 REVENDO O SURREALISMO ^ ( 1 )

 Theodor W. Adorno

 Noten zur Literatur : 101-5

 A teoria amplamente difundida do surrealismo , como colocada nos

 Manifestos de Breton e tambm como dominante nos manuais de

 introduo , o relaciona com o sonho , o inconsciente , talvez at com os

 arqutipos de Jung , que , nas colagens e na escrita automtica , teriam

 encontrado sua linguagem constituda de imagens e enfim liberta de

 relao com o " eu " consciente .
 Por essa teoria , os sonhos manipulariam

 os elementos do real  semelhana dos procedimentos surrealistas .
 No

 entanto , se entendemos que a arte jamais tenha que se compreender ?
 e

 se somos levados a considerar que a autocompreenso da arte e seu

 valor sejam coisas incompatveis ?
 ento no se faz necessrio

 aceitarmos esta viso programtica defendida pelos comentadores .
 O que

 h de fatal na interpretao da arte , e alis at naquelas com

 responsabilidade filosfica ,  que no processo de conceitualizao

 esta se v forada a explicar o estranho e o surpreendente em termos

 do que j  familiar e , portanto , a excluir a nica coisa que

 realmente haveria a explicar : se as obras de arte demandam explicao ,

 acabam todas , mesmo contra suas intenes , por cometerem um ato de

 traio , que as leva ao conformismo .
 Se , na verdade , o surrealismo

 fosse apenas uma coleo de ilustraes literrias e grficas de Jung ,

 e at de Freud , s duplicaria , de maneira suprflua e com a pretenso

 de disfarce por metforas , o que a teoria em si j diz .
 Seria , tambm ,

 to incuo que no haveria mais lugar para o escndalo , que  sua

 inteno e seu elemento vital .
 Coloc-lo no mesmo plano que a teoria

 psicolgica dos sonhos  dar-lhe um humilhante carimbo oficial .
 O

 refro " trata-se da figura paterna " provoca a resposta auto-satisfeita

 " Sim , ns j sabemos " ; e , como Cocteau bem compreendeu , se algo no

 passa de sonho no causar grandes danos  realidade , por mais

 danificada que sua imagem j esteja .

 Mas esta teoria no faz justia ao tema .
 No  assim que as pessoas

 sonham , ningum sonha desse jeito .
 As criaes surrealistas no passam

 de anlogas aos sonhos ao suspenderem a lgica habitual e as regras da

 existncia emprica , mas , ao faz-lo , respeitam os objetos que foram

 retirados  fora de seus contextos e que trazem seus contedos , em

 especial seus contedos humanos , mais prximos das formas desses

 objetos .
 Esses contedos destroem-se , reorganizam-se , mas no se

 suprimem .
 O sonho , com certeza , no procede de modo diferente , mas

 nele o objeto aparece de forma incomparavelmente mais velada e no se

 apresenta to investido de realidade como no surrealismo , no qual a

 arte abala profundamente a arte .
 O sujeito , que no surrealismo age

 muito mais aberta e livremente do que nos sonhos , dirige sua energia

 para sua auto-aniquilao , energia que no sonho absolutamente no 

 exigida ; mas , por tudo isso , torna-se mais objetivo , por assim dizer ,

 do que no sonho , onde o sujeito , ausente desde o incio , fica nos

 bastidores para colorir e permear tudo que acontece .
 Os surrealistas

 chegaram tambm  descoberta de que as pessoas , mesmo na situao

 psicanaltica , no associam o contedo como eles ao fazerem poesia .

 Alm disso , nem a espontaneidade das associaes psicanalticas  , na

 verdade , espontnea .
 Todo analista sabe o que lhe custa de esforo e

 cansao , de fora de vontade , para dominar a expresso involuntria j

 na situao psicanaltica , o que no dizer ento da situao artstica

 dos surrealistas .
 No  o inconsciente em-si que se atualiza no mundo

 em runas dos surrealistas .
 Se julgssemos essa pretenso , os smbolos

 se revelariam bem racionais .
 Esse tipo de decodificao reduziria a

 luxuriante multiplicidade do surrealismo a padres bem insuficientes ,

 como o complexo de dipo , sem conseguir dar conta da fora que emana

 se no de todas as obras do surrealismo , pelo menos de sua idia .

 Esta , alis , parece ter sido a reao de Freud a propsito de Dali .

 Os choques do surrealismo perderam sua virulncia aps a catstrofe

 europia , .
  como se tivessem salvado Paris ao predisp-la ao medo : a

 destruio da cidade sempre lhe foi central .
 Conceituar o surrealismo

 nesse sentido no  remontar  psicologia , mas as seus prprios

 procedimentos artsticos .
 Sem dvida , so esquematizados pela

 montagem .
 Seria fcil mostrar que at a prpria pintura surrealista

 opera com seus motivos e que a justaposio descontnua de imagens na

 poesia lrica surrealista tem o carter de montagem .
 Tais imagens ,

 sabemos , provm , em parte literalmente e em parte espiritualmente , de

 ilustraes do final do sculo XIX , como reconheceriam os pais da

 gerao de Max Ernst .
 Desde os anos vinte , houve , fora do campo

 surrealista , colees de imagens desse tipo , como Our Fathers , de

 Alan Bott , que participaram ?
 de maneira parasitaria ?
 do choque

 surrealista e , ao assim faz ?
 - lo , como um tipo de delicadeza , pouparam

 o pblico da tenso causada pela estranheza da montagem .
 Mas a prtica

 propriamente surrealista misturou a esses elementos outros elementos

 inslitos .
 So estes , alis , que , pela surpresa , deram este jeito

 familiar , este aspecto de " Onde ser que j vi isto antes ?
 " .

 Portanto , no  de se pensar que a afinidade com a psicanlise esteja

 num simbolismo do inconsciente , mas na tentativa de revelar as

 lembranas da infncia de maneira sbita e explosiva .
 O que o

 surrealismo acrescenta s ilustraes do mundo dos objetos  aquele

 algo da infncia que perdemos ; estas ilustraes j antiquadas naquele

 tempo nos impressionaram tanto como hoje as imagens surrealistas .
 O

 aspecto subjetivo disto est no ato da montagem , que tenta ?
 talvez em

 vo , mas com propsito inegvel ?
 produzir percepes semelhantes s

 que devem ter existido outrora .
 O ovo gigante , do qual , a qualquer

 momento , pode saltar o monstro do Julgamento Final ,  to grande

 porque ns ramos pequenos demais no dia em que pela primeira vez

 trememos diante de um ovo .

  o obsoleto que d este efeito .
 Na modernidade h algo de paradoxal ,

 pois , mesmo sob o fetiche do sempre igual que lhe  imposto pela

 produo em massa , ainda conserva a histria .
 Este paradoxo a aliena e

 nas " Figuras para as Crianas dos Tempos Modernos " torna-se a

 expresso de uma subjetividade que se alienou de si mesma e do mundo .

 A tenso do surrealismo descarregada no choque  a mesma que existe

 entre a esquizofrenia e a reificao ; no se trata , portanto , de

 tenso por motivao psicolgica .
 O sujeito que se dispe livremente

 de si mesmo , que se torna absoluto e sem obrigao de dar conta do

 mundo emprico , denuncia-se , diante da alienao total , como sendo si

 mesmo mas destitudo de alma , algum virtualmente morto .
 As imagens

 dialticas do surrealismo so imagens de uma dialtica da liberdade

 subjetiva num estado de no-liberdade objetiva .
 Nessas imagens o

 Weltschmerz^2 da Europa torna-se em pedra ,  semelhana de Nobe^3 ao

 ter os filhos mortos ; nelas a sociedade burguesa abandona toda

 esperana de sobreviver .
 Dificilmente algum surrealista ter conhecido

 a Fenomenologia do Esprito , de Hegel , mas ali se encontra uma frase

 que deve ser relacionada  tese mais geral de que a histria  o

 progresso da conscincia da liberdade e que pode dar conta do contedo

 surrealista : " A nica obra , o nico ato de liberdade universal  ,

 ento , a morte , uma morte que carece de dimenso e de realizao

 interiores " .
 O surrealismo assumiu essa crtica , isso explica , em

 poltica , sua oposio impulsiva ao anarquismo , o que , no entanto , 

 incompatvel com sua substncia .
 Tem se afirmado desta frase de Hegel

 que o Aufklrung^4 se anula ao se realizar ;  a este preo ?
 no como

 uma linguagem da imediaticidade mas como testemunho da regresso da

 liberdade abstrata na supremacia das coisas e , assim ,  mera natureza

 ?
 que se poder compreender o surrealismo .
 As montagens so as

 verdadeiras naturezas mortas .
 Ao recomporem o obsoleto , criam natureza

 morta .

 Essas imagens so menos algo que vem do ntimo do que fetiches ?

 fetiches da mercadoria ?
 em que , outrora , se fixava o subjetivo , a

 libido .
 ?
 por meio desses fetiches , e no da introspeco que fazem

 ressurgir a infncia .
 Os modelos do surrealismo poderiam ser a

 pornografia .
 O que se passa com as colagens , o que est

 convulsivamente suspenso nelas como as contraes tensas de gozo em

 torno da boca , assemelha-se s alteraes que atingem uma

 representao pornogrfica no momento de lascvia do voyeur .
 Bustos

 cortados , pernas com meias de seda em manequins nas colagens ?
 eis as

 marcas da lembrana dos objetos destas tenses parciais que despertam

 a libido .
 O esquecido a se revela  maneira de uma coisa , morto , como

 aquilo que o amor desejava , como algo a que desejava se assemelhar , a

 que ns nos assemelhamos .
 O surrealismo aproxima-se em fotografia

 porque  um despertar sbito de um estado de petrificao .
 O que toma

 so imagens ; no invariantes , sujeitos sem conscincia e sem histria ,

 a que poderiam ser neutralizados pela viso convencional , mas imagines

 histricas em que o sujeito , no que tem de mais ntimo , toma

 conscincia de si como exterioridade , como imitao de uma realidade

 socio-histrica .
 " Vamos , Joe , toque aquelas msicas dos bons

 tempos " ^ 5 .

 Nisso , no entanto , o surrealismo torna-se complemento da Sachlichkeit ,

 que surgiu na mesma poca .
 O horror que este sente pelo " crime do

 ornamento " , nas palavras de Adolf Loos ,  mobilizado pelos choques

 surrealistas .
 A casa tem um tumor : sua sacada .
  esta que o

 surrealismo vai pintar : cresce uma excrescncia de carne saindo da

 casa .
 As imagens infantis da modernidade so a verdadeira incarnao

 do que a Sachlichkeit dissimula por trs de um tabu , porque isso a faz

 lembrar que sua prpria essncia provm das coisas e de sua

 incapacidade de lidar com o fato de que sua racionalidade 

 irracional .
 O surrealismo recolhe o que a objetividade nega aos

 homens ; a distoro atesta o que a proibio fez ao objeto do desejo .

 Por tal distoro , o surrealismo permite salvar o obsoleto , um album

 de idiossincracias , em que o sentimento de justia e de felicidade que

 os homens se negam em seu prprio mundo tecnificado acaba por

 esvair-se em fumaa .
 Mas se hoje o prprio surrealismo parece

 obsoleto , isto ocorre porque os homens j se recusam esta conscincia

 negativa que era fixada no negativo fotogrfico que  o surrealismo .

 1 Texto original em alemo publicado em 1956 .
 Traduo de Newton

 Ramos-de-Oliveira .

 2 A dor do mundo , expresso indicativa do que os franceses chamaram de

 " mal de sicle " no perodo romntico

 3 Filha de Tntalo e mulher do rei de Tebas , Anfion .
 Por ter sete

 filhos e sete filhas escarneceu de Latona , me de apenas dois filhos :

 Apolo e Diana .
 Estes , em vingana , mataram todos os filhos de Nobe ,

 que infeliz converteu-se num rochedo e tornou-se smbolo do amor

 materno. ( Nota do tradutor )

 4 O Iluminismo .

 5 " Geh , Joe , mach die Musik von damals nach " ?
 Verso da Bilbao-Song ,

 de Brecht e Kurt Weil na pe ?
 a Happy End .

 Texto retirado e conforme o da pgina Debates

 http : // planeta.clix.pt / adorno /

