 Murilo , o surrealismo e a religio 1

 R a  l Antelo

 Murilo Mendes's poetry shows a position balanced between , on the one hand , a scriptural Christianism that believes in a unique and sole truth - - even though such a singularity may remain open to the indeterminacy of signifying systems - - and , on the other hand , a hermeneutic relativism that rejects the idea that there be a final and definite truth. Nevertheless , in order to achieve that goal , it is necessary to analyze the Brazilian cultural atmosphere in which Murilo Mendes developed his ideas about religion and literature. This also involves a reconstruction of the European debate on these topics that took place among the French surrealists and dissidents .

 recente centenrio de Murilo Mendes nos forneceu a ocasio para avaliar de que modo se vinculam , em sua obra , poesia , religio e modernidade .
 Creio , em poucas palavras , antecipando o argumento que pretendo desenvolver , que em Murilo Mendes podemos encontrar uma posio equidistante entre , de um lado , o cristianismo escriturrio , e sua crena de uma verdade nica , ainda que essa singularidade esteja igualmente aberta  indeterminao dos sistemas significantes e , de outro , o relativismo hermenutico , que rechaa a idia de que possa haver uma verdade final e definitiva .
 Porm , para poder demonstrar esta minha hiptese , torna-se necessrio uma anlise do ambiente cultural em que Murilo elabora seus conceitos a respeito de religio e literatura , reconstruindo , notadamente , o debate que , mesmo na Europa de entre-guerras , suscitavam estas questes .
 ***

 " No existe precedente do capitalismo , no sentido que  uma religio que no oferece a reforma da existncia mas a sua completa destruio. [ .
 .
. ] O capitalismo  uma religio de puro culto , sem dogma. " - - Walter Benjamin , O capitalismo como religio ( 1921 )

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 Luso-Brazilian Review 41:1 ISSN 0024-7413 ,  2004 by the Board of Regents of the University of Wisconsin System

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 Para tanto , situemo-nos , de incio , em Paris , no primeiro sbado de janeiro de 1938 .
 Depois de uma srie de apresentaes sobre as seitas e a solido dos animais ( Caillois ) ou sobre o sacrilgio ( Bataille ) , duas formas de debater a condio do sagrado , um etngrafo , Michel Leiris , h pouco retornado de expedio a Dakar , sensibiliza a platia do Colgio de Sociologia falando sobre o sagrado na vida cotidiana .
 Nessa conferncia , ele define o sagrado como um heterogneo ambguo de que somos todos cmplices , o que equivale , portanto , a ver o sagrado como um espao onde impera a incluso polmica muito mais do que o simples antagonismo dialtico .
 Essas hipteses seriam retomadas , mais tarde , em A poesia moderna e o sagrado ( texto redigido em 1940 ; publicado em 1945 ) , por um dos fundadores do Colgio , Jules Monnerot , estudante comunista da Martinica que , diga-se de passagem , surgiria , anos depois , na queda do muro de Berlim , como candidato ao Parlamento Europeu pela Frente Nacional de Le Pen .
 Reencontraremos , como se ver logo mais , esta mesma ambivalncia colocada em outros termos .
 Conste , por enquanto , que o objetivo maior do livro de Monnerot sobre a poesia moderna e o sagrado  estabelecer uma dissidncia aceflica com relao ao surrealismo .
 Define , por exemplo , o grupo de Breton no como um bando ou um cl mas como um set , " la ralisation imparfaite , tremble , manque d'une Forme Ideale , d'un Bund ( au sens o Bund s'oppose  la fois  la Gesellschaft - - societ contractuelle - - et  la Gemeinschaft - - societ consanguine. " 2 Esta diferenciao de Monnerot baseia-se , por sua vez , numa teoria elaborada por Georges Bataille nesses anos de entre-guerras , a teoria da despesa , traduzida ao portugus por Jlio Castaon Guimares .
 Com efeito , Bataille chegou mesmo a postular a existncia de uma economia no mais acumulativa , porm , disseminante , o que postulava espaos sociais bem diferenciados : de um lado , o domnio da heterogeneidade primeva do Bund , objeto da Gesellschaft , e de outro , o dominio da homogeneidade contratual e secreta , a Gemeinschaft .
 Monnerot sublinha este ltimo quando , precisamente , filia a atitude surrealista com o gnosticismo medieval .
 V , com efeito , em Baslides e Valentim , autores de cosmogonias perdidas , platonizantes consumidos pela saudade de um estado de indiferenciao potica , o antecedente direto do set de Breton .
 A vontade de dizer tudo , compreender tudo e tudo integrar se transforma , tanto nos gnsticos quanto nos surrealistas , em vontade de sistema , um sistema que postula um universo com total ausncia de antropocentrismo , assim como uma dimenso do infinito e uma relatividade universal praticamente irrestritas ; um cosmos que mais parece mundo desastrado , fruto de um demiurgo de segunda categoria , que no passa , enfim , de cpia ruim ou canhestro arremedo de aluno principiante .

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 No entanto , o fenmeno gnstico  da maior importncia .
 Na histria das religies , os gnsticos padeceram uma autntica revoluo que , ao institucionaliz-los , retirou-lhes poder ficcional : " le rite alors a refoul la gnose " ( 81 ) .
 Mesmo assim , como admite Renan ,  no seio do gnosticismo que , a partir do tergico , surge o sacramental , argumento segundo o qual Monnerot supe que , do mesmo modo em que existe correlao entre gnosticismo e cristianismo , caberia aventar , a ttulo de hiptese especulativa , uma reciprocidade entre surrealismo e socialismo .
 Baseando-se , com efeito , em Nietzsche ou Sorel , cujas teorias teriam sido confirmadas , a seu ver , pela sociologia , Monnerot descreve o mundo a caminho de uma civilizao ecumnica como a sede de um processo muito ativo de des - ou re-composio , aquilo que ele denomina " une subversion gnrale et multiforme dont on peut contester le sens mais non l'existence " ( 82 ) .
 Esses fenmenos de des - ou re-composio , essa heterogeneidade ambgua , onde impera a incluso polmica muito mais do que o simples antagonismo , esto nos falando de um mundo diverso da racionalidade instrumental e at mesmo da racionalidade crtica .
 Trata-se de um mundo em que os movimentos de idias so mais dinmicos e potentes do que qualquer barreira territorial ou tnica e onde a prpria noo de Imprio favorece a difuso dessas hibridaes problemticas .
  nessas circunstncias , raciocina Monnerot , que ceticismo e nostalgia se associam indissoluvelmente , proliferando sintomas : neo-platonismo , mistrios , ritos depuradores que expurgam a sujeira onipresente , revelaes sobre a hierarquia dos seres , desejos de unio com o absoluto , teosofias , teurgias , mistagogias , esoterismos e at mesmo , com a devida licena de Benjamin , o prprio mtodo alegrico , instrumento singular que o sociologue condena com o argumento de que serve , tanto quanto a psicanlise , para encontrar o que desejarmos onde o quisermos buscar .
 A esse respeito , caberia lembrar que Murilo Mendes previra a situao ao traar um quadro da sociedade francesa pr-revolucionria , em contraponto com a nossa , em uma srie de tableaux baudelairianos que escreve para uma revista ( quase gramsciana ) , Vamos ler !
 , em 1936 .
 Por se tratar de texto indito , permito-me cit-lo por extenso :

 A vida de uma sociedade  como a vida de um homem , em ponto maior .
 Tambm cada homem tem duas vidas , uma para uso interno , outra para uso externo .
 A sociedade francesa dos fins do sculo XVIII , por exemplo , era uma sociedade oficialmente atia , materialista , voltaireana , anti-clerical .
 Mas as camadas subterrneas dessa sociedade traziam uma fermentao prodigiosa de anseios metafsicos , de tentativas de penetrao no desconhecido , de formao de uma nova mstica .
 Procurava-se destruir a mstica do cristianismo

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 para instalar em seu lugar uma sub-mstica , humana ou diablica .
 Improvisavam-se profetas , taumaturgos , adivinhos , cabalistas , quiromantes , astrlogos .
 Ressurgiu a seita dos " Iluminados , " de que Grard de Nerval nos traou a curiosa histria .
 O conde de Cagliostro era solicitado nos palcios dos nobres para produzir as sentenas relativas aos destinos dos homens .
 Homem inteligente , vivido , de maneiras finas e atraentes - - leiam o interessante retrato que dele fez Funck-Brentano no seu livro Affaire du Collier , isto para os que no tiverem tempo de ler a vasta obra de Alexandre Dumas - - o conde de Cagliostro exerceu grande influncia sobre o esprito de muita gente , e , de qualquer maneira , sobre o prprio destino da Frana .
 A onda mstica - - ou para-mstica - - invadia tudo .
 Fundavam-se clubs , rosacrucianos por toda parte .
 Exumavamse antigos tratados do Oriente que ensinavam a magia .
 A Franco-Maonaria ganhava rapidamente milhares de adeptos , atrados no s pelas possibilidades do poder poltico , como tambm pelo mistrio dos ritos secretos .
 Era um apelo colossal s foras irracionais .
 A sociedade dos nossos dias sob certos aspectos assemelha-se muito  dos fins do sculo XVIII em Frana .
  uma sociedade aparentemente negativista , atia mesmo , onde diariamente os cientistas os socilogos , os polticos , os jornalistas - - e et mesmo governos , como o da U.R.S.S. - - pregam abertamente e sem maiores cerimnias a morte de Deus e do sobrenatural .
 Pela primeira vez na histria surgem bandos e grupos tecnicamente aparelhados , como uma troupe de choque , para combaterem Deus .
 At h algum tempo atrs eram indivduos isolados , geralmente " filsofos " ou socilogos , ou ento pequenos grupos , que pregavam o atesmo .
 Mas agora so sociedades em peso , com capital , sede prpria e treinamento cientfico , organizados com uma disciplina e uma ttica especial , para racionalizarem o mundo .
 No duvidem que a fermentao mstica subconsciente dessa turma  colossal .
 S se combate o que existe .
 No fundo , esses rapazes , esses polticos , esses operrios acreditam ou , pelo menos , duvidam que Deus exista ; pressentem a sua fora e querem destru-la .
 Isto no  to moderno como pensam alguns ; est na pgina primeira do Gnesis .3

 Aquilo que Murilo Mendes , atravs da parania de um regime significante circular , v como retorno de uma Gnese diferida , se traduz , para Monnerot , numa profecia do presente .
 A vila de Adriano , no Mediterrneo , onde um sincretismo generalizado acotovelava msticas , ideologias e doutrinas , parece , a seus olhos , a prefigurao mais cabal do mundo contemporneo , do Imprio de que falam Negri e Hardt , que por sinal reencontraramos , mais tarde , no romance de Marguerite Yourcenar .
 Da mesma forma , Monnerot acredita que os surrealistas " se laisent aller  penser que la posie communique avec la rvolution , qu'au pote est permis ce que nul autre ne peut : la rvolution sauvera la posie que la societ capitaliste met en pril .
 .
. " ( 89 ) .
 Murilo Mendes coincidiria com Monnerot nesse particular .
 Em " A comunho dos santos , " por exemplo , ele afirma que :

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 todo o catlico deve ser automaticamente comunista - - e por isto mesmo , no precisa de apelar para o comunismo de Marx , Engels e Lenine , que tira do cristianismo os poucos elementos de verdade que contm , mas que se resolve numa sntese diametralmente oposta  verdade catlica , tornando irreconciliveis as duas doutrinas .
 No  em vo , argumenta , que a frase " Proletrios de todos os pases , univos " tenha sido , escrita por um cristo em 1833 , isto  , 14 anos antes da publicao do Manifesto Comunista de Marx e Engels .
 Foi , realmente , o Padre Lamennais quem escreveu essa frase no seu livro Paroles d'un croyant , onde se l tambm entre muitas outras coisas certas e outras erradas , que " em virtude desta ao e desta reao recproca do indivduo sobre a sociedade , da sociedade sobre o indivduo , cumpre-se o progresso ao mesmo tempo social e individual. " A frase famosa do Manifesto ainda  reflexo do conselho que foi dado para a eternidade , 1800 anos antes , por Aquele que mandou todos os homens - - e no s os operrios - - de todos os tempos e de todos os pases se unirem e se amarem uns aos outros ,

 porque sem essa pr-condio , para Murilo , " no pode haver verdadeira cultura - - essa cultura que vem do culto consciente ou inconsciente - - que os homens rendem a Deus pelos seus trabalhos. " 4 Ora , boa parte dessa inteno negativa encontra um elo de implantao atravs do erotismo .
 Afinal , tambm entre os gnsticos , o filo chamado licencioso , constitudo de carpcratas ou nicolatas , encontrava nas metforas erticas um incomparvel poder desestabilizador da imagem .
  justamente o que , muito mais tarde , se ver em Duchamp ou Bataille , e mesmo em Benjamin , como terico dessa desestabilizao proliferante .
  maneira dos gnsticos anti-bblicos ( cainitas , severianos , ofitas ) , que ora exaltam a serpente , Caim ou Esa , desprezando Moiss ou qualquer outro homem de confiana do demiurgo , os surrealistas sistematizaram a contracorrente do mundo patriarcal burgus , " fardant  l'occassion cette volont de ngation aux couleurs de la dialectique hgelienne " ( 94 ) .
 E enfatizando o sincretismo paralelo entre a poca alexandrina e a nossa , diz Monnerot que , assim como o gnstico mescla mitos babilnios , frgios , fencios e gregos aos relatos bblicos interpretados alegoricamente , da mesma forma , os surealistas invocam tanto Grard de Nerval quanto Marx , o marqus de Sade ou o amor corts , Robespierre e os videntes , o sonho e a psicanlise , a noite romntica e a filosofia das Luzes , em suma , Lnin e o romance policial ( 95 ) .
 Em poucas palavras , Monnerot censura essas hibridaes porque v nelas um intuito cannico e julga que " le Panthon est lieu de rconciliation , mais la vie , thatre d'antagonismes " ( 96 ) .
 Pela via contrria , outro escritor atrado pelo fenmeno , Borges , partira , pouco antes , dos mesmos materiais hbridos do gnosticismo ; porm , com intuito oposto ao de Monnerot , visando flexibilizar o cnone da autonomia potica :

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 La vertiginosa torre de cielos de la hereja basilidiana , la proliferacin de sus ngeles , la sombra planetaria de los demiurgos transtornan la tierra , la maquinacin de los crculos inferiores contra el pleroma , la densa poblacin , siquiera concebible o nominal , de esa vasta mitologa , miran tambin a la disminucin de este mundo .
 No nuestro mal sino nuestra central insignificancia , es predicada en ellas. [ .
 .
. ] En ese melodrama o folletn , la creacin de este mundo es un mero aparte .
 Admirable idea : el mundo imaginado como un proceso esencialmente ftil , como un reflejo lateral y perdido de viejos episodios celestes .
 La creacin como hecho casual .5

 Essa leitura de Borges encontra-se mais prxima das idias de Bataille do que as do prprio colega em sociologia sacra , Monnerot .
 Com efeito , num balano do movimento surrealista , redigido em 1948 para sua revista Critique , Bataille afirma que , at certo ponto , a palavra surrealismo  a prpria ausncia de palavra , da mesma forma em que argumenta ,  maneira de Blanchot , que a palavra silncio revela tambm o poder de a lngua negar afirmando , uma vez que uma negao perfeita da linguagem , um silncio absoluto ,  contraditrio com o prprio uso da palavra .

 Surrealismo - - em si mesmo , independentemente de seu sentido histrico - - realmente no quer dizer " linguagem que excede as palavras " mas " linguagem que excede as coisas " ( para alm do real , que segundo a etimologia e a lgica ,  a ordem das coisas ) .6

 Bataille usa uma expresso , ordem das coisas , que mais tarde ser empregada em ingls , the order of things , para designar a reflexo de Foucault sobre o vnculo entre as palavras e as coisas .
 O dado no  banal nem fortuito .
 O prprio Bataille era consciente do impasse j que dizia que as coisas , para serem , tm que , previamente , ser designadas com palavras , o que cria um regime paranoico infinito : no podemos viver sem essas coisas que so as palavras nem podemos viver sem essas palavras que so as coisas .
 O importante  poder encontrar um pensamento do exterior , um para-alm das palavras e as coisas .
 E essa questo , para Bataille , como mais tarde para Blanchot ou Foucault , remete  problemtica da escritura .
 Um homem que escreve , um escritor ,  um homem que no quer ser aquilo que  o homem para seu patro , o mesmo acontecendo com aquele que o l .
 Esta definio surrealista da literatura , raciocina Bataille , tem de fato a virtude de mostrar at que ponto a literatura , ou mesmo o surrealismo , so difceis de conceituar e isolar .
 A literatura parte de uma boa inteno , porm , cai na armadilha das palavras , que alteram , afinal , at mesmo a inteno do escritor .
 Ao passarem da paixo que as move  expresso escrita , as palavras mudam e o escritor , embora se encontre com essas palavras que julga submeter a sua paixo , na verdade , depara-se , porm , com umas palavras que , antes de mais nada , reduzem a paixo a um impulso dominado .
 Desse

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 modo , o escritor , pelo simples fato de que se afasta , ao mesmo tempo , da ao e do saber ,  algum silencioso .
 Porm , se ele , o escritor , ficar mudo , o mundo em que escreve , falar , mais cedo ou mais tarde , por ele , atravs dele , reduzindo-o  medida de seu linguajar , e subordinando-o  obra comum , da mesma forma em que o cio  imprescindvel para o negcio .
 At mesmo o escritor mais refratrio ao discurso - -  ordem das coisas e  linguagem servil que a exprime - - de maneira alguma pode se permitir o luxo de ignor-lo ; ele prprio  obrigado a se exprimir atravs do discurso , est moralmente obrigado a adotar uma posio intelectual , o que , via de regra , custa muito trabalho e  feito a contragosto .
 A conscincia de que teria de calar , diz Bataille , empurra o escritor a vaticinar .
 E a ordem estabelecida que se nos impe  a constante negao de tudo que  irredutvel e nobre : quem no se revolta no pode ser amigo do homem , mas seu inimigo .
 Porm , deveria ter evitado diz-lo e diz-lo j  reconhecer a ordem estabelecida .
 Portanto , conclui , a negao das coisas que  o surrealismo transformou-se em mais uma coisa , uma mercadoria .
 Na sociedade de reproduo infinita , o escritor junta palavras .
 A unio das palavras forma uma entidade , um ser duradouro , condenado mas tambm necessrio , a partir daquilo que no  ( no sentido em que Sartre diz " o instante no existe " ) : e , com efeito , o instante no pode ser duradouro , ele  to somente a simples vergonha da linguagem que as palavras desvendam .
 Seria preciso , para poder falar , que previamente se designe o que  o instante .
 Mas isso  to impossvel quanto , ao mesmo tempo , inexorvel .
 Porisso , os surrealistas tiveram que sacrificar-se e redigir esses textos programticos e manifestrios que apelam , com tanta fora , ao silncio , um silncio que , mesmo assim , deveriam ter guardado .
 Mas isso , admite Bataille ,  algo que no se podia evitar .
 Esclarece , contudo , que , de forma alguma , se deveria interpretar essa sua opinio como uma restrio mas , ao contrrio , como uma apologia do surrealismo .
 Os surrealistas no podiam deixar de dizer o que disseram .
 No entanto , torna-se imperioso , a seu ver , recontextualizar a necessidade desses discursos quela altura das circunstncias .
 Como faz-lo naquele instante , em pleno aps-guerra , quando Adorno se perguntava se a poesia ainda era vivel depois do Holocausto ?
 A palavra Deus , responde Bataille ,  uma forma de entrar num silncio sagrado , conservando na linguagem um direito de definio e de legislao soberanas .
 Ele no diz deus , palavra que designa , segundo os Padres da Igreja , uma entidade diablica , o que seria recair no dualismo e num pensamento da transgresso .
 Ele refere-se a Deus como forma de postular a ) a literatura  silncio ; b ) esse silncio , entretanto , fala : enuncia a irredutibilidade entre discurso e fala ; c ) o hiato entre essas duas instncias , esse divrcio entre ambas as margens da experincia ,  ocupado por um pensamento do excesso , prximo no da transparncia racional , porm , da inviabilidade psictica , sagrada ou sacer ; d ) a literatura

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 que recorre a essa experincia marginal para questionar os limites da representao experimenta a potncia da crtica ao poder e , por ltimo , e ) essa literatura , essa poesia , enfim ,  uma forma de soberania .
 Borges , atravs da alegoria gnstica , chega a concluso parecida .
 Diria at que a nfase , no caso borgiano , est justamente na crtica ao poder que subjaz ao hiato que separa as palavras e as coisas .
 A vindicao do falso Baslides conclui numa utopia de geopoltica anrquica , argumentando que :

 Durante los primeros siglos de nuestra era , los gnsticos disputaban con los cristianos. Fueron aniquilados , pero nos podemos representar su victoria posible .
 De haber triunfado Alejandra y no Roma , las estrambticas y turbias historias que he reunido aqui seran coherentes , majestuosas y cotidianas .
 Sentencias como la de Novalis , La vida es una enfermedad del espritu , o la desesperada de Rimbaud : La verdadera vida est ausente , no estamos en el mundo , fulminaran en los libros cannicos .7

 Borges no est s nessa utopia contra-cannica uma vez que essa perspectiva , entretanto ,  a mesma que adotam Oswald de Andrade e Murilo Mendes .
 Tomemos o caso de Oswald .
 Na conferncia realizada no II Salo de Maio ( 1938 ) , organizado por Flvio de Carvalho , Oswald argumenta que :

 No foi  toa que a Renascena escolheu os seus temas no Cristianismo .
 Se quisermos abarcar longamente o fenmeno da exaltao do indivduo [ no nos esqueamos , en passant , que Braudel j est lecionando na USP ] , que teve como cadinho as catacumbas crists , pode-se dizer que de Prometeu a Cristo , deste a Leonardo da Vinci e deste a uma figura da decadncia crist muito conhecida entre ns , o sr. Flvio de Carvalho , h uma filiao desconcertante .
 O primeiro cristo teria sido Prometeu , crucificado no Cucaso porque brandira contra um conluio de deuses passadistas a flama dos direitos individuais .
 O centro dessa linha , mais do que o mito pedaggico de Cristo , foi o romano So Paulo .
 Ningum melhor do que este convertido fixou como base do Cristianismo as reivindicaes da pessoa humana que deram depois por transbordamento a ferocidade das Cruzadas , a ordem militar dos jesutas , e revoluo francesa e a alta parania de Frederico Nietzsche [ .
 .
. ] .
 Enquanto Nietzsche , timo cristo , insula as virgens de SilsMaria , o pintor isolado mais se aprofunda no subterrneo autista .
 O cristo volta s catacumbas .
 E sobre os muros da sensibilidade moderna desenha os smbolos angustiados a carantonha de sua demonologia interior .
  o surrealismo , o expressionismo .8

 J Murilo , o poeta-discpulo de Emas , em textos como " Breton , Rimbaud , Baudelaire " ( 1937 ) e , mais tarde , em " Interpretaes " ( 1944 ) , escreve que :

 Quando [ Rimbaud ] diz que " l'existence est ailleurs , " e que " nous ne sommes pas au monde , " transcreve - - talvez inconscientemente - - palavras de despedida de Cristo aos apstolos , no Evangelho de So Joo - - palavras que Breton ,

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 naturalmente desconhece .
 .
 .
 .
 " J'ai reu au coeur le coup de la grce !
 " E a sentena famosa - - " changer la vie " - -  a mesma que So Paulo aplica ao cristo , que deve deixar a roupagem do homem velho - - o homem formalista , o fariseu , o rotineiro - - para se revestir do homem novo , que enxerga todas as coisas  luz de Cristo , e ajuda  transfigurao do mundo .
 E a confisso definitiva , que s um esprito cristo poderia fazer , a de que a soluo de seu problema estava na caridade : " La charit est cette clef , " diz textualmente .
 No a pretenciosa e artificial caridade filantrpico-burguesa , caridade burocratizada , mas a caridade pela qual o homem participa da divindade - - o amor universal , sem fronteiras e restries , esse amor vivo que impulsiona o homem a se despojar de seu egosmo e a transfundir-se nos outros .9

 Esta definio muriliana da literatura como transfuso no Outro reata a idia de Borges de que , tendo triunfado Alexandria e no Roma , as estrambticas narrativas gnsticas seriam valores coerentes , majestosos e cotidianos , fulminando , ainda , os livros cannicos .
 Uma particular consequncia dessas convices que , diga-se de passagem , so to poticas quanto polticas , aparece no empreendimento de Roger Caillois , fundador com Bataille e Leiris da sociologia sagrada .
 Quando , com efeito , ele prepara , em 1958 , para Gallimard a antologia Trsor de la posie universelle , no so poucos os exemplos que Caillois retira da Antologia negra de Blaise Cendrars , de Mscaras dogons , o livro de Michel Griaule , fruto da expedio a Dakar acima mencionada , das Lendas , crenas e talisms dos ndios da Amaznia de P. - L. Duchartre , do Folclore chileno reunido por Jacques Soustelle ou peas araucanas colhidas por Alfred Mtraux , a inclundo cantos sudaneses  circunciso , tirados da revista Minotaure , vinculada ao Colgio de Sociologia sagrada , e at mesmo um trabalho de Franz Boas sobre as sociedades secretas dos ndios kwakiutl .
 Porm , talvez o caso mais exemplar , que me permito citar aqui por ilustrar uma apropriao que confisca o valor sagrado da obra de arte para propor um valor de uso no muito diferente dos ready-mades de Apollinaire , seja o poema que abre a antologia de Caillois , uma " Invocao  chuva , " coletada na Austrlia por Sir Baldwin Spencer :

 Dad a da da Dad a da da Dad a da da Da kata kai Ded o ded o Ded o ded o Ded o ded o Da kata kai .10

 Portanto , tudo isto nos leva a reavaliar o valor do elemento religioso na potica de Murilo Mendes .
 De fato , a posio de Murilo , longe de se confundir ,

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 ingenuamente , com a carolice conservadora , pratica uma heterognese da mesma estirpe que lemos em O erotismo de Bataille , obra alis rigorosamente contempornea da antologia de Caillois .
 Em " Religio , " um dos fragmentos de A idade do serrote , o poeta , por exemplo , denuncia que os padres " escamoteiam-nos tambm a relao profunda entre erotismo e erosmo [ sic ] ; o sexo , por enigmtico , proibido , no explicado , torna-se o grande negcio dos meninos ; refugiamo-nos ahim !
 nos obscuros ritos da masturbao e da furtiva bolinagem , manifestando segundo Mallarm , Les anciens dsaccords / avec le corps. " 11 A subjetividade , puro corpo ou animalidade , encontra seu atraso originrio na falha ou hiato que o tensiona , paronomasicamente , com o ser .
 Os dsaccords do corps funcionam como os retards do regard duchampiano : diferimento dos textos atravs do tempo , diferena do tempo resgatvel to somente atravs dos textos .
 Mas vejamos , ento , rapidamente , o que diz Bataille a respeito dessa relao entre erotismo e religio porque o exame dessas questes trar nova luz  problemtica da diviso do eu e ao trabalho de diferimento de sentido .
 Como sabemos , e o mesmo Bataille encarrega-se de o relembrar , no cristianismo , o esprito religioso manteve o fundamental da atitude de transgresso , o movimento de continuidade que nos  transmitido pela experincia do sagrado .
 O divino  a prpria essncia da continuidade e a resoluo crist foi manter a continuidade forcluindo os caminhos que uma tradio minuciosa normatizara sem sempre manter o valor originrio .
 A saudade ou desejo pde assim ter sofrido certo sacrifcio , porm , gerou tambm um duplo movimento .
 Nos seus fundamentos , o cristianismo quis se abrir s possibilidades de um amor que era , simultneamente , princpio e fim .
 A continuidade perdida , ora reencontrada em Deus , invocaria , para alm das violncias transgressivas dos ritos , o amor irrestrito dos fiis .
 Assim transfigurados pela continuidade divina , os homens passavam a ser chamados  unidade em Deus , a se amarem uns aos outros .
  esse o sentido do catolicismo muriliano , o da construo de um novo universal ps-kantiano , que fica claro quando afirma , por exemplo que " todos os homens , todas as culturas tendem , consciente ou inconscientemente , para a catolicidade , que no  outra coisa seno a recapitulao de tudo em Cristo , o Esprito Universal por excelncia. " 12 Veja-se ento que o movimento inicial de transgresso ora deriva , portanto , numa ultrapassagem da violncia , o que conota o fascnio de um sublime contra-sublime .
 Em contrapartida , diramos , o mundo sagrado da continuidade passou a ser visto  imagem e semelhana do mundo imanente e descontnuo e isso acarretou um paradoxo peculiar .
 A vontade de dar apoio  continuidade teve , como consequncia , um Deus hiper-construdo , puro artifcio

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 potencializado , que , a rigor , no  seno uma forma deletrea do sentimento de continuidade e permanncia .
 A continuidade verifica-se na ultrapassagem dos limites , no entanto , o efeito mais evidente dessa transgresso  a organizao daquilo que originalmente  desordem .
 Bataille define ento a transgresso como o princpio de uma desordem organizada , na medida em que introduz , no mundo organizado , algo que o ultrapassa , o carter organizado a que tiveram acesso aqueles que a praticam ; mas  bom notar que essa organizao , fundada no trabalho , descansa , por sua vez , na descontinuidade .
 O mundo capitalista e o mundo da descontinuidade so , portanto , o mesmo mundo e se os utenslios , as tcnicas do trabalho , no so seno coisas descontnuas , o trabalhador deve ser visto como um ser descontnuo , sendo que a conscincia dessa descontinuidade aprofunda-se conforme ele usa e cria mais e mais objetos descontnuos .
  , portanto , em relao ao mundo descontnuo do trabalho que a morte se impe .
 Para quem aposta na continuidade da produo , a morte  a calamidade que evidencia a inanidade do ser descontnuo .
 A primeira reao diante disso  reencontrar a continuidade perdida ; a segunda consiste em atribuir imortalidade s prprias coisas descontnuas .
 Ambas as reaes harmonizam-se no cristianismo .
 Eleitos e condenados , diz Bataille , anjos e demnios transformaram-se em fragmentos , divididos para sempre e para sempre distantes uns dos outros , arbitrariamente desligados da totalidade do ser  qual , entretanto , era indispensvel religar e tornar a vincular .
 Nessa totalidade atomizada , dissipava-se , enfim , a parte que vai do isolamento  fuso , do descontnuo ao contnuo .
 Em vez da ruptura , o cristianismo prope a conciliao no amor e na submisso .
 Destaca assim o valor do sacrifcio .
 Porm , como o sacrifcio cristo no depende , a rigor , da vontade dos fiis , mas de suas faltas e pecados , decorre da uma quebra na unidade do sagrado .
 Lembremos que , no paganismo , a transgresso fundava o sagrado , cujos aspectos impuros eram to sacros quanto os puros ; mas , a partir do cristianismo , a impureza  rejeitada .
 A observao , oriunda , na verdade , de O homem e o sagrado de Caillois , foi incorporada por Bataille em O erotismo e seus escritos sobre a soberania , 13 e vai reaparecer , contemporaneamente , nas anlises do homo sacer de Agamben .
 Recentemente , Slavoj Zizek retomava o conceito de esfera que , em outra ocasio j vinculei  prpria aventura colonial portuguesa , 14 conceito esse tambm proposto por Peter Sloterdijk , para descrever o desafio da sociedade norte-americana nos dias de hoje .
 Com efeito , a peculiaridade da condio ps-moderna consistiria numa auto-redoma da qual toda impureza foi expurgada .
 O ataque s torres descontnuas - - no s porque dplices mas tambm porque cosmopolitas - - coloca assim o desafio : ora se refora a imanncia autosuficiente da esfera incontaminante , ora se redefinem os espaos do puro e do impuro , i.e do homem e do sagrado .

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 Trata-se de um dilema semelhante ao que enfrentaram os pases subdesenvolvidos ( e a Frana do sculo XVIII era , por exemplo , um deles ) para atingir um grau satisfatrio de civilizao : ora emular os pases dominantes , esquecendo-se da prpria tradio , ora afirmar a continuidade desses valores culturais ao preo do atraso econmico .
 Alis , a literatura russa do sculo XIX ilustra fartamente esse debate entre ocidentalizao e populismo eslavfilo .
 Lembremos , a esse respeito , do retrato-relmpago que Murilo traa de Tolstoi , uma maneira de propor a sintonia entre os dilemas das modernidades perifricas descontnuas :

 Iasnaa-Poliana O prncipe defroqu .
 O sapateiro descalo .
 O girvago asceta .
 A Rssia uuuuuivando. Oscilante Bizncio .
 A ordlia .
 O diadema .
 O diaduro do povo .
 A estepe analfabeta .
 Os espaos sem linde .
 O trono analfabeto .
 O espao da guilhotina .
 O horizonte cifrado .
 Todas as Rssias hipnotizadas pela iluminncia das cpulas douradas , sinos repicando um luxo antecedente .
 Os quatro falsos Demtrios .
 A revoluo mamando .
 O anarquista trancado .
 A infncia de Lenine : o carrasco tangente .
 O Couraado Potemkin afunda o rei e a lei .
 A guerra desova o apocalipse russo .
 1910 .
 O cometa de Halley .
 A paz .
 No a paz total ; a paz tolstoiana .
 As janelas de Astpovo emigram para Moscou , o mundo inteiro aberto .
 The rest is silence .
 .
 .
 .15

 Como caracterizar , portanto , a delicada posio de Murilo Mendes a respeito da questo religiosa , que  uma forma de , ao mesmo tempo , definir sua teoria da modernidade ou , ainda , a posio que reserva para si num nacionalismo fundamentalmente internacionalista ?
 Creio que , acima de tudo ,  necessrio enfatizar o carter paradoxal e complexo de sua escolha , em tudo singular quando comparada ao modernismo liberal-autoritrio de seus colegas de Minas e So Paulo .
 Murilo Mendes pressupe a descontinuidade dos dados empricos e seu confronto imparcial com a teoria , seja ela qual for .
 Com o cristianismo escriturrio , compartilha a crena na existncia de uma verdade singular , nica , e s tardiamente poderamos falar de uma sensibilidade pluralista  indeterminao dos sistemas significantes .16 Porm , rechaa , simultaneamente , a noo de que esse carter unitrio da verdade derive de uma fonte hierarquizada , privilegiada ou mesmo definitiva .
 Com o relativismo hermentico , pelo contrrio , sintoniza na idia de que possa haver uma verdade substantiva , material , final e definitiva .
 Mas afastase dele quando  obrigado a tomar cada uma das verses como igualmente

 Antelo

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 vlidas j que Murilo sempre absolutiza um procedimento ou disposio tica mas nunca uma moral previamente consolidada .17 Nesse paradoxo , reinscreve-se a lgica , no menos paradoxal , do elemento sacer no mundo contemporneo .
 Afinal ,  o lixo , ou em outras palavras , a vida do homem sacer , o elemento que , recentemente , marcou nosso traumtico acesso , como luxo ou desbordamento da religio sem dogma , ao inferno do futuro .

 Notas

 1 .
 Esta reflexo foi inicialmente apresentada no colquio " Passagens e impasses do potico " ( Universidade Federal de Santa Catarina , nov .
 2001 ) .
 2 .
 Jules Monnerot , La posie moderne et le sacr ( Paris : Gallimard , 1949 ) 73 .
 Todas as citaes a seguir remetem a esta edio .
 3 .
 Murilo Mendes , " Tipos da vida cotidiana , " Vamos ler !
 2 [ Rio de Janeiro ] ( 13 ago .
 1936 ) : 51 .
 4 .
 Murilo Mendes , " A comunho dos santos , " Dom Casmurro 1.19 [ Rio de Janeiro ] ( 16 set .
 1937 ) : 2 .
 5 .
 Jorge Luis Borges , " Vindicacin del falso Baslides , " [ 1931 , de Discusin , 1932 ] Obras completas ( Buenos Aires : Emec , 1974 ) 215 .
 6 .
 Georges Bataille , " Le surralisme et Dieu , " Oeuvres compltes vol. XI ( Paris : Gallimard , 1971 ) .
 7 .
 Borges 216 .
 8 .
 Oswald de Andrade , " Elogio da pintora feliz , " Dom Casmurro 2.66 [ Rio de Janeiro ] ( 3 set .
 1938 ) .
 Maria Eugnia Boaventura repe a grafia correta , pintura , quando a transcreve em Esttica e poltica ( So Paulo : Globo , 1991 ) 146  153 .
 9 .
 Murilo Mendes , " Breton , Rimbaud , Baudelaire , " Dom Casmurro 1.16 [ Rio de Janeiro ] ( 26 ago 1937 ) : 2 .
 Mais tarde reproduzido com o ttulo " Interpretaes , " em Letras brasileiras 18 [ Rio de Janeiro ] ( out 1944 ) : 10  12 .
 10 .
 Roger Caillois et Jean-Clarence Lambert , Trsor de la posie universelle ( Paris : Gallimard , 1958 ) 25 .
 11 .
 Murilo Mendes , " Religio , " Poesia completa e prosa , ed. Luciana S. Picchio ( Rio de Janeiro : Aguilar , 1994 ) 917 .
 12 .
 Murilo Mendes , " Poesia universal , " Boletim de Ariel 7.8 [ Rio de Janeiro ] ( ago .
 1938 ) : 220 .
 13 .
 Georges Bataille , O erotismo , trad. J. B. da Costa. ( Lisboa : Moraes , 1968 ) , especialmente o captulo XI , " O cristianismo. " No nos esqueamos que a obra , suscitada por Mtraux ,  dedicada a Leiris .
 14 .
 Em " O infraleve e a pedagogia das frices , " comunicao apresentada ao Congresso da Associao Brasileira de Literatura Comparada ( Salvador , 2000 ) , partindo das idias de Sloterdijk , notadamente em seu ensaio sobre a hora do crime e o tempo da obra de arte , chamei a ateno para o carter monstruoso das intervenes

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 espaciais do homem , argumentando que a caracterstica dos tempos modernos no  bem o descobrimento de espaos virgens mas a abertura de mais vastas possibilidades a novas rotinas operativas .
 Nesse sentido , em 1500 , os hbitos nuticos ibricos criaram , sob a forma de produtos secundrios materiais , ambas as Amricas e o principal efeito dessa revoluo nas artes prticas se manifestou nos globos .
 Os dois mais antigos , o globo do comerciante Martin Behaim de Nuremberg e o globo de Laon , na Frana , ainda mostram os contornos ntidos , contnuos , do mundo pr-colombiano , porm , j estimulam incurses ao novo continente .
 Behaim trouxe a Nuremberg as novidades nuticas de Lisboa e seu globo , primeiro simulacro cartogrfico , pode ser lido como o significante profano de um mundo tornado ao alcance da mo ,  maneira do Tratado da Sphera do Mundo de Joo de Sacrobosco ( Lisboa , 1500 ) .
 Mais do que smbolo metafsico , o globo em questo mostrava um novo meio de circulao incorporado ao patrimnio cultural de maneira rigorosamente normal , quando no banal , banalizao , alis , que chegaria mais tarde , com a sacralizao cinematogrfica durante o nazismo , no filme de Veit Harlan , Das Unsterbliche Herz ( 1939 ) .
 Em " Bemvindos ao deserto do real " ( 14 set .
 2001 , em www.nettime.org ) , Zizek relembra o filme de Peter Weir , The Truman Show ( 1998 ) , e ainda o antecedente de Philip Dick , Time Out of Joint ( 1959 ) , em que " a hero living a modest daily life in a small idyllic Californian city of the late 50s , gradually discovers that the whole town is a fake staged to keep him satisfied. " Diferentemente , pois , das cartografias borgeano-deleuzianas , que no se confundem com o territrio , estes globos revelam , entretanto , que todo ponto de sua superficie pode ser descrito em funo do postulado de disponibilidade homognea , inaugurando assim a era da globalizao como interveno monstruosa no espao .
 15 .
 Murilo Mendes , Poesia completa e prosa 1210 .
 16 .
 Murilo argumenta que , contra o que preza a encclica de Bento XV , Spiritus Paraclitus , " onde o Papa insiste sobre o valor da palavra de S. Jernimo : ` Ignorar as Escrituras ,  ignorar o prprio Cristo ' ; o catolico d de ombros , achando que a Bblia  ` muito complicada .
 .
. ' e mergulha a cabea no venerado jornal conservador , bssola infalvel de suas opinies. " Cf .
 " Perfil do catolico , " Dom Casmurro 1.8 [ Rio de Janeiro ] ( 1 jul .
 1937 ) .
 17 .
 Cf .
 Ernest Gellner , Posmodernismo , razn y religin , trad. Ramn S. Maluquer ( Barcelona : Paids , 1994 ) 105 .

