma fundamental que

 toda proposio que podemos entender deve ser composta inteiramente de

 constituintes , ou componentes , com os quais estamos familiarizados .

 Por " proposio " ele no queria dizer nada parecido com uma orao ,

 mas o que ela poderia descrever como um possivelmente ( embora no

 necessariamente ) existente estado de coisas .
 Esse estado de coisas ,

 por conseguinte , deveria ou constar diretamente de objetos de

 familiaridade ou ser analisvel em termos dos que o constituem .
 Uma

 vez que os objetos de familiaridade incluem universais , 

 relativamente fcil compreender como tudo que se pode dizer pode ser

 tambm expressado inteiramente em termos de familiaridade com cada um ,

 de alguma maneira .
 Pouco antes da I Guerra Mundial , Russell entrara em

 contato com o jovem Wittgenstein , que o viera procurar para tratar com

 ele de problemas sobre a filosofia da matemtica .
 Wittgenstein j

 estava comeando a pensar dentro da orientao de princpios que viram

 a luz do dia no nico livro que publicou em vida , o Tractatus

 Logico-Philosophicus ( 1921 ) .
 A influncia foi mtua e , em 1918 ,

 Russell publicou alguns artigos na revista The Monist .
 Nesses artigos ,

 que se baseavam em notas de aula , ele sugeriu uma ontologia que

 consistia de particulares , a ser identificada com os dados sensoriais

 em relaes de variadas ordens de complexidade .

 Esses particulares e relaes concebem fatos de diferentes tipos , e as

 proposies - nesse momento tomadas como equivalentes a declaraes -

 relacionam-se com fatos , significando-os de maneira verdadeira ou

 falsa .
 Particulares , diz ele , so termos de relaes em fatos

 atmicos , e fatos complexos so construdos , por relaes lgicas , de

 fatos atmicos .
 Estes so problemas de negao e problemas ainda

 maiores de crena-declaraes , como entendia tambm Frege .
 Recorre ele

 s teorias da descrio e dos tipos para solucionar certos problemas e

 termina com uma seo intitulada " Excursus into Metaphysics : What

 There Is " ( " Dissertao sobre metafsica : O que h " ) , na qual levanta

 a questo do status dos dados sensoriais , que so os elementos da

 realidade .
 Tal como Hume , quer conceber as mentes e corpos como

 construes de dados sensoriais e , assim , prope que estes sejam

 concebidos como um neutro entre o mental e o fsico - a doutrina do

 monismo neutro que ele atribui a James e Mach .
 A nica dvida a

 respeito da aceitabilidade da teoria surge , em sua opinio , do caso

 recalcitrante das crenas .
 Isto porque estas parecem ser mentais , e

 crenas-declaraes , conforme vimos , no podem ser analisadas em

 outras proposies elementares .
 Russell especulou se no seria

 possvel dar uma explicao behaviorista das crenas , o que permitiria

 ento que fossem analisadas em termos de processos fsicos e , desta

 maneira , em termos de dados sensoriais .
 Aps a guerra , dirigiu-se para

 a Amrica , onde sofreu influncia de J. B. Watson , o criador do

 behaviorismo como teoria psicolgica .
 O seu livro seguinte a sair , The

 Analysis of Mind ( 1921 ) , obedientemente apresentou uma explicao

 behaviorista das crenas .

 Mas basta do que  um esboo muito resumido do que constitui , de

 muitas maneiras , o trabalho fundamental de Russell .
 O que escreveu

 depois nunca mais teve a mesma coerncia e status , mesmo que levemos

 em conta o The Analysis of Matter ( 1927 ) e o An Enquiry into Meaning

 and Truth ( 1940 ) .
 The Philosophy of Logical Atomism ( A filosofia do

 atomismo lgico )  leitura muito agradvel , salpicada de indcios do

 senso de humor travesso e um tanto formal de Russell .
 Um detalhe

 adicional deve ser notado a respeito da obra , por causa de sua

 importncia sobre as idias do Wittgenstein posterior .
 A despeito do

 que disse sobre o monismo neutro na sua ltima seo , diz tambm na

 segunda seo que os dados sensoriais so de tal ordem que constituem

 objetos diferentes da familiaridade ( contato direto ) para diferentes

 pessoas .
 So nesse sentido privados e Russell tira como conseqncia

 que as pessoas devem forosamente querer dizer coisas diferentes com o

 que dizem , uma vez que o significado de suas palavras , aquilo a que se

 referem ,  , em ltima anlise , esses dados sensoriais privados .
  a

 ambigidade da linguagem , diz ele ( embora , claro , no seja uma

 ambigidade comum ) que torna possvel o intercmbio pela palavra .

 Wittgenstein consideraria isto , com toda razo , como um reductio ad

 absurdum da tese que a linguagem pode adquirir seu significado dessa

 maneira .

 MOORE E OUTROS REALISTAS

 Coube a G. E. Moore ( 1873-1958 ) , mais do que a qualquer outro homem ,

 promover a mudana do idealismo para o realismo na Gr-Bretanha .
 Foi

 imensamente influente , embora agora esteja se tornando um pouco

 difcil saber por qu .
 H algo quase infantil nas atitudes filosficas

 de Moore .
 Perto do fim da vida , disse ele que pensava que os nicos

 problemas filosficos que o interessaram foram os sugeridos por coisas

 que outros filsofos haviam dito .
 Alegava tambm no ser muito afetado

 por consideraes cpticas .
 Na verdade , Moore pareceu constantemente

 interessado em nos lembrar de coisas que simplesmente lhe pareciam

 verdadeiras .
 Renunciou  opinio de que os objetos das crenas so

 proposies que acontece serem verdadeiras ou falsas , isto

 principalmente , disse no Some Main Problems of Philosophy ( palestras

 pronunciadas no perodo 1910-11 , mas s publicadas em 1913 ) , porque

 " no parece haver absolutamente proposies no sentido em que a teoria

 exige " .
 No " A Defense of Common-Sense " ( publicado na Contemporary

 British Philosophy , 2 .
 srie , 1925 ) , disps-se , como Reid , a defender

 o senso comum , apelando para o que lhe parecia sua bvia verdade .
 No

 " Proof of and External World " ( Proceedings of the British Academy ,

 1939 ) sugeriu , de uma maneira que alguns pensaram que era quase

 escandalosa , que podia provar a existncia do mundo externo levantando

 as mos e dizendo : " Aqui est uma mo " e " Aqui est a outra " .
 Era como

 se a verdade bvia fosse suficiente , sem necessidade de responder a

 outros argumentos filosficos em sentido contrrio .

 A preocupao central de Moore era a anlise do que entendemos por

 essas coisas , embora ele negasse que a filosofia fosse apenas anlise .

 Na sua opinio , os conceitos  que requerem anlise e a anlise deles

 consiste em produzir outros conceitos que , juntos , equivalem ao

 conceito a ser analisado , mas que no so explicitamente mencionados

 na enunciao do conceito inicial .
 Mas ele nunca se sentiu realmente

 feliz com essa explicao e disse que ela dava origem a um paradoxo de

 anlise .
 Se , por exemplo , analisamos o conceito de irmo em termos do

 conceito de parente masculino , as duas expresses , " irmo " e " parente

 masculino " , devem significar a mesma coisa , embora as proposies " Um

 irmo  um parente masculino " e " Um parente masculino  um parente

 masculino " no sejam a mesma coisa .
 O problema lembra , embora no seja

 o mesmo , o de Frege com a estrela matutina e a vespertina .
 No  o

 mesmo porque Frege no estava preocupado com a idia de que uma

 anlise estava sendo feita ao dizer-se que a estrela matutina  a

 estrela vespertina .
 Se h aqui um autntico problema , ele est na

 noo da prpria anlise .
 A idia de anlise de conceitos implica que

 estes podem ser decompostos em outros , da maneira como compostos

 qumicos podem ser decompostos em elementos .
 Essa concepo 

 duvidosa .
 A explicao de um conceito pode ser dada por uma grande

 variedade de maneiras , mas certamente no h uma nica maneira que

 seja sua anlise .

 Ainda assim , durante toda a vida Moore apegou-se a essa viso de

 filosofia .
 Os ataques que desfechou no incio de sua carreira no

 Principia Ethica ( 1903 ) a tentativas , como a de Mill , de explicar o

 bem em termos da produo de prazer ou felicidade , repousava na

 opinio de que o bem no  analisvel .
 Moore pensava tambm que a

 anlise do que queremos dizer , quando falamos em perceber o mundo

 externo , devia ser feita em termos da ocorrncia de dados sensoriais ,

 embora permanecesse confuso se estes eram ou no partes da

 exterioridade dos objetos fsicos .
 Moore no adotou a noo de dados

 dos sentidos , como fez Russell , porque eles eram indubitavelmente

 objetos de conhecimento por familiaridade ( contato direto ) , embora , ao

 apresentar a noo desses dados no Some Main Problems , falasse neles

 como aquilo que apreendemos diretamente .
 No recorreu a eles , contudo ,

 para provar as fundaes do conhecimento .
 Simplesmente pensava que

 teramos que invoc-los se quisssemos analisar o que queremos dizer

 ao falar na percepo do mundo .

 Dado tudo isso , talvez parea surpreendente que tivesse exercido tanta

 influncia .
 Esta se originou de duas maneiras : de sua mudana para o

 realismo e de sua concepo de tica .
 Nos ltimos anos do sculo XIX ,

 escreveu trabalhos manifestando sua insatisfao com a extenso em que

 Bradley se libertara do psicologismo no tocante s noes de idia e

 juzo .
 Pensava que Bradley no deixara suficientemente claro que as

 questes no eram sobre o que acontece na mente do indivduo , mas

 sobre o que essas idias e juzos significam .
 O que sabemos e

 acreditamos , disse Moore , so proposies e estas envolvem conceitos -

 todos eles independentes do que qualquer pessoa em particular pense .

 J dissemos que , mais tarde , Moore abandonou essa idia de

 proposies , mas no renunciou  crena em uma realidade independente

 da mente .
 Alm do mais , no " A Refutation of Idealism " ( 1903 , includo

 em seu Philosophical Studies , 1922 ) , atacou o idealismo berkeleiano e

 a proposio de que ser  ser percebido , insistindo em que h uma

 distino a ser feita entre , por exemplo , o amarelo e uma sensao de

 amarelo .
 Todas as sensaes so formas de conscincia , mas no devemos

 confundir esta conscincia com seus objetos , que podem ser diferentes .

 Ter uma sensao de vermelho  perceber alguma coisa vermelha e a

 percepo  diferente da condio de vermelho .
 Grande parte dessa

 refutao do idealismo , com a qual mais tarde demonstrou insatisfao ,

 constitui um apelo a algo que estamos sendo chamados a reconhecer como

 obviamente verdadeiro .
 No  uma refutao de argumentos idealistas .

 Muito da mesma coisa pode ser dito a respeito do Principia Ethica .

 Nessa obra , diz Moore que o fim da tica  indagar da natureza do bem .

 Sustenta que o " bem "  uma qualidade simples , no-analisvel ,

 no-natural , e afirma que os filsofos que tentaram analis-lo em

 termos de prazer ou alguma qualidade natural desse tipo cometeram o

 que chama de " falcia naturalista " .
 Moore no  inteiramente claro no

 que entende como " no-natural " , exceto que uma propriedade ( ou

 atributo ) no-natural no deve ser identificado com quaisquer

 propriedades que objetos tenham na natureza das coisas .
 Acredita que o

 " bem "  simples porque h uma analogia entre ele e " amarelo " : no pode

 ser decomposto em outras propriedades , mais simples , nas quais deveria

 ser analisado .
 A tentativa de definir o " bem " em termos naturais  ,

 assim , uma falcia e o mesmo se aplica a supostas definies do " bem "

 em quaisquer outros termos .
 Se definimos " bem " como " x " sempre

 permanece aberta a questo se x  um bem .

 Acusa os filsofos que tentam definir o " bem " como querendo coisas

 incompatveis .
 Querem recomendar " x " como o bem , mas tambm dizer que

 " x "  tudo que " bem " significa .
 Essa acusao cabe apenas , contudo , se

 os adversrios de Moore querem realmente sustentar simultaneamente que

 " x "  um bem sinttico e tambm analtico. ( Moore sugere que isso

 acontecia com Mill , mas est longe de ser claro que tenha sido assim. )

 De outra maneira , como outros filsofos tentaram demonstrar , a falcia

 naturalista seria simplesmente um caso do que foi chamado de a

 " falcia definicional " .
 Diz Moore que se definimos o bem como prazer ,

 ento , ao dizer que o prazer  um bem estamos dizendo apenas que

 prazer  prazer .
 Mas ser o caso que , se definimos um irmo como um

 parente masculino , estaremos , ao dizer que um irmo  um parente

 masculino , dizendo apenas que um parente masculino  um parente

 masculino ?
 Surgem aqui os problemas envolvidos nos paradoxos da

 anlise .

 Outros filsofos deram diagnsticos diferentes do motivo porque o

 " bem " no pode ser definido em termos naturalsticos - como , por

 exemplo , que isto omitir o elemento avaliativo em " bem " .
 A descrio

 de " bem " de Moore , como uma simples propriedade no-analisvel , deixa

 em grande obscuridade por que algum deve agir de acordo com o juzo

 de que alguma coisa  um " bem " .
 Embora essa parte da filosofia moral

 de Moore tenha obtido alguma fama na poca , sua reputao caiu muito .

 Por sorte , ele disse outras coisas no Principia Ethica e em um livro

 posterior , menor , Ethics ( 1912 ) .
 Deu uma verso da correo de atos em

 termos da produo , por eles , do maior saldo do bem sobre o mal e foi ,

 nesse aspecto , um " utilitarista idealista " .
 Afirmou que o estado de

 bem ou mal de um todo no precisa ser uma funo do bem ou do mal das

 partes , havendo o que ele chamou de " todos orgnicos " .
 Alegou tambm

 que o maior bem intrnseco deste tipo envolve o prazer esttico e as

 relaes pessoais .
 Esta opinio foi muito bem recebida e adotada como

 princpio orientador pelo denominado Grupo de Bloomsbury , que ,

 originando-se da sociedade de Cambridge conhecida como " The Apostles "

 ( " Os Apstolos " ) , aceitou Moore como seu mentor e alto sacerdote .
 No

 Ethics , ele discutiu ainda os problemas do livre-arbtrio em termos da

 questo de se , ou no , podemos fazer aquilo que desejamos .
 Mas

 manifestou incerteza se isso era suficiente para o livre-arbtrio ou

 se no devamos perguntar tambm se podemos escolher .
 Grande parte

 dessa discusso ,  parte a incerteza final , tem um paralelismo na de

 Schopenhauer , embora seja duvidoso que Moore soubesse disso .

 Moore influenciou mais aqueles com quem manteve contato , incluindo

 Russell e Wittgenstein .
 At certo ponto , isso deve ter acontecido

 porque ele estava sempre mais do que pronto para descobrir problemas .

 Sem falar nessas influncias ,  duvidoso se , no longo prazo , sua

 reputao continuar .
 As influncias , no entanto , esto alm de

 qualquer dvida .

  conveniente , a esta altura , iniciar o que , do ponto de vista da

 filosofia analtica ,  uma digresso e estudar dois filsofos que

 procuraram criar sistemas de metafsica segundo uma tradio

 no-idealista .
 Temos , em primeiro lugar , Samuel Alexander ( 1859-1938 ) ,

 cujo Space , Time and Deity ( 1920 ) gozou de alguma reputao nos seus

 dias , mas que provavelmente hoje quase no se l .
 Alegou ele que a

 filosofia deve ser descritiva e , em certo ponto , disse mesmo que

 antipatizava com argumentos .
 Alexander foi influenciado pela biologia

 e pela psicologia experimental , mas , ao dar importncia no seu livro 

 noo de espao-tempo , afirmou que chegara s suas concluses

 independentemente da fsica einsteiniana .
 Sua filosofia adota uma

 doutrina de evoluo emergente .
 O espao-tempo  o substrato do qual

 emergem a matria e as coisas , em seguida as coisas vivas e a mente ,

 estgio em que surge a conscincia dos objetos , de certo ponto de

 vista , sendo a conscincia em si algo desfrutado , no contemplado .
 A

 divindade constitui a fase seguinte no processo e as coisas tendem

 para ela .
  parte as dificuldades de entender o que Alexander tinha em

 mente ao dizer isso , no  uma opinio que muitos achariam hoje

 interessante .

 A. N. Whitehead ( 1861-1947 ) , o segundo dos dois filsofos que julgamos

 pertinente mencionar , tampouco  muito lido na Gr-Bretanha , embora ,

 na Amrica do Norte , a " filosofia de processo " , como  chamada , goze

 de certa voga em alguns crculos .
 Whitehead comeou sua carreira como

 matemtico e colaborou com Russell no Principia Mathematica , mas

 subseqentemente afastou-se dele .
 Escreveu certo nmero de livros ,

 incluindo The Principles of Natural Knowledge ( 1919 ) e The Concept of

 Nature ( 1920 ) , em que tentou criar uma nova filosofia da natureza , da

 qual seria derivada a teoria da relatividade .
 Deu grande nfase 

 relao entre as coisas e se ops a toda e qualquer forma de atomismo ,

 mesmo o do tipo russelliano. Seres humanos so organismos naturais ,

 relacionados organicamente com o mundo em que vivem , e percepo  o

 que ele denomina de " preenso " de uma parte do ambiente com que o

 perceptor se relaciona .
 Levou esta idia mais adiante e tendeu a

 pensar em outras relaes entre coisas , nos mesmos termos .
 Da o que

 denominou de a " filosofia do organismo " .
 Achava que se seguia que as

 noes exatas da matemtica , especialmente as de ponto ou instante ,

 no tm lugar em nossa experincia , por mais que sejam necessrias nas

 cincias .
 Devem , apesar disso , ser definidas em relao  experincia

 pelo que chamou de mtodo da " abstrao extensiva " - ou

 aproximadamente o inverso da construo lgica .

 Talvez a mais importante das idias de Whitehead neste particular seja

 sua noo de eventos .
 Eventos tm durao e , assim , no ocorrem em um

 instante .
 Whitehead pensava que eles eram , por assim dizer , o

 substrato do qual era formada a natureza .
 Eles so particulares e ,

 como acontecia com Bergson , embora talvez por razes diferentes ,

 nicos .
 Os " objetos " esto em relao aos eventos em mais ou menos a

 mesma relao que as Formas platnicas estavam com o fluxo do mundo

 sensvel .
 Constituem os aspectos permanentes da natureza e a relao

 entre eles e eventos  descrita por Whitehead ao dizer que so

 " ingredientes que se transformam em eventos " .
 A localizao de um

 " objeto " estende-se indefinidamente por sua vizinhana na medida em

 que os eventos em questo se relacionam com outros .
 Isto traz  baila

 a idia de um sistema e , em seus ltimos trabalhos , ele disse

 explicitamente que seu objetivo era dar uma base realista a algumas

 das doutrinas dos realistas absolutos .
 Eventos ou processos , no

 obstante , formam a substncia do sistema .
 Da a noo de " filosofia de

 processo " .

 Whitehead e Alexander sentiam admirao recproca e ambos tendiam a

 apresentar suas vises das coisas como algo que o leitor era chamado a

 aceitar , ou pelo menos a considerar como uma descrio possvel do

 mundo .
 Whitehead mudou-se de Cambridge para Londres em 1910 e

 tornou-se professor de matemtica aplicada no Imperial College ,

 Londres , em 1914 .
 Em 1924 , porm ,  idade de 63 anos , aceitou o cargo

 de professor de filosofia em Harvard , onde permaneceu pelo resto da

 vida , aposentando-se oficialmente em 1937 .
 Entre os livros que

 escreveu na Amrica , o Science and the Modern World ( 1925 ) e o

 Adventures of Ideas ( 1933 ) tiveram alguma circulao e popularidade ,

 embora sua principal obra do perodo , Process and Reality ( 1929 ) , que

 seus admiradores consideram com a obra de Whitehead , foi julgada por

 no-admiradores como totalmente impenetrvel .

 No h dvida de que precisamos de um grande reajustamento de nossas

 categorias habituais para compreender Whitehead .
 At mesmo o que

 dissemos antes sobre a relao entre eventos e objetos exige uma

 considervel mudana do pensamento , das tradicionais maneiras de

 pensar .
 Os " objetos " no devem ser interpretados como substncias .
 So

 os aspectos persistentes que se juntam em um evento , dando origem

 dessa maneira  idia de coisas substanciais persistentes , de maneira

 muito parecida como , segundo Plato , o fluxo do mundo sensvel ganha

 ordem e quase-permanncia ao ser colocado sob as Formas .
 Whitehead 

 de fato o responsvel pela observao de que a histria da filosofia

 constitui um conjunto de notas de rodap a Plato .
 Isto no 

 realmente verdadeiro , mas h maneiras em que sua prpria filosofia 

 justamente isso .

 A despeito de alguns idealistas recalcitrantes , como H. Joachim

 ( 1868-1938 ) na Gr-Bretanha , e Brand Blanshard ( nascido em 1892 ) nos

 Estados Unidos , o realismo , sob uma forma ou outra , foi a filosofia

 dominante no perodo at a II Guerra Mundial .
 Houve os chamados

 " neo-realistas " , particularmente R. B. Perry e E. B. Holt , nos Estados

 Unidos .
 E tambm C. D. Broad na Inglaterra , em Cambridge , e J. Cook

 Wilson , H. A. Prichard e H. H. Price , em Oxford .
 Pouco tiveram eles em

 comum , exceto a oposio ao idealismo .
 Prichard ( 1871-1947 )  o mais

 lembrado por uma transposio das opinies de Moore sobre o " bem " para

 o " deve moral " e o " dever " , sustentando que conhecemos por intuio os

 princpios que prescrevem o que moralmente devemos fazer , e que

 qualquer opinio em sentido contrrio provavelmente confundiria

 moralidade com convenincia .
 Essa opinio foi desenvolvida de forma

 modificada por W. D. Ross ( 1877-1971 ) , um ilustre erudito australiano ,

 que argumentou que os princpios morais prescrevem o que ele chamou de

 obrigaes prima facie - que se mantm , permanecendo iguais outras

 circunstncias - de modo que temos que decidir entre eles para chegar

 ao que  certo no todo .

 Lanando um olhar retrospectivo para esse perodo , de nossa atual

 posio ,  hoje possvel concluir que as contribuies mais

 importantes para a filosofia do tipo mais ou menos analtico foram

 dadas por Wittgenstein .
 A fim de estudarmos sua filosofia , no entanto ,

 torna-se necessrio distinguir entre o Wittgenstein dos primeiros

 tempos e o da ltima fase .
 Entre estudos sobre esses dois , diremos

 alguma coisa sobre o movimento dos positivistas lgicos , que ,

 corretamente ou no , tiraram parte de sua inspirao da filosofia mais

 antiga de Wittgenstein .

 O WITTGENSTEIN DO TRACTATUS

 Ludwig Wittgenstein ( 1889-1951 ) foi um austraco de famlia ilustre

 que finalmente se naturalizou cidado britnico .
 Estudou inicialmente

 engenharia aeronutica e chegou  Gr-Bretanha em 1908 nessa

 qualidade .
 Estava , contudo , interessado nos fundamentos da matemtica

 e , em 1911 , Frege aconselhou-o a procurar Russell , o que fez , mantendo

 tambm contatos com Moore .
 Durante a I Guerra Mundial , serviu no

 exrcito austraco e foi feito prisioneiro , em 1918 , na frente

 italiana .
 Da Itlia enviou a Russell seu Logisch-Philosophische

 Abhandlung .
 Publicado em uma revista em 1921 , a obra foi novamente

 publicada na Gr-Bretanha sob o ttulo Tractatus Logico-Philosophicus ,

 com uma traduo inglesa paralela de C. K. Ogden em 1922 .
 E

 retraduzido por D. F. Pears e B. F. H. McGuinness em 1961 .

 Aps a guerra , ele iniciou uma vida de mestre-escola em uma aldeia

 austraca , adotando um estilo asctico de vida e renunciando 

 filosofia .
 Membros do denominado Crculo de Viena dos Positivistas

 Lgicos , porm , vinham consult-lo e ele , finalmente , resolveu que

 havia mais filosofia a estudar e voltou a Cambridge em 1929 .
 Ensinou

 a a um grupo mais ou menos exclusivo de seguidores , tornando-se

 professor de filosofia em substituio a Moore em 1939 .
 Passou a maior

 parte da II Guerra Mundial , contudo , como enfermeiro em um hospital e ,

 quando voltou a Cambridge , chegou  concluso de que no gostava dessa

 vida e renunciou  ctedra em 1947 .
 Passou algum tempo na Irlanda ,

 descobriu que sofria de cncer e faleceu em Cambridge em 1951 .
 Durante

 a maior parte da vida , anotou observaes e , s vezes , peas mais

 discursivas , grande parte das quais foram publicadas desde sua morte .

 Mas ,  parte o Tractatus , o nico livro que julgou publicvel foi o

 Philosophical Investigations , cuja primeira parte , de qualquer modo ,

 estava mais ou menos completa quando ele faleceu .
 Toda ela foi

 publicada em 1953 em alemo , com uma traduo inglesa paralela de G .

 E. M. Anscombe .

 Tem havido muita discusso a respeito dos antecedentes das concepes

 filosficas de Wittgenstein .
 As influncias de Moore e Russell so

 evidentes .
 Conheceu Frege e outros pensadores alemes , mas no

 reconheceu que possua muitos outros conhecimentos da filosofia

 tradicional .
 A prova contida em seus cadernos de anotaes revela que

 ele lera Schopenhauer e alguma coisa de William James .
 Mas pode muito

 bem ter conhecido mais .
 O Tractatus mostra algo em comum com o

 pensamento atomista lgico de Russell , mas no sugere os mesmos

 interesses epistemolgicos .
  uma obra fascinante mas crtica , escrita

 sob a forma de proposies numeradas .
 H sete proposies prefixadas

 por nmeros inteiros , as demais sendo antecedidas de nmeros com casas

 decimais acrescidas , estas dando supostamente alguma idia da

 importncia da proposio em relao quelas do mesmo grupamento

 numerado .

 Alguma idia do contedo do trabalho pode ser dada por referncia s

 proposies prefixadas por nmeros inteiros .
 A primeira diz que o

 mundo  tudo o que  .
 A segunda , que aquilo que  , isto  , um fato , 

 a existncia de estados de coisas .
 A terceira , que  precedida de

 observaes sobre a descrio de fatos , diz que uma descrio lgica

 de fatos  um pensamento .
 A quarta afirma que um pensamento  uma

 proposio com sentido .
 A quinta , que as proposies so funes da

 verdade de proposies elementares , que so em si funes da verdade .

 A sexta d o que passa por ser a forma geral de uma proposio ,

 atravs da formulao de uma operao geral que extrair funes de

 verdade de outras proposies .
 Finalmente , a stima , depois de algumas

 observaes sobre a impossibilidade de elas serem proposies de tica

 e esttica , e outras observaes sobre morte , vida e misticismo , diz :

 " Aquilo de que no podemos falar devemos consignar ao silncio " .
 A

 observao prvia reconhece que , segundo seus prprios critrios ,

 todas as proposies anteriores so absurdas e devem ser usadas

 meramente como degraus para subir alm delas .

  impossvel analisar todas as complexidades do Tractatus .
 A ltima

 proposio implica , e as observaes precedentes deixam isso claro ,

 que aquilo que pode ser pensado pode ser dito .
 Da , se a metafsica 

 a tentativa de mostrar a natureza da realidade como ela se revela ao

 pensamento , a chave para isso , na opinio de Wittgenstein , est na

 linguagem .
 Por isso a nfase nesse ponto nas primeiras partes do

 trabalho .
 A funo principal da linguagem  afirmar o que  o caso , de

 modo que  este ltimo que constitui o mundo , ou realidade .
 O que  o

 caso compreende , no fundo , certo nmero de estados de coisas simples ,

 que so constitudos de objetos simples e estes so representados por

 proposies elementares .
 A maneira como isto  feito ( e Wittgenstein

 pensava que esta era a sua descoberta )  com as proposies sendo , em

 certo sentido , descries de estados de coisas .
 Os constituintes das

 proposies so nomes que se referem a objetos , e a maneira como os

 nomes so reunidos em uma proposio  , de certo modo , um reflexo da

 maneira como os objetos se juntam em um estado de coisas .
 Esta  a

 denominada teoria descritiva do significado .
 As proposies ,

 interpretadas dessa maneira , como representando possveis estados de

 coisas , so verdadeiras se representam fatos reais e falsas em caso

 contrrio .
 Mas porque h a possibilidade de que representem estados de

 coisas , possuem um sentido que  independente dos fatos como eles

 realmente so .

 Em tudo isso , Wittgenstein est , na verdade , dizendo que os nomes , os

 constituintes das proposies , tm um significado  maneira fregeana ,

 mas no tm sentido .
 Proposies tm sentido mas no significado 

 maneira que Frege supunha .
 No obstante ,  uma condio para que as

 proposies e , portanto , a linguagem , tenham sentido que deva haver

 objetos simples para os quais elas possam ser os nomes .
 Deve haver ,

 por outro lado , proposies elementares , que consistem simplesmente de

 nomes concatenados , e que no esto em qualquer relao lgica com

 quaisquer outras proposies elementares .
 Proposies complexas , por

 outro lado , so construdas de proposies elementares mediante uma

 operao lgica nica , e  evidente que , se assim  , todas as

 proposies complexas devem ser funes de verdade de proposies

 elementares .
 Quer isto dizer que sua verdade ou falsidade deve ser uma

 funo da verdade ou falsidade das proposies das quais so

 derivadas , e delas apenas .
 Casos extremos disto so fornecidos por

 tautologias e contradies que so , respectivamente , verdadeiras e

 falsas , pouco importando quais sejam as verdades-valores de suas

 subproposies .
 Essas proposies nada dizem porque no descrevem

 qualquer estado de coisas distintivo .
 So , assim , sem sentido , embora

 no sejam absurdas .

 Na introduo ao Tractatus , disse Russell que Wittgenstein estava

 tentando expor as condies de uma linguagem ideal .
 Isto no 

 verdade .
 Wittgenstein pensou que a linguagem devia realmente ser assim

 em sua forma analisada ; tinha que ser ou no teria sentido .
 Que ela

 no  assim  claro  vista da linguagem comum , porque a complexidade

 desta ltima serve para disfarar o fato .
 O objeto da filosofia 

 esclarecer nosso pensamento atravs da elucidao das proposies .

 Essa elucidao , pensa Wittgenstein , revela que as proposies da

 lgica e da matemtica so tautologias , que o solipsismo  em certo

 sentido verdadeiro , embora coincidente com o realismo , e que a

 metafsica , incluindo todas as proposies do prprio Tractatus ,

 juntamente com a tica e a esttica , no solapam sua importncia .

 Temos , como indicam as ltimas poucas proposies da obra , que

 us-las , para ver o mundo corretamente , reconhecendo o que no pode

 ser dito .

 H muito mais no Tractatus do que indicamos e no tentamos esclarecer

 exatamente por que Wittgenstein diz muitas daquelas coisas .
 Trata-se

 de um trabalho extraordinariamente compacto e , se o leitor quer

 compreend-lo absolutamente , deve l-lo e rel-lo com ajuda dos

 comentrios ora disponveis .
 Na dcada de 1920 , Wittgenstein tornou-se

 insatisfeito consigo mesmo .
 Ficou infeliz com a concepo de linguagem

 como algo semelhante ao clculo lgico e com a idia de que h nomes

 que adquirem seu significado por correlao direta com objetos

 simples .
  matria de debate quanto do Tractatus permaneceu neste

 ltimo pensamento .
 Pensou-se antes que ele desistiu de tudo , mas essa

 tese  hoje amide contestada .
 Mas com certeza muitos dos problemas

 que geraram o Tractatus permaneceram com ele .

 O POSITIVISMO LGICO

 J dissemos que , ao tempo em que trabalhava como mestre-escola ,

 Wittgenstein foi visitado por um grupo de filsofos que a si mesmos se

 denominavam como o Crculo de Viena .
 Foram liderados por Moritz

 Schlick ( 1882-1936 ) , que teve a distino , que esperamos seja muito

 rara , de ter sido assassinado por um aluno .
 Entre os membros do grupo

 contavam-se Otto Neurath ( 1882-1945 ) , Friedrich Waismann ( 1896-1959 ) e

 Rudolf Carnap ( 1891-1970 ) , embora inicialmente fossem 14 ao todo .

 Publicaram eles um manifesto sobre seus objetivos , mas houve outros em

 outros pases , incluindo Hans Reichenbach ( 1891-1953 ) e Carl Hempel

 ( nascido em 1905 ) , que simpatizavam com suas idias .
 Na Gr-Bretanha ,

 A. J. Ayer ( 1910-89 ) foi mais tarde o representante do movimento .
 O

 Crculo rompeu-se quando a ustria foi invadida em 1938 e muitos dos

 filsofos e ilustres matemticos e cientistas ligados ao Crculo

 procuraram refgio em outros pases .
 Muitos deles emigraram para os

 Estados Unidos e , sem dvida , influenciaram o curso da filosofia nesse

 pas .
 Isto ocorreu especialmente no caso de Carnap .

 Muitos dos membros do Crculo foram inicialmente cientistas e sua

 inspirao retroagia em grande parte a Mach .
 Foram em geral

 antimetafsicos .
 Diz o nmero 4.024 do Tractatus que compreender uma

 proposio significa saber o que  , se  verdadeira .
 Isto no diz que

 compreender uma proposio  saber o que a confirmaria , mas se

 aproxima muito .
 O Crculo de Viena dizia que o significado de uma

 proposio era seu mtodo de verificao .
 Pelo menos foi isso o que

 Schlick alegou e que est implcito nas afirmaes dos demais .
 A

 histria do positivismo lgico  principalmente uma histria dos

 argumentos sobre o que ele significa .
 Mas eles concordavam em que

 todas as proposies significativas devem ser ou logicamente

 necessrias ( isto  , analticas ) , ou verificveis de alguma maneira

 mediante referncia  experincia .
 Proposies reprovadas nesse teste

 devem ser consideradas como sem sentido - e com isto vai para o lixo

 toda a metafsica .
 A cincia , por outro lado , tinha que ser preservada

 e grande parte do debate , ou certamente o que surgiu do Language ,

 Truth and Logic ( 1936 ) , de Ayer , dizia respeito a encontrar uma verso

 do princpio de verificabilidade que exclusse a metafsica , mas no a

 cincia e tudo mais que quisessem salvar .
 A discusso sobre esse

 assunto demonstrou que  difcil atingir esse objetivo , se no

 impossvel .
 De qualquer modo , uma objeo bastante simples  que temos

 que entender uma proposio antes que possamos decidir como deve ser

 verificada .
 Isso afetaria o slogan positivista original , mas poderia

 ser sustentado que afeta apenas indiretamente a alegao de que apenas

 proposies logicamente verdadeiras ou empiricamente verificveis so

 significativas .
 Qual , contudo ,  o status do prprio princpio de

 verificabilidade ?

 Questes como estas foram discutidas quase ad nauseam durante o auge

 do positivismo lgico .
  claro , contudo , que se proposies empricas

 devem ser verificadas por referncia  experincia , alguma descrio

 deve ser dada da prpria experincia e da alegao que ela pode

 implicar diretamente , a verificao dos enunciados que a descrevem .

 Haver proposies que so diretamente verificveis mediante

 referncia  experincia e sem referncia a nada mais ?
 Isto coloca

 todas as questes tradicionais sobre o imediatismo .
 No movimento

 positivista , a questo foi geralmente equacionada na forma de se havia

 ou no quaisquer proposies bsicas ou evidentes por si mesmas , sobre

 as quais todas as outras proposies pudessem se basear e , se assim ,

 qual a sua natureza .
 Na filosofia de Ayer dos primeiros tempos , isto

 equivalia  questo de se h proposies sobre a experincia imediata ,

 sobre dados dos sentidos , que so incorrigveis porque so

 verificveis por referncia direta apenas  experincia .
 O prprio

 Ayer vacilou sobre esse ponto e , na verdade , sobre outras questes

 envolvidas no positivismo .

 Houve outros problemas .
 Schlick pensou que , no fim , ter-se-ia que

 comparar as proposies diretamente com a experincia , mas que aquilo

 que estava sendo verificado na comparao no podia ser posto em

 palavras .
 Neurath rejeitou essa idia , afirmando que s se podem

 comparar declaraes com outras .
 Portanto a aceitabilidade de qualquer

 proposio emprica , seja bsica ou no ,  uma questo de se ela se

 ajusta ou no ao sistema de proposies .
 Neurath , dessa maneira ,

 aceitava uma teoria de coerncia da verdade e uma noo de sistema que

 se assemelham mais s dos idealistas .
 Isto no agradou a todos os

 membros do grupo , embora Carnap fosse empurrado finalmente na mesma

 direo .

 A primeira obra filosfica importante de Carnap , Der Logische Aufbau

 der Welt ( The Logical Construction of the World , 1928 - A construo

 lgica do mundo ) , constituiu um esforo para demonstrar que todo o

 aparato necessrio para descrever o mundo podia ser construdo de

 forma lgica , a partir de uma srie de experincias compreendendo as

 experincias de uma pessoa num dado momento .
 A base era , assim , em

 certo sentido , solipsista , e Carnap chamou-a de " solipsismo

 metodolgico " sobre o fundamento que esse ponto de partida era o

 escolhido como epistemologicamente bsico para o exerccio .
 Mais

 tarde , abandonou-o em favor do fisicalismo .
 Em um trabalho posterior ,

 Logische Syntax der Sprache ( 1934 ; traduo inglesa , The Logical

 Syntax of Language , 1937 - A sintaxe lgica da linguagem ) , um trabalho

 imensamente difcil e tcnico , ele se props a demonstrar que o que

 pode ser dito pela linguagem , incluindo a linguagem da cincia , pode

 ser dito de certa maneira dentro dessa linguagem .
 Uma linguagem 

 inteiramente especificvel em termos de suas regras de formao e

 transformao .
 O primeiro conjunto de regras prescreve o que conta

 como uma orao correta da linguagem , o segundo como uma orao pode

 ser derivada de outra .
 No h necessidade de regras semnticas em

 acrscimo a essas , de modo que a semntica  reduzida  sintaxe

 ( assunto sobre o qual Carnap posteriormente mudou de idia ) .
 Pode

 haver sistemas alternativos de linguagem e a escolha entre eles  um

 assunto do que ele chama de princpio de tolerncia .
 Evidentemente , a

 coerncia  um dos critrios para distinguir entre sistemas .
 Alm

 disso ,  uma questo do que cientistas venham a aceitar .

 Carnap mudou de idia sobre esse assunto por causa do trabalho de

 Tarski sobre a definio da verdade .
 Alfred Tarski ( 1902-83 ) era um

 ilustre membro de um grupo de lgicos poloneses .
 Seu trabalho ,

 traduzido sob o ttulo de " The Concept of Truth in Formalized

 Languages " ( " O conceito de verdade em linguagens formalizadas " ) foi

 escrito em 1933 e tornou-se conhecido em fins daquela dcada .
 Exerceu

 uma influncia imensa sobre filsofos interessados em lgica e em

 filosofia da linguagem .
 Por falta de espao ,  impossvel entrar em

 detalhes sobre esse trabalho .
  suficiente dizer que tornava

 necessria uma distino entre objeto-linguagem e meta-linguagem , na

 qual declaraes sobre a primeira podem ser feitas , incluindo a de que

 aquilo que  dito na objeto-linguagem  verdadeiro .

 Tarski , na verdade , referiu-se a oraes , e no a declaraes , mas a

 parte mais importante de sua teoria , que afirmou ser uma verso da

 teoria de correspondncia da verdade , era o que chamou de " Conveno

 7 " .
 Esta estabelecia as condies para a adequao de uma definio de

 verdade - no sentido em que devia ter como conseqncias todas as

 equivalncias da forma " X  verdadeiro se e apenas se p " , onde X  uma

 orao na objeto-linguagem e y  sua traduo em meta-linguagem .

 Tarski achou que era possvel satisfazer essas condies apenas numa

 linguagem formalizada .
 Mais recentemente , Donald Davidson ( nascido em

 1917 ) argumentou que se pode usar a Conveno 7 em relao s

 linguagens comuns , a fim de se formular uma teoria de significado para

 elas .
 No momento , essa alegao  apenas programtica e h

 considervel dvida se o programa pode ser executado .

 A teoria de verdade de Tarski tem sido chamada de teoria semntica

 porque relaciona a verdade ao significado de relaes que existem

 entre oraes na meta-linguagem e oraes na objeto-linguagem. Carnap

 aproveitou essa idia , e sua obra posterior diz respeito 

 formalizao da semntica .
 O aparato terico para isso , como , por

 exemplo no Meaning and Necessity ( 1947 ) implicou algo como uma volta a

 Frege e  distino entre sentido e significado .
 Ao fim da vida , no

 mesmo esprito , Carnap abordou a teoria da probabilidade .
 Sempre

 manteve , contudo , a distino entre verdade lgica e factual , e isto

 provocou ataques de W. V. Quine ( nascido em 1908 ) , que mencionamos ao

 fim do ltimo captulo .
 O ataque de Quine  distino analtica ,

 sinttica em um trabalho intitulado " Two Dogmas of Empiricism " ( " Dois

 dogmas do empirismo " , includo no seu From a Logical Point of View ,

 1953 ) , e em parte influenciado pelo pragmatismo , exerceu imensa

 influncia nos Estados Unidos , mas teve muito menos aceitao na

 Gr-Bretanha .
 Mais tarde , estudaremos rapidamente a obra de Quine .

 Outro filsofo que tem sido vinculado ao positivismo lgico , embora

 sempre tenha repudiado veementemente essa categorizao ,  Karl Popper

 ( 1902-94 ) .
 Popper nunca adotou uma teoria de significado do tipo

 positivista , Mas , de fato , quis separar cincia de metafsica , sem

 necessariamente descartar a ltima .
 No seu Logik der Forschung ( 1934 ,

 traduzido para o ingls como The Logic of Scientific Discovery , 1959 -

 A lgica da descoberta cientfica ) , enfatizou a noo de

 falsificabilidade , alegando que  o risco de falsificao que destaca

 o cientfico .
 O procedimento cientfico no  indutivo , e envolve

 propor as hipteses mais ousadas e tentar falsific-las .
 Se a hiptese

 sobrevive  falsificao , ela  por isso confirmada , embora

 confirmao seja sempre questo de grau e seja impossvel a certeza

 absoluta .
 Neste ltimo aspecto , as idias de Popper aproximam-se muito

 do falibilismo de Peirce e a sua resistncia ao indutivismo lembra

 Whewell .
 Muitos foram atrados por sua descrio da cincia e da

 descoberta cientfica , embora haja problemas sobre os detalhes .
 Se

 constitui uma " lgica "  outro assunto .
 Esta  uma questo que tem

 provocado algum calor .

 No mesmo esprito , Popper atacou o " historicismo " e , no The Open

 Society and Its Enemies ( 1945 , A sociedade aberta e seus inimigos ) ,

 desfechou uma crtica polmica contra Plato , Hegel e Marx , porque , em

 sua opinio , eles tentaram estabelecer leis de desenvolvimento

 histrico e defenderam uma " sociedade fechada " , cujos princpios so

 supostamente utopistas e situados alm da crtica .
 Mais recentemente ,

 Popper publicou uma verso evolutiva do crescimento do conhecimento ,

 considerado como algo objetivo e independente dos " sujeitos

 conhecedores " .
 Alm disso ( em colaborao com J. C. Eccles ) fez uma

 exaustiva defesa do dualismo mente-corpo .
  provavelmente em suas

 contribuies  filosofia da cincia , porm , que reside o direito de

 Popper  fama e no pode haver dvida que ele  um dos grandes nomes

 nessa rea .

 O WITTGENSTEIN DOS LTIMOS TEMPOS

 Dissemos antes que , perto do fim da dcada de 1920 , Wittgenstein

 tornou-se insatisfeito com suas idias anteriores .
 Desde sua morte ,

 tornou-se claro que ele realizou tentativas de escrever vrios livros

 que explicariam suas opinies revistas sobre certo nmero de problemas

 filosficos .
 Pouco se soube disso enquanto viveu , embora suas idias e

 pensamentos saturassem a conscincia de outros filsofos , em parte

 atravs dos trabalhos de filsofos de Cambridge , em especial de John

 Wisdom ( nascido em 1904 ) e atravs da circulao de cpias

 datilografadas de palestras feitas nessa cidade , conhecidas como os

 Blue and Brown Books .
 Estes , juntamente com o texto de outras

 palestras e manuscritos , foram publicados aps sua morte .
 A

 conseqncia disto foi que , durante as dcadas de 1930 , 1940 e

 princpios da de 1950 , suas idias eram conhecidas em detalhes por

 apenas poucos estudiosos .
 Filsofos como Wisdom deram suas verses da

 mesma .
 Outros demonstraram , em maior ou menor grau , a influncia de um

 wittgensteinianismo geral , sem seguidores diretos .

 O Philosophical Investigations , a nica obra que por ocasio de sua

 morte considerava quase pronta para publicao , foi publicada

 finalmente em alemo , com traduo paralela de G. E. M. Anscombe em

 1953 .
 No  um livro fcil de descrever .
 Consiste de uma srie de

 observaes , algumas das quais so respostas a um interlocutor

 hipottico .
 A primeira parte comea com observaes sobre nomes ,

 linguagem e lnguas primitivas alternativas , que Wittgenstein chama de

 " jogos de linguagem " .
 Trata em seguida do " sabendo como continuar " , a

 respeito de regras para o desenvolvimento de sries , tais como as

 numricas .
 Prossegue em uma longa seo sobre a aplicao de nomes s

 sensaes e que se tornou conhecida como o " argumento da linguagem

 privada " .
 Depois disso , desfia um grande nmero de observaes

 concernentes , na maior parte , a vrios conceitos na filosofia da

 mente , e uma preocupao geral com o que denomina de " o mito do

 processo mental " .

 A Parte 2 divide-se em certo nmero de sees que tratam , na maior

 parte , dos mesmos assuntos , embora haja uma , bastante longa , que diz

 coisas muito interessantes sobre " vendo como " , tal como nossa

 capacidade de ver , de maneiras alternativas , quebra-cabeas visuais , e

 as implicaes disso para certo nmero de outras questes .
 A obra

 termina com observaes crticas sobre psicologia .

 Outros trabalhos pstumos tm a ver com preocupaes semelhantes , com

 os fundamentos da matemtica , a idias das bases do conhecimento ou

 entendimento , arte e religio , e assim por diante .
 Mesmo que limitemos

 a ateno ao Philosophical Investigations , porm , no  fcil

 compreender qual seu objetivo geral .
 Inicialmente , mostra claramente

 revolta contra o tipo de opinio sobre linguagem e significado

 pressuposta no Tractatus .
 Em uma observao famosa , embora contestada

 na seo 43 , diz ele que " no tocante a uma grande classe de casos -

 embora no em todos - nos quais empregamos a palavra ` significado '

 este pode ser definido da seguinte maneira : o significado de uma

 palavra  seu emprego na linguagem " .
 Alguns dos jogos de linguagem

 antes mencionados concentram-se em contextos prticos do uso da

 linguagem e colocam questes sobre as condies em que usos prticos

 de sinais realmente constituem o uso da linguagem .
 Wittgenstein

 enfatiza , de fato , as maneiras como a linguagem figura em nossa vida .

 Sem dvida , consideraes semelhantes aplicam-se  seo que trata de

 descobrir como continuar uma srie .
 Alguns acham que a mesma deixa

 entrever certo cepticismo sobre regras e obedincia a regras , mas ele

 pode estar simplesmente enfatizando a extenso em que o conhecimento

 de como seguir uma regra est enraizada em contextos e situaes

 behavioristas , prticas .
 Nossa compreenso do uso de expresses na

 linguagem pressupe tal conhecimento .

 A seo que trata da operao de dar nome s sensaes foi a que

 recebeu mais ateno e nela alguns viram uma revolta e uma completa

 inverso da estrutura cartesiana .
 Wittgenstein imagina algum mantendo

 um dirio , no qual menciona por nome as sensaes particulares que

 experimenta .
 Isto leva a um reductio ad absurdum dessa prtica , isto

 de uma maneira que visa a lanar luz sobre a sugesto de que

 poderamos chegar  compreenso dessas sensaes simplesmente atravs

 de anlise de nosso prprio caso .
  plausvel que o que Wittgenstein

 tivesse em mente fosse o tipo de suposio que notamos em relao a

 Russell , que sustentou que o significado das palavras que usamos 

 derivado de sensaes privadas com que cada um de ns est

 familiarizado .
 Russell , vale lembrar , sugeriu que esse fato tornava

 ambguas as palavras , mas que era apenas por causa dessa ambigidade

 que conseguamos nos comunicar uns com os outros .
 Wittgenstein trata

 como um reductio ad absurdum a tese que nossa compreenso do

 significado de palavras que usamos deriva , em ltima anlise , de

 termos que esto diretamente relacionados com experincias privadas ,

 atravs de um processo do que  chamado " definio ostensiva " ( uma

 suposta definio por correlao direta de palavras com objetos ) .

 Chama ele ateno para o fato de que h manifestaes naturais de

 sensaes , tal como a dor , e que nossa expresso verbal dessas

 sensaes pode ser assimilada a essas expresses behavioristas

 naturais .
 Em certas ocasies , realmente , ele parece estar dizendo que

 o que passa por descries de nossas sensaes no deve ser

 considerado como tal , mas como expresses de sensao semelhantes a

 dizer " Uau " .
 Seja ou no assim , ele certamente se ope  sugesto de

 que podemos compreender sensaes-palavras , como diz em um famoso

 trecho da seo 293 , em termos do " modelo de ` objeto e nome ' " .
 Nesse

 trecho , ele supe que cada pessoa tem uma caixa na qual h alguma

 coisa a ser chamada de " barata " .
 Todos sabem o que uma barata  apenas

 olhando dentro de sua caixa .
 Sugere Wittgenstein que a palavra

 " barata " teria um uso na linguagem das pessoas , de acordo com essas

 suposies , mesmo que no houvesse coisa alguma na caixa .
 Este seria

 igualmente o caso se todos compreendssemos o que  a dor apenas com

 base em nosso caso .

 A moral a ser tirada  que a compreenso da linguagem-sensao no

 deve ser interpretada dessa maneira - no , isto  , em termos da idia

 de que as palavras relativas a sensaes tiram seu significado

 simplesmente por referncia a elas como objetos privados .
 Isto no

 implica negar que h tais sensaes .
  apenas um comentrio sobre

 nossas maneiras de compreender como falamos a respeito delas .
 Uma

 condio para a compreenso da linguagem-sensao  que conheamos as

 expresses behavioristas das sensaes e isto  algo pblico , no

 privado .
 Segue-se que no podemos construir nosso conhecimento do

 mundo tendo como base essas sensaes .
 A rejeio dessa idia acarreta

 o repdio de uma longa linha de pensamento empirista .
 Essa linha de

 raciocnio no parece especialmente visvel no Tractatus , que no se

 interessa muito por consideraes epistemolgicas .
  evidente ,

 contudo , em Russell e  claro  vista de outros escritos de

 Wittgenstein que este lhe sentiu a atrao .
 Na seo I .580 , ele diz em

 outra famosa observao : " Um processo ` interno ' tem necessidade de

 critrios externos " .
 O que ele entendia por " critrios " ( uma palavra

 que aparece com freqncia em sua obra ) tem sido muito debatido , mas a

 observao certamente enfatiza a necessidade de um contexto pblico

 para que a idia de um processo interno possa ser inteligvel .
 Isto ,

 por sua vez , lana dvida sobre toda a tradio cartesiana , em termos

 da qual temos que comear , em nossa viso do mundo , de nosso prprio

 caso e de nossos prprios processos internos .
 A importncia disto no

 deve ser subestimada .

 Tem havido muita discusso a respeito de tudo isto , interpretado como

 um argumento geral sobre a possibilidade de uma linguagem privada - o

 chamado argumento da linguagem privada .
 Algumas das observaes de

 Wittgenstein sobre a necessidade de um controle pblico dos usos da

 linguagem ( algo que no seria possvel no caso de uma linguagem

 intrinsecamente privada ) toca as raias do verificacionismo ( embora se

 diga que isto no foi a inteno dele ) .
 No pargrafo I .242 diz ele :

 " Para que a linguagem seja um meio de comunicao deve haver acordo

 no s sobre definies , mas tambm ( estranho como isto parea ) sobre

 juzos " .
 E na observao anterior fala de acordo em formas de vida .
 Em

 outro contexto na Parte 2 ( p. 226 ) diz : " O que tem que ser aceito , o

 dado , so - como poderamos dizer - formas de vida " .

 Alguns interpretaram essas observaes sobre formas de vida , que so

 repetidas em outras partes de sua obra , como um tanto msticas .
 Mas o

 ponto realmente importante  aquele que enfatizamos - os seres humanos

 so entidades biolgicas enraizadas em um mundo pblico , e s em

 relao a essa estrutura  que questes sobre o que  e no 

 inteligvel podem ser colocadas .
 Essas questes no podem ser

 solucionadas mediante referncia a coisas tais como os dados

 fornecidos pelos sentidos ou por " processos internos " .
  defensvel a

 tese que no On Certainty , um manuscrito inacabado da ltima fase , ele

 tenha querido insistir , dentro dessa estrutura , que certas coisas tm

 que ser aceitas como verdadeiras para que outras coisas sejam mesmo

 inteligveis .
 Nisto parece haver uma referncia a " limites " - limites

 ao entendimento - que alguns interpretaram como kantiana ( noo esta

 que Wittgenstein podia ter assimilado atravs de Schopenhauer ) .
 Outros

 insistiram em que ele no defende limites que sejam absolutos .
 s

 vezes , ele diz que o que est fazendo  apenas fornecer algumas

 observaes sobre a histria natural do homem .

 No pode haver dvida que o mais importante em tudo isso  a

 insistncia no contexto pblico e no acordo interpessoal , embora ao

 nvel de reaes naturais , biolgicas , e de formas de comportamento .

 Conforme veremos no captulo seguinte , outros filsofos deste sculo

 [ XX ] enfatizaram o papel do corpo e de estar no mundo .
 Poder-se-ia

 dizer que a posio filosfica de Wittgenstein  mais fundamental do

 que as deles , porque ele indica no s a importncia dessas coisas ,

 mas sua necessidade , se queremos achar sentido em qualquer outra

 coisa .
 O argumento subjacente  , caberia dizer , transcendental em um

 sentido aproximadamente kantiano .
 O problema  que Wittgenstein no

 pensou que fosse misso do filsofo fornecer esses argumentos .
 " Qual o

 seu objetivo em filosofia ?
 " pergunta ele em I .309 , e responde :

 " Mostrar  mosca como sair da garrafa " .
 John Wisdom achava seu

 objetivo prximo da psicanlise e , sua filosofia , como teraputica ,

 nesse sentido .
 Wittgenstein bem que poderia ter repudiado essa

 sugesto , mas seu objetivo  , apesar de tudo , o de chegar a uma

 compreenso correta das coisas , eliminando cimbras mentais , a

 obsesso com certos casos particulares e perplexidades conceptuais em

 geral .

 Durante toda a sua vida , Wittgenstein rejeitou a idia de que a

 filosofia visava a produzir teorias expressveis em proposies .
 Nem

 sempre disse a mesma coisa sobre o que devia ser posto em seu lugar ,

 mas o mtodo que seguiu , se porventura houve , no torna fcil a

 comentadores falar com qualquer convico de " argumentos

 transcendentais " .
 Ainda assim , se observaes como aquela que diz que

 formas de vida constituem o dado so levadas a srio , suas idias

 sobre significado e entendimento acarretam uma reavaliao drstica

 dos termos de referncia da filosofia , em comparao com os

 estabelecidos por Descartes e nunca questionados seriamente desde

 ento .
 Os tipos de barretadas feitas para as instituies e prticas

 pblicas por Marx ainda se situam na tradio idealista .
 Se

 Wittgenstein estiver certo , toda essa tradio deve ser abandonada .

 OUTROS FILSOFOS ANALTICOS RECENTES

 Nos tempos modernos , houve outros ataques  tradio cartesiana ,

 embora talvez no no mesmo esprito .
 O Concept of Mind ( 1949 ) , de

 Gilbert Ryle ( 1900-1976 ) , constituiu uma tentativa de dar uma viso

 no-cartesiana da mente em termos de conduta inteligente e inclinaes

 nesse sentido .
 Essa verso fundamenta-se oficialmente em uma doutrina

 de categorias e erros de categoria , que o autor sustenta gerar vrios

 tipos de absurdo .
 A tese de Ryle  que o que Descartes disse sobre a

 mente implicou colocar o mental na categoria errada , no sentido em que

 julga que a mente  uma substncia que funciona como uma causa

 paramecnica .
 Na verdade , diz Ryle , falar na mente  o mesmo que se

 referir a um conjunto de inclinaes demonstradas por seres

 inteligentes .
 Visto como interpretao de Descartes , a tese enfatiza

 apenas um aspecto das idias do filsofo francs .
 Muitos consideraram

 essas opinies como behavioristas , embora ele mesmo rejeitasse essa

 interpretao , dizendo que isto era prova de outra categoria de erro .

 Ryle sofreu alguma influncia aristotlica e outras russellianas , mas

 sua insistncia em que devemos levar em conta " o que dizemos " , na

 tentativa de elucidar conceitos , deriva provavelmente de Wittgenstein .

 Ryle sem dvida pensou que a linguagem comum tinha que ser levada a

 srio .

 A filosofia da linguagem comum , como se tornou conhecida , foi levada

 mais adiante por J. L. Austin ( 1911-60 ) , que em trabalhos algo tanto

 programticos insistiu na necessidade de exame atento do uso comum ,

 sobre o fundamento que ele contm a sabedoria herdada da humanidade no

 pensamento sobre o mundo .
 Alguns crticos viram nisso uma espcie de

 conservantismo lingstico , embora Austin insistisse em que a

 linguagem comum era o comeo de tudo , no o fim de tudo , na filosofia .

 Em certa medida , esse enfoque deveu sua inspirao a Aristteles , que

 regularmente enfatizou o que se diz e como se diz .
 Durante algum

 tempo , a filosofia da linguagem comum foi o movimento dominante em

 Oxford .
 A nfase no " uso " e na idia de que uma explicao de nosso

 entendimento do mundo pode ser desenvolvida a partir do que est

 implcito na identificao orador-ouvinte das coisas , em que oradores

 e ouvintes so pessoas ,  encontrada tambm em P. F. Strawson ( nascido

 em 1919 ) .
 Segundo ele , porm , ocorre um retorno  metafsica de tipo

 kantiano , com o adendo de que  importante reconhecer o papel do

 conceito de pessoa , que os conceitos de mente e corpo por igual

 pressupem .
 Isto  detalhado no seu livro Individuals ( 1959 ) e no que

  um comentrio mais franco de Kant , The Bounds of Sense ( 1966 ) .

 Strawson tem sido tambm crtico da lgica formal e , neste particular ,

 seu grande adversrio tem sido W. V. Quine , mencionado antes .
 Quine

 iniciou a carreira como lgico formal e em seu pensamento sempre foi

 influenciado pela lgica .
 J nos referimos a seu ataque  distino

 analtica / sinttica .
 Trata-se de um ataque em dupla frente .
 Em uma

 delas , diz que no podemos entender bem a noo de identidade de

 significado que a idia de analiticidade pressupe ; na outra , alega ,

 incidindo historicamente em grande erro , que o dogma da distino

 analtico / sinttica se faz acompanhar da idia de que h , no plo

 oposto das verdades lgicas , proposies bsicas do tipo postulado por

 alguns positivistas , o significado das quais  fornecido

 exclusivamente por dados empricos .
 Em lugar de tudo isso , Quine

 prope uma idia que se deve em parte a P. Duhem ( 1861-1916 ) , um

 notvel filsofo francs da cincia , que enfatizou a interconexo de

 hipteses dentro de uma teoria .
 Quine apresenta o conhecimento como um

 corpo sistemtico de proposies inter-relacionadas .
 Isto de tal

 maneira que apenas aquelas que esto na periferia  que nos mostramos

 dispostos a abandonar ou modificar diante de prova aparentemente

 refutadora .
 Elas continuam ainda relacionadas ao corpo da teoria ,

 porm , e no tm o status atribudo pelos empiristas s proposies

 bsicas .

 Mais ou menos no mesmo esprito , Quine ventilou idias sobre ontologia

 e linguagem .
 O objetivo seria " arregimentar " de tal como nossa

 linguagem que se tornaria claro que pressupostos ontolgicos esto

 envolvidos nela , na esperana de que todas as referncias visveis a

 entidades abstratas , possam ser removidas .
 Quine foi ainda mais longe

 e insistiu em que todas as alegaes ontolgicas so relativas 

 lngua que falamos e sustentou ainda que a interpretao que damos ao

 que as pessoas dizem deveria ser analogamente relativa .
 A tese mais

 importante em tudo isto  a da indeterminao da traduo ,

 inicialmente exposta no World and Object ( 1960 ) e repetida em vrios

 outros trabalhos .
 Quine aceita como certa uma psicologia behaviorista

 e , por essa razo , interpreta tentativas de compreender o que outras

 pessoas dizem ( e , dessa maneira , ns mesmos ) em termos de tentativas

 de lhes interpretar o comportamento .
 Interpretar  apresentar uma

 teoria e , neste ponto , a tese duhemiana torna-se novamente importante

 sob a forma da alegao de que teorias so sempre subdeterminadas

 pelos dados .
 Quine sustenta , por conseguinte , que no pode haver

 apenas uma maneira de traduzir o que algum diz e que por isso so

 possveis maneiras alternativas , mas conflitantes .
 Combina isto com a

 tese de que a referncia  " inescrutvel " : no h dvida de que aquilo

 que est sendo referido seja o que algum diz .
 Por esta razo , tambm ,

 no h dvida sobre a ontologia , porque a questo que existe equivale

  questo que est sendo referida .
 Finalmente , Quine insta conosco

 para substituir a epistemologia tradicional pelo que chama de

 " epistemologia naturalizada " , a psicologia cognitiva da aquisio do

 conhecimento .

 Quine exerceu grande influncia sobre a filosofia americana , embora

 menos , at recentemente , sobre a filosofia na Gr-Bretanha .
 Outros

 importantes filsofos americanos so Donald Davidson ( nascido em

 1917 ) , Hilary Putnam ( nascido em 1926 ) e Saul Kripke ( nascido em

 1940 ) .
 A maioria deles interessa-se pela lgica e pela filosofia da

 linguagem e , at certo ponto , pela filosofia da mente e da ao .
 A

 filosofia americana tende a ser tcnica e as influncias sobre a

 filosofia da cincia e a lgica matemtica so maiores do que em geral

 ocorre na Gr-Bretanha .
 Sem dvida , isso se deve em parte a fatores

 que tm a ver com a cultura e o sistema educacional americanos e

 tambm alguma coisa com a influncia daqueles filsofos , na maioria

 positivistas lgicos , que chegaram aos Estados Unidos como refugiados

 da Europa .

 No se pode dizer que a tica tenha exatamente prosperado nesse

 perodo .
 No auge do positivismo , foram feitas tentativas para explicar

 proposies ticas em termos de expresses de emoes ou excitao

 emocional .
 R. M. Hare ( nascido em 1918 ) destacou o ponto que

 enunciados ticos envolvem preceitos e tentou identificar-lhes o

 contedo tico particular em termos da idia de os preceitos em

 questo serem universalizveis .
 Esta idia aparentemente kantiana foi

 posteriormente interpretada por ele , algo surpreendentemente , como

 levando a uma forma de utilitarismo .
 A maior parte do debate entre

 filsofos moralistas nos ltimos tempos tem sido travada entre os

 propugnadores de alguma forma de utilitarismo e os que querem adotar

 uma teoria mais aproximada da de Kant .
 Nos Estados Unidos , John Rawls

 ( nascido em 1921 ) tentou , no seu A Theory of Justice ( 1972 ) , formular

 uma teoria que combina liberalismo com a idia de justia como

 eqidade , a partir do estudo do que pessoas escolheriam no que ele

 chama de " posio inicial " .
 Neste particular , elas esto sob um " vu

 de ignorncia " , de modo que no conhecem as caractersticas que

 possuem ou possuiro e que sero relevantes para a distribuio de

 bens .
 Essa tese provocou numerosas discusses e algumas crticas .
 Mais

 recentemente , foi combatida pelas opinies algo antiliberalistas e

 certamente antiigualitrias de R. Nozick ( nascido em 1938 ) no seu

 livro Anarchy , State and Utopia ( 1974 ) .
 E o debate continua .

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