

 Lngua brasileira ou lngua portuguesa : a questo da lngua no brasil

 Por Juliana Soledade

 Muitos brasileiros se perguntam porque no entendem os portugueses quando eles

 falam , se em verdade estamos falando a mesma lngua ?
 E por que  mais fcil

 entender o espanhol do que o portugus europeu ?

 Essa no  uma questo simples de se responder , mas no est muito longe da

 verdade quem diz que o portugus do Brasil  muito diferente do portugus de

 Portugal .

 Recentemente esteve aqui em Salvador o famoso cineasta portugus Manuel de

 Oliveira , filmando uma pelcula sobre a vida do Padre Antnio Vieira .
 Vieram os

 ndios Kiriri do sul da Bahia ajudar , como figurantes , o cineasta portugus a

 filmar uma cena em que o Padre Vieira pregava um de seus sermes aos ndios do

 Brasil .
 Montava-se ento um cenrio peculiar : portugueses e ndios novamente em

 primeiro contato em terras braslicas .
 Mas ali tambm estavam alguns de ns ,

 brasileiros , meio portugueses , meio ndios e meio africanos .
 Neste cenrio a

 questo lingstica no podia deixar de figurar .
 Eis que a produtora portuguesa

 se dirige ao antroplogo portugus erradicado no Brasil , Pedro Agostinho , com o

 seguinte comentrio : " mas a lngua Kiriri  muito bonita , no  mesmo ?
 " .

 Comentrio extremamente normal no fosse o fato de que h muito os ndios

 Kiriri no falam a sua lngua de origem , mas sim a lngua portuguesa em sua

 variante regional .
 Portanto aquilo que soou aos ouvidos portugueses como lngua

 indgena , nada mais era que o nosso portugus " feijo-com-arroz " , a nossa

 lngua de " dia-de-semana " como diz Guimares Rosa .
 Ora , no bastasse a

 incompreenso por parte dos portugueses , tambm os ndios Kiriri queixaram-se

 ao antroplogo Pedro Agostinho do no entendimento das orientaes dadas pelos

 portugueses para a confeco das cenas .

 Essa situao , que para alguns pode parecer extremada , reflete a realidade

 lingstica cada vez mais gritante : o portugus brasileiro falado nas camadas

 populares ( rurais ou no ) est cada vez mais distante da realidade lingstica

 do portugus europeu , levando-nos a considerar se no estamos a caminho de uma

 diferenciao lingstica a ponto de chegarmos a uma lngua brasileira .

 A existncia da chamada lngua brasileira , em oposio ao tradicional termo

 lngua portuguesa ,  uma questo que h muito vem sendo discutida no Brasil .
 No

 entanto , no cenrio atual dos 500 anos do Descobrimento era esperado que a

 questo fosse reavivada com grande flego , no entanto , isso no aconteceu ,

 talvez porque entre escritores a questo esteja sendo vista como um

 anacronismo .
 Porm , na viso de lingistas e fillogos , a questo se faz cada

 vez mais pertinente , uma vez que as diferenas entre os usos lingsticos

 portugus e brasileiro vem se acentuando com o decorrer do tempo - muito embora

 as novelas brasileiras exibidas em Portugal venham contribuindo para um outro

 tipo de aproximao .
 Assim , ultrapassando os argumentos motivados pela paixo ,

 pelo " exacerbado orgulho nacionalista " , como dizia o lingista Fernando

 Tarallo ,  possvel investigar a questo das diferenciao entre os usos

 lingsticos do portugus brasileiro e os usos do portugus europeu .

 ?
 Segundo Tarallo , um dos grandes problemas nesta questo  que , ao ser tomado

 como parmetro a norma padro do portugus , as diferenas entre as duas

 modalidades da lngua portuguesa so neutralizadas .
 Pois o portugus europeu

 no apresenta uma ruptura to profunda entre a norma gramatical e os usos ,

 i.e. , falas cultas e rurais .
 J no Brasil , nem mesmo as falas cultas refletem a

 norma padro do portugus defendida pelas gramticas tradicionais .
 A

 heterogeneidade lingstica no Brasil  hoje um fato incontestvel .

 ?
 Os estudos lingsticos desenvolvidos at hoje demonstram claras diferenas

 entre os usos lingsticos do Brasil e de Portugal , favorecendo o uso de termos

 como " portugus brasileiro " e " portugus europeu " , em que a presena de um

 adjetivador acaba por imprimir ao termo um certo grau de identidade para cada

 uma das modalidade , marcando a diferena entre essas duas realidades

 lingsticas .

 Alis , antes de nos aprofundarmos na questo da lngua portuguesa no Brasil 

 preciso que se diga que nem sempre se falou a lngua dos colonizadores aqui .
 Na

 verdade , desde o primeiro contato com os ndios da costa brasileira at o

 sculo XVIII , a lngua que se falava na colnia era a " Lngua Geral " , uma

 espcie de lngua franca , fruto do contato entre portugueses e ndios , que

 possua uma base gramatical Tupi e , provavelmente , com alguns emprstimos do

 lxico portugus .

 A histria da lngua portuguesa no territrio americano se inicia em 22 de

 abril de 1500 , quando o Brasil foi " descoberto " pelos portugueses .
 Contudo ,

 efetivamente , ela s se inicia em meados do sculo XVI , quando comeou a ser

 efetivado o movimento de ocupao e colonizao do territrio da costa

 brasileira , como diz Paul Teyssier : " a colonizao portuguesa , s comea em

 1523 , com a atribuio de quinze capitanias hereditrias " .

 ?
 Considerando a periodizao da lngua portuguesa , o incio da colonizao

 brasileira se situa no fim do perodo chamado portugus arcaico e incio do

 portugus moderno , quando segundo E. Williams as marcas lingsticas distintas

 do perodo arcaico j havia sido neutralizadas , portanto , o modelo lingstico

 portugus trazido para o Brasil no incio da colonizao pode ser denominado de

 " portugus moderno clssico " .

 ?
 A lngua portuguesa , ao chegar no territrio americano , travou contato com

 lnguas e dialetos indgenas das tribos que habitavam no litoral brasileiro ,

 sobretudo , com os Tupinamb e os Tupiniquim .
 Segundo Cmara Jr. , as condies

 de europeizao da Amrica portuguesa foram determinantes para a formao do

 que hoje conhecemos como nao brasileira : a assimilao da populao

 autctone , i.e. , dos indgenas que habitavam as terras brasilis , eqivaleu a

 uma lenta eliminao das sociedades tribais e uma desagregao dos valores

 sociais dessas comunidades .

 ?
 A costa brasileira , mais precisamente , da regio que hoje corresponde da Bahia

 at o Rio de Janeiro , era ocupada por ndios da famlia Tupi-Guarini , do tronco

 Tupi , so os chamados " os Tupi da costa " , como disse , em sua maioria Tupinamb ,

 mais ao norte , e Tupiniquim mais ao sul , sendo as lnguas Tupiniquim e

 Tupinamb variantes regionais .
 Cmara Jr. , afirma que essas tribos possuam uma

 certa unidade cultural e lingstica .
 Os portugueses subjugaram , com certa

 facilidade , scio-politicamente , boa parte da populao indgena , provocando a

 morte ou a migrao para o interior do pas daqueles ndios ou comunidades

 indgenas que no se submeteram .

 ?
 As condies lingstica que ento se estabeleceram no territrio brasileiro

 so at hoje um tanto complexas , o termo ' lngua geral ' , segundo a lingista

 Rosa Virgnia Mattos e Silva , necessita de maiores investigaes pois parece

 recobrir vrios significados , alm daqueles que at hoje foram explicitados .

 Sabe-se que pelo menos duas lnguas gerais foram desenvolvidas no territrio

 brasileiro , a lngua geral paulista ou do sul , que teria uma base Tupiniquim , e

 a lngua geral amaznica , de base Tupinamb , que sobrevive reestruturada na

 variante amaznica Nheengatu .

 ?
 " Assim se estabeleceu a lngua geral tupi , ao lado do portugus , na vida

 cotidiana da colnia , constitui-se at como lngua escrita e literria , pois os

 missionrios traduziam para ela as oraes crists e nela compunham hinos

 religiosos e peas teatrais no estilo dos velhos autos da literatura hispnica "

 ( Cmara Jr. : 1975:30 ) .

 ?
 Nesta situao de contato lingstico podemos ver que o portugus atuou como

 lngua de superestrato , como uma camada superposta s lnguas indgenas , que

 segundo Mattoso modificou especialmente a fonologia Tupi .

 ?
 A insero do elemento africano se inicia nos princpios do sculo XVII quando

 comeou , em escala progressiva , o trfico de escravos negros trazidos da

 frica .
 Os povos negros trazidos para o Brasil eram de origem tnica e

 lingstica variada , sobretudo Bntu e Benue-kwa ( como por exemplo o Yoruba ) , o

 que facilitou a perda da unidade lingstica desses grupos que se viram , em

 territrio brasileiro , desarticulados de seus pares .

 ?
 A situao lingstica dos negros escravos no Brasil  apontado por Cmara Jr .

 em dois sentidos .
 Em primeiro lugar ele aponta o desenvolvimento de um

 portugus crioulo ( cf. lngua de contato ) , devido a estreita integrao dos

 escravos  sociedade branca , quer nos latifndios , quer nas casas , quer no

 comrcio das cidades , ligados s principais atividades .
 Em segundo lugar , ele

 afirma que os negros escravos no Brasil se adaptaram , tambm , ao uso da lngua

 geral indgena , o que acabou por favorecer e estimular o uso da lngua geral .

 ?
 Durante muito tempo essa situao de contato permaneceu no territrio

 brasileiro at meados do sculo XVIII quando o uso da lngua geral entrou em

 decadncia .
 Vrias razes contriburam para o declnio da lngua geral :

 1 .
 a vinda de portugueses emigrantes seduzidos pela descoberta de

 ouro e diamantes nas minas brasileiras ;

 2 .
 a posio do Marques de Pombal que criou um diretrio cujas

 decises proibiram o uso da lngua geral e obrigou o ensino da

 lngua portuguesa na colnia ;

 3 .
 a expulso dos Jesutas , em 1752 , que afastava da colnia os

 principais resguardadores da lngua geral .

 De acordo com Paul Teyssier em menos de 50 anos aps a expulso dos

 jesutas a lngua geral j havia sido eliminada definitivamente do

 territrio brasileiro , desta restando apenas topnimos , antropnimos e

 palavras relacionadas principalmente  fauna e flora brasileira .

 Com o crescimento do contingente de portugueses vindos para o Brasil ,

 oriundos das mais diversas regies de Portugal , parece ter havido uma

 espcie de neutralizao das falas mais marcadas lingisticamente ,

 favorecendo uma nova modalidade dialetal portuguesa que associada a

 situao prvia de contatos lingsticos , e ao catico sistema

 educacional que se manteve no Brasil desde a colnia at os nossos

 dias , se tornou a base do que hoje conhecemos como portugus popular

 brasileiro .

 " Compreende-se assim que desde o incio tenha havido no Brasil

 condies novas para uma vida lingstica prpria e para o

 desenvolvimento de uma sub-norma , na lngua comum , em face do

 portugus europeu. "

 Podemos dizer , com Mattoso Cmara Jr. que cada pas , Brasil e

 Portugal , teve uma evoluo lingstica prpria , por vezes coincidente

 outras no .
 As diferenas lingstica entre Brasil e Portugal devem

 sim serem apontadas como resultado de contingncias socio-histricas

 distintas , em territrios distintos e separados .

 Enfim , ao que tudo indica o padro lusitano est cada vez mais

 distinto da realidade lingstica brasileira .
 As mudanas no uso da

 lngua no Brasil so fortes indcios de que o portugus brasileiro e

 portugus europeu , desde cedo , apontaram direes fundamentalmente

 distintas , e que , caso no ocorram fatos poltico-sociais que revertam

 essa situao , cada vez mais estaremos diferenciando a nossa realidade

 lingstica daquela que evolui em Portugal ; e quem sabe , rumo a uma

 lngua brasileira .

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