 Surrealismo em Portugal , 1934-1952

 [ Retrospectiva ]

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 [ in Cartaz Expresso , 2/06/2001 ]

 SURREALISMO EM PORTUGAL , 1934-1952

 ( Museu do Chiado .
 At 23 de Setembro )

 [ LINK ]

 SURREAL PLURAL - Celso Martins

 [ INLINE ]

 " Cadver esquisito "

  Cadver esquisito  de Antnio Domingues , Antnio Pedro , Fernando Azevedo ,

 Joo Moniz Pereira e Vespeira , de 1948

 Referido logo em 1924 e debatido ao longo dos anos 30 , o surrealismo

 s se organizou entre ns como movimento no final dos anos 40 .
 Apesar

 de tardio como fenmeno colectivo , foi motivo de inmeras polmicas e

 paixes , tendo os desentendimentos entre alguns dos seus cultores mais

 ilustres gerado dios ainda hoje insanados .
 A sua influncia na

 cultura portuguesa da segunda metade do sculo  , porm , imensa .

 Surgido como reaco esttica e poltica ao  homus economicus 

 neo-realista , o movimento reclamou-se , como o seu congnere francs ,

 um projecto tico e programa existencial rumo a uma vida plena ,

 liberta dos entraves da razo .
 Em Portugal , o fascismo e a relao com

 as suas instituies culturais foram a sua fronteira tica .

 Produzida em conjunto pelo MEIAC de Badajoz , onde foi mostrada em

 Maro , e o Museu do Chiado ,  Surrealismo em Portugal , 1934-1952   a

 mais extensa retrospectiva do movimento alguma vez realizada e possui

 o mrito de revelar um largo conjunto de obras que permaneciam

 inditas ou pouco conhecidas .
 Precursores , grupos , antigrupos , papas ,

 hereges ,  compagnons de route  , quase todos esto presentes numa

 revisitao que entrelaa o fenmeno literrio e a experincia

 plstica .

 Comissariada por Mara Jess vila ( artes plsticas ) e Perfecto E .

 Cuadrado ( literatura ) , a exposio situa o seu enquadramento

 cronolgico entre o ano em que Antnio Pedro realiza as suas pinturas

 e poemas dimensionais e as ltimas aces colectivas , em 1952 , com a

 exposio de Fernando Lemos , Fernando Azevedo e Vespeira na Casa

 Jalco , mas estes limites s se aplicam s artes plsticas .
 De fora ,

 ficam algumas contaminaes surrealizantes em obras anteriores ( Paulo

 Ferreira ) e os desenhos claramente surrealistas que Jlio realizou nos

 anos 30 , para alm dos trajectos individuais posteriores a 52 , que

 continuaram a reclamar o surrealismo como referncia essencial .
  ,

 pois , o surrealismo  histrico  e no  a nica real tradio viva 

 reivindicada por Cesariny que se apresenta no Chiado .

 [ INLINE ] Ferando Azevedo

 Fernando Azevedo ,  Ocultao  , 1950-51

 Em Lisboa , a montagem estabelece uma narrativa coerente que caldeia

 com habilidade as figuras individuais e as dinmicas de grupo , numa

 multiplicidade de prticas que engloba a pintura , a colagem , objectos

 e fotografias , a que se juntam os livros e as revistas , catlogos e

 panfletos com que se fizeram a poesia e a actividade polemista dos

 anos de combate .
 Mais do que as dissenes entre os dois grupos rivais

 ( o Grupo Surrealista de Lisboa , criado em 1947 , e Os Surrealistas ,

 formado por Cesariny no ano seguinte ) , sobressai uma transversalidade

 de tcnicas , pressupostos e at de imaginrios .

 Uma primeira sala prope Antnio Pedro como pioneiro do surrealismo em

 Portugal , atravs de pinturas e de um poema realizados a partir de 34 ,

 assumidos ento como obras dimensionistas , para , num segundo momento ,

 se colocar Pedro lado a lado com Antnio Dacosta e Cndido Costa

 Pinto .
 Esta exposio simultnea da pintura de Pedro e Dacosta no

 deixa , porm , grandes dvidas sobre a diferena qualitativa que as

 separa , em claro desfavor do primeiro .

 O percurso , sempre pontuado pela presena da literatura , faz-se depois

 com a fotografia de Fernando Lemos , caso isolado entre ns da

 explorao deste suporte .
 As suas fotografias convocam as imagens dos

 seus companheiros , distorcendo-as , estabelecem vises fantasmticas de

 manequins ou erotizam o corpo em vises fragmentadas pela luz , um

 pouco na senda das exploraes lumnicas de Man Ray .

 Segue-se uma galeria de trabalhos que junta um nmero alargado de

 artistas ( alguns deles s ocasionalmente constituram trabalho

 plstico ) de onde emergem ncleos individuais importantes .
  o caso

 das paisagens metafsicas de Carlos Calvet , da pintura tocada por

 vises mrbidas de Moniz Pereira , do erotismo glido de Vespeira ou

 dum outro mais solar de Azevedo , obras que , por vezes , no escapam aos

 esteretipos do surrealismo daliniano , mas que de modo diverso

 encontraram depois caminhos de superao .

 No campo dos objectos , sinalizam-se as pequenas e sensuais esculturas

 realizadas por Jorge Vieira em 48 e algumas peas exemplares do seu

 trabalho mais claramente primitivista e mgico .
 Um conjunto de

 objectos de Cruzeiro Seixas que adoptam estratgias dadastas a partir

 de materiais pobres e as inditas ou pouco conhecidas colagens de

 Mrio Henrique Leiria , Jorge Vieira e Cesariny so algumas das

 surpresas desta exposio , at pela frescura e o humor que ainda hoje

 exibem .

 [ INLINE ] Mrio Cesariny

 Pintura sem ttulo de Mrio Cesariny , 1951

 So as interessantssimas ocultaes de Fernando Azevedo , recuperando

 as estratgias tcnicas de Max Ernst e a tenso potica entre

 revelao e segredo , a abrir caminho s exploraes no figurativas

 que constituiriam tendncia genrica ( mas no exclusiva ) do

 surrealismo do ps-guerra .
 Cndido Costa Pinto tem aqui um papel

 pioneiro com o seu Incio , pintura de 1945 , onde explana um serpentear

 de cores ritmadas , a que se juntam Azevedo , um muito lrico Vespeira ,

 Lemos ou Pedro Oom , em sensitivas paisagens interiores .
 Cesariny , por

 seu lado , alarga as experincias informais s prprias tcnicas ,

 usando tintas e verniz industrial soprados automaticamente .

 Misturar a palavra e a imagem , ou simplesmente dar  palavra uma

 dimenso visual , foi um dos desgnios libertadores do surrealismo .
 Os

 poemas dimensionais de Pedro e as colagens e poemas-colagens de

 Cesariny so paradigmticos desta atitude , de par com as composies

 humorsticas de Mrio Henrique Leiria ou Pedro Oom , numa prtica que

 se alargou a quase todos os surrealistas .

 A exposio termina , emblematicamente , acentuando o carcter colectivo

 que caracterizou a aventura surrealista .
 Ao lado dos jogos de palavras

 exibidos nas paredes , mostram-se alguns dos  cadveres esquisitos 

 realizados pelos dois grupos .
 So pequenas colaboraes sobre papel ,

 mas tambm uma pintura de grande dimenses , de 48 , realizada por

 Azevedo , Domingues , Pedro , Moniz Pereira e Vespeira , destacada

 internacionalmente como o nico  cadavre-exquis  inteiramente pintado .

 Ainda que a exposio deixe sobressair as artes plsticas em relao 

 literatura ( o que  natural , dado o carcter visual da primeira ) , o

 surrealismo manteve-se sobretudo influente na cultura portuguesa

 atravs dos seus melhores poetas ( Cesariny , O'Neill , Lisboa ) .
 Como

 explorao dos limites da conscincia , no deixou de atrair novas

 geraes de criadores ( Luiza Neto Jorge , Antnio Areal , Paula Rego ,

 Herberto Hlder ou Mrio Botas foram , de alguma forma , contaminados ) ,

 mantendo-se ainda actuante no aprofundamento das obras individuais dos

 seus membros que , j fora da camaradagem inicial , continuaram a sempre

 inacabada busca de um mundo aumentado por dentro .

 Cartaz EXPRESSO , 2/06/2001

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 ENTRE O REAL E A UTOPIA - Antnio Guerreiro

 [ INLINE ] Mrio Henrique Leiria

 Poema-colagem de Mrio Henrique Leiria

 Ao integrar o surrealismo literrio em Portugal , esta exposio fornece um

 contributo importante para o conhecimento de um dos captulos menos estudados

 da histria da literatura portuguesa do sculo XX. Acrescente-se , alis , que um

 dos comissrios , Perfecto E. Cuadrado , que assina , no catlogo , um extenso

 texto sobre  Surrealismo , Movimento Surrealista e Poesia Surrealista em

 Portugal  , j era conhecido entre ns por ter organizado uma antologia da

 poesia surrealista portuguesa , intitulada A nica Real Tradio Viva ( Assrio &

 Alvim , 1998 ) , precedida de um extenso estudo introdutrio .

 As razes que explicam este relativo desconhecimento no so certamente

 estranhas ao facto de o  movimento  ( coloquemos a palavra para significar que

 ela implica uma tese : Perfecto Cuadrado defende que se trata de um autntico

 movimento de vanguarda ) ter sido preenchido por vicissitudes pessoais e de

 grupo , por polmicas e dissidncias cujos contornos doutrinrios ( se os havia )

 nem sempre so fceis de perceber .
 Mas essas razes residem tambm nalguma

 desconfiana que a produo literria dos surrealistas portugueses quase sempre

 suscitou : ou porque foi visto como uma imitao tardia do surrealismo francs

 ( Perfecto Cuadrado fornece argumentos contra esta tese e cita , a seu favor , um

 estudo de Antonio Tabucchi sobre os poetas surrealistas portugueses :  O

 surrealismo portugus no nasceu , todavia , como um fenmeno de imitao

 retardada , mas como necessidade de um momento histrico e cultural bem

 preciso  ) ; ou porque um contexto marcado , at muito tarde , pela hegemonia

 neo-realista no era favorvel a uma leitura sem preconceitos da literatura

 surrealista .

 Os factos irrefutveis a partir dos quais , geralmente , se deduz o carcter

 tardio e epigonal do surrealismo portugus so estes : enquanto movimento , ele

 s surge em 1947 , ou seja , mais de duas dcadas depois de ter surgido em Frana

 ( Breton organiza o movimento surrealista entre os anos 1921-23 e publica o

 primeiro manifesto em 1924 ) ; a assimilao de toda a doutrina bretoniana 

 assimilada e explicitamente assumida , nomeadamente , no Final de Um Manifesto

 que Cesariny escreve em 1949 .
 A se dizia que  a ( nossa ) posio surrealista

 decorre : dos Manifestos do Surrealismo na edio Sagittaire , 1947 ; dos

 Prolegmanos a Um Terceiro Manifesto do Surrealismo ou No , da mesma edio  .

 Mas decorre tambm , como podemos ler nesse texto programtico ,  da obra

 colectiva de Segismund Freud , Mrio de S-Carneiro , Arthur Rimbaud , Guillaume

 Apollinaire , Antonin Artaud , Heraclito ( ...
 ) ; das alucinaes de Ral Brando ,

 Gomes Leal e ngelo de Lima ; do assassino de Fernando Pessoa : Ricardo Reis  .

 [ INLINE ] Poema-colagem de Mrio Cesariny

 Poema-colagem de Mrio Cesariny

  verdade que o surrealismo portugus foi bastante pobre em textos de

 carcter doutrinal e em textos colectivos de interveno , mas o facto

 de no ter elaborado teoricamente uma doutrina no significa que no

 seja dotado de especificidade e de valor prprio .
  o que defende

 Perfecto Cuadrado , destacando por exemplo a fora que nele assume , a

 par de uma evidente influncia do surrealismo francs ( tanto nos temas

 como nas tcnicas , designadamente esse exemplo da escrita automtica

 que  o  cadver esquisito  ) , a tradio satrica da poesia portuguesa

 e essa outra marca de originalidade , o Abjeccionismo , que ,  definido

 ou redefinido sobretudo por Pedro Oom , foi frequentemente considerado

 como a componente mais especfica e rica do surrealismo portugus 

 ( pg. 293 ) .
 Uma outra caracterstica do nosso surrealismo  a presena

 quase exclusiva da poesia : a literatura surrealista  , por definio ,

 a poesia .

 Em 1973 , Natlia Correia publicou uma antologia intitulada O

 Surrealismo na Poesia Portuguesa , onde mostrava marcas de surrealismo

 na literatura oral e escrita de todas as pocas da literatura

 portuguesa .
 Seguindo um procedimento que encontramos com alguma

 frequncia , o surrealismo era a entendido no como um movimento

 histrico preciso mas como uma constante trans-histrica .
 Este no  o

 princpio que segue esta exposio .
 Pelo contrrio , ela  orientada

 por uma demarcao muito precisa do surrealismo histrico ( e isso

 explica certamente que uma discutvel definio cronolgica -

 1934-1952 - faa parte do ttulo da exposio ) .
 Isto no significa , no

 entanto , que se tenha querido traar uma histria do movimento

 surrealista em Portugal .
  certo que o catlogo apresenta , no final ,

 uma cronologia exaustiva que vai desde 1924 a 2001 .
 Mas no h aqui ,

 tal como no percurso da exposio , uma preocupao predominantemente

 historicista .
 Essa histria , a fazer-se , levantaria srias

 dificuldades , como avisou Mrio Cesariny , que colocou o movimento

 surrealista  entre dois impossveis , o do incio e o do fim  .

 A perspectiva adoptada , muito mais imanentista , no sentido de uma

 anlise e caracterizao da poesia surrealista , concede muito pouco

 espao ao relato das polmicas e dissidncias internas , assim como s

 lutas entre surrealistas , neo-realistas e presencistas. Acrescente-se ,

 de resto , que as motivaes esttico-literrias se revelam muitas

 vezes insuficientes para explicar o que se passou .
 S para dar um

 exemplo : a dissidncia de Cesariny em relao ao Grupo Surrealista de

 Lisboa , formando um novo grupo que se intitulou Os Surrealistas , no

 tem contornos muito bem definidos .
 Tal como a hostilidade em relao a

 Jorge de Sena , que em 1947 se aproximou do Grupo , assim como aos

  Cadernos de Poesia  , no  facilmente integrvel numa histria feita

 com uma certa distncia em relao ao contexto da poca .
 Mais fcil de

 perceber , porque mais codificvel por parmetros doutrinrios ,  a

 oposio entre surrealistas e neo-realistas .
 Mas , neste campo ,

 Perfecto Cuadrado d do surrealismo literrio em Portugal uma ideia

 que nem sempre lhe foi reconhecida : a de ser um movimento com uma

 forte motivao interventiva e , por isso mesmo , indissocivel do

 contexto poltico da poca .

 Deixa-me sentar numa nuvem a mais alta e dar pontaps na lua que era como devia

 ter vivido a vida toda dar pontaps at sentir um tal cansao nas pernas que

 elas pudessem voar mas no  possvel que tenho tonturas e quando olho para

 baixo vejo sempre plancies muito brancas interminveis povoadas por uma enorme

 quantidade de sombras d-me um co ou uma bola ou qualquer coisa que eu possa

 olhar d-me os teus braos exaustivamente longos d-me o sono que me pediste

 uma vez e que transformaste apenas para teu prazer nos nossos encontros e nos

 nossos dias perdidos e achados logo em seguida depois de terem passado por uma

 ponte feita por ns dois em qualquer stio me serve encontrar o teu cabelo em

 qualquer stio me bastam os teus olhos ( ...
 )

 Mrio Henrique Leiria

 Cartaz EXPRESSO , 2/06/2001

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 ANTES E DEPOIS DE 1947 - Alexandre Pomar

 [ INLINE ]

 Antnio Dacosta

 Antnio Dacosta ,  Serenata Aoriana  , 1940 , exposto nesse ano na Casa Repe , ao

 Chiado

 O surrealismo portugus no se deixa converter facilmente em objecto

 de estudo  cientfico  e a exposio do Museu do Chiado  mais um

 testemunho das divergncias e tenses que o movimento continua a

 suscitar .
 Apesar do recurso aos esplios pessoais dos intervenientes

 desavindos em 1948 , que permite apresentar , pela primeira vez , um

 panorama  unitrio  do perodo organizado do surrealismo ( 1947-50 ) ,

 permanece actuante a oposio entre as teses historiogrficas

 sustentadas por Jos-Augusto Frana , grandemente centradas no seu

 activo papel de crtico , e , por outro lado , a recusa protagonizada por

 Mrio Cesariny , tambm antlogo e historiador militante do movimento ,

 de deixar interpretar como mais um estilo numa sucesso  progressiva 

 de estilos o que para alguns continuou a ser uma inspirao viva e

 libertadora .

 Basta observar a diversidade dos horizontes cronolgicos seguidos nas

 duas vertentes da mostra , artes plsticas e literatura , para

 reconhecer que o ttulo  Surrealismo em Portugal , 1934-1952  recobre

 abordagens que no se conciliaram no seu duplo comissariado .
 1952 foi

 a data adoptada por Frana para encerrar a retrospectiva dos Anos 40 ,

 em 1982 .
 A actual reincidncia volta a ter em conta a exposio de

 Fernando Azevedo , Fernando Lemos e Vespeira na Casa Jalco , mas no

 corresponde , de facto ,  data da disperso dos colectivos , que ocorre

 em 49 quanto ao Grupo Surrealista de Lisboa ( aquele em que , alis ,

 Azevedo e Vespeira intervieram ) e durante 51 , mas muito mais

 informalmente , quanto a Os Surrealistas .

 Para alm das individuais sucessivas de Cruzeiro Seixas e Cesariny ,

 outras exposies de Eurico Gonalves e Dante Jlio , em 54 ( Galeria de

 Maro ) , Antnio Areal , Carlos Calvet e Jorge Vieira , em 56 ( Gal .

 Prtico ) , permitiriam no estabelecer qualquer fronteira naquele ano ,

 e o mesmo acontece face s edies de poesia e de textos de

 interveno que continuaram a ocorrer .
 Mais exactamente , a data de 52

  conveniente para os que entenderam abandonar ou superar o movimento

 ( ou o estilo ) surrealista , mas improcedente para os que permaneceram

 fiis ao  propsito inicial  ou que por ele se interessaram ainda ao

 longo das dcadas de 50 e 60 ( at Mrio Botas , possivelmente ) .

 [ INLINE ] Surrealistas na sua 1 exposio

 Os Surrealistas na sua primeira exposio , em 1949

 A propsito , at para observar como a histria foi sendo reconstruda ,

  curioso recordar a crtica que Frana publicou em 52 na  Seara Nova 

 sobre a exposio da Casa Jalco , desviando-a de qualquer justificao

 surrealista para a apontar como abertura a novas orientaes

 genericamente  no figurativas  , que pouco depois tero sequncia na

 sua defesa da abstraco geometrista , como um novo captulo de

 informao parisiense .
 Falta s revises produzidas por novos autores

 o contacto sistemtico com as fontes do tempo , trocando-se a

 informao em primeira mo por snteses que nunca foram sujeitas a

 qualquer reexame .

 No sendo esta a primeira retrospectiva que se quis distanciar das

 polmicas entre os anteriores protagonistas ,  indispensvel

 confront-la com os critrios seguidos pelos dois anteriores ensaios .

 Ambos divergem da actual mostra quanto aos prolegmenos do surrealismo

 nacional , antes da fase que vai de 1939 a 47 , graas  incluso de

 obras de Jlio ( Reis Pereira ) , e tambm quanto  continuidade da

 inspirao surrealista .
 Em 83 , Lus de Moura Sobral apresentou em

 Montral  Le Surralisme Portugais  , propondo-se sumariar um perodo

 de 1934 a 1960 , com a representao adicional de Eurico , Antnio

 Quadros , Areal e Gonalo Duarte .
 Em 99 ,  Desenhos dos Surrealistas em

 Portugal .
 1940-1966  , promovida pelo Instituto de Arte Contempornea

 no Museu Soares dos Reis , com organizao de Paulo Henriques , incluiu

 tambm Areal e Eurico , apesar da sua abordagem muito concisa .

 Encontram-se nos textos introdutrios ao presente catlogo , e em

 especial no longo ensaio de Mara de Jess vila , argumentos em defesa

 das opes agora praticadas , mas  improvvel que estas faam escola .

 Ao tomar por limite a data de 52 , a pretexto do desmembramento dos

 grupos assumidos como tais , usa-se uma lgica vanguardista sustentada

 por um sentido finalista da sucesso dos estilos artsticos que

 desentende o que pretendeu ser a ruptura surrealista .

 Este critrio restritivo tem , no entanto , a vantagem prtica de

 permitir uma muito alargada exibio do perodo organizado do

 movimento , de 47 a 50 ( levado at 52 ) , pondo em relao , mais do que

 em confronto , os dois grupos referidos .
 Esse efeito atenuar-se-ia

 provavelmente com uma seleco mais alargada no tempo e nos critrios

 de admisso - onde tambm deveriam caber , para as mesmas datas , a

 produo surrealista ou surrealizante de Nadir Afonso e Jorge de

 Oliveira , mais o pouco que sobreviveu de Manuel d'Assumpo .
 Assim

 estruturada , a exposio documenta de forma consistente o que , para

 alm de configurar um movimento surrealista mais ou menos incipiente

 ( note-se a coincidncia temporal com o movimento Cobra , de herana

 surrealista ) , foi parte de uma importante afirmao geracional , das

 mais fortes que o sculo XX conheceu em Portugal , contando com as

 orientaes no surrealistas .

 Por outro lado , reconhece-se que a actual mostra  muito marcada pela

 sequncia ( discutvel mas coerente ) da programao do Museu , que

 passou pelas iniciativas dedicadas a Jorge Vieira , A. Pedro , Vespeira

 e Lemos , sem esquecer a coleco do prprio J. - A. Frana , orientao

 essa que tem proporcionado o alargamento do acervo com aquisies e

 doaes .
  essa lgica que justificar , sem servir de legitimao , a

 incluso de Jorge Vieira , que nunca se pretendeu surrealista ,

 relacionando-se com o movimento num convvio pessoal e esttico aberto

 a outras inspiraes .
 Mesmo se  forte a articulao potica e

 plstica com outras obras expostas , a sua presena  problemtica

 dadas as implicaes doutrinrias do movimento e contradiz o perfil de

 independncia que a sua retrospectiva de 1995 lhe reconheceu .

 Entretanto , atravs da organizao espacial da exposio fica bem

 patente que no h movimento surrealista em Portugal at 1947 , embora

 houvesse pintores surrealistas ou praticantes de pintura surrealista ,

 em conformidade com informaes internacionalmente disponveis desde

 os anos 30 .
 O subttulo do catlogo  Consolidao .
 1940-47  

 inadequado porque , mais do que de continuidade , importa falar em

 ruptura entre diferentes fases .
 No  a pintura de Pedro e de Cndido

 ( nem o fulgor breve de Dacosta entre 1939 e 42 ) , que conduz 

 movimentao de 47 , nascendo esta com uma nova gerao que mais ou

 menos informalmente se buscava desde 42-43 , se interessou pelo

 neo-realismo em 1945 ( jornal  A Tarde  ) e em 47 foi colher inspirao

 directa a Paris no regresso de Breton .

 A investigao sobre os antecedentes surrealizantes teria que

 alargar-se s poticas do imaginrio e s expresses do sonho e da

 loucura em Dominguez Alvarez ( Figuras de um Sonho , os  homens tortos  ,

 etc. ) , Mrio Eloy e Jlio , levando tambm em conta a afirmao de

 Cesariny de que Arpad Szenes e Vieira da Silva foram os  introdutores

 do surrealismo na pintura portuguesa da dcada de 30  .

 Quanto  primeira fase do surrealismo nacional , o carcter de ruptura

 atribudo  exposio de Pedro e Dacosta na Casa Repe ( 1940 ) tem de

 ser prudentemente compatibilizado com a apario regular da sua

 pintura nos sales do SPN , desde 39 , depois no SNI , em 45 , e na SNBA

 em 46 e 47 ( 1 e 2 EGAP ) , associada entretanto  confusa produo de

 Cndido Costa Pinto .
 Por outro lado ,  indispensvel que ao

 vanguardismo de Pedro em 34 se associe a sua militncia fascista ( 

 ento comissrio da propaganda de Nacional Sindicalismo e a ida para

 Paris  um  semi-exlio  solidrio com Rolo Preto , como Frana

 ensinou ) , tal como importa referenciar na extrema direita as figuras

 de Dutra Faria e Ramiro Valado , co-autores dos primeiros

  cadavre-exquis  ditos surrealistas .

 Cartaz EXPRESSO , 2/06/2001

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