 A revista Cercle et Carr e a crise dos projetos messinicos

 Maria Lcia Bastos Kern

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 O grupo de artistas que cria e mantm a Revista Cercle et Carr

 ( 1930 ) , em Paris , caracteriza-se por congregar distintas correntes

 estrangeiras do movimento abstrato ou simpatizantes , cujas obras

 fundamentam-se em programas messinicos oriundos do De Stijl

 ( 1917-1931 ) , Neoplasticismo , Construtivismo russo , Futurismo e da

 Bauhaus .
 Integram-se ainda ao grupo , artistas provenientes de Dada ,

 ps cubistas e Ozenfant e Le Corbusier .
 Os dois ltimos , dirigiram a

 revista L'Esprit Nouveau ( 1920-1925 ) , defendendo o purismo com uma

 conotao de ordem moral e com o fim de estabelecer a modernidade sob

 bases scio-econmicas estveis .

 Desde a primeira gerao de artistas abstratos - Kandinsky , Malvitch

 e Mondrian - o suporte terico sustenta-se em vises filosficas e

 metafsicas com vistas a construir um novo homem , dotado de

 espiritualidade .
 Nos anos 20 , na Frana , os diferentes movimentos

 abstratos ainda preservam a concepo de arte que tem como finalidade

 atingir o absoluto , sendo que em algumas correntes este objetivo se

 alia ao de renovao social e moral e ao de criao de um novo

 humanismo .

 O presente estudo tem em vista analisar as idias pontuais dos

 distintos autores da revista Cercle et Carr , procurando

 contextualiz-las face  problemtica mais ampla em que estas se

 situam .
 A heterogeneidade seria decorrente no apenas da origem

 diversificada dos artistas que compem o grupo , mas tambm das

 mltiplas concepes que eles defendem frente  crise scio-econmica

 e da prpria arte , no incio dos anos 3O .
 O grupo e a revista

 constituem-se no momento em que se produzem os efeitos na Frana da

 quebra da bolsa de Nova York , que antecede a guerra civil espanhola e

 a ltima guerra mundial .
 Alguns artistas do grupo chegam na Frana ,

 fugindo dos regimes totalitrios , instalados na Rssia , Alemanha e

 Itlia , e das perseguies sofridas , devido s suas participaes nos

 movimentos de vanguarda .

 As transformaes que precedem a guerra e a crise estabelecida no

 interior do campo artstico afetam as artes plsticas , na medida em

 que elas se aliam s cincias como mecanismo de buscar a verdade , face

 s tenses sociais e ao desmantelamento paulatino dos projetos

 messinicos de transformao social e de criao de um novo homem .

 Percebe-se nos textos da revista , de um lado , a defesa de uma viso

 sagrada de arte , portadora de uma misso proftica ; e de outro , a

 retrica em prol da aliana arte e cincia ( matemtica ) , e a nfase na

 sua plasticidade .
 Estas solues propostas pelos artistas so

 contemporneas  defesa da arte figurativa e da aceitao progressiva

 do Surrealismo .

 A arte abstrata , oriunda de movimentos estrangeiros nos anos 10 ,

 encontra em Paris forte resistncia , apesar da difuso da mesma

 atravs da revista holandesa , De Stijl , desde 1923 .
 As manifestaes

 cubistas e ps-cubistas so ainda as mais favorecidas pelos crticos e

 revistas de arte .
 Em 1931 , depois do trmino de Cercle et Carr , a

 revista Cahiers D'Art promove um debate acerca da abstrao , motivado

 em parte pela dificuldade de aceitao que ainda existe em relao a

 mesma .
 Esta  concebida como uma arte meramente decorativa , por

 crticos como Teriade .

 O presente estudo tem ainda o fim de situar as pesquisas plsticas de

 Torres-Garcia face  problemtica da abstrao e da arte na Frana , no

 incio dos anos 30 , e das solues propostas por Cercle et Carr .
  de

 interesse tambm procurar discernir os motivos que conduzem a

 historiografia europia a considerar em geral o artista uruguaio 

 margem , mesmo quando analisam o grupo e a revista Cercle et Carr , nos

 quais ele exerce um papel bastante significativo .

 O sentimento da crise que vive o mundo Ocidental  motivo de anlise

 pelo artista , Albert Gleizes , no livro escrito e publicado em 1930 ,

 Vie et mort de l'Ocident Chrtien :  ns sentimos a morte rodar em

 torno de ns .
 Ns temos o pressentimento de catstrofes prximas ( ...
 )

  .
 Gleizes ao expor a sua preocupao , considera o envelhecimento da

 sociedade ocidental , o individualismo , o materialismo e a excessiva

 especializao predominantes na mesma , como fatores que podero

 conduzir  sua destruio .
 Ao mesmo tempo que ele percebe os sintomas

 da guerra , encontra-se extremamente pessimista .

  Um ceticismo profundo quanto ao futuro ( ...
 ) da CIVILIZAO , e a

 certeza de que os manifestos platnicos contra a guerra , ( ...
 ) so

 incapazes de impedir ( ...
 ) o inevitvel .
 Quem transformar as direes

 do esprito , as direes da economia , o automatismo destrutor da

 cincia , ( ...
 ) .
 

 A explanao de parcela das reflexes de Gleizes sobre o momento de

 crise que se instaura na Frana , pode auxiliar para a compreenso do

 papel a ser exercido pelo peridico Cercle et Carr .

 Piet Mondrian em cartas escritas , entre 1929-1931 , ao arquiteto suio

 Alfred Roth , deixa transparecer os problemas relativos a estes

 fenmenos desestabilizadores , ao comentar que no consegue vender as

 suas pinturas , a falta de dinheiro e a oscilao de valores em suas

 obras :  ( com vermelho ) so mais reais , as outras mais espirituais  .

 Fora as dificuldades assinaladas , identifica-se no agrupamento de

 artistas , a necessidade de utilizar a revista como meio de divulgao

 da arte abstrata , numa poca em que esta sofre ainda ataques da

 crtica ou o silncio da mesma .
 Em carta datada de 25 de maro de

 1930 , Mondrian assinala ao amigo que est respondendo a um ataque

 contra o Neoplasticismo .
 Este foi feito pelo crtico de arte , Teriade ,

 no perididico L'Intransigeant , que acusa a arte abstrata de seca ,

 cerebral e decorativa .
 Nesta mesma carta , Mondrian justifica que a

 revista Cercle et Carr   um pouco misturada , mas que visa ter mais

 amplitude que as demais .
 

 A instabilidade vivenciada pelos artistas talvez motive a escolha do

 nome Cercle et Carr , que representa o conceito metafsico de arte , na

 medida que estas duas formas geomtricas so carregadas de

 significaes a respeito do universo e do homem .
 Para Seuphor , elas

 representam o mundo sensorial e o mundo racional , o cu e a terra ,

 Ado e Eva , possibilitando expressar ao mesmo tempo a totalidade e a

 gnese inesperada de uma nova cultura .
  Ns estamos na presena , no

 de qualquer movimento de vanguarda , mas de uma instituio do

 esprito , de uma funo do espao interior do homem .
 

 O quadrado simboliza a ordem ambicionada pelo grupo .
 Torres-Garcia

 declara no texto  Vouloir construire  que os artistas encontram-se

 reunidos porque  reina a desorientao e a desordem .
  Entretanto , o

 crculo tem um sentido diverso e complementar , ele significa segundo

 Seuphor o poder , fechando o mundo sobre ele mesmo , em rotao

 dinmica .
 O crculo  o eterno recomear ,  infinito , e vincula-se aos

 smbolos antigos chineses .
 Nos sistemas msticos , Deus  representado

 pelo crculo .
 Este refere-se  esfera espiritual , enquanto o quadrado

 vincula-se ao mundo terrestre , humano e material .

 As formas geomtricas sugerem a retomada de smbolos arcaizantes e

 esto relacionadas com a tentativa de descoberta da ordem escondida do

 universo , vista como um dos mais importantes mecanismos para

 solucionar a crise vivida pelos artistas no incio dos anos 30 .
 Esta

 ordem no se encontraria na sntese de figuras geomtricas distintas e

 nos significados que estas poderiam revelar ?
 Cercle et Carr parece

 estar voltada aos domnios do espiritual e do humano e material ,

 buscando produzir uma sntese , a qual se revelaria numa nova ordem

 social portadora de espiritualidade .

 Entretanto , as explicaes de Seuphor so posteriores  revista e no

 aparecem nos editoriais e textos da mesma .
 Isto talvez possa ser

 explicado pela diversidade de pensamento do grupo .
 O primeiro

 editorial , escrito por ele , mostra que a fase de busca do absoluto em

 arte deve ser substituda por aquela que visa a verdade .
 No entanto ,

 ele desenvolve o conceito de construo com vistas a atingir a ordem

 universal e valorizar a espiritualidade .
 No se pode ignorar que

 Torres-Garcia como dirigente da revista , juntamente com Seuphor ,

 continua sendo partidrio da noo de arte sagrada com fins

 messinicos , e que ele tem o apoio de outros artistas .
 Apesar da

 heterogeneidade dos membros do grupo Cercle et Carr , eles apresentam

 em comum propostas de combate ao naturalismo e ao Surrealismo , que

 neste momento se expande como movimento .
 Eles unem-se na defesa do

 abstracionismo e da noo de estrutura .
 Esta  a soluo encontrada

 pelos artistas para fugirem da mimesis e da representao naturalista ,

 e para combater as fantasias subjetivas do Surrealismo .
 O grupo

 acredita de forma unnime que a arte deve abandonar o ilusionismo ,

 buscando o real , mas este concebido como verdadeiro .

 Nos textos da revista Cercle et Carr  recorrente a negao ao

 individualismo e ao subjetivismo , e a defesa de uma viso mais

 objetiva e total , dirigida  construo de uma arte universal .

 Michel Seuphor no primeiro nmero do peridico expe as idias mais

 significativas do pensamento do grupo , em forma de manifesto .

  A beleza natural ( ...
 ) nos conduz ao seio da matria , enquanto a

 busca do verdadeiro nos incita ao pensamento e nos eleva  abstrao .

 O caminho do belo  ( ...
 ) do viver fsico ; o caminho do verdadeiro 

 aquele da estrutura e da evoluo .
 

 A noo de estrutura  contrria  representao fenomnica da

 realidade e vincula-se ao conceito de construo e arquitetura em

 artes plsticas .
 Para Seuphor ,  Construir  avaliar as relaes ,

 calcular as equivalncias , ( ...
 ) organizar todos os dados de forma a

 obter a unidade , a estabilidade perfeita .
   por meio da construo

 que o artista controla a sua sensibilidade , estabelece assim a ordem e

 atinge a verdade universal .

 Torres-Garcia apresenta tambm no primeiro nmero de Cercle et Carr o

 seu conceito de construo , como decorrente inicialmente do desenho

 que representa a  idia  de alguma coisa e no a coisa em si , e da

 ordenao das imagens , buscando o ritmo destas com o conjunto do

 quadro .
 Para ele , construir   criar uma ordem  , isto  , passar do

 individual ao universal .
 Tendo-se em vista que muitos dos artistas do

 grupo so estrangeiros , fugitivos das perseguies de regimes

 polticos totalitrios , a busca do Universal  tambm para eles um

 meio de oporem-se aos nacionalismos exacerbados dominantes na Europa e

 se negarem s suas prescries .
 A arte proposta tem assim um fim de

 transformao da ordem poltica .

 A noo de arquitetura ou a estrutura , no plano da plstica , termina

 com a dualidade figura / fundo e permite a unidade do quadro .
 O artista

 uruguaio , no texto  Vouloir construire  , no se mostra preocupado em

 atingir a verdade , como os outros .
 Na realidade , ele ao mesmo tempo

 que nega o individualismo , defende a intuio como meio de estabelecer

 o vnculo da arte com o sagrado .
 No sentido inverso , ele acredita que

 a arte se aproximaria da filosofia .

 O prprio Seuphor , no terceiro nmero da revista , destaca a intuio

 como o nico meio da obra adquirir caracter artstico , pois esta

 representa no momento :  a conscincia  dos  fatores universais do

 belo : o ritmo , a unidade , o equilbrio .
  Para ele , os condicionantes

 do belo existem na  vida citadina  e  mesmo na vida campestre .
 

 Eles manifestam a conscincia de que o artista ao se basear nos dados

 da cincia e do conhecimento verificado , poder criar composies

 poticas e pictricas .
 Percebe-se , assim , que Seuphor delimita o seu

 conceito de intuio de forma distinta de Torres-Garcia , na medida que

 ele refora a sua potencialidade em atingir o conhecimento cientfico .

 O artista belga , Georges Vantongerloo pensa , ao contrrio , que a

 intuio no permite o conhecimento preciso da criao plstica ,

 defendendo a produo artstica racional .

 J Mondrian acredita que os artistas desejam estabelecer a verdade , em

 oposio ao ilusionismo , com o qual o naturalismo esteve conectado .
 No

 entanto , no que se refere ao individualismo , ele desenvolve a noo de

 equivalncia .
 O Neoplasticismo  a  unio da expresso individual e

 universal .
 Porque ( ...
 )  composto destes dois aspectos da vida em

 equivalncia .
 A arte tem ento que encontrar os meios de atingir a um

 equilbrio exato pela criao de apenas um meio plstico feito de

 oposies totais.   a partir desta noo de equivalncia , como meios

 plsticos destitudos de significados expressivos , que Mondrian vai

 estruturar os seus quadros , estabelecendo a oposio entre as linhas

 horizontais e verticais , e obtendo assim a ambicionada unidade .
 Dar

 forma a partir de elementos distintos e equivalentes , significa criar

 a unidade .
 Torres-Garcia chega  unidade , utilizando o sistema de

 oposies - horizontais e verticais - e pela dialtica hegeliana

 adotada por ele , quando organiza os smbolos de forma a conceder-lhes

 um significado dentro da estrutura geomtrica .

 Para Eric Michaud , Mondrian procura produzir um deus semelhante 

 unidade por ele aspirada .
 O fim da imagem representativa cede espao

 para a criao da ordem divina .
 O visvel  feito do invisvel , que 

 o mundo superior .

 Vantongerloo refora a idia de equivalncia de Mondrian , pois ele

 tambm procura a unidade a partir do jogo dos opostos , mas

 introduzindo uma viso de dinamismo plstico atravs do uso da linha

 oblqua .
 A seu ver , o dinamismo pertence ao domnio mecnico ,

 representando melhor o ritmo da vida moderna .

 O texto de abertura da revista , redigido por Seuphor , caracteriza-se

 por um discurso em prol da razo e da cincia , tendo em vista a

 legitimao da arte abstrata e a ordenao da sociedade .
 Entretanto , o

 seu editorial apresenta aparentemente uma certa ambiguidade , na medida

 que ele defende a relao da arte com a matemtica , mas nega a aliana

 da arte com a cincia , pela frieza da ltima .
 Quando ele ataca esta

 aliana , parece estar se referindo tambm ao Surrealismo e s suas

 especulaes em torno da Psicanlise e da Etnologia , porque faz meno

 s fantasias ,  libertinagem e  selvageria .
 A viso moralista e

 regeneradora est presente nas idias norteadoras do poeta .

 O pensamento cientificista e racional aparece ainda em  Plastique

 d'art ( S = L2 V = L3 )  , de autoria de Georges Vantongerloo .
  Conceber

 uma obra de arte e em seguida materializ-la pelo meio exato que  a

 matemtica .
  Ela elimina as possibilidades de erro , permite a unidade

 da obra e o controle da sensibilidade .
 Para ele , o segredo da arte

 est no artista no fazer cincia com os seus dados , mas em se tornar

 cientista .
 Vantongerloo nega a espiritualidade de ordem metafsica em

 arte , sendo que ao defender a aliana da estrutura com a matemtica ,

 valoriza o material .
 Esta sua viso  totalmente oposta a de

 Torres-Garcia , que  pautada pelo espiritualismo .
 Enquanto Seuphor em

  Potique nouvelle  enfatiza a aliana da arte com a cincia

 ( matemtica ) , como meio de atingir a verdade .

 Vantongerloo acrescenta a necessidade da adoo da forma geomtrica ,

 destacando a racionalidade da mesma , bem como a segurana e a preciso

 que ela oferece para a execuo da composio .
 Ela permite  buscar

 sobre esta base da unidade o conjunto .
  Observa-se que existe nos

 textos da revista em geral uma preocupao com a verdade da mesma

 forma que os cientistas o tm .
 A verdade seria um fim a ser

 perseguido , como meio de romper com o ilusionismo e o materialismo , e

 atingir assim a espiritualidade universal .
 No entanto , a nfase recai

 na matemtica , porque esta  concebida como uma forma de pensamento

 abstrato .
 As outras cincias so negligenciadas , pois parece que

 existe neste momento uma certa desesperana em relao s mesmas , alm

 do questionamento a respeito dos propalados benefcios do progresso .

 Gleizes reafirma o descrdito dominante , entre os artistas , face a

 determinadas cincias , quando ele apresenta a matemtica como uma das

 solues para a crise .
 Esta ao ser concebida pelo autor como superior

  fsica e  astronomia , oferece condies de compreender plenamente 

 os fundamentos da natureza do Universo .
  Ele justifica este

 posicionamento , afirmando que os matemticos apesar de lidarem com a

 abstrao , eles agem ; enquanto os cientistas , como intelectuais , no

 so homens de ao e suas inteligncias no captam aqueles fenmenos

 que escapam  observao visual .
 Segundo Gleizes , o matemtico entende

 que a esfera humana  a imagem aparente da esfera csmica , isto

 significa que ele identifica de onde emergiram as parcelas .
 Estas

 podem ser de ordem intelectual e sensvel .
 A esfera csmica  vista

 como sendo de ordem da inteligncia , ao passo que a esfera do universo

  inatingvel pela observao .
 Ele acredita que lidando com os dados

 abstratos , a matemtica tem a potencialidade de compreenso dos

 mistrios do universo .

 Torres-Garcia , Mondrian , Freundlich e Fillia apresentam o suporte

 terico dos seus textos baseado em conceitos semelhantes , em prol do

 abstracionismo geomtrico e tendo como objetivos o universal e o

 absoluto .
 Para estes artistas , os valores espirituais devem suplantar

 o materialismo dominante , e a ausncia de representao  considerada

 como a possibilidade de ascender ao mundo divino .

 Apesar da diversidade de concepes , os artistas autores de textos da

 revista parecem unnimes a respeito da aplicao do esprito de

 sntese na arte , sugerido pela mecanizao da sociedade moderna .
 

 Tudo  sistematicamente reduzido a sua mais simples e mais forte

 expresso ,  sua identidade primeira ( ...
 ) .
  Para Seuphor , a

 conscincia do valor da abstrao  decorrente em parte deste mundo

 que se transforma na modernidade , com o uso intenso da mquina na vida

 cotidiana .

 Atingir a sntese , para os artistas abstratos , significa chegar 

 essncia , isto  ,  realidade concreta que expressa os valores

 espirituais .
 Estes no se encontram no mundo natural .
 Segundo

 Mondrian , a sociedade j apresenta uma reao face  materializao a

 procura de um equilbrio .
 No mundo da plstica ,  o homem pode criar

 uma realidade nova : uma superealidade .
   a partir deste princpio

 que o Neoplasticismo prepara a superrealidade do futuro .
 

 Paralelamente ,  arte e  vida social , a religio e a filosofia hoje

 se dirigem  uma concepo universal ( ...
 ) .
  O seu texto  permeado

 pela noo de arte sagrada , porque a nova plstica tem como fim ltimo

 criar  uma vida verdadeiramente humana  e estetizar a realidade .

 A aspirao utpica de dissoluo futura da arte na vida cotidiana no

  novidade , visto que os construtivistas russos , De Stijl e o prprio

 Mondrian j reivindicavam nos anos 10 .
 Ao ser atingida , ela permitiria

 o desaparecimento da arte como artifcio ,  medida que ganhasse em

 beleza .
 Esta aspirao  recorrente nos textos da revista .
 Segundo

 Mondrian , a cincia e a tcnica devem evoluir tornando-se

 indispensveis para produzir e manter , futuramente , a beleza .
 Esta

 ainda no existe devido  concepo individualista na qual a arte

 repousa .
 Para alcanar este objetivo , os artistas propem a integrao

 das artes , a retomada do sentido coletivo e alguns , inclusive , do

 anonimato .

 Para muitos artistas e arquitetos , como Jean Gorin , a arquitetura 

 concebida como a condutora do processo de integrao das artes e

 produtora de um estilo coletivo .
 Ela dever orientar as necessidades

 materiais e espirituais do  homem integral  .

 Apesar das origens nacionais , culturais e artsticas distintas , os

 artistas do grupo Cercle et Carr desenvolvem pensamentos tericos

 diversificados , mas possuindo um corpus comum .
 Torres-Garcia chega

 mesmo a admitir que o mencionado grupo por suas diferenas procura

 elementos que os possam unir contra o Surrealismo , sendo um deles a

 ordem .
 Esta  pesquisada atravs da geometria e do conceito de

 estrutura , tendo como fatores reveladores a cidade e a mquina .
 A

 ltima no mais como fetiche , mas como fator de admirao pelo

 esprito de sntese e funcionamento ordenado .

 Roger Cardinal salienta que , nos anos 20 , o Surrealismo apresenta um

 teor quase anarquista ou criminoso , procurando o seu estatuto fora da

 lei , sendo desaprovado pela imprensa por sua atitude de subverso e

 transgresso .
 Ora , Cercle et Carr tem um fim regenerador face  crise

 dos anos 30 , visto que procura criar uma nova ordem social e humana .

 Se originalmente , muitos dos artistas produziram obras e textos

 fundamentando-se na espiritualidade metafsica , no momento da fundao

 da revista , muitos orientam-se a favor da plasticidade .
 Como so os

 casos por exemplo de Mondrian , Kandinsky e Seuphor , cujas buscas do

 absoluto no chegam a ser muito enfatizadas , como em outras pocas .

 O ltimo nmero da revista constitui-se , praticamente , de textos sobre

 arquitetura e cinema , redigidos por Le Corbusier , Walter Gropius , Jean

 Gorin , Adolf Behne , Vantongerloo , Hans Richter , Raoul Hausmann ,

 Seuphor , Jan Brzekowski e outros .
 Nos textos sobre arquitetura h uma

 certa unanimidade no que se refere ao papel desta no sentido de

 produzir as transformaes na vida humana coletiva , assim como na

 funo que ela exerce ao colocar em ordem elementos de natureza

 diversa .
 Le Corbusier enfatiza , por exemplo , que a ordem  fruto da

 mensurao e que a arquitetura  produzida pela  equao razo e

 paixo  .

 Os arquitetos acreditam , como Gropius , que construir significa

 sobretudo dar forma a fenmenos da vida e no se deter apenas nos

 aspectos puramente estticos , econmicos ou tcnicos .
 O seu conceito

 de belo vincula-se tambm  ordenao e ao domnio destes aspectos

 considerados secundrios no processo construtivo .
 No texto de Gropius

 fica ainda evidenciada a finalidade da arquitetura em atingir o

 universal , a partir da valorizao espiritual e do combate ao

 individualismo .

 Alm dos arquitetos preocuparem-se com a integrao das artes , o fim

 da especializao e a estetizao da vida , alguns artistas plsticos

 comeam a executar projetos arquitetnicos , como  o caso de Georges

 Vantongerloo , que apresenta um artigo na revista e os seus projetos

 tipolgicos de aereoportos .

 Em relao ao cinema , os autores defendem uma concepo nova , em

 geral , de teor dinmico e abstrato .
 Hans Richter destaca a necessidade

 de representar o movimento , como  movimento artificial  , isto  , o

 ritmo ordenado com possibilidades de graduao , de reduo e

 aceleramento , aproximao e afastamento .

 J Raoul Hausmann , demonstra que o cinema no pode tomar de emprstimo

 as cenas teatrais , mas que deve ter , primeiramente ,  uma estrutura ,

 uma composio tica feita de analogias e de contrastes entre as

 formas e os objetos , os movimentos .
  Ele salienta ainda o papel da

 luz para intensificar o movimento das formas , propondo a autonomia das

 mesmas .

 Ao enfatizarem a necessidade de renovao do cinema , os diferentes

 autores esto batalhando pela independncia da cinematografia e , ao

 mesmo tempo , para o desenvolvimento do filme abstrato , como a forma

 mais elevada de arte , pois ela no depende do acaso , mas de um

 controle objetivo .
 Jan Brzekowski aproveita para criticar as

 influncias nefastas do Surrealismo , e teorizar sobre a construo

 abstrata , baseada em formas geomtricas , como o crculo , o quadrado , o

 losango e suas potencialidades de vibrao .

 Em relao ao cinema , os textos so mais orientados ao problema da

 autonomia e s questes relativas  criao de uma linguagem prpria ,

 buscando uma insero nos movimentos de vanguarda .
 No se observa

 nestes a incluso de projetos messinicos e nem preocupaes com a

 crise que antecede a guerra .

 O grupo Cercle et Carr procura atravs da revista promover o debate

 terico entre os artistas plsticos , poetas , arquitetos , cineastas ,

 musiclogos e teatrlogos , de modo a se concretizar o objetivo da

 integrao das artes , a partir da linguagem abstrata e universal .
 Esta

 linguagem deveria excluir , assim , a referncia  natureza e

 constituir-se como um dos princpios preliminares de aplicao da arte

 na vida cotidiana .

 Apesar de haver uma certa ciso entre os artistas que concebem a arte

 segundo uma perspectiva metafsica e aqueles que defendem a aliana

 com a matemtica , em prol da racionalidade e do rigor cientfico ,

 ambos buscam , atravs de caminhos distintos , a integrao das artes e

 ou a estetizao da realidade .

 Cercle et Carr , diferentemente de outras revistas da poca , no

 dedica nenhuma matria s artes primitivas .
 Sabe-se que Torres-Garcia ,

 neste momento , se interessa muito pelas artes africanas ,

 pr-colombianas , etc. e que frequenta as exposies que ocorrem em

 Paris sobre as mesmas .
 A sua pintura apresenta uma srie de smbolos ,

 de teor figurativo , originrios de pesquisas desenvolvidas neste

 sentido .
 Quando retorna ao Uruguai , ele continua as suas investigaes

 sobre as artes pr-colombianas e escreve vrios artigos e livros , nos

 quais salienta a sua importncia para a criao do  Universalismo

 Constructivo  .
 Muitos dos textos sobre este tema so publicados em

 Circulo y Cuadrado ( 1936-1943 ) que  lanado , em Montevido , como o

 peridico que sucede Cercle et Carr .

 Explica-se talvez a ausncia de artigos a respeito das artes

 primitivas pelo fato da revista propor , desde o incio , assumir a

 oposio ao Surrealismo e com isto relegar a esttica dos grupos

 primitivos , cara ao mesmo .

 A relao arte / matemtica , exaltada por parte dos artistas , no admite

 o carter simblico da pintura , ao valorizar a abstrao aliada a um

 certo cientificismo .
 Esta questo  um dos pontos de discrdia entre

 Torres-Garcia e parte do grupo , visto que o sentido metafsico da sua

 obra coaduna-se com as noes que vigoram meio aos etnlogos , na

 poca , de que o  mundo dos povos primitivos  habitado inteiramente

 por espritos. ( ...
 ) A imagem  a materializao das foras espirituais

 ( ...
 ) .
  Esta noo est muito presente no pensamento de Torres-Garcia

 e em sua obra , assim como nas investigaes dos artistas surrealistas .

 O artista uruguaio , como outros artistas e intelectuais , defende a

 retomada das fontes primeiras por acreditarem ser esta um meio de

 encontrar as fontes do futuro e das novas origens .

 Fora isto , Torres-Garcia exalta outra idia corrente de que a arte

 primitiva representa a coletividade , na medida que  produzida em

 grupo e de forma annima .
 Outro ponto significativo ,  que o

 Surrealismo tenta conciliar o pensamento europeu com o primitivo , 

 visando restaurar o sentimento perdido da participao mstica  , na

 cultura moderna .
 Este  o procedimento que o artista uruguaio assume

 desde o momento que ele conhece as manifestaes das artes negra ,

 indgenas e moderna europia .
 Ele procura estabelecer uma sntese

 entre elas , que  fundamentada num profundo arcabouo terico e no

 projeto messinico de arte total para a Amrica .
 Para ele , esta

 possibilitaria a unificao de todos os povos sul-americanos , pois

 seria universal e , ao mesmo tempo , a nova arte no implicaria na perda

 da matiz de cada cultura .

 A pintura de Torres-Garcia caracteriza-se por ser resultante de suas

 investigaes no Cubismo , Neo-Plasticismo , Surrealismo e artes

 primitivas , sem atingir plenamente a abstrao , na medida que preserva

 elementos figurativos paralelos ao uso da estrutura geomtrica e do

 espao bidimensional .
 A sua obra no se constitui plenamente como arte

 abstrata e tambm no se engaja no Surrealismo .
 Por no se integrar

 perfeitamente  abstrao , nem ao Surrealismo e divergir de seus

 companheiros de grupo , ele abandona Cercle et Carr e  praticamente

 esquecido pelos historiadores europeus .

 Cercle et Carr ao reunir artistas de diferentes nacionalidades ,

 oriundos de distintos movimentos de vanguarda , sendo que muitos no

 residentes na Frana , assume um carter internacional , assim como a

 exposio organizada pelo grupo , de 18 de abril a 1 de maio de 193O .

 Esta pretende ser a primeira exposio internacional de arte abstrata ,

 num momento de fortes nacionalismos e de emergncia de Estados

 totalitrios que prescrevem a figurao e a retomada das razes

 culturais nacionais .

 Apesar da revista defender a abstrao , enquanto a crtica de arte

 oficial batalha pela preservao da arte figurativa , ela no tem em

 vista produzir uma revoluo num campo artstico em crise e resistente

 s mudanas radicais .
 Michel Seuphor destaca no texto-manifesto do

 primeiro nmero do peridico que este , no lugar da revoluo , tem em

 vista colocar  ordem e a vontade de perfeio .
  Parte do grupo

 procura , atravs de Cercle et Carr e da exposio de suas obras , ter

 um fim regenerador e transformar a arte , criando um novo humanismo .
 O

 projeto messinico continua , assim , presente e orientando o trabalho

 de alguns dos artistas que acreditam ser este a soluo para enfrentar

 a crise da arte e da sociedade , no incio dos anos 3O .

 Entretanto , a ausncia de homogeneidade entre os membros do grupo

 conduz ao desaparecimento do mesmo e a constituio de novos grupos e

 movimentos , como o de Arte Concreta e de Abstrao-Criao .

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