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 O portugus antigo

 Depois de afirmada a independncia de Portugal no sc. XII e de estabelecidas

 as fronteiras do reino em meados do sc. XIII , estavam reunidas condies para

 que aquele romance galego-portugus fosse promovido a lngua nacional .

 O primeiro passo era tornar-se lngua escrita ( da documentao oficial , da

 literatura e tambm do uso dirio ) .
 O mais antigo documento oficial , datado ,

 escrito em portugus , que chegou at ns ( o Testamento de Afonso II , de 1214 )

 prova , devido s suas convenes grficas mais ou menos estveis , que no

 ambiente da corte j se escrevia em portugus h algum tempo .
 Com isso se

 harmoniza a datao da mais antiga cantiga trovadoresca , Ora faz osto senhor de

 Navarra , de Joo Soares de Paiva : o ano de 1196 .
 E a Notcia de Torto , um

 documento privado sem data , mas situvel  volta de 1214 , atesta como a lngua

 portuguesa era j usada , pontualmente , para registar apontamentos informais e

 efmeros ; esta prtica foi recentemente comprovada por uma Notcia de Fiadores

 de 1175 .
 Mas  a partir de 1255 que comea a produo regular de documentos

 escritos em portugus , primeiro na chancelaria rgia , depois por toda a parte .

 A abundante produo escrita em portugus torna possvel , desde ento , observar

 com mais pormenor as mudanas que a lngua vai sofrer entre os scs. XIII e XV

 e que , por graduais transies , a levaro a transformar-se de lngua medieval

 em lngua clssica .
 Destacam-se as seguintes ordens de mudanas :

 a ) mudanas da estrutura da lngua :

 no plano fontico , eliminao de hiatos ( sequncias voclicas que eram muito

 abundantes no portugus antigo ) , convergncia no ditongo o das terminaes

 nasais em  , em  e em o hitico dos verbos e dos nomes , elevao para u do o

 final tono dos nomes ( muito abundante como morfema masculino ) , queda do d

 intervoclico na segunda pessoa plural dos verbos ( amades > amaes > amais ) ,

 incio da transformao do sistema medieval de sibilantes ( 2 fricativas

 apicais , s e ss , e 2 africadas predorsais , ts e dz > 2 fricativas apicais e 2

 fricativas predorsais ,  e z > 2 fricativas ( ou apicais ou predorsais ) ;

 no plano morfolgico , regularizao de paradigmas verbais ( substituio de

 formas irregulares por formas analgicas ) e nominais ( mudanas de gnero ) ;

 no plano lexical , entrada de cultismos por relatinizao .

 b ) mudanas sociolingusticas :

 a lngua de cultura transfere a sua base dialectal do norte para o centro do

 reino ( assim , o futuro padro no se basear nos dialectos fundadores da

 lngua , mas em dialectos que nasceram devido  Reconquista ) ;

 agrava-se o distanciamento em relao ao galego , entretanto impedido pelo

 domnio castelhano de existir como lngua de cultura .

 Todos estes fenmenos coincidem com profundas transformaes sociais no reino :

 a diminuio da populao devido  peste no reinado de D. Fernando , as invases

 castelhanas , a crise dinstica e a substituio da classe nobre , o incio das

 conquistas ultramarinas .
  intuitivo que , apesar da sua diferente natureza , os

 factos lingusticos e os histricos se acham interrelacionados .
 Mais difcil

 ser determinar se essas relaes so de coincidncia ou de causalidade e ,

 neste caso , qual o sentido em que as motivaes actuaram .

  Instituto Cames , 2002-2004

