 A formao da lngua Portuguesa

 Vamos abordar a lngua portuguesa sob o ponto de vista histrico ,

 observando a mudana lingustica relacionada ao processo mais amplo de

 modificao scio-cultural de um povo .
 Tomando como ponto de partida a

 variao inerente a todo o sistema lingustico , procurar-se-

 demonstrar como variao e mudana so dois processos intimamente

 relacionados .

 Considerando que uma lngua no se realiza uniformemente em todo o

 territrio em que  usada e apresenta variedades de ordem geogrfica ,

 social , etria , profissional , situacional , podemos concluir que a

 variao histrica  decorrncia natural desse processo de

 diferenciao .
 Assim , o conceito de mudana lingustica deve ser

 encarado como resultado de uma gama de variedades , presentes sempre e

 em todas as circunstncias de uso de determinada lngua .
 Essa

 concepo contraria uma viso purista que considera o uso no-culto de

 uma lngua como responsvel pela sua deteriorao e esfacelamento .

 Nesta perspectiva , abordaremos o portugus no contexto das lnguas

 romnicas ( francs , espanhol , italiano , entre outras ) , que constituem

 a continuao do latim , lngua do Imprio Romano .

 O conhecimento das condies lingusticas e extra-lingusticas que

 caracterizam a histria da lngua portuguesa  de grande utilidade

 para o ensino , por permitir compreender o dinamismo da linguagem - - a

 histria de uma lngua est invariavelmente ligada  histria do seu

 povo , aos acontecimentos de natureza poltica e social .

 Dados histricos : do latim ao portugus

 A lngua portuguesa  uma das cinco lnguas mais faladas no mundo - -

 cerca de 180 milhes de indivduos utilizam-na como lngua materna .
 

 a lngua nacional de Portugal ( incluindo Aores e Madeira ) e do

 Brasil , a lngua oficial de vrios pases africanos - - Angola , Cabo

 Verde , Guin-Bissau , Moambique , So Tom e Prncipe - - onde convive

 com mltiplas lnguas nacionais , e ainda sobrevive na sia - - Macau e

 Goa - - e na Oceania - - Timor - - como lngua de grupos minoritrios .

 A lngua portuguesa pertence ao grupo das lnguas romnicas , ou

 neolatinas , e teve a sua origem no latim falado , levado para a

 Pennsula Ibrica por volta do sculo II a.C. , como consequncia das

 conquistas polticas do Imprio Romano .
 Originado no Lcio , na Itlia

 Antiga , o latim expandiu-se por quase todo o mundo conhecido devido ao

 esprito de organizao e domnio blico e poltico-cultural de Roma .

 Sob o ponto de vista dos acontecimentos sociais e sua repercusso , da

 expanso territorial e do contacto com outras lnguas , a histria das

 lnguas romnicas  constituda por dois momentos fundamentais : a

 romanizao , em que as foras de unificao predominam sobre as de

 disperso e a fragmentao , em que se observa o predomnio da

 diversificao sobre a concentrao .
 Esses dois movimentos representam

 foras distintas que atuam no processo de variao e mudana

 lingustica : uma fora centrpeta , da conservao , da unificao

 ( normalmente exercida pelas instituies e mecanismos sociais de

 poder ) e uma fora centrfuga , de inovao , de diversificao (

 impulsionada pelas mudanas culturais , pelo uso quotidiano e pela

 interaco com outras culturas ) .
 Na origem do portugus , a romanizao

  consequncia da fora poltica de Roma no processo de expanso do

 seu Imprio , e a fragmentao realiza-se no fraccionamento da

 Romnia , como decorrncia das invases dos brbaros , do seccionamento

 das provncias e da perda progressiva do poder romano sobre as regies

 conquistadas .

 A romanizao e o conceito de " latim vulgar "

 O Imprio Romano teve como origem o povo que habitava a regio do

 antigo Lcio e que tinha como lngua o latim .
 Esse povo , de instinto

 guerreiro e grande tino poltico , criou , a partir do sculo IV , um

 Imprio que atingiu trs continentes - Europa , sia e frica ,

 compreendendo conquistas como a da Siclia , da Sardenha , da Pennsula

 Ibrica , das Glias , de Cartago , da frica , da Macednia , da Grcia ,

 da Bretanha , da Dcia e da Mesopotmia .
 No incio da era crist , o

 Imprio Romano atingiu o apogeu de sua expanso .

 Com a expanso do Imprio , os romanos impuseram a sua cultura - -

 lngua , hbitos , valores - a todos os povos conquistados .
 E esse foi

 um dos factores decisivos da hegemonia poltica e cultural que

 garantiu a implantao do latim falado como lngua geral .

 Nesse processo , os romanos receberam influncias dos povos

 conquistados , principalmente os gregos , que j se encontravam num

 estgio muito adiantado de elaborao cultural e artstica .
 No caso

 especfico do latim escrito , foi grande a influncia grega , tanto na

 lngua literria - com as obras de Verglio e Ccero - - como no padro

 gramatical - a gramtica greco-latina .

 A rigorosa disciplina gramatical dessa lngua literria distanciava-a

 da realidade da lngua falada , altamente diferenciada em funo da

 diversidade de etnias e de culturas que compunham o Imprio .
 Como

 lngua escrita , era privilgio apenas de uma elite , o que leva alguns

 autores a afirmar , erroneamente , que esse padro escrito correspondia

  lngua utilizada , no dia-a-dia , por essa classe social .

 Para compreender a grande variedade do latim ,  preciso entender como

 era constituda a sociedade romana .

 A organizao social de Roma compreendia uma classe aristocrtica ( os

 patrcios ) , elite conservadora caracterizada pela educao e por

 costumes refinados .
 Essa classe dos patrcios separava-se da classe

 dos plebeus , formada pela populao rural , pelos estrangeiros e por

 escravos libertos .
 Eram classes sociais muito diversificadas , e as

 variadas modalidades da lngua dos romanos chegaram-nos sob as

 diversas denominaes - sermo quotidianus , sermo urbanus , sermo

 plebeius , sermo militaris , sermo rusticus ...
 Todas essas variedades se

 resumiam no inovador sermo vulgaris ( ou latim vulgar , como  comumente

 chamado ) - lngua falada por todas as camadas da populao .

 Conforme Ilari ( 1997 ) , essas " variedades reflectem duas culturas que

 conviveram em Roma : de um lado , a de uma sociedade fechada ,

 conservadora e aristocrtica , cujo primeiro ncleo seria constitudo

 pelo patriciado ; de outro , a de uma classe social aberta a todas as

 influncias , sempre acrescida de elementos aliengenas , a partir do

 primitivo ncleo da plebe. "

  preciso examinar com cuidado a expresso latim vulgar .
 O adjectivo

 vulgar tem sido empregado com vrios sentidos .
 No sentido de

 corriqueiro , sem conotao pejorativa , referindo-se  lngua falada em

 situaes informais , pela populao romana ( incluindo a aristocracia ) ;

 tem sido tambm usado no sentido de lngua popular , derivado de vulgo ,

 " povo " ; e , finalmente , no sentido depreciativo de vulgarismo , isto  ,

 uso lingustico condenvel , sob o ponto de vista purista conservador .

 Esse ltimo entendimento  claramente equivocado , embora tenha sido ,

 durante muito tempo , a orientao corrente entre os romanistas .
 Faz

 parte de uma viso superada de mudana , que se apoia nos princpios de

 deteriorao lingustica ( como se o latim vulgar fosse uma corrupo

 do latim clssico ) ; de lngua morta , ( como se o latim , actualmente ,

 fosse uma lngua morta ) ; de evoluo cronolgica ( como se o latim

 vulgar tivesse sucedido ao latim clssico ) .

 Faz-se , normalmente , uma distino entre latim vulgar e latim

 clssico .
 A expresso latim clssico deve ser entendida como a lngua

 literria e a lngua escrita em situao formal .
 Mattoso Cmara

 informa : " Estava sujeito a uma disciplina rigorosa e era tema de

 ateno por parte dos intelectuais e , mais particularmente , dos

 gramticos , que se inspiraram na gramaticologia grega .
 Como uso

 reflectido e aprendido , resistia s foras evolutivas da lngua ,

 cingia-se a um padro escrito , que procurava ser imutvel , e

 prestava-se mal para a vida social corrente , quotidiana " ( Mattoso

 Cmara , 1979 , p. 20 )

 J o chamado latim vulgar , na verdade , diz respeito  lngua viva ,

 usada por todas as camadas da populao romana , e portanto muito

 diversificada .
 E  exactamente nessa lngua inovadora que tm incio a

 nossa e as outras lnguas romnicas .

 Segundo Mattoso Cmara ( 1979 ) , "  justo dizer que as lnguas romnicas

 provm do latim vulgar , no sentido relativo de que resultaram de um

 latim dinmico , essencialmente de lngua oral , em processo de perene

 evoluo .
 Elementos do latim clssico , que esto nas origens

 romnicas , so os que se integraram no processo evolutivo , fazendo-se

 vulgares. " ( p. 21 )

 A fragmentao do Imprio e as lnguas romnicas

 O processo de fragmentao lingustica do Imprio Romano , responsvel

 pela formao das diversas lnguas romnicas - - portugus , francs ,

 espanhol , italiano e romeno , principalmente - - deve ser observado sob

 o ponto de vista lingustico e poltico-social .

 O latim falado nas diferentes regies do Imprio Romano tinha uma

 realidade to diversificada que , no sculo III da nossa era , a unidade

 lingustica do imprio j no existia .
 Essa imensa diferenciao

 dialectal  uma das principais causas da transformao do latim nas

 lnguas romnicas .

 A respeito do processo de dialectao , Mattoso Cmara afirma : " A

 diferenciao dialectal explica-se , sempre , em parte , pela histria

 cultural e poltica e pelos movimentos de populao e , por outra ,

 pelas prprias foras centrfugas da linguagem humana , que tendem a

 cristalizar as variaes e criar dialectos em qualquer territrio ,

 relativamente amplo , e na medida directa do maior ou menor isolamento

 das reas regionais em referncia ao centro lingustico

 irradiador " ( Mattoso Cmara , 1979 )

 Vrias causas de carter poltico-cultural so apontadas por Mattoso

 Cmara para a diversificao lingustica da Romnia :

 o factor cronolgico - as regies foram romanizadas em momentos

 diferentes , recebendo , portanto , o latim em diversos momentos de sua

 evoluo ;

 o contacto entre a cultura romana e as diferentes culturas dos povos

 conquistados ;

 a grande diversidade scio-econmica das regies conquistadas ;

 Contriburam para acelerar o processo de fragmentao lingustica os

 seguintes factos histricos :

 o edito de Caracala - que estabeleceu o direito de cidadania aos

 indivduos livres do Imprio , resultando perda de privilgios para

 Roma ( 212 ) ;

 a descentralizao poltica e administrativa do Imprio - com a

 criao de doze dioceses , Roma perde o poder de ditar a norma

 lingustica ;

 a mudana da sede do Imprio para Bizncio ( 330 ) ;

 a diviso do Imprio Romano , provocada pela morte de Teodsio ( 395 ) ,

 em Imprio do Oriente e Imprio do Ocidente ( este no resiste s

 inmeras invases ) .

 A formao do Portugus

 A romanizao da pennsula ibrica

 Alguns factos histricos repercutiram-se na formao da Lngua

 Portuguesa : a conquista romana da Pennsula Ibrica , a invaso dos

 brbaros germanos , a constituio dos imprios brbaros , como o

 visigtico , o domnio rabe na Pennsula , a luta da reconquista

 crist , a formao do reino de Portugal e a expanso ultramarina .

 A Romnia compreendia o conjunto de provncias do Imprio Romano onde

 o latim veio a tornar-se a lngua de civilizao : as Glias ( Frana e

 parte da Blgica actuais ) , a Pennsula Ibrica ou Hispnica , a Lbia ,

 ou litoral mediterrnico da frica e a Dcia , nos Balcs ( Romnia ou

 Rumnia actuais ) .

 A implantao do latim na Pennsula Ibrica constitui factor decisivo

 para a formao da lngua portuguesa , e ocorre no sculo II a.C. ,

 quando as legies de Roma , depois de longas lutas , conquistam a

 Hispnia ( mapa da Pensula Ibrica no sculo III a.C. ) e impem a sua

 civilizao .
 Com excepo dos bascos , todos os povos da Pennsula

 adoptaram o latim como lngua e se cristianizaram .
 O territrio da

 Pennsula Ibrica ( sculo I a.C .
 ) foi dividido , inicialmente , em

 duas grandes provncias , Hispnia Citerior e Hispnia Ulterior .
 Esta

 ltima sofreu nova diviso em duas outras provncias , a Btica e a

 Lusitnia , onde se estendia uma antiga provncia romana , a Gallaecia .

 A romanizao da Pennsula no se deu de maneira uniforme , mas pouco a

 pouco o latim foi-se impondo , fazendo praticamente desaparecer as

 lnguas nativas .
 Os povos que habitavam a Pennsula eram numerosos e

 apresentavam lngua e cultura bastante diversificadas .
 Havia duas

 camadas de populao muito diferenciadas : a mais antiga - Ibrica - e

 outra mais recente - os Celtas , que tinham o seu centro de expanso

 nas Glias .
 Muito pouco se conservou das lnguas pr-romanas .
 H

 resqucios apenas na rea do vocabulrio .

 Quando se deu a queda do Imprio Romano , a Pennsula Ibrica estava

 totalmente latinizada ( no sculo I d.C. ) .
 Nesse quadro de mistura

 tnica , o latim apresentava feies particulares , mesclado de

 elementos celtas e ibricos , basicamente no vocabulrio .

 As invases de brbaros e rabes - o romano portugus

 Por volta do sculo V , a Pennsula sofreu invaso de povos brbaros

 germanos - suevos , vndalos , alanos e visigodos .
 Com o domnio

 visigtico , ( mapa da Europa do sculo V ) a unidade romana rompe-se

 totalmente .
 Os visigodos romanizaram-se : fundiram-se com a populao

 romnica , adoptaram o cristianismo como religio e assimilaram o latim

 vulgar .
 Rodrigo , o ltimo rei godo , lutou at 711 contra a invaso

 rabe , defendendo a religio crist , tendo como lngua o latim vulgar

 na sua feio hispano-romnica .

 O sculo V marca o incio do Romano - - perodo que se estende at ao

 comeo do sculo IX , em que ocorre a grande diferenciao do latim

 numa multiciplicidade de falares .
 Trata-se de uma fase de transio ,

 que resulta no aparecimento de textos escritos nas diversas lnguas

 romnicas .
 Dentre esses falares intermdios ,  o romano Lusitnico ,

 bastante inovador , o que nos interessa principalmente .

 No sculo VIII , os povos muulmanos invadiram a Pennsula Ibrica .

 Compreendiam os rabes e os berberes e eram chamados de mouros pelos

 habitantes da Pennsula , que foi totalmente dominada .
 O rabe era a

 sua lngua de cultura e sua religio , o Islamismo .
 Tanto a lngua como

 a religio eram muito diferentes da lngua falada na regio e no

 houve imposio de uma ou outra .
 A lngua rabe era a oficial , mas o

 latim , j bastante diferenciado , era a lngua de uso .

 Extremamente diversificado , o latim continuou a evoluir entre a

 populao submetida .
 Como resultado da interpenetrao da lngua rabe

 e da lngua popular de estrutura romnica , o morabe era falado pela

 populao crist que viveu sob o domnio rabe .

 Nas montanhas das Astrias ( norte da Pennsula ) tem incio , ento , a

 Reconquista Crist - guerra militar e santa , abenoada pela Igreja e

 que provocou importantes movimentos de populaes .
 Partindo de um

 ncleo de resistncia ( restos dos exrcitos hispano-visigticos e

 cristos rebeldes ) , o movimento foi alastrando para o sul , recuperando

 os territrios perdidos .
 Foi ento que se formaram os reinos de Leo ,

 Arago , Navarra e Castela .
 No reinado dos reis catlicos da Espanha ,

 Fernando e Isabel , encerra-se o perodo de dominao dos rabes , que

 durou sete sculos e teve o importante papel de desencadear a formao

 de Portugal como Estado monrquico .

 Com a finalidade de libertar o territrio ibrico , nobres de

 diferentes regies participaram da guerra santa .
 D. Henrique , conde de

 Borgonha , pelos sevios prestados , recebeu do rei de Leo e Castela o

 Condado Portucalense - territrio desmembrado da Galiza , junto ao rio

 Douro .
 A lngua desse territrio era a mesma da Galiza .
 Coube a seu

 filho , D. Afonso Henriques , iniciar a nacionalidade portuguesa , como

 primeiro rei de Portugal , reconhecido por Afonso VII , rei de Leo , e

 pelo papa Alexandre III .
 Ao se separar da Galiza , Portugal vai

 estendendo os seus limites atravs de lutas contra os rabes e , com a

 conquista do Algarve , fixa os limites actuais de Portugal .
 A lngua

 falada era o romano galego-portugus , que apresentava relativa

 unidade e muita variedade e d origem ao galego e ao portugus .

 Os primeiros documentos do Portugus

 Os trs sculos passados entre a chegada dos brbaros e a dos rabes 

 Pennsula no deixaram documentos lingusticos .
 No entanto ,  certo

 que o latim se transformava .
 Somente no sculo IX surge um romano

 peculiar , do qual se teria constitudo a lngua portuguesa , em

 decorrncia da separao do condado portucalense dos reinos de Leo e

 Castela .

  assim que , dos falares ibricos ocidentais , sair o galego-portugus

 - - cujos primeiros textos escritos aparecero no sculo XIII - unidade

 lingustica que conserva certa homogeneidade at incio do sculo XIV .

 Com a evoluo dos dialectos romnicos , definem-se trs grupos

 lingusticos , no sculo XII : o galego-portugus , o catalo e o

 castelhano .
 Quando Portugal se separou da Galiza , falava-se

 galego-portugus em toda a regio da Galiza e da jovem nao

 portuguesa .
 O portugus originou-se , assim , do galego-portugus

 medieval , que foi levado ao sul pela Reconquista .

 No incio do sculo XIII , surgem os primeiros textos redigidos em

 galego-portugus , empregado , em toda a Pennsula Ibrica , como veculo

 das cantigas trovadorescas que ali floresceram e tambm em forma de

 prosa , em documentos .
 Com a independncia de Portugal , factores

 polticos , econmicos e sociais determinaram a quebra da relativa

 unidade lingustica galego-portuguesa .
 J separado do galego por uma

 fonteira poltica , o portugus , bastante diferenciado dos outros

 falares da regio , seguiu o seu curso , tornando-se a lngua de

 Portugal , cuja capital  Lisboa .
  ento que tem incio a fase

 histrica do portugus , com a constituio da nova nacionalidade .

 Na segunda metade do sculo XIII , Portugal firmou definitivamente o

 seu territrio , com a conquista do Algarve aos mouros .
 Por esta poca ,

 a lngua portuguesa j apresentava uma lngua literria , em face do

 catalo e do castelhano .
 Era a lngua potica , segundo Mattoso Cmara ,

 " um tanto convencional , cheia de galeguismos e mesmo provenalismos .

 No representa fielmente a lngua comum que realmente vigorava no

 territrio portugus .
  a essa lngua potica que cabe a denominao

 de galego-portugus. " A prosa literria e a lngua escrita corrente j

 foram mais tardias e tiveram de substituir o latim comumente usado nos

 textos escritos .

  na base da lngua escrita que se costuma considerar , para o

 portugus , o perodo arcaico ( at o sculo XV ) e o perodo moderno .

 Dentro deste , os sculos XVI e XVII constituem o perodo clssico , os

 posteriores , o ps-clssico .
 E , como acrescenta Mattoso Cmara ,

 " Mesmo , entretanto , do ponto de vista do portugus oral comum , ou

 lngua nacional em sentido amplo , h diferenas gramaticais ntidas

 entre os sculos XVI e XVII , de um lado , e , de outro lado , os sculos

 subsequentes. "

 A formao do lxico e a scio-histria do portugus

 A histria do lxico portugus - basicamente de origem latina -

 reflecte a histria da lngua portuguesa e os contactos dos seus

 falantes com as mais diversificadas realidades lingusticas , a partir

 do romano lusitnico .
 Esse acervo apresenta um ncleo de base latina

 popular ( resultante da assimilao e das transformaes do latim pelas

 populaes nativas ibricas ) , complementado por contribuies

 pr-romnicas e ps-romnicas ( de substrato , em que a populao

 conquistada absorve a lngua dos dominadores ; de superstrato , em que

 os dominadores adoptam a lngua dos dominados ; e de adstrato , em que as

 lnguas coexistem , podendo haver at um bilinguismo ) .
 Alm desse

 ncleo ,  imensa a participao de emprstimos a outras lnguas (

 emprstimos culturais ) e ao prprio latim ( termos eruditos tomados ao

 latim clssico a partir do sculo XVI ) .
 Foram os termos populares que

 deram feio ao lxico portugus , quer na sua estrutura fonolgica ,

 quer na sua estrutura morfolgica .
 Mesmo no caso de emprstimos de

 outras lnguas , foi o padro popular que determinou essas estruturas .

 O vocabulrio fundamental do portugus - - compreendendo nomes de

 parentesco , de animais , partes do corpo e verbos muito usuais - 

 formado sobretudo de palavras latinas , de base hereditria .
 Esse fundo

 romnico usado na conversao diria constitui , assim , a grande camada

 na formao do lxico portugus .

 Dentro da contribuio pr-romnica ( camada do substrato ) ,

 destacam-se vocbulos de origem ibrica ( abbora , barro , bezerro ,

 cama , garra , loua , manteiga , sapo , seara ) ; cltica ( bico , cabana ,

 aminho , camisa , cerveja , gato , lgua , pea , touca ) ; grega ( farol ,

 guitarra , microscpio , telefone , telepatia ) ; fencia ( apenas saco ,

 mapa , malha e mata - no havendo muita clareza quanto  sua origem ) .

 A contribuio ps-romnica ( camada do superstrato ) , que compreende

 palavras de origem germnica , relacionadas ao modo de vida de seu povo

 e  arte militar , ocorre no sculo V , poca das invases .
 So exemplos

 nomes como Rodrigo , Godofredo , guerra , elmo , trgua , arauto e verbos

 como esgrimir , brandir , roubar , escarnecer .

 Apesar de no impor religio e lngua , ao conquistarem a Pennsula

 Ibrica , os rabes deixaram marcas no nosso lxico .
 Como camada do

 adstrato , as palavras de origem rabe correntes em portugus

 referem-se a nomes de plantas , de alimentos , de ofcios , de

 instrumentos musicais e agrcolas : alface , algodo , lcool , xarope ,

 almndega , alfaiate , alade , alicate .

 Quanto aos emprstimos culturais , ou seja , os que decorrem de

 intercmbio cultural , h no lxico portugus influncias diversas de

 acordo com as pocas .
 Segundo Cunha ( 1970 ) , " A incidncia de palavras

 de emprstimo no portugus data da poca da constituio da lngua , e

 as diferentes contribuies para o seu lxico reproduzem os diversos

 passos da sua histria literria e cultural " .

 Na poca medieval , a poesia trovadoresca provenal influenciou os

 primeiros textos literrios portugueses .
 Porm , muitos vocbulos

 provenais , correntes nas cantigas dos trovadores medievais , no se

 incorporaram  nossa lngua .
 So exemplos de emprstimos provenais :

 balada , estandarte , refro , jogral , segrel , trovador , vassalo ...

 Do sculo XV ao sculo XVIII , muitos escritores portugueses , entre

 eles os poetas do Cancioneiro Geral , Gil Vicente , Cames , escreviam em

 castelhano e portugus , o que se explica pelas relaes literrias ,

 polticas e comerciais entre as duas naes ibricas .
 Como

 contribuio de emprstimos espanhis para o lxico portugus , temos ,

 entre muitas outras , palavras como bolero , castanhola , caudilho , gado ,

 moreno , gal , pandeiro ...

 O latim corrente j havia contribudo para a base do lxico portugus ,

 mas foi durante o Renascimento , poca em que se valorizou a cultura da

 Antiguidade , que as obras de escritores romanos serviram de fonte para

 muitos emprstimos eruditos .
 Por essa via , desenvolveu-se um processo

 de derivar palavras do latim literrio , em vez de se partir do termo

 popular portugus correspondente ( da uma srie de adjectivos com

 radical distinto do respectivo substantivo : ocular / olho , digital /

 dedo , capilar / cabelo , ureo / ouro , pluvial / chuva ) .
 Esse processo

  responsvel pela coexistncia de razes distintas para termos do

 mesmo campo semntico .
 Houve , tambm a substituio de muitos termos

 populares por termos eruditos ( palcio / paao , louvar / loar ,

 formoso / fremoso , silncio / seeno , joelho / geolho ) .

 A expanso portuguesa na sia e na frica foi mais uma fonte de

 emprstimos .
 So de origem asitica : azul , bambu , beringela , ch ,

 jangada , leque , laranja , tafet , tulipa , turbante ...
 So de origem

 africana : angu , batuque , berimbau , cachimbo , engambelar , marimbondo ,

 moleque , quitanda , quitute , samba , senzala , vatap ...

 Em virtude de relaes polticas , culturais , comerciais com outros

 pases ,  natural que o lxico portugus tenha recebido ( e continue a

 receber ) emprstimos de outras lnguas modernas .
 Assim ,

 incorporaram-se ao nosso lxico palavras provenientes do francs

 ( chefe , hotel , jardim , paisagem , vitral , vitrina ) ; do ingls ( futebol ,

 bife , crner , pudim , reprter , sanduche , piquenique ) ; do italiano

 ( adgio , alegro , andante , confete , gazeta , macarro , talharim , piano ,

 mortadela , serenata , salame ) ; do alemo ( valsa , manequim , vermute ) .

 Nos tempos actuais , o ingls tem servido de fonte de inmeros

 emprstimos , sobretudo nas reas tcnicas , o que demonstra a estreita

 ligao que o processo de mudana lingustica tem com a histria

 scio-poltica-cultural de um povo .

 O Portugus na frica

 A lngua portuguesa foi levada ao continente africano devido 

 expanso colonial portuguesa .
 Imposta como lngua do colonizador em

 Cabo Verde , Guin-Bissau , Moambique , Angola , So Tom e Prncipe , ela

 conviveu sempre com uma imensa diversidade de lnguas nativas , que

 servem , efectivamente , como instrumento de comunicao na vida diria .

 O portugus constituiu-se como a lngua da administrao , do ensino ,

 da imprensa e das relaes com o mundo exterior .

 A partir do processo de descolonizao que se seguiu  revoluo de 25

 de Abril de 1974 , as cinco repblicas independentes estabeleceram o

 portugus como lngua oficial , ao lado das inmeras lnguas tribais ,

 de famlias lingusticas de origem africana .
 Oficialmente , esse

 " portugus da frica " segue a norma europeia , mas no uso oral

 distancia-se cada vez mais , aproximando-se muito do portugus falado

 no Brasil .

 Ao lado dessa situao lingustica , existem inmeras lnguas crioulas .

 So o resultado da simplificao e da reestruturao do portugus ,

 feitas por populaes africanas que a adoptaram por necessidade - - no

 caso , a questo da escravatura dos negros .
 Os crioulos portugueses

 comearam a formar-se desde os primeiros contactos entre portugueses e

 africanos , provavelmente no sculo XV .
 Apesar de uma base lexical

 comum , os crioulos africanos so , hoje , muito diferentes do portugus

 na sua organizao gramatical .

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