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 O Surrealismo no Cinema

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 PorAndr Setaro

 Apesar da surrealidade de certos ttulos de trabalhos apresentados no SOCINE ,

 resultantes de palavras-chaves que vm mais para confundir do que para

 esclarecer , havendo , mesmo , em alguns casos , uma certa estultice nomenclatural

 a repetio sistemtica e quase obsessiva de contemporaneidade , olhar ,

 representao et caterva , embora o brilhantismo de outros tantos , apesar das

 surreais atitudes assumidas por alguns dos cineastas baianos que agem como

 possudos por um delrio de amour fou pelas imagens em movimento , o fato  que

 para se falar em surrealismo o melhor mesmo  se ater s suas caractersticas

 bsicas .
 O propsito desse artigo  introduzir brevemente o leitor na tambm

 chamada suprarealidade .
 O que vem , afinal de contas , a ser o surrealismo ?

 O cineasta , quando realiza um filme , traduz o real , e , no cinema , h ,

 basicamente , quatro modos de representao da realidade : ( 1 ) o realismo e suas

 variadas vertentes ( neo-realismo , realismo potico , realismo socialista ...
 ) ;

 ( 2 ) o idealismo ( tambm conhecido como intimismo cujo apogeu se d com a idade

 de ouro do cinema americano anos 30 e 40 ) ; ( 3 ) o expressionismo ( Alemanha nos

 anos 10 e 20 ) ; e ( 4 ) o surrealismo , que tem em Luis Buuel a sua maior

 expresso .
 O grande pblico est mais acostumado com o realismo e o intimismo .

 Um filme surrealista sempre deixa nele uma impresso de confuso , pois

 habituado a ver tudo mastigado , com uma explicao racional e lgica para as

 artimanhas do enredo .
 Vamos ver aqui em rpidas pinceladas o que vem a ser o

 surrealismo no cinema .

 O surrealismo parte de uma atitude revolucionria em filosofia , cujo verdadeiro

 objetivo no consistiria em interpretar o mundo , mas , sim , em transform-lo .
 Na

 forma exposta por seu principal animador , Andr Breton , o surrealismo revela

 forte influncia do materialismo dialtico , dele retirando sua lgica da

 totalidade .
 Assim como o sistema social constitui um todo e nenhuma de suas

 partes pode ser compreendida separadamente , a arte no deve ser o reflexo de

 uma parcela de nossa experincia mental ( a parcela consciente ) , mas uma sntese

 de todos os aspectos de nossa existncia , especialmente daqueles que so mais

 contraditrios .

 O surrealismo tenciona apresentar a realidade interior e a realidade exterior

 como dois elementos em processo de unificao , e nisto est sua capacidade de

 passar do esttico para o dinmico , de um sistema de lgica a um modo de ao ,

 o que  uma caracterstica da dialtica marxista .
 O cinema se revelou como o

 instrumento ideal para a conquista da supra-realidade , pois a cmera  capaz de

 fundir vida e sonho , o presente e o passado se unificam e deixam de ser

 contraditrios , as trucagens podem abolir as leis fsicas , etc .

 Quando Buuel apresentou , em Paris , O Anjo Exterminador ( 1961 ) , o exibidor lhe

 solicitou que escrevesse alguma coisa para colocar na porta da sala de

 exibio .
 Buuel rabiscou o seguinte : A nica explicao racional e lgica que

 tem este filme  que ele no tem nenhuma .
 Noutra ocasio , ao ganhar o Leo de

 Ouro de Veneza por A Bela da Tarde ( Belle de Jour , 1966 ) , lhe perguntaram o

 significado da caixinha de msica que um japons carrega quando no quarto com

 Catherine Deneuve .
 O cineasta respondeu que no sabia .
 Assim , o espectador no

 pode racionalizar dentro de determinada lgica nos filmes surrealistas .
  claro

 que os significados existem , amplos , dissonantes e inslitos .
 E por que os

 convidados aristocrticos de O Anjo Exterminador , ainda que no haja nenhum

 obstculo que lhes impeam de sair , no conseguem evadir-se da manso ?
 Um

 recurso surreal para a anlise da condio humana , um laboratrio criado para

 se investigar pessoas numa situao-limite .

 Excetuando-se alguns ensaios vanguardistas e sua fugidia presena em comdias

 de Buster Keaton , Jerry Lewis , Jim Carrey , em filmes de Carlos Saura ( Mame Faz

 Cem Anos , etc ) , Jean Cocteau ( O Sangue de um Poeta / Le sang dun poete ) , entre

 poucos outros , o surrealismo cinematogrfico est inteiramente contido em Un

 Chien Andalou ( 1928 ) e LAge DOr ( 1930 ) , ambos do espanhol Luis Buuel , com

 colaborao de Salvador Dali .
 A cena inicial do primeiro  famosssima : o

 prprio Buuel , aps contemplar uma enorme lua prateada no cu , afia uma

 navalha e corta pelo meio o globo ocular de uma mulher que est sentada .
 No

 segundo , vemos um co ser arremessado pelos ares , uma vaca deitada sobre a

 cama , um bispo e uma rvore em chamas sendo despejados por uma janela ,

 situaes de delrio ertico , baratas numa mo que toca pianola , etc .

 A ambigidade do termo surrealismo pode sugerir transcendncia , predomnio da

 imaginao sobre a realidade .
 Estaria na imaginao de Sverine sua ida ao

 bordel todas as tardes ?
 A rigor , isso no importa , A significao  mais ampla ,

 conecta-se mais ao discurso do modo de traduo do real .
 O surrealismo

 pretendia um automatismo psquico que expressasse o funcionamento real do

 pensamento .
 Voc , caro leitor , s vezes no tem pensamentos indesejveis ?
  o

 inconsciente .
 Assim , e isto  muito importante , o domnio do surrealismo  o

 que acontece na mente humana antes que o raciocnio possa exercer qualquer

 controle .
 O papa surreal Andr Breton dormia com um caderno em cima do criado

 mudo para anotar os seus sonhos , chamando , tal comportamento , de escrita

 automtica .

 O automatismo provocado pelo surrealismo implica numa transfigurao anrquica

 do mundo objetivo , cujo efeito imediato  o riso .
 Mas o humor , aqui ,  uma nova

 tica destinada a sacudir o jugo da hipocrisia .
 E o sonho  encarado como uma

 revelao do esprito , sendo afirmada a sua riqueza sob o duplo ngulo da

 psicologia e da metafsica .
 Para chegar  conscincia integral de si prprio , o

 homem tem de decifrar o mundo do sonho , pois deix-lo na obscuridade representa

 uma mutilao do nosso ser .

 Un Chien Andalou e Lge dOr procuravam , pois , o homem integral , buscando a

 recuperao total de nossa fora psquica por um meio que representa a

 vertiginosa descida para dentro de ns mesmos , a sistemtica iluminao de

 zonas ocultas , como consta do manifesto de Breton .
 Neles tm um papel saliente

 o grotesco , o cruel , o absurdo , tudo com um sentido de revolta e solapamento .

 Segundo Breton , qualquer diviso arbitrria da personalidade humana  uma

 preferncia idealista .
 Se o propsito  o conhecimento da realidade , devemos

 incluir nela todos os aspectos de nossa experincia , mesmo os elementos da vida

 subconsciente .
 Essa  a pretenso do surrealismo , movimento artstico que

 abrangeu alm da pintura , escultura e cinema , tambm a prosa , a poesia , e at a

 poltica e a filosofia .

 Escrito em 10/11/2004

 [ USEMAP ]

