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 As Projees da Lngua rabe na Lngua Portuguesa ^ *

 Antnio Houaiss

 Quando se considera a influncia rabe no portugus , o nico

 aspecto que ressalta  o da contribuio lexical , porque ,

 realmente , no h razes - - no houve , pode ser que venha a haver

 - - para suspeitar que qualquer coisa , na rea do sistema do rabe

 para o portugus , haja aparecido .
 Admitiu-se , durante algum tempo ,

 que certa aspirao que o espanhol apresenta pudesse , por acaso ,

 haver provindo da forte influncia rabe .
 Mas , para a lngua

 portuguesa , essa hiptese jamais foi formulada .
 Na rea da sintaxe ,

 nunca se admitiu , em hiptese alguma , que algo pudesse haver vindo

 do rabe , nem para o portugus nem para o espanhol .
 O nico

 arabismo ou semitismo sinttico que ns temos  , evidentemente , de

 influncia bem tardia e extra-contato .
  o caso de Rei dos Reis ,

 Cntico dos Cnticos , um tipo sinttico to integrado dentro da

 lngua rabe , dentro do hebraico , dentro do aramaico , que , no

 Ocidente , passou a existir como uma expresso de torneio sinttico

 sui generis , mas extensiva a todas as lnguas de cultura ocidental .

 No se trata , por conseguinte , de um arabismo especfico do rabe

 para o portugus .
  fato estilstico , talvez at posterior quele

 contato , talvez at expresso estilstica de lngua de cultura

 altamente elaborada .

 Ento , entre o rabe e o portugus , os nicos elementos evidentes

 constituem uma relao do tipo lexical .
 Entretanto , a partir do

 momento em que passamos a preocupar-nos muito com o trnsito de uma

 lngua natural para uma lngua de cultura , imediatamente comeamos

 a ver que algo se havia passado nesse entrelaamento das lnguas de

 cultura , da rabe e da crist ; algo , alis , de transcendente

 importncia se havia passado na Pennsula Ibrica .
 Porque , quando

 fazemos a anlise do vocabulrio do portugus como lngua natural ,

 vale dizer , quando fazemos a anlise da emergncia daquele sistema

 romnico que se foi , aos poucos , transformando numa das lnguas

 romnicas , temos que , como termos bsicos , o acervo primitivo do

 portugus no vai alm de trs mil a trs mil e duzentas palavras .

 E por que no vai ?
 Por tratar-se , efetivamente , de uma lngua

 natural .
 Em que sentido era lngua natural ?
 No sentido de que era

 uma lngua com que no se pretendia fazer as elaboraes de cultura

 que somente a instituio da escrita iria permitir .

 Quando estudamos filogeneticamente os sistemas de lngua ,

 reconhecemos que uma lngua no  melhor que outra , nem mais

 potente que outra , nem mais impotente que outra , enquanto a

 comparao se refere ao sistema .
 Como sistema , sabemos que as

 lnguas se regulam com cerca de quinhentas a mil regras ; que elas

 tm um repertrio fonemtico limitado , extremamente limitado ,

 convenientemente limitado , economicamente limitado , para , mediante

 combinatrios insignificantes. chegar a combinaes significantes

 de extrema riqueza .
 Isto que ocorre com uma lngua ocorre com as

 mais de dez mil lnguas ainda existentes no mundo .
 Lngua por

 lngua , todas as lnguas se equivalem ; contudo ,  visvel que , no

 mundo contemporneo e no mundo do passado , nunca houve equivalncia

 de lnguas .
 Houve lnguas que puderam transmitir poder , que puderam

 transmitir cultura , que puderam transmitir idias , que puderam

 transmitir humanidade , muito mais intensamente que outras lnguas .

 O que houve de diferencial entre essas duas modalidades de lnguas

 foi o fato fundamental de que , em dado momento , a histria

 perdulria do passado passou a ser uma histria economizada .
 A

 partir do instante em que a escrita se instituiu , as lnguas

 deixaram de ser lnguas morituras , capazes de morrer .
 Passaram a

 ser lnguas eternizadas .
 As estatsticas lexicais revelam a

 diferena das lnguas .
 H lnguas naturais , grafas - - que ainda

 existem em grande maioria na Humanidade - - e nunca apresentam um

 repertrio superior a trs mil vocbulos .
  medida que elas passam

 a ser lnguas com mnemnica institucionalizada , como foi o celta ,

 suspeita-se que esse repertrio de trs mil palavras possa passar

 para quatro , cinco , seis , at sete mil palavras .
 A partir do

 momento , todavia , em que essas palavras so escritas , elas se

 transformam em palavras que ficam incorporadas na memria viva da

 coletividade .
  fenmeno interessante de consignar , e verificvel

 nas lnguas do passado que tiveram alta literatura : o snscrito

 est no caso ; o latim est no caso ; o grego , evidentemente , est no

 caso ; o hebraico est no caso , e o rabe est no caso .

 Quase todas essas lnguas , ao cabo de um milnio de existncia como

 lnguas escritas , acusavam um estoque de quarenta mil palavras ,

 ainda vivas , no sentido de que a elaborao cultural dessas lnguas

 se permitia o luxo de reportar-se a essas quarenta mil palavras .

 Esse fenmeno passou a ter um significado ainda mais importante

 quando comeamos a ver que a histria do Homem no se repete .

 Embora metodologicamente todas as lnguas de cultura atingissem um

 ponto de saturao de quarenta mil palavras , em torno do fim do

 sculo XVIII e incio do sculo XIX - - e a exemplificao  bvia ,

 quando se faz a lexicografia do francs , do espanhol , do ingls , do

 portugus , do hebraico , a lexicografia das lnguas romnicas em

 geral , e essa coincidncia de quarenta mil palavras se repete - -

 esse fenmeno passou a ser inteiramente diferente para a histria

 da Humanidade , assim que se inaugurou o sculo XIX .

 H trs sintomas ou trs indicadores importantes para isso : o

 primeiro foi que , no Ocidente , a alfabetizao de massa s comeou

 no sculo XIX .
 At fins do sculo XVIII , a Humanidade inteira

 jamais havia atingido ndice superior a 2 % de alfabetizao .
 Por

 isso mesmo , ler era muito mais recitar que ler .
 A influncia da

 escrita foi , desde o incio , pujante , mas o homem que lia , at o

 fim do sculo XVIII , era , cm geral , um homem que lia em voz alta ,

 para que a projeo da influncia da palavra escrita pudesse ser

 no apenas para ele .
 Conta-se ( a anedota existe ) que os primeiros

 indivduos que comearam a ler em voz baixa foram da poca de So

 Toms .
 At ento , a leitura , mesmo a ss , era em voz alta , tamanho

 fora o hbito de compreender que aquela misso era cumprida para

 ser benfica , no apenas ao leitor , mas a um conjunto de

 indivduos .
 O fato  que , a partir do sculo XIX , a alfabetizao

 se intensificou em certas partes ocidentais : a Frana , a

 Inglaterra , o norte da Itlia , certos pases das Flandres , certos

 Estados alemes comearam a intensificar o ensino de massa , de tal

 maneira que , em meados do sculo XIX , 50 % dessas populaes j

 estavam literatadas ; e , pelos fins do sculo XIX e inicio do sculo

 XX , chegamos a atingir 92 % , 94 % , 96 % de literatao , transformando ,

 por conseguinte , o ideal de alfabetizao de massa - - alfabetizao

 total - - em uma realidade .

 Foi ai que comeou essa nova realidade .
 As exploses conseqentes

 foram interessantssimas : em primeiro lugar , a editorao imensa

 que , at ento , fora muito pequena ; em segundo lugar , a

 incorporao de vocabulrio imenso ; e , em terceiro lugar - - a a

 conexo  difcil para sabermos qual a causa , porque h uma

 circularidade - - , o fenmeno de extrema diferenciao do trabalho

 fsico e mental .

 O exemplo mais concreto desse fenmeno foi dado muito recentemente ,

 em 1963 , quando , se buscava realizar a primeira conferncia da

 UNCTAD , essa organizao das Naes Unidas do conhecimento e

 tecnologia para o desenvolvimento .
 Naquela altura , a Secretaria

 Geral , cujo secretrio geral era Dag Hammarskjold , comeou a ser

 bombardeada com perguntas relativas  pauta-agenda dessa futura

 conferncia .
 Queriam saber se tal tema entrava , se tal outro

 entrava etc .
 Era um problema epistemolgico saber que temas e

 problemas , que fazeres e saberes iriam integrar a possvel agenda

 dessa conferncia .
 Essa conferncia e essas demandas  Secretaria

 Geral obrigaram a uma pergunta  UNESCO , que organizou um grupo de

 trabalho para responder  questo : que temas eram objeto de

 conhecimento especfico ou de execuo especifica pela Humanidade ?

 Curioso observar que , um sculo antes , em poca de Auguste Comte ,

 um vocabulrio de duzentas e quarenta palavras esgotaria o conjunto

 de saberes e fazeres da Humanidade .
 Naquela altura , porm , eles

 mandaram um vocabulrio de vinte e quatro mil expresses , entre

 palavras e sintagmas , para definirem as especializaes

 profissionais dos homens , no campo do fazer mental e no campo do

 fazer fsico , quer dizer , a especializao do saber e a

 especializao do fazer haviam atingido esse ndice que , hoje em

 dia , deve ser em torno de trinta mil .
 Se cada uma dessas

 especializaes criasse , em mdia , um grupo de dez palavras

 neolgicas apenas - - e algumas criaram duzentas , quinhentas ; 

 verdade que algumas no criaram nenhuma - - isso haveria dado um

 acrscimo de vocabulrio de trezentas mil unidades e , por estranho

 que parea , foi esse o acrscimo que houve .
 A humanidade , hoje em

 dia , para as lnguas chamadas de cultura , no se contenta com um

 vocabulrio de menos de quatrocentos mil vocbulos .

 Esse fenmeno  muito importante , para definir o fato do que seja

 uma lngua de cultura .
 At agora , viciadamente , temos voltado

 nossos olhos para algo bem transcendente que  a lngua literria ,

 a lngua que se volta para a criao do infinito de potencialidades

 que o homem tem dentro de si , para a criao potica , para a

 criao de fico .
 Mas esse  um aspecto que corresponde a um

 pensamento em que a lngua literria transmitia , concomitantemente ,

 todo o saber fsico e mental do Homem .
 No obstante , a partir de

 certo momento que se esboa j no Mundo rabe , comeou a haver a

 decantao do saber .
 As Gergicas , no sabemos se so um tratado de

 agricultura ou poesia .
 Os poemas homricos , no sabemos se tratam

 de economia , demografia , poesia , cincia , empirismo ou histria .
 No

 passado , o literrio era concomitante com todos os fenmenos

 humanos ; mas nessa deriva de especializao , a literatura comeou a

 decantar-se , a separar-se .
 E ficamos herdeiros do preconceito de

 que a potencialidade de uma lngua se ateria s ao literrio .
 E

 esquecemo-nos deste fato fundamental : um sistema de cultura ,

 qualquer que seja , no pode hoje subsistir como cultura moderna , se

 no fizer qumica e tiver seu vocabulrio correspondente ; se no

 fizer fsica , economia , filosofia , se no fizer tudo o que 

 discriminado por esses trinta mil aspectos a que nos referimos .
 No

 mundo contemporneo , h um nmero bastante reduzido de lnguas que

 tm toda essa totalidade .
 Das dez mil lnguas a que nos reportamos ,

 quando falamos de lngua de cultura , no nos esqueamos de que

 pouqussimas so aquelas que se espalham , que se esparramam por

 todos esses saberes .
 Por isso mesmo , o mundo contemporneo , hoje ,

 divide-se em um mundo de usurios de lnguas naturais , mais uma

 segunda lngua , que  a de cultura - - se ele quiser integrar-se no

 sistema de cultura - - ou , ento , de usurios de lngua de cultura

 que no precisam descer s outras , porque elas lhes bastam .

 Isso  de suma importncia , porque tende a esboar a possibilidade

 de que uma lngua de cultura venha a prevalecer para a Humanidade

 inteira , num futuro , o que seria uma tragdia , porque ,

 evidentemente , representaria uma uniformizao potencial da riqueza

 que existe dentro de ns e que existe dentro da natureza .

 Felizmente , porm , as lnguas de cultura emergentes revelam que

 sero portadoras de todas essas variedades que existem com a

 diferenciao lingstica , no sentido de que uma lngua de cultura

 no pode , sozinha , ser dominada por ningum .
 Os usurios das

 lnguas de cultura , quando somos muito cultos , somos porque

 sabemos. heuristicamente. onde achar a resposta dos problemas que

 nossa mente no pode resolver sozinha .
 Um homem integrado em um

 ambiente de cultura - - inglesa , francesa , portuguesa , espanhola ,

 italiana , rabe , hebraica , qualquer que seja - - ele , sozinho , no

 responde por todos os elementos verbais , que so intercomunicantes .

 Mas ele tem , em sua formao cultural , o mtodo pelo qual sabe

 consultar os dicionrios , as enciclopdias , os textos escritos que

 pertencem  lngua , e , graas a sua formao de ser a aculturado ,

 preparado para a lngua de cultura , tem um mtodo de obter

 respostas , tem um mtodo metalingstico por excelncia : se

 queremos saber algo de qumica , podemos , em ltima instncia ,

 dirigir-nos ao especialista em qumica e obter dele a resposta .

 Esse processo metalingstico no existe nas lnguas naturais .
 Em

 uma lngua natural , os antroplogos tm visto que uma criana nunca

 pergunta o que significa uma coisa , porque esta , aos poucos , vai

 entrando em sua cabea .
 Um adulto nunca corrige o que a criana

 faz , porque , aos poucos , ela se integra no grupo .
 No h

 professores , no h escolas , no h alunos , e a lngua , entretanto ,

 persiste !
 A diferena est , exatamente , na amplitude das ambies e

 necessidades , que fazem diferenciar uma lngua natural de uma

 lngua de cultura .
 Mas isso , tambm ,  um estigma das lnguas

 naturais .
 Todas elas , hoje em dia , so faladas por povos

 sotopostos .
 No h uma lngua natural que seja lngua de Estado ou

 de um povo independente .
 Eles so sotopostos .
 Ento , o dilema do

 homem  , visivelmente , encaminhar-se para uma lngua de cultura

 ou ...
 e no h uma terceira escolha .

 Isso tudo  uma introduo muito pretensiosa , para nos pormos em

 face do rabe e daquilo que deveria ser o portugus , na Pennsula

 Ibrica .
 Em 711 , ocorre a imigrao rabe que atravessa todo o

 sculo VIII , o sculo IX , o X , o XI , o XII , e , nesse momento ,

 quando comea a esboar-se a consolidao da lngua portuguesa como

 tal , o rabe estava presente , mas com esta dualidade : enquanto o

 rabe da Pennsula Ibrica era o de uma lngua de cultura , o

 portugus , ou aquilo que deveria ser o portugus da Pennsula

 Ibrica , era uma lngua natural .

 Tal circunstncia  relevante , porque a lngua de cultura , que

 estava intermdia entre os dois , era o morabe , ou seja , lngua de

 cristos altamente penetrada de arabismos .
 O rabe , como tal , teria

 todas as condies para prevalecer , e estava visivelmente

 prevalecendo na Pennsula Ibrica , onde se radicara .
 Foi s com a

 Reconquista que houve a expulso dos rabes e dos arabizados ,

 graas ao que o portugus pde conquistar terreno .

 Quando fazemos a documentao verbal do portugus , a partir ,

 possivelmente , do sculo X , temos de dizer o seguinte : o rabe era

 a lngua de cultura , porque , para colocar-se numa posio de

 universalidade , recorria ao prprio rabe , enquanto o portugus , ou

 o que viria a ser o portugus , quando quisesse recorrer 

 universalidade do saber , tinha de subir ao latim , quer dizer , o

 futuro portugus tinha de ser bilnge , o que j seria , para ele ,

 um esforo de dualidade , em uma coletividade cujo saber seria de

 1 % de letrados .
 Ento , 1 % subia ao latim .
 Mas o rabe , que tinha

 uma coletividade maior de letrados , recorria  prpria lngua , 

 lngua viva que tinha forma escrita e tradicional ; ento , a

 potncia dos rabes vis--vis do futuro portugus , era ,

 incomparavelmente maior , o que explica , de fato , por exemplo ,

 depoimentos que existem do passado de que os cristos , do prisma

 lingstico , ou de aculturao , escreviam em rabe , liam em rabe e

 se compraziam na nica lngua que eles criam capaz de transmitir

 saber e conhecimento .
 A lngua portuguesa no o era , e o latim j

 era desprezado para esse fim , tamanho o esplendor e prestgio da

 cultura rabe , em face do medievalismo ocidental peninsular .
 Na

 verdade ,  Idade Mdia para o ocidental , mas , para o rabe ,  o

 perodo de esplendor .
 Essa diferena explica , ento , este fenmeno

 muito singular : num total de trs mil a trs mil e duzentas

 palavras do portugus primitivo , h , no mnimo , oitocentas palavras

 de origem rabe .
 Numa estatstica verbal , contempornea de ento , 

 impressionante o acervo de palavras rabes que existiam vivas no

 portugus .
 Representam algo em torno de 25 % do vocabulrio da

 lngua portuguesa primitiva .
 E essa estatstica toma em conta ,

 tambm , os vocbulos ento recm-derivados .

 Naturalmente , na medida em que a lngua portuguesa comea a ser

 lngua de cultura , chega ao Renascimento com um aumento espantoso

 de palavras de origem latina , de origem grega , vindas com o acervo

 erudito , enquanto o rabe , expulso , prevalecia s em sua qualidade

 de lngua natural , cujos elementos passavam para a expresso

 literria porque eram as palavras com que , naturalmente , se

 designava a realidade a que eles ficaram ligados .
  bem possvel ,

 contudo , compreender a importncia da cultura rabe , nesse contato ,

 por esse imenso mar de palavras que ficou dentro do acervo inicial

 do portugus .

 Essas palavras , quando examinadas , trazem revelaes notveis ,

 como , por exemplo , a de que se tratava de cultura superior .
 Pelos

 termos relacionados com vrios campos do saber , sentimos que era

 no s a lngua de ponta , era no s a lngua inovadora , mas era ,

 tambm , a lngua de administrao , a lngua eventualmente do

 jbilo , eventualmente do luxo , do esplendor .
 Isso tudo , quando se

 faz o cotejo entre os termos primitivos portugueses e os termos

 rabes .

 A esse respeito , podemos ainda salientar um outro aspecto , bem

 relevante .
  visvel que , na anlise dos vocbulos da lngua

 portuguesa dessa poca , h uma evoluo , uma cronologia

 perfeitamente elucidadora do tipo de influncia que o rabe exercia

 na Pennsula e do tipo de influncia que se projetou na formao da

 lngua portuguesa .
 Ela , em si mesma , trazia elementos latinos ,

 porque a latinizao , a romanizao da Pennsula , a certa altura ,

 foi total , no obstante a presena , num dado momento tambm , a

 partir do sculo V , dos elementos germnicos , trazidos pelos godos ,

 suevos , alanos etc .
 Esses elementos , apesar do bom tempo em que l

 predominaram. apresentam , no vocabulrio da lngua portuguesa , um

 acervo seis a sete vezes menor que o rabe .
 Ento , temos , como

 elementos reais dados ao acervo primitivo portugus , os de origem

 latina , seguidos dos de origem rabe .
 So os segundos em

 estatstica , num total de duas mil e trezentas para o latim , cerca

 de oitocentas para o rabe , e cerca de cento e seis para os

 elementos germnicos , de modo geral .
 Isso d bem uma idia de como

 as etnias dessas provenincias se comportaram na formao do

 vocabulrio tpico do portugus primitivo .

 H , ao lado disso , a possibilidade de fazermos uma anlise de suas

 caractersticas .
 Por exemplo ,  de 1024 a documentao castelhana

 relativa  palavra morabe : o cristo que vivia na Espanha rabe .

 Ele era morabe no sentido de que estava quase inteiramente

 arabizado , ou praticamente arabizado , embora mantivesse sua crena

 crist .
 Este  que iria ser o futuro portugus dessas reas : era

 cristo , mas estava inteiramente arabizado .
 O acervo de

 documentao morabe predomina sobre o acervo de documentao em

 lngua portuguesa , que no existe ainda , por essa altura .
 S no

 sculo XII  que a vamos ter .
 Quer dizer , j havia , at mesmo , uma

 literatura morabe , traduzindo uma lngua de base portuguesa , mas

 profundamente impregnada de palavras rabes .
 Foram esses morabes

 que transmitiram os elementos lexicais rabes para o futuro

 portugus .
 A palavra  rica , porque ela diz musta'rib : o que se fez

 semelhante ao rabe ; era o cristo que se fez semelhante ao rabe .

 H uma palavra sagrada , para esse tipo de estudo :  a palavra

 aljamia , que significa , ao p da letra , a [ lngua ] estrangeira ; mas

 aljamia era empregada em dois sentidos : era o portugus , do ponto

 de vista rabe , ou era o rabe , do ponto de vista portugus .
 A

 palavra  ambgua , mas de riqueza crucial , porque , nela tambm , h

 elementos graas aos quais se pode fazer toda essa cronologia da

 entrada das palavras rabes no portugus .

 A palavra algaravia , documentada no sculo XIV , evidentemente

 existindo muito antes , significou , nos primeiros tempos , nos

 primeiros documentos , exatamente a [ lngua ] rabe .
 Algaravia no

 era nada do que  hoje em dia para ns .
 S tempos depois da

 expulso dos rabes da Pennsula Ibrica  que algaravia vai

 significar gritaria , confuso , mixrdia impossvel de entender ,

 porque , de fato , j no era entendvel .
 No entanto , at ento , at

 1492 ( a palavra  tanto espanhola quanto portuguesa ) , algaravia

 significou a lngua rabe , pura e simplesmente , que  o que ela

 significa mesmo : al - ' arabiyah , a [ lngua ] rabe .
 O ataque glotal 

 que gera o - gar - , de algarabiya .
 Essa palavra  extremamente rica

 para significar alguns aspectos do contato entre as duas lnguas .

 Em dado momento , Arnold Toynbee refere-se ao mundo rabe , em seus

 estudos de histria , como sendo " uma heresia crist " .
 Mas heresia

 crist em que sentido ?
 Ele compreende que o fenmeno de Muhammad

 decorre de um inconformismo prematuro com a decadncia oportunista

 e degenerada dos cristos .
 E , nesse sentido , o mundo de Muhammad

 haveria sido um mundo de crena , de f , de bondade , erguido para

 recuperar uma herana que deveria haver sido bela e que estava

 perdida .
 Esse esforo tem sido feito , freqentemente , ao longo da

 Humanidade .
 Interpretando toda a civilizao rabe como o segundo

 tempo de uma promessa trazida pelo Cristianismo , ele nota que houve

 um momento de realizao nisso , inclusive porque o Islo , ou a

 submisso , era feito nas condies mais favorveis possveis ao

 convvio .
 Dessa forma , ressalta que esse convvio foi no-raro

 muito cordial , embora tivesse de implantar-se sob tcnica militar

 muito eficaz .
 Esse convvio foi gracioso , e , em dado momento , at

 cordial , o que fica documentado em certas palavras de nossa lngua

 que continuam a ser as mais caractersticas do fato .

 Tivemos e continuamos a ter alvssaras , graas ao mundo rabe .

 Houve uma palavra , muito rica no portugus antigo , alboroque , que

 significava , exatamente , a bno , a gentileza , a palavra bem

 tpica desse convvio .
 Agora , a influncia do rabe a esse

 respeito , vista sob essa tematologia , revela que , na realidade , o

 aspecto da organizao social , da organizao administrativa , foi

 eficaz .
 O mundo rabe tem um apogeu , rapidamente , atingido pelo

 sculo X , de tal maneira que , por exemplo , alguns traos de

 sobrevivncia ( enquanto a intolerncia crist para com os judeus se

 fazia quase que etnocida , e foi num crescendo at o sculo XV )

 fizeram do mundo rabe o asilo natural do mundo judaico .
 Foi dentro

 do arabismo que o judeu pde produzir algumas das mais importantes

 peas de sua filosofia , de seu pensamento .
 Havia , entre os judeus ,

 aquela dualidade entre lngua natural e lngua de cultura .
 Para

 fazer poesia , usavam , ainda , do hebraico , mas , quando tinham de

 fazer filosofia , poltica , administrao , cincia , geografia ,

 enfim , s podiam faz-lo naquela nica lngua que sentiam poder

 exprimir isso , e que era o rabe .
 Era a lngua que muito cristo

 usou pira dizer o que no era coisa da alma , mas da razo .
 A lngua

 da racionalidade , do conhecimento , da cincia era o rabe .
 Era a

 lngua , por excelncia , para todos esses aspectos , pois  a que

 estava a ponta de lana do conhecimento humano , que estava

 degradado no Ocidente , e no tinha no Oriente remoto expresses

 maiores , mas estava expresso pelo mundo rabe , esse mundo que ,

 vindo da Prsia islamizada , porm no inteiramente arabizada ,

 adotando os caracteres rabes , at a Pennsula Ibrica , passava por

 todo o sistema da frica do Norte .
 Esse imenso imprio se formou

 quase instantaneamente e durou , na Espanha , at 1492 .

 Exatamente esse imenso imprio se exprimia de forma intensiva para

 o mundo da racionalidade , da administrao. do progresso , da

 cincia e do saber somente em lngua rabe .
 O exemplo tpico que

 estamos dando do judeu caracteriza bem isso .
 O hebraico deixara de

 ser lngua de cultura e transformara-se em lngua natural e , como

 tal , tem poesia , tem esboo de literatura antes da literatura .
 Os

 judeus haviam at perdido o hbito de escrever em hebraico ,

 adscritos , muitas vezes , a textos hebraicos vazados em caracteres

 rabes , freqentemente para poesia .

 Entre alguns exemplos de termos que se referem  organizao do

 Estado e que do bem uma idia do que foi a influncia do mundo

 rabe na Pennsula Ibrica , est a palavra aduana , do rabe

 ad-diwan , oriunda do persa diwan , que significava registro ,

 oficina , escritrio .
 Ficou viva na lngua portuguesa at hoje , e ,

 muitas vezes , pensamos que se trata de espanholismo : entretanto 

 documentada desde 1383 , em textos morabes de Portugal .

 Alvar  uma palavra tipicamente rabe e documentada na lngua

 desde 1328 .
 Significa o texto que autoriza , e , at hoje , no teve

 substituto .
 Continua presente na lngua .

 Uma palavra como alcavala , hoje quase em desuso ,  tpica de

 administrao : era uma distribuio de adjudicao , num sistema

 ainda comunitrio ( a terra nem sempre foi propriedade privada ;

 ento , por isso mesmo , o mundo rabe no previu nenhuma reforma

 agrria .
 No foi necessria !
 ) .
 Alcavala est representada em

 portugus em duas geraes , pelo chamado doublet : aparece como

 alcavala , alcabela , alcabala , e aparece tambm como gabela , esta j

 bem tardia no portugus , porque foi palavra italiana .
 Alcabala ,

 alm de ser adjudicao de um pedao de terra , era tambm

 contribuio que se fazia pela deteno da terra , espcie de

 aluguel .

 Houve uma palavra muito rica , num dado momento , na administrao da

 Espanha , que era alcaaria : os grandes mercados em que todos os

 bens fsicos eram postos  venda .
 Alcaaria  , sabidamente , uma

 arabizao do latim Caesar .
 Alcaarias eram assim chamadas porque

 foram antigos grandes edifcios , de origem romana , que , em lugar de

 serem propriedades privadas , viravam uma espcie de suqs ou locais

 de venda , de troca e de comrcio , porque eram suficientemente

 amplos .
 O mesmo que seria a palavra aougue , que , no fundo , 

 as-suq ; e aougue , no inicio , no era apenas local de venda de

 carne ; era de venda de todos os tipos de coisa , como um suq , hoje

 em dia , o  .
 O suq do mundo rabe continua vivo .

 Uma linda palavra , ainda viva em portugus ,  o nosso alferes .
 Era

 j o ginete , j o cavaleiro .
 O melhor ginete , o melhor cavaleiro ,

 recebia bandeira para portar .
 Era o porta-bandeira , por excelncia ,

 na frente militar .

 - Alfoz , o distrito ,  do sculo XIII ; alfndega  tambm dessa

 poca , assim como caravana , palavra persa arabizada .

 - Aguazil , que vai reaparecer , depois , j por influncia francesa ,

 como vizir , no sculo XIX ,  a nossa palavra arcaica alguazil .

 - Almoxarife , j documentada em textos morabes desde o sculo

 XIII ,  ainda insubstituvel na lngua portuguesa de hoje ,

 juntamente com seus derivados .

 - Almoeda , que os romanos no conheceram jamais , significava

 leilo .
 Est documentada desde o sculo XIII .
 Alis , a prpria

 palavra leilo tem origem rabe , e significa o anncio .

 - Almorvida , como ermito devoto - - um aspecto fundamental da

 cultura rabe , que sempre foi muito adscrita ao mundo religioso - -

  do sculo XIV .

 - O almotac , o escrivo que , inclusive , contabilizava e contava , 

 do sculo XIII .

 - Almoadem , que mais tarde vai aparecer no portugus , a partir do

 sculo XVII , numa variante francesa , muezim ,  o emprstimo direto

 do rabe .

 E assim por diante .

 Cotejando o rabe com o portugus , vendo a influncia do rabe no

 portugus , a pergunta que fazemos  esta : como  que as lnguas de

 cultura esto procedendo consigo prprias , a fim de perdurarem como

 lnguas de cultura ?
 Se notarmos o sistema ingls , notamos que a

 diferena que h sempre - -  fundamental t-la presente - -  que ,

 no passado , as crianas nasciam e nunca o problema de lngua se

 colocava para elas .
 Elas iriam , fatalmente , falar a lngua em cujo

 meio estavam .
 No havia professores , no havia escolas , no havia

 alunos .

 A partir do advento da escrita , a instituio da escola comea a

 existir e a escola do mundo rabe foi profundamente bem

 institucionalizada e de tal maneira que as crianas eleitas

 passavam s vezes de dez , doze horas por dia estudando o Alcoro .
 A

 partir do sculo XIX , o que foi a escola francesa , o que foi a

 escola inglesa , seno este imenso cadinho de transmisso do saber ,

 por horas a fio , por dias a fio , por anos a fio .
 As lnguas

 naturais , transformadas em lnguas de cultura , exigiam , exigem e

 exigiro sempre um imenso aprendizado .
 O mundo rabe , com seu novo

 reflorescimento , est voltando a sua velha tradio , que nunca

 perdeu : era uma tradio de grande estudo , mas para um pequeno

 nmero ; agora , esto compreendendo que  uma questo de grande

 estudo , para um grande nmero .
 O repto , no mundo rabe , sobretudo

 no mundo de condies materiais um pouco melhores , est sendo

 renovado .

 Agora , a situao para a lngua portuguesa  profundamente

 melanclica .
 Temos , em teoria , um ensino de oito anos

 ( referimo-nos , sempre , ao ensino bsico ) .
 Se este existisse de

 fato , os outros existiriam bons .
 Costumamos fazer da Universidade

 uma crtica muito grande , atribuindo-lhe impotncias que ela teria

 de superar por si mesma , esquecendo freqentemente que grande parte

 da impotncia da Universidade deriva do ensino secundrio .
 E ,

 quando fazemos a crtica do ensino secundrio , grande parte de sua

 impotncia deriva do ensino primrio .
 E nenhuma recuperao

 nacional se far pela Universidade , apenas .
 Poderamos , requintando

 nossa Universidade , em dado momento , dar figuras brilhantssimas

 para o mundo cultural , mas um mundo cultural que ir ser vivido por

 uma frao da populao .
 Somente quando aumentarmos o contingente

 do secundrio  que teremos , no superior , um contingente mais ou

 menos capaz .
 Mas o ensino secundrio fica na total dependncia do

 ensino primrio .

 O que  o ensino primrio do portugus , no Brasil ?
 Oito anos

 teoricamente , de quatro horas por dia , teoricamente , que na

 prtica , em 90 % das ocorrncias , se reduzem a dois anos de duas

 horas por cento e oitenta dias .
 Isso explica a significativa

 situao do portugus no Brasil : ele  praticado como lngua

 natural pela grande maioria da populao , que no sabe mais que

 trs mil palavras e com elas se comunica em seu pequeno mundo ,

 desassociando-se de sua cidadania , de sua condio de homem de

 trabalho .
 A realidade terica e a realidade real so bem

 diferentes .
 Fala-se , em estatstica , que estamos com 30 % de

 analfabetos .
 Desafiamos que isso seja verdade .
 Estamos com 40 % , 50 %

 ou 60 % de analfabetos .
 Analfabetos funcionais , que podem assinar

 seu nome , mas no lem um texto ao longo da vida .

 Sobre este repto , talvez o rabe venha a ser a quinta lngua do

 futuro , enquanto o portugus venha a ser a nona .
 Esta  que  a

 trgica situao !
 Evidentemente , estamos caricaturando uma situao

 bem presente , esta , neste instante , porque no acredito que

 venhamos a manter as condies pssimas hoje existentes , por mais

 muitos anos .

  claro que na diviso do famoso bolo , uma parte para a educao , e

 sobretudo para a criana , est sendo injustamente sonegada .
 As

 mulheres reivindicam , cada vez mais brilhantemente , o direito 

 igualdade com os homens .
 Deveriam reivindicar tambm o direito 

 igualdade para as crianas , porque , no todo social , os filhos das

 mulheres esto em pssima situao , comparativamente com elas , e

 nem digamos com os homens .
 Porque as crianas no tm porta-vozes .

 A criana no sabe dizer o que quer .
 A criana no sabe fazer

 exigncias .
 E a mulher , em sua reivindicao , implicitamente

 compreende que , melhorando , seus filhos iro melhorar .
 Mas nem

 sempre isso ocorre .
 E , no ocorrendo ,  bom que elas tenham isto

 presente , pois os homens no o tero jamais : elas tm de ser

 porta-vozes da criana , que  a faixa mais dilapidada , mais

 estraalhada , mais irrepresentada dentro do Brasil .

 Estamos desenvolvendo uma cultura profundamente desinteressada da

 criana .
 E  nela que se faz a construo de uma lngua de cultura

 e  nela que se faz a construo de uma sociedade .

 Assim , a aquisio da lngua de cultura tem de ser feita a partir

 do sexto ou stimo ano , para que , aos catorze , quinze anos , o

 indivduo esteja com o potencial de sua integrao no ser de

 comunicao , que  o ser humano , mais ou menos realizado .
 Da para

 diante , as vocaes podero ser definidas .
 Pode haver uma grande

 vocao de criador potico , ficcional , em uma criana de seis anos .

 Mas , se esse instrumental no lhe for dado , ele no aflora .
 E , se

 aflorar , aflora para essas coisas bonitas , mas que no chegam a

 representar grande passo  frente na histria do Homem , que so ,

 com todo o respeito , os nossos cordis , que , inclusive , esto sendo

 falsificados , hoje em dia .
 H pessoas que tm lngua de cultura e

 fingem fazer cordel .

 Ora , esse quadro  um pouco melanclico .
 Entretanto , ressaltamos ,

 de novo , que o portugus estava em estdio de lngua natural ,

 enquanto o rabe j havia atingido seu esplendor de lngua de

 cultura , e , por isso mesmo , suas possibilidade de domnio foram

 imensas .
 Foram as dissenses dos grandes emirados do imprio rabe

 que prefiguraram sua Idade Mdia retardatria : cinco sculos

 obscuros , que comearam a reiluminar-se em nosso Lbano pr-natal ,

 com os Yzigis e os outros assim , e que esto permitindo que esta

 lngua refloresa com pequenas ambigidades , uma das quais ,

 evidentemente ,  uma opo entre um rabe modernizado , capaz de ter

 quatrocentas mil palavras , que o Alcoro no tem - - o Alcoro se

 faz com seis mil palavras - - e , por conseguinte , o ideal cornico

 tem de ser praticado em termos .
 O ideal cornico fundamentalista 

 retardatrio ,  anacrnico ,  um recuo , conquanto possa dar as

 matrizes fundamentais da lngua , o que  outra coisa : todas as

 lnguas so comparveis entre si .
 Ento , nesse aspecto , o rabe

 est fazendo uma opo prtica , porque se est intercomunicando ao

 longo de toda sua paisagem viva , e no temos dvida de que ir ser ,

 de novo , uma grande lngua de cultura , provando , mais uma vez , que

 tem poetas , sbios , santos , e cientistas .
 Isto tambm ocorrer com

 o portugus , mas por que pensarmos em sculos obscuros para uma

 lngua que no precisa t-los ?

 ______________________

 ^ * Antnio Houaiss foi tradutor , crtico , escritor , lexicgrafo ,

 diplomata , membro da Academia de Cincias de Lisboa , presidente da

 Academia Brasileira de Letras e ministro da Cultura .
 Faleceu em 1999 ,

 deixando quase completa a edio do notvel Dicionrio Houaiss .
 O

 presente texto , com que homenageamos o autor ,  originalmente uma

 conferncia para o Centro de Estudos rabes da USP em 1986 .

 Transcrio e org .
 Ceclia N. Adum .

