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 A variedade do sistema lingustico Galego-Portugus [ Vzquez Cuesta , P. ; 1986 ]

 mafm | 12 Dez 2004 - 17:42 |

 Ttulo : A variedade do sistema lingustico Galego-Portugus

 Autor / a : Vzquez Cuesta , Pilar

 Data e Publicao : Pgina do Instituto Cames ( em PDF ) original da Revista

 ICALP , vol. 6 , pp. 32-42 ; Agosto / Dezembro 1986

 A descoberta por Humboldt de que a linguagem no  um ergon , um produto

 perfeito e acabado , mas uma energeia , uma fora em aco , algo que est

 continuamente a transformar-se , tem j quase dois sculos de existncia , mas

 ainda hoje  muitas vezes esquecida por pessoas preocupadas pelos problemas

 lingusticos .

 Uma lngua viva - no acontece igual com as lnguas mortas , relquias

 arqueolgicas que , no mximo , so utilizadas com fins rituais mas cujo status

 no  de modo algum invejvel - constitui um perfeito devir .
 E no porque

 nasa , cresa , envelhea e morra como os organismos naturais , mas porque como

 facto social que  - evolui .

 A evoluo lingustica - que atinge o vocabulrio ( onde resulta mais fcil de

 detectar ) e , de modo menos visvel mas com consequncias muito mais profundas ,

 tambm a fontica , a entoao e a morfo-sintaxe -  , em condies normais ,

 bastante lenta ( ainda que os seus efeitos sejam geralmente perceptveis no

 decurso duma vida humana ) como para que no tenham os falantes clara

 conscincia dela .
 No deve faltar-lhes , contudo , uma certa intuio do fenmeno

 de que so os sujeitos , pois em todos os espaos lingusticos e em todas as

 pocas encontramos quem clame contra a corrupo da fala contempornea .
 Fala

 julgada sempre inferior  dos avs por essa espcie de miragem que faz ao homem

 mitificar o passado e pela atraco que as lnguas mortas exerceram sempre

 sobre os fillogos .

 Na realidade uma lngua viva , porque o  ou para manter-se assim , tem de mudar .

 S as lnguas que j no se falam permanecem estticas e possuem estructuras

 definitivas .
 As lnguas em uso esto constantemente a experimentar mudanas .

 Mudanas , s vezes , de incio , pouco importantes mas que , como puxam umas por

 outras , terminam por modificar a sua estructura .
 Porque cada estado de lngua

 constitui um equilbrio instvel que pode romper-se e com efeito se rompe , em

 qualquer momento , para voltar a refazer-se dum outro jeito .
 Sendo este repetido

 tecer e destecer condicionado em grande parte por factores extra-lingusticos ,

 como esperar que a evoluo duma lngua como a galego-portuguesa , espalhada

 pelos cinco Continentes , se tenha produzido de maneira uniforme ?

 Mas , alm disso , as lnguas vivas no so homogneas , ainda que a relativa

 fixidez - sobretudo no registo escrita - da norma culta e o complexo de

 superioridade dos seus utentes , que resistem a reconhecer no apenas a

 legitimidade mas at a existncia de padres lingusticos distintos do seu ,

 possam disfarar este facto .
 As lnguas vivas esto diversificadas

 geograficamente e estratificadas socialmente .
 Apenas no centro de cada rea e

 na boca de determinados indivduos coincidem o uso e a norma .
 So pois , trs -

 temporal , espacial e social - as dimenses a tomar em considerao numa

 reflexo como esta sobre a unidade ou a variedade da rea que nos ocupa ,

 dimenses que se interferem mutuamente tornando mais complicada a previso da

 sua deriva .

 Ainda sem sairmos do terreno duma ortodoxa sincronia , limitando-nos  pura

 contemporaneidade , apresentam-se-nos as seguintes dvidas : At que ponto ser

 uniforme uma rea como a galego-portuguesa que abrange uma stima parte da

 terra ?
 Podemos dizer que essa rea est hoje relativamente sedimentada ou , pelo

 contrrio , em plena efervescncia ?
 No segundo dos supostos ,  rpido ou lento o

 seu ritmo de evoluo e leva-a a unificar-se ou a diversificar-se ?
 Existe nela

 um centro de poder ou capitalidade lingustica que imponha a sua norma ?
 Qual o

 portugus-padro com suficiente prestgio para que o aceitem todos os falantes ?

 E passando ao campo da diacronia : Como se explica historicamente a constituio

 da rea lingustica galego-portuguesa ?
 Que factores geogrficos , polticos ,

 socio-econmicos e culturais modificaram atravs dos tempos a sua configurao

 primitiva ?

 Ou penetrando no sugestivo mas melindroso reino da futurologia : Que ameaas

 pesam neste momento sobre a rea lingustica galego-portuguesa ?
 Est em perigo

 a sua integridade territorial ?
 Existe nela risco de quebra , de que se fragmente

 em lnguas to diferentes entre si como o so hoje as romnicas ?
 Quais as

 principais frentes a defender ?
 Pode fazer-se alguma coisa para travar a

 evoluo duma lngua ?

 Comecemos por relembrar a Histria .

 O galego - nascido como uma maneira inovadora e revolucionria de falar o latim

 na antiga Gallaecia romana ( que inclua , alm da actual Galiza , as provncias

 portuguesas do Minho e Trs-os-Montes ) - avanou para o Sul em asas de

 Reconquista , sobrepondo-se aos dialectos morabes mais conservadores ( que no

 conheciam , por exemplo , a perda do l e do n intervoclicos ) os quais acabou por

 substituir .
 Lngua autctone no Norte , lngua de colonizao no Centro-Sul do

 pas , perdeu aqui algumas suas caractersticas nortenhas e unificou-se por

 nivelao de localismos convertendo-se em portugus .
 Podemos dizer , portanto ,

 que o portugus  uma verso centro-meridional do galego , como , do outro lado

 da raia fronteiria , o andaluz  uma verso meridional do castelhano .
 Mas ,

 enquanto este no passaria de uma variedade regional do espanhol , aquele

 ascendeu  categoria de lngua-padro de Portugal .

 D-se assim a primeira diviso da rea lingustica galego-portuguesa : a que

 separa o portugus do galego .
 Enquanto a verso centro-meridional do galego -

 dignificada pelo estabelecimento em Lisboa da Corte ( sempre foi considerada a

 Corte espelho de bem falar ) - se estender pelo Mundo acompanhando a quase

 incrvel expanso ultramarina portuguesa , a originria ser imolada ao Sul do

 Rio Minho nas reas da unidade lingustica lusitana e abandonada ao Norte , na

 Galiza , ao seu destino , um trgico destino de invaso estrangeira e de

 avassalamento .

 Constituem-se deste modo na rea ainda s peninsular da lngua duas sub-reas ,

 ou espaos com vida prpria e histrica separada , que criaro as suas normas .

 Ao perodo ureo das descobertas e colonizao de terras longnquas que faz do

 portugus uma lngua imperial , correspondem os sculos escuros do galego , uma

 longa noite de quase quatro centrias em que perde a escrita e at a

 conscincia da sua identidade , chegando a julgar-se dialecto do espanhol ou at

 espanhol incorrecto .
 A lngua potica por ambos partilhada durante mais de dois

 sculos o galaico-portugus dos Cancioneiros medievais perdera importncia na

 segunda metade do sc. XIV terminando no sc. XV por morrer , no tanto em razo

 do seu esgotamento estilstico como por motivos de natureza extra-literria .
 A

 subida ao trono da dinastia de Aviz , que significou o triunfo da empreendedora

 burguesia lisboeta de armadores de navios e de comerciantes sobre a velha

 nobreza rural nortenha , marcara tambm o final do apoio  lrica palaciana por

 parte dos monarcas portugueses , preocupados pelo fortalecimento fsico e moral

 dos seus cortesos , para o que a prosa didctica e a Histria resultavam muito

 mais teis do que a poesia .
 Do lado galego , a decadncia das peregrinaes a

 Santiago e com ela a da Corte episcopal compostelana , a substituio da nobreza

 nativa por outra fornea com a vitria sobre Pedro I dos seus irmos bastardos

 os Trastmara , e as lutas entre os vassalos e os senhores , e dos senhores entre

 si , tambm no criavam um clima adequado para o cultivo deste gnero. Jograis e

 trovadores tm de refugiar-se nas Cortes frvolas e galantes dos reis de

 Castela , Enrique II , Juan I , Enrique III e Juan II .
 Mas afastada das suas

 razes populares , tendo de desenvolver-se num meio cultural e lingustico

 estranho , cada vez mais acastrapada , mais contaminada de castelhanismos

 lxicos , morfo-sintcticos e fonticos , aps uma etapa inglria de virtuosismo

 formal , a velha poesia galaico-portuguesa desaparece , pois conservando os

 metros passa a escrever-se integralmente em castelhano .

 Do seu desigual combate com o castelhano - lngua do Poder poltico e em

 consequncia tambm do Poder econmico e cultural - o galego sai com cicatrizes

 e mutilaes , algumas delas indelveis .
 Mas , em determinadas circunstncias , 

 j uma vitria a sobrevivncia e o tempo tudo arranja , a no ser a morte ...!

 Dessa msera fala de camponeses e marinheiros ( utilizada apenas por outras

 camadas sociais da Galiza para funes menos nobres ou importantes ) a que o

 tinham reduzido , o galego voltaria a ser lngua escrita com o rexurdimento /

 ressurgimento literrio da segunda metade do sc. XIX .
 E , a partir de ento ,

 numa nova etapa da sua vida , tem ido paulatinamente recuperando os campos de

 que fora expulso .
 De lngua exclusivamente popular e familiar , passou a ser uma

 outra vez tambm lngua culta .
 De matria apropriada apenas para a poesia

 lrica , a veculo da expresso dramtica , da prosa de fico e da prosa

 ensastica , cientfica e tcnica .
 Ainda hoje lngua B duma situao diglssica

 em que o castelhano desempenha o papel de lngua A , muitos dos seus falantes

 esto comprometidos num processo de normalizao socio-cultural do galego que

 lhe devolva o Ensino , a Administrao e a Justia , j que no as Relaes

 Internacionais .
 Quanto  sua normativizao que no referente  ortografia

 tantas polmicas tem levantado nos ltimos tempos , oferece na realidade menos

 problemas que os que , numa primeira vista de olhos , poderia parecer .
 Existe na

 tradio literria e no prprio sentimento lingustico dos falantes no

 obsessionados pelo voluntarismo reintegracionista uma norma culta galega que se

 diferencia nitidamente , tanto na fontica , como no lxico e na morfologia , do

 portugus-padro europeu .

 Entretanto , a histria do portugus desenvolvera-se de modo totalmente oposto 

 do galego .
 Se este ltimo praticara apenas o herosmo obscuro da resistncia , o

 primeiro tinha vivido brilhantssimos perodos de difuso e domnio .
 Lngua

 duma nao livre e soberana que a finais do sc. XIII completara o seu tamanho

 peninsular definitivo , o portugus viajara desde comeos do sc. XV com as

 caravelas dos descobridores a terras longnquas , enriquecendo-se com palavras

 que designavam realidades at ento ignoradas pelos europeus .
 Estavam a fix-lo

 gramticos e ortografistas j embelesado por prosadores e poetas quando vive

 os momentos decisivos da sua expanso ultramarina .
 No sobrepe-se s lnguas

 indgenas , fazendo-as desaparecer , como outrora o galego se subrepusera e

 fizera desaparecer os dialectos morabes do Sul de Portugal .
 Na frica e no

 Oriente transforma - se num saber que ser utilizado durante sculos por todos

 os povos da Europa para a evangelizao e o comrcio .
 Multiplica assim quase

 por cem a rea inicial .

 Mas  claro que esta prodigiosa expanso por territrios dos cinco Continentes

 no se leva a efeito por pura e simples substituio pela portuguesa , das

 lnguas que antes da sua chegada se falavam neles ( para isso deveriam ter

 desaparecido as populaes nativas , coisa que felizmente no aconteceu ) ;

 realiza-se devagar por meio da mestissagem e do sincretismo cultural .
 Surgem

 assim na frica e no Oriente - aps etapas de bilinguismo - os crioulos ,

 lnguas maternas de africanos , indianos , chineses ou malaios em que palavras

 portuguesas mais ou menos deformadas se inscrevem em estruturas exticas .
 E 

 precisamente o crioulo africano introduzido no Brasil pelos negros que a

 escravido transplantou para a Amrica - e no o tupi-guarani dos indgenas da

 costa ou os dialectos tapuias das tribus do interior do pas - o responsvel

 das marcas mais profundas que observamos hoje no portugus brasileiro : as

 sintcticas .

 A lngua literria brasileira manteve-se em linhas gerais fiel  norma

 portuguesa , no apenas durante todo o perodo colonial mas at um sculo depois

 da independncia .
  precisamente por motivo das festas que em 1922 comemoravam

 o primeiro centenrio desta que os escritores modernistas decidem fazer pblica

 a sua deciso de abrir a porta da sua escrita para diz-lo com palavras de

 Manuel Bandeira   lngua errada do povo / lngua certa do povo / porque ele 

 que fala gostoso o portugus do Brasil .
 / Ao passo que ns o que fazemos 

 macaquear a sintaxe lusada  .
 E cumprem , com efeito , o seu propsito pois

 ainda que sejam logo corrigidos os exageros ( sobre tudo fonticos ) dos

 primeiros momentos nunca voltariam  voluntria submisso  norma da

 ex-Metrpole dos seus predecessores .
 Quanto ao povo , no sentido mais amplo da

 palavra , havia tempo que oralmente se desviara dos padres portugueses .

 Podemos dizer que nasceu assim uma norma culta brasileira ?
 A extenso

 desmesurada do pas , com uma rea de mais de oito milhes e meio de quilmetros

 quadrados , a sua diversidade geogrfica e cultural e at a maneira de

 processar-se a colonizao lusitana por pequenos ncleos isolados que se situam

 na costa , no parecem favorecer esta tese .
 E uma observao , mesmo superficial ,

 de falantes cultos brasileiros de diferentes Estados confirma-nos na ideia de

 que ningum se preocupa em a sua pronncia  pronncia carioca , apesar de ser

 esta a recomendada por vrios Congressos de Linguistas .
 Da que o Projecto

 NURC , vinculado ao grandioso  Proyecto de Estudio Coordinado de la Norma

 Lingustica Oral Culta de las Principales Ciudades de Iberoamrica Y de la

 Pennsula Ibrica  em que colaboraram com o PILEL e OFINES vrias

 Universidades , tenha escolhido como objecto de observao no s a antiga

 capital federal mas outras quatro cidades brasileiras - Recife , Salvador , So

 Paulo e Porto Alegre - , tendo a impossibilidade de achar mais grupos

 populacionais que cumprissem os dois requisitos de superarem o milho de

 habitantes e terem cem anos de antiguidade pelo inviabilizado o alargamento a

 mais cidades .

 Distinguimos at agora na rea lingustica galego-portuguesa - uma rea

 descentralizada , sem capital reconhecida e em plena gestao , impetuosa e

 acelerada gestao trs dessas  variantes nacionais  que o pesquisador

 sovitico Jorge Stepnov achava na espanhola .
 Enumeradas por ordem de maior a

 menor antiguidade seriam elas a galega , a portuguesa e a brasileira .
 O pouco

 tempo decorrido desde a descolonizao de Angola e de Moambique no nos

 permita assegurar que estejam a gerar-se tambm nesses pases outras  variantes

 nacionais  , ainda que tudo leve a crer que sim .

 Por mais que uma ortografia quase unificada o disfarce , a natureza no j

 reduzida mas frequentemente muda das vogais tonas portuguesas , determinadas

 palatalizaes , vocalizaes e desaparies de consonantes brasileiras , e em

 geral a tendncia para a formao de novos e complicados grupos consonnticos

 por parte da  variante  europeia e para desfazer os tradicionais por parte da

 americana , afastam foneticamente ambas mais do que a no coincidncia de

 timbres e de nasalizaes numas poucas palavras que s reflecte a escrita .
 Como

 no podia deixar de acontecer , o vocabulrio ( principalmente o vocabulrio

 cultural e o prprio da linguagem infantil ) difere em ambos lados do Atlntico .

 Contudo , onde se registam maiores divergncias entre o portugus do Brasil e o

 portugus de Portugal ( que nisso se assemelha ao galego )  na sintaxe .
 Bem

 conhecidas so as diferenas existentes na colocao dos pronomes pessoais

 tonos , e nas normas de tratamento para a 2. pessoa , aqum e alm Mar ; menos

 observadas , a ausncia do artigo no portugus do Brasil em casos em que resulta

 imprescindvel no portugus de Portugal e no galego , e o maior uso , com

 respeito s europeias , que faz a variante americana do pronome pessoal sujeito .

 Mas sobre o que at agora - que saibamos - ningum chamou a ateno , foi a

 estrutura da frase brasileira , em geral breve , cortada ( h uma clara pelas

 oraes justapostas e coordenadas ) , apoiada em abundantes bordes , sem o

 carcter redondo e acabado da portuguesa ou da galega .
 De natureza muito mais

 analtica do que estas , fica como no , ar , sempre pouco precisa , quer pela falta

 do pronome pessoal tono objecto directo , quer pela falta do pronome pessoal

 tono objecto indirecto , quer pela ausncia de ambos .
 Pedimos desculpas pelo

 carcter impressionista desta descrio , justificada apenas pela carncia de

 trabalhos cientficos sobre o assunto .

 Pelo contrrio entre o galego - que pouco a pouco est a recuperar-se das

 profundas marcas , sobretudo vocabulares , que nele deixaram tantos sculos de

 bilinguismo e opresso castelhana - e o portugus de Portugal existe - como j

 vimos - uma perfeita coincidncia sintctica .
 As diferenas que se registam

 entre eles so de ordem fontica , morfolgica e lexical .
 O conservadorismo do

 galego aproxima a sua pronncia da do portugus do Brasil no que este tem de

 conservador , no nas inovaes , afastando-a da do portugus de Portugal , que

 tanto evoluiu foneticamente nos ltimos sculos .
 Manifesta-se igualmente na no

 confuso numa nica terminao das terminaes latinas - anu , - ane , - one , - ant e

 - unt , e em certas divergncias dos morfemas verbais de pessoa e de tempo .
 Mas

 os seus mais importantes traos distintivos - a ausncia de sibilantes sonoras

 e de vogais e ditongos nasais que to fortes repercusses tem sobre a

 ortografia , impedindo a pura e simples adeso  escrita portuguesa e tornando

 quase impossvel uma futura completa unificao ortogrfica - parecem provir de

 evolues espontneas .
 No referente ao vocabulrio , o galego possui um

 belssimo lxico autctone que no sabemos se foi sempre exclusivo ou partilhou

 outrora com a lngua falada ao Sul do Rio Minho .

 Unificar-se-o com o tempo o galego , o portugus de Portugal e o portugus do

 Brasil ( para no falar ainda dos portugueses da frica ) chegando-se a um nico

 portugus-padro ?
 Parece-nos este um sonho acalentado por polticos e

 planificadores da lngua com poucas probabilidades de converter-se em

 realidade .
 Mas no nos preocupemos .
 Complexados pelo facto de terem de

 confessar - como se fosse uma vergonha , como se no acontecesse nas melhores

 famlias lingusticas , no mbito do ingls , do chins , do espanhol - que o

 sistema lingustico galego-portugus possui mais duma norma culta , vidos de

 acelerarem , com os seus esforos em pr da unificao da rea , a vinda dessa

 lngua universal que predissera o ingnuo , progressismo do sculo passado como

 fatalidade histrica , esqueceram sem dvida o etnocdio que representaria a

 reduo a uma todas as lnguas que fala hoje a Humanidade .
 Pois matar uma

 lngua equivale a um povo .
 As lnguas estructuram-nos o pensamento , condicionam

 a nossa apreenso do Mundo e nem sequer o triunfo final da nossa como lngua

 nica poderia compensar-nos do empobrecimento geral ocasionado pela desapario

 de todas as demais .

 Felizmente no nos espera um apocalptico futuro de guerras de morte entre uma

 poucas grandes lnguas sobreviventes dos seus conflitos com as pequenas e com

 as prprias variantes e variedades .
 Com a incorporao na marcha da Histria de

 povos que apenas a sofriam , os tempos caminham para um aumento das lnguas

 reconhecidas como tais e providas de escrita .
 Com a crescente mobilidade das

 sociedades modernas e a popularizao da rdio e da televiso , tende-se para

 uma maior aproximao entre a lngua culta e a lngua familiar , e at popular ,

 de cada pas .
 Isto no significa que no se sinta tambm a necessidade duma

 lngua internacional - lngua de comunicao exclusivamente de comunicao - ,

 que , com o relativo fracasso dos idiomas artificiais , muito bem poderia ser

 grfica ( pensemos no cada vez maior desenvolvimento de todo tipo de

 pictogramas ) .

 Mas constitui acaso uma tragdia a falta de uniformidade que observamos na rea

 lingustica galego-portuguesa ?
 De modo algum .
 De que os falantes das diversas

 sub-reas se compreendem entre si perfeitamente , e no apenas por escrito , do

 f entre outros factos , o sucesso obtido em Portugal pelas telenovelas

 brasileiras , os aplausos que recolhem na Galiza os grupos de teatro brasileiros

 ou portugueses que conseguem actuar l , a audincia de que goza a televiso

 autonmica galega no Norte de Portugal .
 Na verdade o que faz essa falta de

 uniformizao  garantir a coeso social da lngua .
 Para que as elites dos

 diversos territrios que integram uma rea lingustica pluri-nacional possam

 partilhar uma norma comum tm de afastar-se no j da lngua popular mas at da

 lngua familiar dos respectivos pases .
 O preo que se paga pela unidade

 horizontal duma grande lngua ( pensemos por um momento na situao lingustica

 actual do mundo rabe )  a quebra da sua unidade vertical : a apario da

 diglossia .
 E o esmorecimento da literatura , a no ser no centro de poder que

 impe a sua norma aos outros .
 Porque uma norma alheia ao do ambiente que a

 envolve constitui um espartilho que impede o escritor de respirar livremente .

 Ora bem , se a falta de unificao da rea lingustica galego-portuguesa

 supusesse a sua fragmentao em vrias lnguas coisa que por agora no

 acontece e talvez nunca chegue a acontecer - como conjurar o perigo ?
 Nos nossos

 dias , a soluo no resultaria fcil .
 A rea  extensssima e est espalhada

 por vrios Continentes .
 Falta nela a capital donde irradie naturalmente um

 portugus-padro. Portugal deixou de ser o Imprio que impunha a sua norma .
 O

 Brasil no  por agora um Imprio econmico .
  apenas um pas muito vasto e

 diversificado no qual convivem , sem integrar-se por completo , diferentes grupos

 populacionais que somam em conjunto mais de 150 milhes de pessoas .
 As novas

 naes africanas de lngua oficial portuguesa esto ainda no bero .
  muito

 duro para uma ex-Metrpole trocar a sua norma prestigiada pela Histria pela

 norma duma ex-colnia , por muito poderosa que esta seja ( vemo-lo claramente no

 caso da Inglaterra a respeito dos Estados Unidos ) .
 As lnguas so criaes

 colectivas sobre as quais muito pouco podem os linguistas .
 Que o sistema

 lingustico galego-portugus tenda a uma maior unificao ou diversificao

 depende de factores de natureza extra-lingustica e que no podemos controlar :

 da maior ou menor aproximao poltica , econmica e cultural entre os pases

 que a integram , do que quiserem esses povos , ou melhor dito , da fora com que o

 quiserem .

 No momento actual no podemos queixar-nos .
 A sade da rea lingustica

 galego-portuguesa  bastante boa , no pior , por exemplo , do que a da espanhola ,

 tambm sem perigo de fragmentao apesar da falta de uniformidade , mas com

 muitas frentes a defender para conservar a sua integridade territorial .
 A

 situao de Puerto-Rico poderia comparar-se com a galega , mais ficam ainda

 esses vinte milhes de hispanos que vivem nos Estados Unidos como cidados de

 2. ou de 3. categoria , e que esto irremediavelmente condenados a aprender o

 ingls para progredirem por pouco que seja .
 Uma relquia j quase com certeza

 irrecupervel  o espanhol das Filipinas .
 Como provavelmente ser quase

 irrecupervel o portugus da ndia .
 Mas , enquanto o porvir do espanhol no 

 muito brilhante nem na nica ex-colnia africana da Espanha - a Guin

 Equatorial - nem na zona de Marrocos que est sob a sua  proteco  , a presena

 e expanso do portugus na frica - tanto a nvel de crioulos ( com a excepo

 do da ilha de Anobom , que forma parte da Repblica equatoguineense ) como de

 lngua propriamente dita esto perfeitamente asseguradas .
 Com o seu

 aparentemente to modesto estatuto de  lngua oficial e veicular  representa ,

 por um lado ( no Continente ) , o principal ins-trumento de unificao de cada

 pas , indispensvel meio de comunicao entre os falantes dos diversos

 dialectos e lnguas africanas que nele convivem , e sinal de identidade nacional

 frente a pases vizinhos de colonizao francesa , belga ou inglesa cujas

 populaes se expressam em parte nessas mesmas lnguas ou dialectos ; e

 constitui , por outro ( e isto tambm nos arquiplagos de lngua materna

 crioula ) , a mais acessvel via de penetrao no universo da Cincia e da

 Tecnologia modernas de que dispem cidados , e elemento de trabalho

 insubstituvel - por j experimentado - para o andamento do aparelho

 burocrtico das novas repblicas .
 Do que acontecer aos habitantes do Timor

 Ocidental depender o que acontea ao crioulo portugus de Timor , o espao mais

 tragicamente conflituoso e em perigo de toda a rea .
 No sabemos ainda a

 capacidade de resistncia dos crioulos indo-portugueses , malaio-portugueses e

 sino-portugueses que se falam no s em Dio , Damo e Macau ( at h pouco ou

 ainda agora sob a Administrao portuguesa ) mas tambm noutros muitos lugares

 da Unio Indiana , de Ceilo , Java , Malaca e Singapura que outrora formaram

 parte do Imprio lusitano .
 Cremos , no entanto , que se trata de pontos fracos da

 rea , de frentes a defender .
 Um outro ponto fraco seria o da emigrao para

 pa-ses que no falam galego ou portugus , a emigrao para a Alemanha , Sua ,

 Inglaterra , Frana , os Estados Unidos que h tanto est a esgotar a Galiza , o

 Portugal Continental e Insular e o Arquiplago de Cabo-Verde , por exemplo .

 Porque os galegos , portugueses sobretudo do Norte do pas , aoreanos ,

 madeirenses e caboverdeanos que trabalham e vivem fora da sua ptria enviam de

 l divisas mas tm filhos ou netos que terminaro por serem alemes , suos ,

 ingleses , franceses ou norteamericanos .
 E so esses milhares e milhares de

 falantes que cada ano se perdem para a nossa lngua os que deveriam

 preocupar-nos mais do que uma to longnqua e hipottica fragmentao .
 O

 remdio , no entanto , sai como sempre , dos limites da Lingustica .

 * Professora da Universidade de Salamanca

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