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 Ciberlegenda Nmero 8 , 2002

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 Comunicao , filosofia e linguagem

 .

 HACKING , Ian .
 Por que a linguagem interessa  filosofia ?
 So Paulo : UNESP ,

 1999 .

 Rosane da Conceio Pereira

 rosane4@globo.com

 Ian Hacking trabalha no Center for Advanced Study in the Behaviorial

 Sciences , em Stanford , na Califrnia .
  autor de livros como The

 Logic of Statistical Inference ( CUP , 1965 ) , The Emergence of

 Probability ( CUP , 1975 ) , Representing and Intervening ( CUP , 1983 ) , The

 Taming of Chance ( CUP , 1990 ) e The Social Construction of What ?

 ( Harvard , CUP , 1999 ) .

 Por que a linguagem interessa  filosofia ?
 , livro proveniente de uma

 srie de palestras ministradas pelo professor Ian Hacking na

 Universidade de Cambridge , fornece alguns exemplos de casos da

 histria da filosofia em que algumas questes relativas  linguagem

 vm adquirindo importncia cada vez maior .
 Trata-se de um panorama de

 questes da teoria do significado relacionadas ao desenvolvimento

 filosfico neste sculo , conforme Thomas Hobbes , o bispo Berkeley ,

 Bertrand Russell , A. J. Ayer , Ludwig Wittgenstein , Noam Chomsky , Paul

 Feyerabend , Donald Davidson , Norman Malcolm , Michel Foucault e

 outros .
 O autor fornece ento uma amostra do que chama " Grandes

 Problemas " tradicionais da filosofia da linguagem : " verdade ,

 realidade , existncia , lgica , conhecimento , necessidade , sonhos ,

 idias " .

 Os estudos de caso tratados por Hacking , que explicam por que a

 linguagem interessa  filosofia , constituem as trs partes de seu

 livro .
 A primeira parte , " O apogeu das idias " , contm captulos

 sobre as perspectivas de Hobbes , da escola de Port Royal , de Berkeley

 e da teoria do significado , acerca da relao linguagem-filosofia .

 Por sua vez , a segunda parte , " O apogeu dos significados " , contempla

 estudos de Chomsky , Russell , Wittgenstein , Ayer e Malcolm .
 Enquanto

 na ltima parte , " O apogeu das sentenas " , esto presentes as anlises

 de Feyerabend e Davidson , bem como um captulo conclusivo que resume

 os trs casos precedentes , a partir dos quais a linguagem  pensada

 por Hacking como elemento fundamental de uma " teoria aplicada do

 significado " e no de uma teoria pura , a qual dependeria apenas de

 boas definies na mente de cada um ( linguagem privada ) ou do problema

 de tornar explcitas para outras pessoas tais distines concebidas

 ( linguagem pblica ) .
 Grosso modo , para o autor , nossas sentenas

 exprimem idias que significam de modos diferentes , conforme um uso , a

 aplicao que lhes damos ; uma vez que no podemos admitir a hiptese

 da compreenso absoluta da mente e da linguagem alheia , tampouco de

 nossa parte .

 Assim , " O apogeu das idias " , no sculo XVII , diria respeito ao objeto

 da filosofia da linguagem , caracterizado por um elo entre o ego

 cartesiano e a realidade exterior .
 Dessa maneira , as relaes entre

 idias , na forma de " discurso mental " ( Hobbes ) , formariam

 representaes do mundo , efeitos de mudanas na reflexo do ego e na

 experincia ( John Locke e Berkeley ) .
 Em outras palavras , as idias da

 realidade seriam o resultado da ao da experincia no ego e ,

 simultaneamente , causariam nossa experincia .
 Alm disso , segundo

 Hacking , durante esse primeiro apogeu , no se pode considerar qualquer

 preocupao relevante com os significados , em termos fregeanos ( Sinn ) ,

 ou seja , no que se refere aos " pensamentos humanos transmitidos de

 gerao para gerao " ( significados pblicos ) .
 Existiriam apenas

 teorias errneas ou limitadas sobre os significados e nos sculos

 posteriores  que a " gramtica geral do discurso mental " seria

 substituda por aquela de um " discurso pblico " .
 Somente na discusso

 atual esse discurso pblico intermedirio ( dos significados ) , contra

 o mentalismo inicial ( das idias ) ,  analisado na forma de

 " sentenas " .
 Estas , alm de meros artefatos , constituem o " sujeito

 cognoscente " , representando a realidade de outro corpo de

 conhecimento , novo campo de saber .

 Hacking afirma que " O apogeu dos significados "  recente , uma vez que

 pode ser considerado a partir dos estudos de Gottlob Frege , assim como

 o apogeu anterior teria como marco importante a escola de Port Royal .

 De acordo com Hacking , Frege ultrapassaria seus antecessores , os

 filsofos analticos anglo-americanos , ao considerar que os

 significados compreendidos por meio das sentenas so " os verdadeiros

 portadores de crena e conhecimento " .
 Seguindo Frege , o autor afirma

 que a teoria dos significados torna possvel a teoria do discurso

 pblico .
 Entretanto , Hacking e Russell concordariam que a linguagem

 analtica , por exemplo , tem importncia para a codificao sem ,

 contudo , ser determinada exclusivamente por uma teoria do significado

 ou uma gramtica .
 Mas , enquanto Hacking estuda a correspondncia entre

 os significados e o mundo , Russell teria colocado a gramtica no lugar

 dos significados .
 Tal fator afasta este ltimo da nova filosofia

 lingstica , cujos defensores postulam que a condio da comunicao 

 no haver linguagem essencialmente privativa de um nico falante nem

 unnime sempre .

 Em relao  divergncia entre Russell e a nova filosofia lingstica ,

 Hacking afirma que " a comunicao ocorre porque no queremos dizer as

 mesmas coisas com nossas palavras " .
 Por sua vez , sobre a questo da

 importncia do uso da linguagem no mundo , em detrimento da simples

 correo de conceitos filosficos pela discriminao de significados ,

 ele recorre a autores como Wittgenstein , Ayer e Malcolm .
 Para

 Hacking , os dois ltimos preocupavam-se em especificar os significados

 das palavras usadas por eles e tal procedimento serviu para

 estabelecer critrios de significao em seus sistemas de pensamento ,

 a fim de determinar " o que pode ser verdadeiro no mundo " .
 Contudo ,

 segundo o autor , no seria propriamente isso o que Wittgenstein

 pretendia quando se perguntava pelo uso das palavras , tentando escapar

 de um idealismo filosfico ou de um " lingualismo " estril .
 Este

 parecia estar s voltas com uma percepo menos totalizadora da

 linguagem , marcada sobretudo pela defesa do princpio

 verificacionista , ou mais complexa , fundamentada principalmente nos

 limites entre a linguagem e o mundo referido ou produzido .

 " O apogeu das sentenas " tem incio com o fracasso do princpio

 verificacionista , o " critrio empirista do significado " , e com as

 freqentes dvidas sobre a preciso dos significados , o " problema da

 variao do significado " .
 C. G. Hempel , por exemplo , acreditava na

 traduo de significados para uma linguagem " empiricamente pura " ,

 embora considerasse o ato de traduzir como algo nem sempre claro ou

 fcil .
 Outros exemplos so destacados por Hacking acerca da passagem

 para esse ltimo apogeu .
  o caso da disputa entre Malcolm e Putnam

 quanto ao problema sobre os sonhos .
 Assim , Malcolm declarou que os

 significados mudam quando sonhamos e estamos despertos para conferir a

 eles " novos critrios " de sentido , " outros modos de perceb-los " .

 Enquanto Putnam defendeu a imutabilidade dos significados onricos e ,

 por outro lado , que apenas descobrimos " mais sobre eles " .

 Hacking considera que W. V. O. Quine , " o mais notvel crtico dos

 significados " , inicia suas investigaes com base na natureza da

 verdade matemtica e no em uma teoria pura dos significados .
 Mais

 uma vez , Hacking exemplifica tal argumento referindo-se a teses de

 autores , como Frege e Wittgenstein , e daqueles pertencentes ao Crculo

 de Viena .
 Para Frege , ento , a aritmtica  dedutvel de definies e

 leis gerais da lgica , ou seja ,  analtica .
 As leis da lgica seriam

 subprodutos degenerados das nossas notaes , de acordo com

 Wittgenstein .
 Mas , uma espcie de aliana entre essas duas correntes

 de pensamento somente  atribuda ao Crculo de Viena .
 Conforme esta

 escola , a verdade matemtica  " verdadeira por conveno " , ou seja , 

 efeito de fatos sobre a linguagem .
 Enquanto Quine , por sua vez ,

 acabou demolindo as noes de analiticidade e verdade por conveno .

 Para tanto , realizou uma crtica mais geral dos significados que

 inclua uma teoria da indeterminao da traduo .

 Segundo Quine , " o conhecimento  um tecido de sentenas " , ou seja , a

 comunicao ocorre sob inter-relaes de sentenas , malgrado as

 homonmias , o " embuste " ou confuso de significados .
 Nesse sentido ,

 Hacking faz ainda uma associao entre Quine e Feyerabend , respeitando

 a especificidade de ambos , uma vez que o primeiro partiu do Crculo de

 Viena para elaborar sua crtica e o segundo , da escola de mecnica

 quntica de Copenhague .
 Para Hacking , ambos se oporiam  metodologia

 positivista mas acabam recaindo em um certo positivismo .
 Eles

 concordariam em afirmar que a experincia determina as aes e as

 sentenas do observador , adornadas por significados .
 Hacking afirma

 que so as sentenas , no os " enunciados observacionais " do

 experimentador , que decidem a escolha entre teorias .
 Por exemplo , ao

 contrrio de Quine , Feyerabend diz que a traduo  algo difcil , a

 ponto de antes ser preciso dominar uma teoria que tentar traduzi-la .

 De acordo com Hacking , o equilbrio entre essas duas perspectivas 

 obtido por Davidson .
 Ele retoma o significado e prope uma teoria da

 traduo em uma teoria da verdade .
 Entretanto , Davidson nunca se

 perguntaria pelos significados das sentenas , mas pelas condies de

 verdade destas .

 Contudo , Hacking alerta que " no se pode confiantemente anunciar a

 morte do significado " , uma vez que este pode ser retomado por estudos

 atuais fundamentados em Witttgenstein , Frege ( por Michael Dummett ) e

 Quine .
 Ainda segundo Hacking , H. P. Grice realiza investigaes que

 perpassam ainda a questo do significado , embora de uma maneira

 particular e um tanto behaviorista , ou diversa daquela dos estudiosos

 do " apogeu dos significados " .
 No " apogeu das sentenas " , Grice relata

 que a ao explica o significado de uma sentena e que esta nunca 

 suprema .
 Assim , o discurso pblico seria explicado pelas intenes

 dos falantes e as crenas dos ouvintes , no sendo o portador exclusivo

 da comunicao .

 Hacking retorna ao " apogeu das sentenas " , permeado por crticas

 positivas e negativas ao significado , e afirma que " o prprio

 conhecimento tornou-se sentencial " .
 Mas , isso no remete  supremacia

 da sentena .
 Conforme Hacking , seria preciso escapar de duas

 perspectivas extremas , o idealismo e o lingualismo .
 Para os

 defensores do idealismo toda realidade  ideal ( Berkeley ) , ou seja ,

 at mesmo os existentes que no somos capazes de perceber , como um

 Saci ou a nossa nuca , tornam presente a ns uma idia que podemos

 " perceber " .
 Algo seria real somente porque entrou no processo de

 comunicao .
 Enquanto para os simpatizantes do lingualismo , apenas as

 sentenas so reais , como se elas tambm no fossem passveis de

 construo ou interpretao e tampouco de mudana .

 Quanto  passagem do apogeu das idias ao das sentenas , Hacking diz

 ainda que P. F. Strawson , assim como Quine , outros individualistas e

 filsofos burgueses do sculo XVII , compartilham de um certo

 anacronismo em relao ao tecido das sentenas .
 Para eles , o " nosso "

 conhecimento , expresso em sentenas ,  possudo por " indivduos " que

 no o dominam totalmente , ou seja , ele  propriedade de corporaes ou

 correntes de pensamento , essencialmente pblico embora iniciado no

 mbito privado .
 Nesse sentido , Hacking salienta que tal anacronismo

 pode conduzir  desconsiderao do " sujeito cognoscente " , at ento ,

 como elemento central em termos de conhecimento objetivo .
 Segundo

 ele , Karl Popper  um dos filsofos contemporneos que realiza tal

 empreendimento .
 Popper , em sua " Epistemologia sem um sujeito

 cognoscente " , considera que o conhecimento objetivo nada mais  que um

 entrelaamento de sentenas .
 De maneira que o " mundo fsico " ( dos

 produtos corporativos da humanidade ) interage com o " mundo dos

 contedos lgicos " ( de livros , bibliotecas , memrias de computador ,

 etc. ) , o qual seria autnomo em relao ao " mundo de nossas

 experincias conscientes " .
 Por ser o mundo intermedirio das

 impresses do sujeito ( confusas , imprecisas e mutveis ) e , portanto , o

 que inviabiliza toda objetivao , esse ltimo " mundo " seria

 progressivamente descartado como fonte do conhecimento .

 Mas , Hacking assinala algumas semelhanas entre o apogeu das idias e

 o das sentenas .
 Ele considera , por exemplo , que as " idias " em

 Espinosa e as " sentenas " em Popper so a interface entre o conhecido

 e o conhecedor , ou antes a prpria natureza do conhecimento .
 Alm

 disso , se o primeiro confere autonomia s idias , o segundo o faz para

 com as sentenas .
 Contudo , o autor no deixa de salientar que Popper

 discorda da tese hackingiana referente  mudana do prprio modo de

 conhecer .
 Segundo Popper , muitos filsofos " ignoram conscientemente "

 o mundo da sentena ou dos contedos lgicos que partilham , apenas

 partindo dele .
 Em outros termos , uma transformao no conhecimento

 seria apenas uma mudana de grau .
 Contrariando Popper , Hacking afirma

 que nem sempre existiram " livros , bibliotecas e memrias de

 computador " , as expresses do conhecimento objetivo atual , do mundo

 dos contedos lgicos .
 Filsofos antigos , como Aristteles , tinham

 seus ensinamentos apropriados por alunos ou narrados , no perodo da

 oralidade , anterior  difuso da escrita , a qual no dissolveu perdas

 e danos ao conhecimento dito objetivo .
 Nesse sentido , Hacking

 concorda com estudiosos da tecnologia da comunicao , como Marshall

 McLuhan .
 Ele teria relacionado bem a inveno da imprensa e do

 computador , respectivamente ,  alterao dos rumos da Revoluo

 Cientfica do sculo XVII e da instncia da sentena , na passagem da

 " Galxia de Gutenberg " , com a imprensa , para a " Aldeia Global " , com a

 informatizao do saber .

 Hacking conclui sua tese , a defesa de um " conhecimento autnomo

 essencialmente sentencial " , com a proposta de uma investigao das

 transformaes no tecido das sentenas .
 Segundo ele , algo j iniciado

 por L. Althusser e Michel Foucault , quando este considera discursos

 " annimos " em diversas pocas e lugares , singulares pelo " que  de

 fato dito " , constitudo com e sem as instituies sociais , jamais pelo

 " que eles querem dizer " , supostamente oferecer a interpretaes de

 fato construdas .
 As condies de possibilidade de um discurso seriam

 aquelas do dizer , de suas sentenas .
 Tais condies participariam do

 discurso presente , por exemplo , cuja provenincia no  exclusiva de

 um sujeito onisciente e onipotente , nem  efeito privilegiado de um

 conhecimento absoluto , totalizador .
 As sentenas de um discurso no

 seriam ento o mero instrumento para comunicarmos , compartilharmos

 experincias .

 Com base no que denominou apogeu das idias , dos significados e das

 sentenas , Hacking explana porque a linguagem vem interessando 

 filosofia .
 O mero estudo de uma " interface entre o conhecedor e o

 conhecido " parece ceder .
 Ao invs de partirmos do par sujeito e

 objeto de conhecimento teramos pela frente a constituio do

 conhecimento humano , sobretudo do ponto de vista da implicao de

 sentenas em discursos .

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 Rosane da Conceio Pereira  mestre em Comunicao Social pelo

 Mestrado em Comunicao , Imagem e Informao , no Instituto de Arte e

 Comunicao Social , da Universidade Federal Fluminense - IACS / UFF .

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