

 Volume I | Nmero I | Maio - Outubro 2004

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 Reflexes sobre a insero da Antropologia

 na formao de professores a partir

 da reforma educacional dos anos 90 no Brasil

 Patrcia Emanuelle Nascimento - Professora das Faculdades Alfa e Universidade

 Estadual de Gois .
 Mestre em Histria pela Universidade Federal de Gois .

 Resumo

 O objetivo deste artigo  , num primeiro momento apresentar o contexto mais

 amplo no qual se encontra a reforma educacional na dcada de 90 no Brasil e a

 partir destas consideraes enfatizar a proposta do tema transversal sobre

 pluralidade cultural para a educao brasileira .
 Nesse sentido , apresentar a

 importncia que a Antropologia assume dentro dessas novas prerrogativas no

 processo de formao de professores .

 Palavras-chave : Formao , Pluralidade Cultural , Antropologia

 Educao e demandas sociais : O contexto histrico internacional

 A escola nunca esteve alijada das demandas sociais , nem tampouco das relaes

 de poder estabelecidas dentro da sociedade .
 Ao contrrio , a escola tende a

 reproduzir e justificar a ideologia dominante se ajustando ao desenvolvimento

 da sociedade capitalista .
 De acordo com Sanfelice ( 2003 ) , a educao no est

 desvinculada da reproduo , haja vista que as classes dominantes tm o

 interesse de reproduzir as relaes de produo prprias do capitalismo , e com

 esse objetivo , a educao apresenta-se como uma das possibilidades de

 reproduo na medida em que procura " formar homens dceis  explorao do

 capital " ( 2003 , p. 91 ) .

 Exemplo do atrelamento da educao aos interesses econmicos pode ser

 verificado no Relatrio para a UNESCO da Comisso Internacional sobre a

 educao para o sculo XXI , que aponta para os tipos de aprendizagem em que se

 percebe que o aprender a fazer ganha novos contornos devido a novas demandas da

 sociedade capitalista .
 O documento aponta que o mercado atual exige uma noo

 de competncia voltada para uma qualificao que tenha uma base muito mais

 comportamental que intelectual , que envolva os chamados " projetos de equipe " ,

 " trabalhos em grupo " , as habilidades de " viver juntos e aprender a viver com os

 outros " , pois no decorrer do sculo XX assiste-se nas economias mais

 desenvolvidas a uma " desmaterializao do trabalho " , ou seja , as mquinas

 substituindo o trabalho humano .

 A educao incorpora esses movimentos da sociedade capitalista naquilo que

 podemos chamar , dentre outras coisas , de a " descoberta do outro " .
 Tal

 descoberta depende de questes econmicas como a " desmaterializao do

 trabalho " , e tambm do cenrio poltico-ideolgico o qual envolve o surgimento

 de um novo tipo de civismo que corresponde ao enfraquecimento do sentimento

 nacional como exposto por Gontijo ( 2003 ) .
 Segundo a autora ao comentar a obra

 de Hermet , esse enfraquecimento da idia de nao , de nacionalismo cede espao

 para o elogio da heterogeneidade , que  contemplado dentro da doutrina do

 multiculturalismo e que tem como objetivo dar voz aos excludos , s minorias ,

 aos mais variados grupos que compe a sociedade .
 O contexto histrico que

 permite o surgimento da chamada ao afirmativa iniciada nos Estados Unidos

 comea aps as duas guerras mundiais do sculo XX e prossegue com o

 esvaziamento ideolgico da crena em um Estado forte a partir da queda do

 socialismo .

 Tais acontecimentos foram ao lado do processo de globalizao favorecendo um

 " movimento em defesa da fluidez das fronteiras entre pases , da imposio de

 uma lgica econmica , tecnolgica e poltica globalizante " ( Gontijo , 2003 , p .

 64 ) .
 Gontijo considera que esse novo civismo baseado na afirmao da diferena ,

 at pelo contexto histrico de " fluidez de fronteiras " , corre o risco de

 favorecer o " recuo da identidade social para a identidade grupal " como lembra

 Hobsbawm ( apud Gontijo , 2003 , p. 71 ) , ou como apresentado por Geertz que fala

 sobre o perigo da justaposio das diferenas que pressupe a apresentao das

 mesmas de forma estanque no enfatizando as relaes historicamente

 estabelecidas entre os grupos , relaes que devem ser pensadas dentro do

 exposto por Santos ( 1996 ) que so aquelas que no se estabelecem sem que hajam

 conflitos , posto que historicamente as sociedades , os grupos , se relacionam de

 maneira hierarquizada .
 Para o autor  necessrio falar de uma histria mundial ,

 de modo a trabalhar as relaes interculturais nela estabelecidas , percebendo a

 insero de cada cultura particular nessa histria .
 Portanto , pensar uma

 histria mundial hierarquizada significa a crtica ao estoicismo relativista " a

 relativizao total do estudo das culturas desvia a ateno de indagaes

 importantes a respeito da histria da humanidade " ( 1996 , p .15 ) .
 Santos expe a

 importncia de pensar a lgica interna das culturas , um ganho do relativismo

 cultural , mas alerta que " enquanto a cincia social dos pases capitalistas

 centrais elaborava teorias relativistas sobre cultura , sua civilizao avanava

 implacavelmente , conquistando e destruindo povos e naes " ( idem , p. 17 ) .

 Concretamente , h relaes de hierarquizao nas formas de dominao .

 A Reforma educacional dos anos 90 e a importncia

 da Antropologia na formao de professores

 Percebe-se , ento , que a descoberta do outro , situada no contexto histrico

 atual , depende de questes poltico-econmicas e ideolgicas , e portanto

 precisa ser refletida .
 No Brasil , a reforma educacional dos anos noventa traz

 na pauta das discusses os temas que esto na ordem do dia dentro do contexto

 j apresentado .
 Os Parmetros Curriculares Nacionais ( PCNs ) so estabelecidos

 dentro das prerrogativas do multiculturalismo norte-americano , embora alguns

 especialistas admitem que nos PCNs tais prerrogativas esto apresentadas de

 forma ingnua .

  neste contexto histrico , dentro das propostas atuais para a educao que a

 escola deve se situar e , conseqentemente , os cursos de formao de

 professores .
 As expresses do momento so : democracia , cidadania , incluso

 social .
 Elas so reflexo do contexto atual e ganham voz na proposta da

 Organizao das Naes Unidas ( ONU ) de uma " cultura da paz " em que pretende-se

 valorizar o respeito , a tolerncia e a solidariedade .
 Nessa direo h um novo

 questionamento sobre o papel da escola na sociedade .
 Fala-se atualmente no

 desenvolvimento de novas mentalidades , na busca de atitudes que diminuam os

 preconceitos e , para atender aos novos pressupostos da educao , que por sua

 vez atendem s demandas da sociedade ,  necessrio um novo perfil de educador ,

 que no apenas se integre acriticamente s exigncias atuais , mas reflita sobre

 elas , tenha as mesmas como objeto de anlise .
 A insero da disciplina

 Antropologia nos cursos de formao de professores  essencial dentro desse

 contexto de valorizao da alteridade .
 Isso porque trata - se de uma cincia que

 estuda a diferena .

 A reforma da dcada de 90 do sculo passado trouxe com os PCNs as discusses

 sobre pluralidade cultural que prescinde do conhecimento antropolgico .
 Uma

 vez apontado o quadro internacional para a valorizao da alteridade , bem como

 as observaes realizadas ,  preciso pensar qual a importncia do tema da

 pluralidade para um pas como o Brasil , reconhecendo as contribuies dessa

 reforma educacional brasileira na dcada de 90 do sculo XX , mas nem por isso

 deixando de contextualiz-la no bojo de um movimento mais amplo que nos faz

 tomar os PCNs no somente como referncia , porm como objeto de investigao .

 Por que o conhecimento antropolgico  hoje necessrio dentro dos cursos de

 formao de professores ?
 A proposta para a educao dos PCNs apresenta a

 necessidade da formao de professores no tema da Pluralidade cultural , pois

 admite aqueles preceitos de democracia , cidadania e incluso social , e como no

 Brasil h uma fragilidade muito grande dessas questes , a escola deve ser o

 lugar de reflexo , de incluso , de desenvolvimento de preceitos ticos : " Pela

 educao pode-se combater , no plano das atitudes , a discriminao manifestada

 em gestos , comportamentos e palavras , que afasta e estigmatiza grupos sociais "

 ( Parmetros Curriculares Nacionais , 1998 , p. 52 )

 No se pode falar em incluso social das minorias no Brasil sem antes entender

 a fragilidade da democracia brasileira vinculada a no produo nesse pas de

 uma cidadania plena .
 De acordo com Santos , " a cidadania  produto da

 modernidade que consiste numa " conquista lenta , dura [ ...
 ] conceito produzido

 na Europa , aperfeioado durante sculos e que redundou na produo da

 democracia e no estabelecimento de cada individuo como opositor do Estado -

 cidado , dotado pelas leis de um conjunto de direitos inalienveis " ( 2000 , p .

 9 ) .
 Diante dessa caracterizao de cidadania o autor expe que a histria

 brasileira se " desenvolve a partir da no-existncia da cidadania " , posto que 

 uma sociedade que assegura privilgios a alguns segmentos sociais .
 Se a

 cidadania diz que o indivduo  , como apresenta DaMatta , o sujeito das leis

 universais , por que razo no Brasil no h cidadania plena ?
 DaMatta responde a

 essa questo mostrando que o Brasil sofre com um dilema , que  visto pelo autor

 como a oscilao entre o " esqueleto nacional feito de leis universais " e o

 " sistema de relaes pessoais " que apela para o privilgio .
 O brasileiro ,

 ento , navega entre essas " duas unidades sociais bsicas " ( 2001 , p. 97 )

 produzindo o chamado " jeitinho brasileiro " , que  a forma encontrada pelo

 sujeito da pessoalidade de resolver seus problemas .
 Assim , o direito ganha o

 formato de favorecimento .

 A escola como espao que tende a reproduz preconceitos , discriminaes e

 excluses tem sido amplamente criticada dentro da nova proposta , segundo a qual

 a escola e os professores precisam compreender a diversidade brasileira e lidar

 com as diferenas culturais dentro do espao escolar .
 De acordo com os PCNs , a

 escola brasileira teria sido influenciada pelas teorias e discursos de

 identidade nacional homogeneizadoras .
 A questo de uma identidade nacional

 prpria  colocada pelo Imprio , e no final do sculo XIX e incio do XX

 coexistem duas teorias sobre a identidade brasileira , a teoria da eugenia e a

 da harmonia racial .
 Teorias europia e norte-americanas sobre as diferenas

 comearam a influenciar intelectuais brasileiros que encaravam a miscigenao

 como um mal , responsabilizando a mestiagem pelo subdesenvolvimento do pas ,

 pela degradao , pela pobreza .
 Essa teoria da eugenia baseada em pressupostos

 etnocntricos elegia como " raa superior " a branca , defendia a " raa pura " e

 alertava para os males da mistura .

 As teorias racistas europias e norte-americanas no eram tanto contra o negro

 ou o amarelo ( o ndio genericamente falando , tambm discriminado como

 inferior ) , que eram ntida e injustamente inferiorizados relativamente ao

 branco , mas que tambm eram vistos como donos de poucas qualidades positivas

 enquanto " raa " .
 O problema maior dessas doutrinas , o horror que declaravam ,

 era , isso sim , contra a mistura ou miscigenao das raas. ( Damatta , 2001 , p .

 38 )

 No Brasil , essa teoria pautava as discusses sobre migrao , pois se pretendia

 o enbranquecimento da populao ; " a aceitao da tese do branqueamento

 favorecia polticas imigratrias de populaes brancas " ( Gontijo , 2003 , p. 60 ) .

 Ao lado da teoria que via a miscigenao como um mal estava aquela que

 valorizava o mestio como smbolo da brasilidade , que teve o pice nas dcadas

 de 20 e 30 , principalmente nesta ltima com o projeto de nao estado-novista

 que , conforme refora Gontijo , buscava unificar o pas reconhecendo a idia de

 um povo brasileiro .
 Gilberto Freyre  considerado como o grande sistematizador

 do discurso da harmonia racial brasileira expressa no livro Casa Grande &

 Senzala .

 Os debates acadmicos sobre relaes raciais no Brasil , a partir das dcadas de

 60 e 70 passam a adquirir o estatuto revisionista .
 Mediante novos parmetros de

 anlise a obra de Freyre  tomada como referncia daquilo que se queria

 rechaar .
 A crtica dos revisionista  dirigida a gerao de Freyre , portanto

 este ltimo  o marco de diferenciao entre as duas perspectivas

 historiogrficas : a nova gerao e o pensamento de uma democracia racial agora

 vista como mito .
 A gerao de Freyre  acusada de ter criado o mito da

 democracia racial .
 Portanto , o papel dessa nova historiografia seria o de

 desintegra-lo .

 O grande problema do mito da democracia racial , segundo os revisionistas diz

 respeito  camuflagem dos preconceitos dentro da nossa sociedade , o que

 consiste num agente poderoso de dominao nas mos dos dirigentes , o mito

 esconde uma ideologia por traz das relaes sociais .
 Para esse grupo de

 pesquisadores , o mito nega ao negro a condio de ser negro , numa sociedade que

 se pensa benvola em relao a outras sociedades como a norte-americana , por

 exemplo .
 A sociedade brasileira dentro do mito se imagina no sectria , e por

 isso mesmo acaba no percebendo que a cordialidade que o mito representa oculta

 a idia de negro .
 Nesta perspectiva , onde estaria o negro seno nas sombras do

 pensar-se branco ?
 Da a repulsa dos revisionistas ao mito da democracia racial .

 Sobre a idia de um Brasil que no se pensa sectrio , diz DaMatta que  esta

 uma sociedade que produz um tipo de preconceito muito mais sofisticado que o

 norte-americano que  segundo o autor , direto e formal " pelo fato de existir

 uma legislao rgida , racista e dualstica " ( 2001 , p. 43 ) .
 Ao falar do

 Brasil , comenta : " Mas aqui , conforme sabemos , h uma radical excluso de todas

 as categorias intermedirias , que so absorvidas , com todos os riscos e

 penalidades , s duas categorias principais , em franca oposio e em aberta

 distino .
 Aqui o mulato no est no paraso de Antonil , mas no inferno. ( 2001 ,

 p. 43 ) "

 Os PCNs , segundo Viana ( 2003 ) , responsabilizam o mito da democracia racial pela

 omisso da escola em relao  pluralidade cultural .
 Entretanto , o documento

 prev que no h mais sentido no reforo das idias de homogeneidade cultural

 indicado pelo mito da democracia racial , e da idia de que o Brasil  um pas

 de " braos abertos " .
 Ao contrrio , a escola brasileira deve estar atenta 

 diversidade cultural brasileira a fim de colaborar com a democracia .
 De acordo

 com o documento , o primeiro passo da escola  reconhecer a complexidade da

 realidade brasileira para discutir etnia , cultura , excluso , questes de

 gnero , minorias , religiosidades .
 Estes so temas dos quais a Antropologia ao

 lado de outras cincias sociais se encarrega .

 Os PCNs prope reformulaes nos contedos apresentados pelos livros didticos ,

 de modo que os profissionais da educao devem ter subsdios para analisar

 esses contedos .
 Em que a Antropologia auxilia na anlise de livros didticos ?

 A Antropologia oferece instrumentais para se compreender determinadas temticas

 que muitas vezes so apresentadas nos livros por meio de generalizaes ,

 reducionismos , anacronismos , maniquesmos .
 Com o suporte da Antropologia , o

 professor consegue tratar com mais propriedade temas como : famlia ( dando

 nfase aos diferentes modelos de famlia dentro de uma mesma sociedade , o que

 evita esteretipos que no cotidiano escolar deflagram atitudes

 discriminatrias ) ; sexualidade , o que aponta para as discusses de gnero e a

 relao com o corpo ; etnia , entendendo o que  etnocentrismo e relativismo

 cultural e , portanto , no reproduzindo equvocos presentes na maioria dos

 livros didticos sobre os ndios , os africanos , os migrantes e suas respectivas

 manifestaes culturais .
 O estudo da Antropologia tanto se coloca dentro dos

 pressupostos dos PCNs como ajuda a refleti-los enquanto objeto .
  um tipo de

 conhecimento desabsolutizador , posto que provoca , como aponta Laplatine ( 2000 ) ,

 " o estranhamento do bvio e a familiarizao do estranho " , permitindo a

 abertura do dilogo que propicia o entendimento do " eu " e do " outro " o que

 implica num novo tipo de relao baseada no respeito mtuo .
  um tipo de

 conhecimento que rompe com as formas centradas no " eu " de ver o mundo , e por

 isso ajuda a combater preconceitos , e a reconhecer os discursos que

 estereotipam e estigmatizam os " outros " e os interesses por trs desses

 discursos , a Antropologia retira dos discursos de dominao o status social de

 verdade absoluta , admitindo-os como construes , portanto

 deslegitimando-os .

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