

 Portugus e Esperanto-Ingls : Carlos Vogt

 Novas prticas melhoram ensino da lngua escrita

 A Histria do Portugus Brasileiro

 Lei probe uso de estrangeirismos

 A lngua na TV

 Lnguas so assunto de Estado

 Os emprstimos no lxico do futebol

 A origem e o destino das lnguas

 A globalizao da lngua :

 Aldo Rebelo

 A polmica sobre os " estrangeirismos " e o papel dos ligistas :

 Kanavillil Rajagopalan

 Lnguas Crioulas :

 Hildo Honrio do Couto

 Norma e prescrio lingstica :

 Maria Helena de Moura Neves

 A originalidade das lnguas indgenas no Brasil :

 Aryon D. Rodrigues

 Os estudos sobre linguagem : uma histria das idias :

 Eduardo Guimares

 A lingstica no Brasil :

 Paulino Vandresen

 Inteligncia , linguagem e mente humana :

 Ulisses Capozoli

 Desenvolvimento da linguagem e processo de subjetivao :

 Cludia Lemos

 Atlas Lingstico do Brasil :

 Suzana Cardoso e Jacyra Mota

 Poema

 Bibliografia

 Crditos

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 A histria do portugus brasileiro

 Todos os brasileiros sabem que o portugus  a lngua majoritria e oficial do

 Brasil , e muitos sabem que ele  derivado do latim .
 Mas a maioria desconhece a

 histria do idioma no pas e da sua relao com as diversas outras lnguas que

 aqui se falavam antes da chegada de Pedro lvares Cabral e com as que vieram

 durante e depois da colonizao .

 Segundo o lingista Aryon Rodrigues , do Laboratrio de Lnguas Indgenas da

 Universidade de Braslia , quando o Brasil foi descoberto pelos portugueses ,

 havia mais de 1.000 lnguas no pas , faladas por ndios de diversas etnias

 ( veja artigo nesta edio ) .
 As numerosas etnias da famlia J haviam migrado

 para o interior , e s conheceriam o contato com os colonizadores no final do

 sculo XVII .
 Outras , como a dos Aruak e dos Karib , permaneceriam isoladas por

 ainda mais tempo , especialmente as amaznicas .

 A colonizao portuguesa comeou gradativamente pelo litoral , a partir de 1532 ,

 com a instituio das capitanias hereditrias .
 Nesse perodo , diversas

 comunidades da famlia Tupi e Guarani habitavam o litoral brasileiro entre a

 Bahia e o Rio de Janeiro .
 Havia entre elas uma grande proximidade cultural e

 lingustica .
 Para estabelecer uma comunicao com os nativos , os portugueses

 foram aprendendo os dialetos e idiomas indgenas .
 A partir do tupinamb , falado

 pelos grupos mais abertos ao contato com os colonizadores , criou-se uma lngua

 geral comum a ndios e no-ndios .
 Ela foi estudada e documentada pelos

 jesutas para a catequizao dos povos indgenas .
 Em 1595 , o padre Jos de

 Anchieta a registrou em sua Arte de gramtica da lngua mais usada na costa do

 Brasil .
 Essa lngua geral derivada do tupinamb foi a primeira influncia

 recebida pelo idioma dos portugueses no Brasil .

 Outro contato que influenciou a lngua portuguesa na Amrica foi com as lnguas

 dos negros africanos trazidos como escravos para o pas .
 O trfico de escravos

 comeou com a introduo do cultivo da cana-de-acar na capitania de So

 Vicente ( que corresponde a parte do atual estado de So Paulo ) , no Recncavo

 Baiano e em Pernambuco , no comeo da colonizao .
 Ele se intensificou no sculo

 XVII , espalhando-se por todas as regies ocupadas pelos portugueses .
 Os

 escravos acabaram aprendendo o portugus , para se comunicar com os seus

 senhores .
 O lingista Mattoso Camara Jr. , em Histria e Estrutura da Lngua

 Portuguesa , afirma que , no Brasil , os escravos chegaram a desenvolver um

 portugus crioulo , tal como ocorreu nas colnias africanas ( Veja artigo de

 Hildo Honrio do Couto , sobre crioulizao do portugus ) .

 Camara Jr. diz ainda que os africanos tambm se adaptaram  lngua geral de

 origem indgena , que continuava a ser a mais falada entre os colonos .
 " Um texto

 do padre Antonio Vieira , de 1694 , diz que a lngua que as famlias portuguesas

 falavam em So Paulo era a dos ndios " , afirma o pesquisador Jaqueson da Silva ,

 aluno de ps-graduao em Teoria Literria na Unicamp .
 " E os filhos dessas

 famlias aprendiam o portugus na escola " , completa .

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 O Marqus de Pombal instituiu o portugus como a lngua oficial do Brasil .

 Aps mais de dois sculos de condio minoritria do uso do portugus no Brasil

 em relao  lngua dos nativos , sua predominncia no pas comea a se dar a

 partir da segunda metade do sculo XVIII .
 Com a explorao do interior pelos

 bandeirantes , iniciada no fim do sculo XVII , e a descoberta das minas de ouro

 e diamante , aumenta o nmero de imigrantes portugueses que chega ao Brasil para

 ocupar os novos centros econmicos .
 O crescente nmero de falantes do portugus

 comea a tornar o bilingismo das famlias portuguesas no pas cada vez menor .

 Em 17 de agosto de 1758 , a lngua portuguesa se torna idioma oficial do Brasil ,

 atravs de um decreto do Marqus de Pombal , que tambm probe o uso da lngua

 geral .
 No ano seguinte , os jesutas , que haviam catequisado os ndios e

 produzido literatura em lngua indgena , foram expulsos do pas por Pombal .

 A essa altura , o portugus j havia tido a evoluo natural que sofre toda

 lngua no decorrer do tempo .
 As mudanas , porm , se deram de maneira distinta

 em Portugal e no Brasil .
 Paul Teyssier , em Histoire de la langue portugugaise ,

 conta que no final do sculo XVIII , o brasileiro j aparece no teatro portugus

 como um personagem com peculiaridades em sua fala .
 Um exemplo que ele apresenta

  generalizao do uso da forma de tratamento que at hoje se mantm no Brasil ,

 mas que em Portugal era empregada apenas familiarmente : o " voc " , reduo de

 " voismic " , que por sua vez deriva de " vossa merc " .
 Alm disso , quando Pombal

 decretou a obrigatoriedade do uso do portugus no Brasil , os falantes

 brasileiros j haviam incorporado diversas palavras de origem indgena e

 africana em seu vocabulrio .

 Muitos nomes de plantas , frutas e animais brasileiros tm origem no tupinamb .

 Alguns exemplos so abacaxi , araticum , buriti , caatinga , caju , capim , capivara ,

 carnaba , cip , cupim , curi , ip , imbuia , jaboticaba , jacarand , mandacaru ,

 mandioca , maracuj , piranha , quati , sucuri e tatu .
 A toponmia , cincia que

 estuda a origem dos nomes de lugares , tambm revela um grande nmero de

 palavras indgenas na fala do brasileiro : Aracaju , Ava , Caraguatatuba ,

 Guanabara , Guapor , Jabaquara , Jacarpagu , Jundia , Parati , Piracicaba ,

 Tijuca , etc .
 A influncia indgena tambm acabou propiciando a criao de

 expresses idiomticas , como " andar na pindaba " e " estar de tocaia " , que so

 marcas lingusticas de uma cultura especfica .

 Os africanos do grupo banto e ioruba deixaram um legado prprio na cultura do

 nosso pas .
 A culinria afro-brasileira tem o abar , o acaraj e o vatap ; e o

 candombl tem orix , ex , oxossi , ians .
 O quimbundo , lngua falada em Angola ,

 emprestou ao portugus do Brasil palavras do vocabulrio familiar , como caula ,

 cafun , molambo e moleque .
 Termos que expressavam o modo de vida e as danas

 dos escravos , como senzala , maxixe e samba , tambm se incorporaram ao nosso

 lxico .

 Certas comunidades africanas no Brasil , alm de falarem o portugus ,

 preservaram a sua lngua de origem , que se mantm viva no pas at os dias de

 hoje .
  o caso dos habitantes do Cafund , um bairro rural do municpio de Salto

 de Pirapora , no estado de So Paulo. ( Veja artigo sobre o assunto )

 Alguns estudiosos afirmam que as influncias no se restringiram apenas ao

 vocabulrio .
 Jacques Raimundo , em O Elemento Afro-Negro na Lngua Portuguesa ,

 aponta algumas mudanas fonticas , iniciadas na fala dos escravos , que ainda se

 mantm em algumas variedades do portugus do Brasil : as vogais mdias

 pretnicas " e " e " o " passam a ser pronunciadas como vogais altas ,

 respectivamente " i " e " u " ( mininu , nutia ) ; as vogais tnicas de palavras

 oxtonas terminadas em " s " , mesmo as grafadas com " z " , se tornam ditongos

 ( atrais , mis , vis ) ; a marca de terceira pessoa do plural , nos verbos do

 pretrito perfeito , se reduz a " o " ( fizero , caro , tocaro ) .

 Em 1822 , Jernimo Soares Barbosa registrava em sua Grammatica Philosophica , uma

 peculiaridade sinttica , originada na fala dos escravos , que at hoje 

 apontada como uma das distines entre o portugus falado em Portugal e o que

 se fala no Brasil : a colocao de pronomes tonos antes dos verbos ( mi deu , ti

 fal ) .

 Aps a independncia do Brasil , o trfico de escravos diminui , at cessar por

 volta de 1850 .
 Muitos ndios se miscigenaram e novos imigrantes europeus , como

 alemes e italianos , chegaram ao pas .
 O novo contato do portugus brasileiro

 com outras lnguas foi um dos fatores que gerou as diversas variedades

 regionais existentes hoje no Brasil .

 Na segunda metade do sculo XIX , os autores do Romantismo tentam retratar em

 sua obra uma brasilidade que distingua a ex-colnia de Portugal .
 Alm de

 exaltar a figura do ndio , autores como Jos de Alencar trazem para a

 literatura a linguagem prpria do brasileiro .
 O movimento modernista , no comeo

 do sculo XX , retoma a idia romntica de resgate das origens e construo de

 uma identidade prpria , com projetos como a Gramatiquinha da Fala Brasileira ,

 pensada por Mrio de Andrade .

 A discusso sobre as distines entre a fala de Portugal e a do Brasil se

 mantm at hoje .
 A nossa estrutura gramatical continua bem prxima do portugus

 europeu .
 O brasileiro incorporou emprstimos de termos no s das lnguas

 indgenas e africanas , mas do francs , do espanhol , do italiano , do ingls .
 Mas

 a maior parte do nosso vocabulrio  idntica a do portugus europeu .
 As

 diferenas fonticas so notveis .
 E algumas distines semnticas tambm se

 verificam em palavras como " estao " e " trem " , que em Portugal so " gare " e

 " comboio " .
 Para o lingista brasileiro Mrio Perini , professor convidado da

 Universidade do Mississipi , nos EUA , as mudanas na lngua so naturais , e pode

 at ser que um dia a fala do brasileiro chegue a ser considerada um idioma

 distinto do portugus europeu ( Veja entrevista nesta edio ) .
 "  o que

 fatalmente acontece quando duas comunidades lingusticas se separam

 geograficamente " , afirma Perini .

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 Atualizado em 10/08/2001

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  2001

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