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 pgina da UnB

 A QUESTO DA GRAMATICALIZAO NOS ESTUDOS CRIOULOS

 Hildo Honrio do Couto

 ( Universidade de Braslia )

 1 .
 Introduo : o que so lnguas crioulas

 De acordo com a definio mais corrente , os crioulos so lnguas

 mistas que surgiram durante o processo de explorao da frica , sia ,

 Oceania e Amrica pelas potncias europias .
 Dessa perspectiva , as

 lnguas crioulas seriam precedidas de um outro tipo de lngua mista ,

 ou seja , os pidgins .
 Portanto , faz-se necessrio comearmos pela

 definio dos conceitos de pidgin e crioulo .
 Mais abaixo , essas

 definies sero revistas , uma vez que nos ltimos anos a crioulstica

 ( = estudo das lnguas crioulas e pidgins ) tem progredido muito .
 Para

 uma abordagem mais detalhada , inclusive com muitos exemplos de textos

 crioulos , pode-se consultar Couto ( 1996 ) .
 Para o estudo de um crioulo

 particular ( o da Guin-Bissau ) , pode-se ver Couto ( 1994a ) .

 Vejamos o que vem a ser pidgin segundo a concepo tradicional .
 Como

 se sabe desde pelo menos Bloomfield ( 1933 ) , mas sobretudo aps os

 estudos detalhados de Hall ( 1996 ) , pidgin  uma lngua de contato , que

 surge quando povos falantes de lnguas mutuamente ininteligveis

 entram em contato estreito , ou seja , quando tm necessidade de se

 comunicarem uns com os outros , como ocorreu durante a explorao do

 mundo pelos europeus .
 Como o povo dominante ( colonizador ) no se dava

 ao trabalho de aprender a lngua dos povos dominados ( colonizados ) , o

 que em geral acontecia era os ltimos tentarem se comunicar na lngua

 dos primeiros .
 Dadas as situaes precrias em que isso se dava , via

 de regra eles conseguiam pegar apenas pedaos dessa lngua ,

 freqentemente apenas palavras isoladas , que eram usadas sem nenhuma

 sintaxe nem morfologia .
 Enfim , o pidgin  uma lngua que tem uma

 gramtica drasticamente reduzida ( se  que a tem ) , sobretudo a

 morfologia , bem como um lxico bastante restrito .
 Por definio , ele

 no  lngua materna de ningum , pois entre si os povos dominados s

 falam suas respectivas lnguas , ao passo que os dominadores nunca se

 do ao trabalho de falar outra lngua que no a sua prpria .
 Segundo a

 hiptese mais aceita , a palavra pidgin teria provindo da expresso

 inglesa " business English " , como pronunciada pelos chineses em seus

 contatos com os colonizadores ingleses .
 Entretanto , acredita-se que o

 primeiro pidgin de certa importncia da histria teria sido uma

 variedade de portugus estropiado falada ao longo de toda a costa

 africana e em toda a rota martima , desde os primeiros anos das

 Grandes Navegaes .
 Historicamente , porm , a chamada lngua franca

 medieval o precedeu .

 Se o grupo misto formado por colonizadores e colonizados comea a se

 consolidar e o pidgin passa a ser lngua materna de crianas da nova

 comunidade , tem-se o crioulo .
 Logo , lngua crioula  um pidgin que foi

 adquirido como lngua nativa , como preconiza a chamada teoria da

 nativizao .
 De acordo com essa concepo , o crioulo  um ex-pidgin ,

 ou seja , um pidgin que virou lngua materna de uma comunidade .
 Como

 veremos abaixo , h autores que acham que mais importante do que se

 nativizar  transformar-se na lngua principal da nova comunidade

 ( comunitarizao ) .
 Pelo fato de passar a atender todas as necessidades

 comunicativas e expressivas de seus usurios , e no apenas as do

 contato intertnico como faz o pidign , o crioulo apresenta uma

 expanso ( complexificao ) da gramtica pidgin bem como um aumento do

 lxico .
 Essa situao se deu no arquiplago de Cabo Verde , na

 Guin-Bissau , em So Tom e Prncipe , na Malaca e em outros lugares ,

 todos eles de colonizao portuguesa .
 No entanto , h crioulos e

 pidgins de base espanhola , francesa , inglesa e at de base africana

 ( como o Sango da Repblica Centro-Africana ) .
 Alguns dos mais

 conhecidos so o papiamentu ( crioulo espanhol das Antilhas

 Holandesas ) , os crioulos do Haiti , da Ilha Maurcio , de Guadalupe e

 outros ( de base francesa ) , o tok pisin , o jamaicano , o havaiano ( de

 base inglesa ) , entre muitos outros .

 O objetivo do presente artigo  discutir essa conceituao de crioulo ,

 mostrar que no fundo a formao de uma lngua significa a formao de

 uma nova gramtica .
 S que , a formao de uma gramtica implica o

 processo scio-histrico de contato de povos e suas respectivas

 lnguas .
 Embora os processos scio-histricos sejam mais importantes e

 pr-requisito para a formao da gramtica , no momento enfatizo mais a

 formao da prpria lngua crioula , ou seja , a formao da gramtica

 crioula .
 Portanto ,  necessrio comear pelo prprio processo de

 formao da gramtica , que chamo de gramaticalizao , no

 necessariamente no mesmo sentido em que ela vem sendo empregada pelos

 especialistas em " gramaticalizao " .

 2 .
 Gramatizalizao

 O fulcro de interesse na crioulstica  a formao e a transformao

 das lnguas crioulas .
 Isso significa , em ltima anlise , que essa

 disciplina se preocupa basicamente com a questo da formao e

 transformao das gramticas crioulas .
 Ora , formao de gramtica 

 nada mais nada menos do que aquilo que se chama de gramaticalizao .
 

 claro que s pode haver gramaticalizao se houver antes uma situao

 de agramaticalidade , se houver uma desgramaticalizao prvia .
 No caso

 especfico das lnguas crioulas temos , em seguida e s vezes

 concomitantemente com a fase de gramaticalizao ou de formao do

 crioulo , um processo de adoo de elementos da lngua dominante , de

 superstrato ou lexificadora , ou seja , a lngua de que provieram .

 Trata-se do processo de regramaticalizao .
 Esse processo pode ir at

 ao ponto de desfigurar a lngua crioula , com o que ela passaria a ser

 apenas uma variedade , ou dialeto , da lngua lexificadora .
  o que

 parece estar ocorrendo com o crioulo ingls da Jamaica , entre outros .

 Em crioulstica raramente se usam os termos desgramaticalizao ,

 gramaticalizao e regramaticalizao .
 Em seu lugar so empregados os

 conceitos de pidginizao , crioulizao e descrioulizao , segundo um

 processo que ficou conhecido como " o ciclo vital pidgin-crioulo " ( Hall

 1962 , Hymes 1971 ) .
 Quando povos de lnguas mutuamente ininteligveis

 passam a conviver em contato estreito , pode acontecer de a lngua que

 tem mais poder se impor .
 Porm , como se pode ver na Fig. 1 abaixo , o

 mais comum  surgir um meio de comunicao intertnica ( MCI ) ( Baker

 1990 ) , com elementos de todas as lnguas intervenientes , sendo que o

 lxico da lngua do povo mais forte em geral predomina , donde a

 expresso " lngua lexificadora " .
 Em um primeiro momento , esse MCI no

 passa de estratgias individuais de comunicao , como se pode ver nos

 exemplos de ( 1 ) - ( 3 ) , proferidos por trabalhadores das plantaes de

 cana-de-acar do Hava no comeo deste sculo ( a origem do falante e

 a data da coleta da " frase " esto entre parnteses ) ( cf .
 Bickerton

 1984 : 174 ) .
 O exemplo ( 4 ) me foi dado por Jrgen Heye ( c.p. ) .
 Ele pode

 ocorrer em vrias situaes pidginizantes ( cf .
 Couto 1996 : I .1 ) em que

 a lngua inglesa esteja envolvida .
 A propsito , posteriormente ouvi-a

 de chineses de Nova York .

 ( 1 ) kote , motete , awl frend giv , no ?
 ( Japons , 1918 )

 Buy , take back , all friend give , INTERROGATIVE

 " [ Eles ] compravam [ presentes ] traziam [ - nos ] , e davam [ - nos ] a todos

 seus amigos , n ?
 "

 ( 2 ) insai lepo aen hanapa aen blanket , finish ( visaya , 1916 )

 inside dirt and cover and blanket , finish

 " [ Eles punham o corpo ] no cho e [ o ] cobriam [ com um ] lenol , e

 pronto "

 ( 3 ) mi onli chachi go palei , tarin gonon naega bisanis ani ( coreano ,

 1916 )

 I only church go pray , other things I business is-not

 " Eu simplesmente ia  igreja para rezar ; outras coisas no eram de

 minha conta "

 ( 4 ) long time no see

 " H muito tempo no nos vemos "

 Como se v , os itens lexicais de ( 1 ) - ( 3 ) que no so ingleses , isto  ,

 da lngua de superstrato , lexificadora , so japoneses como os de ( 1 ) ,

 visayas como os de ( 2 ) e coreanos como os de ( 3 ) .
 Os de ( 4 ) so todos

 ingleses , mas usados sem a sintaxe inglesa .
 O fato  que em todos os

 exemplos , praticamente no h gramtica .
 O pouco que poderia ser tido

 como algo que lembra ligeiramente uma gramtica pertence  lngua de

 substrato do falante .
 Em ( 1 ) , por exemplo , temos o objeto precedendo o

 verbo , como em japons .
 Algo semelhante se d com os " enunciados "

 proferidos por falantes de outras lnguas .
 A esse tipo de comunicao

 parcialmente bem sucedida devido apenas ao contexto da situao os

 crioulistas chamam comunicao pelo modo pragmtico , por oposio 

 comunicao pelo modo sinttico , em que o entendimento se d mediante

 um instrumento socializado de interao , logo , gramaticalizado

 ( MHLHUSLER 1986 : 125 , GIVN 1979 : 223 ) .

 A concluso a que se chega sobre uma situao como a do Hava do

 comeo de nosso sculo , que  quando os exemplos ( 1 ) - ( 3 ) foram

 colhidos ,  a de que o equilbrio estrutural da gramtica de cada

 indivduo estava sendo perturbado pelo impacto do encontro com as

 gramticas que os outros indivduos dominavam , todas diferentes entre

 si .
 Estava-se , portanto , em um processo de desestruturao das lnguas

 originais , ou seja , um processo de desgramaticalizao. Trata-se ,

 portanto , do incio do processo que em crioulstica se chama de

 pidginizao. Mhlhusler ( 1986 : 1-11 ) chamou esse estgio inicial de

 jargo ( ngulo I da Fig. 1 ) .
 Ele usou tambm os termos alternativos

 " pre-pidgin " , " multilingual idiolect " e " secondary hybrid " .
 Hymes

 ( 1971 ) fala em " pidgin instvel " .
 Quando esse jargo comea a se

 cristalizar , tem-se o pidgin estvel ( ngulo II da Fig. 1 ) .
 At este

 momento , o MCI ( pidgin ) ainda no tem falantes nativos .
 Quando ele

 comea a adquiri-los , passa a ser chamado de crioulo ( ngulo III da

 Fig. 1 ) .
 Para a maioria dos crioulistas , o crioulo  um pidgin

 nativizado , ou seja , um pidgin que passou a ser lngua materna de uma

 comunidade ou de parte dela ( Hall 1966 ) .
 Em Couto ( 1996 ) eu propus o

 quadro da Fig. I para visualizar todo esse processo .
 Na Fig. 2 ,

 abaixo , eu proponho um outro modelo para explicar o processo de

 formao e transformao dos crioulos .

 [ INLINE ]

 Fig. 1

 ( LS = lngua ( s ) de substrato ; LL = lngua lexificadora ou de

 superstrato )

 A evoluo de I para II  chamada de pidginizao , cujo resultado  o

 pidgin .
 De II para III ocorre a crioulizao , cujo produto  o

 crioulo .
 A volta de III para I , isto  , a reaproximao do crioulo 

 lngua dominante , recebe o nome de descrioulizao .
 No h um nome

 para o seu resultado ( descrioulo ?
 ) .

 3 .
 A proposta de Roman Jakobson

 O caso que gostaria de examinar mais detalhadamente  o da formao da

 gramtica fonolgica ( GF ) do crioulo portugus da Guin-Bissau .
 Para

 tanto , gostaria de usar trs conceitos propostos independentemente por

 Roman Jakobson no incio da dcada de 30 , ou seja , desfonologizao ,

 fonologizao e refonologizao , nessa ordem ( Jakobson 1970 , 1978 ) .

 Como se v , trata-se do equivalente fonolgico de desgramaticalizao ,

 gramaticalizao e regramaticalizao , respectivamente .
 A

 desfonologizao  definida por Jakobson do seguinte modo : " A e B se

 opem fonologicamente , ao passo que entre A1 e B1 no h nenhuma

 diferena fonolgica " .
 Trata-se , assim , de uma " desvalorizao

 fonolgica " ( Jakobson 1970 : 319 ) .
 Ele aduz vrios exemplos das lnguas

 eslavas .
 Llorach ( 1967:132-133 ) mostra que no castelhano e no catalo

 medievais / b / e / v / eram fonemas distintos .
 Porm , quando / v / passou a

 ser pronunciado como [  ] confundiu-se com o / b / intervoclico , que

 tambm era [  ] .
 Com isso , a relao original / b / - / v / se transformou na

 relao / b / - /  / .
 No galego-portugus , a distino fonolgica existente

 entre / ts / ( cem ) e / s / ( sem ) se desfez , dando lugar a um nico fonema

 / s / .
 O mesmo se deu com / dz / - / z / ( cozer , coser ) que confluram em / z / ,

 com / t3 / - / 3/ ( chaga , leixar ) que viraram / 3/ e com / d3 / - / 3/ que se

 neutralizaram em / 3/ ( Teyssier 198726-27 ) .

 Quanto  fonologizao , Jakobson afirma que " entre A e B no h

 nenhuma diferena fonolgica , enquanto que entre A1 e B1 essa

 diferena existe " ( Jakobson 1970 : 321 ) .
 Trata-se , portanto , do

 surgimento de uma distino fonolgica onde ela no existia .
 Os

 exemplos do autor consistem basicamente de variantes combinatrias de

 fonemas que passam a ser dois fonemas distintos .
 Assim , no polbio

 antigo , o fonema / x / era realizado como a espirante velar surda [ x ]

 antes de algumas vogais ; antes de outras vogais , ocorria como

 espirante palatal surda [  ] , de modo que eram apenas variantes

 combinatrias de um nico fonema .
 Tornaram-se dois fonemas autnomos

 quando as vogais fracas mdias e baixas se coalesceram , com o que se

 deu uma diferenciao em palavras como [ sauxa ] ( feminino ) e [ saua ]

 ( neutro ) , de modo que o par / x- / passou a ser uma oposio fonolgica

 ( Jakobson 1970 : 322 ) .

 A adoo de emprstimos  outra fonte de fonologizaes .
 Em russo , [ f ]

 s ocorria em final de palavras como variante ensurdecida de / v / , como

 no nome prprio " Gorbatchof " .
 Devido  importao de termos que

 continham [ f ] em outras posies , essa variante se fonologizou ,

 formando a correlao / v / - / f / .
 Em portugus , o som [ t3 ]  apenas um

 alofone de [ t ] antes de [ i ] , em alguns dialetos .
 No entanto , em itens

 lexicais perifricos como " tchau " , " tchan " e " tch " ele j est

 ocorrendo em outros contextos fonticos .
 Em expresses de gria ele j

 apareceu em " mintchura " , " tchurma " e " pitchula " , entre outros .
 Em

 alguns dialetos do nordeste , ele ocorre como alofone de / t / se vier

 precedido de [ i ] ou [ y ] , como em [ direytsu ] ( direito ) .
 Por fim , no

 Mato Grosso ele substitui o fonema / 3/ , de modo que uma frase como " O

 Coxip ( rio ) enche e o peixe se vai "  pronunciada por alguns falantes

 de Cuiab como [ o kotsip entse e o petse se vay ] .
 No se deve

 desprezar nem mesmo a influncia do espanhol dos pases que nos

 circundam .
 Pois bem , devido a tudo isso parece que o par [ t ] - [ ts ]

 tende a passar por um processo de fonologizao , resultando na

 distino fonolgica / t / - ts / , como no espanhol .

 A refonologizao , por fim , consiste em uma reorganizao de oposies

 fonolgicas .
 Segundo Llorach ( 1967 : 133 ) , " no se criam nem se perdem

 distines fonemticas ; o que ocorre  uma reorganizao da estrutura

 do sistema " .
 Assim , quando a consoante vibrante mltipla alveolar do

 portugus / r / de " carro " e " rua " passou a realizar-se como vibrante

 mltipla uvular [ R ] e , por fim , como fricativa velar [ x ] , deixou a

 oposio isolada em que se inseria ( as lquidas ) para fazer parte da

 oposio velar oclusiva / k , g / e fricativa / x / .
 Abaixo , o conceito de

 refonologizao ser ampliado para qualquer tipo de alterao de um

 sistema fonolgico devido  influncia de outra lngua , como no caso

 dos crioulos que esto se descrioulizando .

 Em crioulstica , o percurso

 desfonologizao-fonologizao-refonologizao equivale

 aproximadamente ao ciclo pidginizao-crioulizao-descrioulizao .
 A

 diferena est em que a desfonologizao de Jakobson compreenderia

 apenas o momento inicial do processo de pidginizao , em que se d o

 desmoronamento das gramticas das lnguas intervenientes .
  , portanto ,

 apenas o ngulo I da Fig. 1 , ao passo que a pidginizao  um processo

 que se inicia em I e termina em II .
 Segundo alguns crioulistas ,

 haveria pidgins relativamente estabilizados , como o tok pisin da Papua

 Nova Guin , o jargo chinook dos EUA e o fanagalo ( pidgin zulu ) da

 frica do Sul ( cf .
 Mhlhusler 1986 : 147-176 ) .
 A fonologizao , por

 seu turno , comearia aproximadamente no meio do lado direito do

 tringulo da Fig. 1 e iria at o ngulo III , ou seja , at o momento em

 que j se tem um crioulo .
 Abrangeria , portanto , parte do perodo da

 pidginizao e todo o da crioulizao .
 A refonologizao , por fim ,

 equivaleria  descrioulizao , isto  , ao processo de reaproximao 

 lngua de superstrato .

 Diante da no concordncia total entre a tricotomia da crioulstica e

 a de Jakobson , eu gostaria de sugerir que se opte pela de Jakobson ,

 adaptando-a ao arcabouo da crioulstica .
 Assim , creio que no seria

 violentar a concepo original desse autor redefinindo seus conceitos

 da seguinte forma : 1 ) desfonologizao : processo que consiste no

 desmoronamento das fonologias das lnguas dominadas ou de substrato

 ( LS ) e da lngua dominante , de superstrato ou lexificadora ( LL ) , no

 momento do contato ; 2 ) fonologizao : formao de uma estrutura

 fonolgica ( GF ) para o MCI ( crioulo ) a partir dos disjecta membra que

 restaram dos escombros das fonologias de LS e LL e , qui , do dom

 biolgico para a linguagem ; 3 ) refonologizao : reviso da gramtica

 fonolgica do crioulo por influncia de LL , inclusive mediante adoo

 de fonemas e de estruturas silbicas nele inexistentes .
 Tudo isso vale

 igualmente para os outros componentes da gramtica .
 Entretanto ,

 ater-me-ei ao componente fontico-fonolgico ( gramtica fonolgica ) .

 Diante do que acaba de ser dito , parece ter ficado evidente que o

 conceito de pidgin perde sua razo de ser .
 Aps o momento inicial do

 encontro de falantes de LS e LL , ou seja , aps o momento da

 desfonologizao , o que h  gradual porm diretamente a formao da

 gramtica fonolgica do crioulo ( fonologizao ) , sem o intermedirio

 da pidginizao .
 Com efeito , lngua  basicamente um meio para os

 membros de determinada comunidade interagirem entre si

 ( comunicarem-se ) .
 Portanto , o mais importante na formao de uma

 lngua crioula ( um crioulo ) no  propriamente a aquisio de falantes

 nativos , ou seja , a nativizao , como tem sido defendido pela maioria

 dos crioulistas .
 Mais importante  a comunitarizao , isto  , o fato

 de MCI passar a ser a lngua principal da nova comunidade .
 Por essas e

 outras razes gostaria de propor na Fig. 2 uma outra viso do processo

 de formao e transformao dos crioulos , em substituio ao modelo da

 Fig. 1 acima .

 [ INLINE ]

 Fig. 2

 A Fig. 2 mostra basicamente que , em um momento inicial , representado

 pelo quadro maior superior , convergem vrias lnguas de substrato ( LS )

 com uma lngua de superstrato ou lexificadora ( LL ) , em geral mais

 forte socio-economicamente .
 Nesse momento , tudo que fazia parte das

 lnguas e das culturas de LS e de LL se desestrutura , uma vez que

 ainda no se tem uma comunidade propriamente dita nem muito menos uma

 lngua que lhe seja especfica .
 O que h  um agregado heterogneo de

 pessoas de lnguas e culturas as mais diversas , uma vez que as

 prprias LS so em geral mltiplas e ininteligveis entre si .

 Trata-se , portanto , de uma agregao tpica ou tropista , isto  , de um

 agrupamento de pessoas que se d por contingncias meramente

 ambientais ou fsicas , alheias  vontade dos membros de LS ( Sebeok

 1967 ) .
 No caso das " sociedades de plantao " em que a maioria dos

 crioulos surgiram , isso se deu com muita violncia .

 Nessas condies , no h a mnima afinidade entre as partes em

 contato , a interao entre os indivduos s pode se dar

 idiossincraticamente , mediante estratgias individuais de comunicao ,

 isto  , pelo modo pragmtico , devido ao esboroamento das gramticas de

 LS e de LL , conseqncia do esfacelamento dos vnculos comunitrios de

 origem .
 No caso especfico , temos uma perda das distines fonolgicas

 de LS e de LL , ou seja , uma desfonologizao , para ampliar um pouco a

 concepo original de Jakobson .
 Em ( 1 ) - ( 4 ) acima temos alguns exemplos

 de " enunciados " que podem ser ( e foram ) produzidos nessas situaes .
 O

 pouco que h de fonologia ( gramtica fonolgica )  da lngua LS

 original do falante , talvez at mais do que o que acontece no caso da

 sintaxe .

 Se a convivncia entre os falantes de LS e de LL desse agregado

 heterogneo se prolongar no tempo , h uma tendncia para se formar uma

 espcie de compromisso entre as diversas partes envolvidas e ,

 portanto , para a emergncia de uma comunidade propriamente dita .
 No

 plano lingstico , algumas construes tendem a se cristalizar , com o

 que se tem o incio do processo de gramaticalizao ( incio do MCI ) .

 Freqentemente , tomam-se itens lexicais de LL e resqucios das

 gramticas de LS .
 O restante se deve a uma tendncia natural de

 escolha de formas menos marcadas , ou seja , a faculdade de linguagem .

 No caso em tela , inicia-se a fonologizao de sons das lnguas em

 contato , que ocorriam aleatoriamente no lapso de tempo que medeia

 entre o momento do encontro dos falantes aloglotas ( desfonologizao ,

 desgramaticalizao ) e o incio de um certo entendimento

 ( fonologizao , gramaticalizao ) .
 Logo a seguir , porm , inicia-se um

 novo influxo de LL sobre o crioulo , provocando uma reorganizao de

 sua fonologia ( e de sua gramtica em geral ) .

 Sumariando temos , no quadro maior da Fig. 2 , o incio ( e os momentos

 imediatamente subseqentes ) do contato de LS e LL : desfonologizao .
 A

 seta descendente representa a manuteno desse contato e a subseqente

 formao paulatina de um MCI : fonologizao .
 O quadro inferior mostra

 o resultado do processo indicado pela seta descentente , ou seja , a

 cristalizao do MCI , cujo resultado final  uma lngua crioula , um

 crioulo .
 A seta ascendente indica o processo tambm paulatino de

 reaproximao do crioulo  lngua lexificadora ( LL ) , de superstrato :

 desfonologizao .
 No quadro superior interno , direito , finalmente ,

 temos os momentos finais do processo de descrioulizao , ou seja , o

 momento em que o crioulo perde suas caractersticas em prol das de LL ,

 desaparecendo quase por completo .
 O pouco que dele resta so alguns

 vestgios na lngua lexificadora , sob a forma de um dialeto

 relativamente bem marcado .
 As equivalncias completas so as

 seguintes : contato LS + LL  desfonologizao ; crioulizao 

 fonologizao ; crioulo  gramtica fonolgica ; descrioulizao 

 desfonologizao ; obsolescncia do crioulo  lngua lexificadora

 dialetalizada ( LL ) .
 Como se v , em nenhum momento o conceito de pidgin

 fez falta .

 Um fato nada despiciendo que deve ser notado  que o gatilho para todo

 o processo de mudana lingstica em questo ( desfonologizao , no

 caso presente )  um fenmeno social .
 Sem o contato dos povos falantes

 de lnguas mutuamente ininteligveis nada do que se descreve aqui

 teria ocorrido ( cf .
 Thomason & Kaufman 1988 ) .
 E o que  mais , com a

 nova concepo do processo de crioulizao sugerida acima ( surgimento

 do crioulo concomitantemente com a cristalizao de um MCI sem um

 pidgin prvio ) , fica claro que gramtica pressupe comunidade .
 No

 basta um nico indivduo ter na cabea um conjunto de regras para

 formar frases gramaticais para se ter uma lngua , como querem

 Bickerton ( 1991 : 37-38 ) e os seguidores da gramtica gerativa em

 geral .
 No se tem nenhum caso de indivduo que tenha desenvolvido uma

 lngua sem que seja no seio de uma comunidade .

 4 .
 O caso do crioulo da Guin-Bissau

 Como se pode ver em Couto ( 1992a , 1993b , 1994 ) , os portugueses

 comearam suas investidas na regio da costa ocidental africana j no

 final do sculo XV .
 Nesse processo , entraram em contato com diversos

 povos , falantes das mais variadas lnguas .
 Quando comearam a

 estabelecer ncleos de colonizao ( fortes , fortalezas , feitorias ,

 etc. ) ao longo da costa , arregimentaram auxiliares africanos para o

 trabalho ( grumetes ) e se juntaram a esposas ou concubinas locais

 ( tangomas ) , de modo que comearam a surgir comunidades mistas

 euro-africanas , como Cachu , Geba e outras , no continente , e Cabo

 Verde , no arquiplago do mesmo nome .
 Portanto , as bases para o

 surgimento de uma comunidade e conseqetemente de uma lngua , j

 estavam dadas .
 Porm , diante do multilingismo vigente nessas

 comunidades emergentes e heterogneas , certamente houve um

 desmoronamento das estruturas das lnguas intervenientes , ou seja , de

 um lado o portugus seiscentista e , de outro , o mandinga , o mancanha ,

 o pepel , o bijag , o beafada , o fula , etc. ( ver Couto 1992a , 1993b ,

 1994 ) .
 A conseqncia natural foi o incio da formao , nesses ncleos

 mistos euro-africanos , de um MCI para atender as necessidades de

 comunicao no s entre portugueses e africanos mas tambm dos

 africanos entre si , dadas as diversas lnguas que falavam .

 Infelizmente , no temos registros desses momentos iniciais de formao

 de uma nova comunidade e , conseqentemente , de uma nova lngua a

 partir dos escombros das diversas lnguas que passaram a conviver

 neles .
 O que temos  o crioulo atual .
 Do perodo de formao , o que

 temos so apenas palavras isoladas , citadas por cronistas ,

 freqentemente em uma grafia lusitanizante .
 Portanto ,  praticamente

 impossvel sequer tentar reconstruir a morfologia , e mais impossvel

 ainda a sintaxe crioula dessa fase inicial .
 No entanto , podemos ver

 com relativa segurana como pode ter sido a sua gramtica fonolgica

 ( GF ) , sobretudo os padres silbicos , uma vez que ela pode ser feita ,

 pelo menos parcialmente , tendo por base as poucas palavras isoladas

 que esses cronistas nos legaram .

 No restante dessa seo , analisarei alguns desses registros de

 palavras isoladas no intuito de tentar rastrear a formao da GF do

 crioulo em questo , de que j apresentei uma prvia em Couto ( 1993a ) .

 As concluses adquirem mais plausibilidade diante de algumas formas

 alternantes ainda subsistentes no crioulo basiletal atual .
 Passemos 

 anlise da formao histrica da fonologia do crioulo portugus da

 Guin-Bissau .

 O ponto de partida pode ser o quadro fonolgico do crioulo

 tradicional , chamado em crioulstica de crioulo basiletal ( CB ) , por

 ser a variedade mais conservadora , portanto , presumivelmente mais

 prxima de fases anteriores da lngua .
 O quadro da Fig. 3 mostra as

 consoantes e o da Fig. 4 mostra as vogais dessa variedade de crioulo .

  exceo das fricativas / f / e / s / e das lquidas / r / e / l / , trata-se

 de um quadro bastante simtrico .
 Alm disso , em geral se trata de sons

 no muito marcados .
 Na Fig. 5 , mais abaixo , temos as principais

 estruturas silbicas dessa variedade conservadora do crioulo ,

 detectada a partir da contagem de uma amostra 452 slabas tiradas de

 um conto tradicional crioulo ( cf. tambm Couto 1994 : 75-76 ) .
 Em Mbodj

 ( 1979 : 54 ) temos resultados muito parecidos obtidos de 304 slabas

 tambm de um conto tradicional .

 Labiais Alveolares Palatais Velares

 [ INLINE ]

 Fig. 3

 Anteriores Central Posteriores

 [ INLINE ]

 Fig. 4

 Padro Porcentagem

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 Fig. 5

 Para o que deve ter ocorrido na poca de formao do crioulo , h uma

 excassez dramtica de dados .
 No que tange a enunciados , h uma

 ausncia total de registros .
 Os nicos registros lingsticos dessa

 poca de formao da gramtica fonolgica do crioulo que consegui so

 58 palavras transcritas , em uma grafia lusitanizante embora , pelos

 cronistas Fernandes ( 1506/1510 ) , Almada ( 1594 ) , Guerreiro ( 1600-1693 ) ,

 Faro ( 1664 ) , Coelho ( 1669 e 1684 ) , De la Courbe ( 1685 ) , Mota / Pea

 ( 1695 ) , Portuense ( 1695-1696 ) e Labat ( 1728 ) , reproduzidas no

 Apndice .
 Parto do pressuposto de que eram pronunciadas

 aproximadamente como no crioulo basiletal atual ( " crioulo puro " ,

 " kriol fundu " ) , como a prpria grafia dos cronistas d a entender .
 A

 partir delas , obtemos as consoantes / p-b-m , t-d-n , ts - d3- , k-g , w-y ,

 r-l / e as vogais / a , e , i , o , u / .
 Como se v , elas j mostravam

 praticamente todo o sistema do crioulo basiletal atual , com exceo da

 velar nasal / N / .

 No que tange  slaba , as 58 palavras permitem detectar os padres

 expostos na Fig. 6 , seguidos de porcentagem de ocorrncia .

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 Fig. 6

 Nesse quadro esto faltando os padres CVVC , VVC e CCVC que ocorrem no

 crioulo tradicional , como visto na Fig. 5 .
 No que tange ao padro

 CVVC , para no nos perdermos em detalhes irrelevantes , devo salientar

 que ele s foi registrado em 4 ocorrncias da palavra " deus " .
 A

 estrutura VVC , por seu turno , s aparentemente teria ocorrido em

 exemplos como " ientra " ( entrar ) , " ianda " ( andar ) e " iagu " ( gua ) , j

 herdada dos portugueses .
 Ocorre que o [ y ] inicial dessas palavras deve

 ser interpretado como C , com o que a slaba inicial das trs seria CVC

 ou CV .
 O padro CCVC , por fim , tambm  raro , porm , deve ter ocorrido

 em poca relativamente recuada pelo menos na palavra [ kristoN ]

 ( cristo ) .
 Lembremos que at hoje os falantes do crioulo do sul do

 Senegal so chamados de " kristons " .
 Veremos ainda nesta seo que do

 ponto de vista terico , a ausncia desses trs padres no  to

 significativa assim .
 Com efeito , uma gramtica que disponha de CV , VC

 e CVC j fixou os parmetros necessrios para se terem tambm CVVC e

 VVC .
 Por outro lado , uma gramtica que j tenha os padres CCV e VC e

 CVC j prev tambm CCVC , mesmo que esse padro ainda no ocorra em

 nenhuma palavra da lngua .
 O fato  que podemos afirmar , com relativa

 margem de segurana , que os padres silbicos do crioulo dos sculos

 XVI e XVII no devem ter sido muito diferentes dos do crioulo

 basiletal ( CB ) atual .

 A fim de continuar a argumentao , gostaria de me deter mais

 detalhadamente em quatro momentos de transio que no foram

 devidamente ressaltados na Fig. 2 .
 Para tanto , reproduzo-a na Fig. 7

 abaixo , com esses momentos indicados por 1 , 2 , 3 e 4 .

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 Fig. 7

 O momento 1  o instante crtico do incio de fixao de uma

 fonottica prpria ( GF ) .
 Como demonstra a esmagadora maioria das

 palavras do Apndice , o que dominava era o padro universal CV ; ele

 foi o ponto de partida , como previsto pela prpria teoria ( cf .

 Clements & Keyser 1983 ) .
 Mas , alm dessas palavras da poca e da

 previso terica , temos tambm fatos da sincronia atual que apontam na

 mesma direo , como exemplificado em ( 5 ) , em que a estrutura CCV virou

 CVCV ..

 ( 5 ) ( a ) garandi ' grande ' , ( b ) kiriol ' crioulo ' , ( c ) kuru ' cru ' , ( d )

 firiu ' frio ' , ( e ) birinka ' brinca ( r ) ' .

 Diante desses exemplos , podemos afirmar que o recurso  epntese para

 se desfazerem grupos consonantais ( tendncia  slaba CV ) deve ter

 sido a norma nesse momento inicial da GF crioula .

 H outros argumentos sincrnicos que reforam essa concluso , como as

 alternncias de ( 6 ) .
 Elas mostram claramente que a tendncia atual vai

 na direo contrria  do que se deu nos momentos iniciais da

 fonottica crioula .
 O fato de a segunda forma alternante de cada

 exemplo ser a mais comum mostra que a lngua de certa poca para c ( e

 daqui para o futuro ) anda na direo da complexificao .
 O corolrio

 disso  que antes tudo era mais simples .

 ( 6 ) ( a ) juguta - jukta ' pular ' , ( b ) tisina - tisna ' queimar , tisnar ' ,

 ( c ) notisi - notsi ' anoitecer ' , ( d ) gurumeti - grumeti ' grumete ' , ( e )

 kapili - kapli ' escapulir ' , ( f ) ofirisi - ofirsi ' oferecer ' , ( g )

 kuturinu - kutrinu ' anca , rins '

 Os exemplos 1 e 2 do Apndice mostram que logo aps os instantes

 iniciais em que o padro CV era a forma preferida , o crioulo fixou o

 parmetro de ( 7 ) .
 Com isso , o incipiente MCI adicionou a slaba V a

 sua fonottica , passando a ter os padres CV , V .

 ( 7 ) apagar C inicial

 O processo de complexificao do sistema simples original continuou .

 Como as necessidades de comunicao certamente foram aumentando , no

 instante subseqente do momento 1 da seta descendente , a GF crioula

 fixou mais um parmetro , ou seja , o de ( 8 ) , a fim de prover um MCI

 mais eficaz .

 ( 8 ) acrescentar C final

 Mediante ( 8 ) , a lngua passou a contar com os padres silbicos CVC e

 VC adicionados aos j existentes CV e V .
 As palavras 6 , 10 , 32 e 40 ,

 entre outras , do Apndice , exemplificam o padro CVC .
 O padro VC no

 est presente em nenhuma das 58 palavras desse perodo que foram

 registradas .
 No entanto , o parmetro ( 8 ) o prev .
 Portanto , sua

 ausncia nesse rol de palavras se deve ao acaso e , provavelmente , ao

 seu reduzido nmero .
 H um pssaro que deve ter sido conhecido desde

 essa poca que se chama " alma biafada " , em que o padro VC ocorre .

 Chegamos , assim , ao momento 2 , o instante em que a GF crioula se

 consolida mediante a fixao do parmetro ( 9 ) .

 ( 9 ) inserir lquida aps C inicial

 A partir desse momento , a lngua passa a dispor de estruturas como a

 da palavra de nmero 58 ( trusiman ) do Apndice , entre outras .

 Acrescentam-se , portanto , os padres CCV e CCVC aos j existentes .
 A

 palavra de nmero 58 exemplifica apenas CCV .
 Porm , como j adiantei

 acima , a palavra " kriston " deve ter assumido essa configurao

 aproximadamente na mesma poca , deixando de lado a possvel forma

 inicial " * kiriston " ou at mesmo " * kirisiton " .

 Mas , a lngua no estacionou nesse momento .
 Provavelmente devido 

 influncia massacrante da lngua lexificadora ( LL ) , no momento 3 ela

 fixou um ltimo parmetro , ou seja , o de ( 10 ) .

 ( 10 ) inserir / s / antes de C inicial

 Essa regra criou no s o exemplo de ( 11a ) mas tambm os de ( 11b - d ) .

 ( 11 ) ( a ) sta ' ser , estar ' , ( b ) strada ' estrada , via ' , ( c ) skribi

 ' escrever ' , ( d ) splika ' explica ( r ) ' .

 Nos padres silbicos fonologizados at aqui esto faltando CVV , VV ,

 CVVC e VVC .
 Devo salientar , no entanto , que VV no passa de uma

 expanso de V , ou seja , com V temos um ncleo silbico simples , ao

 passo que com VV temos um ncleo silbico complexo , como ( 12 ) ( a ) e

 ( b ) , respectivamente .
 Em ( 12b ) temos , como se v , o ditongo .

 ( 12 ) ( a ) N

 ( b ) N

 |

 / \

 V

 V V

 A palavra nmero 20 ( cay ) do Apndice j exemplifica o padro CVV .

 Isso mostra que j nos instantes iniciais do Momento 1 a lngua fixou

 um parmetro adicioinal do tipo : " Inserir vogal alta aps primeira

 vogal no ncleo silbico " .
 A partir desse momento , pelo menos

 teoricamente todos os padres silbicos existentes se duplicam .
 Com

 isso , teramos adicionalmente CVV , VVC , CVVC , CCVV , CCVVC , CCCVV e

 CCCVC .
 No entanto , nem o crioulo acroletal faz uso de CCCVV e CCCVC .
 O

 mesmo se d com CCVV e CCVVC .
 Nem mesmo o padro VVC consegui

 registrar porque , como j vimos , o [ i ] de palavras como " ianda " 

 fonologicamente C .
 Desse modo , parece que o crioulo s usa CVV , CVVC

 e , talvez , VV s em monosslabos e interjeies .
 Isso mostra pela

 ensima vez que nem tudo que a gramtica de uma lngua prev ocorre

 efetivamente .
 E assim , temos a gramtica fonolgica crioula completa ,

 como se apresenta nos dias de hoje em sua variedade basiletal .
 Ela

 consta dos padres CV , CVC , V , VC , CCV , VV , CVVC e VVC .

 Partindo do pressuposto de que a lngua  antes de tudo um meio de

 comunicao de que os membros de uma comunidade se servem para

 interagirem entre si ( comunicarem-se ) , o foneticista canadense

 Jean-Guy Lebel parte de trs estgios de competncia , quais sejam , ( a )

 um nvel de comunicao mnimo ( primrio ) , ( b ) um nvel de comunicao

 agradvel ( essencial ) e ( c ) um nvel de comunicao mxima ( tima ) .

 Para cada nvel de competncia comunicativa , tem-se um estgio de

 desenvolvimento da GF .
 Portanto , para ( a ) temos a GF primria

 ( minimal ) , para a ( b ) a GF essencial e para ( c ) a GF tima ( maximal ) .

 No caso das vogais portuguesas , uma competncia minimal poderia

 constar de apenas as vogais / a ,  , i ,  , u / .
 Um sistema essencial para

 uma comunicao agradvel teria que ter pelo menos / a , (  ) , e , ( e ~ ) ,

 i , ( i ~ ) , o- , (  ) , u , ( u ~ ) / .
 No sistema maximal temos a presena plena

 de todas as vogais da lngua , sem nenhuma restrio .
 Devo acrescentar

 que o africanista Bernd Heine tambm fala , a propsito dos pidgins de

 base bntu , em " minimales phonologisches System " e " maximales

 phonologisches System " ( Heine 1973 : 72-76 ) .

 Voltando ao crioulo , parece que no que tange s vogais no h

 diferena considervel nos planos ( a ) minimal , ( b ) essencial e ( c )

 maximal , desde o Momento 1 .
  o que d a entender a lista de palavras

 do Apndice .
 No que tange s consoantes , tampouco houve grandes

 alteraes ao longo de todo o perodo de fonologizao. Alteraes

 houve muitas , mas na fonottica .
 Assim , desde os instantes iniciais de

 predomnio de CV at a fixao dos parmetros ( 7 ) e ( 8 ) , temos ( a ) a

 fonottica minimal .
 Com a fixaco do parmetro ( 9 ) , a lngua passou a

 dispor de ( b ) a fonottica essencial .
 Por fim , aps adotar ( 10 ) , ela

 passou a ter ( c ) a fonottica maximal .

 O que sobreveio depois de a lngua j ter sua fonottica maximal

 representa uma perturbao do sistema crioulo , que passa a se

 confundir com o do portugus e , portanto , a perder sua autonomia .
 A

 influncia da lngua de superstrato se intensifica cada vez mais , de

 modo que , pelo menos para um crioulo mais acroletal ( e talvez at

 mesmo para o mesoletal ) , temos mais um momento , ou seja , o momento 4 .

 Nesse instante , o crioulo comea a adotar praticamente toda e qualquer

 estrutura de LL , com o que est se consolidando um processo de

 descaracterizao do crioulo original .
 Trata-se , portanto , da

 desfonologizao de GF em um estgio bastante avanado .
 Se esse

 processo continuar na direo em que est indo , em breve no se poder

 falar mais em uma lngua crioula distinta da lngua portuguesa .

 Tratar-se- de um dialeto , ainda que bastante marcado , do portugus .

 Quando muito teremos o que poderia ser chamado de continuum

 ps-crioulo , ou at mesmo de um semi-crioulo ( cf .
 Holm 1992 ) .

 No momento 4 , praticamente toda e qualquer forma da lngua portuguesa

 passa a ser potencialmente uma forma do crioulo .
 Em ( 13 ) temos alguns

 exemplos desse tipo de influxo ( L = lateral palatal ) .

 ( 13 ) ( a ) ri3ion ( " Regio " , uma das divises administrativas da

 Guin-Bissau ; ( b ) miLoradu ( melhorado ) , ( c ) koLeyta ( colheita ) , ( d )

 vivi ( " viver " , em vez de [ bibi ] ) , ( e ) kaza ( " casa " , em vez de [ kasa ] ) ,

 ( f ) sikeru ( " chiqueiro " , em vez de [ tsikeru ] ) .

 Como se v , todos as consoantes portuguesas ausentes do quadro da Fig .

 3 ocorrem nessa variedade , ou estgio , do crioulo .
 So elas os fonemas

 / v , z , s , 3 , L / .
 Os fonemas que existiam na poca de formao mas que

 inexistem no portugus continental no ocorrem no crioulo .
 Afinal , os

 falantes esto refonologizando sua lngua na direo do portugus

 atual .
 Para maiores comentrios sobre esse assunto , pode-se consultar

 Couto ( 1994 ) .
 Quanto s vogais nasais , parece que tendem a ocorrer

 nesse estgio .
 Porm , o assunto precisa ser investigado mais

 aprofundadamente .
 Curiosamente , as estruturas silbicas no se

 complexificam .
 Como vimos , elas j so mais complexas do que as do

 prprio portugus .

 5 .
 Fonologia do crioulo comparada  de LL e de LS

 At este ponto , a argumentao sobre o possvel sistema fonolgico

 crioulo que teria surgido a seguir  desfonologizao de LL e LS se

 baseou apenas em 58 palavras da poca registradas pelos cronistas e em

 uma comparao da estrutura fonolgica dessas palavras com a do

 crioulo basiletal atual .
 Nesta seo , gostaria de comparar a fonologia

 deste ltimo com a da lngua lexificadora e a de algumas das lnguas

 de substrato .
 Esse procedimento tem por objetivo salientar ( a ) quais

 fonemas e que padres silbicos de LL e de LS foram mantidos no

 crioulo , ( b ) que fonemas e que padres silbicos existentes em LL e LS

 no existem no crioulo e ( c ) se no crioulo h fonemas e / ou padres

 silbicos inexistentes em LL e LS .

 No que tange ao inventrio de fonemas , o que os navegantes portugueses

 levaram para a regio em que surgiria o crioulo constava das 21

 consoantes / p , t , k , b , d , g , f , s , s ' , v , z , z ' , 3 , l , L , rr , r , m ,

 n ,  / e das 13 vogais / a ,  ,  , e , i ,  , o , u ,  , e ~ , i ~ ,  , u ~ / (  =

 [ a ] no-baixo ) .
 V-se , portanto , que o crioulo no fonologizou as

 consoantes fricativas / v , s ' , z , z ' , 3 , s / , a lateral palatal / L / nem

 a vibrante mltipla alveolar / rr / .
 Do quadro voclico portugus da

 poca , no entraram para o crioulo nenhuma das nasais , nem /  ,  ,  / .

 Em todos os sentidos , houve uma grande simplificao , uma vez que se

 evitaram sons altamente marcados , relativamente  fonologia do

 portugus , como era de se esperar .
 Em suma , essa tendncia fala a

 favor das concluses a que chegamos no final da seo 3 por se tratar

 de um movimento na direo do menos marcado .

 Quanto  estrutura silbica , verifica-se que os padres do crioulo

 basiletal atual e , provavelmente os do crioulo em fase de

 refonologizao de final do sculo XVI e comeo do XVII , so muito

 semelhantes aos do portugus atual , ou seja , CV , V , CVC , VC , CCV e

 CCVC .
 E o que  mais interessante , as consoantes que ocorrem na coda

 silbica so basicamente as mesmas em ambas lnguas , ou seja , / l , r ,

 N / , em que N representa um travamento nasal de coda , de natureza

 consoantal , independentemente de ponto de articulao .
 Quanto s que

 ocorrem na posio C1 do padro C2C1V , so outrossim as mesmas , isto

  , as lquidas / l , r / .
 Em ( 6d , e , g ) temos alguns exemplos de ambas

 posies .
 Quanto ao / N / , temo-lo at mesmo nas palavras do Apndice ,

 como " balafon " , " bandin " , " mankara " , entre outras .

  bem verdade que h aclives com / s / na posio C2 como o exemplo de

 ( 11a ) .
 Esse / s / pode ocorrer at mesmo antes de duas consoantes , como

 previsto em ( 10 ) e como est exemplificado em ( 11b - d ) .
 No entanto ,

 como tentei mostrar acima e em Couto ( 1993a ) , essas estruturas devem

 ter surgido no incio do processo de refonologizao , ou seja , no

 Momento 3 .
 Em fases anteriores elas certamente no ocorreram .
 Tanto

 que at hoje ocorrem variantes como / siplika / , para mostrar que so

 tardias .

 No caso das lnguas de substrato , elas so mais de 20 .
 Por isso levo

 em conta apenas uma amostra delas , ou seja , o manjaco , o mancanha , o

 mandinga e o balanta .
 O manjaco ( Carreira & Marques 1947 , Diniz 1982 )

 contm um sistema consonantal muito semelhante ao do crioulo .
 Os sons

 dessa lngua inexistentes no crioulo basiletal so [ T , x , h , ] ( T =

 " th " ingls ) .
 As estruturas silbicas so mais simples , no sentido de

 ter menos posies estruturais , ou seja , apenas CV , V , CVC e VC .
 Os

 aparentes casos de CCV so apenas aparentes .
 Isso se deve ao fato de

 estar ocorrendo um enfraquecimento da vogal pretnica que s vezes

 chega a zero , como em [ brm ] (  = schwa ) ( mato ) , que tende a virar

 [ brm ] .
 Isso demonstra que em estgios anteriores s deve ter havido a

 primeira forma .
 Por outro lado , so mais complexas no sentido de

 permitirem praticamente todas as consoantes na coda .
 O mancanha 

 aparentado ao manjaco , portanto , tem uma estrutura fonolgica muito

 semelhante .
 Contm todas as consoantes de CB , exceto [ T , x ] .
 No que

 diz respeito s estruturas silbicas , constam de CV , V , CVC , VC e CCV .

 O padro CCVC parece ocorrer s em emprstimos , como na palavra / pler /

 ( ler ) .
 O padro vernculo mais complexo parece ser CCV ( Lopes 1986 ,

 Sanca 1988 ) .

 A lngua balanta tem trs consoantes a mais que o CB , ou seja , [ T , z ,

 h ] .
 Suas estruturas silbicas so exatamente como as do manjaco ,

 talvez com a ressalva de que os casos de dois C prevoclicos sejam

 efetivamente CCV , e no resultado de sncope de vogal ( Gomes 1994 ,

 Mane 1995 ) .

 Entre todas as lnguas de substrato , a que teve mais influncia na

 formao do crioulo foi indubitavelmente o mandinga .
 Ele tem apenas

 uma consoante que no ocorre em CB , ou seja , [  ] .
 Suas estruturas

 silbicas so tambm mais simples do que as do crioulo , ocorrendo

 apenas CV , V , CVC e VC ( Rocha 1994 ) .
 Assim , do ponto de vista do

 inventrio de fonemas , essa  a lngua que mais se aproxima do

 crioulo .
 No entanto , seus padres silbicos ficam bem aqum dos dessa

 lngua , do ponto de vista numrico .

 6 .
 Observaes finais

 Diante do que vimos nas sees anteriores , podemos fazer algumas

 ilaes interessantes para a crioulstica .
 A primeira  a de que tanto

 o inventrio de fonemas quanto as estruturas silbicas do crioulo so

 diferentes do que se d em LL e em LS .
 No entanto , essa diferena 

 mnima .
 A segunda consiste no fato de que no crioulo no h nenhum

 fonema que no ocorra nas lnguas de substrato .
 H , isto sim , fonemas

 destas que no ocorrem naquele .
 Contrariamente , o crioulo contm trs

 fonemas que inexistem em portugus , mas que so muito freqentes em

 todas as lnguas de substrato .
 So eles ( / ts , d3 , N / ) .
 A terceira 

 que h diversos fonemas do portugus que no foram fonologizados pelo

 crioulo , quais sejam , / s ' / , / s / , / z / , / z ' / , / 3/ , / v / , / L / e / rr / .

 V-se , portanto , que desse ponto de vista o crioulo se aproxima mais

 de LS do que de LL .
 Ainda no concernente ao inventrio de fonemas ,

 temos a questo das consoantes pr-nasalizadas .
 Elas esto presentes

 em praticamente todas as lnguas de substrato mas so , como sabemos ,

 inexistentes em portugus .
 No crioulo , elas existem s foneticamente .

 No nvel fonolgico , elas so interpretadas como uma seqncia de

 N + obstr. , ou seja , consoante nasal mais consoante obstruinte , como em

 / N + b /  [ mb ] .
 Dessa perspectiva , o crioulo fica a meio caminho entre

 LL e LS ( cf .
 Couto 1992b ) .

 Estranhamente , as estruturas silbicas crioulas so mais prximas das

 do portugus do que da das lnguas de substrato .
 E o que  mais , nos

 ltimos tempos elas passaram a ser at mais complexas do que as do

 portugus , como mostram os exemplos de ( 11 ) e assemelhados .
 Uma vez

 que estruturas silbicas ( ou fonottica ) esto para gramtica assim

 como inventrio de fonemas est para vocabulrio , esse resultado vai

 de encontro  hiptese da lngua mista , segundo a qual os crioulos

 constariam de um vocabulrio europeu e uma gramtica africana ( cf .

 Couto 1966 , cap. III , 4 para mais detalhes e discusso ) .
 Essa questo

 merece ser investigada mais a fundo pelos crioulistas .

 A segunda concluso fala a favor da chamada hiptese do denominador

 comum .
 De acordo com essa hiptese , os crioulos apresentariam uma

 reduo de complexidade relativamente a LL e LS " que vai na direo

 dos traos que so comuns s lnguas de todos os que usam o pidgin ,

 para maior facilidade de uso e inteligibilidade , com isso chegando a

 uma espcie de mximo denominador comum " ( Hall 1996 ) .
 Apesar das

 restries que Mhlhusler ( 1986 : 118-119 ) tem a ela , essa hiptese 

 confirmada pelos dados do crioulo discutidos acima , pelo menos no que

 se refere ao inventrio de fonemas .
 No que tange s estruturas

 silbicas , o crioulo vai alm no s de LS mas at mesmo do portugus .

 Tudo isso mostra que o crioulo tem autonomia estrutural relativamente

 tanto a LL quanto a LS , ou seja , ele no pode ser confundido nem com

 as lnguas nativas africanas que lhe serviram de substrato nem com a

 lngua lexificadora , uma vez que  diferente de todas elas .

 Por fim , os dados analisados tiram o pouco de razo que os

 colonialistas criam ter ao afirmarem que o crioulo no era uma lngua ,

 que era portugus errado .
 No caso , alm de ser a principal lngua de

 comunicao intertnica na Guin-Bissau , o crioulo  tambm ( ou

 principalmente ) a lngua materna da maioria dos guineenses .
 Portanto ,

 se no bastasse ter uma autonomia imanente , estrutural , isto  , ter

 uma gramtica independente das de LS e LL , ele tem tambm autonomia

 poltica .

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 APNDICE

 Lista de palavras que entraram no crioulo de cerca de 1500 a 1728 .

 Algumas delas tm uma forma ligeiramente diferente na atualidade ,

 embora isso no afete substancialmente os argumentos que tento

 ilustrar com elas .
 As abreviaturas que vm entre parnteses significam

 o seguinte : VF = Valentim Fernandes ( 1506-1510 ) , AA = Andr A. Almada

 ( 1594 ) , FG = Ferno Guerreiro ( 1600-1603 ) , AF = Andr do Faro ( 1664 ) ,

 LC = Lemos Coelho ( 1669 , 1684 ) , DL = De la Courbe ( 1685 ) , MP =

 Mota / Pea ( 1694 ) , VP = Vitoriano Portuense ( 1694 , 1695 , 1696 ) , JL =

 Jean-Baptiste Labat ( 1728 ) .

 Quanto  grafia , c = ts , j = d3 ,  = como no espanhol ou o portugus

 " nh " .
 Entre aspas vem uma traduo aproximada .

 1 .
 anima ' dolo ' ( VF )

 2 .
 atagara ' gamela ' ( VF )

 3 .
 bafet ' Bafat ' ( LC )

 4 .
 bagri ' bagre ' ( AA )

 5 .
 bajuda ' moa , rapariga ' ( AF )

 6 .
 balafon ' instr. de percusso com pauzinhos ' ( JL )

 7 .
 baloba ' casa dos dolos ' ( MP )

 8 .
 banana ' banana ' ( JL )

 9 .
 bandin ' Bandim , bairro de Bissau " ( LC )

 10 .
 batanga ' doce de arroz ' ( VF , DL , JL )

 11 .
 batata ' batata doce ' ( JL )

 12 .
 becerin ' marabu ' ( VF , AA , FG , LC )

 13 .
 biafada / biafari ' beafada ' ( VF , FG , LC , DL )

 14 .
 biu di palma ' vinho de palmeira ' ( JL )

 15 .
 bisaw ' Bissau ' ( LC , VP ,

 16 .
 bonbolon / bombalon ' tambor africano ' ( AF , LC , MP , JL

 17 .
 bufaru ' bfalo ' ( VF , LC )

 18 .
 bulama / buam ' Bolama ' ( LC , VF )

 19 .
 cabew / ceben ' chabu , leo de dend ' ( LC )

 20 .
 cay ' adultrio ' ( MP , VP )

 21 .
 cina ' dolo ' ( VF , AA , AF , DL , MP , VP ,

 22 .
 coka ' perdiz ' ( AA )

 23 .
 colona / calona ' intrprete , turgimo ' ( AF )

 24 .
 coru ' carpimento , cerimnias fnebres ' ( AF )

 25 .
 daba ' enxada mandinga ' ( VP )

 26 .
 fanadu ' circunciso ' ( LC )

 27 .
 farin ' Farim , imperador ' ( AA , LC )

 28 .
 gine ' Guin ' ( VP )

 29 .
 goyaba ' goiaba ' ( JL )

 30a .
 grumeti ' auxiliar africano dos portugueses , gurumeti ' ( LC )

 30b .
 gurumeti ' grumete ' ( VP )

 31 .
 jagra ' classe superior pepel ' ( VF , MP , VP )

 32 .
 jambakus ' curandeiro , adivinho ' ( AA , FG )

 33 .
 janta ' almoo ' ( JL )

 34 .
 judew / jidiw ' menestrel , griot ' ( AA )

 35 .
 kabasera ' cabaceira ' ( VF )

 36 .
 kabu ' lugar ' ( VF )

 37 .
 kaciw / kati_ew ' Cachu ' ( VF , AA , LC , MP , VP )

 38 .
 kalambe / kalame ' pano de virgem ' ( MP )

 39 .
 kola ' cola , noz de cola ' ( FG )

 40 .
 kuskus ' cuscus ' ( VF , AA )

 41 .
 lala ' vrzea , pastagem ' ( AA )

 42 .
 lagartu ' crocodilo ' ( VF , DL )

 43 .
 makariw ' macaru , pororoca ' ( AA )

 44 .
 mampatas ' mampats ' ( VF )

 45 .
 mandinga ' mandinga ' ( AA )

 46 .
 manduku ' porrete ' ( AF )

 47 .
 mankara / makara ' amendoim ' ( VF , AA )

 48 .
 marlota ' veste moura ' ( VF )

 49 .
 nomina ' amuleto pendurado no pescoo ' ( AF , VP )

 50 .
 ami ' inhame ' ( JL )

 51 .
 polon ' poilo , rvore frondosa ' ( JL )

 52 .
 prasa ' praa , vila , cidade ' ( LC )

 53 .
 siga ' antlope ' ( VF )

 54 .
 somana ' semana ' ( VF )

 55 .
 tangoma ' concubina africana dos europeus ' ( VF , AA , MP )

 56 .
 tapada ' paliada ' ( DL )

 57 .
 tara ' tipo de palmeira ' ( AF )

 58 .
 trusiman ' turgimo ' ( VF )

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