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 Lngua Portuguesa .
 Mas que lngua  essa ?

 Volnyr Santos

 " Aprender uma lngua  aprender como se pensa nessa lngua. "

 Roland Barthes

 A grande contribuio para os estudos lingsticos vem de Ferdinand de

 Saussure : ao opor as idias de lngua e fala , ele afirma que a lngua s existe

 socialmente .
 Como realidade de carter social , ela pertence a cada um e  comum

 a todos .
 Ocorre que a lngua , como sistema posto  disposio da comunidade , 

 exterior aos indivduos , no podendo , por isso , ser modificada .
 O falante , na

 realidade , para exprimir seu pensamento pessoal , escolhe , nesse sistema , meios

 de expresso com os quais se comunica .

 A esse ato individual de escolha , Saussure d o nome de fala .

 Disso decorre que , se a lngua s existe na comunidade , numa soma de matrizes

 depositadas no crebro de cada falante , isso significa dizer que , usada

 individualmente , a expresso a nascida implica um ato individual de vontade e

 inteligncia .
 A razo disso  simples : todo ato concreto de comunicao

 lingstica tem como conseqncia um ato concreto de fala .
 Acrescente-se ainda ,

 que , embora o seu carter social , a lngua no  uniforme : a fala encarrega-se

 de baralhar a unidade lingstica , particularizando-a .

 Uma ltima ( mas no definitiva ) observao : a lngua apresenta-se sob duas

 formas distintas : a lngua escrita e lngua falada .

 Como essas duas formas de comunicao convergem para a idia de lngua comum , o

 resultado  a ingnua noo de que h uma s lngua corrente .

 Tomando como referente as informaes brevemente arroladas ( e talvez melhor

 explicitadas nos vrios manuais que tratam da questo ) , importa falar do idioma

 portugus em face de duas noes significativas : a forma que representa o

 padro e os desvios lingsticos que se do no interior dessa lngua .
 Para

 tanto ,  preciso lembrar , antes de tudo , que a estandartizao da linguagem ( se

 isso  possvel )  dependente do grau de desenvolvimento da sociedade .
 No se

 pode , em s conscincia , exigir de indivduos ou de grupos sociais mais do que

 aquilo que o Estado oferece .
 Tambm  verdade que as deformaes ocorridas com

 a linguagem decorrem da depresso generalizada do sistema educacional e

 cultural prprio de uma nao que se compraz em ignorar a educao formal .
 E

 no s : uma sociedade que entende ser a educao uma competncia exclusiva da

 escola , finge ignorar que a educao comea muito antes ; ao mesmo tempo , simula

 esquecer que o ensino formal  apenas parcela de um processo que comea no lar

 e no acaba nunca .
 Desse modo , cinicamente , a sociedade exime-se da sua

 obrigao .

 Nesse estado de coisas , no  difcil constatar , tambm , que os analfabetos ou

 aqueles que apenas desenham o nome , os no aculturados e mesmo os alfabetizados

 aculturados , como indivduos , como seres humanos , encontraro na linguagem

 usual , na linguagem falada , a forma mais adequada para a expresso de seus

 sentimentos , suas necessidades e seus valores .

 Dentro desse quadro , pode-se acrescentar que as variedades lingsticas de

 qualquer natureza , numa seqncia que compreende a linguagem tcnica , a gria ,

 o calo ou a mera linguagem descuidada , so extremamente importantes no

 processo de revigoramento e na modernizao da prpria lngua .

 Hoje , um dos aspectos mais perturbadores , lingisticamente falando , talvez seja

 aquele representado pelos estrangeirismos , isto  , aquelas palavras de outras

 lnguas , localizadamente da lngua inglesa , que convivem com o idioma portugus

 numa relao que se mostra absolutamente extica .
 Explique-se .

 Sabemos que toda lngua tem uma essncia dinmica .
 Sem ser um sistema

 cristalizado , ela est permanentemente se modificando , num processo contnuo de

 reelaborao .
 Ora , como a lngua portuguesa carrega uma cultura dependente sob

 o ponto de vista econmico e tecnolgico ,  natural que sofra o assdio de

 outras formas de expresso portadoras de realidades scio-tecno-culturais

 superiores .
 A prpria histria do idioma portugus ( e no s !
 ) mostra que as

 influncias de outras lnguas  uma circunstncia natural. ( Lembremo-nos do

 esforo do francs contra a invaso da lngua inglesa , provocando reaes que

 beiram o irracionalismo ) .

 No caso especfico da lngua portuguesa , o que se nota  a ocorrncia

 disseminada de termos ou expresses do idioma ingls ( principalmente ) , usados

 no s sem nenhum critrio ( !
 ) , mas ( eis o dado alarme !
 ) , ignorando ou

 desprezando os termos correspondentes do vernculo portugus .

 Ora , se falar a lngua ( no caso , portuguesa ) significa desenvolver atos

 variados que implicam a sua apropriao , j que  nela que se ordena e organiza

 a realidade - seja pela atuao sobre os outros , seja pela assuno de pontos

 de referncia de carter scio-cultural - ento  preciso repensar a questo

 que envolve essa lngua , hoje , sob a perspectiva da escrita .

 No podem ser negadas as dimenses pragmticas da linguagem ; tampouco se

 pretende investir contra o uso de estrangeirismos e mesmo  pluralidade dos

 discursos .
 O desejvel  , simplesmente , a adoo de princpios capazes , no de

 evitar o assdio de outros idiomas , mas de atualizar essa lngua paralela da

 qual , arbitrariamente , se utilizam os meios de comunicao ( h jornais

 brasileiros que desconhecem a realidade ortogrfica do pas , suprimindo ,

 inclusive , sinais diacrticos como o trema em palavras tipo conseqncia ,

 agentar , etc. ) , grafando os termos estrangeiros como se vernculos fossem :

 shopping , marketing , talk-show , training , travelling , e quejandos .
 O desejvel

 no  a supresso desses termos , mas a conscientizao das pessoas responsveis

 para um aspecto fundamental da lngua :  atravs dela que nos desenvolvemos

 culturalmente ;  atravs dela que exercitamos a nossa capacidade crtica ; 

 atravs dela que assumimos como transformadores da vida individual e coletiva .

 Um fato : a lngua serve no s como instrumento de libertao , mas tambm de

 domnio .
 Vivemos numa poca em que as linguagens exercem uma forma de controle

 sutil ; vivemos , em suma , manipulados por linguagens .
 Abdicar , portanto , da

 prpria lngua  neutralizar-se .
 Ficar atento ao prprio discurso e , ao mesmo

 tempo , postar-se criticamente em relao ao discurso do outro , parece ser o

 nico modo em que , paralelamente ,  possvel construir a prpria linguagem e ,

 mais esclarecidamente , receber a linguagem alheia , consciente de que  por esse

 caminho que se constri e ordena o mundo .

 Sobre autor :

 Volnyr Santos  Doutor em Letras e Professor de Lngua Portuguesa e Literatura

 de Lngua Portuguesa na PUCRS .
 Como poeta , tem publicado De amor inventado .

