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 Longe vo os tempos que , nas caravelas das descobertas , os portugueses levavam ,

 tambm , a lngua .
 Entretanto , em tempos outros , a lngua portuguesa continua em

 movimento , ora integrando vocabulrios de outras lnguas ou sendo enriquecida

 por elas , ora sendo mesmo transformada , para adaptar a outras realidades , como

 mostra o nosso colaborador , o Professor Onsimo Teotnio Almeida

 Nomes em Nihil Obstat

 Via e-mail , dois jornalistas de Lisboa solicitaram-me com urgncia algum meio

 de contactar familiares de D. William Levada , arcebispo de S. Francisco ,

 nomeado por Bento XVI como o seu substituto na Congregao para a Doutrina da

 F .
 A Califrnia fica to longe de Providence como Providence de Lisboa , mas

 vista do lado de l do Rio Atlntico a Amrica  um pas , ou uma simples

 provncia , no um continente .
 Arranjei-lhes contactos na Califrnia e alguns

 dados biogrficos .
 No se como se houveram. ( A D. Levada tinha eu , por sinal ,

 aludido num artigo no ex - O Jornal , em 1986 , entre um elenco de nomes , quando

 pretendi demonstrar um muito conhecido socilogo portugus que a lista de

 descendentes notveis entre as comunidades aor-americanas no era to magra

 como eu julgava. ) Um dos jornalistas que agora me abordaram , intrigado com tal

 sobrenome , perguntou-me se ele no seria de origem madeirense .
 Enviei-lhe o

 endereo do portal do arcebispo , onde vem esclarecido ser Levada uma

 americanizao de Oliveira .
 Cptico , o jornalista insistiu : Mas como 

 possvel ?

 Muito simples : Levada  a transcrio fontica da pronncia americana de

 ` liveira ( o / O / inicial da pronncia  com frequncia elidido na linguagem

 corrente : ` leveira ' , e o / d / intervoclico  tambm comumente confundido a nvel

 fontico com o / r / em posio idntica ) .

 Estranho ?
 De modo nenhum .
 Nos barcos baleeiros muitas vezes os tripulantes

 arrecadados nos Aores tomavam o nome do capito .
 Por isso muitos viraram

 Clark .
 Noutros casos ,  chegada aos EUA , o escriba na alfndega simplesmente

 transcrevia o que ouvia , ou consultava um dicionrio e registava a traduo

 inglesa .
 De resto , em grande nmero de situaes , a iniciativa da mudana

 pertenceu aos prprios imigrantes .
 Como no momento da nacionalizao  possvel

 ( ainda hoje ) escolher-se qualquer nome , no havia regras .
 Por isso , nas

 primeiras levas de emigrao ( mais precisamente , durante o primeiro sculo e

 meio ) , milhares deles no se coibiram de apagar o seu rasto no mar imenso

 americano .
 Nome que terminasse em vogal era latino e , a olhares anglo-saxnicos

 do sculo XIX , no caa bem .
 Quanto mais cedo se liberassem do porco labu de

 PIGS , melhor ( PIGS significou primeiro : Polish , Irish , Greek and Slavic .

 Geraes mais tarde , com as alteraes demogrficas na emigrao , passou a

 significar Portuguese , Italiana , Greek , and Spanish ) .
 Agora s aos poucos os

 vamos descobrindo , s vezes por fortuitas coincidncias .

 A minha lista vem crescendo h anos : Medow era Mendona ; Sylvia e Silver foram

 Silva ; Branco deu White ; e Reis , Reese e King .
 Alguns Oak vm de Carvalho ,

 Smith de Ferreira , Simmons de Simes , e Olver , de Oliveira ; Martin de Martins ,

 Sears ou Soars , de Soares .
 Vrios Thomas vieram de Tom ; Pavan e Peacock , de

 Pavo .
 H Andrews que provm de Andrade ou Andr ( como apelido ) .
 Ferry era

 Faria ; Rogers pode ter sido Rosa ou Rodrigues .
 Snow , Neves ; Wolf , Lobo .
 Botelho

 deu Butler , Rodrigues , Rodericks ; e Duarte ( em apelido ) , tornou-se Edwards ( Nas

 Flores , uma famlia Duarte fez Edwards nos Estados Unidos , nome retrovertido

 para Eduardo , sempre como sobrenome , no regresso dos descendentes aos Aores ) .

 Govey teve origem em Gouveia ; Jason em Jacinto ; Machado gerou vrios Maarshall ,

 como o David Marshall que nos forrou o tecto aqui em casa , e se me dizia dos

 quatro costados oriundo de portugueses da minha ilha .
 Muitos Lawrence foram

 Loureno em protugus , como Mandley ou Mendley haviam sido Mendona e Leighton ,

 Leito .
 Lewis pode ter provindo de Lus , como o escritor das Flores Alfred

 Lewis , autor de Home is an Island , publicado pela Alfred Knopf , de New York , em

 1951 .
 Morris foi adoptados por muitos Maurcios , e Roche ou Rock vieram de

 Rocha .
 Francisco deu Francis .
 Um tal Avalon foi vila .

 H , ainda , as baralhaes de letras , as metteses .
 Basta consultar uma lista

 telefnica da Nova Inglaterra para se ver a criatividade ortogrfica .
 Qualquer

 nome tem variaes acrescentadas. ( O mais comum em Almeida , por exemplo ,  dar

 Almedia ) .
 Essas trocas no resultaram necessariamente de simples analfabetismo .

 Os americanos tm dificuldades fonticas com os nossos nomes , como ns com os

 deles .
 Por isso , num romance publicado na Califrnia encontrei h dias uma

 personagem de nome Tony Caravahlo .

 A famosa filsofa americana Martha Nussbaum , que agora comea a ser citada em

 Portugal e j foi minha colega na Brown , dedica um dos seus livros a uma tia

  De Quintal  .
 Alis , h justamente o problema do  de  .
  Depina   obviamente

 proveniente de  de Pina  .
 Mas quem vai adivinhar que  Desa  foi pura e

 simplesmente  de S  , alterado no tempo em que os americanos no queriam sager

 de acentos ?

 No posso jurar que um tal Joo Cmara tenha americanizado o nome para John

 City Hall , porque essa cheira a humor ( A sou tambm culpado por j ter posto a

 circular derivaes fictcias em estrias vrias ) .
 Os que acima vo , porm , so

 casos fidedignos e devidamente documentados .
 A listagem vai assim a seco ,

 porque os exemplos mais curiosos j os contei em crnicas e no vou

 repetir-me ( Algum se lembra do sobrenome do poeta Art Cuelho , por exemplo ?
 ) .
 s

 vezes nem traduo havia , como no caso de um tal Bruce Adams que , depois de

 palrao minha numa biblioteca me veio dizer que , para no ser identificado na

 escola como portugus , o pai lhe americanizara o nome por inteiro , pouco tempo

 depois de virem para os EUA .
 Nunca chegou a saber como se chamava na outra

 banda do mar .

 O meu colega James Van Cleve , filsofo repeitabilssimo , jurou-me que no

 Midwest , onde portugus  mesmo avis rara , na escola haviam ensinado que John

 Philip Sousa , o das marchas militares ( ou desportivas , em Portugal ) , tinha

 aquele estranho apelido , completamente desconhecido na regio , porque chegou a

 este pas sem famlia e sem to pouco saber o seu ltimo nome .
 Quando comeou a

 compor as patriticas marchas , passaram ento a chamar-lhe S.O.U.S.A ,

 abreviatura de  Son of USA  , que acabou ficando apelido .
 Verdadeiro no  ,

 sabemos ns .
 Bene trovato sim .

 Terminarei com a histria do frustrado imigrante de apelido Pires , que ouvia os

 americanos pronunciarem-no como Paires .
 Passou ento a escrever Paires , mas

 eles liam Peres .
 Achou que assim seria mais portugus e passou agravar Peres .

 A os americanos liam Pires .
 Deixou pois ficar Peres para poder finalmente

 ouvir o seu doce , original Pires .
 Em Portugal no fomos menos criativos .
 Nos

 Aores , o flamengo von de Hurtere deu Horta e Dutra .
 Van der Hagen , deu - no

 me perguntem porqu - Silveira .
 O meu amigo Eduino de Jesus , que sabe destas

 coisas , ouviu que se trata de uma traduo .
 E o que menos falta em portugus

 so as estropiaes de nomes de origem estrangeira .
 A propsito de criativo ,

 sabem daquele luso-americano num party em Hollywood ?
 Chega o James Bond , que

 cumprimenta um por um todos os presentes , no seu habitual estilo : - Bond , James

 Bond ...
 Chegada a vez do nosso luso , a reaco foi pronta : - Well , Manuel .

 In Jornal de letras , Maio / Junho de 2004

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