

  mineral A linha do horizonte , Nossos nomes , essas coisas Feitas de palavras .

 ( Joo Cabral de Melo Neto , Psicologia da Composio , VI )

 A entrada em cena , no debate contemporneo das Cincias Humanas e

 Sociais , da perspectiva computacional-informacional de subjetividade ,

 se d a partir das dcadas de 40 e 50 , graas aos seguintes

 acontecimentos histricos : primeiramente , pela redefinio da noo de

 vivo pela biologia molecular em funo da traduo informacional do

 material gentico ; pelo desenvolvimento da ciberntica , das cincias

 da computao e da engenharia de programao , permitindo a construo

 das calculadoras eletrnicas e dos primeiros computadores ( os chamados

 mainframes ) ; pelas pesquisas da lgica e da matemtica , proporcionando

 o surgimento das noes de ' mquina de Turing ' e de ' arquitetura von

 Neumann ' ( modelos que representam , respectivamente , o software e o

 hardware dos computadores ) ; e , por fim , pelas pesquisas em

 neurocincias que propiciaram a transposio dos conceitos

 lgico-computacionais desenvolvidos no mbito da filosofia da lgica e

 na linguagem utilizada pelos programadores na compreenso do

 funcionamento do crebro e da cognio humanas ( cf .
 Nunes , 1996 ) .

 Cabe ressaltar que , dentro dos eventos citados , o de maior

 significao diz respeito ao surgimento do conceito de informao

 ( originalmente cunhado por Shannon & Weaver , 1949 , no mbito da

 matemtica , sendo aplicado na ciberntica e nas cincias da

 computao ) que , ao ser transposto do mbito destas para o campo da

 subjetividade , promoveu uma reviravolta na forma de conceber e

 elaborar a problemtica , dando origem  chamada ' Revoluo Cognitiva '

 ( Sperry , 1993 ) .
 Contudo , longe de ser apenas um movimento interno 

 prpria psicologia , a " Revoluo Cognitiva " obedece a um padro

 diferenciado por justamente se originar externamente s cincias e

 saberes ' psi ' , mais notadamente na lgica , na filosofia da mente , na

 filosofia da linguagem e na engenharia de programao , atingindo-a

 depois de maneira marcante ao deslocar  prevalncia do paradigma

 dominante at ento na pesquisa psicolgica ( a saber , o movimento

 comportamentalista ) , ao reintroduzir , no campo da subjetividade , os

 conceitos e as temticas mentalistas .

 [ LINK ]

 " longe de ser apenas um movimento interno  prpria psicologia , a '

 ' Revoluo Cognitiva ' obedece a um padro diferenciado por justamente

 se originar externamente s cincias e saberes ' psi ' , mais notadamente

 na lgica , na filosofia da mente , na filosofia da linguagem e na

 engenharia de programao "

 _________________________________________________________________

 Estrutura-se , ento , a partir dos anos 50 e 60 , um campo de pesquisas

 interdisciplinares intitulado de Cincia Cognitiva , cujo cerne gira em

 torno de uma redefinio da questo da subjetividade a partir do uso

 da metfora computacional-representacional de mente e de crebro

 ( Gardner , 1987 ; Thagard , 1998 ) .
 Dado o seu carter interdisciplinar ,

 envolvendo diferentes reas do conhecimento como a Lgica , a

 Matemtica , a Filosofia da Mente , a Lingstica , a Engenharia de

 Computao , a Antropologia e a Psicologia , seu objetivo era o de

 redefinir as fronteiras entre as esferas do vivo e do no-vivo a

 partir do conceito de informao , desalojando , desta forma , o uso at

 ento de metforas vitalistas , animistas e espiritualistas que at

 ento dominavam a paisagem do debate psicolgico .
 Inclusive , este era

 um dos pontos principais de crtica que os filsofos da linguagem

 dirigiam ao conhecimento psicolgico ( ver , por exemplo , a crtica que

 Ryle , 1949 desenvolve sobre a ambigidade das explicaes

 psicolgicas , a metfora do ghost in the machine , apontando as

 incongruncias lingsticas do uso indiscriminado de expresses

 mentalistas e mecanicistas ) .

 No tenho aqui o intuito de expor o tortuoso debate que envolve a

 prpria fundao da Cincia Cognitiva , bem como os posteriores debates

 que tornaram o abismo entre o projeto e sua realizao cada vez maior .

 Vale lembrar que , em sua fase herica ( anos 50 e 60 ) , a Cincia

 Cognitiva tinha como maior embaixadora no mundo do debate cientfico e

 no imaginrio popular a Inteligncia Artificial ( IA ) ( cf .
 Haugeland ,

 1985 ) .
 Esta , cujo objetivo principal era o de simular em computadores

 procedimentos cognitivos ( e , por extenso , que denotassem propriedades

 ' inteligentes ' ) dos organismos vivos , propiciou um terreno frtil para

 a imaginao no s dos pesquisadores mas tambm de cineastas ,

 escritores e visionrios sobre o futuro das pesquisas nesta rea .
 Para

 os autores da IA , os avanos nas pesquisas permitiriam no s uma

 redefinio mas tambm uma difcil definio dos limites entre

 mquinas e organismos vivos , posto que ambas as esferas so repensadas

 a partir de uma viso de mquinas informacionais processadoras de

 smbolos .
 Desta forma , era vlida a tentativa de atribuir propriedades

 cognitivas s mquinas tais como as de produzirem estados

 motivacionais , emocionais e intencionais , alm da atribuio de

 crenas , valores , desejos e interesses aos estados interno e externo .

 Atualmente , os resultados das pesquisas em Cincia Cognitiva foram

 bastante redimensionadas em funo do crescente afastamento entre as

 promessas de seus defensores e os obstculos que se interpunham em uma

 empreitada desta grandeza .
 Basicamente , dois grandes grupos de

 problemas se apresentaram como indicadores da necessidade de uma

 reconfigurao do paradigma computacional-representacional : em

 primeiro lugar , o ' fracasso ' nos avanos tecnolgicos propiciados pela

 Inteligncia Artificial em produzir robs ' inteligentes ' ou autmatos

 ' cognitivos ' ; em segundo lugar , porm de extrema importncia para uma

 rediscusso do modelo , se encontram as pesquisas na rea de

 neurocincias ( neurofisiologia , neuroqumica , neurofarmacologia ) com o

 uso de recursos tecnolgicos avanados como as novas tcnicas de

 escaneamento cerebral ( tomografia computadorizada , pet-scam , etc ) , e

 os indicadores neuropsicolgicos a partir da correlao entre reas

 corticais e sub-corticais e funes cognitivas , motivacionais e

 afetivas a partir dos estudos com pacientes portadores de leses

 cerebrais ( Damasio , 1996 ; Edelman , 1992 ) ; por fim , as crticas

 levantadas tanto pelos filsofos da mente ( por exemplo , Dreyfus , 1975 ;

 Rorty , 1988 , Searle , 1992 ) quanto os filsofos da linguagem que

 problematizavam as bases representacionais e fisicalistas que se

 encontravam na base do modelo cognitivista ( cf .
 Nunes , 1996 ) .

 No entanto , longe de ser um rquiem para o paradigma cognitivista ,

 fao notar que tais obstculos levaram a um redimensionamento do

 alcance da Revoluo Cognitiva que nos permite , de uma forma bastante

 ampla , repensar de maneira bastante complexa e sofisticada a

 problemtica da subjetividade .
 Alm disto , possibilita aos

 pesquisadores desta questo afastar alguns das ' temticas-tabu ' que

 caracterizam de forma at mesmo forte e emotiva o debate no campo dos

 estudos da subjetividade .
 Fao notar aqui , para esta discusso , o

 papel das pesquisas em Neurocincias e das problematizaes oriundas

 da filosofia da linguagem , em especial em seu vis pragmtico .

 As pesquisas na rea de Neurocincias e da Biologia Molecular nos

 permitem repensar o papel do chamado ' biolgico ' ou ' orgnico ' na

 construo e regulao dos estados subjetivos .
 Tradicionalmente , tal

 dimenso  vista pela grande parte dos autores das cincias e saberes

 psi como uma limitao  singularidade , uma camisa-de-fora , algo que

 impede a ao da linguagem e da cultura , que acabariam por

 caracterizar a experincia humana .
 Acredito que , ao invs de observar

 a biologia como uma barreira , pode-se falar agora que o nosso aparato

 antomo-fisiolgico fruto de milhes de anos de evoluo bem como as

 configuraes neurais acumuladas durante a nossa experincia com o

 mundo constituem o que se denomina de ' constrangimentos ' biolgicos ,

 ou melhor , das invarincias caractersticas de nossa espcie ( cf .

 Coutinho , 1995 ) .
 Uma teoria da subjetividade que no leve este

 registro em considerao desconsidera toda a histria evolutiva

 acumulada , bem como perigosamente leva a questo para a ausncia de

 parmetros que limitem a plasticidade biolgica , cognitiva e afetiva

 do homem .
 Estas invarincias , dito de outra maneira , configuram o

 nosso background , o pano de fundo , a moldura na qual tornam-se

 possveis os jogos caractersticos da trama da subjetividade .
 Tais

 constrangimentos  que nos do as linhas gerais , as formas mais amplas

 segundo as quais as experincias lingsticas , sociais , culturais e

 psquicas se entretecem , propiciando a construo e a regulao dos

 estados e experincias subjetivas .

 Ao falarmos de invarincia , tal teoria tambm deve levar em

 considerao os espectros de variabilidade que , no debate psicolgico ,

 notadamente assumem diferentes formas argumentativas como

 ' singularizao ' , ' individuao ' , etc .
 A linguagem e a cultura ( esta

 ltima vista como sendo uma prtica discursiva ) participam na

 construo e na regulao da subjetividade , ao tornarem viveis os

 esforos de singularizao e de subjetivao dos organismos em funo

 de diferentes contextos e prticas sociais .
 Neste sentido , a viso

 pragmtica de linguagem ( Wittgenstein , 1953 ) e a viso construtivista

 de cultura ( Geertz , 1978 , 2001 ) se articulam com as invarincias

 biolgicas , possibilitando as experincias de subjetivao .
 Ao

 inserirmos as esferas da linguagem , da cultura e das experincias

 cognitivas e afetivas nesta moldura de possibilidades subjetivas , esta

 teoria da construo e regulao da subjetividade acaba levando a

 discusso para o mbito das relaes entre varincia e invarincia ,

 entre a variabilidade a invariabilidade subjetivas .
 Neste sentido , os

 trabalhos de Coutinho ( 1994 , 1995 ) e Campos ( 2001 ) propem a

 rediscusso desta problemtica levando em considerao as anlises

 feitas acima .

 [ LINK ]

 " Ao falarmos de invarincia , tal teoria tambm deve levar em

 considerao os espectros de variabilidade que , no debate psicolgico ,

 notadamente assumem diferentes formas argumentativas como

 ' singularizao ' , ' individuao ' , "

 _________________________________________________________________

 Tal forma de se redirecionar a problemtica subjetiva , em funo das

 pesquisas nos campos da Biologia Molecular , da Cincia Cognitiva e das

 Neurocincias , nos permite uma viso mais complexificada da

 problemtica da construo e da regulao da subjetividade , ao levar

 em considerao os constrangimentos biolgicos , a linguagem , a

 cultura , e a dimenso cognitivo-afetiva .
 Alm disto , dois tabus comuns

 ao debate psicolgico so afastados : o primeiro diz respeito 

 naturalizao da biologia ,  reificao do orgnico , que campeia

 atualmente em larga medida no discurso da Psiquiatria Biologia e nas

 manchetes sensacionalistas de jornal , que objetivam reduzir as

 patologias psquicas a meros estados de desarranjo neuroqumico ,

 levando a uma verdadeira fetichizao das sinapses ( ponto este , alis ,

 criticado com muita veemncia pela literatura psicanaltica , que

 tambm incorre no erro em conceber o biolgico ora como ' natural ' , ora

 como puramente colonizado pela linguagem ) ; o segundo , diz respeito 

 relativizao da subjetividade , o vale-tudo lingstico e cultural que

 versa livremente nas formulaes ps-modernas , culturalistas ,

 engajadas , scio-histricas e politicamente corretas da psicologia .

 Estas ltimas temem  reduo do subjetivo tanto ao biolgico quanto

 ao psicolgico , sem que se leve em considerao os processos

 histricos e sociais que participam na constituio dos estados

 subjetivos .
 A limitao destes autores est em introduzir , no mbito

 das cincias e saberes psi , um certo vale-tudo epistemolgico que

 acaba por incorrer em um outro tipo de reducionismo , no mais

 biolgico ou natural , mas sim scio-histrico da subjetividade .

 Esta nova forma de se conceber a problemtica da construo e da

 regulao da subjetividade , que leva em considerao os aspectos

 biolgicos , lingsticos e culturais sem naturaliz-los ou

 reific-los , nos permite sair das trs armadilhas mais comuns nas

 quais as teorizaes psicolgicas acabam por incorrer : os

 reducionismos fisicalistas , psicolgicos ou culturais .
 O ponto de

 partida se no momento em que se redimensiona o debate da subjetividade

 nos termos de invarincia e invarincia .
 Uma teoria da subjetividade

 tem de levar em considerao a articulao entre os campos da

 variabilidade e da invariabilidade subjetivas .
 Acredito que esta  uma

 maneira bastante profcua de se pensar esta temtica diante do novo

 sculo que se descortina , posto que a questo da subjetividade no tem

 mais o seu copyright detido por apenas alguns segmentos especficos do

 conhecimento cientfico .
 Esta  a lio que temos de aprender com a

 Revoluo Cognitiva .

 _________________________________________________________________

 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS :

 CAMPOS , F.S. ( 2001 ) .
 Psicanlise e neurocincia : dos monlogios

 cruzados ao dilogo possvel .
 Rio de Janeiro : Departamento de

 Psicologia / PUC-Rio , Tese de Doutorado .
 COUTINHO , A. R. ( 1994 ) .

 Repensando a questo da subjetividade em uma perspectiva pragmtica

 in : COSTA , J.F. ( org. ) .
 Redescries da psicanlise : ensaios

 pragmticos .
 Rio de Janeiro : Relume-Dumar .
 Macmillan .

 ______________________ .
 A Questo da subjetividade : justificativa de

 uma abordagem transdisciplinar baseada na pragmtica .
 Cadernos de

 Subjetividade , So Paulo , vol. 3 , n. 2 , pp. 315-340 , set / fev .
 1995 .

 DAMASIO , A. R. ( 1996 ) .
 O Erro de Descartes : emoo , razo e o crebro

 humano .
 So Paulo : Companhia das Letras , 1994 .

 DREYFUS , H.S. ( 1975 ) .
 O Que os computadores no podem fazer ?
 : uma

 crtica  razo artificial .
 Rio de Janeiro : Livraria Eldorado , 1972 .

 EDELMAN , G.M. ( 1992 ) .
 Bright air , brilliant fire : on the matter of the

 mind. New York : Basic Books .

 GARDNER , H. ( 1987 ) .
 La Nueva ciencia de la mente : historia de la

 revolucon cognitiva .
 Buenos Aires : Paids , 1987 .

 GEERTZ , C. ( 1978 ) .
 A Interpretao das culturas .
 Rio de Janeiro : Zahar

 Editores , 1972 .

 __________. ( 2001 ) .
 Nova luz sobre a Antropologia .
 Rio de Janeiro :

 Jorge Zahar Editor , 2000

 HAUGELAND , J. ( 1985 ) .
 Artificial intelligence : the very idea .

 Cambridge , MA : The MIT Press .

 NUNES , J.M.G. ( 1996 ) .
 Subjetividade e modelos computacionais de mente :

 uma discusso sobre a cincia cognitiva .
 Rio de Janeiro : Departamento

 de Psicologia / PUC-Rio , Dissertao de Mestrado .

 RORTY , R. ( 1988 ) .
 A Filosofia e o espelho da natureza .
 Lisboa :

 Publicaes Dom Quixote , 1979 .

 RYLE , G. ( 1949 ) .
 The Concept of mind. New York : Barnes & Noble , Inc .

 SEARLE , J. ( 1992 ) .
 The Rediscovery of the mind. Cambridge , MA : The MIT

 Press .
 SHANNON , C.E .
 & WEAVER , W. ( 1949 ) .
 The Mathematical theory of

 communication. Chicago , IL : The University of Illinois Press .

 SPERRY , R.W. ( 1993 ) .
 The Impact and promise of the cognitive

 revolution. American Psychologist .
 August 1993 , vol. 48 , no. 8 ,

 878-885 .

 THAGARD , P. ( 1998 ) .
 Mente : introduo  cincia cognitiva .
 Porto

 Alegre : Artmed , 1996 .

 WITTGENSTEIN , L. ( 1953 ) .
 Philosophical investigations. New York :

 Macmillan .

 subir

  doutor em Psicologia

 pela PUC / Rio  Professor

 Adjunto do Departamento Psicologia

 da Universidade Veiga de Almeida .

