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 Ciberlegenda Nmero 10 , 2002

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 EXPLORAES SOBRE A PROBLEMTICA EPISTEMOLGICA NO CAMPO DAS CINCIAS DA

 COMUNICAO ( * )

 .

 Alberto Efendy Maldonado

 alefma@icaro.unisinos.br

 ^

 1 .
 A necessidade de uma epistemologia histrica

 As problematizaes terico / metodolgicas e gnosiolgicas sobre o

 campo de cincias da comunicao demandam a construo e o

 aprofundamento de perspectivas histricas na estruturao de suas

 pesquisas. [ 1 ] A conceptualizao da cincia como um tipo de prtica

 social permite pensar os problemas e os contextos mltiplos de sua

 realizao em termos objetivveis , analisando configuraes concretas

 ( institucionais , organizacionais , estruturais ) ; estratgias de

 poltica cientfica definidas ; condies de produo de conhecimentos

 reais ; sujeitos construtores de saberes caracterizveis ; geopolticas

 cientficas analisveis e reformulveis .
 Situar as problemticas

 epistmicas na histria , construindo-a simultaneamente , torna-se ,

 nessa perspectiva , condio imprescindvel para a sua compreenso .

 Significa que essa  uma premissa para pensar outros problemas

 substanciais , j que no  possvel problematizar : questes lgicas

 ou argumentativas , aspectos lingsticos , elementos da formao dos

 pesquisadores , transdisciplinaridade , " limites " , transmetodologias ,

 filosofemas comunicacionais , pertinncia ao campo e estruturao de

 condies bsicas para a produo cientfica , sem formular argumentos

 sustentados em pesquisa epistmica histrica que brinde subsdios

 fortes de conhecimento sobre os processos de configurao do campo ,

 nas suas heterogeneidades , conflitos , tendncias , negociaes ,

 perspectivas metodolgicas e modelos tericos .

 Nessa perspectiva de reflexo e construo do campo , constatamos a

 necessidade ( o carter imprescindvel ) de estruturar linhas de

 investigao epistemolgica definidas como pesquisa da pesquisa .
 Essas

 linhas no devem ser compreendidas no contexto dos relatrios

 quantitativos / descritivos ; nomeados como " diagnsticos " de situao da

 pesquisa , que no superam o nvel de resumos e resenhas superficiais

 ou burocrticas e tm provocado significativas distores sobre a

 realidade da rea .

 A pesquisa da pesquisa prope-se numa perspectiva epistemolgica

 histrica / gentica / construtiva / poltica que problematiza os paradigmas

 e modelos tericos , explicitando-os na sua configurao interna

 - sistemas de hipteses , categorias , conceitos e noes - e

 vinculando-os com as suas fontes de conhecimento precedentes e

 contemporneas .
 Isso significa problematizaes tericas aprofundadas

 que estudem com respeito , sistematizao e senso crtico os argumentos

 tericos de cada modelo , realizando uma desconstruo minuciosa - que

 requer de tempos lgico-reflexivos adequados ao amadurecimento da

 pesquisa - e reformulando questes tericas em inter-relao com

 outras vertentes conceptuais importantes para as problematizaes em

 comunicao .

 A dimenso terica da investigao extrapola , assim , a reproduo

 cmoda de raciocnios tericos ( longas parfrases ; vulgarizaes ;

 " ismos " e a crtica irresponsvel / superficial / ftua ) , buscando

 compreender os fundamentos na sua dimenso de realizao e formulando

 em processo construtivo hipteses , noes e argumentos que se

 estruturam a partir da pesquisa de modelos tericos relevantes .

 A pesquisa terica  uma exceo na rea da comunicao .
 O empirismo e

 o pragmatismo vulgar tm influenciado fortemente a pesquisa no campo ;

 simultaneamente o teoricismo , caracterizado pela voluptuosidade

 literria e a proliferao de idias sem argumentao forte , tambm

 tm afetado a rea ( confuso intensa entre forma simblica e

 episteme ) .
 Essas prticas de intelectualismo abstruso tm sido um dos

 principais fatores de rejeio da prxis terica em comunicao ,

 fortalecendo as posturas funcionalistas e empiristas no campo .

 A pesquisa terica em comunicao , paradoxalmente , estabelece

 necessidades constantes de fundamentao emprica .
 A mera especulao

 teortica tem-se mostrado insuficiente , pouco frutfera ,

 argumentativamente fraca e socialmente irrelevante .
 Isso no

 significa que a pesquisa sobre histria das cincias ; diversidades

 filosfico / conceptuais ; modelos tericos ; redes de categorias ,

 conceitos e hipteses perca importncia , ou seja de uma ordem

 secundria , muito pelo contrrio essas reas de investigao so

 substanciais e devem ser fortalecidas .
 O problema  que , seguindo uma

 linha teortica especulativa generalista , enfraquecemos as dimenses

 terica , metodolgica e conseqentemente epistemolgica de nosso

 campo .

 As junes entre a dimenso terica e a dimenso metodolgica exigem

 uma labor sistemtica de construo .
 No  possvel fazer imerses e

 reformulaes tericas de flego , que apresentem interessantes

 argumentaes sem articul-las com estratgias metodolgicas fortes .

 Apesar do reconhecimento formal , sobre a importncia do nvel

 metdico , este continua abordado em termos instrumentais e

 secundrios .
  muito difcil encontrar problematizaes metodolgicas

 vinculadas com a estrutura terica e com a problematizao emprica .

 Os formatos de realizao continuam reproduzindo separaes postias

 de nveis , o terico torna-se exerccio retrico de falsa erudio e o

 estratgico / metdico reduz-se a aplicao de ferramentas .

 A construo epistemolgica do campo das cincias da comunicao passa

 pelo reconhecimento - construdo mediante pesquisas histricas

 sistemticas - das estruturaes , realizaes , estratgias e contextos

 que configuraram as diversas comunidades de pesquisadores , pensadores

 e cientistas ( construtores da rea ) .
 A pesquisa epistemolgica ,

 assim , investigando a investigao ; pesquisando a produo terica ;

 desconstruindo as estratgias metodolgicas e seus procedimentos de

 realizao ; e , formulando estratgias de produo de conhecimentos

 - condio crucial para garantir o fortalecimento do campo - torna

 possvel problematizar os aspectos metatericos e metametodolgicos em

 termos slidos .
 Prope-se , portanto , como premissa , investir em

 investigao terico / metodolgica histrica , como um subsdio-chave

 para uma estruturao forte das comunidades cientficas em

 comunicao .

 Essa proposio de pesquisa inclui problematizaes epistmicas que

 vo alm do micro , formulando estratgias transdisciplinares de

 construo como condio para o desenvolvimento construtivo do campo .

 No obstante , ao mesmo tempo , precisa-se trabalhar com

 problematizaes que estabeleam distines , identidades , focos e

 traos em relao a outras reas e campos de conhecimento .
 A

 identidade do campo define-se em relao com os outros ,  a partir

 dessa inter-relao que os focos , " limites " , pertinncias , distines ,

 caractersticas , nfases e eixos so objetivveis e possveis de

 definir .

 O posicionamento gnosiolgico da comunicao numa dimenso de

 ultrapassagem de diversos campos do conhecimento , tem provocado

 confuses , conflitos e desvios peridicos sobre a definio da

 comunicao como uma rea de saberes .
 O fato  que a riqueza de

 aspectos , processos e fenmenos que podem ser problematizados numa

 perspectiva comunicacional , tem dificultado uma definio abrangente e

 reconhecida .
 So comuns os logocentrismos e os etnocentrismos

 semiticos , sociolgicos , literrios , psicolgicos , antropolgicos ,

 econmicos , jurdicos , polticos , tcnicos , pragmticos e

 informacionais .
 Uma Babel de concepes , caractersticas e sentidos

 sem maior disposio para um dilogo epistmico .

 A problemtica da diversidade e da transdisciplinaridade no campo , tem

 como um fator constitutivo importante o processo de migrao de

 pensadores / pesquisadores e profissionais de outros campos para compor

 o campo da comunicao , essa caracterstica no lugar de facilitar um

 dilogo e intercmbio entre disciplinas e conhecimentos , tem

 facilitado as confuses e logocentrismos , buscando defender parcelas

 de saberes como lugares basilares de estruturao .
 A fraqueza

 terica / epistmica na comunicao tem condicionantes histricos : 1 )

 campo recente de reflexo ; 2 ) setor povoado de prticas instrumentais

 de saber / fazer tcnico ; 3 ) rea gerada e estruturada mediante

 explicaes geopolticas : o campo miditico construiu-se intensamente

 vinculado ao poder poltico hegemnico em todas as partes do mundo , na

 Amrica Latina sua instaurao , organizao e desenvolvimento esteve

 vinculada aos projetos autoritrios , populistas e " coronelistas " com

 apoio do complexo militar / industrial estadunidense .

 O pensamento em comunicao na regio nas dcadas de 1950 e 1960 ,

 poca da institucionalizao da pesquisa em comunicao na regio , foi

 fundamentado , auspiciado e dirigido pelos organismos especializados

 estadunidenses .
 Os modelos tericos , as premissas , as metodologias ,

 os procedimentos , as perguntas , as hipteses , a infraestrutura e os

 apoios financeiros eram definidos , planejados e controlados pelos

 institutos do governo dos Estados Unidos. [ 2 ] Os modelos crticos

 hermenuticos , semiolgicos , lingsticos , sociolgicos ,

 antropolgicos e polticos s conseguiram uma insero inicial na

 segunda metade da dcada de 1960. [ 3 ] A constituio do campo na

 Amrica Latina tem essas marcas histricas , estratgicas e

 conceptuais ; o choque de perspectivas , vises de mundo , formulaes

 polticas , modelos tericos e procedimentos metodolgicos tem sido uma

 constante na regio .
 A efervescncia sociocultural e poltica  um

 fator contextual que intervm significativamente na estruturao das

 condies de produo cientfica ; tanto na gerao de obstculos

 sistmicos quanto na inspirao e energia para problematizar as

 concepes comunicolgicas e o mundo. [ 4 ]

 Nas trs ltimas dcadas do sculo XX constatamos um crescimento

 explosivo das instituies de ensino e pesquisa em comunicao .
 A

 partir de 1970 com o governo socialista de Salvador Allende , no Chile ,

 vamos ter uma experimentao sociopoltica comunicacional intensa ,

 unida  formao de centros de pesquisa , institutos , meios de

 comunicao alternativa e projetos editoriais de cobertura

 continental .
 Amrica Latina  pensada e politizada como uma unidade

 sociocultural que deve ser reformulada e construda em formatos

 alternativos  ptica liberal ; lamentavelmente as fundamentaes

 polticas crticas no tinham suficientes elementos de compreenso e

 transformao das realidades concretas ; no caso da comunicao essa

 situao levou ao denuncismo e  reduo das problemticas

 comunicacionais a questes econmico / polticas , administrativas e

 partidrias .

 Foi assim que a falta de experincia em gesto de governo e em

 processos estratgicos miditicos levou  implementao de polticas

 burocrticas e conservadoras no seio da experimentao socialista .
 Os

 mtodos semiolgicos estruturalistas , por exemplo , foram vulgarizados

 e aplicados de forma ortodoxa , de acordo com as convenincias

 polticas .
 O funcionalismo , o positivismo e o estruturalismo

 atravessaram o pensamento crtico e constatou-se a reproduo de

 frmulas , procedimentos e concepes hegemnicas nas prticas

 alternativas e populares .

 As propostas de uma Nova Ordem Internacional da Informao e a

 Comunicao ( NOMIC ) , na qual os pensadores latino-americanos da rea

 tiveram importante participao , encontraram uma fortssima resposta

 do projeto de hegemonizao estadunidense , a ideologia e as

 estratgias do free flow information conseguiram neutralizar e

 desorganizar a fora que tinha adquirido esse modelo renovador para o

 campo da comunicao .
 O carter de servio pblico , democrtico ,

 inovador das formas culturais e da transformao social foi vencido

 pela lgica mercadlogica , que teve sua expanso nas dcadas de 1980

 e 1990 ampliando um fazer miditico made in USA na Amrica Latina

 - modelo comercial , vinculado aos grandes oligoplios transnacionais -.

 Pode parecer que esses arranjos empresariais pouco tem a ver com

 pensamento e campo de pesquisa em comunicao , porm a realidade 

 outra .
 As universidades , cursos , institutos , centros e fundaes

 esto inseridos num contexto mercadolgico forte ; esse fator

 condiciona direta ou indiretamente formas de pensamento e

 procedimentos de pesquisa : basta observar a fora do quantitativismo

 superficial e emprico nos currculos ; identificar os modelos tericos

 assumidos como referncia de estudo e pesquisa ; situar os

 comportamentos de mestres , tcnicos e pesquisadores no conjunto das

 instituies do campo .

 A ps-graduao em comunicao tem sido um contraponto importante ,

 principalmente no Mxico e no Brasil , ao superficialismo e pragmatismo

 vulgar que caracterizam a rea de estudos em comunicao .
 Contudo , h

 muito ainda por construir .
 Embora os programas referncia de

 ps-graduao em comunicao na Amrica Latina sejam de primeiro nvel

 no contexto internacional , sabemos que a rea no conjunto mundial

 ainda tem precariedades significativas .
 Nesta perspectiva , a

 fundamentao e desenvolvimento de uma epistemologia da comunicao

 torna-se crucial para os avanos estratgicos do campo .
 Pensar a

 comunicao em termos metatericos e metametodolgicos : refletir ,

 avaliar , reformular , desconstruir , argumentar criticamente , desenhar

 estratgias para a resoluo de problemticas fortes , tanto na

 dimenso conceptual quanto na sua relevncia sociocultural  um

 desafio da conjuntura contempornea .
 So tempos de significativas

 transformaes em todas as ordens da vida contempornea ; no campo

 cientfico a possibilidade de gerar uma cibercultura forte , que

 desenvolva as comunidades de conhecimento na Amrica Latina  uma

 realidade palpvel j no nosso dia a dia .
 A epistemologia da

 comunicao no pode ignorar este aspecto estratgico , ele muda

 consideravelmente as condies de produo de conhecimento no conjunto

 das reas e possibilita amadurecer projetos e comunidades de pesquisa

 com a interveno dos atores e equipes mais qualificados da regio .

 Os fluxos humanos , que nos primrdios da globalizao correspondiam as

 necessidades financeiras do capital e  excluso social , so hoje

 dinmicas que tm um potencial qualitativo que permite a organizao e

 realizao de projetos integrados entre pesquisadores de vrios

 pases .

 Ao mesmo tempo que constatamos a crise dos sistemas de confiana no

 Primeiro Mundo , das empresas paradigmticas da nomeada nova economia e

 a quebra das principais companhias areas estadunidenses , observamos

 uma interessante circulao e dilogo entre pesquisadores

 latino-americanos em comunicao .
 Esses contatos , na maioria dos casos

 indiciais , de explorao e reconhecimento possibilitaro o desenho de

 polticas pertinentes para a configurao de redes de pesquisa e

 pensamento que se constituam em alicerces do conhecimento

 comunicacional na Amrica Latina .

 A reflexo histrica sobre a produo de saberes na regio obriga-nos

 a situar o pensamento crtico como um aspecto epistmico relevante

 para o desenvolvimento de estratgias cientficas nas cincias da

 comunicao .
 Economia poltica dos sistemas miditicos ; processos de

 significao social ; configuraes tecnoculturais contemporneas ;

 estruturao de campos e comunidades de sentido ; construo de poderes

 simblicos ; lgicas e estratgias de produo miditica ; midiatizao

 do mundo , hegemonia informacional ; fluxos , circulao e dispositivos

 de controle ; redes , sistemas e comunidades de produo de

 conhecimentos , comunicao e informao ; polticas socioculturais e

 comunicao ; tica e transformao social so , entre outras

 problemticas , temticas articuladoras de um olhar aprofundado para

 alternativas de construo de heterotopias exeqveis .
 Hoje 

 possvel identificar com seriedade as limitaes prprias de todo

 conhecimento humano ; depois de vrios sculos de modelos totalizantes ,

 importantes posturas gnosiolgicas amadureceram em termos de

 diversidade lgica e metodolgica e ampliaram as problemticas

 tericas , inserindo vrios modelos , tradies , sistemas e redes

 conceptuais na gerao de hipteses , na formulao e resoluo de

 problemas e no dilogo construtivo de campos de saber .

 Uma das grandes diferenas com quatro dcadas atrs  que ningum vai

 pretender fundar uma cincia unvoca , total , acabada e formal nas

 cincias humanas , sociais , da linguagem e da comunicao .
 O

 reconhecimento dos traos , dos campos e das dimenses tem sido um

 passo importante na definio de pertinncias , flexibilidades ,

 misturas e alternativas de fundamentao terica .
 As estratgias

 formais , especulativas e dedutivas deram passo s problematizaes

 exploratrias , experimentais , pragmticas , construtivas e

 hermenuticas que situam a comunicao em processos socioculturais e

 de significao vinculados com sistemas tecnoculturais .

 A investigao dos processos comunicacionais contemporneos 

 configurada pelas exigncias dos objetos / problema que as realidades

 histricas e sociais apresentam .
 Essas construes culturais definem

 dois aspectos cruciais de sua estruturao : a midiatizao do mundo

 por meio de sistemas tcnicos de informatizao , controle e produo

 de bens simblicos , nos quais o campo das mdias  chave para a

 problemtica da comunicao contempornea ; e , a compreenso dos

 processos de produo de sentido nos contextos mltiplos das mediaes

 - sociossemitica , antropologia , histria , sociologia da cultura ,

 esttica , pragmtica , anlise do discurso , crtica literria ,

 filosofia da linguagem , hermenutica , retrica e axiologia convergem

 para pensar o sentido - a teoria das mediaes reconstri mediante uma

 dialtica precursora e construtiva fragmentos de saberes dispersos ,

 definindo a Cultura como a mediao central articuladora dos complexos

 de contextos nos quais os sujeitos sociais interagem produzindo

 significaes. [ 5 ] Vai ser o choque epistmico entre saberes formais /

 acadmicos e processos comunicacionais produtores de sentido por

 grupos humanos concretos em interaccionalidade com as mdias o que

 provoque situaes de descoberta e reformulao no pensamento

 comunicacional , as significaes construdas pelas audincias

 observadas pouco tinham a ver com a lgica dos analistas. [ 6 ] A

 impotncia interpretativa real provocou deslocamentos. [ 7 ]

 Nas ltimas dcadas do sculo XX tivemos na Amrica Latina processos

 contraditrios de amadurecimento e crescimento do campo de pesquisa em

 comunicao [ 8 ] e , ao mesmo tempo , momentos de ceticismo ,

 conservantismo e at autismo intelectuais .
 A fortaleza crtica do

 pensamento em comunicao latino-americano perdeu sua vitalidade na

 dcada de 1990 ; paradoxalmente o trabalho de sistematizao ,

 organizao e institucionalizao da pesquisa na regio desenvolveu

 parmetros e diretrizes autnomos em relao com o modelo hegemnico .

 A experincia e a fora da pesquisa crtica impediu uma adequao

 fcil aos modelos administrativos , mercadolgicos e funcionais

 propostos pelos arautos do neoliberalismo comunicacional ; a madurez de

 pensamento e a fora da experincia permitiu que as principais

 diretrizes incluam valores substanciais de rigor , tica e crtica nas

 novas condies de produo de conhecimentos .

 No Brasil constatamos a expanso e consolidao de uma rea de

 conhecimento , que iniciou seu processo de institucionalizao em

 vrias regies do Brasil nutrindo-se da experincia de estruturao de

 pesquisa em So Paulo , Rio de Janeiro e Braslia. [ 9 ] Em 2002 temos

 programas de ps-graduao stricto sensu nas regies sudeste , sul ,

 nordeste e centro do Brasil , configurando um potencial de produo de

 conhecimentos interessante ; estamos longe de uma maturidade de campo ,

 mas ao mesmo tempo o construmos em posies de avanada , explorando e

 questionando-nos por meio de contnuos ensaios esforados as melhores

 estratgias , experimentos , modelos e alternativas histricas para

 fundamentar e estruturar uma comunidade cientfica forte , que gere uma

 cultura de investigao relevante no contexto internacional .

 Ao mencionar o Brasil , penso nele como o " irmo cientfico " mais

 experiente da Ptria Grande Amrica Latina .
 As pesquisas histricas

 constatam [ 10 ] que as articulaes devem considerar as comunidades com

 maior tradio e experincia para construir uma comunidade cientfica

 em comunicao na Amrica Latina .
 Essas investigaes sobre o estado

 da pesquisa na regio comprovam que Mxico , Colmbia , Argentina e

 Brasil apresentam as melhores condies para essa estruturao do

 campo .
 Os processos precursores , fragmentados e pontuais ( congressos ,

 encontros , seminrios ) encontram na atualidade condies

 infraestruturais para a realizao de projetos sistemticos de carter

 transnacional na regio .
 Nessa tica , uma das propostas estratgicas

 de desenvolvimento do campo  a estruturao de um projeto

 latino-americano de comunidade cientfica , que recolhendo as

 experincias de ALAIC , FELAFACS , INTERCOM , COMPS , AMIC e outras

 organizaes de pesquisadores nos diferentes pases supere essa

 primeira fase e construa um campo forte na regio .

  imprescindvel quebrar as heteronomias econmicas , polticas ,

 tcnicas e culturais formulando estratgias metodolgicas integradoras

 das problemticas locais numa visualizao epistemolgica de conjunto ,

 que combine o local , nacional e regional em projetos de pesquisa de

 relevncia e impacto sociocultural e poltico .

 Em todas as ordens da existncia humana e , em especial , no campo

 cientfico a Unio Latino-Americana torna-se na atual conjuntura

 histrica um requisito bsico de sobrevivncia e possibilidades de

 futuro ; um outro mundo  possvel e dentro dele a construo da Ptria

 Grande ser significativa .

 Alguns estaro perguntando-se : os tericos , os grandes mestres , seus

 modelos onde ficam neste quadro " historicista que pouco tem a ver com

 cincia e muito com polticas " ?.
 O respeito pelo pensamento e os

 conhecimentos que nos ofereceram os cientistas suscitadores do campo

 da comunicao leva-nos  responsabilidade e ao desafio de reconstruir

 uma dimenso terica , que articule saberes transdisciplinares com

 processos socioculturais .

 Um objetivo de sustentao das propostas socioistricas sobre o campo

  estruturar e dinamizar as condies bsicas de produo de

 conhecimentos , elemento necessrio para pensar em qualquer

 desenvolvimento terico / metodolgico .
 A epistemologia 

 substancialmente prxis cientfica , no mero jogo de enunciados

 formais , lingsticos ou especulativos .
 Os conceitos precisam de

 construtores , sujeitos histricos com forte estimulao para produzir

 saberes .
 A pesquisa terico / metodolgica necessita de tempos lgicos

 e histricos considerveis , formar um pesquisador no  coisa de um

 binio ou de um trinio , a maturidade e autonomia em investigao

 cientfica requerem entre uma dcada e trs lustros pelo menos .
 A

 histria apresenta constantes e singulares exemplos sobre a

 necessidade de experimentao , reflexo e participao em projetos ,

 laboratrios e investigaes integradas como ambiente e recurso bsico

 da construo de campos e pesquisadores .
 A ruptura com a escolaridade

 escolstica , com o formalismo administrativo , com a pesquisa

 superficial / empirista , com o positivismo lgico e conceptual supe o

 estabelecimento de dimenses , cenrios , ambientes , tempos / espaos que

 sejam pertinentes para a prtica terica e metodolgica sistemtica ,

 inventiva , rigorosa , potica e comprometida .

 2 .
 O compromisso transmetodolgico

 O prefixo trans acompanhando uma srie de noes ou " definies " tem

 sido um recurso retrico habitual para esconder a falta de seriedade ,

 rigor , responsabilidade , aprofundamento e sistematizao nos campos da

 cincias sociais , humanas e da comunicao .
 O transdisciplinar tem

 sido um recurso fcil para substituir a pesquisa terica e

 metodolgica pela apropriao cmoda de enunciados , slogans ,

 metforas , noes e esquemas .
 A " autoridade " que daria supostas

 " verdades " provenientes das cincias naturais tem configurado

 posicionamentos de submisso logocntrica , levando  formao de

 comunidades , s vezes seitas , de ritualizao de discursos sobre a

 cincia que em alguns casos constituiram-se em graves obstculos para

 uma produo sria de conhecimentos .

 A problematizao terica , nesses casos , foi substituda pela adoo

 de chaves e esquemas que prejudicaram um desenvolvimento

 transdisciplinar .
 Continuam atuando prticas desse tipo e existem

 dimenses ideolgicas totalizantes que pretendem atribuir a um autor

 ou escola a centralidade e fundamentao bsica da

 transdisciplinaridade ; [ 11 ] esse tipo de teorismo especulativo

 sustenta-se numa combinao de jogos literrios e o uso superficial de

 idias provenientes das cincias naturais .
 No campo das cincias da

 comunicao as influncias dessas prticas e modelos expandiram-se em

 setores formados e acostumados a procedimentos especulativo / retricos ,

 cujo posicionamento pode caracterizar-se como o de uma " douta

 ignorncia " sobre os processos socioculturais , histricos , polticos e

 comunicacionais. [ 12 ]

 Uma reformulao terica-transdisciplinar supe o reconhecimento do

 trans como uma problemtica vinculada  categoria de movimento , um

 movimento que ultrapassa " fronteiras " a partir do conhecimento

 profundo dos problemas / objeto de pesquisa setoriais , porque as

 ultrapassagens tm previamente posies gnosiolgicas , metodolgicas e

 sociolgicas que alcanaram um grau de maturidade na sua fundamentao

 prpria , trabalhando na construo de problemticas pertinentes ,

 sistematizando seus procedimentos de pesquisa e construindo redes de

 argumentos tericos fortes .

 Coloca-se como uma premissa do conhecimento , a partir de uma

 perspectiva metodolgica transdisciplinar , o trabalho de construo de

 um conhecimento especializado num campo ou numa rea da cincia .

 Desse modo , no  possvel desenvolver uma linha transdisciplinar nas

 cincias da linguagem , por exemplo , sem pesquisar , compreender ,

 desconstruir , reformular , apropriar-se das propostas de fundao de

 um Ferdinand de Saussure , de um Charles A. Peirce e das formulaes

 tericas das principais escolas e comunidades lingsticas. [ 13 ] Como

 tambm no  pertinente iniciar uma argumentao em cincias sociais

 sem conhecer as teorias de Karl Marx , Auguste Comte , Max Weber , Emilie

 Durkheim e as problematizaes das diferentes escolas compreensivas ,

 estruturalistas , marxistas , funcionalistas e positivistas sobre o

 conhecimento do social .
 Em todas as reas do conhecimento 

 inevitvel fazer uma caminhada de reconstruo histrica ,

 terico / metodolgica e epistmica que permita compreender as

 conceptualizaes relevantes do campo e as principais estratgias e

 modelos que se constituem em ponto de partida de qualquer

 problematizao na rea .

 Repetir frases conclusivas sobre aspectos , detalhes ou mesmo

 argumentos de uma determinada teoria fsica , biolgica , matemtica ou

 qumica transforma-se num exerccio discursivo , que nem sequer se

 constitui numa forma adequada de divulgao cientfica ; consegue sim

 reproduzir as velhas formas do discurso dogmtico , fundamentalista e

 totalizante .
 A prxis cientfica exige realizar pesquisas concretas ,

 problematizadas em profundo vnculo com o real , situando tanto a

 teoria quanto o emprico como problema a construir e no como

 repetio de frmulas ou preceitos generalistas e vcuos .

 No campo das cincias da comunicao essa particularidade  um

 paradoxo .
 Os conjuntos de conhecimentos sobre as problemticas

 comunicacionais so muito recentes , historicamente os processos

 comunicacionais , como estruturas sistmicas de ampla abrangncia

 social , so uma realidade construda a partir da segunda metade do

 sculo XVIII , s no sculo XX as infraestruturas de base alcanaram

 uma presena que potencializou uma centralidade e penetrabilidade

 considerveis no conjunto dos campos sociais .

  interessante constatar como o funcionamento dos sistemas industrias

 de comunicao e o conseqente mercado de bens simblicos que gerou

 foram o fator principal suscitador da pesquisa sobre o

 comunicacional .
 As transformaes culturais provocadas pelas

 estruturaes dos meios de comunicao so um fenmeno de curta

 histria .
 No obstante , observamos que a intensidade dos fluxos , a

 dinmica miditica e o poder simblico estruturaram uma dimenso de

 atrao paradigmtica de outros campos e sujeitos .
 A expanso dos

 institutos e empresas de ensino , pesquisa e produo comunicacional

 tem sido desmensurada ; esse fenmeno responde s em parte s lgicas

 dos mercados e dos sistemas contemporneos , em muito configura-se e

 fortalece-se por campos de efeitos simblicos que geram a iluso do

 comunicador como prncipe , heri , poderoso , belo , sbio e engenheiro .

 O poltico , o artista , o cientista , o tcnico e o industrial

 condensa-se no smbolo comunicador .
 Poder , desejo , transcendncia ,

 conhecimento e vitalidade adquirem uma configurao que ultrapassa de

 forma avassaladora o conjunto dos campos sociais , de seus

 imaginrios , das racionalidades e dos discursos na

 contemporaneidade .

 Essas caractersticas tm gerado uma forte tendncia ao pragmatismo e

 empirismo vulgares nas prticas de estudo e exerccio da comunicao ,

 vai ser no contexto das ps-graduaes , institutos especializados ,

 fundaes e ONGs que o pensamento comunicacional comear a superar as

 formas instrumentais e funcionais de compreenso e problematizao dos

 objetos , processos e saberes .
 A pesquisa em comunicao tem , assim ,

 as marcas do mercado e das demandas geopolticas e s nestas ltimas

 dcadas uma preocupao pela estruturao de um campo cientfico .
 O

 processo de construo de uma dimenso terico / metodolgica no nosso

 campo precisa investigar , desconstruir e formular propostas a partir

 da compreenso , crtica e reformulao dos modelos tericos e

 estratgias metodolgicas que tm sido hegemnicos na rea .
 As

 complexidades no podem esquecer ou ignorar as estruturaes

 concretas , histricas , funcionais que caracterizam traos importantes

 de nossa histria e de nosso pensamento .
 Ignorar a fora dos modelos

 estadunidenses de carter pragmtico e funcional , em nossa rea , em

 termos epistmicos ,  , para ser gentil , pelo menos um comportamento

 irresponsvel .

 O campo demanda pesquisar a pesquisa ; investigar os procedimentos ,

 concepes , realizaes e modelos histricos que participaram na

 configurao do que hoje se conhece como cincias da comunicao

 ( ainda ambgua , confusa , precria e em parte ilegtima ) .
 O

 interessante  que , apesar das negaes , conflitos e excluses ,

 existem instituies , prticas e sujeitos sociais investigando ,

 pensando e produzindo em comunicao ; o campo vai estruturando-se em

 confronto e colaborao .
 O " saber erudito " e o saber instrumental ,

 pouco a pouco , vo reconhecendo que existem dimenses de conhecimento

 que precisam de uma configurao comunicacional .

 Alm da marca positivista , as nossas estruturaes comunicacionais na

 construo de um campo de conhecimento apresenta o fenmeno das

 imigraes de pensadores .
 Ao no existir um campo formal ,

 acadmico / cientfico , portanto no ter sujeitos produtores de

 pensamento comunicacional , situados e definidos numa rea conhecida

 como tal , o que constatamos  uma presena forte de profissionais ,

 pesquisadores e pensadores de vrias reas .
 Os contextos histricos

 facilitaram as ondas migratrias de cientistas polticos , socilogos ,

 tcnicos eletrnicos , antroplogos , lingistas , psiclogos , tcnicos

 de informao , dramaturgos , artistas , filsofos , bilogos , demgrafos ,

 administradores e " marketeros " para o campo da comunicao .

 Constata-se , desse modo , uma propriedade sociocultural de atrao ,

 facilitada pelas carncias da rea e pela riqueza de possibilidades

 que ela brinda para a investigao , o conhecimento e a criao

 produtiva .
 O sociossimblico unido  fora das novas configuraes

 tecnolgicas , que o servem de suporte para a sua realizao expandida ,

 tem sido um ethos irrenuncivel para milhares de pessoas .

 Essa miscigenao , que fomentou uma promiscuidade intelectual dinmica

 tem-se mostrado geradora de obstculos e potncias para o conhecimento

 em comunicao .
 Por uma parte , tem brindado um conjunto de saberes

 importantes provenientes de outras reas , os quais mediante a presena

 nas argumentaes e pesquisas estabeleceram traos interessantes de

 reflexo ; por outra e simultaneamente , tem confundido o fazer

 comunicacional como um derivado dos fazeres na rea de origem , so

 ilustrativos os casos da lingstica aplicada ; sociologia da cultura ;

 psicologia comportamental , de grupos ; etnografia de audincias ;

 " marketing " ; " atos da linguagem " ; " filosofias da linguagem " e " teorias

 matemticas " .

 Nesta fase de construo do campo das cincias da comunicao 

 importante realizar as necessrias reformulaes

 terico / metodolgicas , necessrias  definio de um campo para

 distinguir-se dos outros , para dialogar e configurar estruturaes

 mais complexas .
  assim que os pensadores e investigadores da rea ,

 considerando a fora que vo adquirindo seus contextos de pesquisa ,

 tomando em conta as novas culturas cientficas que condicionam e

 valorizam suas pesquisas e ponderando as demandas de um pensamento

 comunicacional forte precisam redefinir-se , desconstruindo-se e

 situando-se num espao transdisciplinar articulado pelo

 comunicacional .
 Nessa tica , a perspectiva transmetodolgica que

 estamos construindo  uma proposta que busca uma articulao de

 mtodos organizados entorno de uma episteme e uma conceptualizao

 comunicacional renovadoras .

 Os problemas / objeto , as problemticas de nossas investigaes exigem

 constantemente construes estratgicas , sistematizaes lgicas que

 no podem ser abordadas por uma perspectiva excludente , instrumental ,

 linear ou especulativa .
 Os fenmenos culturais contemporneos , os

 processos miditicos , as mediaes socioculturais , a produo social

 de significaes , a fabricao seriada de mensagens , os ambientes de

 interacionalidade comunicativa , os sistemas e estruturas de

 informao , a midiatizao intensa e acelerada do mundo pedem

 definies transmetodolgicas. Aproximar-se e observar

 sistematicamente ; analisar os elementos que conformam um fenmeno ou

 processo ; organizar modelos de anlise que respeitem as realidades

 empricas - abordando-as imaginativamente - e desenhar formas e espaos

 cognitivos que expressem e representem a dimenso simblica dos

 sujeitos so desafios constantes na pesquisa cientfica e acadmica .

 As complexidades de pesquisas configuradas em contextos mltiplos ,

 diversidade de nveis de anlise , participao de distintos conjuntos

 de teorias e redes conceituais , e estruturaes estratgias

 reconstrudas e reformuladas de acordo com a problemtica

 comunicacional demandam a incluso e reestruturao de vrias

 perspectivas e modelos metodolgicos .
 O transmetodolgico torna-se ,

 desse modo , uma premissa epistmica para a gerao de investigaes

 com pretenses de cientificidade no campo das cincias da

 comunicao .

 Trabalhar o transmetodolgico supe um conhecimento prvio das

 metodologias - fundamentadas em dimenses tericas -

 pertinentes a uma estratgia trans , buscando uma confluncia de

 mtodos que parte de suas lgicas de origem , aceita o compromisso da

 desconstruo e assume o desafio da prxis , que implica a explorao

 de problemas / objeto em consonncia e conflito com os modelos

 terico / metodolgicos problematizados .
 Uma abordagem

 transmetodolgica exige , portanto , vrios tipos de problematizao

 articulados entre si ; no  pertinente realizar problematizaes

 tericas desvinculadas dos nveis metodolgico e emprico .
 O objeto

 emprico problematiza-se com a interveno de sua correspondente

 problematizao terico / metodolgica ; a idia de aplicao mecnica e

 automtica de mtodos para construir uma pesquisa comunicacional s

 produz exerccios repetitivos , numerosas vezes superficiais , que pouco

 contribuem para aprofundar conhecimentos sobre os processos

 comunicacionais investigados .

 O compromisso epistmico que afirma a necessidade de elevar-se s

 complexidades gnosiolgicas do concreto , [ 14 ] leva-nos  necessidade de

 desenvolver pesquisas metodolgicas , pesquisas tericas e pesquisas

 empricas em cada processo de investigao .
 As distines vo ser

 definidas pela nfase num ou outro nvel de problematizao ; de fato

 todas precisam construir nos diferentes nveis , contribuindo com

 subsdios para problematizaes epistemolgicas que articulem

 argumentaes a partir da experincia dos diferentes conjuntos de

 pesquisa .

 Entre os obstculos para a produo de conhecimento que se observa no

 campo da comunicao est essa separao forada das dimenses de

 investigao ; muito do produzido numa nfase terica fica isolado das

 problematizaes empricas ; as investigaes empricas descuidam o

 terico , tratando-o como um pretexto de apresentao de argumentos e

 gerando discursos descritivos e superficiais .
 O resultado disso  a

 combinao abundante de teoricismo ensastico misturando com empirismo

 descritivo ; situao que prejudica ao pensamento epistemolgico na

 rea pela fraqueza dos processos e experincias que se realizam .
 No

 obstante a existncia dessa situao ,  reconfortante constatar a

 fora que vo adquirindo no campo as fundamentaes epistemolgicas

 que procuram superar o empirismo , a especulao literria e as

 generalidades retricas .
 Vai-se configurando paulatinamente uma

 cultura de qualificao do campo a partir de diferentes perspectivas .

 Os confrontos , necessrios para garantir o movimento e as

 transformaes , apresentam-se cada vez mais numa perspectiva de

 aprofundamento e no de detalhe burocrtico ou privilgio

 administrativo .
 Nesse sentido ,  importante reconhecer - apesar das

 lgicas burocrticas - que a institucionalizao e a vitalidade do

 campo das cincias da comunicao no Brasil  uma referncia no

 contexto internacional .
 As perspectivas so ainda mais

 revigorizantes , dado que nossas limitaes e problemas esto sendo

 explicitados e debatidos peridica , sistemtica e aprofundadamente .
 A

 proposta transmetodolgica situa-se nesse contexto , como um conjunto

 de reflexes que buscam contribuir  construo deste campo do

 conhecimento .

 As preocupaes epistemolgicas definidas como uma reflexo sobre a

 cincia no so s externas ou internas a sua produo e gerao , das

 condies de produo s formas lgicas mais abstratas o conjunto est

 includo na problemtica epistmica : histria , cultura , prticas

 sociais , construo de modelos tericos , pesquisa lgica ,

 institucionalizao , estruturaes de poder , imaginrios , normas ,

 estratgias e aventuras imaginativas configuram a dimenso

 epistmica .
 O terico / metodolgico constitui tambm um aspecto

 constitutivo das problemticas epistemolgicas .
 A reflexo sobre a

 cincia , seus processos produtivos , suas caractersticas como forma

 social especfica , seu carter de produo de discursos em nveis de

 rigor lgico e fundamentao terica / forte e a sua propriedade de

 explicitao , auto-avaliao , desconstruo e reformulao tornam a

 dimenso terica / metodolgica um elemento crucial das formulaes

 epistmicas .
 Sem pesquisa sistemtica de carter terico / metodolgico

 pouco se poder construir em epistemologia no campo ; sem reflexo

 epistmica histrica , filosfica e lgica a dimenso

 terica / metodolgica no configurar visualizaes e compreenses

 ricas do mundo .
 A perspectiva transmetodolgica busca contribuir as

 argumentaes que construem nexos entre esses diferentes nveis a

 partir da reflexo sobre os conjuntos terico / metodolgicos na rea ,

 desenvolvendo a pesquisa da pesquisa e reconfigurando as estratgias

 que sustentam a formulao de problemticas em comunicao .

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 _______________________

 NOTAS

 ( * ) Trabalho apresentado no III Interprogramas da Comps , em So

 Paulo , ECA / USP , 7-8 de novembro de 2002 ..

 [ 1 ] Perspectiva epistemolgica desenvolvida por autores como Gastn

 Bachelard , Michel Foucauld , Antonio Gramsci , Michel de Certeau , Eliseo

 Vern , Jess Martn Barbero , Nstor Garca Canclini , Ral Fuentes

 Navarro , Armand Mattelart , Maria Immacolata Lopes , Michle Mattelart ,

 Lucien Sfez entre outros importantes autores

 [ 2 ] Para uma epistemologia histrica das cincias sociais na Amrica

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 [ 3 ] A fundamentao desse processo na regio est desenvolvida em

 Alberto Efendy Maldonado .
 A pesquisa terica em comunicao na

 Amrica Latina / Estudo de trs casos relevantes : Vern , Mattelart e

 Martn Barbero , tese de doutorado , USP / ECA , 1999 .

 [ 4 ] Manuel Martn Serrano : " En los pases dependientes , los

 requerimientos polticos y econmicos encauzaron la reflexin

 epistemolgica hacia otros rumbos , no por poco difundidos menos

 interesantes ...
 " , p. 11 .

 [ 5 ] Jess Martn Barbero .
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 Janeiro : Editora UFRJ , 1997 .

 [ 6 ] Michle e Armand Mattelart .
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 [ 7 ] Armando Silva .
 " La semitica y comunicacin social en

 Colombia " , in rev. Dilogos de la comunicacin , Lima , 1988 .

 [ 8 ] So importantes fontes de reflexo e informao nessa linha de

 pesquisa as investigaes de Ral Fuentes Navarro , Jorge B. Rivera ,

 Jess Martn Barbero , Maria Immacolata Lopes , Anbal Ford , Antonio

 Pasquali , Fernando Reyes Mata , Armand Mattelart e Mara Cristina Mata .

 [ 9 ] A Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo

 ser a instituio pioneira na Amrica Latina em estruturar um curso

 de mestrado j no ano de 1972 , temos portanto 30 anos de

 institucionalizao da pesquisa na regio .
 A ECA tem formado a um

 nmero significativo de pesquisadores em comunicao no Brasil e em

 2002 constitui um referente obrigatrio da pesquisa em comunicao no

 pas , na Amrica Latina e em nvel internacional .

 [ 10 ] Os projetos de ALAIC , INTERCOM , AMIC , DESCO , FELAFACS e COMPS

 so orientadores sobre essa situao .

 [ 11 ] Constata-se posicionamentos desse tipo em seguidores da nomeada

 teoria da complexidade , cujo maior representante  Edgar Morin .
 O

 fracasso do projeto transdisciplinar com Roland Barthes ( Semiologia ) e

 Georges Friedmann ( Economia Poltica da Comunicao ) , que partia de um

 compartilhamento de fundamentos e problemticas entre campos

 cientficos , levaria no futuro a Morin para uma pretenso de

 generalidade epistemolgica que corresponderia ao summu do

 conhecimento humano .
 Detecta-se nessas proposies um problema grave

 de ausncia de explicitao conceptual , apropria-se de formatos e

 idias sem mostrar as fontes e os procedimentos de reformulao ,

 gera-se campos de efeitos de sentido que tornam o " saber cientfico "

 um exerccio cmodo de especulao e literatura .
 A influncia de

 correntes literrias ps-modernas realizam estruturaes semelhantes .

 Observando-se tambm a continuidade " totalitarismo metodolgico " de

 parte dos neo-funcionalistas .
 A velha pretenso de " saber absoluto "

 contnua presente em vrios autores e comunidades , que aproveitam a

 falta de uma tradio cientfica forte numa rea para circular e

 marcar seus debates retoricamente .

 [ 12 ] Michel de Certeau .
 A inveno do cotidiano / Artes de fazer ,

 Petrpolis / RJ : Vozes , 1994 .

 [ 13 ] As comunidades russa , polonesa , sua .
 Autores como Jakobson ,

 Propp , Bakhtin , Chomsky , Markov , Hjelmslev , Barthes e Greimas entre

 outros .
 O saber especializado das cincias da linguagem  amplo ,

 heterodoxo , rico e conflitivo ; conhec-lo leva dcadas de um esforo

 de investigao particular .
 O mesmo acontece em todos os campos do

 saber , por isso a grande dificuldade das snteses , as profundas

 limitaes dos construtos que seguem os velhos modelos enciclopdicos .

 [ 14 ] Karl Marx , " O mtodo na Economia Poltica " , p. 229 , in

 Contribuio para a Crtica da Economia Poltica , Lisboa , Estampa .

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 Alberto Efendy Maldonado Gmez de la Torre  doutor em Cincias da

 Comunicao pela Universidade de So Paulo , professor / pesquisador do

 Programa de Doutorado e Mestrado em Cincias da Comunicao da

 UNISINOS. Coordenador de Relaes Exteriores , membro da comisso

 editorial da revista Fronteiras-Estudos Miditicos e coordenador do

 ncleo de pesquisa Processos Comunicacionais : epistemologia /

 midiatizao-mediaes / recepo do mesmo programa .

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