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 A FORMAO DA LNGUA PORTUGUESA

 ( Isabela Fani Dias )

 A formao da lngua portuguesa conta com um elemento decisivo : o

 domnio romano , que reduziu a um denominador comum as vrias culturas

 existentes na Pennsula Ibrica .

 O latim , lngua falada pelos conquistadores , dominou quase toda a

 regio .
 Podemos reconhecer duas modalidades de latim : o latim

 clssico , gramaticalizado , usado pelas pessoas cultas , que era falado

 e escrito ; e o latim vulgar , usado pelo povo , que era apenas falado .
 A

 lngua falada nas regies romanizadas era o latim vulgar e dele se

 originou a lngua portuguesa .

 Fases histricas do portugus

  Fase proto-histrica

 Estende-se do final do sculo IX at o sculo XII , com textos escritos

 em latim brbaro ( modalidade do latim usada apenas em documentos e por

 isso tambm chamada de latim tabelinico ou dos tabelies ) .
 Dessa

 fase , os mais antigos documentos so um ttulo de doao , datado de

 874 , e um ttulo de venda , de 883 .

  Fase do portugus arcaico

 Do sculo XII ao sculo XVI , compreendendo dois perodos distintos :

  do sculo XII ao XIV , com textos em galego-portugus ;

  do sculo XIV ao XVI , com a separao entre o galego e o portugus .

  Fase do portugus moderno

 A partir do sculo XVI , quando a lngua portuguesa se uniformiza e

 adquire as caractersticas do portugus atual .
 A rica literatura

 renascentista portuguesa , notadamente a produzida por Cames ,

 desempenhou papel fundamental nesse processo de uniformizao .
 As

 primeiras gramticas e os primeiros dicionrios da lngua portuguesa

 tambm datam do sculo XVI .

 A formao da lngua portuguesa conta com um elemento decisivo : o

 domnio romano , que reduziu a um denominador comum as vrias culturas

 existentes na Pennsula Ibrica .

 O latim , lngua falada pelos conquistadores , dominou quase toda a

 regio .
 Podemos reconhecer duas modalidades de latim : o latim

 clssico , gramaticalizado , usado pelas pessoas cultas , que era falado

 e escrito ; e o latim vulgar , usado pelo povo , que era apenas falado .
 A

 lngua falada nas regies romanizadas era o latim vulgar e dele se

 originou a lngua portuguesa .

 FATOS HISTRICOS

  A Romanizao da Pennsula Ibrica

 Os romanos desembarcaram na Pennsula no ano 218 a.C .
 A sua chegada

 constitui um dos episdios da Segunda Guerra Pnica .
 Todos os povos da

 Pennsula , com exceo dos bascos , adotam o latim como lngua e , mais

 tarde , todos abraaram o cristianismo .

 A pennsula  inicialmente dividida em duas provncias , A Hispania

 Citerior ( a regio nordeste ) e a Hispania Ulterior ( a regio

 sudoeste ) .
 Augusto divide a Hispania Ulterior em duas provincias : a

 Lusitania , ao norte do Guadiana , e a Btica , ao sul .
 Posteriormente ,

 entre 7a.C. e 2 a.C. , a parte da Lusitnia situada ao norte do Douro ,

  anexada  provncia terraconense ( a antiga Hispania Citerior ) .

 Cada provncia subdividi-se num determinado nmero de circunscries

 judicirias , chamadas conventus .
 O atual territrio da Galcia

 espanhola e de Portugal corresponde , aproximadamente , a quatro desses

 conventus - os de Lucus Augustus ( Lugo ) , de Bracara ( Braga ) , de

 Scalabis ( Santarm ) e de Pax Augusta ( Beja ) .

 Nestes territrios , a Romanizao fez-se de maneira mais rpida e

 completa no Sul do que no Norte .

  Os suevos e os visigodos

 Em 409 , invasores germnicos - vndalos , suevos e alanos - afluem ao

 sul dos Pirineus , seguidos , mais tarde , pelos visigodos .
 Assim comea

 um dos perodos mais obscuros da histria peninsular , que terminar em

 711 , com a invaso mulumana .
 Os alanos foram rapidamente aniquilados .

 Os vndalos passaram para a frica do Norte .
 Os suevos , em

 compensao , conseguiram implantar-se e , por muito tempo , resistiram

 aos visigodos , que tentavam reunificar a Pennsula a seu favor .
 Mas em

 585 , esse territrio foi conquistado pelos visigodos e incorporado ao

 seu Estado .
 No que diz respeito  lngua e  cultura , a contribuio

 dos suevos e dos visigodos foi mnima .
 Tiveram um papel

 particularmente negativo : com eles a unidade romana rompe-se .
 Se o

 latim escrito se mantm como a nica lngua de cultura , o latim falado

 evolui rapidamente e diversifica-se .

  A invaso muulmana e a Reconquista

 A influncia rabe foi marcante em todo o sul da Pennsula Ibrica .
 A

 invaso muulmana e a Reconquista so acontecimentos determinantes na

 formao das 3 lnguas peninsulares : Catalo ( lngua de cultura da

 regio da Catalunha , a nordeste da Espanha ) , o Castelhano ( da regio

 de Castela , onde se situa Madri ) e o galego-portugus .
 Estas lnguas

 nasceram no Norte e foram levadas para o Sul pela Reconquista .

 Um fato interessante ,  que os rabes no impuseram a sua lngua ;

 limitando-se a contribuir com o acrscimo de palavras ao vocabulrio

 dos falares dos povos dominados , com isso , no interferiram na

 estrutura romnica desses falares .

  O galego-portugus

 O galego-portugus era um falar geograficamente limitado  faixa

 ocidental da Pennsula , que corresponde aos atuais territrios da

 Galiza e do norte de Portugal .
 Cronologicamente , esse dialeto

 restringiu-se ao perodo compreendido entre os sculos XII e XIV ,

 coincidindo com a poca das lutas da Reconquista .
 Em meados do sculo

 XIV houve uma maior influncia dos falares do sul , notadamente da

 regio de Lisboa , aumentando assim as diferenas entre o galego e o

 portugus .

 O GALEGO - PORTUGUS ( DE 1200 A APROXIMADAMENTE 1350 )

 Acreditou-se durante largo tempo que os antigos textos em

 galego-portugus datavam dos ltimos anos do sculo XII que no foi

 exatamente nessa poca , mas no comeo do sculo XII que esses textos

 apareceram .

  Os fatos histricos

 Nesse tempo , o reino autnomo de Portugal j existia e a parte

 meridional do seu territrio estava quase inteiramente " reconquistada

 " .
 Portugal constituiu-se no sculo XII , quando Afonso I ( Afonso

 Henriques ) , filho do conde Henrique de Borgonha , se tornou

 independente do seu rimo Afonso VII , rei de Castela e de Leo .

 Separando-se de Leo para se tornar reino independente , Portugal

 separava-se tambm da Galcia , que no mais deixaria de ficar anexada

 ao pas vizinho - reino de Leo , reino de Castela e , finalmente ,

 reino de Espanha .
 A fronteira , que no sculo XII isolou a Galcia de

 Portugal , estava destinada a ser definitiva .

 Ao mesmo tempo que se separava ao norte da Galcia , o novo reino

 independente de Portugal estendia-se para o sul , anexando as regies

 reconquistadas aos " mouros " .
 Com tomada de Faro ( 1249 ) , o

 territrio nacional atingiu os limites que , com algumas pequenas

 modificaes , correspondem s fronteiras de hoje .

 Isolada a Galcia , mas acrescido das terras meridionais

 reconquistadas , Portugal v o seu centro de gravidade transferir-se do

 Norte para o Sul .
 A residncia principal do primeiro rei era

 Guimares , no extremo norte .
 Os seus sucessores comearam a freqentar

 de preferncia Coimbra .
 E , finalmente , Afonso III , em 1255 ,

 instala-se em Lisboa , que no mais deixaria de ser a capital do pas .

 Durante todo esse perodo a lngua galego-portuguesa , nascida no

 Norte , vai-se espalhar pelas regies meridionais .

 Tal como o castelhano , o portugus originou-se de uma lngua nascida

 no Norte ( o galego-portugus medieval ) que foi levada ao Sul pela

 Reconquista .
 Quanto  norma , porm , o portugus moderno diverge do

 castelhano , pois vai busca-la no no Norte , mas sim na regio

 centro-sul , onde se localiza Lisboa .
 O falar da faixa ocidental da

 Hispnia sempre se distinguiu do falar ou falares de outras regies .

 No  desarrazoado afirmar que o tratamento diferente que teve o latim

 nessa regio , ao menos quanto  parte setentrional e central , se

 justifica , por ter sido o territrio ocupado pelos celtas e suevos , e

 haver constitudo um feudo , que mais tarde se tornou independente .

 Do romance a falado , veio a constituir-se , ao norte , o dialeto

 galeziano ou galaico-portugus ; ao sul , provavelmente outro , inado

 de palavras rabes , do qual nenhum documento possumos , a no ser

 escassas indicaes geogrficas .

 Com as conquistas , o galeziano estendeu-se progressivamente sobre a

 parte meridional , absorvendo o romance que a existia , ou

 identificando-se com ele , e penetrou no Algarve , no reinado de Afonso

 III ( 1250 ) .

 Dada a independncia poltica de Portugal , deveria necessariamente

 resultar , o que de feito resultou - a diferenciao entre o portugus e

 o galego .

 A princpio pequena , foi-se acentuando no correr do tempo , at que o

 portugus se tornou idioma completamente autnomo do galego .

 A criao dos Estudos Gerais ou Universidades , em 1290 , contribuiu

 poderosamente para que , de par com as cincias , se desenvolvessem

 tambm as letras .

 Leite de Vasconcelos divide a histria da lngua portuguesa em trs

 grandes pocas : pr-histrica , proto - histrica e histrica .

 A pr-histrica comea com as origens da lngua e se prolonga at o

 sc. IX , em que surgem os primeiros documentos latino-portugueses .
 

 reduzido o material lingstico desta poca , constante de escassas

 inscries .
 S por conjetura  que se pode formar uma idia do romance

 ento falado .

 A proto-histrica estende-se do sc. IX ao XII .
 Os textos , ento , que

 aparecem so todos redigidos em latim brbaro .
 Neles , porm , de quando

 em quando , se encontram palavras portuguesas , o que prova  evidncia

 que o dialeto galaico-portugus j existia nesse tempo .

 A histria inicia-se no sculo XII , em que os textos ou documentos

 aparecem inteiramente redigidos em portugus .
 Anteriormente , a lngua

 era apenas falada .

 A poca histrica comporta uma diviso em duas fases : a arcaica ( do

 sc. XII ao XVI ) e a moderna ( do sc. XVI para c ) .

  Os textos

 v A poesia lrica

 O galego-portugus  a lngua da primitiva poesia lrica peninsular ,

 que foi conservada fundamentalmente em trs compilaes , das quais s

 uma foi organizada ao tempo dos trovadores : O Cancioneiro da Ajuda , 

 ele o menos rico quanto ao nmero de textos conservados , largamente

 superado no particular pelo Cancioneiro da Vaticana e ,

 principalmente , pelo Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa .

 Estes cancioneiros contm trs categorias de poesias : 1 ) as cantigas

 d`amigo ( poemas de amor , por vezes com traos populares , em que a

 fala  feminina ) ; 2 ) cantigas d`amor ( poemas mais eruditos , de

 freqente inspirao provenal , nos quais  o homem que fala ) ; 3 )

 cantigas d`escarnho e mal dizer ( poemas satricos , por vezes

 grosseiros ) .
 Os textos mais antigos so do incio do sculo XIII , mas

 essa literatura vai buscar as suas origens a um passado mais distante ,

  poesia dos trovadores provenais para as cantigas d`amor , ou , para

 as " cantigas de mulher " , que so as cantigas d ` amigo ,  tradio

 atestada pelas muwassahas dos sc.XI e XII , poemas em hebraico ou em

 rabe nos quais aparecem versos no romano moarbico .

 Estas compilaes , s quais se devem acrescentar as Cantigas de Santa

 Maria de Afonso X , o Sbio ( 1221-1284 ) , rei de Castela e de Leo a

 partir de 1252 , so escritas numa lngua complexa , que tem por base os

 falares da Galcia e do Norte de Portugal .
 Nela se documentam

 arcasmos , a atestarem que , para o seu pblico , esta literatura tinha

 um passado .

 O galego-portugus , em suma , aparece nessa poca como a lngua

 exclusiva da poesia lrica , e quem quer que a quisesse praticar

 deveria , obrigatoriamente , adota-la .
 A assinatura de Afonso X ,

 junta-se assim , nos Cancioneiros ,  D. Dinis de Portugal , rei de 1279

 a 1325 .
 Toda essa exploso lrica termina , porm , em meados do sc .

 XIV , tendo sido D. Pedro , conde de Barcelos , filho bastardo de D .

 Dinis , um dos ltimos trovadores .

 v Documentos oficiais e particulares

 A partir de incios do sc. XII surgem documentos inteiramente

 escritos em " lngua vulgar " - testamentos , ttulos de venda , etc .
 Um

 dos textos mais antigos deste genro  o testamento de Afonso II ,

 datado de 1214 .
 D. Dinis dar grande impulso  utilizao da " lngua

 vulgar " ao torna-la obrigatria nos documentos oficiais .
 A lngua

 desses textos , principalmente daqueles anteriores a 1350 ,  mais

 espontnea e diversificada que a dos Cancioneiros .

 v Os Incios da prosa literria

 Em fins do perodo ( 1200 - 1350 ) surgem as primeiras obras em prosa

 literria , merecendo meno particular O Livro de Linhagens de D .

 Pedro , conde de Barcelos ( morto em 1354 ) , e a Crnica Geral de

 Espanha de 1344 , que  em grande parte a verso portuguesa da Primeira

 Crnica General de Espaa , redigida por ordem de Afonso X , o Sbio .

  A grafia

  na segunda metade do sc. XIII que se estabelecem certas tradies

 grficas .
 O testamento de Afonso II ( 1214 ) j utiliza ch para a

 africada { ts } - ex. : Sancho , chus - , consoante diferente do { s } ,

 ao qual se aplica a grafia x. este ch , de origem francesa , j era

 usado em Castela com o mesmo valor .
 Para " n palatal " e " l palatal " ,

  somente aps 1250 que comeam a ser usadas as grafias de origem

 provenal nh e lh ; ex. : gaanhar , velha .

 Apesar das suas imprecises e incoerncias , a grafia do

 galego-portugus medieval aparece como mais regular e " fontica " do

 que aquela que prevalecer em portugus alguns sculos mais tarde .

  Vocabulrio

 v Emprstimos do francs e do provenal

 A influncia da lngua d ` oil e da lngua d ` oc  muito forte durante

 o perodo do galego-portugus , e explica-se por uma srie de causas

 convergentes : presena da dinastia de Borgonha , chegada a Portugal

 de numerosos franceses do Norte e do Sul , influncia direta da

 literatura provenal , etc .
 Da os numerosos emprstimos vocabulares ,

 de que damos alguns exemplos :

 A ) Emprstimos do Francs - Dama ( < dame ) , daian

 B ) Emprstimos do Provenal - Assaz ( < assatz ) , alegre , majar ,

 rouxinol ( < rossinhol ) ,

 v Palavras eruditas e semi-eruditas

 Entre as palavras " semi - eruditas " , podemos incluir mundo , virgem ,

 clrigo e a sua variante crrigo , diaboo , escola , pensar .
 Outras so

 mais recentes , por exemplo os adjetivos em - ico ( cf. plobico , ou seja

 " pblico " , num documento de 1303 ) .
 Para dar uma idia da

 complexidade e da abundncia destes emprstimos , alguns colhidos ao

 folhear o glossrio das Cantigas d ` Escarnho e Mal Dizer na edio de

 Rodrigues Lapa ( ed. Galxia , 1965 ) .
 Encontram-se a alegoria ( no

 sentido de " cincia arte " ) , animalha ( animal irracional ) , bautiar

 ( baptizar ) , benefcio , calendairo ( hoje calendrio ) , cncer ,

 ciena ( " cincia " ) , confessar , confirmar , defeso , defesa , natura ,

 natural , ofcio , etc .

  PORTUGUS EUROPEU ( DO SC .
 XIV AOS NOSSOS DIAS )

 Por volta de 1350 , no momento em que se extingue a escola literria

 galego-portuguesa , as conseqncias do deslocamento para o Sul do

 Centro de gravidade do reino independente de Portugal vm  tona .
 O

 portugus , j separado do galego por uma fronteira poltica , torna-se

 a lngua de um pas cuja capital  Lisboa .
  nesta parte do reino que

 esto implantadas as instituies que desempenham papel cultural mais

 importante , tais como os Mosteiros de Alcobaa e o de Sta. Cruz de

 Coimbra em + ou - 1288 .
 Residncia privilegiada do rei , Lisboa 

 tambm a cidade mais povoada e o primeiro porto do pas .
 E o eixo

 Lisboa - Coimbra passa a formar desde ento o centro do domnio da

 lngua portuguesa .
  a partir dessa regio , antes morabe , que o

 portugus moderno vai constituir-se , longe da Galca e das provncias

 setentrionais em que deitava razes .
  da que partiro as inovaes

 destinadas a permanecer ,  a onde se situar a norma .

  PROBLEMAS DE PERIODICIDADE

 Alguns estudiosos distinguem na evoluo do portugus dois grandes

 perodos : o " arcaico " , que vai at Cames ( sc. XVI ) e o " moderno "

 que comea com ele .
 Outros baseiam a sua periodizao nas divises

 tradicionais da histria - Idade Mdia , Renascimento , Tempos Modernos

 - , ou nas " escolas " literrias , ou simplesmente nos sculos ...

  OS DESCOBRIMENTOS E A EXPANSO ULTRAMARINA

 No sc. XIV , os portugueses descobrem os arquivos plagos da Madeira e

 dos Aores , que comeam a povoar em princpios do sc. seguinte .
 Em

 1415 , tomam Ceuta .
 Em 1488 , Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa

 Esperana .
 Em 1498 , Vasco da Gama chega  ndia .
 Em 1500 , Pedro

 lvares Cabral descobre o Brasil .
 Depois , os portugueses prosseguem

 at Malaca , s ilhas de Sonda , s Molucas ,  China e ao Japo .
 A

 lngua transportada assim ao ultramar , vai - se expandir por vastos

 territrios .
 Poltica e administrativamente , nada resta hoje do

 antigo Imprio .
 A lngua porm , essa permaneceu no Brasil e em

 diferentes pases da frica e da sia .

  HISTRIA CULTURAL E LITERRIA

 No que se refere ao vocabulrio e  sintaxe , a evoluo do portugus

 reflete os grandes perodos que se podem distinguir na histria

 cultural e literria : o desenvolvimento da prosa literria nos scs .

 XIV e XV , o Renascimento , o italianismo , o humanismo , a censura

 inquisitorial , a Contra-n Reforma e o controle da educao pelos

 jesutas , a reao neoclssica e a Arcdia , o liberalismo e o

 romantismo , o realismo e o naturalismo , etc .

  AS INFLUNCIAS ESTRANGEIRAS

 Devemos Ressaltar :

 A ) O bilingismo luso-espanhol

 Entre meados do sc. XV e fins do sc.XVII o espanhol serviu como

 segunda lngua para todos os portugueses cultos .
 Os casamentos de

 soberanos portugueses com princesas espanholas tiveram como efeito uma

 certa " castelhanizao " da corte .
 Os 60 anos de dominao espanhola

 acentuaram esta impregnao lingstica .
  somente depois de 1640 , com

 a Restaurao e a subida ao trono de D. Joo IV , que se produz uma

 certa reao antiespanhola .
 O bilingismo , todavia , perdura at o

 desaparecimento dos ltimos representantes da gerao formada antes de

 1640 .

 A maioria dos escritores portugueses escreve tambm em espanhol , por

 exemplo : Gil Vicente , S de Miranda , Luis de Cames , Francisco Manuel

 de Melo ...

 B ) A influncia francesa

 A partir do sc. XVIII o espanhol deixa de desempenhar o papel de

 segunda lngua de cultura , que passa ento a ser exercido pelo

 francs .
  nos livros franceses que os portugueses vo buscar boa

 parte de sua cultura , e  por intermedirio dele que entram a maioria

 das vezes em contato com o mundo exterior .

  OS GRAMTICOS , LEXICGRAFOS E FILLOGOS

 A gramtica nasce em Portugal da cultura humanista , cabendo o

 pioneirismo do seu ensino a Ferno de Oliveira , autor de uma

 Grammatica da Lingoagem Portuguesa ( 1536 ) .
 A esta segue-se a

 Grammatica da Lngua Portuguesa ( 1539 -1540 ) , de Joo de Barros .
 E

 desde ento at o sc. XIX vai aparecer um nmero considervel de

 gramticas normativas e de tratados de ortografia .

 Essas obras fornecem-nos de vez em quando informaes preciosas sobre

 a histria da lngua .
 Quanto  lexicografia portuguesa , ela tambm 

 filha do humanismo .
 O primeiro lexicgrafo , Jernimo Cardoso , redige

 diversos dicionrios de portugus-latim e latim-portugus ( 1551 ,

 1562 , 1562-1563 , 1569-1570 ) .
 Surge mais tarde o dicionrio de

 portugus-latim de Agostinho Barbosa ( 1611 ) , os dicionrios de Bento

 Pereira ( latim - portugus em 1634 , portugus - latim em 1647 ) , o

 Vocabulrio Portuguez e Latino de D. Rafael Bluteau ( 8 volumes , de

 1712 a 1721 , e 2 volumes de suplemento , de 1727 - 1728 ) , e

 finalmente , o Dicionrio da Lngua Portuguesa de Antnio de Morais

 Silva ( 1789 ) , vrias vezes reeditado e aumentado e que pode ser

 considerado o antepassado de todos os dicionrios modernos da lngua .

 No que se refere  filologia cientfica , ela foi introduzida em

 Portugal na segunda metade do sc. XIX por Francisco Adolfo Coelho (

 1847 - 1909 ) .
 Entre outros houve tambm : Aniceto dos Reis Gonalves

 Viana ( 1840 - 1914 ) , fundador da fontica portuguesa , Carolina

 Michaelis de Vasconcelos ( 1858 - 1914 ) .

  Separao do galego

 O galego comea a isolar-se do portugus desde o sc.XIV , com obras em

 prosa de que a Crnica Troiana  um dos melhores exemplos .
 Entre 1350

 e 1450 houve na Galcia uma segunda florao lrica , da qual os

 portugueses no participaram .
 Mas a partir do sc. XVI o galego deixa

 de ser cultivado como lngua literria e s sobrevivendo uso oral .

 Sofre , alm disso , uma srie de evolues fonticas que vo afast-lo

 cada vez mais do portugus , como por exemplo :

 a ) ensudercimento das fricativas - z , - s e - j ( cozer - coser , j ) ,

 que se confundem com -  , - ss e - x ;

 b ) pronncia interdental do antigo  , transformao , em toda parte

 ocidental da Galcia , de g oclusivo em uma fricativa velar surda

 idntica ao jota do espanhol contemporneo ( um fenmeno chamado geada

 ) .

 Ao mesmo tempo , acentuam-se no interior do galego algumas diferenas

 dialetais , e o vocabulrio  invadido de hispanismos .
 Nos scs. XIX e

 XX , vai haver um Renascimento galego , e escritores e fillogos

 esforar-se-o por elaborar uma lngua unificada .
 Mas , pela sua

 fontica , pela sua morfologia , pelo seu vocabulrio , pela sua sintaxe ,

 e mesmo pela sua ortografia , este galego moderno  j uma lngua

 diferente do portugus - diferente , contudo suficientemente prxima

 para que , em condies favorveis , a intercompreenso ainda seja

 possvel .

 Desde o sc.XVI o galego  sentido , ao mesmo tempo , como arcaico e

 provincial .
 A personagem do galego constitui at ao sc. XIX uma das

 figuras tradicionais do teatro popular : trata-se do galego de Lisboa ,

 que exercia as profisses de carregador e de aguadeiro .
 Caracteriza-se

 ela linguagem , cujas particularidades acentuam , at a caricatura ,

 alguns traos prprios dos falares portugueses do extremo norte .
 E

 assim  que o galego , que nas origens da lngua tanto contribuiu ara

 definir a norma literria , veio a encontrar-se no plo oposto desta

 mesma norma .
 A rusticidade da Galcia ope-se agora ,  urbanidade de

 Lisboa .

  O TERRITRIO DO PORTUGUS EUROPEU

 Amputado do galego , o portugus chegou a ocupar um territrio que

 corresponde , aproximadamente , ao territrio nacional de Portugal

 continental .
 Os raros pontos onde a fronteira lingstica no recobre

 a fronteira poltica so os seguintes : ao norte , em Ermisende (

 provncia de Zamora ) , fala-se uma variedade de portugus .
 A leste do

 distrito de Bragana , do lado portugus da fronteira , em Riodonor ,

 Guadramil , Miranda e Sendim , fala-se uma variedade de leons.mais ao

 sul , do lado espanhol , o portugus  falado em Alamedilla , em Eljas ,

 em Valverde Del Fresno e em San Martn de Trevejo ( dialeto oriundo do

 galego ) , em Herrera de Alcntara e em Olivena .
 Trata-se aqui de

 sobrevivncia dialetais que no impedem a di fuso das lnguas

 nacionais , o espanhol de um dos lados da fronteira e o portugus do

 outro .
 Tambm os arquiplagos da Madeira e dos Aores pertencem  rea

 europia da lngua .

 Como se v , o portugus  uma lngua nacional praticamente " perfeita

 " .
 Ocupa , alm disso , uma rea que se manteve estvel desde a origem .

 Portugal  um pas que ignora os problemas criados , em outras regies ,

 pela existncia de minorias lingsticas .

