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 O MARQUS DE POMBAL

 E A IMPLANTAO DA LNGUA PORTUGUESA NO BRASIL

 REFLEXES SOBRE A PROPOSTA DO DIRETRIO DE 1757

 Lygia Maria Gonalves Trouche

 ( UFF )

 Mas , o que h , enfim , de to perigoso no fato de as pessoas falarem

 e de seus discursos proliferarem indefinidamente ?
 Onde , afinal ,

 est o perigo ?

 Nosso propsito , neste texto ,  o de apresentar um panorama da

 poltica lingstica conduzida por Portugal para o Brasil colonial ,

 culminando com a promulgao , em 1757 , da lei Diretrio que se deve

 observar nas povoaes dos ndios do Par e Maranho .
 Trata-se de

 documento jurdico com a finalidade de regulamentar as aes

 colonizadoras em terras brasileiras .

 A atitude de Portugal em relao  questo lingstica no Brasil

 colonial reflete uma preocupao com a estreita ligao entre lngua e

 domnio imperial , entre lngua e espao portugus , entendido este

 ltimo como uma identidade cuja coeso interna o defenderia contra a

 corrupo externa .

 No estudo da proposta lingstica do Diretrio , trabalharemos com

 alguns conceitos , tais como ideologia , sujeito , histria ,

 interpretao , memria .

 Assim , nossa anlise da proposta lingstica do Diretrio em relao

 ao Brasil colnia busca compreender e evidenciar como os sentidos

 foram produzidos .
 Partimos do pressuposto de que sujeito e sentido se

 constituem mutuamente .
 O lugar de onde se fala constitui o dizer , logo

 as diretrizes da poltica lingstica contidas no Diretrio esto

 baseadas nas concepes do sculo XVIII de civilizao , barbrie e

 religio .

 Logo de incio , registramos o silncio simblico de nossos mais

 ilustres pesquisadores em relao a este documento , nas diferentes

 obras em que tratam da Histria da Lngua Portuguesa no Brasil .
 Este

 silncio cria , alm de um constrangimento perturbador , um inequvoco

 mal-estar com sua constatao .
 Seria uma espcie de " trauma " no

 sentido freudiano ou de filiao ideolgica de nossa academia ?
 Ser

 possvel ignorar a histria ?
 Fazemos exceo a trabalhos do professor

 Celso Ferreira da Cunha que , em Lngua , Nao , Alienao transcreve em

 notas ( pgina 92 ) os pargrafos do Diretrio referentes 

 obrigatoriedade do uso do portugus , e discute o assunto em pequeno

 captulo intitulado ` O Diretrio e a Reforma Pombalina ' de seu livro A

 Questo da Norma Culta .

 Tambm menciono outro importantssimo trabalho de natureza ecdtica -

 Lngua e inquisio no Brasil de Pombal - do professor Dr. Jos

 Pereira da Silva que fixou documento de extrema importncia para a

 histria da lngua portuguesa e para a histria poltica e religiosa

 da Amaznia .
 Trata-se das Questes Apologticas , texto em que o padre

 Manuel da Penha do Rosrio se defende perante o tribunal da inquisio

 por evangelizar os ndios em sua lngua vulgar e no na portuguesa ,

 conforme ordem da Coroa .
 A defesa do padre  uma prova inconteste do

 predomnio da lngua dita geral e do desconhecimento da lngua

 portuguesa pelas populaes indgenas .

 Outro estudo importante  uma tese de doutoramento na rea da

 antropologia , publicada em 1997 , pela editora da UNB , de Rita Helosa

 de Almeida , intitulada : O Diretrio dos ndios : um projeto de

 civilizao no Brasil do sculo XVIII. Trata-se da leitura e

 interpretao da lei colonial em toda a sua abrangncia , situada no

 contexto da tradio de conquista dos povos europeus e , em particular

 de Portugal .

 Lembro , tambm , os trabalhos contemporneos do grupo de anlise do

 discurso da UNICAMP , que tem desenvolvido o projeto denominado

 Histria das idias lingsticas : construo de um saber

 metalingstico e a constituio da lngua nacional .

 A partir deste pequeno quadro de informaes , pudemos situar a

 influncia e o interesse que a discusso tem tomado no campo do saber

 das Letras atualmente no Brasil .

 Parece-nos fundamental a incurso em nossa histria no s para

 entendermos a situao lingstica no Brasil do sculo XVIII , bem como

 para contrastarmos esse perodo com o sculo XIX , cujos impasses e

 problemas sero bastante diversos .
 Enfim , estaremos procurando

 filiaes de sentido e possveis relaes entre os movimentos de

 imposio da lngua portuguesa e os movimentos de insurreio nativa ,

 j aps a independncia brasileira , enunciados no confronto com

 Portugal sobre a representao da lngua do Brasil .

 Podemos partir de uma concluso bvia , no entanto , fundamental : se

 houve a necessidade de uma legislao sobre as formas de implantao

 da lngua portuguesa ,  porque esta no era a lngua corrente no

 Brasil .

 A preocupao de Portugal com a questo lingstica e cultural no

 Brasil colnia no est desvinculada de uma ideologia marcante na

 poca , e segundo Rita Heloisa de Almeida^2 :

 ^

  a partir das misses , principalmente na gesto do Diretrio , que

 se verifica o surgimento de um conceito de civilizao cada vez

 mais associado a uma ao a realizar-se em espaos planejados .

 Nestes , os ndios so instrudos na religio crist , aprendem

 ofcios , integram atividades econmicas e estabelecem formas de

 convvio por meio do comrcio , do trabalho e do casamento com os

 brancos .
 Nestes espaos , chamados , conforme a cada poca , ` misso ' ,

 ` povoao ' , ` aldeamento ' , ou ` posto indgena ' , transcorre uma mesma

 ao que coetaneamente seria compreendida como sendo uma obra

 religiosa , uma empresa colonial , um servio assistencial .

 A imposio da lngua portuguesa foi uma questo fundamental para

 Portugal , no sentido da preservao da colnia , contudo , a

 concorrncia do portugus com a lngua geral ainda perdurou at a

 segunda metade do sculo XVIII , quando o discurso das autoridades

 portuguesas se centrou numa poltica de difuso e obrigatoriedade do

 ensino da lngua portuguesa .

 Nas dcadas iniciais do sculo XVI , predominavam as vozes indgenas

 com a indianizao do colonizador e a ameaa constante de outras

 lnguas europias trazidas , notadamente , por franceses , espanhis e

 holandeses .
 Como se sabe , a grande luta travada pelos colonizadores

 portugueses , nos primeiros tempos da colonizao do Brasil , no foi

 contra os indgenas , mas contra europeus em suas constantes incurses

  nova terra americana .

 A lngua geral era hegemnica , sendo usada por todas as camadas

 sociais , passando do domnio privado para o pblico e , apenas a ,

 encontrando alguma resistncia da lngua portuguesa .
 No espao

 domstico , as ndias , unindo-se a portugueses e mamelucos , transmitiam

 por sucessivas geraes no s a lngua , mas os costumes , enfim , uma

 cultura .
 Como exemplos , relata-nos Srgio Buarque de Holanda sobre

 alguns depoimentos da poca :

 Um deles  o inventrio de Brs Esteves Leme , publicado pelo

 Arquivo do Estado de So Paulo .
 Ao fazer-se o referido inventrio ,

 o juiz de rfos precisou dar juramento a lvaro Neto , prtico na

 lngua da terra , a fim de poder compreender as declaraes de Luzia

 Esteves , filha do defunto , ` por no saber falar bem a lngua

 portuguesa ' .

 Fator importante de reforo da lngua geral no espao domstico era a

 escravido indgena .
 O portugus estava restrito aos documentos

 oficiais que , contudo , deveriam ser comunicados  populao em lngua

 geral , para que pudessem ser entendidos .
 No por outro motivo sabemos

 que foram freqentes os pedidos das autoridades portuguesas para que

 se enviassem  capitania vigrios versados na lngua dos ndios .

 Tal situao levou a Coroa portuguesa , atravs de seu ministro ,

 Marqus de Pombal a tomar uma atitude vigorosa no sentido de implantar

 a lngua portuguesa definitivamente em terras brasileiras .

 Segundo a antroploga Ruth Helosa de Almeida5 , " o Diretrio exprime

 uma viso de mundo , prope uma transformao social ,  o instrumento

 legal que dirige a execuo de um projeto de civilizao dos ndios

 articulado ao da colonizao. "

 O Diretrio dos ndios vigorou entre 1757 e 1798 com a finalidade de

 instruir o comportamento do colonizador no que se refere s populaes

 indgenas ,  definio da fronteira norte do Brasil e seu povoamento .

 Atravs das diretrizes propostas pelo Diretrio , Portugal buscou a

 construo de uma nova ordem social com a incorporao dos ndios 

 colonizao .

 Uma tnica do processo de colonizao foi a idia de civilizar os

 ndios .
 Aqui esto inter-relacionados conceitos de civilizao e

 colonizao .
 Norbert Elias em O processo civilizador ( 1990 , p .23 )

 define civilizao como " um conceito que expressa a conscincia que o

 Ocidente tem de si mesmo. " E Rita Heloisa de Almeida em O diretrio

 dos ndios ( 1997 , p .24 ) entende civilizao " como uma ao deliberada

 sobre os ndios do Brasil , no sentido de sua converso aos valores e

 comportamentos dos colonizadores portugueses. " Evidentemente que o

 Diretrio est inserido numa lgica ou ideologia dominante no sculo

 XVIII , partilhada por franceses , espanhis , ingleses em seu carter de

 povos conquistadores de terras fora da Europa - colnias americanas e

 africanas .
 Sobre a base em que se sustenta o imperialismo , cabe a

 precisa anlise de Edward W. Said6 :

 Nem o imperialismo , nem o colonialismo  um simples ato de

 acumulao e aquisio .
 Ambos so sustentados e talvez impelidos

 por potentes formaes ideolgicas que incluem a noo de que

 certos territrios e povos precisam e imploram pela dominao , bem

 como formas de conhecimento filiadas ` a dominao : o vocabulrio da

 cultura imperial oitocentista clssica est repleto de palavras e

 conceitos como ` raas servis ' ou ` inferiores ' , ' povos

 subordinados ' , ` dependncia ' , ` expanso ' e autoridade .
 E as idias

 sobre a cultura eram explicitadas , reforadas , criticadas ou

 rejeitadas a partir das experincias imperiais .

 No estudo da proposta do Diretrio tomamos o termo ideologia como

 interpretao de sentido em certa direo ; a ideologia no 

 ocultao ,  a naturalizao do que  produzido pelo histrico .7

 Assim , na leitura do Diretrio buscamos a compreenso de como os

 sentidos foram produzidos e reproduzidos .
 Lembramos que , se o lugar de

 onde se fala constitui o dizer , ento o sujeito da enunciao do

 Diretrio se constitui nas concepes filosfico-polticas do sculo

 XVIII .

 O processo de civilizao que a coroa portuguesa deseja implantar

 implica , necessariamente , a idia do ` outro ' ( o no eu ) e o confronto

 indisfarvel entre posies de sujeito , com suas redes de sentidos e

 seus universos semanticamente estabilizados .
 Nossa insero no mundo

 se d pela linguagem , logo , o encontro dessas duas linguagens - a da

 ` barbrie ' e a da ` civilizao ' - haver de produzir graves crises nas

 redes de sentido a que se vinculavam .
 O acontecimento do encontro

 desses dois mundos provocou uma ruptura nas cadeias dos sentidos e a

 decorrente necessidade de ( re ) organizao e ( re ) significao da

 realidade .
 Nesse embate inevitvel , a prevalncia da fora do mundo

 europeu comea a criar uma nova realidade a que o outro - o ndio -

 dever submeter-se , principalmente , pois , ainda segundo Edward Said8

 " essa luta  complexa e interessante porque no se restringe a

 soldados e canhes , abrangendo tambm idias , formas , imagens ,

 representaes. "

 O termo civilizao , atravessado por vrios significados , no documento

 de que nos ocupamos - o Diretrio - implica uma inteno educadora ,

 pois pretende uma transformao do outro .
 Um processo de civilizao

 que implique uma enrgica ao pedaggica com vistas  mudana , s se

 pode definir de forma autoritria , em relaes assimtricas de poder .

 O Diretrio , com 95 pargrafos , dadas as suas caractersticas de uma

 carta de princpios e de aes e , pelas circunstncias histricas ,

 assemelha-se a uma constituio : trata da civilizao dos ndios ; da

 demarcao de fronteiras ; do povoamento ; da produo e do comrcio de

 espcies nativas ; distribuio de terras para o cultivo ; formas de

 tributao ; relaes de trabalho dos ndios com os colonos

 ( moradores ) ; edificao de vilas ; regras de convvio social entre

 brancos e ndios ; casamento e da figura do ` Diretor ' - personagem

 central que vinha substituir o missionrio .

 Do 1 pargrafo ao 16 trata-se da questo da civilizao dos ndios -

 a funo do tutor e o ideal de civilizao que se deseja transmitir

 aos ndios .
 Do pargrafo 17 ao 73 trata-se de assuntos diversos

 relacionados  economia - agricultura , fiscalizao e tributao ,

 comrcio , distribuio e regulamentao da fora de trabalho

 representada pelo ndio .
 Por fim , do 74 ao 95 trata-se da adoo de

 medidas e providncias para a consecuo do ideal de civilizao que

 constitui o discurso em que se insere o Diretrio .

 A anlise da orientao lingstica que , presentemente , nos interessa

 recobre do 6 ao 8 pargrafos inclusive , no entanto , parece

 impossvel deixar de tecer alguns comentrios sobre os pargrafos

 introdutrios .

 Na primeira frase - Diretrio que se deve observar nas povoaes dos

 ndios do Par e do Maranho enquanto sua majestade no mandar o

 contrrio - o uso do verbo ` mandar ' e a referncia  ` sua majestade '

 deixa transparecer uma das verdades ( ou ideologia ) inquestionveis

 naquele momento : a autoridade real , bem como seu correlato que  o da

 obedincia incondicional ao poder que dela emana .

 Segundo o texto , numa espcie de justificativa da nomeao de um

 Diretor a quem caber indicar o Governador e o Capito General do

 Estado , ` o qual deve ser dotado de bons costumes , zelo , prudncia ,

 verdade , cincia da lngua , e de todos os mais requisitos necessrios

 para poder dirigir com acerto os referidos ndios debaixo das ordens ,

 e determinaes seguintes , que inviolavelmente se observaro enquanto

 Sua Majestade o houver assim por bem , e no mandar o contrrio ' .
 A

 materialidade da lngua mal disfara a distncia entre o Governador e

 seus bons costumes para dirigir os ndios ' debaixo ' e

 inviolavelmente ' - a escolha dos advrbios no  imotivada , bem como a

 repetio do sema contido em ` ordens e determinaes ' .
 Depreende-se

 claramente o julgamento da Coroa portuguesa sobre a inaptido dos

 ndios para se autogovernarem , baseado na seguinte justificativa : `

 estes ( os ndios ) pela lastimosa rusticidade , e ignorncia , com que

 at agora foram educados , no tenham a necessria aptido , que se

 requer para o Governo , sem que haja quem os possa dirigir ,

 propondo-lhes no s os meios da civilidade , mas da convenincia , e

 persuadindo-lhes os prprios ditames da racionalidade , de que viviam

 privados " .
 A expresso " at agora " enfatiza a fronteira entre a

 barbrie e a civilizao representada , esta ltima , pela ao

 pedaggica dos futuros Governador e Capito General .
 Observe-se ,

 ainda , a reafirmao da vontade suprema do rei portugus expressa por

 sintagmas de sentido semelhante , mas de efeito intensificador -

 enquanto Sua Majestade o houver assim por bem , e no mandar o

 contrrio ' , como tambm , merecem destaque as qualidades ou

 caractersticas concernentes a ndios e portugueses : ndios

 ( inaptido para se autogovernarem , rusticidade lastimosa , ignorncia ) ;

 portugueses ( bons costumes , zelo , prudncia , verdade , cincia da

 lngua ) .
 Neste trecho , como em tantos outros , nem sequer se cogita de

 que os ndios viviam em sociedade , se autodeterminavam e que possuam

 uma lngua .
 Mas , em compensao , os brancos europeus , ainda que

 desejando manter ` os referidos ndios debaixo das ordens , e

 determinaes seguintes , que inviolavelmente se observaro enquanto

 Sua Majestade o houver assim por bem ' , tudo isto faziam em nome de uma

 misso que , plenamente , justificava-lhes a atitude , ` propondo-lhes

 ( aos ndios ) no s os meios da civilidade , mas da convenincia , e

 persuadindo-lhes os prprios ditames da racionalidade , de que viviam

 privados " .

 O pargrafo 3 do Diretrio constitui um magnfico exemplo do conceito

 de ideologia com que vimos trabalhando - interpretao de sentido em

 certa direo ; ideologia no como ocultao , mas como a naturalizao

 do que  produzido pelo histrico - o colonialismo , da mesma forma

 pela qual o imprio , no sculo XIX , se concebia sem nenhum

 constrangimento , em perfeita consonncia com a circulao das idias e

 da cultura da poca ; a ao concreta da colonizao se apoiava em um

 iderio plenamente justificado e , portanto , s na perspectiva de

 valores de nosso sculo podemos ajuizar a violncia extrema de tais

 aes civilizatrias .
 Mais uma vez , a voz lcida de Said 10 pode

 referendar esta afirmao :

 Havia um comprometimento por causa do lucro , e que ia alm dele , um

 comprometimento na circulao e recirculao constantes , o qual ,

 por um lado , permitia que pessoas decentes

 aceitassem a idia de que territrios distantes e respectivos povos

 deviam ser subjugados e , por outro , revigorava as energias

 metropolitanas , de maneira que essas pessoas decentes pudessem

 pensar no imperium como um dever planejado , quase metafsico de

 governar povos subordinados , inferiores ou menos avanados .

 Um outro aspecto altamente perturbador no pode deixar de ser trazido

  considerao e que se revestiu de grande importncia na consolidao

 e referendum tico para os processos da colonizao - a evangelizao

 dos povos rudes .
 O 4 pargrafo trata desta questo e , de modo

 incisivo conclama os Diretores a agirem exemplarmente : ` para se

 conseguir pois o primeiro fim , qual  o cristianizar os ndios ' .

 No 5pargrafo , o texto legal , ao retomar o propsito geral da

 obrigao dos Diretores , refora um pr-construdo - cuidar da

 civilidade dos ndios - logo , o significado no  dado somente no

 momento da fala , mas em relao a outros significantes j dados ,

 naturalizando a ideologia da funo messinica da colonizao e , por

 incluso , a respeitabilidade e a conduta exemplar que a Coroa espera

 dos Diretores - o bvio mais uma vez reafirmado .
 Como bem nos mostram

 os estudos na rea da anlise do discurso , a ideologia  a-histrica ,

 pois est sempre presente como resultado das relaes de produo

 entre os sujeitos .
 Segundo Eni Orlandi11 .

 A ideologia , por sua vez ,  interpretao de sentido em certa direo ,

 direo determinada pela relao da linguagem com a histria em seus

 mecanismos imaginrios .
 A ideologia no  , pois , ocultao mas funo

 da relao necessria entre a linguagem e o mundo. "

 Sob esta perspectiva , continuamos a ler no texto do Diretrio , todo o

 processo lingstico de dissimulao das formas de assujeitamento do

 outro , para que as evidncias subjetivas apaguem a relao assimtrica

 entre os sujeitos .
 Dessa forma estamos tentando a explicitao do modo

 como o discurso produz sentidos .

 Os pargrafos seguintes referem-se  imposio da lngua portuguesa no

 Brasil e suas justificativas

 Observemos alguns aspectos relevantes dos pargrafos 6 ao 8 :

 Sempre foi mxima inalteravelmente praticada em todas as naes que

 conquistaram novos domnios , introduzir logo nos povos conquistados

 o seu prprio idioma , por ser indispensvel , que este  um meio dos

 mais eficazes para desterrar dos povos rsticos a barbaridade dos

 seus antigos costumes e ter mostrado a experincia que , ao mesmo

 passo que se introduz neles o uso da lngua do Prncipe , que os

 conquistou , se lhes radica tambm o afeto , a venerao e a

 obedincia ao mesmo Prncipe .

 Mais uma vez vem  tona a questo da nobre funo civilizatria , a

 comear pela lngua , como fator de identidade , de afeto , venerao e

 obedincia ao mesmo Prncipe - em uma palavra : aculturao .

 Segue-se um combate veemente ao uso da lngua geral , que , segundo a

 perspectiva do imprio , era uma inveno verdadeiramente abominvel e

 diablica , para que privados os ndios de todos aqueles meios que os

 podiam civilizar , permanecessem na rstica e brbara sujeio , em que

 at agora se conservam .

 Da decorre a necessidade bvia , como um corolrio das afirmaes

 anteriores que ,

 para desterrar este perniciosssimo abuso ser um dos principais

 cuidados dos Diretores estabelecer nas suas respectivas povoaes o

 uso da lngua portuguesa , No consentindo por modo algum que os

 Meninos e Meninas , que pertencem s escolas , e todos aqueles

 ndios , que forem capazes de instruo nesta matria , usem da

 lngua prpria das suas naes ou da chamada geral , mas unicamente

 da Portuguesa , na forma que S. M. tem recomendado em repetidas

 ordens , que at agora no se observaram , com total runa Espiritual

 e Temporal do Estado .

 Nos pargrafos 7 e 8 temos , ainda , uma retomada de um j-dito - a

 justificativa da determinao com base na urgncia de trazer aos

 ndios a civilidade , bem como os mecanismos prticos para que se

 efetivem os objetivos de ensino da lngua portuguesa com a criao de

 escolas pblicas , ' uma para os Meninos , na qual lhes ensine a

 Doutrina Crist , a ler , a escrever e contar na forma , que se pratica

 em todas as escolas das naes civilizadas ; e outra para as Meninas ,

 na qual , alm de serem instrudas na Doutrina Crist , se lhes ensinar

 a ler , escrever , fiar , fazer renda , costura , e todos os mais

 ministrios prprios daquele sexo .

  interessante notar como no texto do 8 pargrafo , a seguir ,

 ressaltam-se as qualidades positivas dos mestres e mestras , sua alta

 destinao social como a encobrir o vem logo adiante : o descompromisso

 da Coroa com o custeio da educao dos ndios , cabendo aos pais das

 crianas esta obrigao , mas sempre de acordo com a situao de

 misria em que se encontram .
 Quer dizer , a ideologia no se representa

 por um contedo , mas por um mecanismo de produzi-lo : ( e de

 reproduzi-lo conforme as instncias de poder ) .

 Para a subsistncia das sobreditas Escolas , e de um Mestre , e uma

 Mestra , que devem ser pessoas dotadas de bons costumes , prudncia , e

 capacidade , de sorte que possam desempenhar as importantes obrigaes

 de seus empregos ; destinar-se-o ordenados suficientes , pagos pelos

 Pais dos meninos ndios , ou pelas pessoas , em cujo poder eles viverem ,

 concorrendo cada um deles com a poro , que se lhes arbitrar , ou em

 dinheiro , ou em efeitos , que ser sempre com ateno  grande misria ,

 e pobreza , a que eles presentemente se acham reduzidos .

 No pode restar dvida de que estas medidas obtiveram um resultado

 prtico , pois , em 1798 , quando o Diretrio foi abolido , a lngua

 portuguesa dominava , incontestavelmente , (  exceo da Amaznia ) as

 regies brasileiras , onde h quarenta anos predominava a influncia

 Tupi .

 Segundo o testemunho de Celso Cunha12 .

 A Reforma Pombalina instituiu o ensino pblico , tornou

 violentamente obrigatrio o ensino elementar da lngua portuguesa ,

 destruindo lnguas e culturas indgenas ; em nvel secundrio , fez

 preceder a gramtica portuguesa  gramtica latina , que passaria a

 ser ministrada por compndios em metalinguagem portuguesa , como nos

 nicos autorizados - - os de Antnio Flix Mendes e Antnio Pereira

 de Figueiredo .

 REFLEXES FINAIS

 O moinho j no existe ; o vento continua , todavia .

 ( Van Gogh , Cartas a Tho )

 Para finalizar estas reflexes , pensamos na complexidade que estes

 movimentos de confronto , de assimilao , de oposio , de aceitao

 produzem e produziram sentidos na relao lngua - nao em nosso pas .

 Lngua imposta pelo colonizador , trazendo todo um referencial

 simblico a que se somou tambm uma cultura , que embora assimilada no

 deixou de marcar o encontro do europeu com o americano .
 Assim ,

 pensamos que somente na relao histrica entre a lngua e seus

 falantes , entre a lngua portuguesa e os brasileiros poderemos comear

 a penetrar no instigante mistrio da compreenso dos processos de

 formao da identidade nacional brasileira .

 No podemos deixar de mencionar um momento nico de nossa literatura -

 o Romantismo - em que a relao lngua - nacionalidade esteve agudamente

 presente .
 O escritor de maior participao neste debate foi , sem

 dvida , Jos de Alencar .
 Alencar vincula lngua e literatura 

 nacionalidade , qualificando e valorizando as diferenas que o

 portugus vinha adquirindo no Brasil e as diversificaes raciais que

 operaram , em nossa terra , a formao do povo brasileiro .
 Portanto , a

 lngua , a literatura e o povo do Brasil seriam fruto do amlgama

 racial e lingstico nico que nos constituiria como nao e nos

 distinguiria de outras naes :

 Os operrios da transformao das nossas lnguas so esses

 representantes de tantas raas , desde a saxnia at a africana , que

 fazem neste solo exuberante amlgama do sangue , das tradies e das

 lnguas. " 13

 Alm do projeto de Alencar , um outro momento significativo de nossa

 literatura - o Modernismo - retoma o discurso atravs da reafirmao de

 um imaginrio nacional e , como conseqncia a valorizao de uma

 lngua liberta dos cnones portugueses que , reproduzindo e criando

 cultura , identifica um modo de ser especfico , fazendo representar o

 pensamento brasileiro .

 Da lngua participam a Histria e a cultura que a constituem e de que

 ela  ao mesmo tempo produtora .
 A seguinte transcrio de Benveniste

 consolida o pensamento que vimos desenvolvendo :

 De fato  dentro da e pela lngua que indivduo e sociedade se

 determinam mutuamente .
 O homem sentiu sempre - e os poetas

 freqentemente cantaram. - o poder fundador da linguagem , que

 instaura uma realidade imaginria , anima as coisas inertes , faz ver

 o que ainda no existe traz de volta o que desapareceu .
  por isso

 que tantas mitologias , tendo de explicar que no incio dos tempos

 alguma coisa pde nascer do nada , propuseram como princpio criador

 do mundo essa essncia imaterial e soberana , a Palavra .
 14

 Percebemos hoje reflexos destes conflitos entre a lngua da terra e a

 lngua transposta j redimensionados no tempo , sob outras perspectivas

 e injunes sociais .
 No entanto , nossa tradio cultural ainda vem

 oscilando entre a ambigidade dos romnticos e a atitude vanguardista

 dos modernistas , influenciando nossa realidade lingstica ,

 especificamente no que se refere  norma culta escrita do portugus ,

 cujo padro prescritivo ainda se assemelha ao de Portugal , com a

 conseqente intensificao da distncia entre a lngua falada e a

 escrita no Brasil .
 Verifica-se , por tudo isso , em nossa norma culta

 escrita a concomitncia de alguns usos especficos da oralidade ,

 caracterizando variaes ainda no fixadas .

 O portugus culto padro do Brasil  uma construo se fazendo , no

 sem alguma polmica .

 Gostaria de encerrar este trabalho , dizendo-lhes que ainda acredito

 que alm das fronteiras de uma lngua e de uma nao , como escreve

 Eduardo Galeano15 , ` sempre  possvel encontrar contemporneos em

 qualquer lugar do tempo e compatriotas em qualquer lugar do mundo .
 E

 sempre que isso acontece , e enquanto isso dura , a gente tem a sorte de

 sentir que  algo na infinita solido do universo : alguma coisa a mais

 que uma ridcula partcula de p , alguma coisa alm de um momentinho

 fugaz. '

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