

 Portugus e Esperanto-Ingls : Carlos Vogt

 Novas prticas melhoram ensino da lngua escrita

 A Histria do Portugus Brasileiro

 Lei probe uso de estrangeirismos

 A lngua na TV

 Lnguas so assunto de Estado

 Os emprstimos no lxico do futebol

 A origem e o destino das lnguas

 A globalizao da lngua :

 Aldo Rebelo

 A polmica sobre os " estrangeirismos " e o papel dos ligistas :

 Kanavillil Rajagopalan

 Lnguas Crioulas :

 Hildo Honrio do Couto

 Norma e prescrio lingstica :

 Maria Helena de Moura Neves

 A originalidade das lnguas indgenas no Brasil :

 Aryon D. Rodrigues

 Os estudos sobre linguagem : uma histria das idias :

 Eduardo Guimares

 A lingstica no Brasil :

 Paulino Vandresen

 Inteligncia , linguagem e mente humana :

 Ulisses Capozoli

 Desenvolvimento da linguagem e processo de subjetivao :

 Cludia Lemos

 Atlas Lingstico do Brasil :

 Suzana Cardoso e Jacyra Mota

 Jornalismo e questes de linguagem :

 Graziela Kronka

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 Lnguas Crioulas

 Hildo Honrio do Couto

 A melhor maneira de se entender o que vm a ser lnguas crioulas  reproduzindo

 o processo de sua formao .
 Observemos o caso das ilhas do arquiplago de Cabo

 Verde , situado entre o nordeste brasileiro e o noroeste africano .
 Os

 portugueses chegaram l por volta de 1456 , encontrando-o desabitado .
 Logo a

 seguir , comearam a levar escravos de diversas etnias e lnguas da ento

 chamada costa da Guin , fazendo dessas ilhas mais tarde um entreposto para

 distribuio de escravos pelo mundo .
 O fato  que a se constituiu uma

 comunidade heterognea , composta , de um lado , de portugueses , e de outro , de

 escravos africanos falantes de mandinga , wolof , fula , manjaco , felupe , bijag e

 muitas outras lnguas .

 Sabemos que quando indivduos esto juntos em um mesmo espao , geralmente

 interagem entre si .
 A interao mais comum  a lingstica .
 No caso , porm , no

 havia uma lngua comum que permitisse essa interao .
 Mas , como sabemos ,

 pessoas que se vem juntas , comunicam-se umas com as outras .
 Se no tm uma

 lngua para isso , inventam-na .

 Como se pode imaginar , a comunicao entre indivduos desses diversos povos

 deve ter sido muito difcil .
 Os colonizadores portugueses ( assim como os

 ingleses , os franceses , os espanhis e os holandeses ) no se davam ao trabalho

 de aprender nenhuma das lnguas dos escravos .
 Tampouco , ensinavam o portugus

 ( ou qualquer outra lngua ) aos falantes dessas lnguas .
 Mas , os escravos tinham

 que se esforar para entender as ordens recebidas dos dominadores , inclusive

 por uma questo de sobrevivncia .
 Com isso , algumas palavras do portugus ,

 adaptadas  pronncia da maioria das lnguas dos escravos , comearam a ser

 compartilhadas ( mim , querer , trazer , no , vem , etc. ) .

 Nessa fase tratava-se de apenas algumas palavras compartilhadas , no havia

 ainda regras para se construrem frases .
 Tratava-se apenas do que em

 crioulstica ( ou estudos crioulos ) se chama de jargo .
 De qualquer forma , j se

 tratava do germe de uma lngua comum entre os diversos povos aloglotas ( de

 lnguas diferentes ) que conviviam em um mesmo espao .
 Como a convivncia deles

 continuou ( at hoje existe a comunidade caboverdiana ) , seria de se esperar que

 surgisse uma lngua comum que permitisse a comunicao entre todos os seus

 membros .

 Quando comeam a surgir regras para construo de frases elementares , o jargo

 inicial evolui para o que se tem chamado de pidgin ( pronuncia-se como se no

 houvesse o " g " ) .
 O pidgin tampouco  uma lngua plena , porm j permite uma

 interao entre os diversos membros da nova comunidade , melhor do que a que se

 conseguia na fase do jargo .
 De qualquer forma , ele no  lngua materna de

 ningum .
 Os mandingas s o usavam quando se dirigiam aos portugueses ou a

 falantes de outras lnguas africanas .
 Quando voltavam a seu grupo , falavam o

 mandinga .
 O mesmo faziam membros das outras etnias / lnguas .
 Enfim , ningum tem

 amor pelo pidgin .
 Assim que pode , livra-se dele .

 No caso de Cabo Verde , infeliz ou felizmente , a convivncia continuou .
 Comeou

 a se cristalizar uma comunidade .
 E comunidade consta necessariamente de um

 grupo de indivduos ou populao ( P ) que convive em determinado territrio ( T ) ,

 unificado por uma lngua ( L ) .
 A cristalizao de uma comunidade , leva

 necessariamente  emergncia de uma lngua plena , fato que constitui o que

 chamo de Ecologia Fundamental da Lngua , ou seja , PTL .

 E a temos o momento crucial para a emergncia de um crioulo .
 Na verdade , ele 

 um pidgin que passou a ser a lngua principal de uma comunidade .
 Se o pidgin s

 servia para uma comunicao precria , o crioulo serve para todas as

 necessidades expressivas e comunicacionais de seus usurios .

 Dadas as circunstncias em que surge , o crioulo geralmente  mais " simples "

 ( esse termo no  politicamente correto hoje , melhor seria dizer " mais

 no-marcado " ) do que a lngua dominante , tambm chamada de lngua lexificadora ,

 ou de superstrato .
 As lnguas dominadas geralmente so chamadas de lnguas de

 substrato .
 O fato  que praticamente todo crioulo convive com a lngua

 lexificadora , assim chamada por ser a que fornece a maior parte do lxico

 ( freqentemente acima de 90 % ) .
 Por isso , todas as sociedades crioulas so um

 continuum de variedades lingsticas que vo desde a variedade basiletal ( ou

 basileto ) , que  a mais " pura " , menos influenciada pela lngua lexificadora ,

 at uma variedade acroletal ( ou acroleto ) , que  a mais prxima da lngua

 lexificadora ou dominante .
 Entre as duas variedades , h uma srie de variedades

 mesoletais ( ou mesoletos ) .

 Dadas as circunstncias em que foram formadas , as lnguas crioulas geralmente

 tm estruturas gramaticais menos marcadas , " mais simples " do que a lngua

 superstrato e as lnguas de substrato .
 Em primeiro lugar , no h nenhuma ou

 muito pouca morfologia flexional .
 At mesmo a morfologia derivacioinal  menos

 prdiga do que a daquelas lnguas .
 Por exemplo , o verbo normalmente no se

 flexiona em nmero-pessoa nem em tempo-modo , como em portugus .
 Vejamos alguns

 exemplos do crioulo portugus da Guin-Bissau , tirados de Couto ( 1994 , p. 108 ) :

 ( 1 ) i fuma ' ele fuma '

 ( 2 ) i fuma ba ' ele fumara , tinha fumado '

 ( 3 ) i ba fuma ' ele vai / foi / ia fumar '

 ( 4 ) i ta fuma ' ele fuma ' ( no sentido de tem o hbito de fumar )

 ( 5 ) i na fuma ' ele est fumando neste exato momento ' .

 O equivalente  conjugao verbal desse verbo em portugus seria assim :

 ( 6 )

 ( ami ) N fuma ' ( eu ) eu fumei '

 ( abo ) bu fuma ' ( tu ) tu fumaste '

 ( el ) i fuma ' ( ele ) ele fumou '

 ( an ) n fuma ' ( ns ) ns fumamos '

 ( ab ) b fuma ' ( vs ) vs fumastes '

 ( elis ) e fuma ' ( eles ) eles fumaram '

 A forma pronominal entre parnteses  tnica e facultativa .
 S  usada para se

 dar nfase , como faz o francs ( moi , je vai au cinema ' quanto a mim , eu vou ao

 cinema ) .
 A outra forma  tona e obrigatria , pois  ela que indica nossas

 categorias de nmero-pessoa .

 Como se viu , o radical verbal " fuma " no sofre nenhuma flexo .
 As idias de

 tempo , modo e aspecto so indicadas pelas partculas que o acompanham , e

 geralmente vm antes dele .
 A ordem das palavras geralmente  fixa , como no

 exemplo ( 7 ) , mesmo quando sujeito e / ou objeto se pronominaliza ( m ) ( 8-9 ) .

 ( 7 ) mininu kume kaju ' o menino comeu o caju '

 ( 8 ) el kume kaju ' ele comeu o caju '

 ( 9 ) el kumel ' ele comeu-o '

 Enfim , as lnguas crioulas so interessantes no por serem " exticas " ou

 " anormais " , uma vez que so lnguas naturais como as demais , mas devido ao

 processo de sua formao ( surgirem do contato de lnguas ) e por terem a maior

 parte de suas caractersticas gramaticais no-marcadas .
  bem verdade que uma

 ou outra caracterstica no marcada ocorre em todas as lnguas no-crioulas .
 O

 que diferencia ambas  o fato de nas lnguas crioulas esses traos ocorrerem de

 forma concentrada .
 Poderamos mesmo dizer que as comunidades falantes de

 lnguas crioulas so verdadeiros laboratrios lingsticos , nos quais as

 caractersticas mais importantes das lnguas naturais podem ser examinadas

 quase como in vitro .

 Para maiores informaes sobre as lnguas crioulas , pode-se consultar as obras

 mencionadas na bibliografia e nos diversos sites dedicados ao assunto .

 Hildo Honrio do Couto  lingista e professor da Universidade de Braslia

 ( UnB ) .

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 Atualizado em 10/08/2001

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  2001

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